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Poemas neste tema

Velhice e Envelhecimento

Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

Um café com a Medusa

Ou será então que você acredita, teria ela, escreve Beyle, ainda acrescentado, que Petrarca foi infeliz só porque nunca pôde tomar um café? 

W. G. Sebald, Vertigem 



Tudo o que com os olhos toco
ela diz 
transformo em pedra 

mas tudo é já 
desde sempre pedra 
pó futuro 

seus pais eram filhos do mar e da terra 
cetáceos de um mundo arcaico 
informe ainda 
mas ela é mortal 
destinada, como nós, ao pó 

Ovídio diz ter sido justo e merecido 
o castigo que lhe impingiu Atenas 
transformando seus cabelos em serpentes 
porque ela se deitara com Poseidon 

são desde sempre as mulheres, ela diz, 
condenadas pelo que fazem no leito 

desde sempre amputadas 
de suas terríveis cabeças 

mas hoje estamos velhas
ela e eu 
cansadas de refletir o tempo 
como um escudo 

só queremos tomar nosso café 

cada serpente que lhe adorna a cabeça 
fala em uma língua 
e a traduz 

mas na realidade 
falamos pouco 
enquanto olhamos o porto 
e ela ajeita as asas 
na cadeira 

cúmplices 
ela e eu 
(embora eu evite 
confesso 
olhá-la nos olhos) 
tomamos nosso café quase 
em silêncio 

ela diz que agora sonha apenas com o mar 
que seus cabelos são algas e não serpentes 
e que dançam lentamente no fundo de um oceano 
cheio de monstros, como são os oceanos, 
lagostas enormes e águas-vivas 
e outras incongruências marinhas 
corais e conchas que são 
como estojos 
e baleias que vivem até duzentos anos 
o que para ela é nada, alguns segundos 
como de fato é 

e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda 
e sempre o sexo 

é talvez o que há no desejo de mais cruel 
quando nele há tanto de cruel: 
que ele dure, continue 
e às vezes seja só desejo 
do desejo 
e seja móvel e mesmo 
como o mar 

aos que não têm mais pátria 
seja porque se exilaram 
seja porque o país se exilou de nós 
e toma a forma dos nossos pesadelos 
seja porque na realidade não há países 
mas extensões variáveis de terra 
que as nuvens sem passaporte 
atravessam 
resta só a memória do mar 
ela diz 
batendo inutilmente 

o mar e o café 
ela diz 
e, a cada qual, 
suas serpentes
1 891 1
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Versos À Boca da Noite

Sinto que o tempo sobre mim abate
sua mão pesada. Rugas, dentes, calva. . .
Uma aceitação maior de tudo,
e o medo de novas descobertas.

Escreverei sonetos de madureza?
Darei aos outros a ilusão de calma?
Serei sempre louco? sempre mentiroso?
Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo?

Há muito suspeitei o velho em mim.
Ainda criança, já me atormentava.
Hoje estou só. Nenhum menino salta
de minha vida, para restaurá-la.

Mas se eu pudesse recomeçar o dia!
Usar de novo minha adoração,
meu grito, minha fome. . . Vejo tudo
impossível e nítido, no espaço.

Lá onde não chegou minha ironia,
entre ídolos de rosto carregado,
ficaste, explicação de minha vida,
como os objetos perdidos na rua.

As experiências se multiplicaram:
viagens, furtos, altas solidões,
o desespero, agora cristal frio,
a melancolia, amada e repelida,

como essa indecisão entre dois mares,
entre duas mulheres, duas roupas.
Toda essa mão para fazer um gesto
que de tão frágil nunca se modela.

e fica inerte, zona de desejo
selada por arbustos agressivos.
(Um homem se contempla sem amor,
se despe sem qualquer curiosidade.)

Mas vêm o tempo e a idéia de passado
visitar-te na curva de um jardim.
Vem a recordação, e te penetra
dentro de um cinema, subitamente.

E as memórias escorrem do pescoço,
do paletó, da guerra, do arco-íris;
enroscam-se no sono e te perseguem,
à busca de pupila que as reflita.

E depois das memórias vem o tempo
trazer novo sortimento de memórias,
até que, fatigado, te recuses
e já não saibas se a vida é ou foi.

Esta casa, que miras de passagem,
estará no Acre? na Argentina? em ti?
que palavra escutaste, aonde, quando?
seria indiferente ou solidária?

Um pedaço de ti rompe a neblina,
voa talvez para a Bahia e deixa
outros pedaços, dissolvidos no atlas,
em País-do-riso e em tua ama preta.

Que confusão de coisas ao crepúsculo!
Que riqueza! sem préstimo, é verdade.
Bom seria captá-las e compô-las
num todo sábio, posto que sensível:

Uma ordem, uma luz, uma alegria
baixando sobre o peito despojado.
E já não era o furor dos vinte anos
nem a renúncia às coisas que elegeu,

mas a penetração no lenho dócil,
um mergulho em piscina, sem esforço,
um achado sem dor, uma fusão,
tal uma inteligência do universo

comprada em sal, em rugas e cabelo.
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Ruy Belo

Ruy Belo

Relatório e contas

Setembro é o teu mês, homem da tarde
anunciada em folhas como uma ameaça
Ninguém morreu ainda e tudo treme já
Ventos e chuvas rondam pelos côncavos dos céus
e brilhas como quem no próprio brilho se consome
Tens retiradas hábeis, sabes como
a maçã se arredonda e se rebola à volta do que a rói
Há uvas há o trigo e o búzio da azeitona asperge em leque o som inabalável
nos leves ondulados e restritos renques das mais longínquas oliveiras conhecidas
Poisas sólidos pés sobre tantas traições e no entanto foste jovem
e tinhas quem sinceramente acreditasse em ti
A consciência mói-te mais que uma doença
reúnes em redor da casa equilibrada restos de rebanhos
e voltas entre estevas pelos múltiplos caminhos
Há fumos névoas noites coisas que se elevam e dispersam
regressas como quem dependurado cai da sua podridão de pomo
Reconheces o teu terrível nome as rugas do teu riso
começam já então a retalhar-te a cara
Despedias poentes por diversos pontos realmente
És aquele que no maior número possível de palavras nada disse
Comprazes-te contigo quando o próprio sol
desce sobre o teu pátio e passa tantas mãos na pele dos rostos que tiveste
Repara: não esbarras já contra a cor amarela?
Setembro na verdade é mês para voltar
Podes tentar ainda alguns expedientes respeitáveis
multiplicar diversas diligências nos ameaçados cumes dos outeiros
ser e não ser fugir do rótulo aceitar e esquivar o nome fixo
E no entanto é inevitável: a temperatura descerá mais dia menos dia
Calas-te então cumprido como um rosto e puxas toda a tarde
sobre esse corpo que se estende e jaz
Andaste de lugar para lugar e deste o dito por não dito
mas todos toda a vida teus credores saberão onde encontrar-te
pois passarás a estar nalguma parte
Tens domicílio ali que a terra sobe levemente
e toda a tua boca ambiciosa sabe e sente quanto barro encerra


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 116 e 117 | Editorial Presença Lda., 1984
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Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini

Versos do testamento

A solidão: é preciso ser muito forte
para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
assaltantes ou assassinos; há que caminhar
por toda a tarde ou talvez por toda a noite
é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
sobretudo no inverno, com o vento que sopra na grama molhada
e grandes pedras em meio à sujeira úmida e lamacenta;
não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
exceto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que exala sêmen e se vai,
mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente ou a prepotência turva
de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
enormemente jovem; e nisso é desumano,
porque não deixa rastros, ou melhor, deixa um único rastro
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um jovem em seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
o ato está cumprido, sua repetição é um rito; pois
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
espera sua vez; cresce de fato o número dos desaparecimentos ―
ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.
2 192 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O ateísmo

O ateísmo
É (facto estranho) um acompanhamento
Das moribundas civilizações.
Mas por quê? A loucura por que é
Mais sã que a falta dela? Deve ser
Aqui porque a um austero e forte povo
É crença parte dessa austeridade.
Os ligeiros descrêem por ligeiros...
Mais nada. Não confundo eu a descrença
Dos grandes pensadores agónica,
Co'a a descrença adiposa do corrupto
Vulgar, vazia mais que tudo. Sim,
Mas por quê — qual a íntima razão
Que a crença e o sonho sejam necessários
E tudo o mais funesto? Outro mistério,
O mistério moral de lei moral
Que me tolhe o caminho. Aonde via
Claro, reconhecendo-me por cego
Já hesito, duvido e me embaraço.
Horror! eterno horror! horror, horror!
                 (senta-se)
O ser e o ser: é claro. Mas Ser... Ser...
Vazio termo prenhe d'absolutos
Mas ele mesmo... o ser é o ser..
Transcendendo absoluto e relativo.
O Ser é o Ser; é a única verdade
Epigramática no seu vazio.
Logo que pensamento daqui saia
Por impossíveis raciocínios, ou
Por intuições ocas e vãs, delira.

Ironia suprema do saber:
Só conhecer isso que não entende,
Só entender o que entender não pode!

Isto são termos: seu horror é vago.
Mas que liga espaço, tempo, que liga seres,
Que liga um mundo, (...) cores, sons,
Movimentos, mudanças (...)
Que liga qualquer cousa, sim que a liga?
Isto, considerado intimamente,
Afoga-me de horror. E eu cambaleio
Pelas vias escuras da loucura,
Olhos vagos de susto pelo facto
De haver realidade, e de haver ser.
Estrelas distantes, flores, campos — tudo
Desde o maior ao mínimo, do grande
Ao vulgar, quando eu, aqui sentado,
Fixamente o contemplo até que chegue
À consciência sobrenatural
Daquilo como SER, desse existir
Como existência, tremo e de repente,
Uma sombra da noite pavorosa
Invade-me o gelado pensamento,
E eu, parece-me que um desmaio envolve
O que em mim é mais meu, que vou caindo
Num precipício cujo horror não sei,
Nem a mim mesmo logro figurar,
Que só calculo quando nele estou.

Formas da natureza variadas,
Vossa beleza cedo vos senti.
Infante eu era ainda e vinha olhar
Do monte que deitava para o mar
O sol morrer até que o frio cinzento
Da noite a face (...) compungia.
Não sei, não bem me lembro, ainda que tenha
Vagas ideias daquela existência,
Do que senti então. Era talvez
O começo da onda do soluço
Que depois dentro em mim murmuraria.

                                        E hoje,
Não chegados ainda os cinco lustros,
Cansado já e velho. O pensamento
Gasto como a uma folha do punhal
Que seja esmero do possuidor
Ter sempre mui aguda e que, amolando,
Gasta, assim mesmo gasta o pensamento
O sentir. Velho estou. E se não fosse
O meu desesperado horror à morte,
Já buscado a teria. Em tudo vejo
Sombras e medos. Fico mudo, pois,
Mas no horror de saber que me não poupam
Imóvel esteja eu, os (...) todos
Dos inevitáveis.

Lágrimas, vinde — Ah Deus que quase choro
Por não poder chorar-vos.

Acusa a luz, acusa a escuridão
(Disse em dia terrível ao meu cérebro)
Que até o forte sol fez esquecer.
Acendamos a luz. Ah solidão!
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Antônio Maria

Antônio Maria

Uma velhinha

Quem me dera um pouco de poesia, esta manhã, de simplicidade, ao menos para descrever a velhinha do Westfália! É uma velhinha dos seus setenta anos, que chega todos os dias ao Westfália (dez e meia, onze horas), e tudo daquele momento em diante começa a girar em torno dela. Tudo é para ela. Quem nunca antes a viu, chama o garçom e pergunta quem ela é. Saberá, então, que se trata de uma velhinha "de muito valor", professora de inglês, francês e alemão, mas "uma grande criadora de casos".

Não é preciso perguntar de que espécie de casos, porque, um minuto depois, já a velhinha abre sua mala de James Bond, de onde retira, para começar, um copo de prata, em seguida, um guardanapo, com o qual começa a limpar o copo de prata, meticulosamente, por dentro e por fora. Volta à mala e sai lá de dentro com uma faca, um garfo e uma colher, também de prata. Por último o prato, a única peça que não é de prata. Enquanto asseia as "armas" com que vai comer, chama o garçom e manda que leve os talheres e a louça da casa. Um gesto soberbo de repulsa.

O garçom (brasileiro) tenta dizer alguma coisa amável, mas ela repele, por considerar (tinha razão) a pronúncia defeituosa. E diz, em francês, que é uma pena aquele homem tentar dizer todo dia a mesma coisa e nunca acertar. Olha-nos e sorri, absolutamente certa de que seu espetáculo está agradando. Pede um filet e recomenda que seja mais bem do que malpassado. Recomenda pressa, enquanto bebe dois copos de água mineral. Vem o filet e ela, num resmungo, manda voltar, porque está cru. Vai o filet, volta o filet e ela o devolve mais uma vez alegando que está assado de mais. Vem um novo filet e ela resolve aceitar, mas, antes, faz com os ombros um protesto de resignação.

Pela descrição, vocês irão supor que essa velhinha é insuportável. Uma chata. Mas não. É um encanto. Podia ser avó da Grace Kelly. Uma mulher que luta o tempo inteiro pelos seus gostos. Não negocia sua comodidade, seu conforto. Não confia nas louças e nos talheres daquele restaurante de aparência limpíssima. Paciência, traz de sua casa, lavados por ela, a louça, os talheres e o copo de prata. Um dia o garçom lhe dirá um palavrão? Não acredito. A velhinha tão bela e frágil por fora, magrinha como ela é, se a gente abrir, vai ver tem um homem dentro. Um homem solitário, que sabe o que quer e não cede "isso" de sua magnífica solidão.

16/10/1964

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Ilka Brunhilde Laurito

Ilka Brunhilde Laurito

Autobiografia de Mãos Dadas

"Qual uma criança desmamada sobre o seio de
sua mãe, qual uma criança desmamada está a
minha alma para comigo" — Salmo 131

Madreminha, dócil madreminha,
dá-me tuas mãos
agora és tão menina.
Cada ano que passa vais diminuindo
e eu vou ficando cada vez maior na tua saudade.
Vem comigo. É a minha hora de guiar-te.
Tu esqueceste o caminho quando em mim passaste.
Eu passo agora elucidando o olvido.

Madre, a vida é simples chão difícil.
Estamos num árduo labirinto
de uma saída livre e múltiplas esquinas.
Mas já não há perigo.
Eu te dirijo
com minha bússola instruída
imantada nas estrelas que jorraram das feridas
quando o céu da infância desabou de mim.

Mãe: cresci.
Tu, sim, ficaste sempre ingênua, arisca, intuitiva.
Madremenina. Madrefilha.
Não me ensinaste a ler porque não lias.
Mas na cartilha em que aprendeste a rir
soletraste em minha origem
as palavras vitais de tua ciência: alegria, pureza, infância, vento;
e me deste o empirismo das flores, dos astros, do silêncio;
e me agitaste nas veias o ritmo das coisas e dos seres.
(...)
Madreminha, eu sei: a vida é perfumada por espinhos.
Sabes disso. Já o sabias
quando calçando os pés com meu cilício
alfombraste de aroma o que doía em meu ritmo.
Madre: já não há que imunizar meus olhos de sua vista.
Agora eu sei como ela é
assustadoramente bela a vida:
alegre na periferia de sua polpa triste.
Sabes disso. Já o sabias
quando acariciaste meu sopro de cruz em teus ouvidos
e devolveste em cantiga o que te dei em grito.
(...)

(...)
Madre: ouves-me? E reconheces em meu canto a tua agonia?
É minha vida. Inédita, exclusiva, a minha vida.
Ela gritou quando calei em ti
e agora a angústia é minha.
Mas que digo? Oh madre-sensitiva, a angústia é minha?
Mas são teus olhos que eu pressinto
duas fontes de sangue, rubro rio
transbordando em meu rosto com delírio
ao sorver esta secura ardente de meu riso
e a canção adusta nas feições tranquilas.
(...)

Tímida-mãe-poesia:
nunca tiveste essa ousadia
de verter em canto teus sonambulismos
ou de lançar ao vento como desafio
uma orquestra de êxtases cadentes.
Mãe, eu tive.
Por isso tu sorris
quase com medo desta filha
que descobriu em teu organismo
uma latência de revolta lírica.

Estavas tão só com o teu silêncio
e essa fervente ânsia de explodir-te.
Bati à tua porta e disse: Eis-me aqui. Eu te redimo agora.
Dorme.
(...)

Imagem - 00660001


Publicado no livro Autobiografia de mãos dadas (1958).

In: LAURITO, Ilka Brunhilde. Sal do lírico: antologia poética. São Paulo: Quíron, 1978. p.78-82. (Sélesis, 13
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