Lista de Poemas

O sonho da razão

Jovem do rosto honesto
e puritano, também tu, da infância,
preservas além da pureza a vileza.
Tuas acusações te fazem mediador que leva
tua pureza - ardor de olhos azuis,
fronte viril, cabeleira inocente -
à chantagem: a relegar, com a grandeza
do menino, o diverso ao papel do renegado.
Não, não a esperança, mas o desespero!
Porque quem virá, no mundo melhor,
terá a experiência de uma vida inesperada.
E nós esperamos por nós, não por ele.
Para nos assegurar um álibi. E isto
também é justo, eu sei! Cada um
fixa o impulso em um símbolo,
para poder viver, para poder pensar.
O álibi da esperança confere grandeza,
acolhe na fila dos puros, daqueles
que, na vida, se ajustam.
Mas há uma raça que não aceita álibis,
uma raça que, no instante em que ri,
se recorda do choro, e no choro do riso,
uma raça que não se exime um dia, uma hora,
do dever da presença invadida,
da contradição em que a vida jamais concede
ajustamento nenhum, uma raça que faz
da própria suavidade uma arma que não perdoa.
Eu me orgulho de pertencer a esta raça.
Oh, eu também sou jovem, claro! Mas
sem a máscara da integridade.
Tu não me apontes, fazendo-te forte
dos sentimentos nobres - como é a tua,
como é a nossa esperança de comunistas -,
na luz de quem não está nas fileiras
dos puros, nas multidões dos fiéis.
Porque eu estou. Mas a ingenuidade
não é um sentimento nobre, é uma heroica
vocação a não se render nunca,
a jamais fixar a vida, nem sequer no futuro.
Os homens bons, os homens que dançam
como nos filmes de Chaplin com mocinhas
tenras e ingênuas, entre bosques e vacas,
os homens íntegros, em sua própria
saúde e na do mundo, os homens
sólidos na juventude, sorridentes na velhice
- os homens do futuro são os HOMENS DO SONHO.
Ora minha esperança não tem
sorriso, ó humana omertà:
porque ela não é o sonho da razão,
mas é razão, irmã da piedade.
(tradução de Maurício Santana Dias, originalmente publicada
no quarto número impresso da Modo de Usar & Co.)
:
Il sogno della ragione
Pier Paolo Pasolini
Ragazzo dalla faccia onesta
e puritana, anche tu, dell’infanzia,
hai oltre che la purezza la viltà.
Le tue accuse ti fanno mediatore che porta
la sua purezza - ardore di occhi azzurri,
fronte virile, capigliatura innocente -
al ricatto: a relegare, con la grandezza
del bambino, il diverso al ruolo di rinnegato.
No, non la speranza ma la disperazione!
Perché chi verrà, nel mondo migliore,
farà l’esperienza di una vita insperata.
E noi speriamo per noi, non per lui.
Per costruirci un alibi. E questo
è anche giusto, lo so! Ognuno
fissa lo slancio in un simbolo,
per poter vivere, per poter ragionare.
L’alibi della speranza dà grandezza,
ammette nelle file dei puri, di coloro,
che, nella vita, si adempiono.
Ma c’e una razza che non accetta gli alibi,
una razza che nell’attimo in cui ride
si ricorda del pianto, e nel pianto del riso,
una razza che non si esime un giorno, un’ora,
dal dovere della presenza invasata,
della contraddizione in cui la vita non concede
mai adempimento alcuno, una razza che fa
della propria mitezza un’arma che non perdona.
Io mi vanto di essere di questa razza.
Oh, ragazzo anch’io, certo! Ma
senza la maschera dell’integrità.
Tu non indicarmi, facendoti forte
dei sentimenti nobili -
com’è la tua, com’è la nostra speranza di comunisti -
nella luce di chi non è tra le file
dei puri, nelle folle dei fedeli.
Perché io lo sono. Ma l’ingenuità
non è un sentimento nobile, è un’eroica
vocazione a non arrendersi mai,
a non fissare mai la vita, neanche nel futuro.
Gli uomini belli, gli uomini che danzano
come nel film di Chaplin, con ragazzette
tenere e ingenue, tra boschi e mucche,
gli uomini integri, nella salute
propria e del mondo, gli uomini
solidi nella gioventù, ilari nella vecchiaia
- gli uomini del futuro sono gli UOMINI DEL SOGNO.
Ora la mia speranza non ha
sorriso, o umana omertà:
perché essa non è il sogno della ragione,
ma è ragione, sorella della pietà.
(in Poesia in forma di rosa, Garzanti, Milano, 1964, p. 158-159.)
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Versos do testamento

A solidão: é preciso ser muito forte
para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
assaltantes ou assassinos; há que caminhar
por toda a tarde ou talvez por toda a noite
é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
sobretudo no inverno, com o vento que sopra na grama molhada
e grandes pedras em meio à sujeira úmida e lamacenta;
não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
exceto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que exala sêmen e se vai,
mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente ou a prepotência turva
de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
enormemente jovem; e nisso é desumano,
porque não deixa rastros, ou melhor, deixa um único rastro
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um jovem em seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
o ato está cumprido, sua repetição é um rito; pois
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
espera sua vez; cresce de fato o número dos desaparecimentos ―
ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.
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Identificação e contexto básico

Pier Paolo Pasolini nasceu em Bolonha, Itália. Foi um poeta, escritor, cineasta, dramaturgo, jornalista e intelectual de renome internacional. A sua obra é caracterizada por um profundo questionamento da sociedade moderna, da cultura de massas, da religião e da política. Viveu durante um período de intensas transformações sociais e culturais na Itália, marcado pelo pós-guerra, pelo boom económico e pela emergência de novas ideologias e estilos de vida.

Infância e formação

Filho de um oficial do exército e de uma professora, Pasolini teve uma infância marcada por frequentes mudanças de residência. A sua formação intelectual foi rica e diversificada, com um interesse precoce pela literatura, pela arte e pelas línguas. Estudou Filologia na Universidade de Bolonha, onde desenvolveu um fascínio pela linguística e pela literatura antiga, influências que se estenderam à sua posterior obra poética e cinematográfica.

Percurso literário

O percurso literário de Pasolini começou com a poesia, com a publicação de "Poesie a Casarsa" (Poesias em Casarsa) em 1942, escrita em friulano, a língua da sua mãe. A sua obra evoluiu para a prosa e, posteriormente, para o cinema, onde se tornou uma figura de proa. A sua escrita, tanto poética como em prosa, é marcada por uma linguagem crua e direta, explorando temas da marginalidade, da homossexualidade e da crise de valores na sociedade italiana.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Pasolini é vasta e abrange poesia, romances, ensaios e filmes. "Ragazzi di vita" (Garotos de vida, 1955) e "Una vita violenta" (Uma vida violenta, 1959) são romances que retratam a vida dos jovens das periferias romanas. No cinema, filmes como "Accattone" (1961), "Mamma Roma" (1962) e "Il Vangelo secondo Matteo" (O Evangelho segundo São Mateus, 1964) exploram temas sociais e religiosos com uma estética única. O seu estilo é caracterizado pela crueza, pela análise social penetrante e por uma profunda religiosidade, muitas vezes heterodoxa. Utiliza frequentemente a linguagem popular e dialectal, conferindo autenticidade às suas personagens e narrativas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Pasolini foi uma figura central na cultura italiana do pós-guerra. As suas posições políticas, inicialmente ligadas ao Partido Comunista, e a sua posterior crítica mordaz à sociedade de consumo e à homologação cultural, tornaram-no uma figura controversa. A sua obra dialogou com a história italiana, com as transformações sociais e com o debate sobre a identidade nacional e a modernidade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Pasolini foi marcada pela sua homossexualidade, que assumiu abertamente num contexto social ainda muito repressivo, e por um profundo conflito existencial. As suas relações pessoais, as suas crises e a sua constante busca por significado moldaram a sua visão do mundo e a sua produção artística. Foi um intelectual engajado, cujas opiniões e vida privada foram frequentemente escrutinadas pela opinião pública e pela justiça.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Pasolini recebeu reconhecimento internacional, especialmente pelo seu trabalho cinematográfico, com diversos prémios e distinções. No entanto, a sua obra foi frequentemente alvo de controvérsia e censura, devido à sua temática e ao seu estilo provocador. A sua receção crítica foi, e continua a ser, complexa, oscilando entre a admiração pela sua genialidade e a condenação pela sua ousadia.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Pasolini foi influenciado por autores clássicos, pela Bíblia, por Marx e por figuras do cinema neorrealista. O seu legado é imenso, tendo influenciado gerações de cineastas, escritores e pensadores com a sua abordagem crítica à sociedade, a sua exploração da marginalidade e a sua profunda espiritualidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Pasolini é objeto de inúmeras interpretações críticas. A análise foca-se na sua crítica à sociedade de consumo, na sua visão do "terceiro mundo" como um refúgio de valores autênticos, e na sua complexa relação com a religião e a sexualidade. As suas obras levantam questões fundamentais sobre a condição humana, a moralidade e o futuro da civilização.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Pasolini é a sua obsessão em registar a vida das classes populares e dos marginalizados, que ele via como depositários de uma autenticidade perdida. A sua morte trágica e misteriosa contribuiu para a sua aura de lenda.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Pier Paolo Pasolini foi brutalmente assassinado em 1975, em circunstâncias que até hoje geram debate e especulação. A sua morte prematura privou o mundo de um dos mais importantes intelectuais e artistas do século XX. A sua obra continua a ser estudada, exibida e debatida, garantindo a sua perene memória.