Poemas neste tema
Vida
Al Berto
Corpo
Corpo corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo
(in "A Noite Progride Puxada à Sirga")
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo
(in "A Noite Progride Puxada à Sirga")
2 771
Fernando Pessoa
Ó curva do horizonte, quem te passa,
Ó curva do horizonte, quem te passa,
Passa da vista, não de ser ou estar.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.
Ó mar, sê símbolo da vida toda —
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.
Passa da vista, não de ser ou estar.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.
Ó mar, sê símbolo da vida toda —
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.
1 431
Bruno Kampel
Dizer
Dizer
Sem Palavras
Amar
sem vírgulas
Sofrer
sem sintaxe
Viver
sem Parêntese
Sublinhando
o gesto
Acentuando
o tempo.
Conjugando
o resto.
Sem Palavras
Amar
sem vírgulas
Sofrer
sem sintaxe
Viver
sem Parêntese
Sublinhando
o gesto
Acentuando
o tempo.
Conjugando
o resto.
868
Manuel António Pina
Algumas coisas
A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.
Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.
O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.
Manuel António Pina | "Todas as palavras" | Poesia reunida; Ed. Assírio & Alvim, 2012
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.
Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.
O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.
Manuel António Pina | "Todas as palavras" | Poesia reunida; Ed. Assírio & Alvim, 2012
1 583
Fernando Pessoa
O que pensando sofreu
O que pensando sofreu
Na loucura foi feliz.
Ah, vem comigo, que és meu.
Hei-de levar-te ao país
Do qual ninguém nada diz
E que ninguém concebeu.
Nem Deus, nem céu, nem inferno
Nem vidas ou morte
No incompreensível eterno
Que abriu teu pensar profundo.
Vem, dos teus olhos se esvaia
Bem e mal; e p'ra ti caia
Minha sombra sobre o mundo.
A opressão do mistério
Mancha-te a alma de luz;
Vem comigo que avanço
Além do vago sidério,
Transluz.
Vamos além do descanso,
Vamos para além da luz.
Triste que riu e chorou
E, além do rir e chorar,
Por pensamentos passou...
Vem a mim que eu sei amar.
FAUSTO:
Oh, Morte, vem-me levar!
MORTE:
Vem, oh meu filho, aqui estou.
Na loucura foi feliz.
Ah, vem comigo, que és meu.
Hei-de levar-te ao país
Do qual ninguém nada diz
E que ninguém concebeu.
Nem Deus, nem céu, nem inferno
Nem vidas ou morte
No incompreensível eterno
Que abriu teu pensar profundo.
Vem, dos teus olhos se esvaia
Bem e mal; e p'ra ti caia
Minha sombra sobre o mundo.
A opressão do mistério
Mancha-te a alma de luz;
Vem comigo que avanço
Além do vago sidério,
Transluz.
Vamos além do descanso,
Vamos para além da luz.
Triste que riu e chorou
E, além do rir e chorar,
Por pensamentos passou...
Vem a mim que eu sei amar.
FAUSTO:
Oh, Morte, vem-me levar!
MORTE:
Vem, oh meu filho, aqui estou.
1 304
Fernando Pessoa
Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro,
Loura débil...
Esse olhar para mim casual como um calendário...
Esse agradecer-me quando a não deixei cair do eléctrico
Um agradecimento...
Perfeitamente...
Gosto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve
De coisas que não chegou a haver,
Há gente que nunca é adulta sem [...]!
Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta — pouca —
E a que chega a ser adulta de facto morre sem dar por nada.
Loura débil, figura de inglesa absolutamente portuguesa,
Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci...
É claro que não me importo nada contigo
Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo,
Mas o encontrar-te dá som ao dia e ao desleixo
Uma poesia de superfície,
Uma coisa a mais no a menos da improficuidade da vida...
Loura débil, feliz porque não és inteiramente real,
Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real,
E nada que vale a pena ser real vale a pena.
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro,
Loura débil...
Esse olhar para mim casual como um calendário...
Esse agradecer-me quando a não deixei cair do eléctrico
Um agradecimento...
Perfeitamente...
Gosto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve
De coisas que não chegou a haver,
Há gente que nunca é adulta sem [...]!
Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta — pouca —
E a que chega a ser adulta de facto morre sem dar por nada.
Loura débil, figura de inglesa absolutamente portuguesa,
Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci...
É claro que não me importo nada contigo
Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo,
Mas o encontrar-te dá som ao dia e ao desleixo
Uma poesia de superfície,
Uma coisa a mais no a menos da improficuidade da vida...
Loura débil, feliz porque não és inteiramente real,
Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real,
E nada que vale a pena ser real vale a pena.
1 357
Fernando Pessoa
Sofro, Lídia, do medo do destino. [1]
Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
Lídia, me aterra.
Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até ao fim.
A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa estima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
E que eu a viva.
Qualquer pequena cousa de onde pode
Brotar uma ordem nova em minha vida,
Lídia, me aterra.
Qualquer cousa, qual seja, que transforme
Meu plano curso de existência, embora
Para melhores cousas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até ao fim.
A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa estima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
E que eu a viva.
1 473
Fernando Pessoa
A vida é para os inconscientes (Ó Lydia, Celimène, Daisy)
A vida é para os inconscientes (Ó Lydia, Celimène, Daisy)
E o consciente é para os mortos — o consciente sem a Vida...
Fumo o cigarro que cheira bem à mágoa dos outros,
E sou ridículo para eles porque os observo e me observam.
Mas não me importo.
Desdobro-me em Caeiro e em técnico
— Técnico de máquinas, técnico de gente, técnico da moda —
E do que descubro em meu torno não sou responsável nem em verso.
O estandarte roto, cosido a seda, dos impérios de Maple —
Metam-no na gaveta das coisas póstumas e basta...
E o consciente é para os mortos — o consciente sem a Vida...
Fumo o cigarro que cheira bem à mágoa dos outros,
E sou ridículo para eles porque os observo e me observam.
Mas não me importo.
Desdobro-me em Caeiro e em técnico
— Técnico de máquinas, técnico de gente, técnico da moda —
E do que descubro em meu torno não sou responsável nem em verso.
O estandarte roto, cosido a seda, dos impérios de Maple —
Metam-no na gaveta das coisas póstumas e basta...
1 437
Fernando Pessoa
Aqui, sem outro Apolo do que Apolo,
Aqui, sem outro Apolo do que Apolo,
Sem um suspiro abandonemos Cristo
E a febre de buscarmos
Um deus dos dualismos.
E longe da cristã sensualidade
Que a casta calma da beleza antiga
Nos restitua o antigo
Sentimento da vida.
Sem um suspiro abandonemos Cristo
E a febre de buscarmos
Um deus dos dualismos.
E longe da cristã sensualidade
Que a casta calma da beleza antiga
Nos restitua o antigo
Sentimento da vida.
1 472
Fernando Pessoa
TO A MORALIST
Thou dost say that too soon we grow old,
That all pleasure of earth is but air;
Ay, but tell me, oh moralist cold,
Besides pleasure what pleasure is there?
That all pleasure of earth is but air;
Ay, but tell me, oh moralist cold,
Besides pleasure what pleasure is there?
1 439
Fernando Pessoa
UMA VOZ: Eu sou o Espírito de Alegria,
Eu sou o Espírito de Alegria,
Minha mortalha minha mão fia,
Fia-a contente de ter que fiar.
Por isso a fia sem a acabar,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia,
Fia de noite e de dia fia.
Bem sei que a obra é para tristeza,
Mas há o fazê-la que a faz beleza,
Bem sei que a morte é seu fio e a dor
Constante no fiar. Mas fia com amor.
E por isso cumpre-me a minha alegria
Minha mão (...) que fia e fia,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia
Fia de dia e de noite fia.
Minha mortalha minha mão fia,
Fia-a contente de ter que fiar.
Por isso a fia sem a acabar,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia,
Fia de noite e de dia fia.
Bem sei que a obra é para tristeza,
Mas há o fazê-la que a faz beleza,
Bem sei que a morte é seu fio e a dor
Constante no fiar. Mas fia com amor.
E por isso cumpre-me a minha alegria
Minha mão (...) que fia e fia,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia
Fia de dia e de noite fia.
1 505
Fernando Pessoa
Não combati: ninguém mo mereceu.
Não combati: ninguém mo mereceu.
A natureza e depois a arte, amei.
As mãos à chama que me a vida deu
Aqueci. Ela cessa. Cessarei.
A natureza e depois a arte, amei.
As mãos à chama que me a vida deu
Aqueci. Ela cessa. Cessarei.
1 380
Fernando Pessoa
35 - THE HOURS
The hours are weary of being hours.
Oh, to be aught else! they say.
Their task's to age children, hopes and flowers,
Paint lips cold and hairs gray.
They sicken and sadden and deaden beauty.
When they pass and look behind,
Lining the path of their ended duty
They only weeping fmd.
So, Oh, to be something else! they say,
For they think they know
That the things and thoughts they take away
Really fade and go.
But they do not know, blind misers screening
A robber‑changed false pelf,
That everything has Another Meaning -
Ay, even God Himself
Oh, to be aught else! they say.
Their task's to age children, hopes and flowers,
Paint lips cold and hairs gray.
They sicken and sadden and deaden beauty.
When they pass and look behind,
Lining the path of their ended duty
They only weeping fmd.
So, Oh, to be something else! they say,
For they think they know
That the things and thoughts they take away
Really fade and go.
But they do not know, blind misers screening
A robber‑changed false pelf,
That everything has Another Meaning -
Ay, even God Himself
1 487
Fernando Pessoa
Só uma cousa me apavora
Só uma cousa me apavora
A esta hora, a toda a hora:
É que verei a morte frente a frente,
Inevitavelmente.
Ah, este horror, como poder dizer?
Não lhe poder fugir! Não podê-lo esquecer!
E nessa hora em que eu e a Morte
Nos encontrarmos
O que verei? o que saberei?
O que não verei? o que não saberei?
Horror! A vida é má e é má a morte,
Mas quisera viver eternamente
Sem saber nunca, (...) e inconsciente
Isso que a morte traz e (...)
Não me tenta o mistério
Nem desejo saber
O que é que vai do berço ao cemitério
No ardor chamado viver.
A verdade apavora-me e confrange,
Perturba-me como a ninguém.
Que o tempo cesse!
Que pare e fique sempre este momento!
Que eu nunca me aproxime desse
Horror que mata o pensamento!
Envolvei-me, fechai-me dentro em vós
E que eu não morra nunca.
Odeio a vida, amarga-me e horroriza.
Mas a morte — oh a morte, velada
O próprio horror dentro em mim paralisa
Deixando a dor funda e estagnada.
Horror! Horror! O tempo, oh vidas com vida!
Mistérios menores onde esquecer
Se pode a mor dor indefinida,
Menos horrorosos porque não sabeis dizer
Esse segredo que dito deveis trazer.
Não me deixeis morrer...
A esta hora, a toda a hora:
É que verei a morte frente a frente,
Inevitavelmente.
Ah, este horror, como poder dizer?
Não lhe poder fugir! Não podê-lo esquecer!
E nessa hora em que eu e a Morte
Nos encontrarmos
O que verei? o que saberei?
O que não verei? o que não saberei?
Horror! A vida é má e é má a morte,
Mas quisera viver eternamente
Sem saber nunca, (...) e inconsciente
Isso que a morte traz e (...)
Não me tenta o mistério
Nem desejo saber
O que é que vai do berço ao cemitério
No ardor chamado viver.
A verdade apavora-me e confrange,
Perturba-me como a ninguém.
Que o tempo cesse!
Que pare e fique sempre este momento!
Que eu nunca me aproxime desse
Horror que mata o pensamento!
Envolvei-me, fechai-me dentro em vós
E que eu não morra nunca.
Odeio a vida, amarga-me e horroriza.
Mas a morte — oh a morte, velada
O próprio horror dentro em mim paralisa
Deixando a dor funda e estagnada.
Horror! Horror! O tempo, oh vidas com vida!
Mistérios menores onde esquecer
Se pode a mor dor indefinida,
Menos horrorosos porque não sabeis dizer
Esse segredo que dito deveis trazer.
Não me deixeis morrer...
1 351
Fernando Pessoa
Folha após folha vemos caem
De amore suo
Folha após folha vemos caem,
Cloé, as folhas todas.
Nem antes para elas, para nós
Que sabemos que morrem.
Assim, Cloé, assim,
O amor, antes que o corpo que empregamos
Nele, em nós envelhece;
E nós, diversos, somos, inda jovens,
Só a mútua lembrança.
Ah, se o que somos será isto sempre
E só uma hora é o que somos,
Com tal excesso e fúria em cada amplexo
A hausta vida ponhamos,
Que encha toda a memória, e nos beijemos
Como se, findo o beijo
Único, sobre nós ruísse a súbita
Mole do inteiro mundo.
Folha após folha vemos caem,
Cloé, as folhas todas.
Nem antes para elas, para nós
Que sabemos que morrem.
Assim, Cloé, assim,
O amor, antes que o corpo que empregamos
Nele, em nós envelhece;
E nós, diversos, somos, inda jovens,
Só a mútua lembrança.
Ah, se o que somos será isto sempre
E só uma hora é o que somos,
Com tal excesso e fúria em cada amplexo
A hausta vida ponhamos,
Que encha toda a memória, e nos beijemos
Como se, findo o beijo
Único, sobre nós ruísse a súbita
Mole do inteiro mundo.
1 514
Fernando Pessoa
Não torna atrás a negregada prole
Não torna atrás a negregada prole
Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
Saudoso de todos.
Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
Saudoso de todos.
1 134
Fernando Pessoa
A vida é um hospital
A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
2 605
Fernando Pessoa
CARNAVAL [b]
CARNAVAL
3
(...) não tenho compartimentos estanques
Para os meus sentimentos e emoções...
Vidas, realmente se misturam
O que era cérebro acaba sentimento
Minha unidade morre ao relento
(...)
Quando quero pensar, sinto, não sei
Se me sinto quem sou e queria.
Psique de fora da psicologia,
Vivo fora da (...) e da lei
Amorfo anexo ao mundo exterior
Reproduzindo tudo o que nele há
Sem que em meu ser qualquer ser meu me vá
Compensar pessoalmente a minha dor.
Não: sempre as dores doutra gente que é eu
(Sempre alegrias de várias pessoas)
[...]
Sempre de um centro diferente e meu
Carnaval de (...)
Bebendo p'ra se sentir alegres e outros
Outros bebendo como eles (...) se sentem
Tendo de ser alegres (...)
Dêem-me um sentir que cansa e é bom e cessa
Prendam-me para que eu não faça mais versos
Façam [ad finem?] com que o sentir cesse
Proíbam-me pensar com a cabeça.
Dói-me a vida em todos os meus poros
Estala-me na cabeça o coração,
(...)
Para que escrevo? É uma pura perda.
(...)
Depois. [...]
Se escrevo o que sinto [...]. Bom. Merda.
Pronto. Acabou-se. Quebro a pena e a tinta
Entorno-a aqui só para a entornar...
Não haver vida que se possa DAR!
Não haver alma com que não se sinta!
Não haver como essa alma consertar-me
Com cordéis ou arames que se aguentem
Com ferros e madeiras que não mentem
E me dêem unidade no aguentar-me!
Não haver (...)
Não haver, não [...]
Não haver. Não Haver!
3
(...) não tenho compartimentos estanques
Para os meus sentimentos e emoções...
Vidas, realmente se misturam
O que era cérebro acaba sentimento
Minha unidade morre ao relento
(...)
Quando quero pensar, sinto, não sei
Se me sinto quem sou e queria.
Psique de fora da psicologia,
Vivo fora da (...) e da lei
Amorfo anexo ao mundo exterior
Reproduzindo tudo o que nele há
Sem que em meu ser qualquer ser meu me vá
Compensar pessoalmente a minha dor.
Não: sempre as dores doutra gente que é eu
(Sempre alegrias de várias pessoas)
[...]
Sempre de um centro diferente e meu
Carnaval de (...)
Bebendo p'ra se sentir alegres e outros
Outros bebendo como eles (...) se sentem
Tendo de ser alegres (...)
Dêem-me um sentir que cansa e é bom e cessa
Prendam-me para que eu não faça mais versos
Façam [ad finem?] com que o sentir cesse
Proíbam-me pensar com a cabeça.
Dói-me a vida em todos os meus poros
Estala-me na cabeça o coração,
(...)
Para que escrevo? É uma pura perda.
(...)
Depois. [...]
Se escrevo o que sinto [...]. Bom. Merda.
Pronto. Acabou-se. Quebro a pena e a tinta
Entorno-a aqui só para a entornar...
Não haver vida que se possa DAR!
Não haver alma com que não se sinta!
Não haver como essa alma consertar-me
Com cordéis ou arames que se aguentem
Com ferros e madeiras que não mentem
E me dêem unidade no aguentar-me!
Não haver (...)
Não haver, não [...]
Não haver. Não Haver!
2 247
Fernando Pessoa
Tão pouco heráldica a vida!
Tão pouco heráldica a vida!
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos vossos oceanos!
Sede abençoados, (...) carros, comboios e trens
Respirar regular de fábricas, motores trementes a atroar
Com vossa crónica (...)
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim...
Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,
Levai-me para longe de eu saber que vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo — ó (...) - é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (...); só quero o que ter não posso.
950
Fernando Pessoa
De uma só vez recolhe
De uma só vez recolhe
Quantas flores puderes.
Não dura mais que até à morte o dia.
Colhe de que recordes.
A vida é pouco e cerca-a
A sombra e o sem remédio.
Não temos regras que compreendamos,
Súbditos sem governo.
Goza este dia como
Se a Vida fosse nele.
Homens nem deuses fadam, nem destinam
Senão o que ignoramos.
Quantas flores puderes.
Não dura mais que até à morte o dia.
Colhe de que recordes.
A vida é pouco e cerca-a
A sombra e o sem remédio.
Não temos regras que compreendamos,
Súbditos sem governo.
Goza este dia como
Se a Vida fosse nele.
Homens nem deuses fadam, nem destinam
Senão o que ignoramos.
1 704
Fernando Pessoa
V - Braços cruzados, sem pensar nem crer.
V
Braços cruzados, sem pensar nem crer,
Fiquemos pois sem mágoas nem desejos.
Deixemos beijos, pois o que são beijos ?
A vida é só o esperar morrer.
Longe da dor e longe do prazer,
Conheçamos no sono os benfazejos
Poderes únicos; sem urzes, brejos,
A sua estrada sabe apetecer.
Coroado de papoilas e trazendo
Artes porque com sono tira sonhos,
Venha Morfeu, que as almas envolvendo,
Faça a felicidade ao mundo vir
Num nada onde sentimo-nos risonhos
Só de sentirmos nada já sentir.
Braços cruzados, sem pensar nem crer,
Fiquemos pois sem mágoas nem desejos.
Deixemos beijos, pois o que são beijos ?
A vida é só o esperar morrer.
Longe da dor e longe do prazer,
Conheçamos no sono os benfazejos
Poderes únicos; sem urzes, brejos,
A sua estrada sabe apetecer.
Coroado de papoilas e trazendo
Artes porque com sono tira sonhos,
Venha Morfeu, que as almas envolvendo,
Faça a felicidade ao mundo vir
Num nada onde sentimo-nos risonhos
Só de sentirmos nada já sentir.
1 351
Fernando Pessoa
Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,
Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,
Breve é a vida ao tempo e longa à alma.
A arte, com que todos,
— Ora sem saber virando os copos,
Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos,
Chegada a morte, despi-la.
Breve é a vida ao tempo e longa à alma.
A arte, com que todos,
— Ora sem saber virando os copos,
Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos,
Chegada a morte, despi-la.
1 396
Fernando Pessoa
Ininterrupto e unido guia o teu curso
Ininterrupto e unido guia o teu curso
Lídia, e sereno para o mar distante.
Teus manes não to param.
Interrompem-to apenas.
Mas conta tu as tuas próprias horas,
À tua espera dá-te incerta Naiade
Que a porta te não está
Tua segunda vida...
Condescendente p'ra contigo própria,
Deixa aos certos Letes de fugir
Vive com a verdade
No instante dos demónios
Que alhures a saber preso com deles
O céu do Fado, gozam a delícia
Altiva de viverem
Onde guardam suas vidas.
Lídia, e sereno para o mar distante.
Teus manes não to param.
Interrompem-to apenas.
Mas conta tu as tuas próprias horas,
À tua espera dá-te incerta Naiade
Que a porta te não está
Tua segunda vida...
Condescendente p'ra contigo própria,
Deixa aos certos Letes de fugir
Vive com a verdade
No instante dos demónios
Que alhures a saber preso com deles
O céu do Fado, gozam a delícia
Altiva de viverem
Onde guardam suas vidas.
1 198