Poemas neste tema
Vida
Ruy Belo
Na morte de Nicolau
José maria nicolau fugiu. Quem o apanha?
Nunca ele pedalou tanto como agora
Decerto vai chegar antes da hora
A etapa era decisiva e está ganha
Ele que várias vezes deu a volta a portugal
deu desta vez a volta a quê? Talvez à vida
A alguns anos já da primeira partida
fugiu. Tudo se torna agora mais real
Que média fez num terreno tão mau
É tudo serra custa tanto subi-la
Deixem que eu vista a camisola amarela
ao grande corredor josé maria nicolau
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 | Editorial Presença Lda., 1984
Nunca ele pedalou tanto como agora
Decerto vai chegar antes da hora
A etapa era decisiva e está ganha
Ele que várias vezes deu a volta a portugal
deu desta vez a volta a quê? Talvez à vida
A alguns anos já da primeira partida
fugiu. Tudo se torna agora mais real
Que média fez num terreno tão mau
É tudo serra custa tanto subi-la
Deixem que eu vista a camisola amarela
ao grande corredor josé maria nicolau
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 144 | Editorial Presença Lda., 1984
1 411
Ruy Belo
Ácidos e óxidos
É uma coisa estranha este verão
E no entanto ia jurar que estive aqui
Não me dói nada, não. A tia como está?
Claro que vale a pena, por que não?
Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu
Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina
Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto?
Até já soube formas de o dizer de outra maneira
Há coisas importantes, umas mais que outras
Basta limpar os pés alheios à entrada
e só mandarmos nós neste templo de nada
E o orgulho é a nossa verdadeira casa
Nesta altura do ano quando o vento sopra
sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras não. Um simples gato ao sol,
talvez uma maneira ou um sentido para as coisas
Ó dias encobertos de verão do meu país perdido
mais certos do que o sol consumido nos charcos no inverno,
estas ou outras formas de morrermos dia a dia
como quem cumpre escrupulosamente o seu horário de trabalho
Não eras tu, nem isto, nem aqui. Mas está bem,
estou pelos ajustes porque sei que não há mais
Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada
Curriculum atestado testemunho opinião...
que importa, se o verão é mesmo uma certa estação?
Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações
Estar aqui no verão não é tomar uma atitude?
A mínima palavra não será como prestar
em certo tipo de papel qualquer declaração?
Há fórmulas, bem sei, e é preciso respeitá-las
como o gato que cumpre o seu devido sol
São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado
Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fiéis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
Será verdade que não tens ninguém?
Onde é o teu refúgio, ó sítio de silêncio
e sofrimento indivisível? É necessário
Vais assim. Falam de ti e ficas nas palavras
fixo, imóvel, dito para sempre, reduzido
a um número. Curriculum cadastro vizinhança
Acreditas no verão? Terás licença? Diz-me:
seria isto, nada mais que isto?
Tens um nome, bem sei. Se é ele que te reduz,
aí é o inferno e não achas saída
Precário, provisório, é o teu nome
Lobos de sono atrás de ti nesses dez anos
que nunca conseguiste e muito menos hoje
Espingardas e uivos e regressos, um regaço
redondo - o único verdadeiro espaço, o
sabor de não estar só, natal antigo,
o sol de inverno sobre as águas, tudo novo,
a inspecção minuciosa de pauis, de cômoros, marachas
Viste noites e dias, estações, partidas
E tão terrível tudo, porque tudo
trazia no princípio o fim de tudo
A morte é a promessa: estar todo num lugar,
permanecer na transparência rápida do ser
E perguntar será para ti responder
Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
- que ao dominar-te deixa que domines - mora
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
e há também a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 113 a 115 | Editorial Presença Lda., 1984
E no entanto ia jurar que estive aqui
Não me dói nada, não. A tia como está?
Claro que vale a pena, por que não?
Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu
Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina
Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto?
Até já soube formas de o dizer de outra maneira
Há coisas importantes, umas mais que outras
Basta limpar os pés alheios à entrada
e só mandarmos nós neste templo de nada
E o orgulho é a nossa verdadeira casa
Nesta altura do ano quando o vento sopra
sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras não. Um simples gato ao sol,
talvez uma maneira ou um sentido para as coisas
Ó dias encobertos de verão do meu país perdido
mais certos do que o sol consumido nos charcos no inverno,
estas ou outras formas de morrermos dia a dia
como quem cumpre escrupulosamente o seu horário de trabalho
Não eras tu, nem isto, nem aqui. Mas está bem,
estou pelos ajustes porque sei que não há mais
Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada
Curriculum atestado testemunho opinião...
que importa, se o verão é mesmo uma certa estação?
Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações
Estar aqui no verão não é tomar uma atitude?
A mínima palavra não será como prestar
em certo tipo de papel qualquer declaração?
Há fórmulas, bem sei, e é preciso respeitá-las
como o gato que cumpre o seu devido sol
São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado
Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fiéis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
Será verdade que não tens ninguém?
Onde é o teu refúgio, ó sítio de silêncio
e sofrimento indivisível? É necessário
Vais assim. Falam de ti e ficas nas palavras
fixo, imóvel, dito para sempre, reduzido
a um número. Curriculum cadastro vizinhança
Acreditas no verão? Terás licença? Diz-me:
seria isto, nada mais que isto?
Tens um nome, bem sei. Se é ele que te reduz,
aí é o inferno e não achas saída
Precário, provisório, é o teu nome
Lobos de sono atrás de ti nesses dez anos
que nunca conseguiste e muito menos hoje
Espingardas e uivos e regressos, um regaço
redondo - o único verdadeiro espaço, o
sabor de não estar só, natal antigo,
o sol de inverno sobre as águas, tudo novo,
a inspecção minuciosa de pauis, de cômoros, marachas
Viste noites e dias, estações, partidas
E tão terrível tudo, porque tudo
trazia no princípio o fim de tudo
A morte é a promessa: estar todo num lugar,
permanecer na transparência rápida do ser
E perguntar será para ti responder
Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
- que ao dominar-te deixa que domines - mora
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
e há também a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 113 a 115 | Editorial Presença Lda., 1984
3 209
Ruy Belo
Variações sobre O jogador do pião (I)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo arrisca nessa roda
riscada entre parede e tronco a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? nada
Mão do breve pião levanta ao céu a enxada
e que esta vida extensa para sempre seja
- será? - tão bem coberta que nem Deus a veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 117 e 118| Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo arrisca nessa roda
riscada entre parede e tronco a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? nada
Mão do breve pião levanta ao céu a enxada
e que esta vida extensa para sempre seja
- será? - tão bem coberta que nem Deus a veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 117 e 118| Editorial Presença Lda., 1984
1 237
Ruy Belo
Vício de matar
Para onde há-de ir billy the kid?
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
Billy não sabe para onde há-de ir
Persegue a morte na pessoa dos outros
quando era nele que ele a devia afinal perseguir
Mata inimigos e mata amigos
Viver é para ele matar
Procura um refúgio mas nunca sabe
onde se há-de refugiar
Sabeis qual o seu maior inimigo?
É ele o seu maior inimigo
Matam-lhe a gente de quem ele gosta
e ele gosta de coisas simples
como de ver ondular o trigo
E billy morre billy está salvo
É ver aquela mão abrir
Sobre si próprio concentrado
de tudo o mais alheado
billy já tem para onde fugir
O caminho da ida e o caminho da volta
não são afinal o mesmo caminho
Billy conhece agora o destino
Sempre inquieto sempre a correr
amou a vida como se amar fosse morrer
Sabe-lhe bem ser de novo menino
Billy the kid para onde há-de ir?
Não o sabia bastava um gesto
Mas billy que estava cansado e gasto
leva um tiro e então já sabe
para onde é que sempre quisera ir
Billy the kid nunca soubera o que era fugir
e a morte mãe o recebe
Billy que nunca soubera fugir
nem mesmo pergunta para onde há-de ir
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 150 | Editorial Presença Lda., 1984
869
Ruy Belo
Saint-Malo 63
Eu curvo ante a infância a face embaciada
A praça é muito grande para uma criança
Ela estranha as pessoas do jardim,
criança abandonada, limitada vida renascente
e carne e riso
Olhamo-la encher tudo
e vamos cada qual às nossas compras
Já nada em nossos bolsos pesa nem pecados
de novo estamos disponíveis para a Primavera
e muito pequeninamente adormecemos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 99 | Editorial Presença Lda., 1984
A praça é muito grande para uma criança
Ela estranha as pessoas do jardim,
criança abandonada, limitada vida renascente
e carne e riso
Olhamo-la encher tudo
e vamos cada qual às nossas compras
Já nada em nossos bolsos pesa nem pecados
de novo estamos disponíveis para a Primavera
e muito pequeninamente adormecemos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 99 | Editorial Presença Lda., 1984
523
Ruy Belo
Ode do homem de pé
"O que vês, escreve-o"
Apoc., I,11
Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo
pelos passos lentos como o rolar dos anos
pelos dias vulgares cheios de maçãs
pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco
pelas crianças mal vestidas para a vida
nos bicos dos pés te saúdo
pela paixão que transferiu campaspe
do amor de alexandre então dono do mundo
pra o coração de apeles pintor pobre
que tinha como dom o simples dom de olhar
por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos
pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo
Oh como o sofrimento purifica minha rua
Ele passa-nos as mãos por todo o corpo
desce por nós como um olhar de mãe
e a mais agasalhada vida vê-se nua
Voz justificação de toda esta arquitectura que somos
chove a meu lado atrás de mim na minha frente
Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva
peço o teu concurso para cantar a rua à chuva
Rua onde as casas olham quase com desgosto
aquela que a seu lado é demolida
onde eu pecador me confesso e agradeço
este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira
passadas já segunda terça e quarta
e poder erguer as duas mãos acima da terra
rua onde passaram os meus pais
onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos
onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã
e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi
rua onde tudo ganhei tudo logo perdi
onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores
e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações
que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças
onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de todos os dias
e muitas outras coisas que depois esqueci
rua que me levaste a tanto sonho vão
que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer
bem pouco basta minha rua para fazer feliz o homem:
acender por exemplo repentinamente a luz
na sala onde pairava um certo mal-estar
o que dissipa como que para sempre a sua triste condição
Ou então na morte do escritor amigo recitar
o elogio fúnebre de há muito preparado
que se haverá de matar ainda mais o morto
a ele vivo terá por força de o imortalizar
Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida
A inquietação que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz
quando de pernas excessivamente livres
cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos
quando se me exigia o sacrifício dos olhares
e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida
Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua
ao fim de ti nem há já esse pequeno almoço
aonde pelo menos qualquer coisa começava
Não disponho de alento para muitos anos
Sinto-me velho: nasci em 33 estamos em 60
vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar
incapaz de lutar mandar obedecer
como que fiquei sempre à espera da maioridade
É tempo de assistir aos funerais dos amigos
começo a estar bom para jazer
«bom é acabar» - dizia o vice-rei
Já sou de deus deixei de ter idade rua
ele passou a ser a minha própria idade
não me levou em conta o céu antecipado
e se algum dia porventura alguma criatura me moveu
o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua
Se título algum tive já me vai caindo
só deus é minha veste e minha história
Que ele me abra ó rua a porta da palavra
Agora que por fim alguém em sua voz me chama
pelos rostos presentes pelo grande ausente
que me livrou num tempo de injustiça por tudo
ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 55 a 57 | Editorial Presença Lda., 1984
Apoc., I,11
Rua ferida pelo sol mais uma vez te saúdo
pelos passos lentos como o rolar dos anos
pelos dias vulgares cheios de maçãs
pela timidez que na loja nos assalta de pedir o troco
pelas crianças mal vestidas para a vida
nos bicos dos pés te saúdo
pela paixão que transferiu campaspe
do amor de alexandre então dono do mundo
pra o coração de apeles pintor pobre
que tinha como dom o simples dom de olhar
por tantas coisas belas que ficaram fora dos meus versos
pelos rostos presentes pelo grande ausente por tudo
Oh como o sofrimento purifica minha rua
Ele passa-nos as mãos por todo o corpo
desce por nós como um olhar de mãe
e a mais agasalhada vida vê-se nua
Voz justificação de toda esta arquitectura que somos
chove a meu lado atrás de mim na minha frente
Eu mero obstáculo à incondicional vitória da chuva
peço o teu concurso para cantar a rua à chuva
Rua onde as casas olham quase com desgosto
aquela que a seu lado é demolida
onde eu pecador me confesso e agradeço
este milagre de estar vivo ainda na quinta-feira
passadas já segunda terça e quarta
e poder erguer as duas mãos acima da terra
rua onde passaram os meus pais
onde invejei pela primeira vez o vinco das calças dos adultos
onde compartilhei com estranhos a estrela da manhã
e chorei a queda do maior amigo que não sei quem foi
rua onde tudo ganhei tudo logo perdi
onde assisti ao convívio silencioso das mais diversas árvores
e vi van gogh o holandês entre elas esperar as estações
que vinham alegres e submissas de mãos dadas com crianças
onde pensei que a dança liberta da condição de seres poisados que todos temos na vida de todos os dias
e muitas outras coisas que depois esqueci
rua que me levaste a tanto sonho vão
que me viste passar neste meu corpo sem nunca o conhecer
bem pouco basta minha rua para fazer feliz o homem:
acender por exemplo repentinamente a luz
na sala onde pairava um certo mal-estar
o que dissipa como que para sempre a sua triste condição
Ou então na morte do escritor amigo recitar
o elogio fúnebre de há muito preparado
que se haverá de matar ainda mais o morto
a ele vivo terá por força de o imortalizar
Inútil inverter-te como antes rua para renovar a vida
A inquietação que eu sentia quando me esquecia do sinal da cruz
quando de pernas excessivamente livres
cingia não de cruz mas sim de coração os inúteis caminhos
quando se me exigia o sacrifício dos olhares
e era meu dever nunca fazer ruído algum ao passar pela vida
Deixou de ser uma aventura atravessar-te rua
ao fim de ti nem há já esse pequeno almoço
aonde pelo menos qualquer coisa começava
Não disponho de alento para muitos anos
Sinto-me velho: nasci em 33 estamos em 60
vou fazer vinte anos. Isento do serviço militar
incapaz de lutar mandar obedecer
como que fiquei sempre à espera da maioridade
É tempo de assistir aos funerais dos amigos
começo a estar bom para jazer
«bom é acabar» - dizia o vice-rei
Já sou de deus deixei de ter idade rua
ele passou a ser a minha própria idade
não me levou em conta o céu antecipado
e se algum dia porventura alguma criatura me moveu
o deus que é também teu há muito o esqueceu já ó rua
Se título algum tive já me vai caindo
só deus é minha veste e minha história
Que ele me abra ó rua a porta da palavra
Agora que por fim alguém em sua voz me chama
pelos rostos presentes pelo grande ausente
que me livrou num tempo de injustiça por tudo
ao fim de ti ó rua te saúdo mais uma vez te saúdo
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 55 a 57 | Editorial Presença Lda., 1984
1 663
Fiama Hasse Pais Brandão
Nada tão silencioso como o tempo
Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
2 241
Ruy Belo
Friso de raparigas de Jerusalém
Raparigas no lusco-fusco recortadas
prestes a entoar o cântico da noite
e envoltas no inconsútil tule da sua juventude
dispostas a rasgar os véus vigilantes dos sonhos
são compridos ciprestes soerguidos sobre
as colinas que dezassete vezes viram
destruir a cidade de Jerusalém
Os amados virão quando vier o sábado
pais e mães jazerão sob a pedra da idade
e então elas sozinhas e suaves pensarão
em quem antes do verão virá em nuvens quentes de vapor
E por uma manhã de luz ainda rasa
toucadas de alegria e de neblina
elas hão-de passar a pertencer-lhes e
eles serão seus donos como de uma casa
A sombra adensa-se e condensa-se nos vales
e as mesmas estrelas que séculos antes
olharam cintilantes já as águas do dilúvio
hão-de furar o manto envolvente da noite
Será então a hora de as eternas raparigas
levantando nas mãos as ansiosas ânforas
derramarem o liquido das vozes sobre essa cidade
se dezassete vezes destruída já dezoito construída
E através do tempo os braços dessas raparigas
ligados uns aos outros pela seiva da imorredoura juventude
insistirão na transmissão da vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1981
prestes a entoar o cântico da noite
e envoltas no inconsútil tule da sua juventude
dispostas a rasgar os véus vigilantes dos sonhos
são compridos ciprestes soerguidos sobre
as colinas que dezassete vezes viram
destruir a cidade de Jerusalém
Os amados virão quando vier o sábado
pais e mães jazerão sob a pedra da idade
e então elas sozinhas e suaves pensarão
em quem antes do verão virá em nuvens quentes de vapor
E por uma manhã de luz ainda rasa
toucadas de alegria e de neblina
elas hão-de passar a pertencer-lhes e
eles serão seus donos como de uma casa
A sombra adensa-se e condensa-se nos vales
e as mesmas estrelas que séculos antes
olharam cintilantes já as águas do dilúvio
hão-de furar o manto envolvente da noite
Será então a hora de as eternas raparigas
levantando nas mãos as ansiosas ânforas
derramarem o liquido das vozes sobre essa cidade
se dezassete vezes destruída já dezoito construída
E através do tempo os braços dessas raparigas
ligados uns aos outros pela seiva da imorredoura juventude
insistirão na transmissão da vida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1981
1 021
Ruy Belo
Cerimonial
Eu vou colhendo com unção os dias
conforme tu os confias
à minha mão:
leves vestes que enfio
quando me despe o coração.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 36 | Editorial Presença Lda., 1984
conforme tu os confias
à minha mão:
leves vestes que enfio
quando me despe o coração.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 36 | Editorial Presença Lda., 1984
1 316
Ruy Belo
Metamorfose
Ó homem que passas tranquilo na rua
atrás de qualquer próximo perfume
e chegas a casa sem incidentes
ó homem que tens à espera de ti
virada a esquina da rua e do tempo o teu próprio rosto
não tenhas pena de quem morre
de árvore para árvore
e é diferente no principio e no fim da rua
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
atrás de qualquer próximo perfume
e chegas a casa sem incidentes
ó homem que tens à espera de ti
virada a esquina da rua e do tempo o teu próprio rosto
não tenhas pena de quem morre
de árvore para árvore
e é diferente no principio e no fim da rua
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 22 | Editorial Presença Lda., 1984
1 488
Ruy Belo
Canção do lavrador
Meus versos lavro-os ao rubro
neste página de terra
que abro em lábios. Descubro-
-lhe a voz que no fundo encerra
Os versos que faço sou-os
A relha rasga-me a vida
e amarra os sonhos de voos
que eu tinha à terra ferida
Poema que mais que escrevo
devo-te em vida. No húmus
a regos simples eu levo
os meus desvairados rumos
Mas mais que poema meu
(que eu nunca soube palavra)
isto que dispo sou eu
Poeta não escrevas lavra
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 34 e 35 | Editorial Presença Lda., 1984
neste página de terra
que abro em lábios. Descubro-
-lhe a voz que no fundo encerra
Os versos que faço sou-os
A relha rasga-me a vida
e amarra os sonhos de voos
que eu tinha à terra ferida
Poema que mais que escrevo
devo-te em vida. No húmus
a regos simples eu levo
os meus desvairados rumos
Mas mais que poema meu
(que eu nunca soube palavra)
isto que dispo sou eu
Poeta não escrevas lavra
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 34 e 35 | Editorial Presença Lda., 1984
2 717
Ruy Belo
Homem perto do chão
Na primavera quando as tardes se arredondam
e já nas praias nascem as primeiras ondas
e volta sobre o mar a ave solitária
o homem enche de ar o peito vespertino
arranca o corpo à chuva e às nuvens do inverno
e chega a ter desejos de ficar
Mas em que rosto isento de contradição
há-de ele peregrino erguer a tenda?
Não abrem na cidade à sua frente as ruas
caminha ante deus como se visse
esse deus invisível
Florescem quando passa contraditórios clarins
cantando cada um sua ideia diversa
nenhuma o levará à pátria que procura
Tenham outros tambores ele tem
a pesada cabeça entre as mão caída
Ele que desça ao fundo de todos os olhos
que nos trazem a alma à flor da pele
também não serão lá o coração ou a infância
Quando a tarde morrer ou o outono vier
do seu olhar é que as aves todas partirão
Aí temos um homem perto como nunca nem ninguém do chão
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 20 e 21 | Editorial Presença Lda., 1984
e já nas praias nascem as primeiras ondas
e volta sobre o mar a ave solitária
o homem enche de ar o peito vespertino
arranca o corpo à chuva e às nuvens do inverno
e chega a ter desejos de ficar
Mas em que rosto isento de contradição
há-de ele peregrino erguer a tenda?
Não abrem na cidade à sua frente as ruas
caminha ante deus como se visse
esse deus invisível
Florescem quando passa contraditórios clarins
cantando cada um sua ideia diversa
nenhuma o levará à pátria que procura
Tenham outros tambores ele tem
a pesada cabeça entre as mão caída
Ele que desça ao fundo de todos os olhos
que nos trazem a alma à flor da pele
também não serão lá o coração ou a infância
Quando a tarde morrer ou o outono vier
do seu olhar é que as aves todas partirão
Aí temos um homem perto como nunca nem ninguém do chão
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 20 e 21 | Editorial Presença Lda., 1984
1 191
Ruy Belo
Última vontade
Quando a sereia se ouvir
no coração desolado como uma cidade
recorda que te procurámos através das árvores
E tu escondias-te por trás dos frutos
e recolhíamos as mãos
cheias apenas de tempo
Sempre brincaste connosco
desde os dias da nossa juventude
Puseste-nos nos olhos
estação sobre estação e a vida dava as mãos
de árvore para árvore à volta da terra
Ia de ramo morto para ramo vivo
como um pássaro mais e nós ríamos
na tua transparência
Fechem-se-te agora os lábios
sobre a palavra que somos
Perdoa se algum dia
errámos com o coração
Não nos deixes morrer longe de jerusalém
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 30 e 31 | Editorial Presença Lda., 1984
no coração desolado como uma cidade
recorda que te procurámos através das árvores
E tu escondias-te por trás dos frutos
e recolhíamos as mãos
cheias apenas de tempo
Sempre brincaste connosco
desde os dias da nossa juventude
Puseste-nos nos olhos
estação sobre estação e a vida dava as mãos
de árvore para árvore à volta da terra
Ia de ramo morto para ramo vivo
como um pássaro mais e nós ríamos
na tua transparência
Fechem-se-te agora os lábios
sobre a palavra que somos
Perdoa se algum dia
errámos com o coração
Não nos deixes morrer longe de jerusalém
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 30 e 31 | Editorial Presença Lda., 1984
1 314
Sophia de Mello Breyner Andresen
Meio da Vida
Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra
A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra
A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida
2 440
Sophia de Mello Breyner Andresen
Goyesca
Um infinito ardor
Quase triste os veste,
Semelhante ao sabor
Que tem à noite o vento leste.
Bailam na doçura amarga
Da tarde brilhante e densa
E cada gesto que se alarga
Tem a morte em si suspensa.
Quase triste os veste,
Semelhante ao sabor
Que tem à noite o vento leste.
Bailam na doçura amarga
Da tarde brilhante e densa
E cada gesto que se alarga
Tem a morte em si suspensa.
1 882
Sophia de Mello Breyner Andresen
Paráfrase
«Antes ser na terra escravo de um escravo
Do que ser no outro mundo rei de todas as sombras»
Homero, Odisseia
Antes ser sob a terra abolição e cinza
Do que ser neste mundo rei de todas as sombras
Do que ser no outro mundo rei de todas as sombras»
Homero, Odisseia
Antes ser sob a terra abolição e cinza
Do que ser neste mundo rei de todas as sombras
2 677
Nuno Júdice
Passado
Passou o vento, passou o dia,
passou a noite e a manhã.
passou o tempo, passou a gente,
passou cada hora de amanhã;
passou um canto esquecido
nos cantos de cada passo,
passou ao dizer que passo
sem se lembrar do compasso;
passou a vida como se nada fosse,
só passou e foi-se embora,
passou à pressa sem demora,
e passou tudo a quem ficou;
e se mais não passou
no fim de tudo ter passado,
foi porque algo se passou
no último passo que foi dado.
Nuno Júdice | "Geometria Variável" | Publicações Dom Quixote, 2005
passou a noite e a manhã.
passou o tempo, passou a gente,
passou cada hora de amanhã;
passou um canto esquecido
nos cantos de cada passo,
passou ao dizer que passo
sem se lembrar do compasso;
passou a vida como se nada fosse,
só passou e foi-se embora,
passou à pressa sem demora,
e passou tudo a quem ficou;
e se mais não passou
no fim de tudo ter passado,
foi porque algo se passou
no último passo que foi dado.
Nuno Júdice | "Geometria Variável" | Publicações Dom Quixote, 2005
1 471
Susana Thénon
Eu
Eu vivo o tempo,
recomponho velhos verbos destroçados
nos fornos do frio
e me invento uma palavra para cada lágrima.
Eu saio para passear
e me inclino sobre as fontes vazias
para beijar minha boca inexistente.
Eu tenho o olhar cheio de sal
e corpos como estrelas de areia
e flores vorazes
que me consomem lentamente.
Eu vivo e tremo,
ressuscito e me arrasto pelo ar quente
das florações
e pelo olho sempre aberto do dia.
Eu, lua tíbia
me amando e morrendo.
recomponho velhos verbos destroçados
nos fornos do frio
e me invento uma palavra para cada lágrima.
Eu saio para passear
e me inclino sobre as fontes vazias
para beijar minha boca inexistente.
Eu tenho o olhar cheio de sal
e corpos como estrelas de areia
e flores vorazes
que me consomem lentamente.
Eu vivo e tremo,
ressuscito e me arrasto pelo ar quente
das florações
e pelo olho sempre aberto do dia.
Eu, lua tíbia
me amando e morrendo.
767
Susana Thénon
Mundo
Este é o mundo em que vivemos
os mendigos buenos aires século vinte
junto ao fumo descalço
flutuando sem asas sobre os tetos
efêmeros como pedacinhos de chocolate
inúteis como pássaros ocos.
Estes são nossos rostos que caem aos pedaços
enquanto o sol migra cansado de nos olhar
e o frio nos celebra com sua festa de morte.
Mas eu não quero esta sina de espantalho:
meu olfato busca ávido o cheiro da alegria
e minha pele se expande quando digo amor.
os mendigos buenos aires século vinte
junto ao fumo descalço
flutuando sem asas sobre os tetos
efêmeros como pedacinhos de chocolate
inúteis como pássaros ocos.
Estes são nossos rostos que caem aos pedaços
enquanto o sol migra cansado de nos olhar
e o frio nos celebra com sua festa de morte.
Mas eu não quero esta sina de espantalho:
meu olfato busca ávido o cheiro da alegria
e minha pele se expande quando digo amor.
721
Raquel Nobre Guerra
Quem nunca hesitou
Quem nunca hesitou na paragem do 28
e pensou: ali vai a metáfora da minha vida.
E nem por pensá-lo escapou ao açude
de mandar parar tanta gente só por si.
Não é possível ser feliz com tanta correspondência
e entre nós que vamos em itinerários românticos
a cruz na porta da tabacaria é tão-só o aviso
para lavar a cabeça contra o pessimismo.
Se não te aconchega o lumaréu de estar vivo
não te aflijas quando predizem a meteorologia
uma estação no inferno será sempre o destino
e pensou: ali vai a metáfora da minha vida.
E nem por pensá-lo escapou ao açude
de mandar parar tanta gente só por si.
Não é possível ser feliz com tanta correspondência
e entre nós que vamos em itinerários românticos
a cruz na porta da tabacaria é tão-só o aviso
para lavar a cabeça contra o pessimismo.
Se não te aconchega o lumaréu de estar vivo
não te aflijas quando predizem a meteorologia
uma estação no inferno será sempre o destino
1 426
Raquel Nobre Guerra
resistimos a todas as noites
resistimos a todas as noites não à nossa
tudo indica que se insinua levita até
uma primavera vulpe a que se somam
detalhes médicos gongóricos e um tanto
da metafísica para desatar esta malha em rodilha
uma oração disposta a todas as misérias
um golo certo para abrandamento cardíaco
mas continuamos gente, singular detalhe
paramos arrefecemos
neste mistério participado, entrelaço de que seguramos
firme a ponta para que nela recaia a substância
de efeitos mágicos
morremos, nós que morremos tão apenas
na hora conciliadora de todas as agulhas
de bordalo indiferente ao dedilhado
e desenrolamo-nos todos no chão
tudo indica que se insinua levita até
uma primavera vulpe a que se somam
detalhes médicos gongóricos e um tanto
da metafísica para desatar esta malha em rodilha
uma oração disposta a todas as misérias
um golo certo para abrandamento cardíaco
mas continuamos gente, singular detalhe
paramos arrefecemos
neste mistério participado, entrelaço de que seguramos
firme a ponta para que nela recaia a substância
de efeitos mágicos
morremos, nós que morremos tão apenas
na hora conciliadora de todas as agulhas
de bordalo indiferente ao dedilhado
e desenrolamo-nos todos no chão
1 261
José Miguel Silva
Fogo-Fátuo — Louis Malle (1963)
Se cada um fizesse a sua parte, o mundo seria
um lugar perfeito: a despovoada alegria
dos montes, as ruas esmaltadas de verdura,
os séculos sem rumo nem História.
Utopia menos dúbia não conheço do que esta.
E era tão simples: bastava que cada um
abdicasse um pouco do nó cego
a que chamamos eu, dessa falsa confiança,
uma vida a conta-gotas. Bastava
um tiro certeiro, um nó corredio, um saco
de plástico a fechar no pescoço. Mas não,
deixemo-nos de sonhos revolucionários:
a paz na Terra só virá por acidente
(vascular-cerebral, ao volante, o que for).
Somos todos egoístas, frívolos, vivos,
incapazes de um gesto despoluidor.
Eu próprio, que devia dar o exemplo
estou sentado na cozinha a tentar decidir-me
entre pão com manteiga e bolachas de centeio,
enquanto a chaleira, no fogão, assobia para o ar.
um lugar perfeito: a despovoada alegria
dos montes, as ruas esmaltadas de verdura,
os séculos sem rumo nem História.
Utopia menos dúbia não conheço do que esta.
E era tão simples: bastava que cada um
abdicasse um pouco do nó cego
a que chamamos eu, dessa falsa confiança,
uma vida a conta-gotas. Bastava
um tiro certeiro, um nó corredio, um saco
de plástico a fechar no pescoço. Mas não,
deixemo-nos de sonhos revolucionários:
a paz na Terra só virá por acidente
(vascular-cerebral, ao volante, o que for).
Somos todos egoístas, frívolos, vivos,
incapazes de um gesto despoluidor.
Eu próprio, que devia dar o exemplo
estou sentado na cozinha a tentar decidir-me
entre pão com manteiga e bolachas de centeio,
enquanto a chaleira, no fogão, assobia para o ar.
1 346
José Miguel Silva
Não é tarde
O amor é como o fogo, não se propaga
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.
Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.
Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida
não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.
onde o ar escasseia. Mas não te preocupes,
eu fecho mais a porta.
Gestos e paveias, acendalhas, o isqueiro
funciona! Poderoso combustível
é o corpo. Acende deste lado.
Ainda não é tarde, foi agora anunciado
pela rádio, são dezoito e vinte e cinco.
Respira-nos, repara, a ilusão de que a vida
não se esgota, como os saldos de Verão.
E a morte, à medida que te despes,
vai perdendo o nosso número de telefone.
1 227
Manuel António Pina
[Tudo à minha volta ]
Tudo à minha volta cumpre
um destino silencioso e incompreensível
a que algum deus fugaz preside.
Fora de mim, nas costas da cadeira
o casaco, por exemplo, pertence
a uma ordem indistinta e inteira.
Dava bem todo o meu sentido prático
pela sua quieta permanência em si e na cadeira.
A realidade dos livros em cima da mesa
parece tão estritamente real!
As filhas falam, barulhentas e reais,
e eu próprio, em qualquer sítio, sou real.
Sob este rio real
o rio que me arrasta, de palavras,
como dentro de mim ou fora de mim?
O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém,
como está neste lugar (qual?),
e como os livros na mesa?
O que fala falta-me
em que coração real?
É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
E, no entanto, alguém fala enquanto fujo,
e falo do que, em mim, foge.
Sem que palavras alguma coisa é real?
As filhas sabem-no não o sabendo
e falam alto fora de mim
sem falarem nem não falarem.
Em mim tudo é em alguém
em qualquer sítio escuro
como se houvesse um muro
entre o que fala (quem?)
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 136 e 137 | Assírio & Alvim, 2012
um destino silencioso e incompreensível
a que algum deus fugaz preside.
Fora de mim, nas costas da cadeira
o casaco, por exemplo, pertence
a uma ordem indistinta e inteira.
Dava bem todo o meu sentido prático
pela sua quieta permanência em si e na cadeira.
A realidade dos livros em cima da mesa
parece tão estritamente real!
As filhas falam, barulhentas e reais,
e eu próprio, em qualquer sítio, sou real.
Sob este rio real
o rio que me arrasta, de palavras,
como dentro de mim ou fora de mim?
O que pensa? Estou lá, ou está lá alguém,
como está neste lugar (qual?),
e como os livros na mesa?
O que fala falta-me
em que coração real?
É duro sonhar e ser o sonho,
falar e ser as palavras!
E, no entanto, alguém fala enquanto fujo,
e falo do que, em mim, foge.
Sem que palavras alguma coisa é real?
As filhas sabem-no não o sabendo
e falam alto fora de mim
sem falarem nem não falarem.
Em mim tudo é em alguém
em qualquer sítio escuro
como se houvesse um muro
entre o que fala (quem?)
Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", págs. 136 e 137 | Assírio & Alvim, 2012
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