Poemas neste tema

Paciência

Herberto Helder

Herberto Helder

Ii G

Pode colher-se na espera da árvore,
chama coada,
o fruto —
no feixe de linhas e fibras do corpo da madeira pelo sítio mais
rude,
mais intenso,
a madeira profunda, mas,
quem pensaria?, a alma da madeira:
nem orvalho nem seiva nem resina,
apenas a demora carbónica de ciclo em ciclo,
a demora dos nomes,
gota de luz cardeal:
um diamante —
pode colher-se o diamante,
pode-se entrar no inferno com a mão cerimonial à frente.
1 147
Fábio Roberto Rodrigues Belo

Fábio Roberto Rodrigues Belo

Passaporte

passeport

porque porta passo pra
poder te ver?

que passatempo fará resistir minha
paciência?

faço-me forte
saro-me o corte
temo a morte
caço a sorte
passaporte

por onde
o pássaro faz
seupercurso?

preciso ter alegria
paraguerrear...

per fas et nefas

persistamos
em
existir:
é o
que
im-porta.

984
Fernanda Benevides

Fernanda Benevides

O Plantador de Sonhos

O lavrador prepara a terra, lentamente.
Cultiva o solo com amor.
Alimenta o chão com carinho e devoção.
Cuidadoso, escolhe a semente.
E faz a plantação.
Semeia o trigo e nasce o joio.
Paciente, reinicia.
Planta roseira e brota baobá.
Cauteloso, extirpa-o.
E recomeça.
A vegetação viça.
Súbito, vem o estio.
As plantas secam.
E continua...
A flor renasce.
E vem a inundação.
Não desiste.
Rega a poesia.
Na certeza de um dia,
colher a flor tardia.

(in, A ROSA - FÊNIX)
Fortaleza - Ce, 1997

1 059
Adélia Prado

Adélia Prado

Fraternidade

Um dia
um padre que fazia milagres
deu sua bênção pro povo:
mulheres de cabacinha de ouro na orelha,
homens de camisa cor-de-rosa,
menino de todo jeito e de terninho.
Galho de funcho, arruda, manjericão,
cheiravam junto com o povo apertado no pátio.
Tudo ótico, olfático, escatológico.
A paciência de Deus sentou de pernas cruzadas
na platibanda da igreja. Com uma mão pitava,
com a outra segurava o joelho,
piscando um código pra Murilo Mendes
que rolava de rir.
1 046
Adélia Prado

Adélia Prado

Hora do Ângelus

A poesia é pura compaixão.
Até grávida posso ficar,
se lhe aprouver um filho apelidado Francisco.
Tem mesmo alguma coisa no mundo
que obriga o mundo a esperar.
O carroceiro pragueja: ô deus,
a minha lida é mais dura
que a lida de um retireiro.
Sem paciência, a beleza turva-se,
esta que sobre as tardes se inclina
e faz defensáveis
areias, ervas, insetos,
este homem que jamais disse a palavra crepúsculo.
1 103
Adélia Prado

Adélia Prado

A Invenção de Um Modo

Entre paciência e fama quero as duas,
pra envelhecer vergada de motivos.
Imito o andar das velhas de cadeiras duras
e se me surpreendem, explico cheia de verdade:
tô ensaiando. Ninguém acredita
e eu ganho uma hora de juventude.
Quis fazer uma saia longa pra ficar em casa,
a menina disse: ‘Ora, isso é pras mulheres de São Paulo.’
Fico entre montanhas,
entre guarda e vã,
entre branco e branco,
lentes pra proteger de reverberações.
Explicação é para o corpo do morto,
de sua alma eu sei.
Estátua na Igreja e Praça
quero extremada as duas.
Por isso é que eu prevarico e me apanham chorando,
vendo televisão,
ou tirando sorte com quem vou casar.
Porque tudo que invento já foi dito
nos dois livros que eu li:
as escrituras de Deus,
as escrituras de João.
Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão.
1 291
Adélia Prado

Adélia Prado

Agora, Ó José

É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
o que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”,
“Tu és pedra e sobre esta pedra”,
a pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.
1 656
Adélia Prado

Adélia Prado

Fragmento

Bem-aventurado o que pressentiu
quando a manhã começou:
não vai ser diferente da noite.
Prolongados permanecerão o corpo sem pouso,
o pensamento dividido entre deitar-se primeiro
à esquerda ou à direita
e mesmo assim anunciou paciente ao meio-dia:
algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda,
um vento bom entra nessa janela.
902
José Saramago

José Saramago

Tenho a Alma Queimada

Tenho a alma queimada
Por saliva de sapo
Fingindo que descubro
Tapo
A palavra me infecta
Sob a pele da aparência
Deito o certo remédio
Paciência
Neste mal não se vive
Mas também ninguém morre
Quando a ave não voa
Corre
Quem às estrelas não chega
Pode vê-las da terra
Quem não tem voz de cantar
Berra
1 072
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Mensagem À Poesia

Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu
encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso
reconquistar a vida.
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado — não a magoem... — que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente

Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.

Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí.
Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la.
A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim.
Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz.
Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo.
Talvez eu deva
Morrer sem vê-la mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia.
Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia.
Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.
1 156
Martha Medeiros

Martha Medeiros

sou capaz dos gestos mais nobres

sou capaz dos gestos mais nobres
nem eu consigo me aceitar assim tão justa
chego a parecer loira, pálida e profunda
nada me detém, sou a dignidade em pessoa
ninguém diria que uma criatura como eu
pudesse ser tão boa, uma santa, uma alma
do outro mundo


mas se acordo atordoada, sou capaz de
armar um circo
solto fogo pelas ventas, não resmungo, grito mesmo
ninguém me aguenta, sou herege, estúpida,
ruim como o diabo
me escondo em qualquer beco, rabugenta
bem no fundo do buraco, a cara cheia de
olheiras
argh! que eu sou de lascar quando eu quero


haja paciência ou sabedoria
ou pouco caso ou em ego imenso
ou isso tudo
para enfrentar o céu e o inferno a cada
vinte minutos
1 168
Martha Medeiros

Martha Medeiros

estarei em torno dos quarenta

estarei em torno dos quarenta
já terei passado pela Grécia e pelo Egito
e por algumas dificuldades
terei mais rugas, não morarei mais nesta rua
meus manuscritos estarão publicados
terei dois filhos e voltarei a ler os livros
que li na adolescência
terei um pouco mais de paciência, menos medo
da verdade e vou deixar de herança
um segredo enfim revelado
1 093
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ODE IN CONSOLATION FOR MISFORTUNE

He that would conquer must a soldier be.
He that a soldier will be must be made
To bear all the hard preface of his trade,
        All the rough training must he bear
Whereby he shall the conqueror
……

All pain, all failure and all woe ­
These are but training we must undergo
Ere those heights of ourselves we full can reach
        Whence God has things to teach
And the discarnate fate that girds us round
        Still more to teach and more to wound.

With patience and with fortitude
        Bear thou thy training rude,
Support with grace thy masters that are days
        Made of pain and amaze,
Thy potion take, even it that potion look
That Socrates for his divinity took.

To Aesculape the cock immolate,
        To the Masters of thy fate
Abandon life, thyself strong above all
        Thy power to let things thee appall,
By the sole virtue of thy power set far
        Over thy power to feel fate's war.

The rest, that thing that shall remain of thee
        When land and sky and sea
Alike are mist in thy unseeing eyes,
        This shall nowise
Mater, nor all when all is thine abode,
        Nor God himself when all is God.
1 404
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Além do Ponto

de algum modo ele havia me localizado de novo – ele estava no telefone – falando
sobre os velhos tempos –
que fim será que levou Michael ou Ken ou
Julie Anne? –
e você lembra...?

– também
havia seus problemas atuais –

– ele era um falante – sempre tinha sido um
falante –

e eu tinha sido um
ouvinte

eu tinha escutado porque não queria
magoá-lo
pedindo que ele calasse a boca
como os outros
faziam
nos velhos
tempos

agora
ele estava de volta

e
eu segurei o fone longe da orelha
braço esticado
e ainda conseguia escutar o
som –
eu dei o fone à minha namorada e
ela ouviu por um
tempo –

afinal
peguei o fone e disse a ele –

ei, cara, a gente precisa encerrar, a carne tá queimando
no forno!

ele disse, ok, cara, eu te ligo
de volta –

(uma coisa eu lembrava do meu
velho amigo: ele cumpria o que
prometia)

coloquei o fone de volta no
gancho –

– nós não temos nenhuma carne no
forno, disse a minha
namorada –

– sim, nós temos, eu disse a ela,
sou eu.
944
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Duas horas te esperei./Duas mais te esperaria.

Duas horas te esperei.
Duas mais te esperaria.
Se gostas de mim não sei...
Algum dia há-de ser dia...
1 334
Rui Queimado

Rui Queimado

Nunca Fiz Cousa de Que Me Tam Bem

Nunca fiz cousa de que me tam bem
achasse come de quanto servi
sempr'ũa dona, des quando a vi,
que amei sempre mais ca outra rem;
ca, de pram, quanto no mundo durei,
os dias que a servi, gaanhei
- e tantos houv'end', a prazer de mi.

E tenho que me fez Deus mui gram bem
em me fazer tam bõa don'amar
e de a servir e nom m'enfadar,
nem tee-lh'o mal, que me faz, em rem;
e de me dar coraçom de teer
por bem quanto m'ela quiser fazer
e atender temp'e nom me queixar.

E de pram, sempre des que lh'eu quis bem,
maior ca mi e com maior razom,
sempre eu coidei que verria sazom
que lh'ousaria eu algũa rem
dizer do bem que lh'eu quer'! E estou
atendend'aquel temp'! E nom chegou!
Pero estou led'em meu coraçom,

porque quero tam bõa dona bem,
de que sei ca nunca me mal verrá;
ca se morrer por ela, prazer-mi-á!
Se mi ar quiser fazer algũa rem
como nom moira, fará mui melhor;
e ben'o pode fazer mia senhor,
ca tod'aqueste poder ben'o há;

e em fazer em mim quanto quiser
e em valer mui mais doutra molher
em parecer e em tod'outro bem.
570
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Enquanto Longe Divagas

I
Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
— Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
— Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das sombras
— Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
— Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem toiro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba
II
O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como ave no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso
III
Pois no ar estremece tua alegria
— Tua jovem rijeza de arbusto —
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso
Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso
Junho de 1974
1 338
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Soneto a Jacó

Sete anos de pastor Jacó servia
Raquel, e não seu pai, como se conta,
mas um dia, no fim, lhe desaponta
a evidência do amor, porque de Lia.

Outros sete anos serve, e não tem conta
a conta que ele conta, cada dia,
porque, se era Raquel que pretendia,
não reclama Jacó, do tempo, a monta.

Não diz, no entanto, a história sem sabença,
quanto lhe deu Raquel de indiferença,
que o fez renunciar a todo o encanto.

Que amor é negação do entendimento
pois se nutre de fome, tanto quanto
se nutre de presença e de alimento.
961
José Saramago

José Saramago

Hibernação

No regaço do tempo me conchego:
Passam e passam os dias em modorra
E bolor, que os gestos entorpece.

Não há nesta dormência outro sossego
Que estar ciente o corpo da desforra,
Se a hora prometida lhe amanhece.
1 105
Frederico Barbosa

Frederico Barbosa

Av Brasil, SP, 1987

flor de farol
colhida às pressas
entre o tédio maquinal da marcha lenta

sinal
de diferença
em meio à indiferença metálica
desses corpos impessoais
na agonia
da imobilidade densa

semáforo
signo insano
ensaio de abalo sísmico
lente de aumento
no amor e na impaciência


In: BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990. Poema integrante da série 2 - Geografias
1 193
Felipe Larson

Felipe Larson

EXPERIÊNCIA PRIMÁRIA

Olhares buscam o que fazer
Cruzam e entram no que quiserem ter
Mostram-se em desejos internos
Propondo amor, ódio e outras intenções.

Um sexto sentido, uma certa magia.
E tudo está tão confuso
Que eu não sei qual é a direção
E nem o sentido de tudo

Mas claro que tudo se resolve
Com muita calma e paciência
E três simbolos dizem tudo
Água, Fogo e ar.

Sei que o infinito existe
Mas em que universo eu encontro?
Mas está tudo fora do meu alcance
Tão distante que eu não sei que forma tem

Estranho pensar nessas coisas agora
Mas nada deve ser previsível
Senão não teria graça nenhuma
Se tivermos as respostas tão fáceis

Eu sou a inocência
A experiência primária

614
Mario Benedetti

Mario Benedetti

Memorandum

Um chegar e incorporar-se o dia
Dois respirar para subir a ladeira
Três não jogar-se em uma só aposta
Quatro escapar da melancolia
Cinco aprender a nova geografia
Seis não ficar-se nunca sem a sesta
Sete o futuro não será uma festa e
Oito não assustar-se ainda
Nove vai a saber quem é o forte
Dez não deixar que a paciência ceda
Onze cuidar-se da boa sorte
Doze guardar a última moeda
Treze não tratar-se com a morte
Catorze desfrutar enquanto se pode

2 664
Manuel Sobrinho

Manuel Sobrinho

Trovas

Amigos, quantos tiveres,
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...

Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.

Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista

És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...

É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.

776
Carolina Vigna Prado

Carolina Vigna Prado

Custos

Você ainda se surpreende. Mérito meu.
Você ainda gosta. Mérito seu.
Custo a compreender sua lógica, se é que existe uma.
Custo a compreender minhas razões. Elas não existem.
Enquanto isso,
você pensa em custos.
Tenho a absoluta certeza de nossa temporalidade.
Me irrito com o desperdício.
Me falta a paciência, me falta tempo.
O tempo é pouco, sempre será.
A consciência da morte não me desespera, apenas me apressa.
Não temos tempo. Nunca o teremos.
Não bastamos.
Seu egocentrismo exacerbado destrói seu prazer.
E você pensa em custos.
Custos.
Que custos?
Não somos únicos.
Não somos os melhores.
Nunca o seremos.

792