Citações neste tema
Vida e Existência
Karl Kraus
Uma pessoa que começou a contar-me as suas lembranças tinha uma voz que rangia como o portão do passado.
68
Karl Kraus
Contra isso, a tendência deslocadora de valores do jornalismo nada pode fazer. Ele pode dar certificados de garantia válidos por um século para os relógios aos quais dá corda: eles já estão parados quando o comprador saiu da loja. O relojoeiro diz que a culpa é do tempo, e não do relógio, e gostaria de fazer aquele parar a fim de salvar a reputação do relógio. Ele fala mal da hora ou a condena a um silêncio de morte. Mas o génio da hora segue em frente e faz amanhecer e anoitecer, embora o mostrador queira outra coisa. Quando ele bate dez horas e mostra onze, podemos contar que é meio-dia, e o sol dá risada dos relojoeiros ofendidos.
65
Karl Kraus
Uma das mais surpreendentes descobertas que o novo século nos trouxe é sem dúvida o facto de que em Die Fackel falo muitas vezes de mim mesmo, e ela é esfregada no meu nariz com um dos conhecimentos mais profundos que a sabedoria das almas contemplativas alguma vez alcançou, a saber, que o homem deve ser modesto. Alguns afirmam inclusive ter descoberto que publiquei o ensaio de S. sobre os dez anos de Die Fackel “no meu próprio jornal”. Tendo sido chamada a minha atenção, preciso confessar que é verdade. Não há dúvida de que jamais um escritor tornou a descoberta da vaidade mais fácil ao seu leitor. Pois se ele não percebeu por conta própria que sou vaidoso, ficou sabendo disso pelas minhas repetidas confissões de vaidade e pelas glorificações que fiz desse vício. O ridículo estar-por-dentro que descobre um calcanhar de Aquiles é, portanto, frustrado por uma intencionalidade que ele desnudou voluntariamente antes. Mas eu capitulo. Se a mais estéril objeção contra mim é levantada mesmo durante o décimo ano da minha incorrigibilidade, então réplicas não adiantam. Não posso infundir em corações de pergaminho a sensibilidade para a situação de legítima defesa em que vivo, para o privilégio de uma nova forma jornalística e para a coincidência desse aparente interesse próprio com os fins universais da minha atuação. Eles não são capazes de compreender que se alguém se confunde com uma causa sempre falará dela, sobretudo quando falar de si. Eles não são capazes de compreender que aquilo que chamam de vaidade é aquela modéstia que nunca se tranquiliza, que se mede segundo a sua própria medida e a possui em si, aquela vontade humilde de ascensão que se submete ao julgamento mais implacável, que é sempre o seu próprio. Vaidoso é o contentamento que jamais retorna à obra. Vaidosa é a mulher que nunca se olha no espelho. Ver-se no espelho é imprescindível à beleza e ao espírito. O mundo, porém, possui uma só norma psicológica para os dois sexos e confunde a vaidade de uma cabeça que se excita e se satisfaz na criação artística com o cuidado presunçoso que trabalha num penteado. Mas esse penteado não é mudo no convívio social? Ele é incapaz de enervar o próximo da maneira como faz a modéstia dos espíritos reprodutores.
68
Karl Kraus
Quando Deus viu que era bom, a crença humana sem dúvida lhe atribuiu a vaidade, mas não a insegurança do criador.
59
Karl Kraus
Homens criativos podem fechar-se à impressão das criações alheias. Por isso, muitas vezes assumem uma atitude de rejeição ao mundo, embora não raras vezes sintam a sua imperfeição.
84
Karl Kraus
O jornalismo, que conduz os espíritos para dentro do seu curral, conquista a sua pastagem entretanto. Jornalistas querem ser autores. Publicam-se antologias de folhetim nas quais nada causa mais espanto do que o trabalho não se ter desintegrado nas mãos do encadernador. Assa-se pão a partir de migalhas. O que lhes dá a esperança da permanência? O interesse permanente no material que eles “escolhem”. Alguém que tagarela sobre a eternidade não deveria ser ouvido enquanto a eternidade durar? Desta falácia vive o jornalismo. Ele tem sempre os maiores temas, e nas suas mãos a eternidade pode tornar-se atual; mas ela acaba envelhecendo com a mesma facilidade. O artista dá forma ao dia, à hora, ao minuto. Por mais limitado e condicionado temporal e espacialmente que seja o seu motivo, a sua obra cresce mais ilimitada e livremente quanto mais dele se afasta. Que ela envelheça serenamente no instante: ela rejuvenesce com o passar das décadas.
64
Karl Kraus
Se o conhecimento fosse um assunto do espírito, como poderia ele atravessar tantos espaços ocos para, sem deixar um traço da sua permanência, passar a tantos outros espaços ocos?
80
Karl Kraus
Um pensamento só é legítimo quando temos a sensação de que nos surpreendemos plagiando a nós mesmos.
59
Karl Kraus
Há uma dúvida produtiva que vai além de um ultimato morto. Eu poderia encher cadernos inteiros com os pensamentos que pensei até chegar a um pensamento, e volumes inteiros com aqueles que pensei depois.
68
Karl Kraus
Quando chegará o tempo em que se precisará informar no recenseamento o número de abortos feitos em cada casa?
66
Karl Kraus
O mundo está surdo das cadências. Tenho a convicção de que os acontecimentos absolutamente não acontecem mais, mas de que os clichés continuam a trabalhar automaticamente. Se, ainda assim, os acontecimentos devessem acontecer, sem serem intimidados pelos clichés, eles cessariam quando os clichés fossem destruídos. A coisa começa a apodrecer da língua. O tempo já cheira mal dos clichés.
75
Karl Kraus
Megalomania não é considerarmos-nos mais do que somos, mas considerarmos-nos aquilo que somos.
64
Karl Kraus
O que faz de mim a maldição da sociedade à margem da qual vivo é o modo súbito como renomes, caracteres e cérebros se revelam perante mim sem que eu precise desmascará-los. Alguém carrega a sua importância por anos a fio até que eu o alivie desse peso num momento imprevisto. Deixo-me enganar pelo tempo que quiser. Não é assunto meu “penetrar as intenções” das pessoas, e de modo algum me preparo para isso. Mas certo dia o meu vizinho coloca a mão na testa, sabe quem é e odeia-me. A fraqueza foge de mim e diz que sou inconstante. Tolero o comodismo porque não me pode fazer mal; certo dia, quando se tratar de um sim ou de um não, ele morrerá espontaneamente. Basta que alguma vez eu esteja certo em fazer algo que tenha cheiro de carácter ou que de algum modo me torne suspeito: a mentalidade revela-se automaticamente. Se for verdade que maus exemplos arruínam bons costumes, isso é válido em medida ainda maior para os bons exemplos. Qualquer um que tenha a força de ser um exemplo deforma o seu ambiente, e os bons costumes, que são o conteúdo da vida da má sociedade, correm sempre o risco de serem corrompidos. A insipidez tolera o meu comportamento enquanto ele se mantém em limites académicos; se o demonstro numa acção, porém, ela assusta-se e foge. Aguento o tédio por muito mais tempo do que ele a mim. Dizem que sou intolerante. O contrário é verdadeiro. Posso relacionar-me com as pessoas mais tediosas sem o notar. Estou tão ocupado comigo mesmo a cada momento que nenhuma conversa me pode fazer mal. Para a maioria, a vida social é um banho de imersão em que se submerge a cabeça; a mim, ela mal me umedece os pés. Nenhuma anedota, nenhuma recordação de viagem, nenhuma dádiva do cofre do conhecimento, numa palavra, aquilo que as pessoas consideram ser o suprassumo da conversação, é capaz de deter a minha actividade interior. Em todas as épocas, a força criadora causou maior mal-estar à impotência do que esta a ela. A partir disso se explica porque a minha companhia se torna insuportável a tanta gente e que perseverem ao meu lado apenas em razão de uma cortesia despropositada. Seria coisa fácil para mim ir ao encontro daqueles que sempre precisam de ser estimulados durante uma conversa. Por mais inculto que eu seja e por mais que eu entenda menos de astronomia, contraponto e budismo do que um recém-nascido, eu por certo seria capaz, mediante a habilidosa intercalação de perguntas, de simular um interesse e de demonstrar um conhecimento superficial que daria mais alegrias a um sabe-tudo do que um conhecimento especializado que o poderia envergonhar. Mas eu, que em toda a minha vida ainda não dei um passo ao encontro de necessidades que não reconheci como estimuladoras do espírito, mostro ser um completo malcriado nessas situações. E não, talvez, um malcriado que boceja — isso seria humano —, não, mas um malcriado que pensa! Ao mesmo tempo, desdenho comunicar os meus próprios dons ao indigente que padece suplícios de Tântalo diante dos seus conhecimentos adquiridos pela leitura e que precisa passar fome nos celeiros egípcios do conhecimento. Com um coração endurecido ao ponto da petrificação, chego a fazer piadas piores do que aquelas que me ocorrem, e não revelo nada daquilo que escrevo no meu bloco de notas entre dois goles de café. No dia em que, num momento de descuido, não me ocorrer nenhuma ideia e existir o risco de que a vida social penetre no meu cérebro, dou um tiro em mim.
80
Karl Kraus
Escreve-se de tal maneira sobre o tempo e o espaço como se fossem coisas para as quais ainda não se tivesse encontrado qualquer aplicação na vida prática.
69
Karl Kraus
Escreve-se de tal maneira sobre o tempo e o espaço como se fossem coisas para as quais ainda não se tivesse encontrado qualquer aplicação na vida prática.
69
Karl Kraus
Toda espécie de educação tem o propósito de tornar a vida insípida, quer dizendo como ela é, quer dizendo que ela não é nada. Somos confundidos por uma alternância constante, esclarecem-nos para cá e acalmam-nos para lá.
58
Karl Kraus
Alguém que nunca conheci cumprimenta-me na esperança de que, após tanto tempo, eu já tenha esquecido que nunca o conheci e retribua o cumprimento do novo conhecido como se ele fosse um conhecido antigo. Na verdade, não sei exatamente quem conheço; sei exatamente, porém, quem não conheço. Não há possibilidade de erro. No entanto, se isso alguma vez acontecesse, o cumprimento lembrar-me-ia a tempo de que não conheço o sujeito, e então lembrar-me-ia dele até ao fim dos meus dias. Quem foi que acabaste de — pergunta um velho conhecido. Tu não o conheces? Esse é aquele que acreditou que eu tinha esquecido que não o conheço!
83
Karl Kraus
É natural morrer por uma pátria na qual não se pode viver. Mas nesse caso, enquanto patriota, eu preferiria o suicídio de uma derrota.
77
Karl Kraus
Ver o trabalho individual ser suplantado em toda parte pelo maquinal é algo que nos toca de maneira melancólica. Apenas os defloradores ainda andam por aí, de cabeça erguida, convencidos de serem insubstituíveis. Os cocheiros falavam exatamente assim há vinte anos.
69
Karl Kraus
Um folhetinista — um corretor. O corretor também precisa ser rápido e conhecer a língua a fundo. Por que não o incluímos na literatura? A vida possui compartimentos. Aquele pode familiarizar-se com este e este com aquele, todos com todos. A fortuna é cega. Os acasos determinam o homem. Sabemos, por certo, o que somos, mas não sabemos o que poderemos vir a ser. Por que incluímos justamente o folhetinista na literatura?
68