Citações neste tema
Arte
Karl Kraus
A compreensão do meu trabalho é dificultada pelo conhecimento do meu material. As pessoas não compreendem que aquilo que aí está precisa de ser inventado primeiro, e que vale a pena inventá-lo. Assim como também não compreendem que um satírico para quem as pessoas existem como se ele as tivesse inventado precisa de mais força do que aquele que inventa as pessoas como se existissem.
76
Karl Kraus
A tristeza e a vergonha deveriam cobrir todas as pausas da verdadeira virilidade. Fora da criação, o artista tem a experimentar apenas a sua insignificância.
59
Karl Kraus
Os críticos e os apologistas são testemunhas indesejadas. Os que estão à margem metem os pés na água para demonstrar que ela está suja. Os que estão à margem enchem a mão em concha para mostrar a beleza do elemento.
64
Karl Kraus
Um artista que tem sucesso não deve baixar a cabeça. Ele só deve desesperar de si quando um embusteiro fracassa.
79
Karl Kraus
A lógica é a inimiga da arte. Mas a arte não precisa ser a inimiga da lógica. A lógica precisa ter experimentado o gosto da arte e ter sido completamente digerida por ela. Para afirmar que dois vezes dois é cinco, é preciso saber que dois vezes dois é quatro. Todavia, quem sabe apenas isso, dirá que aquilo é falso.
70
Karl Kraus
Esse escritor só era despudorado por puro pudor. Ele envergonhava-se tanto da sua moralidade que se cobriu com temas que escandalizavam o público.
70
Karl Kraus
Quem levou a sua pele ao mercado tem mais direito a mostrar-se sensível do que aquele que lá comprou uma roupa pechinchando.
58
Karl Kraus
A sátira não escolhe nem conhece objetos. Ela surge do facto de fugir deles e eles imporem-se a ela.
69
Karl Kraus
Não obstante, jamais ataquei uma pessoa por ela mesma, ainda que a tenha chamado pelo nome. Se fosse um jornalista, orgulhar-me-ia de criticar um rei. Mas visto que ataco a turba dos cocheiros, seria megalomania que um indivíduo se sentisse atingido. Caso mencione um deles, isso apenas ocorre porque o nome intensifica o efeito plástico da sátira. Depois de dez anos de trabalho artístico, as minhas vítimas deveriam estar suficientemente instruídas para reconhecer isto e finalmente desistir de se lamentar.
67
Karl Kraus
O que me apresentam como objeção é com frequência a minha premissa. Por exemplo, que a minha polémica ataca a existência.
61
Karl Kraus
Quando o impressor me mandou as provas deste livro, vi a minha vida dividida no sumário. Observei que a mulher ocupava dez páginas, mas o artista trinta. Ele deve isto a ela.
64
Karl Kraus
Tenho as experiências de que preciso diante da parede corta-fogo que vejo da minha secretária. Ali há espaço suficiente para a vida, e posso pintar Deus ou o Diabo nela.
64
Karl Kraus
O satirista nunca pode sacrificar algo mais elevado a um chiste, pois o seu chiste é sempre superior àquilo que sacrifica. Reduzido à opinião, o seu chiste pode causar injustiça; o pensamento tem sempre razão. Ele já coloca as coisas e as pessoas de tal modo que a nenhuma ocorra uma injustiça.
68
Karl Kraus
O palerma que não só não possui uma visão de mundo, mas também não a vê quando ela lhe é oferecida pela arte, precisa subtrair tanto de uma síntese satírica para a compreender até que sobre um nada, pois esse ele compreende, e pelo caminho do desmembramento, para ele transitável, chega aos motivos que o satírico deixou para trás e se identifica carinhosamente com o detalhe contra o qual, segundo a sua opinião, o satírico se dirigiu. O palerma também precisa sentir-se atingido por uma sátira que não lhe diz respeito ou acerta muito longe da sua esfera de interesses.
70
Karl Kraus
Considero meu direito inalienável colocar na forma artística que quiser o menor dos corpúsculos de sujeira que me tocar. Esse direito é um pobre equivalente do direito do leitor de não ler o que não lhe interessa.
66
Karl Kraus
Teatro de variedades. O humor da comédia-pastelão é hoje em dia o único humor com visão de mundo. Por ter um fundamento mais profundo, ele parece não ter fundamento, tal como a ação que oferece. Sem fundamento é o riso que ele provoca em nossa região. Quando uma pessoa acaba subitamente de quatro, trata-se de um efeito de contraste primitivo do qual corações simples não conseguem se esquivar. Uma compreensão mais refinada já pressupõe a representação de um mestre de cerimónias que se esborracha no parquê. Seria a demonstração do absurdo da dignidade, da pompa, da vida decorativa. A cultura da Europa Central oferece todos os pressupostos para a compreensão desse humor. O humor dos clowns não tem raízes aqui. Quando um deles salta sobre a barriga do outro, o que pode cativar é apenas a comicidade da mudança de posição, do acidente nunca visto. Mas o humor norte-americano é a demonstração do absurdo de uma vida em que o homem se tornou uma máquina. O trânsito flui sem obstáculos; por isso, é plausível que alguém entre voando pela janela e seja lançado pela porta, que leva com ele. A vida foi imensamente simplificada. Visto que o conforto é o princípio supremo, é algo óbvio que se pode obter cerveja fazendo um furo numa pessoa e segurando uma caneca debaixo da abertura. As pessoas dão golpes de picareta no crânio das outras e perguntam atenciosas: “O senhor notou isso?”. É uma interminável carnificina de máquinas, na qual não corre nenhum sangue. A vida tem um humor que caminha sobre cadáveres, sem machucar. Por que essa violência? Ela é apenas uma prova de força imposta à comodidade. Aperta-se um botão e um criado morre. O que for incómodo é tirado do caminho. Vigas dobram-se à vontade, tudo anda com desembaraço, ninguém está à toa. Mas, de repente, um pedaço de papel não quer parar no lugar. Ele não fica onde foi jogado por uma questão de comodidade, mas sempre volta a subir. Isso é incómodo, e a pessoa se vê obrigada a convencê-lo com o martelo. Ele ainda estremece. A pessoa quer abatê-lo a tiros. Ele é explodido com dinamite. Uma aparelhagem nunca vista é empregada para aquietá-lo. A vida tornou-se terrivelmente complicada. No fim, tudo vira uma grande confusão porque um objeto qualquer da natureza não quis se encaixar no sistema... Talvez um farrapo de sentimentalismo que um defraudador trouxe lá da Europa.
69
Karl Kraus
O que distingue Berlim de Viena ao primeiro olhar é a observação de que lá se consegue um efeito ilusório com o material mais desprovido de valor, enquanto aqui, na produção do kitsch, se emprega apenas material autêntico.
67
Karl Kraus
Não tenho objeções à literatura romanesca pela razão de que me parece conveniente que aquilo que não me interessa seja dito de maneira prolixa.
79
Karl Kraus
O Sol tem visão de mundo. A Terra move-se. Contradições no artista são contradições no observador, que não experimenta o dia e a noite ao mesmo tempo.
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