Poemas neste tema
Relações e Família
Bruna Lombardi
Cio
Quero dormir com você ou pelo menos
te dar um beijo na boca
o meu amor não tem pudor, nem acanhamento
não tem paciência, não aguenta mais
a urgência do desejo
e eu te olho, te olho, te olho
como se dissesse.
Penso ele há de perceber, me encosto um pouco
espero um gesto, um sinal, uma atitude
que eu possa interpretar como resposta
uma indicação
mas você é um homem sério e continua
se escondendo atrás dessas teorias
e nem te brilha no olho uma faísca de tentação.
ai, que aflição
pensar no que eu faria
se pudesse
desejo que não acontece
fica parado no peito
ai, vira obsessão.
te dar um beijo na boca
o meu amor não tem pudor, nem acanhamento
não tem paciência, não aguenta mais
a urgência do desejo
e eu te olho, te olho, te olho
como se dissesse.
Penso ele há de perceber, me encosto um pouco
espero um gesto, um sinal, uma atitude
que eu possa interpretar como resposta
uma indicação
mas você é um homem sério e continua
se escondendo atrás dessas teorias
e nem te brilha no olho uma faísca de tentação.
ai, que aflição
pensar no que eu faria
se pudesse
desejo que não acontece
fica parado no peito
ai, vira obsessão.
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1
Ada Ciocci
Minha casa
Minha casa hoje,
tem janelas abertas para o nascente,
para o poente,
e,
também para a larga estrada,
aquela que conduz ao limite,
pela frente.
Minha casa solitária,
Branca e alta,
embora esteja plantada em estéril campo,
é toda circundada de verde, paz e silêncio.
Nova e antiga casa,
onde o Amor e a Esperança,
ainda são uma constante.
tem janelas abertas para o nascente,
para o poente,
e,
também para a larga estrada,
aquela que conduz ao limite,
pela frente.
Minha casa solitária,
Branca e alta,
embora esteja plantada em estéril campo,
é toda circundada de verde, paz e silêncio.
Nova e antiga casa,
onde o Amor e a Esperança,
ainda são uma constante.
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1
Ada Ciocci
Minha casa
Minha casa hoje,
tem janelas abertas para o nascente,
para o poente,
e,
também para a larga estrada,
aquela que conduz ao limite,
pela frente.
Minha casa solitária,
Branca e alta,
embora esteja plantada em estéril campo,
é toda circundada de verde, paz e silêncio.
Nova e antiga casa,
onde o Amor e a Esperança,
ainda são uma constante.
tem janelas abertas para o nascente,
para o poente,
e,
também para a larga estrada,
aquela que conduz ao limite,
pela frente.
Minha casa solitária,
Branca e alta,
embora esteja plantada em estéril campo,
é toda circundada de verde, paz e silêncio.
Nova e antiga casa,
onde o Amor e a Esperança,
ainda são uma constante.
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1
José Craveirinha
Eles foram lá
Vovó
amanhã não precisa
ir ao hospital.
Ontem eles foram lá
deram maningue tiros
partiram tudo, tudo
mataram doentes
mutilaram o senhor enfermeiro
e violaram a senhora parteira.
Outros doentes privilegiados
foram carregar na cabeça
farinha açucar e arroz
da cooperativa
...
Foram."
amanhã não precisa
ir ao hospital.
Ontem eles foram lá
deram maningue tiros
partiram tudo, tudo
mataram doentes
mutilaram o senhor enfermeiro
e violaram a senhora parteira.
Outros doentes privilegiados
foram carregar na cabeça
farinha açucar e arroz
da cooperativa
...
Foram."
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1
Geraldo Bessa-Victor
Quando surges na noite
Quando surges na noite, quando avanças
porque o som do batuque por ti chama,
teu corpo negro é chama que me inflama,
quando surges na noite, quando danças...
Quando danças, cantando as esperanças
e os desesperos todos de quem ama,
teu corpo negro é fogo que derrama
febre nas almas que repousam mansas.
Tu vens dançando (tudo em mim se agita)
e vens cantando (tudo em mim já grita),
quando surges em noite de queimada...
Depois, somos os dois, no mesmo abraço,
num batuque só nosso, num compasso
mais febril do que toda a batucada!
porque o som do batuque por ti chama,
teu corpo negro é chama que me inflama,
quando surges na noite, quando danças...
Quando danças, cantando as esperanças
e os desesperos todos de quem ama,
teu corpo negro é fogo que derrama
febre nas almas que repousam mansas.
Tu vens dançando (tudo em mim se agita)
e vens cantando (tudo em mim já grita),
quando surges em noite de queimada...
Depois, somos os dois, no mesmo abraço,
num batuque só nosso, num compasso
mais febril do que toda a batucada!
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1
José Luandino Vieira
Sons
A guitarra
é som antepassado.
Partiram-se as cordas
esticadas pela vida.
Chorei fado.
Que importa hoje
se o recuso:
o ngoma é o som adivinhado!
é som antepassado.
Partiram-se as cordas
esticadas pela vida.
Chorei fado.
Que importa hoje
se o recuso:
o ngoma é o som adivinhado!
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1
Emílio de Menezes
Tuas Tranças
A'...
Tudo o que eu vejo, me rodeia e fala,
Desde o arrulo das pombinhas mansas
Até dos sinos o tanger monótono,
Venham falar-me de tuas longas tranças...
Ai quantas noites em que o luar flutua
E a brisa geme dos pinheirais nas franças...
Eu vou sozinho, soluçando a medo
Beijar a sobra de tuas negras tranças
Ai... a lembrança dessa noite infinda
Em que voavas na rapidez da valsa
Deixou minh'alma retalhada em dores
Presa nos elos que essa trança enlaça;
É que inda hoje eu conservo intactas
As doces frases do valsar em meio
É que inda agora julgo estar sentindo
Arfar teu seio em delirante anseio;
O doce hálito que exalavas rindo
As meigas falas... o teu sorrir de então
Ai... tudo... tudo para mim recorda
Louca esperança que alimentava em vão.
É que eu nutria essa esperança frívola,
Falsa quimera que se esvai e finda,
É que eu te adoro, te venero, santa
E curto em silêncio essa dor infinda
Por isso eu hei de como sempre amar-te
Preso nas chamas que do ar tu lanças
Dizer-te, sabes o que eu desejo, louco?
— Morrer envolto nas tuas negras tranças.
Dezenove de Dezembro, Curitiba, 28 mar. 1886. p. 3.
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 1980. Poema integrante da série Esparsos e Inéditos
Tudo o que eu vejo, me rodeia e fala,
Desde o arrulo das pombinhas mansas
Até dos sinos o tanger monótono,
Venham falar-me de tuas longas tranças...
Ai quantas noites em que o luar flutua
E a brisa geme dos pinheirais nas franças...
Eu vou sozinho, soluçando a medo
Beijar a sobra de tuas negras tranças
Ai... a lembrança dessa noite infinda
Em que voavas na rapidez da valsa
Deixou minh'alma retalhada em dores
Presa nos elos que essa trança enlaça;
É que inda hoje eu conservo intactas
As doces frases do valsar em meio
É que inda agora julgo estar sentindo
Arfar teu seio em delirante anseio;
O doce hálito que exalavas rindo
As meigas falas... o teu sorrir de então
Ai... tudo... tudo para mim recorda
Louca esperança que alimentava em vão.
É que eu nutria essa esperança frívola,
Falsa quimera que se esvai e finda,
É que eu te adoro, te venero, santa
E curto em silêncio essa dor infinda
Por isso eu hei de como sempre amar-te
Preso nas chamas que do ar tu lanças
Dizer-te, sabes o que eu desejo, louco?
— Morrer envolto nas tuas negras tranças.
Dezenove de Dezembro, Curitiba, 28 mar. 1886. p. 3.
In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 1980. Poema integrante da série Esparsos e Inéditos
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1
Geraldo Bessa-Victor
Poema para a Negra
Deixa que os outros cantem o teu corpo
que dizem feiticeiro e sedutor,
e, na volupia vã do pitoresco,
entoem madrigais á tua dor.
Deixa que os outros cantem teus requebros
nos passos de massemba e quilapanga,
e teus olhos onde há noites de luar,
e teus beiços que teem sabor de manga.
Deixa que os outros cantem os teus usos
como aspectos formais da tua graça,
nessa conquista facil do exotismo
que dizem descobrir na nossa raça.
Deixa que os outros cantem o teu corpo,
na captaçãoo atonita do viço
e fiquem sempre, toda a vida, a olhar
um muro de mistério e de feitiço...
Deixa que os outros cantem o teu corpo
- que eu canto do mais fundo do teu ser,
ó minha amada, eu canto a propria África,
que se fez carne e alma em ti, mulher!
que dizem feiticeiro e sedutor,
e, na volupia vã do pitoresco,
entoem madrigais á tua dor.
Deixa que os outros cantem teus requebros
nos passos de massemba e quilapanga,
e teus olhos onde há noites de luar,
e teus beiços que teem sabor de manga.
Deixa que os outros cantem os teus usos
como aspectos formais da tua graça,
nessa conquista facil do exotismo
que dizem descobrir na nossa raça.
Deixa que os outros cantem o teu corpo,
na captaçãoo atonita do viço
e fiquem sempre, toda a vida, a olhar
um muro de mistério e de feitiço...
Deixa que os outros cantem o teu corpo
- que eu canto do mais fundo do teu ser,
ó minha amada, eu canto a propria África,
que se fez carne e alma em ti, mulher!
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1
Manuel Botelho de Oliveira
Vendo a Anarda Depõe o Sentimento
A serpe, que adornando várias cores,
Com passos mais oblíquos, que serenos,
Entre belos jardins, prados amenos,
É maio errante de torcidas flores;
Se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe co'a peçonha menos,
Porque não morra cos mortais venenos,
Se acaso gosta dos vitais licores.
Assim também meu coração queixoso,
Na sede ardente do feliz cuidado
Bebe cos olhos teu cristal fermoso;
Pois para não morrer no gosto amado,
Depõe logo o tormento venenoso,
Se acaso gosta o cristalino agrado.
In: OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Música do Parnasso. Pref. e org. do texto Antenor Nascentes. Rio de Janeiro: INL, 1953. v.1. (Biblioteca popular brasileira, 2
Com passos mais oblíquos, que serenos,
Entre belos jardins, prados amenos,
É maio errante de torcidas flores;
Se quer matar da sede os desfavores,
Os cristais bebe co'a peçonha menos,
Porque não morra cos mortais venenos,
Se acaso gosta dos vitais licores.
Assim também meu coração queixoso,
Na sede ardente do feliz cuidado
Bebe cos olhos teu cristal fermoso;
Pois para não morrer no gosto amado,
Depõe logo o tormento venenoso,
Se acaso gosta o cristalino agrado.
In: OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Música do Parnasso. Pref. e org. do texto Antenor Nascentes. Rio de Janeiro: INL, 1953. v.1. (Biblioteca popular brasileira, 2
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1
Bernardo Guimarães
O Nariz Perante os Poetas
Cantem outros os olhos, os cabelos
E mil cousas gentis
Das belas suas: eu de minha amada
Cantar quero o nariz.
Não sei que fado mísero e mesquinho
É este do nariz,
Que poeta nenhum em prosa ou verso
Cantá-lo jamais quis.
Os dentes são pérolas,
Os lábios rubis,
As tranças lustrosas
São laços sutis
Que prendem, que enleiam
Amante feliz;
É colo de garça
A nívea cerviz;
Porém ninguém diz
O que é o nariz.
Beija-se os cabelos,
E os olhos belos,
E a boca mimosa,
E a face de rosa
De fresco matiz;
E nem um só beijo
Fica de sobejo
Pro pobre nariz;
Ai! pobre nariz,
És bem infeliz!
(...)
Perdão por esta vez, perdão, senhora!
Eis nova inspiração me assalta agora,
E em honra ao teu nariz
Dos lábios me arrebenta em chafariz:
O teu nariz, doce amada,
É um castelo de amor,
Pelas mãos das próprias graças
Fabricado com primor.
As suas ventas estreitas
São como duas seteiras,
Donde ele oculto dispara
Agudas flechas certeiras.
Em que sítios te pus, amor, coitado!
Meu Deus, em que perigo?
Se a ninfa espirra, pelos ares saltas,
E em terra dás contigo.
Estou já cansado, desisto da empresa,
Em versos mimosos cantar-te bem quis;
Mas não o consente destino perverso,
Que fez-te infeliz;
Está decidido, — não cabes em verso,
Rebelde nariz.
E hoje tu deves
Te dar por feliz
Se estes versinhos
Brincando te fiz.
Rio de Janeiro, 1858
Publicado no livro Poesias (1865). Poema integrante da série Poesias Diversas.
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
E mil cousas gentis
Das belas suas: eu de minha amada
Cantar quero o nariz.
Não sei que fado mísero e mesquinho
É este do nariz,
Que poeta nenhum em prosa ou verso
Cantá-lo jamais quis.
Os dentes são pérolas,
Os lábios rubis,
As tranças lustrosas
São laços sutis
Que prendem, que enleiam
Amante feliz;
É colo de garça
A nívea cerviz;
Porém ninguém diz
O que é o nariz.
Beija-se os cabelos,
E os olhos belos,
E a boca mimosa,
E a face de rosa
De fresco matiz;
E nem um só beijo
Fica de sobejo
Pro pobre nariz;
Ai! pobre nariz,
És bem infeliz!
(...)
Perdão por esta vez, perdão, senhora!
Eis nova inspiração me assalta agora,
E em honra ao teu nariz
Dos lábios me arrebenta em chafariz:
O teu nariz, doce amada,
É um castelo de amor,
Pelas mãos das próprias graças
Fabricado com primor.
As suas ventas estreitas
São como duas seteiras,
Donde ele oculto dispara
Agudas flechas certeiras.
Em que sítios te pus, amor, coitado!
Meu Deus, em que perigo?
Se a ninfa espirra, pelos ares saltas,
E em terra dás contigo.
Estou já cansado, desisto da empresa,
Em versos mimosos cantar-te bem quis;
Mas não o consente destino perverso,
Que fez-te infeliz;
Está decidido, — não cabes em verso,
Rebelde nariz.
E hoje tu deves
Te dar por feliz
Se estes versinhos
Brincando te fiz.
Rio de Janeiro, 1858
Publicado no livro Poesias (1865). Poema integrante da série Poesias Diversas.
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
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1
Alexandre Dáskalos
Manhã
Erguida do fundo das águas plácidas
dum lago surge Mulher.
Limos na pasta dos cabelos
escondem o mistério dos olhos
olhando a curva do seu ventre.
Flutuando
entre sombras e reflexos
duma luz longínqua,
a forma dos braços
ganha o mais e mais fundo das águas.
Os seios erguidos
apontam ao longe
a aurora que vem.
Em volta,
musgos, líquens, algas,
em fosforescencias arbóreas
de constelações que lembram
os recessos da vida.
Em plantas aquáticas, marítimas,
chegam-lhe da floresta
lutas de homens, desesperos e cansaços,
feras e povos divididos, misturados
confundidos
para a sua criação.
E tudo esquecido ou ignorado,
só no lago
o corpo erguido,
jovem,
abrindo nas sombras o seu perfil que nasce
o seu perfil de Mãe
dos Homens do futuro.
dum lago surge Mulher.
Limos na pasta dos cabelos
escondem o mistério dos olhos
olhando a curva do seu ventre.
Flutuando
entre sombras e reflexos
duma luz longínqua,
a forma dos braços
ganha o mais e mais fundo das águas.
Os seios erguidos
apontam ao longe
a aurora que vem.
Em volta,
musgos, líquens, algas,
em fosforescencias arbóreas
de constelações que lembram
os recessos da vida.
Em plantas aquáticas, marítimas,
chegam-lhe da floresta
lutas de homens, desesperos e cansaços,
feras e povos divididos, misturados
confundidos
para a sua criação.
E tudo esquecido ou ignorado,
só no lago
o corpo erguido,
jovem,
abrindo nas sombras o seu perfil que nasce
o seu perfil de Mãe
dos Homens do futuro.
1 280
1
Tomaz Vieira da Cruz
N'gola - Flor de Bronze
Filha de branco que morreu na guerra
e de uma preta linda do Libolo,
o teu olhar até de noite encerra
todo o luar das lendas do Catolo!
Ó flor estranha! já não tem consolo
a tua magoa, a tua dor na terra!
Ó flor estranha do febril Capolo
neta dum soba que perdeu a guerra!
Estátua ardente em bronzeadas chamas
que tentação e perdição derramas
por sobre a história negra, quase finda!
Neta dum soba que acabou chorando,
filha de branco que morreu lutando
e duma preta tristemente linda!
e de uma preta linda do Libolo,
o teu olhar até de noite encerra
todo o luar das lendas do Catolo!
Ó flor estranha! já não tem consolo
a tua magoa, a tua dor na terra!
Ó flor estranha do febril Capolo
neta dum soba que perdeu a guerra!
Estátua ardente em bronzeadas chamas
que tentação e perdição derramas
por sobre a história negra, quase finda!
Neta dum soba que acabou chorando,
filha de branco que morreu lutando
e duma preta tristemente linda!
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1
Che Guevara
Contra o Vento e as Marés
Este poema
(contra o vento e as marés)
levará minha assinatura.
Deixo-lhes em seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz
(como um passarinho ferido)
ternura,
um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro
em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.
A mais linda bala desta pistola
que sempre me acompanha,
a memória indelével
(sempre latente e profunda)
das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.
Isso eu dou convicto e feliz
à revolução por um mundo melhor
pois sei que nesta vida
nada que nos pode unir terá força maior.
Dedicado a Aleida, sua mulher
(contra o vento e as marés)
levará minha assinatura.
Deixo-lhes em seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz
(como um passarinho ferido)
ternura,
um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro
em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.
A mais linda bala desta pistola
que sempre me acompanha,
a memória indelével
(sempre latente e profunda)
das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.
Isso eu dou convicto e feliz
à revolução por um mundo melhor
pois sei que nesta vida
nada que nos pode unir terá força maior.
Dedicado a Aleida, sua mulher
1 811
1
Che Guevara
Contra o Vento e as Marés
Este poema
(contra o vento e as marés)
levará minha assinatura.
Deixo-lhes em seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz
(como um passarinho ferido)
ternura,
um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro
em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.
A mais linda bala desta pistola
que sempre me acompanha,
a memória indelével
(sempre latente e profunda)
das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.
Isso eu dou convicto e feliz
à revolução por um mundo melhor
pois sei que nesta vida
nada que nos pode unir terá força maior.
Dedicado a Aleida, sua mulher
(contra o vento e as marés)
levará minha assinatura.
Deixo-lhes em seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz
(como um passarinho ferido)
ternura,
um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro
em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.
A mais linda bala desta pistola
que sempre me acompanha,
a memória indelével
(sempre latente e profunda)
das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.
Isso eu dou convicto e feliz
à revolução por um mundo melhor
pois sei que nesta vida
nada que nos pode unir terá força maior.
Dedicado a Aleida, sua mulher
1 811
1
Che Guevara
Contra o Vento e as Marés
Este poema
(contra o vento e as marés)
levará minha assinatura.
Deixo-lhes em seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz
(como um passarinho ferido)
ternura,
um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro
em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.
A mais linda bala desta pistola
que sempre me acompanha,
a memória indelével
(sempre latente e profunda)
das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.
Isso eu dou convicto e feliz
à revolução por um mundo melhor
pois sei que nesta vida
nada que nos pode unir terá força maior.
Dedicado a Aleida, sua mulher
(contra o vento e as marés)
levará minha assinatura.
Deixo-lhes em seis sílabas sonoras,
um olhar que sempre traz
(como um passarinho ferido)
ternura,
um anseio de profundas águas mornas,
um gabinete escuro
em que a única luz são esses versos meus,
um dedal muito usado para suas noites de enfado,
um retrato de nossos filhos.
A mais linda bala desta pistola
que sempre me acompanha,
a memória indelével
(sempre latente e profunda)
das crianças
que, um dia, você e eu concebemos,
e o pedaço de vida que resta em mim.
Isso eu dou convicto e feliz
à revolução por um mundo melhor
pois sei que nesta vida
nada que nos pode unir terá força maior.
Dedicado a Aleida, sua mulher
1 811
1
Mário António
Uma negra convertida
Minha avó negra, de panos escuros,
da cor do carvão...
Minha avó negra de panos escuros
que nunca mais deixou...
Andas de luto,
toda és tristeza...
Heroína de ideias,
rompeste com a velha tradição
dos cazumbis, dos quimbandas...
Não xinguilas, no obito.
Tuas mãos de dedos encarquilhados,
tuas mãos calosas da enxada,
tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra,
quitabas e quifufutilas - ,
tuas mãos, ora tranquilas,
desfilam as contas gastas de um rosário já velho...
Teus olhos perderam o brilho;
e da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas...
Avózinha,
as vezes, ouço vozes que te segredam
saudades da tua velha sanzala,
da cubata onde nasceste,
das algazarras dos óbitos,
das tentadoras mentiras do quimbanda,
dos sonhos de alambamento
que supunhas merecer...
E penso que... se pudesses,
talvez revivesses
as velhas tradições!
da cor do carvão...
Minha avó negra de panos escuros
que nunca mais deixou...
Andas de luto,
toda és tristeza...
Heroína de ideias,
rompeste com a velha tradição
dos cazumbis, dos quimbandas...
Não xinguilas, no obito.
Tuas mãos de dedos encarquilhados,
tuas mãos calosas da enxada,
tuas mãos que preparam mimos da Nossa Terra,
quitabas e quifufutilas - ,
tuas mãos, ora tranquilas,
desfilam as contas gastas de um rosário já velho...
Teus olhos perderam o brilho;
e da tua mocidade
só te ficou a saudade
e um colar de missangas...
Avózinha,
as vezes, ouço vozes que te segredam
saudades da tua velha sanzala,
da cubata onde nasceste,
das algazarras dos óbitos,
das tentadoras mentiras do quimbanda,
dos sonhos de alambamento
que supunhas merecer...
E penso que... se pudesses,
talvez revivesses
as velhas tradições!
1 283
1
Gonçalves Crespo
As Ondinas
Na praia tranqüila murmuram sonoras
As ondas do mar.
E, ao doce das águas murmúrio palreiro.
Na areia dormita gentil cavaleiro
À luz do luar.
As belas ondinas emergem das grutas
De vivo coral,
Acorrem ligeiras, e apontam, sorrindo,
O moço que julgam deveras dormindo
No argênteo areal.
Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas
As mãos de cetim.
E aquela, com gesto divino, gracioso,
Nos ares levanta do jovem formoso
O áureo telim.
Essoutra, que lavas, que fogo não vibram
Seus olhos de anil!
Debruça-se e arranca-lhe a rútila espada,
Nos copos brilhantes se apóia azougada.
Travessa e gentil.
A quarta, saltando, retouça, lasciva,
Do moço em redor;
Suspira mansinho, de manso murmura:
"Pudesse eu em vida gozar a ventura
Do teu fino amor!"
A quinta rebeija-lhe as mãos, enlevada
Num sonho feliz,
E a sexta, com trêmula e doce esquivança,
Perfuma-lhe a boca, formosa criança!
Com beijos sutis...
E o moço, fingindo que dorme tranqüilo,
Não quer acordar.
E deixa que o abracem as belas Ondinas,
E lânguido goza carícias divinas
À luz do luar...
Publicado no livro Noturnos (1882).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1942
NOTA: Tradução de poema de Hein
As ondas do mar.
E, ao doce das águas murmúrio palreiro.
Na areia dormita gentil cavaleiro
À luz do luar.
As belas ondinas emergem das grutas
De vivo coral,
Acorrem ligeiras, e apontam, sorrindo,
O moço que julgam deveras dormindo
No argênteo areal.
Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas
As mãos de cetim.
E aquela, com gesto divino, gracioso,
Nos ares levanta do jovem formoso
O áureo telim.
Essoutra, que lavas, que fogo não vibram
Seus olhos de anil!
Debruça-se e arranca-lhe a rútila espada,
Nos copos brilhantes se apóia azougada.
Travessa e gentil.
A quarta, saltando, retouça, lasciva,
Do moço em redor;
Suspira mansinho, de manso murmura:
"Pudesse eu em vida gozar a ventura
Do teu fino amor!"
A quinta rebeija-lhe as mãos, enlevada
Num sonho feliz,
E a sexta, com trêmula e doce esquivança,
Perfuma-lhe a boca, formosa criança!
Com beijos sutis...
E o moço, fingindo que dorme tranqüilo,
Não quer acordar.
E deixa que o abracem as belas Ondinas,
E lânguido goza carícias divinas
À luz do luar...
Publicado no livro Noturnos (1882).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1942
NOTA: Tradução de poema de Hein
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Luis Romano
Vida
A crioula que meus olhos beijaram a medo
predeu-se na confusão de um porto francês
Ela sorria continuamente, erguendo no seu riso uma cançaão extraordinária.
Não foi um romance de amor
nem mesmo um pequeno segredo entre ambos.
Somente, quando Ela falava ao pé de mim, eu sentia:
um aprazível devaneio
pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.
Depois,
a Vida separando Nós-Dois
a confusão, os ruidos, os braços agitando-se
e o vapor levando para outros mares,
outros portos,
a graça, o mistério, o perfume e os cantares
da crioula que meus olhos beijaram a medo
no tombadilho daquele vapor francês.
predeu-se na confusão de um porto francês
Ela sorria continuamente, erguendo no seu riso uma cançaão extraordinária.
Não foi um romance de amor
nem mesmo um pequeno segredo entre ambos.
Somente, quando Ela falava ao pé de mim, eu sentia:
um aprazível devaneio
pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.
Depois,
a Vida separando Nós-Dois
a confusão, os ruidos, os braços agitando-se
e o vapor levando para outros mares,
outros portos,
a graça, o mistério, o perfume e os cantares
da crioula que meus olhos beijaram a medo
no tombadilho daquele vapor francês.
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Costa Andrade
Mãe-Terra
Terra vermelha do Lépi és minha mãe
Mãe-Terra que aos filhos dá
mais do que a vida uma razão
Razão de águia
águia transformada
no soba dos espaços
e das espinheiras cruas.
Terra vermelha do Lépi
calma sombra das mangueiras
sobre o chão vermelho
rocha negra do saber de ferro
a água sabe à voz materna
Águia de pedra
embala onde sentaram
régios Mussindas de vento
em gerações de luar
gritando ao vale profundo
aos muxitos
e ás mulembas velhas
a superfície larga do barro
do corpo negro dos filhos
A terra é sempre a mesma
o resto dirão os homens!
Mãe-Terra que aos filhos dá
mais do que a vida uma razão
Razão de águia
águia transformada
no soba dos espaços
e das espinheiras cruas.
Terra vermelha do Lépi
calma sombra das mangueiras
sobre o chão vermelho
rocha negra do saber de ferro
a água sabe à voz materna
Águia de pedra
embala onde sentaram
régios Mussindas de vento
em gerações de luar
gritando ao vale profundo
aos muxitos
e ás mulembas velhas
a superfície larga do barro
do corpo negro dos filhos
A terra é sempre a mesma
o resto dirão os homens!
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1
Tomaz Vieira da Cruz
Mulata
Os teus defeitos são graças
que mais me prendem, querida...
Mistério de duas raças
que se encontraram na vida.
E, no mato, em nostalgia,
num exílio carinhoso,
fizeram essa alegria
do teu olhar misterioso.
E deram forma de sonho,
em seu viver magoado,
a esse estilo risonho
do teu corpo bronzeado...
Que é bem a grácil maneira
em que a volúpia se anima,
- bailado duma fogueira
queimando quem se aproxima!
.............................................
A tua boca dolente,
cicatriz de algum desgosto
é um vermelho poente
no lindo sol do teu rosto.
E os beijos que pronuncias
são palavras dolorosas...
Teus beijos são tiranias,
são como espinhos de rosas...
Que me embriagam, amantes,
no éter do seu perfume...
Teus beijos são navegantes
sobre as ondas do ciúme.
.............................................
Os teus defeitos são graças
desse mistério profundo...
Saudade de duas raças
que se abraçaram no mundo!
que mais me prendem, querida...
Mistério de duas raças
que se encontraram na vida.
E, no mato, em nostalgia,
num exílio carinhoso,
fizeram essa alegria
do teu olhar misterioso.
E deram forma de sonho,
em seu viver magoado,
a esse estilo risonho
do teu corpo bronzeado...
Que é bem a grácil maneira
em que a volúpia se anima,
- bailado duma fogueira
queimando quem se aproxima!
.............................................
A tua boca dolente,
cicatriz de algum desgosto
é um vermelho poente
no lindo sol do teu rosto.
E os beijos que pronuncias
são palavras dolorosas...
Teus beijos são tiranias,
são como espinhos de rosas...
Que me embriagam, amantes,
no éter do seu perfume...
Teus beijos são navegantes
sobre as ondas do ciúme.
.............................................
Os teus defeitos são graças
desse mistério profundo...
Saudade de duas raças
que se abraçaram no mundo!
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Geraldo Bessa-Victor
Não venhas mais ao cais, menina negra
Não venhas mais ao cais, menina negra.
Que esperas tu ainda?
Já sabes a tua sina:
o branco que partiu não volta mais!
E tu, olhando o cais,
menina negra linda,
vês o teu lindo sonho que já finda...
Cantaram o feitiço do teu corpo,
nessa noite sensual em que tiveste
por lençol nupcial uma folha de palma;
cantaram o feitiço do teu corpo,
mas não sabias nem soubeste
que o branco tem feitiço na alma.
Habituada ao balouço da canoa
nas margens do rio Dande,
e depois embalada pelo amor,
sonhaste viajar num enorme vapor
que navega no mar grande
e vai para Lisboa!
Ouve, menina negra: mato não é cidade,
oceano não é rio, dongo não é navio
e o sonho que sonhaste não é sonho, é saudade...
Não venhas mais ao cais,
que o branco não volta mais!
Que esperas tu ainda?
Já sabes a tua sina:
o branco que partiu não volta mais!
E tu, olhando o cais,
menina negra linda,
vês o teu lindo sonho que já finda...
Cantaram o feitiço do teu corpo,
nessa noite sensual em que tiveste
por lençol nupcial uma folha de palma;
cantaram o feitiço do teu corpo,
mas não sabias nem soubeste
que o branco tem feitiço na alma.
Habituada ao balouço da canoa
nas margens do rio Dande,
e depois embalada pelo amor,
sonhaste viajar num enorme vapor
que navega no mar grande
e vai para Lisboa!
Ouve, menina negra: mato não é cidade,
oceano não é rio, dongo não é navio
e o sonho que sonhaste não é sonho, é saudade...
Não venhas mais ao cais,
que o branco não volta mais!
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Manuel Botelho de Oliveira
Rosa, e Anarda
Soneto XX
Rosa da fermosura, Anarda bela
Igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é fermosa,
Mais fermosa que as flores brilha aquela,
A rosa com espinhos se desvela,
Arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
Na fronte Anarda tem púrpura airosa,
A rosa é dos jardins purpúrea estrela.
Brota o carmim da rosa doce alento.
Respira olor de Anarda o carmim breve,
Ambas dos olhos são contentamento:
Mas esta diferença Anarda teve:
Que a rosa deve ao sol seu luzimento,
O sol seu luzimento a Anarda deve.
In: OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Música do Parnasso. Pref. e org. do texto Antenor Nascentes. Rio de Janeiro: INL, 1953. v.1. (Biblioteca popular brasileira, 2
Rosa da fermosura, Anarda bela
Igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é fermosa,
Mais fermosa que as flores brilha aquela,
A rosa com espinhos se desvela,
Arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
Na fronte Anarda tem púrpura airosa,
A rosa é dos jardins purpúrea estrela.
Brota o carmim da rosa doce alento.
Respira olor de Anarda o carmim breve,
Ambas dos olhos são contentamento:
Mas esta diferença Anarda teve:
Que a rosa deve ao sol seu luzimento,
O sol seu luzimento a Anarda deve.
In: OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Música do Parnasso. Pref. e org. do texto Antenor Nascentes. Rio de Janeiro: INL, 1953. v.1. (Biblioteca popular brasileira, 2
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1
Bernardo Guimarães
Gentil Sofia
BALADA
"Fia já minha Sofia,
Fia
"Enquanto eu faço esta ceia,
Eia!
"Estás hoje com tamanha
Manha,
"Que não sais dessa janela;
Nela
"Queres ver os estudantes
Antes
"Do que acabar depressa
Essa
"Tarefa, que aí fica à banda,
Anda!...
"Pega já no teu serviço;
Isso!...
"Antes que as ventas te esbarre!
Arre!..."
(...)
"Minha avó, não vos zangueis:
Eis,
"Como o caso sucedeu:
Eu
"Já casei com esse inocente
Ente
"A quem votais tão seródio
Ódio,
"A ele, a quem agradei,
Dei
"O que mais uma donzela
Zela,
"Seu amor, sua fé constante
Ante
"Vosso vizinho compadre
Padre;
"Ele possui de antemão
Mão
"Que há muito tua netinha
Tinha
"Ao esposo bem-fadado
Dado."
(...)
Do padre a fala singela
Gela
As fúrias da muxibenta
Benta,
E a ferrenha catadura
Dura
Em um instante quedou-se
Doce,
E todo aquele seródio
Ódio,
Qual palha aos golpes da foice,
Foi-se
Enquanto a pobre netinha
Tinha
Nos olhos cheios de mágoa
Água,
Lhe diz a vovó materna
Terna:
"Já que, como tu pudeste,
Deste
"Tua mão a esse inocente
Ente,
"Também dentro desta casa
Casa,
"Que eu darei a teu esposo
Pouso."
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
"Fia já minha Sofia,
Fia
"Enquanto eu faço esta ceia,
Eia!
"Estás hoje com tamanha
Manha,
"Que não sais dessa janela;
Nela
"Queres ver os estudantes
Antes
"Do que acabar depressa
Essa
"Tarefa, que aí fica à banda,
Anda!...
"Pega já no teu serviço;
Isso!...
"Antes que as ventas te esbarre!
Arre!..."
(...)
"Minha avó, não vos zangueis:
Eis,
"Como o caso sucedeu:
Eu
"Já casei com esse inocente
Ente
"A quem votais tão seródio
Ódio,
"A ele, a quem agradei,
Dei
"O que mais uma donzela
Zela,
"Seu amor, sua fé constante
Ante
"Vosso vizinho compadre
Padre;
"Ele possui de antemão
Mão
"Que há muito tua netinha
Tinha
"Ao esposo bem-fadado
Dado."
(...)
Do padre a fala singela
Gela
As fúrias da muxibenta
Benta,
E a ferrenha catadura
Dura
Em um instante quedou-se
Doce,
E todo aquele seródio
Ódio,
Qual palha aos golpes da foice,
Foi-se
Enquanto a pobre netinha
Tinha
Nos olhos cheios de mágoa
Água,
Lhe diz a vovó materna
Terna:
"Já que, como tu pudeste,
Deste
"Tua mão a esse inocente
Ente,
"Também dentro desta casa
Casa,
"Que eu darei a teu esposo
Pouso."
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
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Bernardo Guimarães
Gentil Sofia
BALADA
"Fia já minha Sofia,
Fia
"Enquanto eu faço esta ceia,
Eia!
"Estás hoje com tamanha
Manha,
"Que não sais dessa janela;
Nela
"Queres ver os estudantes
Antes
"Do que acabar depressa
Essa
"Tarefa, que aí fica à banda,
Anda!...
"Pega já no teu serviço;
Isso!...
"Antes que as ventas te esbarre!
Arre!..."
(...)
"Minha avó, não vos zangueis:
Eis,
"Como o caso sucedeu:
Eu
"Já casei com esse inocente
Ente
"A quem votais tão seródio
Ódio,
"A ele, a quem agradei,
Dei
"O que mais uma donzela
Zela,
"Seu amor, sua fé constante
Ante
"Vosso vizinho compadre
Padre;
"Ele possui de antemão
Mão
"Que há muito tua netinha
Tinha
"Ao esposo bem-fadado
Dado."
(...)
Do padre a fala singela
Gela
As fúrias da muxibenta
Benta,
E a ferrenha catadura
Dura
Em um instante quedou-se
Doce,
E todo aquele seródio
Ódio,
Qual palha aos golpes da foice,
Foi-se
Enquanto a pobre netinha
Tinha
Nos olhos cheios de mágoa
Água,
Lhe diz a vovó materna
Terna:
"Já que, como tu pudeste,
Deste
"Tua mão a esse inocente
Ente,
"Também dentro desta casa
Casa,
"Que eu darei a teu esposo
Pouso."
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
"Fia já minha Sofia,
Fia
"Enquanto eu faço esta ceia,
Eia!
"Estás hoje com tamanha
Manha,
"Que não sais dessa janela;
Nela
"Queres ver os estudantes
Antes
"Do que acabar depressa
Essa
"Tarefa, que aí fica à banda,
Anda!...
"Pega já no teu serviço;
Isso!...
"Antes que as ventas te esbarre!
Arre!..."
(...)
"Minha avó, não vos zangueis:
Eis,
"Como o caso sucedeu:
Eu
"Já casei com esse inocente
Ente
"A quem votais tão seródio
Ódio,
"A ele, a quem agradei,
Dei
"O que mais uma donzela
Zela,
"Seu amor, sua fé constante
Ante
"Vosso vizinho compadre
Padre;
"Ele possui de antemão
Mão
"Que há muito tua netinha
Tinha
"Ao esposo bem-fadado
Dado."
(...)
Do padre a fala singela
Gela
As fúrias da muxibenta
Benta,
E a ferrenha catadura
Dura
Em um instante quedou-se
Doce,
E todo aquele seródio
Ódio,
Qual palha aos golpes da foice,
Foi-se
Enquanto a pobre netinha
Tinha
Nos olhos cheios de mágoa
Água,
Lhe diz a vovó materna
Terna:
"Já que, como tu pudeste,
Deste
"Tua mão a esse inocente
Ente,
"Também dentro desta casa
Casa,
"Que eu darei a teu esposo
Pouso."
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
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