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Poemas neste tema

Datas e Celebrações

Adélia Prado

Adélia Prado

Querido Irmão

Como é possível, disse meu irmão,
nem um amigo levantou sua voz em meu favor.
Não sei para onde ir, sinto um desterro.
Vamos a nosso pai, pedi.
Queixemos a nossa mãe o que nos fazem.
Já morreram, ele disse, como nos ouvirão?
Nosso pai, falei, após enterros, desastres,
após extrair os dentes, sentava e comia.
Escuta a mãe cantando:
o Averno ruge, enfurecido,
altar e trono quer destruídos...
Temos poderes para evocar um campo,
dilatar ao infinito a curta vida, em mil e uma noites de
[lembranças:
se nos proteges, ó mãe potente,
contra a inimiga, cruel serpente...
Um dia disseste: não vou no açougue não. E te enfurnaste.
Nosso pai disse: vai porque vai, seu estudantezinho.
E foste. Porque nosso pai bramia em seu brutal amor.
Tens de nossa mãe poucas lembranças,
mas eu te digo, foi corajosa e triste. Seríamos fundadores.
de mil soldados não teme a espada...
cantava ela, como ordem e predição.
Somos órfãos e não.
Teu terninho marrom foi dona Zica quem fez,
dona Zica Peru
que foi ser freira, lá longe...
Teu primeiro retrato tem um olho zarolho.
Magnificat! Magnificat!
Os olhos de nossa mãe resplandeciam:
tiraste dez na escola? Introibo ad altare Dei,
qual é a resposta?
Ajoelha e jura que nunca mais farás isto.
Agora come. Para de chorar e come, ordenava nosso pai,
as bravatas católicas concitantes.
Tan-ta-ra-ran ta-ra-ran tan-tan,
como em festa de igreja, em procissão de enterro,
a banda atrás de tudo,
a grande dor musicada, o grito agarrado em Deus,
na orla do manto da Virgem.
Uma fé humilde e engraçada, uma fé verdadeira.
Somos órfãos?
Pois sim, pois não. A medida da vida é o sofrimento.
Alegra-te, meu irmão. Que belo destino o nosso,
semear em lágrimas o chão.
Numa bandeja de prata, foi-se a cabeça de João.
Que a nossa role também,
que os anjos digam amém
e restemos nus.
No vento, na chuva, na casa destelhada,
na cova aberta na terra onde estão nossos pais
esperando a corneta,
esperando a banda, a trombeta, esperando os filhos
pra pôr na fila com eles
e entrar com eles no céu.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Bitolas

O mar existindo com este navio imenso,
coitado de quem não viu
e só soube de mar de rosas e rio de enchente parecendo
[um mar.
O navio apita, dentro dele é grande, dividido em
[cômodos,
tem espaço pra cozinha, piscina, sala de visita,
até capela tem com seu capelão! OHAH!
Tão diverso de anzolinho de piaba e água doce
esta água estendendo-se até dormir de cansaço
e virar país estrangeiro.
Coitados de pai e mãe que morreram sem ver.
Dizem que estrela-do-mar, quando está viva, é um bicho,
depois de seca é que vira enfeite de parede. Tem navio
que cabe essa rua toda de gente.
Eu dou as costas pro mar,
afogada em despeito choro um rio de lágrimas.
Já li ‘mar de sargaços’; seja o que for, é belo.
Qualquer homem é estrangeiro, comparado a outro
[homem
que nunca viu sua terra.
Não quero viajar mais. Tenho gravuras do mar e mais
o que me foi dado com pequeno quintal e distraiu meus
[avós
e foi causa de celebração e motins, juramentos solenes
acompanhados de viola e rostos graves.
Um doou um rim; outro, um lote,
outro me deu o enxoval pra estudar no ginásio
e sofreu até morrer da doença terrível,
sem um ai de sua boca que agravasse o Senhor.
Pecados graves, medo, inocências incríveis cometeram,
espraiaram satisfações por causa da chuva, das galinhas
[chocando,
por causa das passagens do livro prometendo alegria:
“A figura deste mundo passa, olho humano jamais viu
[o que espera os eleitos...”
Não quero saber do mar. No fundo da Mina, em Minas,
também tem frestas de luz.
Queria ser dramática e não sou.
Isto me fez sofrer até agora.
É um córrego, um veio d’água,
um estro pequeno, o meu.
Se o crítico tiver razão,
nunca terei estátua.
Valha-me, pai,
num mar de vaidades não me deixe morrer,
pela vida, entrego os versos todos;
na perna erisipelada
porei compressas quentes.
A noite inteira, se for preciso.
1 238
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Um Senhor de Barbas Brancas

Inscreves-te no concurso em Brasília e és aprovado
(línguas, noções de turismo, comunicabilidade),
chegas de locomotiva à festa dos portuários,
desces de helicóptero na Colônia Juliano Moreira,
passeias equipado de robô na rua da Alfândega,
vais de jato a Lisboa cumprimentar o cardeal Cerejeira,
fundas a Fundação que perpetuará teu nome,
e dizem, Papai Noel, que não existes?

Garotos podem apertar-te a mão na rua do Ouvidor.
Sessent’anos marcados pela vida
e pelo dente do salário mínimo.
És gordo. Estás suado. Tens cecê.
Também, com este calor de patropi,
queriam que recendesses a lavanda?

És mito, estás por fora do contexto?
O mito,
cada vez mais concreto em toda parte,
motiva os homens, cria o novo real.
A floresta de mitos desenrola
verdinegra folhagem sobre a Terra.
Por eles, vida e morte se defrontam
no combate de imagens.
Outro Natal, nos ossos velhos do Natal,
impõe seu rito, a força de seu mito.

Dás (vendes) geladeiras que teu gelo
vai vestindo de neve e crediário.
Vendes
o relógio, a peruca, o blended scotch,
o biquíni, o recheio do biquíni,
vendes rena e trenó (carro hidramático),
a ideia de Natal & outras ideias.
Ladino corretor,
vendes a ideia prístina de amor.

Só não creem em ti os visionários,
que agrides com teu estar perto e pegável.
Sonhavam-te incorpóreo: bruma de alma,
dar sem mãos, no ar aberto em vilancicos:
tudo que o aposentado do Correio
ou da Central ou da Sursan
ao preço de um biscate de dezembro
ou mesmo o concursado poliglota
não pode ser
nem parecer
nem dar.

Se Eliot despreza
the social, the torpid, the patently commercial
attitude towards Christmas, que importa?
Não és criador; és o criado,
que na bandeja trazes o mistério
trocado em coisas. Uma ternura antiga,
um carinho mais velho do que Cristo
reparte os bens a Cristo recusados.
Se não reparte justo,
se nega, esconde, furta
o anel à namorada que o pedia,
se estende a muitos um pudim de pedra
& sangue, sob a glace,
que culpa tens do feixe de pecados,
em prendas nos teus ombros convertido?

Père Noël, Father Christmas, Papai
adocicadamente brasileiro,
velhacamente avô de dez milhões de netos
alheios e informados,
tão afeito à mentira que mentimos
o ano inteiro e em dobro no Natal,
não te cansas, velhinho,
de jogar nosso jogo, de vender-nos
uma xerox da infância com borrões?
Não te enfada
ser mensageiro da mensagem torta
com método apagada
tão logo transmitida?

Sob o veludo amarfanhado
de teu uniforme de serviço,
na rosa rubra de dezembro,
junto ao berço de palha de um menino,
percebo a tristeza do mito
que aos homens se aliou para iludir
nossa fome de Deus na hora divina.
25/12/1969
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A. B. C. Manuelino

Alaúza, minha gente!
Festivo repique o sino
em honra deste menino.

Bem nascido no Recife
lá no bairro do Capunga
e de tendência malunga.

Companheiro de nascença
ficou sendo da poesia,
luz e sol de cada dia.

De nós todos companheiro,
por isso que no seu verso
há um carinho submerso.

Entre a Rua da União
e a união pelo canto,
distribui paz, acalanto.

Faz muito tempo que veio
ao mundo? Está bem lampeiro,
mistura de sábio e arteiro.

Gazal compõe e balada,
mas, se quer ser concretista,
concretos fujam da pista.

Hertziana magia, fluida,
circula em cada palavra,
ouro do campo em que lavra.

Inimigos, não: amigos
são quantos, na trilha amarga
da angústia, encontram Pasárgada.

Já foi doente, mas soube
vencer o mal que há no mal.
É tudo lição ideal.

K., solitário de Kafka,
entraria no castelo
ao ritmo do “Belo Belo”.

Laura, Natércia, outros mitos
o poeta descobre que há
no sabonete Araxá.

Mas percebe ao mesmo tempo
a miséria dos destinos
dos carvoeirinhos meninos.

Na sua lira moderna
a dor de cada criatura
colhe um eco de ternura.

O recado que nos manda
é um recado experiente
de vida e de amor presente.

Para chegar à pureza
de siderais avenidas,
o poeta viveu mil vidas.

Quem disse que é sem família
no seu quarto à beira-oceano?
Seu mano: o gênero humano.

Rosas, rosas e mais rosas
de Barbacena ou Caymmi
em ramalhete sublime

sejam portanto ofertadas
àquele que no seu horto,
mesmo à visão do boi morto,

tem um jeito de existir
tão natural como planta
que em silêncio se alevanta.

Uma planta que dá sombra
e dá música — segredo
assim em tom de brinquedo.

Viva, viva! aos oitent’anos,
quem que pode com o velhinho
amador de chope e vinho?

Xis do problema: este viço
vem-lhe d’alma, fortaleza
de bondade sempre acesa.

Ypissilão foi-se embora
do nosso atual dicionário.
Que importa? Canhestro, vário,

zangarreante cronista,
saúdo Manuel Bandeira,
estrela da vida inteira.
17/04/1966
1 007
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Conversa Informal Com o Menino

Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.
Uns dois ou três, inda passa…
Industrializar o tema,
eis o mal.

Como posso, pergunto, o ano
inteiro, viver sem Cristo
(por sinal,
na santa paz do gusano)
e agora embalar-te: isto
é Natal?

Os outros fazem? Paciência,
todos precisam de vale…
Afinal,
em sua reta inocência,
diz-me o burro que me cale,
natural.

E o boi me segreda: Acaso
careço de alexandrino
ou jornal
para celebrar o caso
humano quanto divino,
hein, jogral?

Perdoa, Infante, a vaidade,
a fraqueza, o mau costume
tão geral:
fazer da Natividade
um pretexto, não um lume
celestial.

Por isso andou bem o velho
do Cosme Velho, indagando,
marginal,
no seu soneto-cimélio,
o que mudou, como, quando,
no Natal.

Mudei, piorei? Reconheço
que não penetro o mistério
sem igual.
Não sei, Natal, o teu preço,
e te contemplo, cimério,
a-pascal.

Vou de novo para a escola,
vou, pequenino, anular-me,
grão de sal
que se adoça ao som da viola,
a ver se desperto um carme
bem natal.

Não será canto rimado,
verso concretista, branco
ou labial;
antes mudo, leve, agrado
de vento em flor no barranco,
diagonal.

Não venho à tua lapinha
pedir lua, amor ou prenda
material.
Nem trago qualquer coisinha
de ouro subtraído à renda
nacional.

Nossa conversa, Menino,
será toda silenciosa,
informal.
Não se toca no destino
e em duros trechos de prosa
lacrimal.

Não vou queixar-me da vida
ou falar (mal) do governo
brasilial.
Nem cicatrizar ferida
resultante do meu ser-no-
-mundo atual.

Deixa-me estar longamente
junto ao berço, num enleio
colegial.
(Àquele que é menos crente,
um anjo leva a passeio:
é Natal.)

Prosterno-me, e teu sorriso
sugere, menino astuto
e cordial:
careço de ter mais siso
e vislumbrar o Absoluto
neste umbral.

Sim, pouco enxergo. Releva
ao que lhe falta a poesia,
e por al.
Gravura em branco, na treva:
a treva se aclara em dia
de Natal.
23/12/1956
1 328
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Cantiga

Claro janeiro antigo e sempre novo,
segue a esperança, fluida, no teu rumo.
Por que, entre as alvíssaras do povo,
aumentar-nos o imposto de consumo?

As rosas de Iemanjá, na praia cheia,
no mar ignoto, enquanto a noite gira,
são preces amorosas sobre a areia,
meiga verdade, feita de mentira.

Não desencantes tanto encantamento
a florir no céu mágico e nas almas.
Aqui te deixo meu requerimento:
dá-nos manhãs azuis e tardes calmas.

Dá-nos, janeiro, paz (não muita, ou morta,
que o coração exige certo fogo):
faze que esteja aberta a grande porta
ao que for belo e bom, eis nosso rogo.

Para os dois garotinhos inda à espera
que a justiça abra os olhos, meu janeiro,
dá-lhes as mães exatas, primavera
a se multiplicar pelo ano inteiro.

Aos dez mais e às dez mais… que lhes darias,
se eles têm tudo? ou falta-lhes paciência
para aumentar a sucessão dos dias
ocos, por sob a frívola aparência?

Aos milhões menos, nada lhes prometas
que não queiras cumprir: janeiro, é sábio
acabar de uma vez com velhas tretas
e, à falta de canção, cerrar o lábio.

Mas não quero cerrá-lo sem que peça
nove dias de sol para um de chuva,
um compromisso idoso ao dr. Lessa,
menos mosquito e mais laranja e uva.

Não aumentes, janeiro, o meu cinema,
leva contigo o tal cinemascópio,
mas deixa em Laranjeiras e Ipanema
a barateza alegre deste ópio.

E finalmente, amigo, sê cordato,
superlegal e, sobretudo, ordeiro:
batendo o 31, passa o mandato
ao nosso caro mês de fevereiro.
01/01/1956
1 056
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Retrato de Família

Este retrato de família
está um tanto empoeirado.
Já não se vê no rosto do pai
quanto dinheiro êle ganhou.

Nas mãos dos tios não se percebem
as viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa e amarela,
sem memórias da monarquia.

Os meninos, como estão mudados.
O rosto de Pedro é tranqüilo,,
usou os melhores sonhos.
E João não é mais mentiroso.

O jardim tornou-se fantástico.
As flores são placas cinzentas.
E a areia, sob pés extintos,
é um oceano de névoa.

No semicírculo das cadeiras
nota-se certo movimento.
As crianças trocam de lugar,
mas sem barulho: é um retrato.

Vinte anos é um grande tempo.
Modela qualquer imagem.
Se uma figura vai murchando,
outra, sorrindo, se propõe.

Esses estranhos assentados,
meus parentes? Não acredito.
São visitas se divertindo
numa sala que se abre pouco.

Ficaram traços da família
perdidos no jeito dos corpos.
Bastante para sugerir
que um corpo é cheio de surpresas.

A moldura deste retrato
em vão prende suas personagens.
Estão ali voluntariamente,
saberiam -— se preciso — voar.

Poderiam sutilizar-se
no claro-escuro do salão,
ir morar no fundo dos móveis
ou no bolso de velhos coletes.

A casa tem muitas gavetas
e papéis, escadas compridas.
Quem sabe a malícia das coisas,
quando a matéria se aborrece?

O retrato não me responde.
êle me fita e se contempla
nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam

os parentes mortos e vivos.
Já não distingo os que se foram
dos que restaram. Percebo apenas
a estranha idéia de família

viajando através da carne
1 379
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Afonso Arinos, Setentão

Afonso, que brincadeira!
Ontem, no Colégio Arnaldo,
garotinho irresponsável;
hoje, em teus setenta anos,
verbete de enciclopédia…

E que bonito verbete,
que página além da página,
esse teu sulco profundo
na história silenciosa
de nossa gente (a outra história,
feita de noites-vigília
no escritório-oficina
de soluções e de rumos
para o instante desvairado).

Renitente praticante
de ofícios entrelaçados:
o de servidor de ideias
e o de servidor do povo,
o povo que, desconfio,
mal pode saber ainda
o que por ele tu fazes
armado só de palavra,
entre leis estraçalhadas,
esperanças malogradas
e sinais de mundo novo
rogando decifração.

Afonso, o da claridade
de pensamento, o de espírito
preocupado em riscar
passarelas de convívio
por entre irmãos divididos
e malquerenças rochosas
no território confuso:
Afonso, que bela vida
a vida nem sempre aberta
às sonatas da vitória!

Ser derrotado quem sabe
se é raiz amargosa
de triunfo intemporal?
O tempo, esse boiadeiro
de botas lentas e longas,
vai pisando na estrumeira
do curral, vai caminhando,
vai dando voltas na estrada,
alheio a cupins e onças,
pulando cercas de farpa,
vadeando rios espessos
até chegar ao planalto,
ao maralto, ao alto-lá
onde tudo se ilumina
ao julgamento da História.

Afonso, meu combatente
do direito e da justiça,
nosso exato professor
do direito mais precário
(o tal constitucional),
Afonso, galantuomo
que tens duas namoradas:
Anáh, de sempre, e essa outra
exigentíssima dama
que chamamos Liberdade,
Afonso, que vi xingado
de fascista e de outros nomes
que só a burrice inventa,
quando por sinal voltavas
de torva delegacia
aonde foste interceder
em momentos noturnais
pelos que iam xingar-te…

Mas o pico de viver
está justamente nisto
que bem soubeste ensinar-nos
combinar ternura e humour,
amenidade, puerícia
nos intervalos de luta.
E não disseste que doido
no fundo é todo mineiro
sob a neutra vestimenta
da mais sensata aparência?
Não disse Ribeiro Couto,
em breve arrufo amical,
que ouviu do Dr. Afrânio:
“Esse menino é maluco”?

Maluco, salve, o maluco,
o poeta mariliano,
o mirone de Ouro Preto,
cantor da barra do dia,
revelador do passado
em sua íntima verdade,
renovador de caminhos
de nossas letras e artes,
derrubador de odiosas
linhas de cor e prejuízo
(irmãos de pele diversa
já podem sentar-se à mesa
nacional, a teu chamado),
criador de nova atitude
do País perante os grandes,
humano e humanista Afonso,
salve, maluco!, te amamos.
1 041
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Um Lírio, Por Acaso

E de repente Santa Teresinha
— quem diria? — faz 100 anos.
Ela que tem sempre 24
nas estampas dos gay twenties.

Santa do modernismo brasileiro,
do altar particular de Ribeiro Couto,
a quem curaste de tuberculose,
a tuberculose de que morreste,
santa invocada por Manuel Bandeira:
“Santa Teresa, não, Teresinha.
Teresinha do Menino Jesus.
Me dá alegria!”
Não o atendeste, amiga Teresinha…

O poeta se queixava:
“Fiz tantos versos a Teresinha…
Versos tão tristes nunca se viu!
Pedi-lhe coisas. O que eu pedia
era tão pouco! Não era glória…
Nem era amores… Nem foi dinheiro…
Pedia apenas mais alegria:
Santa Teresa nunca me ouviu!”

A ti nada pedi, mas simpatizava
com teu jeito simples de ser santa
do nosso tempo de incredulidade,
tempo de ciências exatas, Marx, anarquismo.
(Os ateus brasileiros levam sempre um santinho no bolso,
nossos comunas quando morrem, a família reza missa
de sétimo dia e de trigésimo.)
Simpatizava, simpatizava contigo
lendo tua autobiografia na tradução do padre Lochu
antes que me expulsassem do colégio
com a aprovação do próprio tradutor.

Naquele tempo
as autobiografias dos santos eram censuradas
e eu não sabia que foste
carmelitanamente precursora
do feminismo:
“Ah, pobres mulheres, tão desprezadas!
A todo instante nos proíbem:
Não faça isto, não faça aquilo,
e ameaçam excomungar-nos…”
Suave santa brasileira
por graça do diminutivo
que te fazia baiana, carioca, uberabense
(quem ousou um dia falar Santa Isabelinha, Santa Margaridinha?),
muito mais próxima de nós, em Lisieux,
do que a filha de Capistrano clausurada
ali no Morro,
e tão novinha
que dava oportunidade de dizer
a um senhor de 60 anos, na Avenida:
“Esta santa, mais moça do que eu…”
Então podemos todos ser santos?
Os santos não são apenas medievais,
predestinadíssimos, raríssimos,
para realçar ainda mais
nossa impossibilidade de pureza
ou para resgatá-la?

Vez ou outra eu ruminava essas coisas
enquanto ia chafurdando e esquecendo
a nostalgia de ter tido
o desejo, não digo de ser santo,
mas apenas o franciscano encapuzado
que assiste ao enterro do Conde de Orgaz
junto de Santo Agostinho e Santo Estêvão
na tela fantástica do Greco,
ou um dos pescadores no políptico de São Vicente,
de Nuno Gonçalves ou Hugo van der Goes, que sei eu,
aquele pescador quase de bruços
no painel da esquerda.

Já nem sei, minha santa,
qual o teu papel na Igreja contestante
de setenta,
és talvez, tão bonita, tão menina,
frágil demais para o serviço que se exige
do novo Cristo combatente,
mas a doçura não é arma também,
a seu tempo e seu modo, no combate?

Reparo agora,
já não és menina, és centenária,
ou assim te conta o tempo a vida breve,
e tenho de chamar-te vovozinha,
vovozinha Teresa do Carmelo,
de mel no nome e de ternura acesa
no coração de um distraído agnóstico,
ao abrir o jornal e nele ver
três linhas com teu nome,
entre os nomes de Hanói e de Manágua,
como um lírio nascido por acaso.
1 110
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Os Namorados do Brasil

Dai-me, Senhor, assistência técnica
para eu falar aos namorados do Brasil.
Será que namorado escuta alguém?
Adianta falar a namorados?
E será que tenho coisas a dizer-lhes
que eles não saibam, eles que transformam
a sabedoria universal em divino esquecimento?
Adianta-lhes, Senhor, saber alguma coisa,
quando perdem os olhos
para toda paisagem,
perdem os ouvidos
para toda melodia
e só veem, só escutam
melodia e paisagem de sua própria fabricação?

Cegos, surdos, mudos — felizes! — são os namorados
enquanto namorados. Antes, depois
são gente como a gente, no pedestre dia a dia.
Mas quem foi namorado sabe que outra vez
voltará à sublime invalidez
que é signo de perfeição interior.
Namorado é o ser fora do tempo,
fora de obrigação e CPF,
ISS, IFP, Pasep, INPS.

Os códigos, desarmados, retrocedem
de sua porta, as multas envergonham-se
de alvejá-lo, as guerras, os tratados
internacionais encolhem o rabo
diante dele, em volta dele. O tempo,
afiando sem pausa a sua foice,
espera que o namorado desnamore
para sempre.
Mas nascem todo dia namorados
novos, renovados, inovantes,
e ninguém ganha ou perde esta batalha.

Pois namorar é destino dos homens,
destino que regula
nossa dor, nossa doação, nosso inferno gozoso.
E quem vive, atenção:
cumpra sua obrigação de namorar,
sob pena de viver apenas na aparência.
De ser o seu cadáver itinerante.
De não ser. De estar, ou nem estar.

O problema, Senhor, é como aprender, como exercer
a arte de namorar, que audiovisual nenhum ensina,
e vai além de toda universidade.
Quem aprendeu não ensina. Quem ensina não sabe.
E o namorado só aprende, sem sentir que aprendeu,
por obra e graça de sua namorada.

A mulher antes e depois da Bíblia
é pois enciclopédia natural,
ciência infusa, inconsciente, infensa a testes,
fulgurante no simples manifestar-se, chegado o momento.
Há que aprender com as mulheres
as finezas finíssimas do namoro.
O homem nasce ignorante, vive ignorante, às vezes morre
três vezes ignorante de seu coração
e da maneira de usá-lo.

Só a mulher (como explicar?)
entende certas coisas
que não são para entender. São para aspirar
como essência, ou nem assim. Elas aspiram
o segredo do mundo.

Há homens que se cansam depressa de namorar,
outros que são infiéis à namorada.
Pobre de quem não aprendeu direito,
ai de quem nunca estará maduro para aprender,
triste de quem não merecia, não merece namorar.

Pois namorar não é só juntar duas atrações
no velho estilo ou no moderno estilo,
com arrepios, murmúrios, silêncios,
caminhadas, jantares, gravações,
fins de semana, o carro à toda ou a 80,
lancha, piscina, dia dos namorados,
foto colorida, filme adoidado,
rápido motel onde os espelhos
não guardam beijo e alma de ninguém.

Namorar é o sentido absoluto
que se esconde no gesto muito simples,
não intencional, nunca previsto,
e dá ao gesto a cor do amanhecer,
para ficar durando, perdurando,
som de cristal na concha
ou no infinito.

Namorar é além do beijo e da sintaxe,
não depende de estado ou condição.
Ser duplicado, ser complexo,
que em si mesmo se mira e se desdobra,
o namorado, a namorada
não são aquelas mesmas criaturas
que cruzamos na rua.
São outras, são estrelas remotíssimas,
fora de qualquer sistema ou situação.

A limitação terrestre, que os persegue,
tenta cobrar (inveja)
o terrível imposto de passagem:
“Depressa! Corre! Vai acabar! Vai fenecer!
Vai corromper-se tudo em flor esmigalhada
na sola dos sapatos…”
Ou senão:
“Desiste! Foge! Esquece! Esquece!”
E os fracos esquecem. Os tímidos desistem.
Fogem os covardes.
Que importa? A cada hora nascem
outros namorados para a novidade
da antiga experiência.
E inauguram cada manhã
(namoramor)
o velho, velho mundo renovado.
1 368
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Manuel Bandeira Faz Novent’Anos

Oi, poeta!
Do lado de lá, na moita, hem?, fazendo seus novent’anos…
E se rindo, eu aposto, dessa bobagem de contar tempo,
de colar números na veste inconsútil do tempo, o inumerável,
o vazio-repleto, o infinito onde seres e coisas
nascem, renascem, embaralham-se, trocam-se,
com intervalos de sono maior, a que, sem precisão científica, chamamos de morte.
Mas bem que gostavas de fazer anos, lembras-te?
de tirar retrato, de beijar moçoilas flóreas, de rir
um riso que filtrava todas as salsugens da experiência e do desencanto,
e não era ácido, era indulgente/infantil, era sumo da suma:
como pesa a alma, como é leve o corpo,
mesmo visitado de mortais micróbios!

Sempre respeitei teus silêncios-pigarro
e seus corredores frios.
Parava diante da campainha
sem saber: toco?
surpreendo?
pergunto, de gravador?
Hoje me sobe o desejo
de saber o que fazes, como,
onde:
em que verbo te exprimes, se há verbo?
em que forma de poesia, se há poesia,
versejas?
em que amor te agasalhas, se há amor?
em que deus te instalas, se há deus?

Que lado, poeta, é o lado de lá,
não me dirás, em confiança?
Como passas as manhãs,
a cor qual é de teu dia,
como anoiteces? (Perdoa
falar-te em termos horários,
sobre a extradimensão sem relógios.
Vezo terrestre.) Sorris.
Sorriso-tosse,
com reticências. Desisto.

É aqui, neste agora, no teu livro
que te encontro:
Manuel, profundamente,
poeta de vastas solidões
desabrochadas em curta, embaladora
(como esquecê-la?) surdinada canção.

Manuel canção de câmara, Manuel
canção de quarto e beco,
ritmo de cama e boca
de homem e mulher colados no arrepio
do eterno transitório: traduziste
para nós a tristeza de possuir e de lembrar,
a de não possuir e de lembrar,
a de passar,
mescla do que foi, do que seria,
simultaneamente projetados
na mesma tela branca de episódios
— em nós, vaga, soprada cinza,
em ti, o sopro intenso de poesia.

Isto nos deste, verso a verso,
e só depois o soubemos claramente,
na leitura da luz da vida inteira.
Foste nosso poeta, doaste som
de piano e violão e flauta ao sentimento
esparso, convulsivo, dos amantes,
dos doentes, dos fracos, dos meninos,
dos sozinhos, na praça ou sanatório:
Manuel-muitos-irmãos no gesto seco.

Novent’anos, será? ou és menino
também e para sempre
agora que viveste a dor da vida
e sorris no mais longe Pernambuco?
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Um Besouro Em Toda Parte

Besourinho escuro
de casco bronzeado,
por que vens de longe
pousar neste muro?

Novas africanas
trazes para mim?
Cifrada mensagem,
no ar, de Idi Amim?

Contas sofrimento,
cantas liberdade,
luta sempre acesa
ou turvo lamento?

Superfícies alvas,
focos de calor
te fascinam, tonto,
seja como for?

Mas quedas inerte
em minha vidraça.
Nem moves as patas.
Isso te diverte?

Vir de tão remotos
céus para ficar
abobado, alheio
à festa solar?

Turista aprendiz
e desinformado,
o vernal dezembro
não te faz feliz?

Já pelas favelas
um rio de som
desliza e deságua
por sobre o Ano Bom.

Este seu caudal
cria vibração,
e de samba e voz
faz-se carnaval.

Não voas, não bailas
na geral ciranda?
Preferes a sesta
em minha varanda?

A parar começas
os teus movimentos
qual se gasolina
te fugisse às peças?

Caíste em letargo
pensando talvez
que é vão todo esforço
neste, em qualquer mês?

A tantas perguntas
nada me respondes.
Desdenhas, calado,
todas elas juntas.

O doutor ao lado
esclarece então:
“O inseto é quietinho,
mas de muita ação.”

Quem o vê tranquilo
não sabe o poder
que ele manifesta
em voraz estilo.

No imobilismo
em que se comporta,
organiza o plano
de comer a horta.

Não corre, não pula,
mas na hora exata
ferra no jardim
o dente da gula.

Numa noite apenas,
o verdor perece,
já no chão vencido
a vagem fenece.

Adeus, lavourinha,
adeus, meu sustento.
Que me livre o céu
da praga daninha.

São dez, não quarenta,
são mil a pastar,
em silêncio e força,
quanto se plantar.

Só inseticida,
do bravo, e a Feema,
conjugados, podem
ganhar a partida.

Mas cuidado: o mal
é maior ainda
se com esse expurgo
nossa vida finda.

Poluição? Inseto?
Por que risco optar?
Hesito, e um bichinho
vejo lá no teto.

Vejo-o nas cortinas,
vejo-o nas paredes.
Vê-o meu vizinho
na sua Mercedes.

Na blusa do broto
e na sua tanga,
joia, dependura-se
o inseto maroto.

No austero papel
da burocracia,
no prato de arroz,
ele passa o dia.

Na vida da gente,
parado ou roendo,
o escuro bichinho
reina, indiferente.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Consciência Suja

I
Vadiar, namorar, namorar, vadiar,
escrever sem pensar, sentir sem compreender,
é isso a adolescência? E teu pai mourejando
na fanada fazenda para te sustentar?

Toma tento, rapaz. Escolhe qualquer rumo,
vai ser isto ou aquilo, ser: não disfarçar.
Que tal a profissão, o trabalho, o dinheiro
ganho por teu esforço, ó meu espelho débil?

Hesitas. Ziguezagueias. Chope não decide,
verso, muito menos. Teus amigos já seguem
o caminho direito: leva à Faculdade,
à pompa estadual e talvez federal.

Erras, noite a fundo, em rebanho, em revolta,
contra teu próprio errar, sem programa de vida.
Ó vida, vida, vida, assim desperdiçada
a cada esquina de Bahia ou Paraúna.

Ela te avisa que vai fugir, está fugindo,
segunda, terça, torta, quarta, parda, quinta,
sápida, sexta, seca, sábado — passou!
Domingo é soletrar o vácuo de domingo.

Então, sei lá por quê, tu serás farmacêutico.
II
E você continua a perder tempo
do Bar do Ponto à Escola de Farmácia
sem estudar.
Da Escola de Farmácia à doce Praça
da Liberdade
sem trabalhar.
Da Praça novamente ao Bar do Ponto faladeiro,
do Bar do Ponto — é noite — à casa na Floresta
sem levar a sério o sério desta vida,
e é só dormir e namorar e vadiar.
Seus amigos passam de ano,
você não passa.
Ganham salário nas repartições,
você não ganha nada.
O Anatole France que degustam,
o Verlaine, o Gourmont, outras essências
do clair génie français já decadente,
compram com dinheiro do ordenado,
não de fácil mesada.
Se dormem com a Pingo de Ouro, a Jordelina,
pagam do próprio bolso esse prazer,
não de bolsa paterna.
Você pretende o quê?
Ficar nesse remanso a vida inteira?
O tempo vai passando, Clara Weiss
avisa no cartaz: Addio, giovinezza,
e você não vê, você não sente
a mensagem colada ao seu nariz?
Olhe os outros: formados, clinicando,
soltando réus, vencendo causas gordas,
e você aí, à porta do Giacomo
esperando chegar o trem das 10
com seu poeminha em prosa na revista,
que ninguém lerá nem tal merece.
Quem afinal sustenta sua vida?
Bois longínquos, éguas enevoadas
no cinza além da serra, estrume de fazenda,
a colheita de milho, o enramado feijão
e…
Fim.
A raça que já não caça
ela em ti é caçada.
III
Noite montanha. Noite vazia. Noite indecisa.
Confusa noite. Noite à procura, mesmo sem alvo.

O trem do Rio trouxe os jornais. Já foram lidos.
Em nenhum deles a obra-prima doura teu nome.

Que vais fazer, magro estudante, se não estudas,
nesta avenida de tempo longo, de tédio infuso?

Deusas passaram na tarde esquiva, inabordáveis.
Os cabarés estão proibidos aos sem dinheiro.

Tua cerveja resta no copo, amargo-morna.
Minas inteira se banha em sono protocolar.

Nava deixou, leve no mármore, mais um desenho.
É Wilde? É Príapo? Vem o garçom, apaga o traço.

Galinha Cega, de João Alphonsus. Que vem fazer,
onze da noite, letra miúda, enquanto Emílio,

ao nosso lado, singra tão longe, boia tão nuvem
em seus transmundos de indagativas constelações?

Luís Vaz perpassa, em voo grave, no Bar do Ponto:
soneto antigo, em novo timbre, de Abgar Renault.
Anatoliano, Mílton assesta os olhos míopes.
Sua voz mansa busca alegrar teu desconforto.

Vem manquitando Alberto Campos. Sua ironia
esconde o lume do coração. Rápido Alberto,

será o primeiro a nos deixar. Sabe da morte
alguém da roda? Sabe da vida? E por acaso

queres saber? Em poço raso vais afundar-te
para que os outros fiquem cientes de tua ausência

e ao mesmo tempo tu te divirtas a contemplá-los,
ator em férias. Perdão, te ofendo? Martins de Almeida,

crítico-infante, faz o diagnóstico: Brasil errado.
Brasil, qual nada. O errado é este, sentado à mesa,

fraco aprendiz de desespero. Melhor: ingênuo?
Quantas caretas treinas no espelho para esconderes

a própria face? Nenhuma serve. O rosto autêntico
é o menos próprio para gravar o natural.

Que é natural? Verso? Mudez? Sais do letargo.
Cerram-se as portas, rangido-epílogo. Os outros vão-se,

com seus diplomas, brigar com a vida, domar a vida,
ganhar a vida. E teu cursinho físico-químico

não te vê nunca de livro aberto, de mão esperta,
laboratória. Não tomas jeito? Como é, rapaz?

A noite avança. O último bonde passa chispando
rumo à Floresta. Ou rumo aonde? Existe rumo?

Pedestre insone, vais caminhando. E nem reparas
nessa estrelinha, pálida, suja, na água do Arrudas.
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