Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Matilde Campilho
Chapéu de Palha
Fazes-me lembrar
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
um filme do Rohmer
ou o toldo vermelho
do Joaquim Manuel
Quando penso em ti
eu esqueço o lixo
que de manhã faz barulho
à minha porta
Pareces-te com o tempo
das amendoeiras
Tens tudo a ver com
a escadaria semi-invisível
que o mágico escavou
no rochedo atlântico
Sim tu pareces o Verão
Às vezes quando entras
quase dá para ouvir o ruído
do motor de um jipe
Um Lada Niva por exemplo
(de cor azul)
a assapar entre a poeira
e os eucaliptos
sempre em direção à praia
Fazes lembrar a alegria
de um risco na parede
desenhado a carvão
pela criança da manhã
É no verde dos teus olhos
que eu treino a disciplina
de uma explosão sossegada
que se vai revelando devagar
ao ritmo das estações concretas
E já agora também é no amarelo
dos teus olhos que eu descanso
da guerrilha do mundo moderno
Aquele que nos fez esquecer
a gargalhada de David
quando derrotou o gigante
(mas olha há sempre um riso
ecoando lento na caverna)
Estamos aqui para vencer a dor
E teu rosto diário faz lembrar
a vitória do tempo sobre o tempo
Porque afinal de contas tu
te pareces muito com a promessa
de uma fé vagarosa & livre
Pareces a coragem, pareces a paz
Pareces mesmo a madrugada egípcia
sobre a qual voa um passarinho.
699
Daniel Gonçalves
a poesia veio ter comigo
a poesia veio ter comigo num dia de chuva
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento
olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti
aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio
comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar
enrolei-me na minha sombra
e esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos
a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa
tinha o corpo molhado até à palavra mais ínfima
diria que era um dia triste
um dia para se morrer contra a janela do esquecimento
olhei para a poesia como quem fita o âmago de uma candeia acesa
mas no lugar da luz estava uma canção
no lugar da chama estava um bicho da seda
e dali saía o manto branco com que me vesti
aos poucos fui perdendo o frio
o sangue coagulado com a tristeza de haver apenas silêncio
comecei a acreditar no mistério do meu nome
na estrela que faz a noite parecer mais azul do que o mar
e com ele fui-me chamando para junto das flores e das pedras
como uma palavra acabada de caiar
enrolei-me na minha sombra
e esse casulo criou um verso para eu falar aos anjos
a partir desse dia nunca mais fiquei sozinho
e os anjos esses
apareceram com mais frequência à janela da minha casa
753
Bernardo Pinto de Almeida
Poema surdo
Chega a noite e surpreende
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
772
Bernardo Pinto de Almeida
Poema surdo
Chega a noite e surpreende
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
772
Bernardo Pinto de Almeida
Poema surdo
Chega a noite e surpreende
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
no meio do silêncio um longo bater de horas
num relógio que não ouves
mas desde sempre acompanhou todas as noites
num corredor que apenas vias
na obscuridade: o exacto retrato do teu medo
esse bater de um coração que traz o tempo
move o tempo
e mecânico
te retira em face da presença da morte
a escolha clara.
Segues caminhos vários
como sempre
todos eles conduzem até um rio inesperado mas de sempre conhecido
tal a tua sombra
tal a tua tumultuosa sombra de que foges
e procuras
como se apenas em vários movimentos
pudesses coexistir contigo mesmo.
Mas onde a doce escolha
a luz
a que haveria de trazer para debaixo dos teus olhos cansados
o acertado movimento
que os não conduzisse sempre para a cegueira?
Disse-o antes:
o amor sem amor devolve-te a ti mesmo
e tudo o que apenas se passou
insiste no horizonte dos teus olhos
e bate como se tivesse já acontecido há muito mais que cem anos
tens dentro de ti um século
e no entanto nada em ti se esqueceu
nem um vago momento rasga
a fotografia breve daquilo que foi
tudo parece impresso e és tu o papel
emaciado.
Queres dar sentido ao que não tem sentido
ou perceber um rosto no que já não tem rosto
e frágil pela noite que ainda te inunda os olhos
ver um fio condutor que lá não está.
E tudo à tua volta te desmente
nem a palavra exacta te soa nos ouvidos
nem a boca acompanha a forma das palavras:
como num filme mal dobrado as palavras descoincidem
com os movimentos dos lábios se estes falam. E tudo
te parece por dentro paisagem devastada
que semente alguma
o vento ainda trouxesse a visitar.
Há um tribunal em que és o réu e o advogado
e as testemunhas todas que perpassam
e és também o estrado e a balaustrada
e o juiz circunspecto que te escuta:
e o crime de que te acusam
jamais o perpetraste
mas ainda assim confessas
e pedes o castigo
para que nada reste do que foi a liberdade
para que de ti apenas fique um registo esquecido
num arquivo poeirento que jamais alguém visitará.
E pergunto-me o que havia no teu rosto
que animal demente prenunciava
na sua a voz mortal que preparava
entre sonhos o sem fim e sem lamento.
772
Pero da Ponte
Senhor do Corpo Delgado
Senhor do corpo delgado,
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
661
Pero da Ponte
Senhor do Corpo Delgado
Senhor do corpo delgado,
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
em forte pont'eu fui nado
senhor, por vós e por mi!
Com est'afã tam longado,
em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
Ai eu, cativ'e coitado,
em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
em forte pont'eu fui nado,
senhor, por vós e por mi!
661
Pero da Ponte
Sueir'eanes, Este Trobador
Sueir'Eanes, este trobador,
foi por jantar a cas d'um infançom
e jantou mal; mais el vingou-s'entom,
que ar hajam os outros del pavor,
e nom quis el a vendita tardar:
e, tanto que se partiu do jantar,
trobou-lhi mal, nunca vistes peior.
E no mundo nom sei eu trobador
de que s'home mais devesse temer
de x'el mui maas três cobras fazer,
ou quatro, a quem lhi maa barva for;
ca, des que vo-lh'el cae na razom,
maas três cobras, ou quatr'e o som,
de as fazer muit'é el sabedor.
E por esto nom sei no mundo tal
home que a el devess'a dizer
de nom, por lhi dar mui bem seu haver;
e a Sueir'Eanes nunca lhi fal
razom de quem el despagado vai,
em que lhi troba tam mal e tam lai,
per que o outro sempre lhi quer mal.
foi por jantar a cas d'um infançom
e jantou mal; mais el vingou-s'entom,
que ar hajam os outros del pavor,
e nom quis el a vendita tardar:
e, tanto que se partiu do jantar,
trobou-lhi mal, nunca vistes peior.
E no mundo nom sei eu trobador
de que s'home mais devesse temer
de x'el mui maas três cobras fazer,
ou quatro, a quem lhi maa barva for;
ca, des que vo-lh'el cae na razom,
maas três cobras, ou quatr'e o som,
de as fazer muit'é el sabedor.
E por esto nom sei no mundo tal
home que a el devess'a dizer
de nom, por lhi dar mui bem seu haver;
e a Sueir'Eanes nunca lhi fal
razom de quem el despagado vai,
em que lhi troba tam mal e tam lai,
per que o outro sempre lhi quer mal.
597
Matilde Campilho
I´Ll Have What She´S Having
nunca vou ser bom para ti
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
976
Matilde Campilho
I´Ll Have What She´S Having
nunca vou ser bom para ti
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
976
Pero da Ponte
Mentre M'agora D'al Nom Digo [Nada]
Mentre m'agora d'al nom digo [nada]
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
307
Pero da Ponte
O Que Valença Conquereu
O que Valença conquereu
por sempre mais valenç'haver,
Valença se quer manteer
e sempr'em valença entendeu.
E de Valença é senhor,
pois el mantém prez e loor
e prês Valença por valer.
E per valença sempre obrou
por haver Valença, de pram;
e por valença lhi diram
que bem Valença gaanhou.
E o bom rei Valença tem
que, pois prez e valor mantém,
rei de Valença lhi diram.
Ca Deus lhi deu esforç'e sem
por sobre Valença reinar,
e lhi fez Valença acabar
com quanta valença convém.
El rei que Valença conquis,
que de valença est bem fiz
e per valença quer obrar,
rei de razom, rei de bom sem,
rei de prez, rei de todo bem
est, e rei d'Aragon, de pram!
por sempre mais valenç'haver,
Valença se quer manteer
e sempr'em valença entendeu.
E de Valença é senhor,
pois el mantém prez e loor
e prês Valença por valer.
E per valença sempre obrou
por haver Valença, de pram;
e por valença lhi diram
que bem Valença gaanhou.
E o bom rei Valença tem
que, pois prez e valor mantém,
rei de Valença lhi diram.
Ca Deus lhi deu esforç'e sem
por sobre Valença reinar,
e lhi fez Valença acabar
com quanta valença convém.
El rei que Valença conquis,
que de valença est bem fiz
e per valença quer obrar,
rei de razom, rei de bom sem,
rei de prez, rei de todo bem
est, e rei d'Aragon, de pram!
595
Pero da Ponte
Marinha López, Oimais, a Seu Grado
Marinha López, oimais, a seu grado,
se quiser Deus, será bõa molher;
e se algum feito fez desaguisado,
non'o fará jamais, se Deus quiser;
e direi-vos como se quer guardar:
quer-s'ir ali em cas Dom Lop'andar,
u lhi semelha logar apartado.
E bem creede que est apartado
pera ela, que folia nom quer,
ca nom veerá i mais nulh'homem nado
de mil cavaleiros, se nom quiser;
e pois se quer de folia leixar,
de pram Deus lhi mostrou aquel logar:
i pode bem remiir seu pecado.
E pois bem quer remiir seu pecado,
logar achou qual havia mester,
u nom saberá parte nem mandado
de nulh'home, se d'alhur nom veer;
pero se pobr'ou coitado passar
per aquel porto, sabê-lo-á albergar
e, de mais, dar-lh'alberg'endõado.
se quiser Deus, será bõa molher;
e se algum feito fez desaguisado,
non'o fará jamais, se Deus quiser;
e direi-vos como se quer guardar:
quer-s'ir ali em cas Dom Lop'andar,
u lhi semelha logar apartado.
E bem creede que est apartado
pera ela, que folia nom quer,
ca nom veerá i mais nulh'homem nado
de mil cavaleiros, se nom quiser;
e pois se quer de folia leixar,
de pram Deus lhi mostrou aquel logar:
i pode bem remiir seu pecado.
E pois bem quer remiir seu pecado,
logar achou qual havia mester,
u nom saberá parte nem mandado
de nulh'home, se d'alhur nom veer;
pero se pobr'ou coitado passar
per aquel porto, sabê-lo-á albergar
e, de mais, dar-lh'alberg'endõado.
614
Pero da Ponte
Eu Digo Mal, Com'home Fodimalho
Eu digo mal, com'home fodimalho,
quanto mais posso daquestes fodidos
e trob'a eles e a seus maridos;
e um deles mi pôs mui grand'espanto:
topou comig'e sobraçou o manto
e quis em mi achantar o caralho.
Ando-lhes fazendo cobras e sões
quanto mais poss', e and'escarnecendo
daquestes putos que s'andam fodendo;
e um deles de noit[e] asseitou-me
e quis-me dar do caralh'[e] errou-me
e lançou, depós mim, os colhões.
quanto mais posso daquestes fodidos
e trob'a eles e a seus maridos;
e um deles mi pôs mui grand'espanto:
topou comig'e sobraçou o manto
e quis em mi achantar o caralho.
Ando-lhes fazendo cobras e sões
quanto mais poss', e and'escarnecendo
daquestes putos que s'andam fodendo;
e um deles de noit[e] asseitou-me
e quis-me dar do caralh'[e] errou-me
e lançou, depós mim, os colhões.
777
Pero da Ponte
Dom Tisso Pérez, Queria Hoj'eu
Dom Tisso Pérez, queria hoj'eu
seer guardado do trebelho seu
[j]á per doar-lh'o batom que foi meu;
mais nom me poss'a seu jogo quitar;
e, Tisso Pérez, que demo mi o deu,
por sempre migo querer trebelhar?
De trebelhar mi há el gram sabor
e eu pesar, nunca vistes maior:
ca nom dórmio de noite com pavor,
ca me trebelha sempre ao lũar.
[Que] demo o fezo tam trebelhador,
por sempre migo querer trebelhar?
Cada que pode, mal me trebelhou;
e eu por en já mi assanhando vou
de seu trebelho mao, que vezou,
com que me vem cada noit'espertar;
e Tisso Pérez, Demo mi o mostrou,
por sempre migo querer trebelhar.
seer guardado do trebelho seu
[j]á per doar-lh'o batom que foi meu;
mais nom me poss'a seu jogo quitar;
e, Tisso Pérez, que demo mi o deu,
por sempre migo querer trebelhar?
De trebelhar mi há el gram sabor
e eu pesar, nunca vistes maior:
ca nom dórmio de noite com pavor,
ca me trebelha sempre ao lũar.
[Que] demo o fezo tam trebelhador,
por sempre migo querer trebelhar?
Cada que pode, mal me trebelhou;
e eu por en já mi assanhando vou
de seu trebelho mao, que vezou,
com que me vem cada noit'espertar;
e Tisso Pérez, Demo mi o mostrou,
por sempre migo querer trebelhar.
329
Pero da Ponte
Noutro Dia, Em Carrion
Noutro dia, em Carrion,
queria[m] um salmom vender,
e chegou i um infançom;
e, tanto que o foi veer,
creceu-lhi del tal coraçom
que diss'a um seu hom'entom:
- Peixota quer'hoj'eu comer.
Ca muit'há já que nom comi
salmom, que sempre desejei;
mais, pois que o ach'ora aqui,
já custa nom recearei,
que hoj'eu nom cômia, de pram,
bem da peixota e do pam,
que muit'há que bem nom ceei.
Mais, pois aqui salmom achei,
querrei hoj'eu mui bem cear,
ca nom sei u mi o acharei,
des que me for deste logar;
e do salmom que ora vi,
ante que x'o levem dali,
vai-m'ũa peixota comprar.
Nom quer'eu custa recear,
pois salmom fresco acho, Sinher!
Mais quero ir bem del assũar
por enviar a mia molher
(que morre por el outrossi)
da balea que vej'aqui;
e depois quite quem poder!
queria[m] um salmom vender,
e chegou i um infançom;
e, tanto que o foi veer,
creceu-lhi del tal coraçom
que diss'a um seu hom'entom:
- Peixota quer'hoj'eu comer.
Ca muit'há já que nom comi
salmom, que sempre desejei;
mais, pois que o ach'ora aqui,
já custa nom recearei,
que hoj'eu nom cômia, de pram,
bem da peixota e do pam,
que muit'há que bem nom ceei.
Mais, pois aqui salmom achei,
querrei hoj'eu mui bem cear,
ca nom sei u mi o acharei,
des que me for deste logar;
e do salmom que ora vi,
ante que x'o levem dali,
vai-m'ũa peixota comprar.
Nom quer'eu custa recear,
pois salmom fresco acho, Sinher!
Mais quero ir bem del assũar
por enviar a mia molher
(que morre por el outrossi)
da balea que vej'aqui;
e depois quite quem poder!
617
Matilde Campilho
Rio de Janeiro — Lisboa
um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
1 018
Matilde Campilho
Panteão Nacional
Mercúrio, meu cabrão:
Tu que alinhaste a melena
de ouro em jeito de aviso
à queda, que penteaste teu
cabelinho todo para trás
antecipando o encontro:
Não podias ter soltado
pelo menos um conselho?
Meu grandessíssimo filho
de um deus velho, seu
moleque mimado: não
dava pra, sei lá, escrever
recado nos anéis do vovô
ou enfiar à socapa uma
mensagem no mapa
topográfico de Alicante?
Qualquer coisa servia, M.
Tu que puxaste o lustro
às sandálias e às asas
das tuas sandálias, que
jeitaste o paletó de herói
e te lavaste os pés: tu já
sabias no que isso dava.
Meu grande sacana, tua
obrigação era subir na boca
e um megafone dourado
e dizer: «Cuidado rapaziada,
tenham atenção a esse nó
que acontece no estômago
no preciso momento em que
esperam por vosso amante
Tu que alinhaste a melena
de ouro em jeito de aviso
à queda, que penteaste teu
cabelinho todo para trás
antecipando o encontro:
Não podias ter soltado
pelo menos um conselho?
Meu grandessíssimo filho
de um deus velho, seu
moleque mimado: não
dava pra, sei lá, escrever
recado nos anéis do vovô
ou enfiar à socapa uma
mensagem no mapa
topográfico de Alicante?
Qualquer coisa servia, M.
Tu que puxaste o lustro
às sandálias e às asas
das tuas sandálias, que
jeitaste o paletó de herói
e te lavaste os pés: tu já
sabias no que isso dava.
Meu grande sacana, tua
obrigação era subir na boca
e um megafone dourado
e dizer: «Cuidado rapaziada,
tenham atenção a esse nó
que acontece no estômago
no preciso momento em que
esperam por vosso amante
1 058
Pero da Ponte
D'um Tal Ric'home Ouç'eu Dizer
D'um tal ric'home ouç'eu dizer
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
que est mui ric'hom'assaz,
de quant'em gram requeza jaz;
mais esto nom poss'eu creer,
mais creo-mi al, per boa fé:
quem d'amigos mui prob[e] é
nom pode mui rico seer.
De mais, quem há mui gram poder
de fazer alg'e o nom faz,
mais de viver porque lhi praz?
Pois que nom val nem quer valer
[c]om grand'estança, que prol lh'há?
Ca, pois d'amigos mal está,
nom pode bõa estanç'haver.
Ca, pois hom'é de tal convém
por que todos lhi querem mal,
o Demo lev'o que lhi val
sa requeza! De mais a quem
nom presta a outrem nem a si,
de mal conhocer per est i
quem tal home por rico tem.
E direi-vos del outra rem
e nom acharedes end'al:
pois el diz que lhi nom en chal
de dizerem del mal nem bem,
jamais del nom atenderei
bom feit[o], e sempr'o terrei
por cousa que nom vai nem vem.
Mas, pero lh'eu grand'haver sei,
que há el mais do que eu hei,
pois s'end'el nom ajuda rem?
740
Pero da Ponte
Pois de Mia Morte Gram Sabor Havedes
Pois de mia morte gram sabor havedes,
senhor fremosa, mais que doutra rem,
nunca vos Deus mostr'o que vós queredes,
pois vós queredes mia mort'; e por en
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
Nom vos and'eu per outras galhardias,
mais sempr'aquesto rogarei a Deus:
em tal que tolha El dos vossos dias,
senhor fremosa, e e[m] nada nos meus.
Rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
E Deus [que] sabe que vos am'eu muito,
e amarei enquant'eu vivo for,
El me leix'ante por vós trager luito
ca vós por mi; [e] por en mia senhor
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
senhor fremosa, mais que doutra rem,
nunca vos Deus mostr'o que vós queredes,
pois vós queredes mia mort'; e por en
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
Nom vos and'eu per outras galhardias,
mais sempr'aquesto rogarei a Deus:
em tal que tolha El dos vossos dias,
senhor fremosa, e e[m] nada nos meus.
Rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
E Deus [que] sabe que vos am'eu muito,
e amarei enquant'eu vivo for,
El me leix'ante por vós trager luito
ca vós por mi; [e] por en mia senhor
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
653
Matilde Campilho
Explicação do Sopro
Século XXI. Certos homens se fecham em quartos de hotel porque nos lugares anônimos é muito possível ficar encostado numa parede branca vendo a água correr no chão do chu veiro. Dois rapazinhos pegam as bicicletas e pedalam quatro centos e vinte quilômetros até achar a costa. Ao alcançá-la, tiram suas roupas e não mergulham: só encostam a zona lombar na areia e repetem até ao infinito a ladainha da tabuada do sete. Um bombeiro termina seu turno de vinte e quatro horas e entra no boteco junto à estátua de São Tarso. Pede um conjunto de sete pães de queijo e nos espaços entre cada um dos pães ele fica procurando por algum pedaço da túnica de Deus. O motorista do ônibus sabe perfeitamente que dentro da mala da senhora de rosto limpo tem uma caixa de joias que contém uma caixa de medicamentos que contém uma caixa de anel que contém uma bala. O tocador de kalimba está muito consciente de que hoje o mantra nasce da mistura de um cântico de procissão com o latir do cachorro, e está consciente também de que todo o desenho acha sua acústica perfeita nas pequenas eremitas. Aquele que pinta a natureza, o ladrão de ossos, sabe que deve empreender seu trabalho em posição horizontal, de corpo muito junto ao chão. E se por acaso o observarmos no processo por mais de sete minutos, podemos reparar que sua caixa torácica constantemente toca a tela, sempre na mesma cadência. A moça de vinte e sete anos ainda está sentada ao toucador, de frente para o próprio rosto, absolutamente indecisa sobre qual dos objetos escolher. Entre o batom alaranjado, a carabina calibre 12, o pó de arroz e o crucifixo em miniatura vai uma distância de dois passos a galope.
1 326
Pero da Ponte
Pois [Que] Vos Vós Cavidar Nom Sabedes
Pois [que] vos vós cavidar nom sabedes
deste marido com que vós seedes,
mostrar-vos quer'eu como vos vinguedes
del, que vos faz com mal dia viver:
maa noite vos mando que lhi dedes,
pois que vos el mal dia faz haver.
Pois vos Deus deu tamanha valentia
de vos vingar, se [me] creverdes, tia,
deste marido, que vos dá mal dia,
mostrar-vos-ei gram dereit'a prender:
maa noite lhi dade todavia,
pois que vos el mal dia faz haver.
Direi-vos eu a negra da verdade,
se mi a creverdes; e, se nom, leixad'e
del, que vos dá mal dia, vos vingade;
pois vos en Deus deu tamanho poder,
oimais, tia, negra noite lhi dade,
pois que vos el mal dia faz haver.
Por Deus, tia, que vos fez seer nada,
nom se ria pois de vós na pousada
este marido que vos tem coitada;
porque vos faz mal dia padecer,
negra noite lhi dade e escurada,
pois que vos el mal dia fez haver.
deste marido com que vós seedes,
mostrar-vos quer'eu como vos vinguedes
del, que vos faz com mal dia viver:
maa noite vos mando que lhi dedes,
pois que vos el mal dia faz haver.
Pois vos Deus deu tamanha valentia
de vos vingar, se [me] creverdes, tia,
deste marido, que vos dá mal dia,
mostrar-vos-ei gram dereit'a prender:
maa noite lhi dade todavia,
pois que vos el mal dia faz haver.
Direi-vos eu a negra da verdade,
se mi a creverdes; e, se nom, leixad'e
del, que vos dá mal dia, vos vingade;
pois vos en Deus deu tamanho poder,
oimais, tia, negra noite lhi dade,
pois que vos el mal dia faz haver.
Por Deus, tia, que vos fez seer nada,
nom se ria pois de vós na pousada
este marido que vos tem coitada;
porque vos faz mal dia padecer,
negra noite lhi dade e escurada,
pois que vos el mal dia fez haver.
554
Pero da Ponte
Nostro Senhor Deus! Que Prol Vos Tem Ora
Nostro Senhor Deus! Que prol vos tem ora
por destroirdes este mund'assi?
Que a melhor dona que era i,
nem houve nunca (vossa madre fora),
levades end'? E pensastes mui mal
daqueste mundo fals'e desleal:
que, quanto bem aquesto mund'havia,
todo lho vós tolhestes em um dia!
Que pouc'home por en prezar devia
este mundo, pois bondad'i nom val
contra morrer! E pois el assi fal,
seu prazer faz quem per tal mundo fia:
ca o dia que eu tal pesar vi,
já, per quant'eu deste mund'entendi,
por fol tenh'eu quem por tal mundo chora
e por mais fol quem mais en'el[e] mora!
Em forte ponto e em fort[e] hora
fez Deus o mundo, pois nom leixou i
nẽum conort[o] e levou daqui
a bõa rainha, que ende fora,
dona Beatrix! Direi-vos eu qual:
nom fez Deus outra melhor nem tal,
nem de bondade par nom lh'acharia
home no mundo, par Santa Maria!
por destroirdes este mund'assi?
Que a melhor dona que era i,
nem houve nunca (vossa madre fora),
levades end'? E pensastes mui mal
daqueste mundo fals'e desleal:
que, quanto bem aquesto mund'havia,
todo lho vós tolhestes em um dia!
Que pouc'home por en prezar devia
este mundo, pois bondad'i nom val
contra morrer! E pois el assi fal,
seu prazer faz quem per tal mundo fia:
ca o dia que eu tal pesar vi,
já, per quant'eu deste mund'entendi,
por fol tenh'eu quem por tal mundo chora
e por mais fol quem mais en'el[e] mora!
Em forte ponto e em fort[e] hora
fez Deus o mundo, pois nom leixou i
nẽum conort[o] e levou daqui
a bõa rainha, que ende fora,
dona Beatrix! Direi-vos eu qual:
nom fez Deus outra melhor nem tal,
nem de bondade par nom lh'acharia
home no mundo, par Santa Maria!
688
Pero da Ponte
D'um Tal Ric'home Vos Quero Contar
D'um tal ric'home vos quero contar
que noutro dia a Segóvia chegou,
de como foi a vila refeçar,
pois o ric'home na vila entrou:
ca o manjar que ante davam i
por dez soldos ou por maravedi,
log'esse dia cinc soldos tornou.
Ric'home foi que nos Deus enviou,
que nos nom quis assi desamparar,
que nos a vila assi refeçou,
poilo ric'home veo no logar;
ca nunca eu tam gram miragre vi:
polo açougue refeçar assi,
mentr'o ric'home mandara comprar.
E a Deus devemos graças a dar
deste ric'home que nos presentou,
de mais em ano que era tam car'
com'este foi que ogano passou;
ca, pois este ric'hom'entrou aqui,
nunca maa careza entrou i,
mentr'o ric'home na corte morou.
que noutro dia a Segóvia chegou,
de como foi a vila refeçar,
pois o ric'home na vila entrou:
ca o manjar que ante davam i
por dez soldos ou por maravedi,
log'esse dia cinc soldos tornou.
Ric'home foi que nos Deus enviou,
que nos nom quis assi desamparar,
que nos a vila assi refeçou,
poilo ric'home veo no logar;
ca nunca eu tam gram miragre vi:
polo açougue refeçar assi,
mentr'o ric'home mandara comprar.
E a Deus devemos graças a dar
deste ric'home que nos presentou,
de mais em ano que era tam car'
com'este foi que ogano passou;
ca, pois este ric'hom'entrou aqui,
nunca maa careza entrou i,
mentr'o ric'home na corte morou.
658