Poemas neste tema
Vida e Existência
Reinaldo Ferreira
O Ponto
Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.
4 888
1
Silvaney Paes
Vieram me Dizer
Vieram
me dizer...
Que onde pisei e dancei
Nasceram apenas espinhos;
Que não respeitei o tempo,
Diziam eles,
Da semeadura dos sonhos;
Que a vida é uma semente de ilusão
E que a felicidade
Alcança melhor aos tolos;
Que descobriria,
À priori,
"Que nunca mais",
De regra, é pouco tempo,
E que ele escoa indiferente
A minha vaidade
Ou a outras pretensões humanas,
E que dito tempo é reto,
Mesmo parecendo cumprir um círculo,
Vicioso...
Vieram me dizer...
Que esta minha espinha,
Dagora arqueada,
Tinha a finalidade
De virar uma estrada
Asfaltada por mágoas,
Alento doutras almas;
Que cada castelo de sonho
E todas as pontes imaginárias,
Que ergui,
Ruiriam todas,
Mas na verdade elas nunca me abrigaram,
Nunca me levaram a lugar nenhum;
Que uma estrada é dispensável
Se não pode nos levar a um destino,
Mas ela pode servir para voltar um dia;
Que as lágrimas que eu possa ter chorado,
Tornaram-me mais leve
Depois de exausto,
E por isso não fiquei de todo prostrado,
Embora continue perdido...
Vieram me dizer...
Que essa fome de ir embora
Colocaria meu coração de joelhos,
Estão em carne viva;
Que de joelhos
Poderia erguer preces,
Mas acabei encontrando Deus,
Não no princípio,
Ao final de tudo,
Quando, aquilo que nunca tive.
Já me bastava para levantar;
Que não basta estar faminto
E ter diante de si o melhor manjar,
Careceria querer comer,
Pois cada qual sabe da dor de sua fome
Ou de suas feridas;
Que essa fome de vida me atormentaria,
E só seria consumida com o ar que respiro
E a luz que vislumbro,
E que embora seja ferida aberta,
Sangrando...
Seria o alento de viva dor,
Uma esperança de redenção
Que também carrego,
Ar, esperança...
Continuo esperando.
me dizer...
Que onde pisei e dancei
Nasceram apenas espinhos;
Que não respeitei o tempo,
Diziam eles,
Da semeadura dos sonhos;
Que a vida é uma semente de ilusão
E que a felicidade
Alcança melhor aos tolos;
Que descobriria,
À priori,
"Que nunca mais",
De regra, é pouco tempo,
E que ele escoa indiferente
A minha vaidade
Ou a outras pretensões humanas,
E que dito tempo é reto,
Mesmo parecendo cumprir um círculo,
Vicioso...
Vieram me dizer...
Que esta minha espinha,
Dagora arqueada,
Tinha a finalidade
De virar uma estrada
Asfaltada por mágoas,
Alento doutras almas;
Que cada castelo de sonho
E todas as pontes imaginárias,
Que ergui,
Ruiriam todas,
Mas na verdade elas nunca me abrigaram,
Nunca me levaram a lugar nenhum;
Que uma estrada é dispensável
Se não pode nos levar a um destino,
Mas ela pode servir para voltar um dia;
Que as lágrimas que eu possa ter chorado,
Tornaram-me mais leve
Depois de exausto,
E por isso não fiquei de todo prostrado,
Embora continue perdido...
Vieram me dizer...
Que essa fome de ir embora
Colocaria meu coração de joelhos,
Estão em carne viva;
Que de joelhos
Poderia erguer preces,
Mas acabei encontrando Deus,
Não no princípio,
Ao final de tudo,
Quando, aquilo que nunca tive.
Já me bastava para levantar;
Que não basta estar faminto
E ter diante de si o melhor manjar,
Careceria querer comer,
Pois cada qual sabe da dor de sua fome
Ou de suas feridas;
Que essa fome de vida me atormentaria,
E só seria consumida com o ar que respiro
E a luz que vislumbro,
E que embora seja ferida aberta,
Sangrando...
Seria o alento de viva dor,
Uma esperança de redenção
Que também carrego,
Ar, esperança...
Continuo esperando.
874
1
Silvaney Paes
Vieram me Dizer
Vieram
me dizer...
Que onde pisei e dancei
Nasceram apenas espinhos;
Que não respeitei o tempo,
Diziam eles,
Da semeadura dos sonhos;
Que a vida é uma semente de ilusão
E que a felicidade
Alcança melhor aos tolos;
Que descobriria,
À priori,
"Que nunca mais",
De regra, é pouco tempo,
E que ele escoa indiferente
A minha vaidade
Ou a outras pretensões humanas,
E que dito tempo é reto,
Mesmo parecendo cumprir um círculo,
Vicioso...
Vieram me dizer...
Que esta minha espinha,
Dagora arqueada,
Tinha a finalidade
De virar uma estrada
Asfaltada por mágoas,
Alento doutras almas;
Que cada castelo de sonho
E todas as pontes imaginárias,
Que ergui,
Ruiriam todas,
Mas na verdade elas nunca me abrigaram,
Nunca me levaram a lugar nenhum;
Que uma estrada é dispensável
Se não pode nos levar a um destino,
Mas ela pode servir para voltar um dia;
Que as lágrimas que eu possa ter chorado,
Tornaram-me mais leve
Depois de exausto,
E por isso não fiquei de todo prostrado,
Embora continue perdido...
Vieram me dizer...
Que essa fome de ir embora
Colocaria meu coração de joelhos,
Estão em carne viva;
Que de joelhos
Poderia erguer preces,
Mas acabei encontrando Deus,
Não no princípio,
Ao final de tudo,
Quando, aquilo que nunca tive.
Já me bastava para levantar;
Que não basta estar faminto
E ter diante de si o melhor manjar,
Careceria querer comer,
Pois cada qual sabe da dor de sua fome
Ou de suas feridas;
Que essa fome de vida me atormentaria,
E só seria consumida com o ar que respiro
E a luz que vislumbro,
E que embora seja ferida aberta,
Sangrando...
Seria o alento de viva dor,
Uma esperança de redenção
Que também carrego,
Ar, esperança...
Continuo esperando.
me dizer...
Que onde pisei e dancei
Nasceram apenas espinhos;
Que não respeitei o tempo,
Diziam eles,
Da semeadura dos sonhos;
Que a vida é uma semente de ilusão
E que a felicidade
Alcança melhor aos tolos;
Que descobriria,
À priori,
"Que nunca mais",
De regra, é pouco tempo,
E que ele escoa indiferente
A minha vaidade
Ou a outras pretensões humanas,
E que dito tempo é reto,
Mesmo parecendo cumprir um círculo,
Vicioso...
Vieram me dizer...
Que esta minha espinha,
Dagora arqueada,
Tinha a finalidade
De virar uma estrada
Asfaltada por mágoas,
Alento doutras almas;
Que cada castelo de sonho
E todas as pontes imaginárias,
Que ergui,
Ruiriam todas,
Mas na verdade elas nunca me abrigaram,
Nunca me levaram a lugar nenhum;
Que uma estrada é dispensável
Se não pode nos levar a um destino,
Mas ela pode servir para voltar um dia;
Que as lágrimas que eu possa ter chorado,
Tornaram-me mais leve
Depois de exausto,
E por isso não fiquei de todo prostrado,
Embora continue perdido...
Vieram me dizer...
Que essa fome de ir embora
Colocaria meu coração de joelhos,
Estão em carne viva;
Que de joelhos
Poderia erguer preces,
Mas acabei encontrando Deus,
Não no princípio,
Ao final de tudo,
Quando, aquilo que nunca tive.
Já me bastava para levantar;
Que não basta estar faminto
E ter diante de si o melhor manjar,
Careceria querer comer,
Pois cada qual sabe da dor de sua fome
Ou de suas feridas;
Que essa fome de vida me atormentaria,
E só seria consumida com o ar que respiro
E a luz que vislumbro,
E que embora seja ferida aberta,
Sangrando...
Seria o alento de viva dor,
Uma esperança de redenção
Que também carrego,
Ar, esperança...
Continuo esperando.
874
1
Ferreira Gullar
Extravio
Onde começo,
onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo a chamar-me.
Extraviei-me no tempo
onde estarão meus pedaços?
muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
Esta manhã, esta sala.
onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo a chamar-me.
Extraviei-me no tempo
onde estarão meus pedaços?
muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
Esta manhã, esta sala.
2 270
1
Ferreira Gullar
Extravio
Onde começo,
onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo a chamar-me.
Extraviei-me no tempo
onde estarão meus pedaços?
muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
Esta manhã, esta sala.
onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo a chamar-me.
Extraviei-me no tempo
onde estarão meus pedaços?
muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
Esta manhã, esta sala.
2 270
1
Ferreira Gullar
Extravio
Onde começo,
onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo a chamar-me.
Extraviei-me no tempo
onde estarão meus pedaços?
muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
Esta manhã, esta sala.
onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo a chamar-me.
Extraviei-me no tempo
onde estarão meus pedaços?
muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
Esta manhã, esta sala.
2 270
1
Ferreira Gullar
Extravio
Onde começo,
onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo a chamar-me.
Extraviei-me no tempo
onde estarão meus pedaços?
muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
Esta manhã, esta sala.
onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?
Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.
Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo a chamar-me.
Extraviei-me no tempo
onde estarão meus pedaços?
muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.
Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.
Ah, ser somente o presente:
Esta manhã, esta sala.
2 270
1
Silvaney Paes
Letargia
Já que vais partir...
Faças como o vento ao cair da tarde
Anunciando negra noite de tempestade,
Mas leva este meu coração contigo,
Pois ele nunca amou este abrigo
E por ti, levou-me ao engano,
Renegando ser parte de mim ao me trair.
.
Irei prantear mas não morrerei,
Murmurarei como o pinheiral,
Curvar-me-ei, mas levantarei
Depois que passares
E ante teus ruidosos festejos,
Verão outros, neles, teus enganos,
Pois não foste capaz de arrebentar a fibra
Desta minh’alma que embora triste,
Além de ti, resiste e vive.
Mas vendo que partiste por completo,
Haverei de dormir meu sono letárgico,
Amofinado pela minha dor
E parecerá infindo meu negro crepúsculo ,
Onde d’outros olhos, busco ocultar vida
Recobrindo-me sob completa apatia,
Para suportar o meu mais fustigado inverno.
Perderei folha por folha,
Vez que, serão elas fragmentos d’alma,
Mas serão também as mágoas
E recordações lavadas com lágrimas,
Para voltando-se os olhares, n’outro dia,
Na direção desta alma d’antes declarada finda,
Vejam-se espantados com minha nova aurora,
Que clamará por novo amor em outra primavera.
Faças como o vento ao cair da tarde
Anunciando negra noite de tempestade,
Mas leva este meu coração contigo,
Pois ele nunca amou este abrigo
E por ti, levou-me ao engano,
Renegando ser parte de mim ao me trair.
.
Irei prantear mas não morrerei,
Murmurarei como o pinheiral,
Curvar-me-ei, mas levantarei
Depois que passares
E ante teus ruidosos festejos,
Verão outros, neles, teus enganos,
Pois não foste capaz de arrebentar a fibra
Desta minh’alma que embora triste,
Além de ti, resiste e vive.
Mas vendo que partiste por completo,
Haverei de dormir meu sono letárgico,
Amofinado pela minha dor
E parecerá infindo meu negro crepúsculo ,
Onde d’outros olhos, busco ocultar vida
Recobrindo-me sob completa apatia,
Para suportar o meu mais fustigado inverno.
Perderei folha por folha,
Vez que, serão elas fragmentos d’alma,
Mas serão também as mágoas
E recordações lavadas com lágrimas,
Para voltando-se os olhares, n’outro dia,
Na direção desta alma d’antes declarada finda,
Vejam-se espantados com minha nova aurora,
Que clamará por novo amor em outra primavera.
920
1
Reinaldo Ferreira
Tu, Baby, ao leres um dia
Tu, Baby, ao leres um dia
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -
Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.
Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -
Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.
Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!
2 027
1
Reinaldo Ferreira
Tu, Baby, ao leres um dia
Tu, Baby, ao leres um dia
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -
Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.
Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -
Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.
Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!
2 027
1
Silvaney Paes
Náufrago
Trago desde
o berço o fado,
de com foice fazendo talhos
ou mesmo que me seja a nado,
cumprir o caminho inverso do parto.
reencontrar-me com o passado,
para reatar seculares laços
que para traz foram deixados.
Sendo um dos teus filhos bastardos,
que ficaram por aí largados,
carrego desde aquele parto
algo que jamais poderás nega-lo.
pois dos teus filhos mais legítimos,
que por cá foram nascidos,
trago todos os traços
e também naquilo que falo
encontrará teu registro.
Se os de cá a sal foram provados,
em azeite viram-se banhados
como o mais raro ungüento,
mais que não me torças o rosto
reparando nas marcas que trago
pois te chego como naufrago
em tuas águas banhado,
e não serei jamais abortado,
antes que possa abraça-lo.
E se me abrires os teus braços,
acolhendo-me como filho
não serei só lamento ou gemido
chegado de forma ondular marinho,
em tuas praias cuspido.
Te guardarei tamanho apreço,
que no dia em que me veres partindo,
retornando ao meu antigo ninho
serei um dos tantos gritos,
dos teus filhos mais queridos
saídos de Portugal.
o berço o fado,
de com foice fazendo talhos
ou mesmo que me seja a nado,
cumprir o caminho inverso do parto.
reencontrar-me com o passado,
para reatar seculares laços
que para traz foram deixados.
Sendo um dos teus filhos bastardos,
que ficaram por aí largados,
carrego desde aquele parto
algo que jamais poderás nega-lo.
pois dos teus filhos mais legítimos,
que por cá foram nascidos,
trago todos os traços
e também naquilo que falo
encontrará teu registro.
Se os de cá a sal foram provados,
em azeite viram-se banhados
como o mais raro ungüento,
mais que não me torças o rosto
reparando nas marcas que trago
pois te chego como naufrago
em tuas águas banhado,
e não serei jamais abortado,
antes que possa abraça-lo.
E se me abrires os teus braços,
acolhendo-me como filho
não serei só lamento ou gemido
chegado de forma ondular marinho,
em tuas praias cuspido.
Te guardarei tamanho apreço,
que no dia em que me veres partindo,
retornando ao meu antigo ninho
serei um dos tantos gritos,
dos teus filhos mais queridos
saídos de Portugal.
1 039
1
Silvaney Paes
Vira-Latas
Somos de
uma antiga linhagem
De nobres e orgulhosos vira-latas,
Aos quais, nunca nada faz falta,
Sendo que carregamos na bagagem,
Apenas saudades de tantas estradas
E das boas almas que para traz foram largadas.
Mas nessa matilha existe uma alma,
De especial forma amarrada
A uma saudade de uma estrada,
Que jamais foi pisada e nem o saberá,
Pois como todo bom vira-latas,
Morre de medo de água.
E é por isso que nas noite mais claras,
Sabendo que a lua cheia é o melhor espelho,
Da dor de toda alma,
Sobe na serra mais alta e uiva,
Implorando para aquela dama celeste,
Que reflita um minuto que seja,
Uma outra serra,
Noutra terra, além mar,
Onde pode estar sua amada
Admirando a mesma solitária silhueta,
E que espera ver nela,
Ou em qualquer estrela retratada.
uma antiga linhagem
De nobres e orgulhosos vira-latas,
Aos quais, nunca nada faz falta,
Sendo que carregamos na bagagem,
Apenas saudades de tantas estradas
E das boas almas que para traz foram largadas.
Mas nessa matilha existe uma alma,
De especial forma amarrada
A uma saudade de uma estrada,
Que jamais foi pisada e nem o saberá,
Pois como todo bom vira-latas,
Morre de medo de água.
E é por isso que nas noite mais claras,
Sabendo que a lua cheia é o melhor espelho,
Da dor de toda alma,
Sobe na serra mais alta e uiva,
Implorando para aquela dama celeste,
Que reflita um minuto que seja,
Uma outra serra,
Noutra terra, além mar,
Onde pode estar sua amada
Admirando a mesma solitária silhueta,
E que espera ver nela,
Ou em qualquer estrela retratada.
983
1
Reinaldo Ferreira
Os astros nascem
Os astros nascem,
Crescem e morrem
Sem aflição,
Por isso correm
Sem que perguntem
Pra onde vão.
O fácil espaço
Foi-lhes materno
Ventre fecundo;
Nasci num quarto,
Nasci dum parto
E foi magoando
Que vim ao mundo.
Nasci rasgando
Quem me sonhava
Antes que mesmo
Me concebesse;
Não sei dum astro,
Tão impiedoso,
Que ao espaço agravos
Tamanhos desse!
Nasci rompendo
Quem me continha
No grácil ventre
Desfigurado,
Como um sacrário
Vaso sagrado!
Mãos impacientes
De me tocarem
Logo estendia
Quem eu magoava
E ensanguentava
Quando nascia!
Nascença de astros
Não tem valor:
Que o fácil espaço
Pare-os sem dor.
Crescem e morrem
Sem aflição,
Por isso correm
Sem que perguntem
Pra onde vão.
O fácil espaço
Foi-lhes materno
Ventre fecundo;
Nasci num quarto,
Nasci dum parto
E foi magoando
Que vim ao mundo.
Nasci rasgando
Quem me sonhava
Antes que mesmo
Me concebesse;
Não sei dum astro,
Tão impiedoso,
Que ao espaço agravos
Tamanhos desse!
Nasci rompendo
Quem me continha
No grácil ventre
Desfigurado,
Como um sacrário
Vaso sagrado!
Mãos impacientes
De me tocarem
Logo estendia
Quem eu magoava
E ensanguentava
Quando nascia!
Nascença de astros
Não tem valor:
Que o fácil espaço
Pare-os sem dor.
2 121
1
Reinaldo Ferreira
Aquele senhor que desde a infância me conhece
Aquele senhor que desde a infância me conhece,
Com que direito se enternece
Quando me vê?
Que mal lhe fiz, que me quer bem?
Porque motivo me diz só
Coisas que, se as soubesse, esqueceria,
Hirtas, mortas,
Coisas cheias de pó
E de melancolia?
Com que direito se enternece
Quando me vê?
Que mal lhe fiz, que me quer bem?
Porque motivo me diz só
Coisas que, se as soubesse, esqueceria,
Hirtas, mortas,
Coisas cheias de pó
E de melancolia?
2 129
1
Reinaldo Ferreira
Aquele senhor que desde a infância me conhece
Aquele senhor que desde a infância me conhece,
Com que direito se enternece
Quando me vê?
Que mal lhe fiz, que me quer bem?
Porque motivo me diz só
Coisas que, se as soubesse, esqueceria,
Hirtas, mortas,
Coisas cheias de pó
E de melancolia?
Com que direito se enternece
Quando me vê?
Que mal lhe fiz, que me quer bem?
Porque motivo me diz só
Coisas que, se as soubesse, esqueceria,
Hirtas, mortas,
Coisas cheias de pó
E de melancolia?
2 129
1
Silvaney Paes
Moribundo diante de um Padre
Conhecendo
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.
E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.
Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.
Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.
E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.
Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.
Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
714
1
Silvaney Paes
Moribundo diante de um Padre
Conhecendo
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.
E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.
Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.
Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.
E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.
Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.
Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
714
1
Rosa Leonor Pedro
Labirinto
Abrem-se as Portas.
Uma pequena e frágil criatura de outro mundo
muito mais pequena e frágil
do que as enormes portas,
empurra com o seu corpo de pele e túnicas
um imenso portal desconhecido
As suas vestes são brancas e diáfanas, as suas mãos delicadas,
mas firmes nos movimentos
quando abre as portas ou me toca nas costas
é ariane
um fio invisível pende da sua cintura fina como se ela fosse
um rolo de seda a desfiar no labirinto do tempo,
no espaço recôndito que ela atravessa na minha alma.
São as quarenta e duas portas das quais ela tem a chave,
a secreta chave com que abre o meu coração.
Numa das mãos traz o bastão com que ilumina o caminho.
enquanto caminha, vai dizendo
que eu tenho de alquimizar o tempo,
que no tempo não há resposta
que é no silencio do nome que eu me encontro.
A resposta que eu quero está porém no céu da sua boca.
Ela própria é uma porta.
Uma pequena e frágil criatura de outro mundo
muito mais pequena e frágil
do que as enormes portas,
empurra com o seu corpo de pele e túnicas
um imenso portal desconhecido
As suas vestes são brancas e diáfanas, as suas mãos delicadas,
mas firmes nos movimentos
quando abre as portas ou me toca nas costas
é ariane
um fio invisível pende da sua cintura fina como se ela fosse
um rolo de seda a desfiar no labirinto do tempo,
no espaço recôndito que ela atravessa na minha alma.
São as quarenta e duas portas das quais ela tem a chave,
a secreta chave com que abre o meu coração.
Numa das mãos traz o bastão com que ilumina o caminho.
enquanto caminha, vai dizendo
que eu tenho de alquimizar o tempo,
que no tempo não há resposta
que é no silencio do nome que eu me encontro.
A resposta que eu quero está porém no céu da sua boca.
Ela própria é uma porta.
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1
Rosa Leonor Pedro
Labirinto
Abrem-se as Portas.
Uma pequena e frágil criatura de outro mundo
muito mais pequena e frágil
do que as enormes portas,
empurra com o seu corpo de pele e túnicas
um imenso portal desconhecido
As suas vestes são brancas e diáfanas, as suas mãos delicadas,
mas firmes nos movimentos
quando abre as portas ou me toca nas costas
é ariane
um fio invisível pende da sua cintura fina como se ela fosse
um rolo de seda a desfiar no labirinto do tempo,
no espaço recôndito que ela atravessa na minha alma.
São as quarenta e duas portas das quais ela tem a chave,
a secreta chave com que abre o meu coração.
Numa das mãos traz o bastão com que ilumina o caminho.
enquanto caminha, vai dizendo
que eu tenho de alquimizar o tempo,
que no tempo não há resposta
que é no silencio do nome que eu me encontro.
A resposta que eu quero está porém no céu da sua boca.
Ela própria é uma porta.
Uma pequena e frágil criatura de outro mundo
muito mais pequena e frágil
do que as enormes portas,
empurra com o seu corpo de pele e túnicas
um imenso portal desconhecido
As suas vestes são brancas e diáfanas, as suas mãos delicadas,
mas firmes nos movimentos
quando abre as portas ou me toca nas costas
é ariane
um fio invisível pende da sua cintura fina como se ela fosse
um rolo de seda a desfiar no labirinto do tempo,
no espaço recôndito que ela atravessa na minha alma.
São as quarenta e duas portas das quais ela tem a chave,
a secreta chave com que abre o meu coração.
Numa das mãos traz o bastão com que ilumina o caminho.
enquanto caminha, vai dizendo
que eu tenho de alquimizar o tempo,
que no tempo não há resposta
que é no silencio do nome que eu me encontro.
A resposta que eu quero está porém no céu da sua boca.
Ela própria é uma porta.
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1
Giselle del Pino
Lembranças
Eu sou
agora toda a Europa.
Passei a vida a amarrar meus navios.
Sou o punhado de areia
Que coube na mão do mar.
Nasci da bruma,
Da vasta quimera,
Que mocidades em mim
Vieram e se foram.
Sou de Portugal a semente,
Da Espanha a volúpia,
Da França a espada,
Que a Inglaterra me beijou depois.
Sei que as cinzas baixam campa,
Na fúria dos séculos degredada.
E todos os vales de amores
Alumbram minha alma e meu coração.
Eu sou agora toda a América
De Brasis e miseráveis.
A minha vida está condenada ao porto,
A espera desta história
Recriada todo dia
Pela tela de espelhos
Em que minha alma se prendeu.
agora toda a Europa.
Passei a vida a amarrar meus navios.
Sou o punhado de areia
Que coube na mão do mar.
Nasci da bruma,
Da vasta quimera,
Que mocidades em mim
Vieram e se foram.
Sou de Portugal a semente,
Da Espanha a volúpia,
Da França a espada,
Que a Inglaterra me beijou depois.
Sei que as cinzas baixam campa,
Na fúria dos séculos degredada.
E todos os vales de amores
Alumbram minha alma e meu coração.
Eu sou agora toda a América
De Brasis e miseráveis.
A minha vida está condenada ao porto,
A espera desta história
Recriada todo dia
Pela tela de espelhos
Em que minha alma se prendeu.
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1
Reinaldo Ferreira
Que de nós dois
Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
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1
Reinaldo Ferreira
Que de nós dois
Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
1 966
1
Reinaldo Ferreira
Conferência à Imprensa
O processo
- O que importa é virá-lo do avesso,
Mudar as intenções,
Interpretar,
Sofismar -
Deve ser rápido e sumário.
Termos, preceitos, norma,
É tudo forma,
Matéria de processo e convenção.
Ao cabo, é o Calvário
Que é preciso atingir.
Alguém tem de subir.
Eu não quis, sou juiz.
Aos senhores,
Mais propagadores
De tudo o que acontece
- De todo o que parece
Que acontece
E passa a acontecer -
E disto e daquilo
- E da Verdade, às vezes -
.......................
- O que importa é virá-lo do avesso,
Mudar as intenções,
Interpretar,
Sofismar -
Deve ser rápido e sumário.
Termos, preceitos, norma,
É tudo forma,
Matéria de processo e convenção.
Ao cabo, é o Calvário
Que é preciso atingir.
Alguém tem de subir.
Eu não quis, sou juiz.
Aos senhores,
Mais propagadores
De tudo o que acontece
- De todo o que parece
Que acontece
E passa a acontecer -
E disto e daquilo
- E da Verdade, às vezes -
.......................
1 397
1
Reinaldo Ferreira
D Bailador-Bailarino
I
Esmorece a luz
Sobre o tablado.
Amolecido
E vencido,
D. Bailador-Bailarino
Devagar
Morre, também...
E o que resta da angústia do baile
É o corpo morto e tombado
Que lutou com a própria alma.
Lesta, desprende-se a cortina
Sobre a cruel pantomina.
Um silêncio geral...
Nem uma fala !...
No entanto, uma emoção sem par
Penetra os corações
E cada olhar
Revive as derradeiras comoções
Da dança singular.
Súbito, um frenesi
Percorre a multidão paralisada.
Uma flama irrompeu,
Deixou a sala incendiada,
E cada um reclama
E chama
E quer, inquisidor,
Que à ribalta apareça
D. Bailarino-Bailador !
D. Bailador-Bailarino !
D. Bailarino-Bailador !
II
Emocionante,
A pantomina
Termina.
Alado e áptero impulso
Atrai-lhe o corpo delgado
Para o reino da vertigem,
Pondo susto e maravilha
Em cada olhar deslumbrado.
Após
Com lento aprumo, sem pressa,
Regressa,
Pisa de novo o tablado
E dança.
Com segurança e majestade dança,
Como se no ar em que dança
Houvesse mais densidade,
De um verde vagar aquático.
Quem dirá que não tem asas
D. Bailarino-Bailador ?
Embalsamado - de fixo ! -,
Mumificado - de quieto ! -,
D. Bailarino
Comenta, do violino,
Gelado choro sem fim.
Mas no fim,
Com manso e dormente jeito,
As duas mãos voadoras
Cruza, pendentes, no peito.
Sob as pálpebras cerradas
É diferente o rosto moço;
Tomba-lhe então a cabeça,
Como se ao cabo e aos poucos
Se derretesse o pescoço.
Longínqua serenidade
Como que dimana e escorre
Da melancolia que morre,
Toda horizonte e além.
III
Ele é fauno, é flora amorável,
Ele é mito, ele é loiro, ele é palma,
É palavra carnal duma alma,
É o fixo, é o instável.
Ele é tarde de cinzas, é poente fantástico,
Ele é lívido Gólgota, paisagem lunar,
Ele é triste balaústre cismático
Em marmórea varanda, ao luar.
Ele é fútil ficção, Pierrot
Suspirante, cintilante Arlequim,
Ele é tal artifício, mas tão gracioso
Que, se vivo inda fora, gostoso
O pintara Watteau.
Ele é renda, ele é asa, ele é pluma
E transcende o autor de que dança um adágio;
Mas também é tormenta, também é naufrágio;
É visão de afogado trazido na espuma;
Ele é amoroso de murcha coragem
Sorvendo, de longe, seus longos martírios;
Ele é D. Juan do sangue selvagem
A cuja passagem fenecem os lírios.
Ele é confluência das dúvidas todas
Hamleticamente dançando dilemas
Da jovem de Atenas, em véspera de bodas,
Tecendo, com rosas, fragrantes diademas.
Ele é fauno, mais fauno que o fauno
Ressuscitado
Por santo milagre de S. Debussy !
... E logo, converso, em outro bailado,
Pureza sem mancha seu gesto sorri.
Ele é sopro, ele é fumo na aragem,
Ele é fluido, ele é nimbo, é paisagem
No leito dormente de um rio
Em sonâmbulo estio.
Ele é aço, ele é mola, ele é pincho,
Ele é som de metal, ele é guincho,
Explosão e tambor,
O Bailador-Bailarino !
O Bailarino-Bailador !
IV
Ah ! bailador !
Ah ! bailarino !
A tua arte durou
Os olhos de quem te viu...
E tudo o mais é rescaldo
Do fogo que se extinguiu.
.......................
Ninguém teve
Mais efémero brilho
Nem triunfo mais breve...
Cabriola de chama
Na lenha que arde
E se extingue...
Relevos de nimbos,
Fantásticas formas
Fugazes, da tarde...
Corisco maluco !...
.......................
Ah ! florilégio do gesto,
Carne da música,
Antologia da atitude !...
V
Quando, entre as campas das puídas flores,
Que um outono qualquer arrebatou
A lascivos amores,
Passa, alta noite, um silvo aflito a cio,
E dos burgueses mausoléus, o frio, a prumo, orgulho vão,
Escorre, inda vivo, uma gordura à Lua,
Do Bailarino, desconjuntada,
A ossada
Acorda para o tormento
De não ter movimento...
IV
Que fantástica cena, a Eternidade !...
Vejo-te a dançar, Bailarino,
Vejo-te a dançar
Sem tréguas nem esperanças
À busca dum corpo
Não se incorpora a tua suavidade...
Busca-se um peso para a queda do fim...
.......................
Sem corpo, a Eternidade é bem cruel,
Se Deus nos deu uma alma que é pretexto,
Um mero cordel
Para o gesto...
Esmorece a luz
Sobre o tablado.
Amolecido
E vencido,
D. Bailador-Bailarino
Devagar
Morre, também...
E o que resta da angústia do baile
É o corpo morto e tombado
Que lutou com a própria alma.
Lesta, desprende-se a cortina
Sobre a cruel pantomina.
Um silêncio geral...
Nem uma fala !...
No entanto, uma emoção sem par
Penetra os corações
E cada olhar
Revive as derradeiras comoções
Da dança singular.
Súbito, um frenesi
Percorre a multidão paralisada.
Uma flama irrompeu,
Deixou a sala incendiada,
E cada um reclama
E chama
E quer, inquisidor,
Que à ribalta apareça
D. Bailarino-Bailador !
D. Bailador-Bailarino !
D. Bailarino-Bailador !
II
Emocionante,
A pantomina
Termina.
Alado e áptero impulso
Atrai-lhe o corpo delgado
Para o reino da vertigem,
Pondo susto e maravilha
Em cada olhar deslumbrado.
Após
Com lento aprumo, sem pressa,
Regressa,
Pisa de novo o tablado
E dança.
Com segurança e majestade dança,
Como se no ar em que dança
Houvesse mais densidade,
De um verde vagar aquático.
Quem dirá que não tem asas
D. Bailarino-Bailador ?
Embalsamado - de fixo ! -,
Mumificado - de quieto ! -,
D. Bailarino
Comenta, do violino,
Gelado choro sem fim.
Mas no fim,
Com manso e dormente jeito,
As duas mãos voadoras
Cruza, pendentes, no peito.
Sob as pálpebras cerradas
É diferente o rosto moço;
Tomba-lhe então a cabeça,
Como se ao cabo e aos poucos
Se derretesse o pescoço.
Longínqua serenidade
Como que dimana e escorre
Da melancolia que morre,
Toda horizonte e além.
III
Ele é fauno, é flora amorável,
Ele é mito, ele é loiro, ele é palma,
É palavra carnal duma alma,
É o fixo, é o instável.
Ele é tarde de cinzas, é poente fantástico,
Ele é lívido Gólgota, paisagem lunar,
Ele é triste balaústre cismático
Em marmórea varanda, ao luar.
Ele é fútil ficção, Pierrot
Suspirante, cintilante Arlequim,
Ele é tal artifício, mas tão gracioso
Que, se vivo inda fora, gostoso
O pintara Watteau.
Ele é renda, ele é asa, ele é pluma
E transcende o autor de que dança um adágio;
Mas também é tormenta, também é naufrágio;
É visão de afogado trazido na espuma;
Ele é amoroso de murcha coragem
Sorvendo, de longe, seus longos martírios;
Ele é D. Juan do sangue selvagem
A cuja passagem fenecem os lírios.
Ele é confluência das dúvidas todas
Hamleticamente dançando dilemas
Da jovem de Atenas, em véspera de bodas,
Tecendo, com rosas, fragrantes diademas.
Ele é fauno, mais fauno que o fauno
Ressuscitado
Por santo milagre de S. Debussy !
... E logo, converso, em outro bailado,
Pureza sem mancha seu gesto sorri.
Ele é sopro, ele é fumo na aragem,
Ele é fluido, ele é nimbo, é paisagem
No leito dormente de um rio
Em sonâmbulo estio.
Ele é aço, ele é mola, ele é pincho,
Ele é som de metal, ele é guincho,
Explosão e tambor,
O Bailador-Bailarino !
O Bailarino-Bailador !
IV
Ah ! bailador !
Ah ! bailarino !
A tua arte durou
Os olhos de quem te viu...
E tudo o mais é rescaldo
Do fogo que se extinguiu.
.......................
Ninguém teve
Mais efémero brilho
Nem triunfo mais breve...
Cabriola de chama
Na lenha que arde
E se extingue...
Relevos de nimbos,
Fantásticas formas
Fugazes, da tarde...
Corisco maluco !...
.......................
Ah ! florilégio do gesto,
Carne da música,
Antologia da atitude !...
V
Quando, entre as campas das puídas flores,
Que um outono qualquer arrebatou
A lascivos amores,
Passa, alta noite, um silvo aflito a cio,
E dos burgueses mausoléus, o frio, a prumo, orgulho vão,
Escorre, inda vivo, uma gordura à Lua,
Do Bailarino, desconjuntada,
A ossada
Acorda para o tormento
De não ter movimento...
IV
Que fantástica cena, a Eternidade !...
Vejo-te a dançar, Bailarino,
Vejo-te a dançar
Sem tréguas nem esperanças
À busca dum corpo
Não se incorpora a tua suavidade...
Busca-se um peso para a queda do fim...
.......................
Sem corpo, a Eternidade é bem cruel,
Se Deus nos deu uma alma que é pretexto,
Um mero cordel
Para o gesto...
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