Poemas neste tema
Vida e Existência
Maria Teresa Horta
Nem só
Nem só do teu silêncio
direi raiva
Nem de todo o meu corpo
direi vício
nem de todo o pénis
direi arma
e apenas do teu direi ter sido
Quando o vácuo é de
vingar
ou de vergar
cravando sobre os seios a sua enxada
Quando a minha boca se conjuga
no baixo do teu ventre
e tua espada...
nem de todo o desejo
direi verão
nem de todo o grito
a tua imagem
nem de toda a ausência
direi chão
e só de teus flancos
a viagem
direi raiva
Nem de todo o meu corpo
direi vício
nem de todo o pénis
direi arma
e apenas do teu direi ter sido
Quando o vácuo é de
vingar
ou de vergar
cravando sobre os seios a sua enxada
Quando a minha boca se conjuga
no baixo do teu ventre
e tua espada...
nem de todo o desejo
direi verão
nem de todo o grito
a tua imagem
nem de toda a ausência
direi chão
e só de teus flancos
a viagem
4 863
1
Liz Christine
Hímem
Era uma vez um hímem...
Que não sangrou
Ao ser rompido
Inocência perdida
Adorei ser corrompida
Era uma vez um hímem...
Um hímem rompido
Seu desejo atendido
Em mim nada mudou
Meu hímem que se foi
E nada levou
Foi uma dorzinha desagradável
(mas não insuportável)
Fortalecendo a relação
Ficando intacta nossa paixão
Que não sangrou
Ao ser rompido
Inocência perdida
Adorei ser corrompida
Era uma vez um hímem...
Um hímem rompido
Seu desejo atendido
Em mim nada mudou
Meu hímem que se foi
E nada levou
Foi uma dorzinha desagradável
(mas não insuportável)
Fortalecendo a relação
Ficando intacta nossa paixão
1 083
1
Julieta Lima
Ele
Ele
Agarra-me os cabelos
Morde-me os braços
Beija-me os dedos
E não me diz nada
Não me toca sequer.
Mas para eu me sentir amada
E me sentir mulher
Bastam-me os seus olhos...
Até que eu solte de mim
O cio da fera
Que ando a mascarar de branca asa
E o arraste por fim
Sem pudor sem roupa
Para a minha casa!
Agarra-me os cabelos
Morde-me os braços
Beija-me os dedos
E não me diz nada
Não me toca sequer.
Mas para eu me sentir amada
E me sentir mulher
Bastam-me os seus olhos...
Até que eu solte de mim
O cio da fera
Que ando a mascarar de branca asa
E o arraste por fim
Sem pudor sem roupa
Para a minha casa!
867
1
Fernando Correia Pina
O affair Clinton – moral da história
Se um dia, menina, fores achada
chupando o duro membro masculino
e se alguém exclamar – grande mamada!
não cores nem lamentes teu destino.
Cita antes a doutrina dimanada
do Congresso americano, como um hino -
não há o sexo oral, o broche é nada,
um contacto, talvez, mas pequenino...
E deixa-os lá dizer – olha a brochista!
ou olhar-te de soslaio com ar trocista
ou fingir que não te vêem, por maldade
porque a lusa moral é uma pindérica
comparada com a verdade da América
onde tudo é questão de oralidade.
chupando o duro membro masculino
e se alguém exclamar – grande mamada!
não cores nem lamentes teu destino.
Cita antes a doutrina dimanada
do Congresso americano, como um hino -
não há o sexo oral, o broche é nada,
um contacto, talvez, mas pequenino...
E deixa-os lá dizer – olha a brochista!
ou olhar-te de soslaio com ar trocista
ou fingir que não te vêem, por maldade
porque a lusa moral é uma pindérica
comparada com a verdade da América
onde tudo é questão de oralidade.
1 112
1
Cristiane Neder
Queria experimentar no seu corpo
(para Lorraine Williams)
Queria experimentar
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do Deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura.
Queria experimentar
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do Deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura.
893
1
Letícia Luccheze
Tulipa vermelha
A livraria, perfumaria, supermercado, floricultura.
O cinema.
A loja de roupas, acessórios, cremes.
Ao cair da tarde.
O decote em meios as pernas e nos seios transpirarem.
No olhar um convite ao deleito do prazer.
Flutuava no caminhar,
levando os homens à perdição.
Pessoas vinham e iam.
O maço de flores.
Desejada!
Chamava atenções.
A negra noite cobriu o gramado umedecido;
juntamente com as estrelas que o céu acolhia.
Do alto da janela a fragrância.
Doce, quente, sagaz, ardente.
Libertava os instintos selvagens.
...sussurros de gemidos...
...gemidos de sussurros...
...sussurros de gemidos...
Flores ao ar foram ao chão.
Suadas, embranquecidas.
837
1
Maria Teresa Horta
Gozo III
Põe meu amor
teu preceito
teu pénis
meu pão tão cedo
de vestir e de enfeitar
espasmos tomados por dentro
e guarnecer o deitar
daquilo que vou gemendo
Meu amor
por me habitares
com jeito de teu
invento
ou com raiva
de gritares
quando te monto e me fendo
teu preceito
teu pénis
meu pão tão cedo
de vestir e de enfeitar
espasmos tomados por dentro
e guarnecer o deitar
daquilo que vou gemendo
Meu amor
por me habitares
com jeito de teu
invento
ou com raiva
de gritares
quando te monto e me fendo
3 625
1
José Félix
Os teus seios
Os teus seios na palma da mão
são duas laranjas novembrinas
como aromáticas concubinas
a mentir desejos e amor não.
Sorvo o sumo doce e laranjeiro,
prostituido, sim, mas com paixão
os frutos rijos do pomareiro.
Os teus seios na palma da mão.
são duas laranjas novembrinas
como aromáticas concubinas
a mentir desejos e amor não.
Sorvo o sumo doce e laranjeiro,
prostituido, sim, mas com paixão
os frutos rijos do pomareiro.
Os teus seios na palma da mão.
1 382
1
Manuela Amaral
Fatalismo
Amo o que em ti há de trágico. De mau.
De sublime. Amo o crime escondido no teu andar.
A tua forma de olhar. O teu riso fingido
e cristalino.
Amo o veneno dos teus beijos. O teu hálito pagão.
A tua mão insegura
na mentira dos teus gestos.
Amo o teu corpo de maçã madura.
Amo o silêncio perpendicular do teu contacto
A furia incontrolavel da maré
nas ondas vaginais do teu orgasmo.
E esta tua ausência
Este não-ser quem é.
De sublime. Amo o crime escondido no teu andar.
A tua forma de olhar. O teu riso fingido
e cristalino.
Amo o veneno dos teus beijos. O teu hálito pagão.
A tua mão insegura
na mentira dos teus gestos.
Amo o teu corpo de maçã madura.
Amo o silêncio perpendicular do teu contacto
A furia incontrolavel da maré
nas ondas vaginais do teu orgasmo.
E esta tua ausência
Este não-ser quem é.
2 024
1
Paul Groussac Mendes
Sua vulva freme
(para Maria Teresa)
Sua vulva freme
de desejo
pois vejo
que treme
Sentindo o cheiro
de minha pele que enlaço
pois faço
de teu corpo faceiro
o meu porto
que me deixa
com teu olhar de gueixa
de tesão quase morto...
Sua vulva freme
de desejo
pois vejo
que treme
Sentindo o cheiro
de minha pele que enlaço
pois faço
de teu corpo faceiro
o meu porto
que me deixa
com teu olhar de gueixa
de tesão quase morto...
1 001
1
Eliana Mora
As portas do meu cofre
Insensata alma
às vezes presa por um fio
A conviver interpretar
como quizer
a luta e o delírio de morar
num corpo
que respira que se inspira
E permanece assim
calado
Como que a temer
os seus escritos
seu papel
algum teclado
E o desafio de morar
num bicho
um ente
que não retoca seus
segredos
[só os sente]
Em tolas gotas
de um secreto mal de amor
Que vivem presas
muito mais por que
trancaram-se
as portas de seu cofre
Do que por desistir
ou esquecer
de ter sonhado
Com o fascínio
e o sabor de certo
beijo
tom carmim
Que já não está
em tua boca
[cor marfim]
às vezes presa por um fio
A conviver interpretar
como quizer
a luta e o delírio de morar
num corpo
que respira que se inspira
E permanece assim
calado
Como que a temer
os seus escritos
seu papel
algum teclado
E o desafio de morar
num bicho
um ente
que não retoca seus
segredos
[só os sente]
Em tolas gotas
de um secreto mal de amor
Que vivem presas
muito mais por que
trancaram-se
as portas de seu cofre
Do que por desistir
ou esquecer
de ter sonhado
Com o fascínio
e o sabor de certo
beijo
tom carmim
Que já não está
em tua boca
[cor marfim]
847
1
Eliana Mora
As portas do meu cofre
Insensata alma
às vezes presa por um fio
A conviver interpretar
como quizer
a luta e o delírio de morar
num corpo
que respira que se inspira
E permanece assim
calado
Como que a temer
os seus escritos
seu papel
algum teclado
E o desafio de morar
num bicho
um ente
que não retoca seus
segredos
[só os sente]
Em tolas gotas
de um secreto mal de amor
Que vivem presas
muito mais por que
trancaram-se
as portas de seu cofre
Do que por desistir
ou esquecer
de ter sonhado
Com o fascínio
e o sabor de certo
beijo
tom carmim
Que já não está
em tua boca
[cor marfim]
às vezes presa por um fio
A conviver interpretar
como quizer
a luta e o delírio de morar
num corpo
que respira que se inspira
E permanece assim
calado
Como que a temer
os seus escritos
seu papel
algum teclado
E o desafio de morar
num bicho
um ente
que não retoca seus
segredos
[só os sente]
Em tolas gotas
de um secreto mal de amor
Que vivem presas
muito mais por que
trancaram-se
as portas de seu cofre
Do que por desistir
ou esquecer
de ter sonhado
Com o fascínio
e o sabor de certo
beijo
tom carmim
Que já não está
em tua boca
[cor marfim]
847
1
Liz Christine
Depravação
Escrever poesia sobre poesia?
Seu corpo é poesia
Sua voz me domina
Tão macia
Você é matéria-prima
Se converte
em poesia
Sua voz me derrete
Você é doce melodia
Que me aquece
Toque, pele, olhar
Basta respirar
Sua respiração
me excita
Porque arte é tesão
Paixão na escrita
Quero sua penetração
Invadida
Pela criação
Fudida
Por você, paixão
Eu quero, preciso e me entrego
Te amo e não mais nego
Não nego, omitir
Não é admitir...
Nem ouse perguntar
Escrevo por estar
Sentindo
Que amar
É forte, intenso, lindo
Seu olhar
Me despindo
Vem me seduzindo
Vem... e me abraça
E me pega
Com violência, amor
Sou devassa
Minha mão escorrega
E já estou te abraçando
Seus dedos deslizam
Provocando
Prazer... arrepios... desejos
Que se concretizam
E já estou segurando
A paixão concretizada
Não está mais assustando?
Amor... continue me depravando
Depravar é alterar
E estou me entregando
Te amar
Não está me machucando
Você tinha razão...
Amor é prazer e diversão
Com conteúdo
E tesão
Profundo
Amor é tudo
Seu corpo é poesia
Sua voz me domina
Tão macia
Você é matéria-prima
Se converte
em poesia
Sua voz me derrete
Você é doce melodia
Que me aquece
Toque, pele, olhar
Basta respirar
Sua respiração
me excita
Porque arte é tesão
Paixão na escrita
Quero sua penetração
Invadida
Pela criação
Fudida
Por você, paixão
Eu quero, preciso e me entrego
Te amo e não mais nego
Não nego, omitir
Não é admitir...
Nem ouse perguntar
Escrevo por estar
Sentindo
Que amar
É forte, intenso, lindo
Seu olhar
Me despindo
Vem me seduzindo
Vem... e me abraça
E me pega
Com violência, amor
Sou devassa
Minha mão escorrega
E já estou te abraçando
Seus dedos deslizam
Provocando
Prazer... arrepios... desejos
Que se concretizam
E já estou segurando
A paixão concretizada
Não está mais assustando?
Amor... continue me depravando
Depravar é alterar
E estou me entregando
Te amar
Não está me machucando
Você tinha razão...
Amor é prazer e diversão
Com conteúdo
E tesão
Profundo
Amor é tudo
3 080
1
Paul Verlaine
Moral abreviada
Uma nuca de loura e de graça inclinada,
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha - ocupada com quê?
Amor o sabe - expondo aos deuses a epopéia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente - o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!
Um colo que arrulha, belos, lascivos seios,
Com medalhões escuros na mama afogueada,
Esse busto se assenta em baixas almofadas
Enquanto entre duas pernas para o ar, vibrantes,
Uma mulher se ajoelha - ocupada com quê?
Amor o sabe - expondo aos deuses a epopéia
Singela de seu cu magnífico, um espelho
Límpido da beleza, que ali quer se ver
Pra crer. Cu feminino, que vence o viril
Serenamente - o de efebo e o infantil.
Ao cu feminino, supremo, culto e glória!
1 278
1
Lília Chaves
Vem morrer vivendo nos meus braços
Vem morrer vivendo nos meus braços
Preenche com meu colo teus espaços
Do avesso do meu não, faz o teu sim
Vem poetar de amor dentro de mim
Grita o aroma rubro do desejo em flor
Perde teu gosto fulvo desta pele em cor
Pensa nas sombras de gemidos vãos
E faze de meus lábios tuas mãos
Sente meu toque no teu toque exangue
Vive meu gozo em teu próprio sangue
Dá-me teu beijo para que eu afague
Dá-me teus olhos para que eu me afogue
Teu pensamento onde minhalma cabe
E que meu corpo no teu corpo acabe
Preenche com meu colo teus espaços
Do avesso do meu não, faz o teu sim
Vem poetar de amor dentro de mim
Grita o aroma rubro do desejo em flor
Perde teu gosto fulvo desta pele em cor
Pensa nas sombras de gemidos vãos
E faze de meus lábios tuas mãos
Sente meu toque no teu toque exangue
Vive meu gozo em teu próprio sangue
Dá-me teu beijo para que eu afague
Dá-me teus olhos para que eu me afogue
Teu pensamento onde minhalma cabe
E que meu corpo no teu corpo acabe
865
1
Regina Bello
Fêmea
Formas curvas
Carne quente
Sedutora
Misteriosa mulher
Aconchegante
encontra cara a cara
o menino homem
Indefeso
Embriagado
Subjugado
pelos múltiplos lábios
da volúpia
Carne quente
Sedutora
Misteriosa mulher
Aconchegante
encontra cara a cara
o menino homem
Indefeso
Embriagado
Subjugado
pelos múltiplos lábios
da volúpia
900
1
Maria Teresa Horta
Os anjos – I
Eles andam no ar
com as suas vestes
longas
as asas frementes
a baterem no tempo
Vêm
da infância
a rasar a memória
a voarem o vento
Ouvia os insectos,
deitada-rente
sobre a terra
e imaginava os anjos
debruçados no espaço
a beberem o sol
Uma por uma as pétalas
Os gomos
as citilantes escamas
mais pequenas
Uma por uma as penas
a formularem a nossa memória
das asas dos anjos
Tem a força estagnada
das paredes
a respirarem através da cal do útero
num arfar
lento
menstruação contida
Os pés vão nus,
a bordejarem o voo
a controlarem o
espaço
lemes do corpo
a fixarem
as asas:
crespas e acesas
nos ombros dos
anjos
São anjos
apenas
com o corpo dos homens
num corpo de mulher
e um ligeiro crepitar
de asas
na altura dos ombros
Tem uma conotação
sexual
de aventura
com a sua vagina
entreaberta
e o seu clitóris tumefacto
e tenso
à ponta dos dedos
Desviar os lábios
dos anjos
mas entreabrir-lhes também
as coxas
os sonhos – a mente
enquanto eles observam
Quando os anjos
flutuam
sobre as tréguas
naquele segundo
em que se ouve bater
o coração das pedras
Uma flor de
amparo,
o apoio de uma
asa
no voo raso às raízes do tempo
Até ao vácuo?
Os anjos são
os olhos
da cidade
Olhos de mulher,
que voa
Tem asas de cristal
e água
os anjos que à flor-do-dia
entornam a madrugada
cintilantes e volácteis
Eles voam com as suas asas
de prazer:
os anjos da fala
– dormindo na saliva da boca
Substituir os peixes alados
por anjos
Com as suas longínquas asas
a afagar os meus ombros
Queria saber
do destino dos anjos
quando voam
no mar
dos nossos olhos
No céu líquido
dos olhos
das mulheres
Diz-me
da poesia
através da palavra
dos anjos...
Aos olhos do tempo
a transgressão
das horas
pelo dentro das nervuras
das asas
pequenos capilares de vento
onde começa a vontade
de voar
num caminhar
sedento
Têm todos os anjos
o vício:
da queda?
com as suas vestes
longas
as asas frementes
a baterem no tempo
Vêm
da infância
a rasar a memória
a voarem o vento
Ouvia os insectos,
deitada-rente
sobre a terra
e imaginava os anjos
debruçados no espaço
a beberem o sol
Uma por uma as pétalas
Os gomos
as citilantes escamas
mais pequenas
Uma por uma as penas
a formularem a nossa memória
das asas dos anjos
Tem a força estagnada
das paredes
a respirarem através da cal do útero
num arfar
lento
menstruação contida
Os pés vão nus,
a bordejarem o voo
a controlarem o
espaço
lemes do corpo
a fixarem
as asas:
crespas e acesas
nos ombros dos
anjos
São anjos
apenas
com o corpo dos homens
num corpo de mulher
e um ligeiro crepitar
de asas
na altura dos ombros
Tem uma conotação
sexual
de aventura
com a sua vagina
entreaberta
e o seu clitóris tumefacto
e tenso
à ponta dos dedos
Desviar os lábios
dos anjos
mas entreabrir-lhes também
as coxas
os sonhos – a mente
enquanto eles observam
Quando os anjos
flutuam
sobre as tréguas
naquele segundo
em que se ouve bater
o coração das pedras
Uma flor de
amparo,
o apoio de uma
asa
no voo raso às raízes do tempo
Até ao vácuo?
Os anjos são
os olhos
da cidade
Olhos de mulher,
que voa
Tem asas de cristal
e água
os anjos que à flor-do-dia
entornam a madrugada
cintilantes e volácteis
Eles voam com as suas asas
de prazer:
os anjos da fala
– dormindo na saliva da boca
Substituir os peixes alados
por anjos
Com as suas longínquas asas
a afagar os meus ombros
Queria saber
do destino dos anjos
quando voam
no mar
dos nossos olhos
No céu líquido
dos olhos
das mulheres
Diz-me
da poesia
através da palavra
dos anjos...
Aos olhos do tempo
a transgressão
das horas
pelo dentro das nervuras
das asas
pequenos capilares de vento
onde começa a vontade
de voar
num caminhar
sedento
Têm todos os anjos
o vício:
da queda?
4 081
1
Maria Teresa Horta
Os anjos – I
Eles andam no ar
com as suas vestes
longas
as asas frementes
a baterem no tempo
Vêm
da infância
a rasar a memória
a voarem o vento
Ouvia os insectos,
deitada-rente
sobre a terra
e imaginava os anjos
debruçados no espaço
a beberem o sol
Uma por uma as pétalas
Os gomos
as citilantes escamas
mais pequenas
Uma por uma as penas
a formularem a nossa memória
das asas dos anjos
Tem a força estagnada
das paredes
a respirarem através da cal do útero
num arfar
lento
menstruação contida
Os pés vão nus,
a bordejarem o voo
a controlarem o
espaço
lemes do corpo
a fixarem
as asas:
crespas e acesas
nos ombros dos
anjos
São anjos
apenas
com o corpo dos homens
num corpo de mulher
e um ligeiro crepitar
de asas
na altura dos ombros
Tem uma conotação
sexual
de aventura
com a sua vagina
entreaberta
e o seu clitóris tumefacto
e tenso
à ponta dos dedos
Desviar os lábios
dos anjos
mas entreabrir-lhes também
as coxas
os sonhos – a mente
enquanto eles observam
Quando os anjos
flutuam
sobre as tréguas
naquele segundo
em que se ouve bater
o coração das pedras
Uma flor de
amparo,
o apoio de uma
asa
no voo raso às raízes do tempo
Até ao vácuo?
Os anjos são
os olhos
da cidade
Olhos de mulher,
que voa
Tem asas de cristal
e água
os anjos que à flor-do-dia
entornam a madrugada
cintilantes e volácteis
Eles voam com as suas asas
de prazer:
os anjos da fala
– dormindo na saliva da boca
Substituir os peixes alados
por anjos
Com as suas longínquas asas
a afagar os meus ombros
Queria saber
do destino dos anjos
quando voam
no mar
dos nossos olhos
No céu líquido
dos olhos
das mulheres
Diz-me
da poesia
através da palavra
dos anjos...
Aos olhos do tempo
a transgressão
das horas
pelo dentro das nervuras
das asas
pequenos capilares de vento
onde começa a vontade
de voar
num caminhar
sedento
Têm todos os anjos
o vício:
da queda?
com as suas vestes
longas
as asas frementes
a baterem no tempo
Vêm
da infância
a rasar a memória
a voarem o vento
Ouvia os insectos,
deitada-rente
sobre a terra
e imaginava os anjos
debruçados no espaço
a beberem o sol
Uma por uma as pétalas
Os gomos
as citilantes escamas
mais pequenas
Uma por uma as penas
a formularem a nossa memória
das asas dos anjos
Tem a força estagnada
das paredes
a respirarem através da cal do útero
num arfar
lento
menstruação contida
Os pés vão nus,
a bordejarem o voo
a controlarem o
espaço
lemes do corpo
a fixarem
as asas:
crespas e acesas
nos ombros dos
anjos
São anjos
apenas
com o corpo dos homens
num corpo de mulher
e um ligeiro crepitar
de asas
na altura dos ombros
Tem uma conotação
sexual
de aventura
com a sua vagina
entreaberta
e o seu clitóris tumefacto
e tenso
à ponta dos dedos
Desviar os lábios
dos anjos
mas entreabrir-lhes também
as coxas
os sonhos – a mente
enquanto eles observam
Quando os anjos
flutuam
sobre as tréguas
naquele segundo
em que se ouve bater
o coração das pedras
Uma flor de
amparo,
o apoio de uma
asa
no voo raso às raízes do tempo
Até ao vácuo?
Os anjos são
os olhos
da cidade
Olhos de mulher,
que voa
Tem asas de cristal
e água
os anjos que à flor-do-dia
entornam a madrugada
cintilantes e volácteis
Eles voam com as suas asas
de prazer:
os anjos da fala
– dormindo na saliva da boca
Substituir os peixes alados
por anjos
Com as suas longínquas asas
a afagar os meus ombros
Queria saber
do destino dos anjos
quando voam
no mar
dos nossos olhos
No céu líquido
dos olhos
das mulheres
Diz-me
da poesia
através da palavra
dos anjos...
Aos olhos do tempo
a transgressão
das horas
pelo dentro das nervuras
das asas
pequenos capilares de vento
onde começa a vontade
de voar
num caminhar
sedento
Têm todos os anjos
o vício:
da queda?
4 081
1
Maria Teresa Horta
Gozo XI
Conduzes na saliva
um candelabro aceso
um chicote de gozo
nas palavras
E a seda do meu corpo
já te cede
neste odor de borco em que me abres
Sedenta e sequiosa
vou sabendo
a demorar o tempo que se espraia
ao longo dos flancos que vou tendo:
as tuas pernas
vezes teu ventre
A tua língua
vezes os teus dentes
na pressa veloz com que me rasgas
um candelabro aceso
um chicote de gozo
nas palavras
E a seda do meu corpo
já te cede
neste odor de borco em que me abres
Sedenta e sequiosa
vou sabendo
a demorar o tempo que se espraia
ao longo dos flancos que vou tendo:
as tuas pernas
vezes teu ventre
A tua língua
vezes os teus dentes
na pressa veloz com que me rasgas
3 105
1
Abus Novas
Deus sabe que ninguém tem
Deus sabe que ninguém tem
instrumento igual ao meu:
venham medi-lo e hão-de ver
o tesouro que El me deu.
Tomai-o – isso! – na mão:
é meu timbre de valor.
Quem o gosto lhe descobre
sucumbe de temo ardor.
Tão alto como um pilar
(como um pilar não encolhe)
visto ao longe na distância
de qualquer lado que se olhe.
Venham pegar, e apertá-lo
com força na vossa mão.
E levai-o à vossa tenda,
entre onde os montes estão.
Sede vós a lá guardá-lo
com vossa mão cuidadosa.
Vede quanto ergue a cabeça
como bandeira orgulhosa!
Nem dareis por sua entrada,
tão corajoso ele avança!
Jamais pende como a vela
quando o vento se descansa.
Que el seja asa da panela
entre as pernas escondida,
tão vazia desde o fundo
até à borda cingida.
Venham ver a maravilha
que logo se ergue tão pronta!
Tão rara e tão portentosa,
tão rica de bens sem conta!
E vejam como endurece
tão forte e tão magistral:
E coluna dura e longa
de uma força sem igual.
Se quereis pega segura,
ou colher que bem remexa,
outra melhor não tereis
para panelas sem queixa.
Pegai nesta – que ela esteja
na vossa panela ardente,
lá onde só um instrumento
haverá que vos contente!
Nem sonhais – amores –
o gosto que vos dará tal espada,
mesmo em panela de cobre
ou de prata chapeada.
instrumento igual ao meu:
venham medi-lo e hão-de ver
o tesouro que El me deu.
Tomai-o – isso! – na mão:
é meu timbre de valor.
Quem o gosto lhe descobre
sucumbe de temo ardor.
Tão alto como um pilar
(como um pilar não encolhe)
visto ao longe na distância
de qualquer lado que se olhe.
Venham pegar, e apertá-lo
com força na vossa mão.
E levai-o à vossa tenda,
entre onde os montes estão.
Sede vós a lá guardá-lo
com vossa mão cuidadosa.
Vede quanto ergue a cabeça
como bandeira orgulhosa!
Nem dareis por sua entrada,
tão corajoso ele avança!
Jamais pende como a vela
quando o vento se descansa.
Que el seja asa da panela
entre as pernas escondida,
tão vazia desde o fundo
até à borda cingida.
Venham ver a maravilha
que logo se ergue tão pronta!
Tão rara e tão portentosa,
tão rica de bens sem conta!
E vejam como endurece
tão forte e tão magistral:
E coluna dura e longa
de uma força sem igual.
Se quereis pega segura,
ou colher que bem remexa,
outra melhor não tereis
para panelas sem queixa.
Pegai nesta – que ela esteja
na vossa panela ardente,
lá onde só um instrumento
haverá que vos contente!
Nem sonhais – amores –
o gosto que vos dará tal espada,
mesmo em panela de cobre
ou de prata chapeada.
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Paulo Netho
Seus seios
Seus seios são o caminho que todos anseiam
eles são fartas tetas por onde a existência se fortifica
seus seios não são a loucura plus
eles não são nada mas são tudo
firmes e belos eles apontam
para o sol de todos os dias
criatura do criador
obra prima no oásis
de nós mesmos
seus enlouquecem
quando desatam da alça do sutiã
eles são como a aurora
surgindo para além do previsível
e irremediável
seus seios eis a lírica mais perfeita
num tempo de imperfeições.
eles são fartas tetas por onde a existência se fortifica
seus seios não são a loucura plus
eles não são nada mas são tudo
firmes e belos eles apontam
para o sol de todos os dias
criatura do criador
obra prima no oásis
de nós mesmos
seus enlouquecem
quando desatam da alça do sutiã
eles são como a aurora
surgindo para além do previsível
e irremediável
seus seios eis a lírica mais perfeita
num tempo de imperfeições.
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Isabel Machado
Nua
Porque me despes completamente
sem que eu nem perceba...
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura...
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios...
liberto os mistérios
sem perder o encanto
do prazer...
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua...
sem que eu nem perceba...
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura...
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios...
liberto os mistérios
sem perder o encanto
do prazer...
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua...
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1
Maria Teresa Horta
Gozo IV
Que tenhas de mim
o contorno incerto
acertado nas linhas do
teu corpo
os dentes nos lóbulos e no pescoço
os lábios
a língua a cobrirem os ombros
o contorno incerto
acertado nas linhas do
teu corpo
os dentes nos lóbulos e no pescoço
os lábios
a língua a cobrirem os ombros
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1
Artur Ferreira
Esses hábitos que tens
Hoje acordei e ainda sonhando,
naqueles instantes entre sonhar e acordar,
senti tua perna se roçar entre as minhas...
Esse hábito doce que tens
de me acordar...
Ouvi muito longe, o teu respirar,
suave e pausado, murmurando
coisas sem nexo...
Esse hábito doce que tens
de me saudar de manhã...
Semi-adormecida, pegaste minha mão
e a puseste entre os seios
meu pouso diário...
Esse hábito lindo que tens
de me excitar...
E viajei nos meus sonhos, não querendo acordar,
amando o teu corpo, vezes sem conta...
e então despertei, sentindo saudades
desses hábitos antigos
que tinhas comigo...
naqueles instantes entre sonhar e acordar,
senti tua perna se roçar entre as minhas...
Esse hábito doce que tens
de me acordar...
Ouvi muito longe, o teu respirar,
suave e pausado, murmurando
coisas sem nexo...
Esse hábito doce que tens
de me saudar de manhã...
Semi-adormecida, pegaste minha mão
e a puseste entre os seios
meu pouso diário...
Esse hábito lindo que tens
de me excitar...
E viajei nos meus sonhos, não querendo acordar,
amando o teu corpo, vezes sem conta...
e então despertei, sentindo saudades
desses hábitos antigos
que tinhas comigo...
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