Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Manuel Bandeira
No Vosso e em Meu Coração
Espanha no coração:
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana: -
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana: -
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
1 288
Manuel Bandeira
No Vosso e em Meu Coração
Espanha no coração:
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana: -
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana: -
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
1 288
Manuel Bandeira
No Vosso e em Meu Coração
Espanha no coração:
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana: -
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana: -
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
1 288
Manuel Bandeira
No Vosso e em Meu Coração
Espanha no coração:
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana: -
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana: -
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
1 288
Manuel Bandeira
No Vosso e em Meu Coração
Espanha no coração:
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana: -
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana: -
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
1 288
Manuel Bandeira
No Vosso e em Meu Coração
Espanha no coração:
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana: -
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana: -
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe Segundo
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
Assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
1 288
Marina Colasanti
Artemisia Gentileschi fecit
Uma cena campestre
nesse quadro
não fosse a escura sombra.
A espada posta ao ombro
de Judite
como foice de quem volta do campo.
A cesta escorando
na anca da aia
o peso do fruto cortado que
escorre seu sumo
manchando-lhe os panos.
A cena campestre
contida na tenda sem sol
sem sangue que grite
só susto nos olhos.
Voltam-se as duas cabeças
para o lado
tensão concentrada
ruído perigo castigo que chega
à direita
do campo lá fora
do campo sem trigo
inimigo
do campo em que os homens
só plantam batalha
e onde só morte
se colhe.
A mão de Judite se pousa
no ombro da aia.
Na cesta
Holofernes repousa.
nesse quadro
não fosse a escura sombra.
A espada posta ao ombro
de Judite
como foice de quem volta do campo.
A cesta escorando
na anca da aia
o peso do fruto cortado que
escorre seu sumo
manchando-lhe os panos.
A cena campestre
contida na tenda sem sol
sem sangue que grite
só susto nos olhos.
Voltam-se as duas cabeças
para o lado
tensão concentrada
ruído perigo castigo que chega
à direita
do campo lá fora
do campo sem trigo
inimigo
do campo em que os homens
só plantam batalha
e onde só morte
se colhe.
A mão de Judite se pousa
no ombro da aia.
Na cesta
Holofernes repousa.
1 056
Marina Colasanti
Artemisia Gentileschi fecit
Uma cena campestre
nesse quadro
não fosse a escura sombra.
A espada posta ao ombro
de Judite
como foice de quem volta do campo.
A cesta escorando
na anca da aia
o peso do fruto cortado que
escorre seu sumo
manchando-lhe os panos.
A cena campestre
contida na tenda sem sol
sem sangue que grite
só susto nos olhos.
Voltam-se as duas cabeças
para o lado
tensão concentrada
ruído perigo castigo que chega
à direita
do campo lá fora
do campo sem trigo
inimigo
do campo em que os homens
só plantam batalha
e onde só morte
se colhe.
A mão de Judite se pousa
no ombro da aia.
Na cesta
Holofernes repousa.
nesse quadro
não fosse a escura sombra.
A espada posta ao ombro
de Judite
como foice de quem volta do campo.
A cesta escorando
na anca da aia
o peso do fruto cortado que
escorre seu sumo
manchando-lhe os panos.
A cena campestre
contida na tenda sem sol
sem sangue que grite
só susto nos olhos.
Voltam-se as duas cabeças
para o lado
tensão concentrada
ruído perigo castigo que chega
à direita
do campo lá fora
do campo sem trigo
inimigo
do campo em que os homens
só plantam batalha
e onde só morte
se colhe.
A mão de Judite se pousa
no ombro da aia.
Na cesta
Holofernes repousa.
1 056
Manuel Bandeira
Brisa
Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
2 707
Manuel Bandeira
Brisa
Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
2 707
Marina Colasanti
Como um cruzar de espadas
Nas grandes lojas de departamentos
os passos não se ouvem
tragados pelas felpas do tapete
nem se ouvem as vozes
que espaço e luzes fazem sussurrantes.
Mulheres
mais que homens
embrenham-se na selva das araras
avançam nas trincheiras de indumentos
encobertos os corpos pelos panos
pés expostos
e os braços prontos a colher a presa.
Um tilintar de ferro contra ferro
funde-se frio no ar climatizado.
Não trai cruzar de lâminas
espadas
são ganchos de cabides que se chocam
tangidos pelas mãos
uns contra os outros
na antiquíssima luta
da coleta.
os passos não se ouvem
tragados pelas felpas do tapete
nem se ouvem as vozes
que espaço e luzes fazem sussurrantes.
Mulheres
mais que homens
embrenham-se na selva das araras
avançam nas trincheiras de indumentos
encobertos os corpos pelos panos
pés expostos
e os braços prontos a colher a presa.
Um tilintar de ferro contra ferro
funde-se frio no ar climatizado.
Não trai cruzar de lâminas
espadas
são ganchos de cabides que se chocam
tangidos pelas mãos
uns contra os outros
na antiquíssima luta
da coleta.
1 040
Marina Colasanti
Como um cruzar de espadas
Nas grandes lojas de departamentos
os passos não se ouvem
tragados pelas felpas do tapete
nem se ouvem as vozes
que espaço e luzes fazem sussurrantes.
Mulheres
mais que homens
embrenham-se na selva das araras
avançam nas trincheiras de indumentos
encobertos os corpos pelos panos
pés expostos
e os braços prontos a colher a presa.
Um tilintar de ferro contra ferro
funde-se frio no ar climatizado.
Não trai cruzar de lâminas
espadas
são ganchos de cabides que se chocam
tangidos pelas mãos
uns contra os outros
na antiquíssima luta
da coleta.
os passos não se ouvem
tragados pelas felpas do tapete
nem se ouvem as vozes
que espaço e luzes fazem sussurrantes.
Mulheres
mais que homens
embrenham-se na selva das araras
avançam nas trincheiras de indumentos
encobertos os corpos pelos panos
pés expostos
e os braços prontos a colher a presa.
Um tilintar de ferro contra ferro
funde-se frio no ar climatizado.
Não trai cruzar de lâminas
espadas
são ganchos de cabides que se chocam
tangidos pelas mãos
uns contra os outros
na antiquíssima luta
da coleta.
1 040
Marina Colasanti
Seu José
Seu José
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
977
Marina Colasanti
Seu José
Seu José
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
977
Marina Colasanti
Seu José
Seu José
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
977
Marina Colasanti
Em 1943, ventre abaixo
As leis da inércia perdem
o sentido
quando se está no mato
boca abaixo e
acima da cabeça
as bombas caem com madurez
de fruto.
A razão sabe que
bomba não é fuso
que o vento
o impulso
o peso
estão inclusos no cálculo preciso.
O alvo
- a mente diz -
é mais adiante.
Mas o sangue nas têmporas desmente
o corpo
cansado de ser caça
entende diferente.
A morte
- a carne diz -
está a caminho
que de mim se alimenta
e me quer quente.
o sentido
quando se está no mato
boca abaixo e
acima da cabeça
as bombas caem com madurez
de fruto.
A razão sabe que
bomba não é fuso
que o vento
o impulso
o peso
estão inclusos no cálculo preciso.
O alvo
- a mente diz -
é mais adiante.
Mas o sangue nas têmporas desmente
o corpo
cansado de ser caça
entende diferente.
A morte
- a carne diz -
está a caminho
que de mim se alimenta
e me quer quente.
991
Marina Colasanti
Em 1943, ventre abaixo
As leis da inércia perdem
o sentido
quando se está no mato
boca abaixo e
acima da cabeça
as bombas caem com madurez
de fruto.
A razão sabe que
bomba não é fuso
que o vento
o impulso
o peso
estão inclusos no cálculo preciso.
O alvo
- a mente diz -
é mais adiante.
Mas o sangue nas têmporas desmente
o corpo
cansado de ser caça
entende diferente.
A morte
- a carne diz -
está a caminho
que de mim se alimenta
e me quer quente.
o sentido
quando se está no mato
boca abaixo e
acima da cabeça
as bombas caem com madurez
de fruto.
A razão sabe que
bomba não é fuso
que o vento
o impulso
o peso
estão inclusos no cálculo preciso.
O alvo
- a mente diz -
é mais adiante.
Mas o sangue nas têmporas desmente
o corpo
cansado de ser caça
entende diferente.
A morte
- a carne diz -
está a caminho
que de mim se alimenta
e me quer quente.
991
Manuel Bandeira
Esparsa Triste
Jaime Ovalle, poeta, homem triste,
Faz treze anos que tu partiste
Para Londres imensa e triste.
las triste: voltaste mais triste.
Ora partes de novo. Existe
Um motivo a que não resiste
Tua tristeza, poeta, homem triste?
Queira Deus não voltes mais triste...
13 de janeiro de 1946
Faz treze anos que tu partiste
Para Londres imensa e triste.
las triste: voltaste mais triste.
Ora partes de novo. Existe
Um motivo a que não resiste
Tua tristeza, poeta, homem triste?
Queira Deus não voltes mais triste...
13 de janeiro de 1946
1 212
Manuel Bandeira
Escusa
Eurico Alves, poeta baiano,
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant'Ana.
Sou poeta da cidade.
Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar O gás carbônico das salas de cinema.
Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata.
Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.
Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores das madrugadas.
Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.
Salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito,
Sinto muito, mas não posso ir a Feira de Sant'Ana.
Sou poeta da cidade.
Meus pulmões viraram máquinas inumanas e aprenderam a respirar O gás carbônico das salas de cinema.
Como o pão que o diabo amassou.
Bebo leite de lata.
Falo com A., que é ladrão.
Aperto a mão de B., que é assassino.
Há anos que não vejo romper o sol, que não lavo os olhos nas cores das madrugadas.
Eurico Alves, poeta baiano,
Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.
1 390
Marina Colasanti
Para poder
Assim como os cães sacodem do pelo
água e pulgas
assim também certas mulheres
sacodem da pele
palavras de homem
para poderem pisar com passos
limpos.
água e pulgas
assim também certas mulheres
sacodem da pele
palavras de homem
para poderem pisar com passos
limpos.
1 195
Marina Colasanti
Para poder
Assim como os cães sacodem do pelo
água e pulgas
assim também certas mulheres
sacodem da pele
palavras de homem
para poderem pisar com passos
limpos.
água e pulgas
assim também certas mulheres
sacodem da pele
palavras de homem
para poderem pisar com passos
limpos.
1 195
Manuel Bandeira
Tema e Voltas
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento.
Cheira a flor da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento.
Cheira a flor da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?
1 285
Manuel Bandeira
A Silhueta
Na sala obscura, onde branqueja
A mancha ebúrnea do teclado,
Morre e revive, expira, arqueja
O estribilho desesperado.
Um Pierrot de vestes de seda
Negra, ele próprio toca e canta.
O timbre múrmuro segreda
Uma dor que sobe à garganta.
E uma tristeza de tal sorte
Vem nessa pobre voz humana,
Que se pensa em fugir na morte
À miséria cotidiana.
Como a voz, também a mão geme.
E na parede se debruça
A sombra pálida, que treme,
De uma garganta que soluça...
A mancha ebúrnea do teclado,
Morre e revive, expira, arqueja
O estribilho desesperado.
Um Pierrot de vestes de seda
Negra, ele próprio toca e canta.
O timbre múrmuro segreda
Uma dor que sobe à garganta.
E uma tristeza de tal sorte
Vem nessa pobre voz humana,
Que se pensa em fugir na morte
À miséria cotidiana.
Como a voz, também a mão geme.
E na parede se debruça
A sombra pálida, que treme,
De uma garganta que soluça...
1 606
Marina Colasanti
Paisagem entre vidro e espelho
Aqui sentada
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
1 070