Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Pablo Neruda
Pedro É o Quando
Pedro é o quando e o como,
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
1 181
Pablo Neruda
Pedro É o Quando
Pedro é o quando e o como,
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
Clara é talvez o sem dúvida,
Roberto, o porém,
todos caminham com preposições,
advérbios, substantivos
que se antecipam nos armazéns,
nas corporações, na rua,
e me pesa cada homem com seu peso,
com sua palavra referente
como um chapéu velho.
Aonde vão?, me pergunto.
Aonde vamos
com a mercadoria
precautória,
envolvendo-nos em palavrinhas,
vestindo-nos com redes?
Através de nós cai como a chuva
a verdade, a esperada solução
— vão e vêm as ruas
cheias de pormenores —
já podemos pendurar como tapetes
de salão, de balcão, pelas paredes,
os discursos caídos
no caminho
sem que ninguém ficasse com nada,
ouro ou açúcar, seres verdadeiros,
a felicidade,
tudo isso não se fala,
não se toca,
não existe, assim parece, nada claro,
pedra, madeira dura,
base ou elevação
da matéria,
da matéria feliz,
nada, não há senão seres sem objeto,
palavras sem destino
que não vão além de ti e de mim,
nem aquém do escritório
—estamos demasiado ocupados —
nos chamam pelo telefone
com urgência
para notificar-nos que ficou proibido
ser feliz.
1 181
Pablo Neruda
Conheci Ao Mexicano
Conheci ao mexicano Tihuatín
faz alguns séculos, em Jalapa,
e depois, cada vez, ao encontrá-lo
na Colômbia, em Iquique, em Arequipa,
comecei a suspeitar de sua existência.
Tinha-me parecido estranho
seu chapéu, quando aquele homem,
oleiro de ofício, vivia da argila
mexicana e depois tomou-se arquiteto,
mordomo de uma ferragem na Venezuela,
mineiro e aguazil na Guatemala.
Como, pensei, com a mesma idade,
só trezentos anos,
eu, com o mesmo ofício, ensimesmado
em minha fábrica de sinos,
a bater sempre pedras ou metais
para que alguém ouça meus sinos
e conheça minha voz,
minha única voz,
este homem, desde mortos anos
por rios que não existem,
muda de ofício?
Então compreendi que ele era eu,
que éramos um sobrevivente a mais
entre outros de perto ou daqui,
outros de linhagens iguais enterrados
com as mãos sujas de areia,
nascendo sempre em qualquer parte,
dispostos a um trabalho interminável.
faz alguns séculos, em Jalapa,
e depois, cada vez, ao encontrá-lo
na Colômbia, em Iquique, em Arequipa,
comecei a suspeitar de sua existência.
Tinha-me parecido estranho
seu chapéu, quando aquele homem,
oleiro de ofício, vivia da argila
mexicana e depois tomou-se arquiteto,
mordomo de uma ferragem na Venezuela,
mineiro e aguazil na Guatemala.
Como, pensei, com a mesma idade,
só trezentos anos,
eu, com o mesmo ofício, ensimesmado
em minha fábrica de sinos,
a bater sempre pedras ou metais
para que alguém ouça meus sinos
e conheça minha voz,
minha única voz,
este homem, desde mortos anos
por rios que não existem,
muda de ofício?
Então compreendi que ele era eu,
que éramos um sobrevivente a mais
entre outros de perto ou daqui,
outros de linhagens iguais enterrados
com as mãos sujas de areia,
nascendo sempre em qualquer parte,
dispostos a um trabalho interminável.
1 150
Pablo Neruda
Recordações da Amizade
Era uma tal obstinação
a de meu amigo Rupertino
que dedicou seu desinteresse
a empresas sempre inúteis:
explorou reinos explorados,
fabricou milhões de buracos,
abriu um clube de viúvas heróicas
e vendia fumaça engarrafada.
Eu desde criança me fiz de Sancho
contra meu sócio quixotesco:
argumentei com força e prudência
como uma tia protetora
quando quis plantar laranjeiras
nos tetos de Notre Dame.
Logo, cansado de aturá-lo,
eu o deixei em nova indústria:
“Bote Ataúde”, “Lancha Sarcófago”
para presuntos suicidas.
Minha paciência não aguentou
e abandonei sua vizinhança.
Quando meu amigo foi eleito
Presidente de Costaragua
me nomeou Generalissimo,
a cargo de seu território:
era sua ordem invadir
as monarquias cafeeiras
regidas por reis furiosos
que ameaçavam sua existência.
Por fraqueza de caráter
e amizade antiga e pueril
aceitei aquele comando
e com quarenta involuntários
avancei sobre as fronteiras.
Ninguém sabe o que é
morder o pó da derrota:
entre Marfil e Costaragua
derreteram de calor
meus aguerridos combatentes
e eu fiquei só, cercado
por cinquenta reis raivosos.
Voltei arrependido das guerras,
sem título de General.
Busquei meu amigo quixoteiro:
ninguém sabia onde estava.
Logo o encontrei no Canadá
vendendo penas de pinguim
(ave implume por excelência,
o que não tinha importância
para meu compadre obstinado).
No dia em que menos se espere
pode aparecer em sua casa:
acredite em tudo o que conta
porque depois de tudo é ele
o que sempre teve razão.
a de meu amigo Rupertino
que dedicou seu desinteresse
a empresas sempre inúteis:
explorou reinos explorados,
fabricou milhões de buracos,
abriu um clube de viúvas heróicas
e vendia fumaça engarrafada.
Eu desde criança me fiz de Sancho
contra meu sócio quixotesco:
argumentei com força e prudência
como uma tia protetora
quando quis plantar laranjeiras
nos tetos de Notre Dame.
Logo, cansado de aturá-lo,
eu o deixei em nova indústria:
“Bote Ataúde”, “Lancha Sarcófago”
para presuntos suicidas.
Minha paciência não aguentou
e abandonei sua vizinhança.
Quando meu amigo foi eleito
Presidente de Costaragua
me nomeou Generalissimo,
a cargo de seu território:
era sua ordem invadir
as monarquias cafeeiras
regidas por reis furiosos
que ameaçavam sua existência.
Por fraqueza de caráter
e amizade antiga e pueril
aceitei aquele comando
e com quarenta involuntários
avancei sobre as fronteiras.
Ninguém sabe o que é
morder o pó da derrota:
entre Marfil e Costaragua
derreteram de calor
meus aguerridos combatentes
e eu fiquei só, cercado
por cinquenta reis raivosos.
Voltei arrependido das guerras,
sem título de General.
Busquei meu amigo quixoteiro:
ninguém sabia onde estava.
Logo o encontrei no Canadá
vendendo penas de pinguim
(ave implume por excelência,
o que não tinha importância
para meu compadre obstinado).
No dia em que menos se espere
pode aparecer em sua casa:
acredite em tudo o que conta
porque depois de tudo é ele
o que sempre teve razão.
1 345
Pablo Neruda
Meio-Dia - LIII
Aqui está o pão, o vinho, a mesa, a morada:
o ofício do homem, a mulher e a vida:
a este lugar corria a paz vertiginosa,
por esta luz ardeu a comum queimadura.
Honra a tuas duas mãos que voam preparando
os brancos resultados do canto e a cozinha,
salve! a inteireza de teus pés corredores,
viva! a bailarina que baila com a escova.
Aqueles bruscos rios com águas e ameaças,
aquele atormentado pavilhão da espuma,
aqueles incendiários favos e recifes
são hoje este repouso de teu sangue no meu,
este leito estrelado e azul como a noite
esta simplicidade sem-fim da ternura.
o ofício do homem, a mulher e a vida:
a este lugar corria a paz vertiginosa,
por esta luz ardeu a comum queimadura.
Honra a tuas duas mãos que voam preparando
os brancos resultados do canto e a cozinha,
salve! a inteireza de teus pés corredores,
viva! a bailarina que baila com a escova.
Aqueles bruscos rios com águas e ameaças,
aquele atormentado pavilhão da espuma,
aqueles incendiários favos e recifes
são hoje este repouso de teu sangue no meu,
este leito estrelado e azul como a noite
esta simplicidade sem-fim da ternura.
569
Pablo Neruda
XXIV - A ilha
Adeus, adeus, ilha secreta, rosa
de purificação, umbigo de oro:
voltamos uns e outros para as obrigações
de nossas enlutadas profissões e ofícios.
Adeus, que o grande oceano te guarde
longe de nossa estéril aspereza!
Chegou a hora de odiar a solidão:
esconde, ilha, as chaves antigas
debaixo dos esqueletos
que nos censurarão até que sejam pó
em suas covas de pedra
nossa invasão inútil.
Regressamos. E este adeus, esbanjado e perdido
é mais um, um adeus
sem mais solenidade que a que ali fica:
a indiferença imóvel no centro do mar:
cem olhares de pedra que olham para dentro
e para a eternidade do horizonte.
FIM
de purificação, umbigo de oro:
voltamos uns e outros para as obrigações
de nossas enlutadas profissões e ofícios.
Adeus, que o grande oceano te guarde
longe de nossa estéril aspereza!
Chegou a hora de odiar a solidão:
esconde, ilha, as chaves antigas
debaixo dos esqueletos
que nos censurarão até que sejam pó
em suas covas de pedra
nossa invasão inútil.
Regressamos. E este adeus, esbanjado e perdido
é mais um, um adeus
sem mais solenidade que a que ali fica:
a indiferença imóvel no centro do mar:
cem olhares de pedra que olham para dentro
e para a eternidade do horizonte.
FIM
1 200
Pablo Neruda
Desastres
Quando cheguei a Curacautin
estava chovendo cinza
por vontade dos vulcões.
Tive que mudar para Talca
onde haviam crescido tanto
os rios tranquilos de Maule
que adormeci numa embarcação
e fui para Valparaiso.
Em Valparaiso caíam
ao redor de mim as casas
e fiz o desjejum nos escombros
de minha perdida biblioteca
entre um Baudelaire sobrevivente
e um Cervantes desmantelado.
Em Santiago as eleições
me expulsaram da cidade:
todos se cuspiam na cara
e a julgar pelos jornalistas
no céu estavam os justos
e na rua os assassinos.
Fiz minha cama junto a um rio
que levava mais pedras que água,
junto a umas azinheiras serenas,
longe de todas as cidades,
junto às pedras que cantavam
e ao fim pude dormir em paz
com certo temor de uma estrela
que me olhava e piscava
com certa insistência maligna.
Porém a manhã gentil
pintou de azul a noite negra
e as estrelas inimigas
foram tragadas pela luz
enquanto eu cantava tranquilo
sem catástrofe e sem guitarra.
estava chovendo cinza
por vontade dos vulcões.
Tive que mudar para Talca
onde haviam crescido tanto
os rios tranquilos de Maule
que adormeci numa embarcação
e fui para Valparaiso.
Em Valparaiso caíam
ao redor de mim as casas
e fiz o desjejum nos escombros
de minha perdida biblioteca
entre um Baudelaire sobrevivente
e um Cervantes desmantelado.
Em Santiago as eleições
me expulsaram da cidade:
todos se cuspiam na cara
e a julgar pelos jornalistas
no céu estavam os justos
e na rua os assassinos.
Fiz minha cama junto a um rio
que levava mais pedras que água,
junto a umas azinheiras serenas,
longe de todas as cidades,
junto às pedras que cantavam
e ao fim pude dormir em paz
com certo temor de uma estrela
que me olhava e piscava
com certa insistência maligna.
Porém a manhã gentil
pintou de azul a noite negra
e as estrelas inimigas
foram tragadas pela luz
enquanto eu cantava tranquilo
sem catástrofe e sem guitarra.
1 167
Pablo Neruda
Desastres
Quando cheguei a Curacautin
estava chovendo cinza
por vontade dos vulcões.
Tive que mudar para Talca
onde haviam crescido tanto
os rios tranquilos de Maule
que adormeci numa embarcação
e fui para Valparaiso.
Em Valparaiso caíam
ao redor de mim as casas
e fiz o desjejum nos escombros
de minha perdida biblioteca
entre um Baudelaire sobrevivente
e um Cervantes desmantelado.
Em Santiago as eleições
me expulsaram da cidade:
todos se cuspiam na cara
e a julgar pelos jornalistas
no céu estavam os justos
e na rua os assassinos.
Fiz minha cama junto a um rio
que levava mais pedras que água,
junto a umas azinheiras serenas,
longe de todas as cidades,
junto às pedras que cantavam
e ao fim pude dormir em paz
com certo temor de uma estrela
que me olhava e piscava
com certa insistência maligna.
Porém a manhã gentil
pintou de azul a noite negra
e as estrelas inimigas
foram tragadas pela luz
enquanto eu cantava tranquilo
sem catástrofe e sem guitarra.
estava chovendo cinza
por vontade dos vulcões.
Tive que mudar para Talca
onde haviam crescido tanto
os rios tranquilos de Maule
que adormeci numa embarcação
e fui para Valparaiso.
Em Valparaiso caíam
ao redor de mim as casas
e fiz o desjejum nos escombros
de minha perdida biblioteca
entre um Baudelaire sobrevivente
e um Cervantes desmantelado.
Em Santiago as eleições
me expulsaram da cidade:
todos se cuspiam na cara
e a julgar pelos jornalistas
no céu estavam os justos
e na rua os assassinos.
Fiz minha cama junto a um rio
que levava mais pedras que água,
junto a umas azinheiras serenas,
longe de todas as cidades,
junto às pedras que cantavam
e ao fim pude dormir em paz
com certo temor de uma estrela
que me olhava e piscava
com certa insistência maligna.
Porém a manhã gentil
pintou de azul a noite negra
e as estrelas inimigas
foram tragadas pela luz
enquanto eu cantava tranquilo
sem catástrofe e sem guitarra.
1 167
Pablo Neruda
Sim, Camarada
Sim, camarada, é hora de jardim
e é hora de batalha, cada dia
é sucessão de flor e sangue,
nosso tempo nos entregou amarrados
a regar os jasmins
ou a dessangrar-nos numa rua escura,
a virtude ou a dor se repartiram
em zonas frias, em mordentes brasas,
e não havia outra coisa que eleger,
os caminhos do céu,
antes tão transitados pelos santos,
estão hoje povoados por especialistas.
Já desapareceram os cavalos.
Os heróis vão vestidos de batráquios,
os espelhos vivem vazios
porque a festa é sempre em outra parte,
onde já não estamos convidados
e há briga nas portas.
Por isso este é o penúltimo chamado,
o décimo sincero toque
do meu sino,
ao jardim, camarada, à açucena,
à macieira, ao cravo intransigente,
à fragrância da flor de laranjeira,
e logo aos deveres da guerra.
Delgada é nossa pátria
e em seu despido fio de faca
arde nossa bandeira delicada.
e é hora de batalha, cada dia
é sucessão de flor e sangue,
nosso tempo nos entregou amarrados
a regar os jasmins
ou a dessangrar-nos numa rua escura,
a virtude ou a dor se repartiram
em zonas frias, em mordentes brasas,
e não havia outra coisa que eleger,
os caminhos do céu,
antes tão transitados pelos santos,
estão hoje povoados por especialistas.
Já desapareceram os cavalos.
Os heróis vão vestidos de batráquios,
os espelhos vivem vazios
porque a festa é sempre em outra parte,
onde já não estamos convidados
e há briga nas portas.
Por isso este é o penúltimo chamado,
o décimo sincero toque
do meu sino,
ao jardim, camarada, à açucena,
à macieira, ao cravo intransigente,
à fragrância da flor de laranjeira,
e logo aos deveres da guerra.
Delgada é nossa pátria
e em seu despido fio de faca
arde nossa bandeira delicada.
1 149
1
Pablo Neruda
Sim, Camarada
Sim, camarada, é hora de jardim
e é hora de batalha, cada dia
é sucessão de flor e sangue,
nosso tempo nos entregou amarrados
a regar os jasmins
ou a dessangrar-nos numa rua escura,
a virtude ou a dor se repartiram
em zonas frias, em mordentes brasas,
e não havia outra coisa que eleger,
os caminhos do céu,
antes tão transitados pelos santos,
estão hoje povoados por especialistas.
Já desapareceram os cavalos.
Os heróis vão vestidos de batráquios,
os espelhos vivem vazios
porque a festa é sempre em outra parte,
onde já não estamos convidados
e há briga nas portas.
Por isso este é o penúltimo chamado,
o décimo sincero toque
do meu sino,
ao jardim, camarada, à açucena,
à macieira, ao cravo intransigente,
à fragrância da flor de laranjeira,
e logo aos deveres da guerra.
Delgada é nossa pátria
e em seu despido fio de faca
arde nossa bandeira delicada.
e é hora de batalha, cada dia
é sucessão de flor e sangue,
nosso tempo nos entregou amarrados
a regar os jasmins
ou a dessangrar-nos numa rua escura,
a virtude ou a dor se repartiram
em zonas frias, em mordentes brasas,
e não havia outra coisa que eleger,
os caminhos do céu,
antes tão transitados pelos santos,
estão hoje povoados por especialistas.
Já desapareceram os cavalos.
Os heróis vão vestidos de batráquios,
os espelhos vivem vazios
porque a festa é sempre em outra parte,
onde já não estamos convidados
e há briga nas portas.
Por isso este é o penúltimo chamado,
o décimo sincero toque
do meu sino,
ao jardim, camarada, à açucena,
à macieira, ao cravo intransigente,
à fragrância da flor de laranjeira,
e logo aos deveres da guerra.
Delgada é nossa pátria
e em seu despido fio de faca
arde nossa bandeira delicada.
1 149
1
Pablo Neruda
Sim, Camarada
Sim, camarada, é hora de jardim
e é hora de batalha, cada dia
é sucessão de flor e sangue,
nosso tempo nos entregou amarrados
a regar os jasmins
ou a dessangrar-nos numa rua escura,
a virtude ou a dor se repartiram
em zonas frias, em mordentes brasas,
e não havia outra coisa que eleger,
os caminhos do céu,
antes tão transitados pelos santos,
estão hoje povoados por especialistas.
Já desapareceram os cavalos.
Os heróis vão vestidos de batráquios,
os espelhos vivem vazios
porque a festa é sempre em outra parte,
onde já não estamos convidados
e há briga nas portas.
Por isso este é o penúltimo chamado,
o décimo sincero toque
do meu sino,
ao jardim, camarada, à açucena,
à macieira, ao cravo intransigente,
à fragrância da flor de laranjeira,
e logo aos deveres da guerra.
Delgada é nossa pátria
e em seu despido fio de faca
arde nossa bandeira delicada.
e é hora de batalha, cada dia
é sucessão de flor e sangue,
nosso tempo nos entregou amarrados
a regar os jasmins
ou a dessangrar-nos numa rua escura,
a virtude ou a dor se repartiram
em zonas frias, em mordentes brasas,
e não havia outra coisa que eleger,
os caminhos do céu,
antes tão transitados pelos santos,
estão hoje povoados por especialistas.
Já desapareceram os cavalos.
Os heróis vão vestidos de batráquios,
os espelhos vivem vazios
porque a festa é sempre em outra parte,
onde já não estamos convidados
e há briga nas portas.
Por isso este é o penúltimo chamado,
o décimo sincero toque
do meu sino,
ao jardim, camarada, à açucena,
à macieira, ao cravo intransigente,
à fragrância da flor de laranjeira,
e logo aos deveres da guerra.
Delgada é nossa pátria
e em seu despido fio de faca
arde nossa bandeira delicada.
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1
Pablo Neruda
Saúde, Dizemos Cada Dia
Saúde, dizemos cada dia,
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
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Pablo Neruda
Saúde, Dizemos Cada Dia
Saúde, dizemos cada dia,
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
a cada um
é o cartão de visita
da falsa bondade
e da verdadeira.
E o sino para reconhecer-nos:
aqui estamos, saúde!
Se ouve bem, existimos.
Saúde, saúde, saúde,
a este e ao outro, a quem,
e à faca, ao veneno
e ao malvado.
Saúde, reconhece-me,
somos iguais
e não nos queremos,
nos amamos e somos desiguais,
cada um com colher,
com um lamento especial,
encantado de ser e de não ser;
há que dispor de tantas mãos,
de tantos lábios para sorrir,
saúde!
que já não resta tempo.
Saúde
de inteirar-se de nada.
Saúde
de dedicar-nos a nós mesmos,
se é que nos resta algo
de nós, de nós mesmos.
Saúde!
1 256
Pablo Neruda
XII. Adeus
Lord Cochrane, adeus! Teu navio retorna ao combate
e apenas selou a vitória as portas de tuas possessões,
apenas a fumaça da chaminé saúda a paz de teu horto
navega outra vez teu destino para a liberdade de outra terra.
Adeus, marinheiro! A noite despe seu corpo de prata marinha
e sobre as ondas austrais resvala outra vez teu navio.
As mãos escuras do Chile recolhem tua insígnia caída na névoa
a elevam ao alto dos campanários e das cordilheiras
teu escudo de pai guerreiro, tua herança de mar valoroso.
A noite do Sul acompanha tua nave e levanta sua taça de estrelas
pelo navegante e seu errante destino de libertador dos povos.
e apenas selou a vitória as portas de tuas possessões,
apenas a fumaça da chaminé saúda a paz de teu horto
navega outra vez teu destino para a liberdade de outra terra.
Adeus, marinheiro! A noite despe seu corpo de prata marinha
e sobre as ondas austrais resvala outra vez teu navio.
As mãos escuras do Chile recolhem tua insígnia caída na névoa
a elevam ao alto dos campanários e das cordilheiras
teu escudo de pai guerreiro, tua herança de mar valoroso.
A noite do Sul acompanha tua nave e levanta sua taça de estrelas
pelo navegante e seu errante destino de libertador dos povos.
1 213
Pablo Neruda
XII. Adeus
Lord Cochrane, adeus! Teu navio retorna ao combate
e apenas selou a vitória as portas de tuas possessões,
apenas a fumaça da chaminé saúda a paz de teu horto
navega outra vez teu destino para a liberdade de outra terra.
Adeus, marinheiro! A noite despe seu corpo de prata marinha
e sobre as ondas austrais resvala outra vez teu navio.
As mãos escuras do Chile recolhem tua insígnia caída na névoa
a elevam ao alto dos campanários e das cordilheiras
teu escudo de pai guerreiro, tua herança de mar valoroso.
A noite do Sul acompanha tua nave e levanta sua taça de estrelas
pelo navegante e seu errante destino de libertador dos povos.
e apenas selou a vitória as portas de tuas possessões,
apenas a fumaça da chaminé saúda a paz de teu horto
navega outra vez teu destino para a liberdade de outra terra.
Adeus, marinheiro! A noite despe seu corpo de prata marinha
e sobre as ondas austrais resvala outra vez teu navio.
As mãos escuras do Chile recolhem tua insígnia caída na névoa
a elevam ao alto dos campanários e das cordilheiras
teu escudo de pai guerreiro, tua herança de mar valoroso.
A noite do Sul acompanha tua nave e levanta sua taça de estrelas
pelo navegante e seu errante destino de libertador dos povos.
1 213
Pablo Neruda
XII. Adeus
Lord Cochrane, adeus! Teu navio retorna ao combate
e apenas selou a vitória as portas de tuas possessões,
apenas a fumaça da chaminé saúda a paz de teu horto
navega outra vez teu destino para a liberdade de outra terra.
Adeus, marinheiro! A noite despe seu corpo de prata marinha
e sobre as ondas austrais resvala outra vez teu navio.
As mãos escuras do Chile recolhem tua insígnia caída na névoa
a elevam ao alto dos campanários e das cordilheiras
teu escudo de pai guerreiro, tua herança de mar valoroso.
A noite do Sul acompanha tua nave e levanta sua taça de estrelas
pelo navegante e seu errante destino de libertador dos povos.
e apenas selou a vitória as portas de tuas possessões,
apenas a fumaça da chaminé saúda a paz de teu horto
navega outra vez teu destino para a liberdade de outra terra.
Adeus, marinheiro! A noite despe seu corpo de prata marinha
e sobre as ondas austrais resvala outra vez teu navio.
As mãos escuras do Chile recolhem tua insígnia caída na névoa
a elevam ao alto dos campanários e das cordilheiras
teu escudo de pai guerreiro, tua herança de mar valoroso.
A noite do Sul acompanha tua nave e levanta sua taça de estrelas
pelo navegante e seu errante destino de libertador dos povos.
1 213
Pablo Neruda
Manhã - II
Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em Taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações
tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em Taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações
tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos,
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa os cravos.
1 277
Pablo Neruda
XI. Triunfo
Valdívia! A pólvora varreu as insígnias da Espanha!
Callao! As proas do Chile do Sul roubaram os ovos da águia!
E foram abertos os mares à viagem de todos os homens!
Abriu-se como caixa de música o globo oceânico,
as ilhas da Polinésia Sagrada e Secreta surgiram cantando e bailando
e um búzio institui na costa selvagem o mel, a verdade e o aroma das profecias.
Callao! As proas do Chile do Sul roubaram os ovos da águia!
E foram abertos os mares à viagem de todos os homens!
Abriu-se como caixa de música o globo oceânico,
as ilhas da Polinésia Sagrada e Secreta surgiram cantando e bailando
e um búzio institui na costa selvagem o mel, a verdade e o aroma das profecias.
904
Pablo Neruda
XI. Triunfo
Valdívia! A pólvora varreu as insígnias da Espanha!
Callao! As proas do Chile do Sul roubaram os ovos da águia!
E foram abertos os mares à viagem de todos os homens!
Abriu-se como caixa de música o globo oceânico,
as ilhas da Polinésia Sagrada e Secreta surgiram cantando e bailando
e um búzio institui na costa selvagem o mel, a verdade e o aroma das profecias.
Callao! As proas do Chile do Sul roubaram os ovos da águia!
E foram abertos os mares à viagem de todos os homens!
Abriu-se como caixa de música o globo oceânico,
as ilhas da Polinésia Sagrada e Secreta surgiram cantando e bailando
e um búzio institui na costa selvagem o mel, a verdade e o aroma das profecias.
904
Pablo Neruda
X. Proclama
Chilenos do mar! Ao assalto! Sou Cochrane. Eu venho de longe!
Já aprendestes as artes do fogo e o luxo da simetria!
O sangue de Arauco é honra de minhas tripulações!
Avante: A terra do Chile ganha-se ou perde-se na água!
A mim, marinheiros! Eu não garanto a vida de ninguém,
mas a vitória de todos! A mim, marinheiros do Chile!
Já aprendestes as artes do fogo e o luxo da simetria!
O sangue de Arauco é honra de minhas tripulações!
Avante: A terra do Chile ganha-se ou perde-se na água!
A mim, marinheiros! Eu não garanto a vida de ninguém,
mas a vitória de todos! A mim, marinheiros do Chile!
1 137
Pablo Neruda
X. Proclama
Chilenos do mar! Ao assalto! Sou Cochrane. Eu venho de longe!
Já aprendestes as artes do fogo e o luxo da simetria!
O sangue de Arauco é honra de minhas tripulações!
Avante: A terra do Chile ganha-se ou perde-se na água!
A mim, marinheiros! Eu não garanto a vida de ninguém,
mas a vitória de todos! A mim, marinheiros do Chile!
Já aprendestes as artes do fogo e o luxo da simetria!
O sangue de Arauco é honra de minhas tripulações!
Avante: A terra do Chile ganha-se ou perde-se na água!
A mim, marinheiros! Eu não garanto a vida de ninguém,
mas a vitória de todos! A mim, marinheiros do Chile!
1 137
Pablo Neruda
Repertório
Aqui há gente com nomes e com pés
com endereço e sobrenome:
eu também vou na fieira
com o fio.
Há os já debulhados
no
poço
que fizeram e em que caíram:
há os bons e os maus ao mesmo tempo,
os sacrificadores e a pedra
onde deceparam a cabeça
de quantos se aproximaram do seu abismo.
Há de tudo na cesta: aqui só
estão cascavéis, ruídos de mesa,
de tiros, de colheres, de bigodes:
não sei o que me aconteceu nem o que acontecia
comigo mesmo nem com eles,
o certo é que os vi,
toquei-os e como a vida anda
sem deter suas rodas
eu os vivi quando eles me viveram,
amigos ou inimigos ou paredes,
ou inaceitáveis santos que sofriam,
ou cavalheiros de chapéu triste,
ou vilões que o vento comeu,
ou tudo mais: o grão do paiol
as minhas culpas desnudadas sem cessar
que ao entrar no banho a cada dia
saíram mais manchadas à luz.
Ai, salve-se quem puder!
O arquivista sou dos defeitos
de um só dia de minha coleção
e não tenho crueldade mas paciência:
já ninguém chora, passou de moda
a bela lágrima como uma açucena
e até mesmo o remorso faleceu.
Por isso apresento minha coroa
de iníquo juiz que não contenta ninguém,
nem aos ladrões, nem à sua digna esposa:
vocês já sabem disso:
eu que falo por falar falo de menos
por quanto vi, por quanto verei
estou ficando cego.
com endereço e sobrenome:
eu também vou na fieira
com o fio.
Há os já debulhados
no
poço
que fizeram e em que caíram:
há os bons e os maus ao mesmo tempo,
os sacrificadores e a pedra
onde deceparam a cabeça
de quantos se aproximaram do seu abismo.
Há de tudo na cesta: aqui só
estão cascavéis, ruídos de mesa,
de tiros, de colheres, de bigodes:
não sei o que me aconteceu nem o que acontecia
comigo mesmo nem com eles,
o certo é que os vi,
toquei-os e como a vida anda
sem deter suas rodas
eu os vivi quando eles me viveram,
amigos ou inimigos ou paredes,
ou inaceitáveis santos que sofriam,
ou cavalheiros de chapéu triste,
ou vilões que o vento comeu,
ou tudo mais: o grão do paiol
as minhas culpas desnudadas sem cessar
que ao entrar no banho a cada dia
saíram mais manchadas à luz.
Ai, salve-se quem puder!
O arquivista sou dos defeitos
de um só dia de minha coleção
e não tenho crueldade mas paciência:
já ninguém chora, passou de moda
a bela lágrima como uma açucena
e até mesmo o remorso faleceu.
Por isso apresento minha coroa
de iníquo juiz que não contenta ninguém,
nem aos ladrões, nem à sua digna esposa:
vocês já sabem disso:
eu que falo por falar falo de menos
por quanto vi, por quanto verei
estou ficando cego.
1 248
Pablo Neruda
Repertório
Aqui há gente com nomes e com pés
com endereço e sobrenome:
eu também vou na fieira
com o fio.
Há os já debulhados
no
poço
que fizeram e em que caíram:
há os bons e os maus ao mesmo tempo,
os sacrificadores e a pedra
onde deceparam a cabeça
de quantos se aproximaram do seu abismo.
Há de tudo na cesta: aqui só
estão cascavéis, ruídos de mesa,
de tiros, de colheres, de bigodes:
não sei o que me aconteceu nem o que acontecia
comigo mesmo nem com eles,
o certo é que os vi,
toquei-os e como a vida anda
sem deter suas rodas
eu os vivi quando eles me viveram,
amigos ou inimigos ou paredes,
ou inaceitáveis santos que sofriam,
ou cavalheiros de chapéu triste,
ou vilões que o vento comeu,
ou tudo mais: o grão do paiol
as minhas culpas desnudadas sem cessar
que ao entrar no banho a cada dia
saíram mais manchadas à luz.
Ai, salve-se quem puder!
O arquivista sou dos defeitos
de um só dia de minha coleção
e não tenho crueldade mas paciência:
já ninguém chora, passou de moda
a bela lágrima como uma açucena
e até mesmo o remorso faleceu.
Por isso apresento minha coroa
de iníquo juiz que não contenta ninguém,
nem aos ladrões, nem à sua digna esposa:
vocês já sabem disso:
eu que falo por falar falo de menos
por quanto vi, por quanto verei
estou ficando cego.
com endereço e sobrenome:
eu também vou na fieira
com o fio.
Há os já debulhados
no
poço
que fizeram e em que caíram:
há os bons e os maus ao mesmo tempo,
os sacrificadores e a pedra
onde deceparam a cabeça
de quantos se aproximaram do seu abismo.
Há de tudo na cesta: aqui só
estão cascavéis, ruídos de mesa,
de tiros, de colheres, de bigodes:
não sei o que me aconteceu nem o que acontecia
comigo mesmo nem com eles,
o certo é que os vi,
toquei-os e como a vida anda
sem deter suas rodas
eu os vivi quando eles me viveram,
amigos ou inimigos ou paredes,
ou inaceitáveis santos que sofriam,
ou cavalheiros de chapéu triste,
ou vilões que o vento comeu,
ou tudo mais: o grão do paiol
as minhas culpas desnudadas sem cessar
que ao entrar no banho a cada dia
saíram mais manchadas à luz.
Ai, salve-se quem puder!
O arquivista sou dos defeitos
de um só dia de minha coleção
e não tenho crueldade mas paciência:
já ninguém chora, passou de moda
a bela lágrima como uma açucena
e até mesmo o remorso faleceu.
Por isso apresento minha coroa
de iníquo juiz que não contenta ninguém,
nem aos ladrões, nem à sua digna esposa:
vocês já sabem disso:
eu que falo por falar falo de menos
por quanto vi, por quanto verei
estou ficando cego.
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Pablo Neruda
Ii - As Invenções
Vês este pequeno objeto trissilábico?
É um cilindro subalterno da felicidade
e manejado, agora, por organismos coerentes
por controle remoto, estou, estais seguros
de uma eficácia tão resplandecente
que amadurecem as uvas em sua pressão ignota
e o trigo em pleno campo se converte em pão,
as águas dão à luz cavalos vermelhões
que galopam o ar sem prévio aviso,
grandes indústrias se movem como centopeias
deixando rodas e relógios nos lugares desabitados:
Senhores, adquiri meu produto terciário
sem mescla de algodão nem de substâncias lácteas:
concedo-vos um botão para mudar o mundo:
adquiri o trifásico antes que me arrependa!
É um cilindro subalterno da felicidade
e manejado, agora, por organismos coerentes
por controle remoto, estou, estais seguros
de uma eficácia tão resplandecente
que amadurecem as uvas em sua pressão ignota
e o trigo em pleno campo se converte em pão,
as águas dão à luz cavalos vermelhões
que galopam o ar sem prévio aviso,
grandes indústrias se movem como centopeias
deixando rodas e relógios nos lugares desabitados:
Senhores, adquiri meu produto terciário
sem mescla de algodão nem de substâncias lácteas:
concedo-vos um botão para mudar o mundo:
adquiri o trifásico antes que me arrependa!
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