Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Gregório de Matos
Embarcado Já o Poeta
Adeus praia, adeus Cidade,
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
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Gregório de Matos
Embarcado Já o Poeta
Adeus praia, adeus Cidade,
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
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Gregório de Matos
Embarcado Já o Poeta
Adeus praia, adeus Cidade,
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
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Gregório de Matos
Embarcado Já o Poeta
Adeus praia, adeus Cidade,
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
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In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
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Gregório de Matos
Embarcado Já o Poeta
Adeus praia, adeus Cidade,
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
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Gregório de Matos
Embarcado Já o Poeta
Adeus praia, adeus Cidade,
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
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In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
3 835
2
Gregório de Matos
Queixa-se o Poeta
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
4 093
2
Marcelo Gama
Mulheres
Pela simples razão de eu ser viril e poeta
que celebra, encantado, eternas bodas,
olho as mulheres todas
com o mais impertinente interesse de esteta.
Por isso, às três da tarde e às vezes antes,
desconhecido entre desconhecidos,
levo para a Avenida uns ares importantes
e afinado o quinteto dos sentidos.
E ficou a deambular a tarde inteira
entre snobs e Apolos de pulseira.
Fico-me unicamente para vê-las
no florir do seu viço,
para senti-las, para analisá-las,
do autêntico ao postiço,
umas — soberbas, fúlgidas estrelas,
outras — de um palor lânguido de opalas...
E enrodilhando-as em olhares ledos,
o que se passa em mim pode ser comparado
àquele querer-tudo alvoroçado
das crianças nas lojas de brinquedos.
Olho-as, remiro-as de alto a baixo, sigo-as,
dispo-as, ponho-as em pose, impassíveis e brancas,
ora aqui desvendando imperfeições ambíguas
de atafulhadas ancas,
ora ali descobrindo, entre êxtase e surpresa,
formas definitivas de beleza.
De algumas eu já sei nomes, histórias, vidas,
crônicas passionais,
prestigiadas do encanto de um mistério;
biografias heróicas, doloridas,
escândalos banais
e banais episódios de adultério.
Porém, todas as mesmas, em conjunto,
maravilhoso assunto
de um poema intenso, em que ando a meditar,
e com um título antigo, assim ao jeito
das inscrições dos velhos pergaminhos:
"Das perfídias que hão feito
as mulheres, os vinhos
e as cartas de jogar".
(...)
Rio de Janeiro - 1909.
Poema integrante da série Dispersos.
In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.139-14
que celebra, encantado, eternas bodas,
olho as mulheres todas
com o mais impertinente interesse de esteta.
Por isso, às três da tarde e às vezes antes,
desconhecido entre desconhecidos,
levo para a Avenida uns ares importantes
e afinado o quinteto dos sentidos.
E ficou a deambular a tarde inteira
entre snobs e Apolos de pulseira.
Fico-me unicamente para vê-las
no florir do seu viço,
para senti-las, para analisá-las,
do autêntico ao postiço,
umas — soberbas, fúlgidas estrelas,
outras — de um palor lânguido de opalas...
E enrodilhando-as em olhares ledos,
o que se passa em mim pode ser comparado
àquele querer-tudo alvoroçado
das crianças nas lojas de brinquedos.
Olho-as, remiro-as de alto a baixo, sigo-as,
dispo-as, ponho-as em pose, impassíveis e brancas,
ora aqui desvendando imperfeições ambíguas
de atafulhadas ancas,
ora ali descobrindo, entre êxtase e surpresa,
formas definitivas de beleza.
De algumas eu já sei nomes, histórias, vidas,
crônicas passionais,
prestigiadas do encanto de um mistério;
biografias heróicas, doloridas,
escândalos banais
e banais episódios de adultério.
Porém, todas as mesmas, em conjunto,
maravilhoso assunto
de um poema intenso, em que ando a meditar,
e com um título antigo, assim ao jeito
das inscrições dos velhos pergaminhos:
"Das perfídias que hão feito
as mulheres, os vinhos
e as cartas de jogar".
(...)
Rio de Janeiro - 1909.
Poema integrante da série Dispersos.
In: GAMA, Marcelo. Via Sacra e outros poemas. Posfácio de Álvaro Moreyra. Rio de Janeiro: Ed. da Sociedade Felippe d'Oliveira, 1944. p.139-14
1 729
2
Fagundes Varela
Mauro, o Escravo
(Fragmentos de um poema)
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
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2
Fagundes Varela
Mauro, o Escravo
(Fragmentos de um poema)
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
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Fagundes Varela
Mauro, o Escravo
(Fragmentos de um poema)
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
A Sentença
(...)
XI
Oh! Mauro era belo! Da raça africana
Herdara a coragem sem par, sobre-humana,
Que aos sopros do gênio se torna um vulcão.
Apenas das faces de um leve crestado,
Um fino cabelo, contudo anelado,
Traíam do sangue longínqua fusão.
(...)
XIV
— Conheces teu crime? gritou o senhor.
— Não! Mauro responde com frio amargor,
O tigre encarando que em raiva o media.
— Pois que, desgraçado! fremente exclamou,
E erguendo-se rubro, Lotário avançou
Ao servo impassível que ao raio sorria.
(...)
XX
— Segurem-no!... branco, de cólera arfando,
Rugiu o tirano convulso apontando
O escravo rebelde que os ferros brandia.
— Segurem-no e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite,
Até que lhe chegue final agonia!
XXI
O bando de servos lançou-se, ao mandado.
— Ninguém se aproxime! bradou exaltado
O moço cativo sustendo a corrente.
A turba afastou-se medrosa e tremendo
E Mauro sublime, seu ódio contendo,
Falou destemido do déspota à frente:
XXII
Não creias que eu tema! não creias que escravo
Suplícios me curvem, ai! não, que sou bravo!
Por que me condenas? que culpa me oprime,
Senão ter vedado que um monstro cruento,
De fogos impuros, lascivos, sedento,
Lançasse a inocência nas lamas do crime?
XXIII
Oh! sim, sim, teu filho, no lúbrico afã,
Tentou à desonra levar minha irmã!
Ai! ela não tinha que um mísero irmão!...
Ergui-me em defesa; teus ferros esmagam,
Humilham, rebaixam, porém não apagam
Virtudes e crenças, dever e afeição!
XXIV
Fiz bem! Deus me julga!Tu sabes meu crime,
O fero delito que a fronte me oprime,
As faltas nefandas, os negros horrores;
Agora prossegue, prossegue, estou mudo,
Condena-me agora que sabes de tudo,
Abafa-me ao peso de estólidas dores!
XXV
E Mauro calou-se. Mais frio que a morte,
Mais trêmulo que os juncos ao sopro do norte,
À viva ironia Lotário abalou-se.
— Afastem-no!... Afastem-no! ergueu-se rugindo,
E a turba dos servos o escravo impelindo
Em poucos instantes da sala afastou-se.
XXVI
Ah! mísero Mauro! passados momentos,
Terrível sentença dos lábios sedentos
Baixou o tirano, que em fúrias ardia:
— Amarrem-no, e aos golpes de rábido açoite,
Lacerem-lhe as carnes de dia e de noite
Até que lhe chegue final agonia.
XXVII
Mas quando a alvorada no espaço raiava,
E os bosques, e os campos, risonha inundava
Das longas delícias do etéreo clarão,
O escravo rebelde debalde buscaram,
Cadeias rompidas somente encontraram,
E a porta arrombada da dura prisão.
Imagem - 00320004
Publicado no livro Vozes da América: poesias (1864).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.101-102
NOTA: Poema composto de 4 partes: A Sentença, O Suplício, A Vingança e Visão. A Sentença é composta de 27 sextilha
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2
Bruno de Menezes
Bruxinha Baiana
(Para as minhas filhas
Marília e Lenôra)
Tenho uma bruxinha de carne de pano
que usa cabelo feito de retrós.
Parece que foi noutro tempo mucama,
porque nós fazemos
com a pobre bruxinha
o que não se faz com todo o cristão.
O mais engraçado
é que ela parece ter alma ter vida.
Seu corpo de pano
em certos instantes
tem toda a expressão dos nossos movimentos.
Por isso é que eu penso:
— ela foi mucama.
Não chora não grita não olha pra gente
se fica esquecida
num canto no chão.
Sua única roupa é um traje à baiana.
E nós ajeitamos o seu cabeção
e sua sainha de chita florida
que a Carmen Miranda
se visse a bruxinha
iria com ela também batucar.
Nem mesmo boneca sabemos chamá-la.
Não tem qualquer nome
de "estrela" de fama no céu do cinema.
É a nossa "bruxinha" sem outro apelido,
que até os meus manos
em louca peteca
às vezes transformam se querem brincar.
Andando aos boléus
aos troncos da sorte
quem sabe se a nossa bruxinha, coitada,
não é a mucama
que o fado o destino
jogaram no mundo
para andar assim?...
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.263-264. (Lendo o Pará, 14
Marília e Lenôra)
Tenho uma bruxinha de carne de pano
que usa cabelo feito de retrós.
Parece que foi noutro tempo mucama,
porque nós fazemos
com a pobre bruxinha
o que não se faz com todo o cristão.
O mais engraçado
é que ela parece ter alma ter vida.
Seu corpo de pano
em certos instantes
tem toda a expressão dos nossos movimentos.
Por isso é que eu penso:
— ela foi mucama.
Não chora não grita não olha pra gente
se fica esquecida
num canto no chão.
Sua única roupa é um traje à baiana.
E nós ajeitamos o seu cabeção
e sua sainha de chita florida
que a Carmen Miranda
se visse a bruxinha
iria com ela também batucar.
Nem mesmo boneca sabemos chamá-la.
Não tem qualquer nome
de "estrela" de fama no céu do cinema.
É a nossa "bruxinha" sem outro apelido,
que até os meus manos
em louca peteca
às vezes transformam se querem brincar.
Andando aos boléus
aos troncos da sorte
quem sabe se a nossa bruxinha, coitada,
não é a mucama
que o fado o destino
jogaram no mundo
para andar assim?...
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.263-264. (Lendo o Pará, 14
3 487
2
Álvares de Azevedo
Namoro a Cavalo
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado.
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia — em casamento.
Ontem tinha chovido... que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama...
Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...
Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado.
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia — em casamento.
Ontem tinha chovido... que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama...
Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...
Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
9 500
2
Álvares de Azevedo
Namoro a Cavalo
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado.
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia — em casamento.
Ontem tinha chovido... que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama...
Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...
Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado.
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia — em casamento.
Ontem tinha chovido... que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama...
Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...
Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
9 500
2
Álvares de Azevedo
Namoro a Cavalo
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado.
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia — em casamento.
Ontem tinha chovido... que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama...
Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...
Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.
Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado.
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia — em casamento.
Ontem tinha chovido... que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama...
Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...
Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Bruno de Menezes
Marujada
Fragatas, marujos pintados de entrudo,
gageiro subindo no mastro de proa,
piloto crioulo cantando a manobra
na cadência da onda, ao rumor da mareta.
É um brigue lendário... A "Nau Catarineta"...
Um cruzador do Império...
— "Seu imediato!
— Pronto seu comandante!
— Mande suspendê ferro que são
hora da partida!..."
E as fragatas em coro tatuadas gingando...
suspendem o ferro mesmo sustêm a força da amarra.
(1) "Alerta marinhêro
vâmo o terro levantá
as hora não chegada
do "Tupi" si arritirá".
E o rufo batuca na lufa-lufa a vela estrebucha ao vento
[que bufa...
Navio pirata... Veleiro corsário em mar alto...
Barca onde só vem mestiço.
Regamboleios de fragatas no arrastão da marujada
meia-lua em ronda longa escorregando no convés.
Pintados de entrudo! Oficiais e a marinhagem!
Revolta tumulto a bordo... O imediato posto a ferros...
Os trovões os relâmpagos o vento,
o mar brabo e a invocação à Virgem Mãe dos Navegantes:
(2) "Sinhor do Mar
Rainha das Ondas
livrai-nos da morte
nas ondas do mar...
É a cerração... Vida de bordo numa sala
que palpita de emoção e a maresia faz tremer.
A embarcação joga sem rumo...
Pintados de entrudo!
Rodelas de carmim... brancuras de alvaiade...
O comandante de espadim dragonas gorro e apito
... tinha a melhor fragata!
Mas na hora em que na adriça,
cessada a tempestade,
a bandeira subia garbosa no mastro,
eles pensavam que era certo e davam vivas ao Brasil!
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.229-230. (Lendo o Pará, 14
gageiro subindo no mastro de proa,
piloto crioulo cantando a manobra
na cadência da onda, ao rumor da mareta.
É um brigue lendário... A "Nau Catarineta"...
Um cruzador do Império...
— "Seu imediato!
— Pronto seu comandante!
— Mande suspendê ferro que são
hora da partida!..."
E as fragatas em coro tatuadas gingando...
suspendem o ferro mesmo sustêm a força da amarra.
(1) "Alerta marinhêro
vâmo o terro levantá
as hora não chegada
do "Tupi" si arritirá".
E o rufo batuca na lufa-lufa a vela estrebucha ao vento
[que bufa...
Navio pirata... Veleiro corsário em mar alto...
Barca onde só vem mestiço.
Regamboleios de fragatas no arrastão da marujada
meia-lua em ronda longa escorregando no convés.
Pintados de entrudo! Oficiais e a marinhagem!
Revolta tumulto a bordo... O imediato posto a ferros...
Os trovões os relâmpagos o vento,
o mar brabo e a invocação à Virgem Mãe dos Navegantes:
(2) "Sinhor do Mar
Rainha das Ondas
livrai-nos da morte
nas ondas do mar...
É a cerração... Vida de bordo numa sala
que palpita de emoção e a maresia faz tremer.
A embarcação joga sem rumo...
Pintados de entrudo!
Rodelas de carmim... brancuras de alvaiade...
O comandante de espadim dragonas gorro e apito
... tinha a melhor fragata!
Mas na hora em que na adriça,
cessada a tempestade,
a bandeira subia garbosa no mastro,
eles pensavam que era certo e davam vivas ao Brasil!
Publicado no livro Batuque: poemas (1939).
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.229-230. (Lendo o Pará, 14
4 099
2
Paulo Setúbal
Fim de Viagem
Venho a sonhar contigo... E, no meu sonho,
Vendo o arraial bucólico, risonho,
Onde floriu essa paixão feliz...
Com que saudade, com que gosto amargo,
Relembro a tua casa em frente ao Largo,
Que tu chamavas "Largo da Matriz...".
Vejo-te ainda, lá nesse povoado,
Tua cestinha de costura ao lado,
Perdida em sonhos de felicidade.
E o trem, enquanto assim eu cismo, aflito,
Entra, a bufar, com enervante apito,
Pela cidade adentro... Oh, a cidade!
Suas ruas. Vielas. Bairros proletários.
Rasgando o azul, ao longe, os campanários,
E as chaminés das fábricas e usinas.
Vivos letreiros, no alto, em letras largas.
Aqui — vagões; depósitos de cargas;
Pontes, guindastes, máquinas, cabinas...
Mas eu, no entanto, pensativo e mudo,
Passo por tudo, indiferente a tudo,
Bem longe tendo o espírito daqui;
E vejo apenas — que visão tranqüila! —
Tua longínqua e solitária vila,
Donde, chorando, esta manhã parti...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
Vendo o arraial bucólico, risonho,
Onde floriu essa paixão feliz...
Com que saudade, com que gosto amargo,
Relembro a tua casa em frente ao Largo,
Que tu chamavas "Largo da Matriz...".
Vejo-te ainda, lá nesse povoado,
Tua cestinha de costura ao lado,
Perdida em sonhos de felicidade.
E o trem, enquanto assim eu cismo, aflito,
Entra, a bufar, com enervante apito,
Pela cidade adentro... Oh, a cidade!
Suas ruas. Vielas. Bairros proletários.
Rasgando o azul, ao longe, os campanários,
E as chaminés das fábricas e usinas.
Vivos letreiros, no alto, em letras largas.
Aqui — vagões; depósitos de cargas;
Pontes, guindastes, máquinas, cabinas...
Mas eu, no entanto, pensativo e mudo,
Passo por tudo, indiferente a tudo,
Bem longe tendo o espírito daqui;
E vejo apenas — que visão tranqüila! —
Tua longínqua e solitária vila,
Donde, chorando, esta manhã parti...
Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.
In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
1 419
2
Gonçalves de Magalhães
Ode à Despedida de Mr J B Debret
Pela Pátria, e por mim a voz desprendo
Ao som da lira que a saudade empunha;
Verdade, e gratidão guiam meu canto,
Não sórdida cobiça
Debret, digno Francês, Pintor preclaro,
Caro Amigo; Homem firme, sábio Mestre,
Eu te agradeço os bens, que tu fizeste
A mim, e à Pátria minha.
De um bom filho é dever ao pai ser útil;
Mas de homem o dever é ser a todos:
Assaz útil nos fôste, assaz nos deste
De homem, de amigo provas.
Saudosa a tua Pátria ora te chama,
E para receber-te estende os braços;
Chama-te a Pátria, não hesites, cumpre
Os deveres de filho.
Deixa embora o Brasil, que tanto prezas;
Não mais encares suas belas cenas;
Sei que ele é sedutor, que tem encantos
Que os alvedrios prendem.
Sei quanto no meu peito a Pátria impera,
Que mais o meu amor subir não pode;
Como pois poderei aconselhar-te
Que a tua Pátria deixes?
Ah não! não se dirá, que um Brasileiro
A tanto se atreveu; embora, embora
Não honre o teu pincel a nossa história,
Nem as nossas paisagens.
Tu conheces meu peito, assaz tu sabes
Que honra, e virtude assim n'alma me gritam.
Indócil coração eu não possuo,
Indiferente a tudo.
Morno pesar me enluta, e me profliga
Agora que o Brasil, e a mim tu deixas.
Ah não condenes que entrecorte o canto
Com ais, e com suspiros.
Em nossos corações agradecidos
Tu soubeste, oh Debret, gravar teu nome,
E neles viverás, enquanto as Artes
Amadores tiverem.
(...)
Sim, oh Debret, será teu nome eterno;
E quando outro penhor tu nos não desses,
Um Araújo só bastante fôra
Para honra tua, e nossa.
(...)
Mas outros deixas monumentos vivos;
Existem os Carvalhos, e os Arrudas,
Que a muda Natureza em breves quadros
Mimosos representam.
Oxalá que eu também sem desonrar-te
Que teu discíp'lo fui dizer pudesse;
Mas ao menos direi, sou teu amigo,
E basta-me tal glória.
Se este fraco tributo de amizade
For aos olhos do Mundo apresentado,
Conheça o quanto a gratidão domina
No peito Brasileiro.
Imagem - 00410006
Publicado no livro Poesias (1832).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
Ao som da lira que a saudade empunha;
Verdade, e gratidão guiam meu canto,
Não sórdida cobiça
Debret, digno Francês, Pintor preclaro,
Caro Amigo; Homem firme, sábio Mestre,
Eu te agradeço os bens, que tu fizeste
A mim, e à Pátria minha.
De um bom filho é dever ao pai ser útil;
Mas de homem o dever é ser a todos:
Assaz útil nos fôste, assaz nos deste
De homem, de amigo provas.
Saudosa a tua Pátria ora te chama,
E para receber-te estende os braços;
Chama-te a Pátria, não hesites, cumpre
Os deveres de filho.
Deixa embora o Brasil, que tanto prezas;
Não mais encares suas belas cenas;
Sei que ele é sedutor, que tem encantos
Que os alvedrios prendem.
Sei quanto no meu peito a Pátria impera,
Que mais o meu amor subir não pode;
Como pois poderei aconselhar-te
Que a tua Pátria deixes?
Ah não! não se dirá, que um Brasileiro
A tanto se atreveu; embora, embora
Não honre o teu pincel a nossa história,
Nem as nossas paisagens.
Tu conheces meu peito, assaz tu sabes
Que honra, e virtude assim n'alma me gritam.
Indócil coração eu não possuo,
Indiferente a tudo.
Morno pesar me enluta, e me profliga
Agora que o Brasil, e a mim tu deixas.
Ah não condenes que entrecorte o canto
Com ais, e com suspiros.
Em nossos corações agradecidos
Tu soubeste, oh Debret, gravar teu nome,
E neles viverás, enquanto as Artes
Amadores tiverem.
(...)
Sim, oh Debret, será teu nome eterno;
E quando outro penhor tu nos não desses,
Um Araújo só bastante fôra
Para honra tua, e nossa.
(...)
Mas outros deixas monumentos vivos;
Existem os Carvalhos, e os Arrudas,
Que a muda Natureza em breves quadros
Mimosos representam.
Oxalá que eu também sem desonrar-te
Que teu discíp'lo fui dizer pudesse;
Mas ao menos direi, sou teu amigo,
E basta-me tal glória.
Se este fraco tributo de amizade
For aos olhos do Mundo apresentado,
Conheça o quanto a gratidão domina
No peito Brasileiro.
Imagem - 00410006
Publicado no livro Poesias (1832).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
5 954
2
Gonçalves de Magalhães
Ode à Despedida de Mr J B Debret
Pela Pátria, e por mim a voz desprendo
Ao som da lira que a saudade empunha;
Verdade, e gratidão guiam meu canto,
Não sórdida cobiça
Debret, digno Francês, Pintor preclaro,
Caro Amigo; Homem firme, sábio Mestre,
Eu te agradeço os bens, que tu fizeste
A mim, e à Pátria minha.
De um bom filho é dever ao pai ser útil;
Mas de homem o dever é ser a todos:
Assaz útil nos fôste, assaz nos deste
De homem, de amigo provas.
Saudosa a tua Pátria ora te chama,
E para receber-te estende os braços;
Chama-te a Pátria, não hesites, cumpre
Os deveres de filho.
Deixa embora o Brasil, que tanto prezas;
Não mais encares suas belas cenas;
Sei que ele é sedutor, que tem encantos
Que os alvedrios prendem.
Sei quanto no meu peito a Pátria impera,
Que mais o meu amor subir não pode;
Como pois poderei aconselhar-te
Que a tua Pátria deixes?
Ah não! não se dirá, que um Brasileiro
A tanto se atreveu; embora, embora
Não honre o teu pincel a nossa história,
Nem as nossas paisagens.
Tu conheces meu peito, assaz tu sabes
Que honra, e virtude assim n'alma me gritam.
Indócil coração eu não possuo,
Indiferente a tudo.
Morno pesar me enluta, e me profliga
Agora que o Brasil, e a mim tu deixas.
Ah não condenes que entrecorte o canto
Com ais, e com suspiros.
Em nossos corações agradecidos
Tu soubeste, oh Debret, gravar teu nome,
E neles viverás, enquanto as Artes
Amadores tiverem.
(...)
Sim, oh Debret, será teu nome eterno;
E quando outro penhor tu nos não desses,
Um Araújo só bastante fôra
Para honra tua, e nossa.
(...)
Mas outros deixas monumentos vivos;
Existem os Carvalhos, e os Arrudas,
Que a muda Natureza em breves quadros
Mimosos representam.
Oxalá que eu também sem desonrar-te
Que teu discíp'lo fui dizer pudesse;
Mas ao menos direi, sou teu amigo,
E basta-me tal glória.
Se este fraco tributo de amizade
For aos olhos do Mundo apresentado,
Conheça o quanto a gratidão domina
No peito Brasileiro.
Imagem - 00410006
Publicado no livro Poesias (1832).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
Ao som da lira que a saudade empunha;
Verdade, e gratidão guiam meu canto,
Não sórdida cobiça
Debret, digno Francês, Pintor preclaro,
Caro Amigo; Homem firme, sábio Mestre,
Eu te agradeço os bens, que tu fizeste
A mim, e à Pátria minha.
De um bom filho é dever ao pai ser útil;
Mas de homem o dever é ser a todos:
Assaz útil nos fôste, assaz nos deste
De homem, de amigo provas.
Saudosa a tua Pátria ora te chama,
E para receber-te estende os braços;
Chama-te a Pátria, não hesites, cumpre
Os deveres de filho.
Deixa embora o Brasil, que tanto prezas;
Não mais encares suas belas cenas;
Sei que ele é sedutor, que tem encantos
Que os alvedrios prendem.
Sei quanto no meu peito a Pátria impera,
Que mais o meu amor subir não pode;
Como pois poderei aconselhar-te
Que a tua Pátria deixes?
Ah não! não se dirá, que um Brasileiro
A tanto se atreveu; embora, embora
Não honre o teu pincel a nossa história,
Nem as nossas paisagens.
Tu conheces meu peito, assaz tu sabes
Que honra, e virtude assim n'alma me gritam.
Indócil coração eu não possuo,
Indiferente a tudo.
Morno pesar me enluta, e me profliga
Agora que o Brasil, e a mim tu deixas.
Ah não condenes que entrecorte o canto
Com ais, e com suspiros.
Em nossos corações agradecidos
Tu soubeste, oh Debret, gravar teu nome,
E neles viverás, enquanto as Artes
Amadores tiverem.
(...)
Sim, oh Debret, será teu nome eterno;
E quando outro penhor tu nos não desses,
Um Araújo só bastante fôra
Para honra tua, e nossa.
(...)
Mas outros deixas monumentos vivos;
Existem os Carvalhos, e os Arrudas,
Que a muda Natureza em breves quadros
Mimosos representam.
Oxalá que eu também sem desonrar-te
Que teu discíp'lo fui dizer pudesse;
Mas ao menos direi, sou teu amigo,
E basta-me tal glória.
Se este fraco tributo de amizade
For aos olhos do Mundo apresentado,
Conheça o quanto a gratidão domina
No peito Brasileiro.
Imagem - 00410006
Publicado no livro Poesias (1832).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
5 954
2
Gonçalves Dias
II
E a visão levou-me insensivelmente dos homens da
natureza aos que chamamos civilizados.
Uma infinidade de navios aportavam a todos os
pontos do vasto Império, como se dos fundos mares
surgissem os gigantes monstros, que aí dormem séculos
sem fim nas grutas imensas de coral tapetadas de sargaço.
(...)
Não eram homens crentes, que por amor da religião
viessem propô-la aos idólatras, nem argonautas
sedentos de glória em busca de renome.
Eram homens sordidamente cobiçosos, que procuravam
um pouco de ouro, pregando a religião de
Cristo com armas ensangüentadas.
Eram homens que se cobriam com o verniz da glória,
destroçando uma multidão inerme e bárbara,
opondo a bala à frecha — e a espada ao tacape sem
gume.
Eram homens que pregavam a igualdade tratando
os indígenas como escravos — envilecendo-os com a
escravidão, e açoitando-os com varas de ferro.
E o país tornou-se a sentina impura de um povo
pigmeu, que para ali reservava os seus proscritos,
os seus malfeitores, os seus forçados e as fezes de sua
população.
Então começou a luta sanguinolenta dos homens
dominadores contra os homens que não queriam ser
dominados — dos fortes contra os fracos — dos cultos
contra os bárbaros.
(...)
E a Europa inteligente aplaudiu a nação marítima
e guerreira, que ao través do oceano fundava um novo
Império em mundo novo, viciando-lhe o princípio com
o cancro da escravatura e transmitindo-lhe o amor do
ouro sem o amor do trabalho.
(...)
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.55-56, p.5
natureza aos que chamamos civilizados.
Uma infinidade de navios aportavam a todos os
pontos do vasto Império, como se dos fundos mares
surgissem os gigantes monstros, que aí dormem séculos
sem fim nas grutas imensas de coral tapetadas de sargaço.
(...)
Não eram homens crentes, que por amor da religião
viessem propô-la aos idólatras, nem argonautas
sedentos de glória em busca de renome.
Eram homens sordidamente cobiçosos, que procuravam
um pouco de ouro, pregando a religião de
Cristo com armas ensangüentadas.
Eram homens que se cobriam com o verniz da glória,
destroçando uma multidão inerme e bárbara,
opondo a bala à frecha — e a espada ao tacape sem
gume.
Eram homens que pregavam a igualdade tratando
os indígenas como escravos — envilecendo-os com a
escravidão, e açoitando-os com varas de ferro.
E o país tornou-se a sentina impura de um povo
pigmeu, que para ali reservava os seus proscritos,
os seus malfeitores, os seus forçados e as fezes de sua
população.
Então começou a luta sanguinolenta dos homens
dominadores contra os homens que não queriam ser
dominados — dos fortes contra os fracos — dos cultos
contra os bárbaros.
(...)
E a Europa inteligente aplaudiu a nação marítima
e guerreira, que ao través do oceano fundava um novo
Império em mundo novo, viciando-lhe o princípio com
o cancro da escravatura e transmitindo-lhe o amor do
ouro sem o amor do trabalho.
(...)
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.55-56, p.5
4 439
2
Gonçalves Dias
II
E a visão levou-me insensivelmente dos homens da
natureza aos que chamamos civilizados.
Uma infinidade de navios aportavam a todos os
pontos do vasto Império, como se dos fundos mares
surgissem os gigantes monstros, que aí dormem séculos
sem fim nas grutas imensas de coral tapetadas de sargaço.
(...)
Não eram homens crentes, que por amor da religião
viessem propô-la aos idólatras, nem argonautas
sedentos de glória em busca de renome.
Eram homens sordidamente cobiçosos, que procuravam
um pouco de ouro, pregando a religião de
Cristo com armas ensangüentadas.
Eram homens que se cobriam com o verniz da glória,
destroçando uma multidão inerme e bárbara,
opondo a bala à frecha — e a espada ao tacape sem
gume.
Eram homens que pregavam a igualdade tratando
os indígenas como escravos — envilecendo-os com a
escravidão, e açoitando-os com varas de ferro.
E o país tornou-se a sentina impura de um povo
pigmeu, que para ali reservava os seus proscritos,
os seus malfeitores, os seus forçados e as fezes de sua
população.
Então começou a luta sanguinolenta dos homens
dominadores contra os homens que não queriam ser
dominados — dos fortes contra os fracos — dos cultos
contra os bárbaros.
(...)
E a Europa inteligente aplaudiu a nação marítima
e guerreira, que ao través do oceano fundava um novo
Império em mundo novo, viciando-lhe o princípio com
o cancro da escravatura e transmitindo-lhe o amor do
ouro sem o amor do trabalho.
(...)
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.55-56, p.5
natureza aos que chamamos civilizados.
Uma infinidade de navios aportavam a todos os
pontos do vasto Império, como se dos fundos mares
surgissem os gigantes monstros, que aí dormem séculos
sem fim nas grutas imensas de coral tapetadas de sargaço.
(...)
Não eram homens crentes, que por amor da religião
viessem propô-la aos idólatras, nem argonautas
sedentos de glória em busca de renome.
Eram homens sordidamente cobiçosos, que procuravam
um pouco de ouro, pregando a religião de
Cristo com armas ensangüentadas.
Eram homens que se cobriam com o verniz da glória,
destroçando uma multidão inerme e bárbara,
opondo a bala à frecha — e a espada ao tacape sem
gume.
Eram homens que pregavam a igualdade tratando
os indígenas como escravos — envilecendo-os com a
escravidão, e açoitando-os com varas de ferro.
E o país tornou-se a sentina impura de um povo
pigmeu, que para ali reservava os seus proscritos,
os seus malfeitores, os seus forçados e as fezes de sua
população.
Então começou a luta sanguinolenta dos homens
dominadores contra os homens que não queriam ser
dominados — dos fortes contra os fracos — dos cultos
contra os bárbaros.
(...)
E a Europa inteligente aplaudiu a nação marítima
e guerreira, que ao través do oceano fundava um novo
Império em mundo novo, viciando-lhe o princípio com
o cancro da escravatura e transmitindo-lhe o amor do
ouro sem o amor do trabalho.
(...)
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.55-56, p.5
4 439
2
Gonçalves Dias
II
E a visão levou-me insensivelmente dos homens da
natureza aos que chamamos civilizados.
Uma infinidade de navios aportavam a todos os
pontos do vasto Império, como se dos fundos mares
surgissem os gigantes monstros, que aí dormem séculos
sem fim nas grutas imensas de coral tapetadas de sargaço.
(...)
Não eram homens crentes, que por amor da religião
viessem propô-la aos idólatras, nem argonautas
sedentos de glória em busca de renome.
Eram homens sordidamente cobiçosos, que procuravam
um pouco de ouro, pregando a religião de
Cristo com armas ensangüentadas.
Eram homens que se cobriam com o verniz da glória,
destroçando uma multidão inerme e bárbara,
opondo a bala à frecha — e a espada ao tacape sem
gume.
Eram homens que pregavam a igualdade tratando
os indígenas como escravos — envilecendo-os com a
escravidão, e açoitando-os com varas de ferro.
E o país tornou-se a sentina impura de um povo
pigmeu, que para ali reservava os seus proscritos,
os seus malfeitores, os seus forçados e as fezes de sua
população.
Então começou a luta sanguinolenta dos homens
dominadores contra os homens que não queriam ser
dominados — dos fortes contra os fracos — dos cultos
contra os bárbaros.
(...)
E a Europa inteligente aplaudiu a nação marítima
e guerreira, que ao través do oceano fundava um novo
Império em mundo novo, viciando-lhe o princípio com
o cancro da escravatura e transmitindo-lhe o amor do
ouro sem o amor do trabalho.
(...)
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.55-56, p.5
natureza aos que chamamos civilizados.
Uma infinidade de navios aportavam a todos os
pontos do vasto Império, como se dos fundos mares
surgissem os gigantes monstros, que aí dormem séculos
sem fim nas grutas imensas de coral tapetadas de sargaço.
(...)
Não eram homens crentes, que por amor da religião
viessem propô-la aos idólatras, nem argonautas
sedentos de glória em busca de renome.
Eram homens sordidamente cobiçosos, que procuravam
um pouco de ouro, pregando a religião de
Cristo com armas ensangüentadas.
Eram homens que se cobriam com o verniz da glória,
destroçando uma multidão inerme e bárbara,
opondo a bala à frecha — e a espada ao tacape sem
gume.
Eram homens que pregavam a igualdade tratando
os indígenas como escravos — envilecendo-os com a
escravidão, e açoitando-os com varas de ferro.
E o país tornou-se a sentina impura de um povo
pigmeu, que para ali reservava os seus proscritos,
os seus malfeitores, os seus forçados e as fezes de sua
população.
Então começou a luta sanguinolenta dos homens
dominadores contra os homens que não queriam ser
dominados — dos fortes contra os fracos — dos cultos
contra os bárbaros.
(...)
E a Europa inteligente aplaudiu a nação marítima
e guerreira, que ao través do oceano fundava um novo
Império em mundo novo, viciando-lhe o princípio com
o cancro da escravatura e transmitindo-lhe o amor do
ouro sem o amor do trabalho.
(...)
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.55-56, p.5
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Gonçalves Dias
II
E a visão levou-me insensivelmente dos homens da
natureza aos que chamamos civilizados.
Uma infinidade de navios aportavam a todos os
pontos do vasto Império, como se dos fundos mares
surgissem os gigantes monstros, que aí dormem séculos
sem fim nas grutas imensas de coral tapetadas de sargaço.
(...)
Não eram homens crentes, que por amor da religião
viessem propô-la aos idólatras, nem argonautas
sedentos de glória em busca de renome.
Eram homens sordidamente cobiçosos, que procuravam
um pouco de ouro, pregando a religião de
Cristo com armas ensangüentadas.
Eram homens que se cobriam com o verniz da glória,
destroçando uma multidão inerme e bárbara,
opondo a bala à frecha — e a espada ao tacape sem
gume.
Eram homens que pregavam a igualdade tratando
os indígenas como escravos — envilecendo-os com a
escravidão, e açoitando-os com varas de ferro.
E o país tornou-se a sentina impura de um povo
pigmeu, que para ali reservava os seus proscritos,
os seus malfeitores, os seus forçados e as fezes de sua
população.
Então começou a luta sanguinolenta dos homens
dominadores contra os homens que não queriam ser
dominados — dos fortes contra os fracos — dos cultos
contra os bárbaros.
(...)
E a Europa inteligente aplaudiu a nação marítima
e guerreira, que ao través do oceano fundava um novo
Império em mundo novo, viciando-lhe o princípio com
o cancro da escravatura e transmitindo-lhe o amor do
ouro sem o amor do trabalho.
(...)
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.55-56, p.5
natureza aos que chamamos civilizados.
Uma infinidade de navios aportavam a todos os
pontos do vasto Império, como se dos fundos mares
surgissem os gigantes monstros, que aí dormem séculos
sem fim nas grutas imensas de coral tapetadas de sargaço.
(...)
Não eram homens crentes, que por amor da religião
viessem propô-la aos idólatras, nem argonautas
sedentos de glória em busca de renome.
Eram homens sordidamente cobiçosos, que procuravam
um pouco de ouro, pregando a religião de
Cristo com armas ensangüentadas.
Eram homens que se cobriam com o verniz da glória,
destroçando uma multidão inerme e bárbara,
opondo a bala à frecha — e a espada ao tacape sem
gume.
Eram homens que pregavam a igualdade tratando
os indígenas como escravos — envilecendo-os com a
escravidão, e açoitando-os com varas de ferro.
E o país tornou-se a sentina impura de um povo
pigmeu, que para ali reservava os seus proscritos,
os seus malfeitores, os seus forçados e as fezes de sua
população.
Então começou a luta sanguinolenta dos homens
dominadores contra os homens que não queriam ser
dominados — dos fortes contra os fracos — dos cultos
contra os bárbaros.
(...)
E a Europa inteligente aplaudiu a nação marítima
e guerreira, que ao través do oceano fundava um novo
Império em mundo novo, viciando-lhe o princípio com
o cancro da escravatura e transmitindo-lhe o amor do
ouro sem o amor do trabalho.
(...)
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.55-56, p.5
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2
Luís Gama
A um Fabricante de Pírulas
Exulta, ó Paulicéia, a fronte eleva
Sorri da Grécia e de Esculápio estulto,
Afronta o velho mundo, ousada rompe,
Nas aras da memória ergue o teu vulto.
Cidade eterna de prodígios altos,
Que o gênio domas de Misray potente,
Encrava em bronze com douradas letras
Teu nome excelso de poder ingente.
O Cairo, a Grécia, a Babilônia antiga,
A culta França e a Bretanha ousada,
Ouvindo a fama que o teu nome alteia,
Vacilam, tombam do letargo ao nada!
Os vultos da ciência purgatória
Osiris e Quiron, o louro Apolo,
Vencidos de terror medrosos tremem,
E as frontes curvam no gretado solo!
Quem há que possa competir contigo,
Viçoso berço de varões preclaros?
Nem Podaliros de saber profundo,
Ou d'áurea Praxítea os filhos caros!
Se alguém tentar sobrepujar teu nome,
De inveja prenhe e de letal veneno,
Soberba aponta para o vulto hercúleo
Do Pirulista de assombroso aceno.
Herói fulgente, qual não viu Atenas
Em almos dias que a ciência esmaltam;
Professor magnus de purgantes acres —
Em piruletas que curando matam!
Impando afirma — que com bravas ervas
Sarou morféia, e tudo mais que diz,
Tornou formosos carcomidos corpos,
Com pele e carne e magistral nariz.
Famintos cura de dinheiro a falta,
Cabeças ocas de juízo ausência,
Barriga dura, catarral defluxo,
A hidropisia e perenal demência!
E para assombro, do teu nome, amostra,
Em um — Correio Paulistano — antigo,
O selo, a prova desta grã-verdade,
Depois o prega em bestelhal postigo.
Caducas velhas de viver cansadas,
Que têm na cama clarabóia imensa,
Tomando as dores do doutor chanfarra
Concebem, parem, sem temer doença!
Eis troam, rugem na rotunda pança
Trovões soturnos, sibilantes ventos,
Farpados raios coruscantes ardem
Na cava estreita, em barrigais tormentos!
Tomou aquela, por debique ou luxo,
Das tais pírulas seis macitos — só!
Da pança em fora descretou bramindo
Maçada horrenda, ventania e pó!
E de improviso, por mistério oculto,
Ou providência do remédio santo,
Sentiu crescer-lhe a barrigaça a velha —
Um filho teve por fatal encanto!
Lá mais dois casos de eternal memória
Um velho rengo, uma viúva anosa;
Purgado, aquele se transforma em jovem,
A velha em moça virginal, formosa!
(...)
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.55-57. (Últimas gerações, 4
Sorri da Grécia e de Esculápio estulto,
Afronta o velho mundo, ousada rompe,
Nas aras da memória ergue o teu vulto.
Cidade eterna de prodígios altos,
Que o gênio domas de Misray potente,
Encrava em bronze com douradas letras
Teu nome excelso de poder ingente.
O Cairo, a Grécia, a Babilônia antiga,
A culta França e a Bretanha ousada,
Ouvindo a fama que o teu nome alteia,
Vacilam, tombam do letargo ao nada!
Os vultos da ciência purgatória
Osiris e Quiron, o louro Apolo,
Vencidos de terror medrosos tremem,
E as frontes curvam no gretado solo!
Quem há que possa competir contigo,
Viçoso berço de varões preclaros?
Nem Podaliros de saber profundo,
Ou d'áurea Praxítea os filhos caros!
Se alguém tentar sobrepujar teu nome,
De inveja prenhe e de letal veneno,
Soberba aponta para o vulto hercúleo
Do Pirulista de assombroso aceno.
Herói fulgente, qual não viu Atenas
Em almos dias que a ciência esmaltam;
Professor magnus de purgantes acres —
Em piruletas que curando matam!
Impando afirma — que com bravas ervas
Sarou morféia, e tudo mais que diz,
Tornou formosos carcomidos corpos,
Com pele e carne e magistral nariz.
Famintos cura de dinheiro a falta,
Cabeças ocas de juízo ausência,
Barriga dura, catarral defluxo,
A hidropisia e perenal demência!
E para assombro, do teu nome, amostra,
Em um — Correio Paulistano — antigo,
O selo, a prova desta grã-verdade,
Depois o prega em bestelhal postigo.
Caducas velhas de viver cansadas,
Que têm na cama clarabóia imensa,
Tomando as dores do doutor chanfarra
Concebem, parem, sem temer doença!
Eis troam, rugem na rotunda pança
Trovões soturnos, sibilantes ventos,
Farpados raios coruscantes ardem
Na cava estreita, em barrigais tormentos!
Tomou aquela, por debique ou luxo,
Das tais pírulas seis macitos — só!
Da pança em fora descretou bramindo
Maçada horrenda, ventania e pó!
E de improviso, por mistério oculto,
Ou providência do remédio santo,
Sentiu crescer-lhe a barrigaça a velha —
Um filho teve por fatal encanto!
Lá mais dois casos de eternal memória
Um velho rengo, uma viúva anosa;
Purgado, aquele se transforma em jovem,
A velha em moça virginal, formosa!
(...)
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.55-57. (Últimas gerações, 4
1 950
2