Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Edmir Domingues
Memória de amor
Um grande amor resiste aos sofrimentos
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
707
Edmir Domingues
Memória de amor
Um grande amor resiste aos sofrimentos
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
707
Edmir Domingues
Canções em terra estranha
Junto dos rios nossos pés fendidos,
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.
- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.
E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.
Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.
Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.
Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.
- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
748
Edmir Domingues
Cantiga, voltando-se.
Sendo os ventos alísios retomados
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.
Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.
No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.
Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.
Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.
Eis que estaremos mortos sem remédio.
E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.
Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.
Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.
No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.
Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.
Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.
Eis que estaremos mortos sem remédio.
E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.
Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
698
Edmir Domingues
Cantiga, voltando-se.
Sendo os ventos alísios retomados
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.
Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.
No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.
Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.
Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.
Eis que estaremos mortos sem remédio.
E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.
Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.
Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.
No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.
Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.
Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.
Eis que estaremos mortos sem remédio.
E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.
Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
698
Edmir Domingues
Corcel de espuma
Tordilhos, alazãos, cavalos baios
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
776
Edmir Domingues
Corcel de espuma
Tordilhos, alazãos, cavalos baios
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
776
Edmir Domingues
Uma viagem de volta do país de Caruaru
Rolando pela auto-estrada
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.
Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.
Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.
Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.
Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.
Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.
Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.
Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
feita de solo-cimento,
eia, corre, corta o vento,
nossa máquina assanhada.
Ao lado um campo de verde
e verde cada vez mais,
sob os cabelos cinzentos
dos verdes canaviais.
Corre, corre o nosso carro,
já na demanda do mar,
provado o sabor de ir
provando esse do voltar,
eis que súbito fumaça
ao lado chama a atenção,
são índios ao pé do fogo,
entre agaves de pendão.
Percebemos o ataque
iminente, a já sofrer,
tomamos as nossas armas
prontos a nos defender,
as moças ensaiam gritos,
quase morrem de chorar,
enquanto os primeiros tiros
já se fazem escutar.
Não são índios de Águas Belas
foragidos do seu chão,
deixando as suas mazelas
longe do alcance da mão,
são índios de celulóide
(por certo ladrões de gado)
que perseguem nosso carro
cavalgando a nosso lado.
Os ventos que sopram forte,
alísios que vêm dos mares,
parece que não se espantam
com tão vistosos cocares.
Os índios correm na estrada
perseguindo o nosso carro
buscando roubar as nossas
boiadas de bois de barro.
Para roubar mantimento
pintaram-se de urucu,
que, certo, sabem, trazemos
do País do Caruaru,
queijo coalho, carne seca,
limões, açúcar mascavo,
tangerinas e laranjas
da terra, laranjas-cravo.
Mas não, os nossos tesouros,
ai, não roubam assim não,
fazemos fogo cerrado
trezentos rolam no chão,
o nosso carro galopa
como o mais puro alazão,
salvamos os bois de barro,
nossa carne do sertão.
Ai, nos tornamos poetas,
eles, todos, eu e tu,
quando pisamos as terras
do País do Caruaru,
as juntas de bois de barro
rompem guarda e vigilância,
e nos devolvem de súbito
ao clima da nossa infância.
740
Edmir Domingues
De anjos bons e anjos maus
De tanto ter ficado nestas praias
sem riso da obtenção que nunca veio,
aqui nos encontramos, semi-mortos,
sem tamborins que cantem nossos cantos
nem outros instrumentos que sorriam.
A ave esperança aos poucos foi perdendo
a pouca nitidez que lhe restava,
a flor de asfalto e pedra, liquefeita,
na própria liquidez desfaz-se em gritos.
Os cavalos do tempo, em seu galope,
com suas asas tocam nossas faces,
e os anjos de granito, em pé na sombra,
passeiam sobre tudo os olhos mortos.
Os anjos nada sabem. A inocência
que os reveste os dissolve e os aniquila,
no barroco das faces de granito
só se reflete o espelho do vazio.
Por isso os anjos maus tanto apetecem.
Se as suas faces, quase sempre ascéticas,
mostram que sabem tudo e quase chegam
ao misterioso amor da divindade.
Que os deuses amam sempre a consciência
ainda que de pecado e rebeldia.
Mas resta a praia mágica e infinita
se bem seja a magia a do silêncio
que o rosto nos fustiga qual se fosse
o chicote terrível do abandono,
e as sovertidas águas que nos molham
os pés, sem novas cartas nem roteiros,
quando se sabe o barco de chegada
que as sovertidas águas não tragaram.
O barco noite abra o velame negro
e iremos para sempre destas praias.
Por trás da sombra, e branca, a luz reside
como um sopro de vida e consistência,
e a luz que existe em nós, profunda e viva,
por essa luz mais viva nos reclama.
sem riso da obtenção que nunca veio,
aqui nos encontramos, semi-mortos,
sem tamborins que cantem nossos cantos
nem outros instrumentos que sorriam.
A ave esperança aos poucos foi perdendo
a pouca nitidez que lhe restava,
a flor de asfalto e pedra, liquefeita,
na própria liquidez desfaz-se em gritos.
Os cavalos do tempo, em seu galope,
com suas asas tocam nossas faces,
e os anjos de granito, em pé na sombra,
passeiam sobre tudo os olhos mortos.
Os anjos nada sabem. A inocência
que os reveste os dissolve e os aniquila,
no barroco das faces de granito
só se reflete o espelho do vazio.
Por isso os anjos maus tanto apetecem.
Se as suas faces, quase sempre ascéticas,
mostram que sabem tudo e quase chegam
ao misterioso amor da divindade.
Que os deuses amam sempre a consciência
ainda que de pecado e rebeldia.
Mas resta a praia mágica e infinita
se bem seja a magia a do silêncio
que o rosto nos fustiga qual se fosse
o chicote terrível do abandono,
e as sovertidas águas que nos molham
os pés, sem novas cartas nem roteiros,
quando se sabe o barco de chegada
que as sovertidas águas não tragaram.
O barco noite abra o velame negro
e iremos para sempre destas praias.
Por trás da sombra, e branca, a luz reside
como um sopro de vida e consistência,
e a luz que existe em nós, profunda e viva,
por essa luz mais viva nos reclama.
627
Edmir Domingues
A lenda do boi de ouro
Diz-que ali na Pontezinha,
junto ao rio Jaboatão,
onde os ventos marinheiros
agitam palmas suspensas,
há mais de trezentos anos
um enorme boi de ouro
passeia solene a sua
figura animineral.
0 verdevivo das folhas,
o verdenegro dos mangues,
têm inéditas cambiantes
(privilégio dos besouros)
quando essa forma barroca
do tempo dos holandeses
emerge das águas mortas
para as terras surpreendidas
Diz-que a menina pobrinha
de vê-lo perdeu a fala.
Eis que estava no seu reino
de infância, posta em sossego,
quando deu pela corrente
enrodilhada no campo.
Puxou a corrente de ouro
e eis que era o boi preso nela.
0 susto tornou-se a síncope
da sua seminudez.
O boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.
Há mais de trezentos anos
passeia o talvez seu tédio
de bicho sem companhia.
Mastiga o silêncio morto
com os seus dentes de ouro.
com sua cauda de ouro.
Se fora um bezerro, certo
teria um lugar há muito,
no mármore dos altares
dos templos dos potentados.
0 boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.
Quem sabe um Midas frustrado
sem pedra filosofal
que não sabe tornar de ouro
a negra lama dos mangues
e as cascas dos caranguejos,
que deve a imortalidade
ao fato de que se nutre
do sonho ingênuo das gentes
que certo lhe deu a vida.
0 boi de ouro passeia
nas terras da Pontezinha,
vivendo da espera longa
de que um dia o sol do trópico
já possa dourar sozinho
os anseios do seu povo.
E que, assim, morrer já possa
(por ser já desnecessário)
tornado no barro simples
que fertiliza as sementes.
junto ao rio Jaboatão,
onde os ventos marinheiros
agitam palmas suspensas,
há mais de trezentos anos
um enorme boi de ouro
passeia solene a sua
figura animineral.
0 verdevivo das folhas,
o verdenegro dos mangues,
têm inéditas cambiantes
(privilégio dos besouros)
quando essa forma barroca
do tempo dos holandeses
emerge das águas mortas
para as terras surpreendidas
Diz-que a menina pobrinha
de vê-lo perdeu a fala.
Eis que estava no seu reino
de infância, posta em sossego,
quando deu pela corrente
enrodilhada no campo.
Puxou a corrente de ouro
e eis que era o boi preso nela.
0 susto tornou-se a síncope
da sua seminudez.
O boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.
Há mais de trezentos anos
passeia o talvez seu tédio
de bicho sem companhia.
Mastiga o silêncio morto
com os seus dentes de ouro.
com sua cauda de ouro.
Se fora um bezerro, certo
teria um lugar há muito,
no mármore dos altares
dos templos dos potentados.
0 boi de ouro tão rico
e o povo ao lado tão pobre.
Quem sabe um Midas frustrado
sem pedra filosofal
que não sabe tornar de ouro
a negra lama dos mangues
e as cascas dos caranguejos,
que deve a imortalidade
ao fato de que se nutre
do sonho ingênuo das gentes
que certo lhe deu a vida.
0 boi de ouro passeia
nas terras da Pontezinha,
vivendo da espera longa
de que um dia o sol do trópico
já possa dourar sozinho
os anseios do seu povo.
E que, assim, morrer já possa
(por ser já desnecessário)
tornado no barro simples
que fertiliza as sementes.
533
Edmir Domingues
Chuva e lagunas nos telhados
Eis que súbito a chuva acontecida
fez-se de sopro novo e novo alento
e as invisíveis mãos que nos agitam
prepararam na sombra aquele barco.
A solitária nau, que em plena sombra
a nós será da prata e do vermelho
quando desponte a mansa madrugada
misto de orvalho e sangue, a madrugada.
Um círculo terrível nos envolve
de montanhas de assombro e raiva e medo,
onde em vez de alimento oculta força
semeia cogumelos e os aplica
contra a nossa obstinada resistência
sempre aplicada ao surto do inefável.
E o Deus da chuva e um pássaro de neve
de asas que se desfazem, mas rebentam
de novo, cada vez que se desfazem,
para um mundo talhado no granito
de face avessa aos sopros e aos milagres.
Mas há, no entanto, a vida, o imponderável,
e àqueles que não sabem nós diremos
que há plátanos crescendo nos telhados
e estranhas casuarinas junto deles,
águas negras no chão em que repousam
nos telhados são límpidas lagunas.
Ai, barco nas lagunas que essa chuva
semeia nos telhados desta noite,
seremos teus convivas assombrados
para a decifração do teu mistério,
negada a fronte ao mundo que nos prende
onde a rosa morreu sem que alguém visse,
e os lampiões sem luz jazem partidos
sem óleo nem alguém que o percebesse.
Por certo cairemos dos telhados
sobre esse escuro mundo que nos guarda
- mas a vida é melhor quando se a vive
pelo menos a um palmo dos telhados.
Pois contra a queda e os tristes cogumelos
nos resta apenas vele a providência
das invisíveis mãos que nos dirigem
no mistério do mundo impenetrável,
se mais que amor e risos e cavalos
os segredos do mundo nos fascinam.
Ai, os olhos da aurora em nossas faces
e o mar deitado à margem dos caminhos,
mas não, a chuva molha as nossas luzes
e a esperança que são se apaga e morre,
se os filhos de Caim, disseminados,
engendram outros filhos, de alumínio,
e todos intocados de lirismo
semeiam cogumelos nas esquinas.
No entanto a chuva é já uma esperança.
De que os homens, de súbito, aturdidos,
sintam-se bem, lavados de repente,
e sejam naturais como um sorriso.
fez-se de sopro novo e novo alento
e as invisíveis mãos que nos agitam
prepararam na sombra aquele barco.
A solitária nau, que em plena sombra
a nós será da prata e do vermelho
quando desponte a mansa madrugada
misto de orvalho e sangue, a madrugada.
Um círculo terrível nos envolve
de montanhas de assombro e raiva e medo,
onde em vez de alimento oculta força
semeia cogumelos e os aplica
contra a nossa obstinada resistência
sempre aplicada ao surto do inefável.
E o Deus da chuva e um pássaro de neve
de asas que se desfazem, mas rebentam
de novo, cada vez que se desfazem,
para um mundo talhado no granito
de face avessa aos sopros e aos milagres.
Mas há, no entanto, a vida, o imponderável,
e àqueles que não sabem nós diremos
que há plátanos crescendo nos telhados
e estranhas casuarinas junto deles,
águas negras no chão em que repousam
nos telhados são límpidas lagunas.
Ai, barco nas lagunas que essa chuva
semeia nos telhados desta noite,
seremos teus convivas assombrados
para a decifração do teu mistério,
negada a fronte ao mundo que nos prende
onde a rosa morreu sem que alguém visse,
e os lampiões sem luz jazem partidos
sem óleo nem alguém que o percebesse.
Por certo cairemos dos telhados
sobre esse escuro mundo que nos guarda
- mas a vida é melhor quando se a vive
pelo menos a um palmo dos telhados.
Pois contra a queda e os tristes cogumelos
nos resta apenas vele a providência
das invisíveis mãos que nos dirigem
no mistério do mundo impenetrável,
se mais que amor e risos e cavalos
os segredos do mundo nos fascinam.
Ai, os olhos da aurora em nossas faces
e o mar deitado à margem dos caminhos,
mas não, a chuva molha as nossas luzes
e a esperança que são se apaga e morre,
se os filhos de Caim, disseminados,
engendram outros filhos, de alumínio,
e todos intocados de lirismo
semeiam cogumelos nas esquinas.
No entanto a chuva é já uma esperança.
De que os homens, de súbito, aturdidos,
sintam-se bem, lavados de repente,
e sejam naturais como um sorriso.
735
Edmir Domingues
Chuva e lagunas nos telhados
Eis que súbito a chuva acontecida
fez-se de sopro novo e novo alento
e as invisíveis mãos que nos agitam
prepararam na sombra aquele barco.
A solitária nau, que em plena sombra
a nós será da prata e do vermelho
quando desponte a mansa madrugada
misto de orvalho e sangue, a madrugada.
Um círculo terrível nos envolve
de montanhas de assombro e raiva e medo,
onde em vez de alimento oculta força
semeia cogumelos e os aplica
contra a nossa obstinada resistência
sempre aplicada ao surto do inefável.
E o Deus da chuva e um pássaro de neve
de asas que se desfazem, mas rebentam
de novo, cada vez que se desfazem,
para um mundo talhado no granito
de face avessa aos sopros e aos milagres.
Mas há, no entanto, a vida, o imponderável,
e àqueles que não sabem nós diremos
que há plátanos crescendo nos telhados
e estranhas casuarinas junto deles,
águas negras no chão em que repousam
nos telhados são límpidas lagunas.
Ai, barco nas lagunas que essa chuva
semeia nos telhados desta noite,
seremos teus convivas assombrados
para a decifração do teu mistério,
negada a fronte ao mundo que nos prende
onde a rosa morreu sem que alguém visse,
e os lampiões sem luz jazem partidos
sem óleo nem alguém que o percebesse.
Por certo cairemos dos telhados
sobre esse escuro mundo que nos guarda
- mas a vida é melhor quando se a vive
pelo menos a um palmo dos telhados.
Pois contra a queda e os tristes cogumelos
nos resta apenas vele a providência
das invisíveis mãos que nos dirigem
no mistério do mundo impenetrável,
se mais que amor e risos e cavalos
os segredos do mundo nos fascinam.
Ai, os olhos da aurora em nossas faces
e o mar deitado à margem dos caminhos,
mas não, a chuva molha as nossas luzes
e a esperança que são se apaga e morre,
se os filhos de Caim, disseminados,
engendram outros filhos, de alumínio,
e todos intocados de lirismo
semeiam cogumelos nas esquinas.
No entanto a chuva é já uma esperança.
De que os homens, de súbito, aturdidos,
sintam-se bem, lavados de repente,
e sejam naturais como um sorriso.
fez-se de sopro novo e novo alento
e as invisíveis mãos que nos agitam
prepararam na sombra aquele barco.
A solitária nau, que em plena sombra
a nós será da prata e do vermelho
quando desponte a mansa madrugada
misto de orvalho e sangue, a madrugada.
Um círculo terrível nos envolve
de montanhas de assombro e raiva e medo,
onde em vez de alimento oculta força
semeia cogumelos e os aplica
contra a nossa obstinada resistência
sempre aplicada ao surto do inefável.
E o Deus da chuva e um pássaro de neve
de asas que se desfazem, mas rebentam
de novo, cada vez que se desfazem,
para um mundo talhado no granito
de face avessa aos sopros e aos milagres.
Mas há, no entanto, a vida, o imponderável,
e àqueles que não sabem nós diremos
que há plátanos crescendo nos telhados
e estranhas casuarinas junto deles,
águas negras no chão em que repousam
nos telhados são límpidas lagunas.
Ai, barco nas lagunas que essa chuva
semeia nos telhados desta noite,
seremos teus convivas assombrados
para a decifração do teu mistério,
negada a fronte ao mundo que nos prende
onde a rosa morreu sem que alguém visse,
e os lampiões sem luz jazem partidos
sem óleo nem alguém que o percebesse.
Por certo cairemos dos telhados
sobre esse escuro mundo que nos guarda
- mas a vida é melhor quando se a vive
pelo menos a um palmo dos telhados.
Pois contra a queda e os tristes cogumelos
nos resta apenas vele a providência
das invisíveis mãos que nos dirigem
no mistério do mundo impenetrável,
se mais que amor e risos e cavalos
os segredos do mundo nos fascinam.
Ai, os olhos da aurora em nossas faces
e o mar deitado à margem dos caminhos,
mas não, a chuva molha as nossas luzes
e a esperança que são se apaga e morre,
se os filhos de Caim, disseminados,
engendram outros filhos, de alumínio,
e todos intocados de lirismo
semeiam cogumelos nas esquinas.
No entanto a chuva é já uma esperança.
De que os homens, de súbito, aturdidos,
sintam-se bem, lavados de repente,
e sejam naturais como um sorriso.
735
Edmir Domingues
Galope das bruxas
Na noite mais negra do mês de novembro,
do fundo mais fundo da noite sem fim,
soprados por ventos de um hálito ruim
nasceram fantasmas, sem cor, bem me lembro.
As formas formando-se no ar, membro a membro,
de um branco ectoplasma, no chão sublunar,
morcegos-vampiros passando o voar,
que é isto, meu Deus dos desígnios supremos?
O horrível simpósio dos vultos blasfemos
brotando das sombras, à beira do mar.
Por certo é chegado o reinado de espantos
de há muito esperado, o advir de algum dia,
melhor, de uma Noite do Mal, bruxaria.
Cavalos de pó, cavalgados por santos,
dos santos quibandas de cujos quebrantos
um santo dos santos há-de me livrar
das mortes-vermelhas cumprindo o avatar,
de vozes chorando chorados lamentos
em viva diáspora em asas de ventos,
dos ventos que sopram na beira do mar.
Os sinos, dobrando o finados, se escutam,
na noite da festa, da festa vodu,
de obás e de eguns, dos demônios de Exu,
que montam coriscos e raios, que lutam,
provindos dos Ventos da Morte, labutam
no que é seu trabalho, o de o Mal espalhar.
- Relato estas coisas, que são de lembrar;
na voz do Galope compondo os relatos,
só para perpétua memória dos fatos
cantando o galope na beira do mar.
A Cobra, (essa cobra que tem os dois sexos),
também serpenteia, envolvida nos fumos,
em transe e estupor, sem roteiros nem rumos.
Duendes escuros permutam-se amplexos,
diante dos olhos, meus olhos perplexos,
com garras aduncas a me ameaçar.
Tal qual Missa Negra de Mundos de Azar
prossegue a Tragédia, ao grasnido dos corvos
das bruxas presentes, que bebem, aos sorvos,
os roncos nervosos das ondas do mar.
No entanto, desfaço os mistérios do absurdo,
sem cunhas de lenha, sem balas de prata,
e em breve inauguro uma paz de sonata
que, em manso lavor, silenciosamente urdo.
Desmancho esses ogros do imenso chafurdo
chamando a Senhora, a Quem cabe invocar.
Senhora de Tudo, de auréola estelar
da Boa Viagem, e dos Navegantes,
e da Piedade, (e dos oras, dos antes,)
também das Candeias da beira do mar.
E as horas da calma já vêm, vão chegando,
desfazem-se os monstros danados, por fim.
O ar se perfuma, o hálito ruim
soprado por fadas já vai-se evolando.
Às asas dos anjos, que chegam, em bando,
são suaves murmúrios, novo sussurrar.
Os sinos serenam, batendo a louvar
a Paz que conduz para a paz o meu músculo
de Fé, que se eleva ante o novo crepúsculo
da nova alvorada que nasce do Mar.
do fundo mais fundo da noite sem fim,
soprados por ventos de um hálito ruim
nasceram fantasmas, sem cor, bem me lembro.
As formas formando-se no ar, membro a membro,
de um branco ectoplasma, no chão sublunar,
morcegos-vampiros passando o voar,
que é isto, meu Deus dos desígnios supremos?
O horrível simpósio dos vultos blasfemos
brotando das sombras, à beira do mar.
Por certo é chegado o reinado de espantos
de há muito esperado, o advir de algum dia,
melhor, de uma Noite do Mal, bruxaria.
Cavalos de pó, cavalgados por santos,
dos santos quibandas de cujos quebrantos
um santo dos santos há-de me livrar
das mortes-vermelhas cumprindo o avatar,
de vozes chorando chorados lamentos
em viva diáspora em asas de ventos,
dos ventos que sopram na beira do mar.
Os sinos, dobrando o finados, se escutam,
na noite da festa, da festa vodu,
de obás e de eguns, dos demônios de Exu,
que montam coriscos e raios, que lutam,
provindos dos Ventos da Morte, labutam
no que é seu trabalho, o de o Mal espalhar.
- Relato estas coisas, que são de lembrar;
na voz do Galope compondo os relatos,
só para perpétua memória dos fatos
cantando o galope na beira do mar.
A Cobra, (essa cobra que tem os dois sexos),
também serpenteia, envolvida nos fumos,
em transe e estupor, sem roteiros nem rumos.
Duendes escuros permutam-se amplexos,
diante dos olhos, meus olhos perplexos,
com garras aduncas a me ameaçar.
Tal qual Missa Negra de Mundos de Azar
prossegue a Tragédia, ao grasnido dos corvos
das bruxas presentes, que bebem, aos sorvos,
os roncos nervosos das ondas do mar.
No entanto, desfaço os mistérios do absurdo,
sem cunhas de lenha, sem balas de prata,
e em breve inauguro uma paz de sonata
que, em manso lavor, silenciosamente urdo.
Desmancho esses ogros do imenso chafurdo
chamando a Senhora, a Quem cabe invocar.
Senhora de Tudo, de auréola estelar
da Boa Viagem, e dos Navegantes,
e da Piedade, (e dos oras, dos antes,)
também das Candeias da beira do mar.
E as horas da calma já vêm, vão chegando,
desfazem-se os monstros danados, por fim.
O ar se perfuma, o hálito ruim
soprado por fadas já vai-se evolando.
Às asas dos anjos, que chegam, em bando,
são suaves murmúrios, novo sussurrar.
Os sinos serenam, batendo a louvar
a Paz que conduz para a paz o meu músculo
de Fé, que se eleva ante o novo crepúsculo
da nova alvorada que nasce do Mar.
661
Edmir Domingues
Galope das bruxas
Na noite mais negra do mês de novembro,
do fundo mais fundo da noite sem fim,
soprados por ventos de um hálito ruim
nasceram fantasmas, sem cor, bem me lembro.
As formas formando-se no ar, membro a membro,
de um branco ectoplasma, no chão sublunar,
morcegos-vampiros passando o voar,
que é isto, meu Deus dos desígnios supremos?
O horrível simpósio dos vultos blasfemos
brotando das sombras, à beira do mar.
Por certo é chegado o reinado de espantos
de há muito esperado, o advir de algum dia,
melhor, de uma Noite do Mal, bruxaria.
Cavalos de pó, cavalgados por santos,
dos santos quibandas de cujos quebrantos
um santo dos santos há-de me livrar
das mortes-vermelhas cumprindo o avatar,
de vozes chorando chorados lamentos
em viva diáspora em asas de ventos,
dos ventos que sopram na beira do mar.
Os sinos, dobrando o finados, se escutam,
na noite da festa, da festa vodu,
de obás e de eguns, dos demônios de Exu,
que montam coriscos e raios, que lutam,
provindos dos Ventos da Morte, labutam
no que é seu trabalho, o de o Mal espalhar.
- Relato estas coisas, que são de lembrar;
na voz do Galope compondo os relatos,
só para perpétua memória dos fatos
cantando o galope na beira do mar.
A Cobra, (essa cobra que tem os dois sexos),
também serpenteia, envolvida nos fumos,
em transe e estupor, sem roteiros nem rumos.
Duendes escuros permutam-se amplexos,
diante dos olhos, meus olhos perplexos,
com garras aduncas a me ameaçar.
Tal qual Missa Negra de Mundos de Azar
prossegue a Tragédia, ao grasnido dos corvos
das bruxas presentes, que bebem, aos sorvos,
os roncos nervosos das ondas do mar.
No entanto, desfaço os mistérios do absurdo,
sem cunhas de lenha, sem balas de prata,
e em breve inauguro uma paz de sonata
que, em manso lavor, silenciosamente urdo.
Desmancho esses ogros do imenso chafurdo
chamando a Senhora, a Quem cabe invocar.
Senhora de Tudo, de auréola estelar
da Boa Viagem, e dos Navegantes,
e da Piedade, (e dos oras, dos antes,)
também das Candeias da beira do mar.
E as horas da calma já vêm, vão chegando,
desfazem-se os monstros danados, por fim.
O ar se perfuma, o hálito ruim
soprado por fadas já vai-se evolando.
Às asas dos anjos, que chegam, em bando,
são suaves murmúrios, novo sussurrar.
Os sinos serenam, batendo a louvar
a Paz que conduz para a paz o meu músculo
de Fé, que se eleva ante o novo crepúsculo
da nova alvorada que nasce do Mar.
do fundo mais fundo da noite sem fim,
soprados por ventos de um hálito ruim
nasceram fantasmas, sem cor, bem me lembro.
As formas formando-se no ar, membro a membro,
de um branco ectoplasma, no chão sublunar,
morcegos-vampiros passando o voar,
que é isto, meu Deus dos desígnios supremos?
O horrível simpósio dos vultos blasfemos
brotando das sombras, à beira do mar.
Por certo é chegado o reinado de espantos
de há muito esperado, o advir de algum dia,
melhor, de uma Noite do Mal, bruxaria.
Cavalos de pó, cavalgados por santos,
dos santos quibandas de cujos quebrantos
um santo dos santos há-de me livrar
das mortes-vermelhas cumprindo o avatar,
de vozes chorando chorados lamentos
em viva diáspora em asas de ventos,
dos ventos que sopram na beira do mar.
Os sinos, dobrando o finados, se escutam,
na noite da festa, da festa vodu,
de obás e de eguns, dos demônios de Exu,
que montam coriscos e raios, que lutam,
provindos dos Ventos da Morte, labutam
no que é seu trabalho, o de o Mal espalhar.
- Relato estas coisas, que são de lembrar;
na voz do Galope compondo os relatos,
só para perpétua memória dos fatos
cantando o galope na beira do mar.
A Cobra, (essa cobra que tem os dois sexos),
também serpenteia, envolvida nos fumos,
em transe e estupor, sem roteiros nem rumos.
Duendes escuros permutam-se amplexos,
diante dos olhos, meus olhos perplexos,
com garras aduncas a me ameaçar.
Tal qual Missa Negra de Mundos de Azar
prossegue a Tragédia, ao grasnido dos corvos
das bruxas presentes, que bebem, aos sorvos,
os roncos nervosos das ondas do mar.
No entanto, desfaço os mistérios do absurdo,
sem cunhas de lenha, sem balas de prata,
e em breve inauguro uma paz de sonata
que, em manso lavor, silenciosamente urdo.
Desmancho esses ogros do imenso chafurdo
chamando a Senhora, a Quem cabe invocar.
Senhora de Tudo, de auréola estelar
da Boa Viagem, e dos Navegantes,
e da Piedade, (e dos oras, dos antes,)
também das Candeias da beira do mar.
E as horas da calma já vêm, vão chegando,
desfazem-se os monstros danados, por fim.
O ar se perfuma, o hálito ruim
soprado por fadas já vai-se evolando.
Às asas dos anjos, que chegam, em bando,
são suaves murmúrios, novo sussurrar.
Os sinos serenam, batendo a louvar
a Paz que conduz para a paz o meu músculo
de Fé, que se eleva ante o novo crepúsculo
da nova alvorada que nasce do Mar.
661
Ruy Belo
Tempora nubila
Chove há muito no mundo sobre o homem
Empurram-no as ondas como horas para a praia da manhã
lá onde a ponta mais ocidental dos dedos já percorre
as mais agrestes árvores do sonho
O homem nada sabe sem queimar os pés no fogo
As luzes brilham cedo certos anos o Natal não vem
e é opinião comum de todos os doutores
que a culpa pode ser secreta e primitiva
pois a ninguém cabe servir a dois
muito menos a mais e mesmo muito mais que dois senhores
Morremos todos da maneira mais mortal possível
mas todas as crianças se conhecem e reconhecem
na praia que talvez – quem sabe? – alguma outra praia encubra
Essa é na verdade a mais pequena de todas as sementes
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha,
ó tecelão de outonos nos cabelos
Em teus intensos braços onde em certos dias
o puro cheiro do lilás ascende
e os toldados lírios outra vez almejam
e abrem no bosque sempre outras estradas
e rompem as raízes das mais brancas flores,
nesses teus braços desmedidamente abertos
na mesa onde se cruza a vária luz das horas
e sõ tão económicas as nossas ambições
que não vão muito além das mil evoluções das moscas,
nesses braços os únicos capazes
de nos fazer sair da nossa pobre situação
deponho finalmente o que o que dos dias me viera
Ó homem verdadeiramente unânime, ó incapaz de astúcia,
perdoa eu não ser mais do que um homem
e cruzo o guarda-chuva atrás das costas
Pela variedade de todas estas faces obrigado
Por ti há tantos séculos morremos
és para perseguir sem encontrar
para exaltar onde caíste mais
Às flores imóveis vou no vento irrequieto
e regresso a um rosto onde nunca estou
mas passou entretanto tanto tempo
que quando à minha mesa volto não sou já quem dela se ausentou
Deixa-me cultivar o dia apenas o meu dia
doméstico modesto ameaçado ajardinado
e só depois então depois morrer
com toda a atenção que o gosto principal requer
Havia árvores talvez ciprestes nos teus sonhos
prometeste-me o rio solidão submersa
a quem – se me não queres – irei?
Eu peço o teu passado para a minha história
e ergo contra ti todo o meu rosto
o verde é meu mas é teu o vermelho
e escondes-te no côncavo da pedra
Mas o mais doloroso é ser eu eu próprio
e tudo me ocorrer precisamente a mim
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai
todo eu fui calcado como o feno
e esqueci-me mesmo de comer o pão
Decerto é impossível o antigo adro e mesmo o mais recente cedro
e a alma é como as águas vastamente entregues a si próprias
que inocentes se agitam que crescem e que matam
e alheias a si mesmas tudo cobrem
e multiplicam lisas mãos na já serena superfície
Ainda distingo vagamente os anos mas
a onda molha já os meus primeiros pés
Chegou o tempo de chorar Sião
non amplius memoretur nomen eius
São imensos os olhos que no mundo cansam
o vento restitui-me a ida para a escola
há uma grande morte só a Deus devida
E o sol o grande ausente dos meus dedos
Por vezes é inverno ou canta em nós
a esteira de perfume o cargo oficial a madrugada
aberta para o mundo. Noutro oásis (ou montanha)
levanta já a tenda o viandante
(não seriam de mais mesmo três tendas)
E o assunto é de morte é de morte que eu falo
Extremamente discretos são os mortos
que já nenhuma chuva ousa molhar
Que fácil para eles é ter vivido
Por exemplo morreu
mais um vizinho meu
casado e até feliz
um novo nome inútil na lista telefónica
E nada mais já pode acontecer
àquele a quem a morte veio
os vários e domésticos problemas resolver
Ele tinha
o caminho contado
como as crianças
Vestia camisola pisou terra mas morreu
sem conseguir nadar correctamente o crawl
sem tempo de dizer sequer a frase célebre
tão insignificante o viram ingressar na morte
Ah, eu não sei
a posição agora desse homem
que morreu mais aqui que noutro lado
sei apenas que nos olhos com que via nunca houve
imagem que os enchesse e os bebesse tanto como agora
Morreu e habita hoje entre o seu povo
Mas aonde se nunca mais é visto
contra este mesmo persistente céu que nos esmaga a fronte?
Ele morreu começo a acreditar na morte nessa morte
que tão perto de mim e tão mortal se deu
Também tu hás-de ser a secretária abandonada
mãos inertes tarefa interrompida
Então virão lá das origens visitar-te serão três serão três mil
Tu tens porém ainda de comprar a grande jóia
precisas ter na mão um pau (de giz)
precisas de servir as plantas pagar alguma quota
e seres – como passou? – muito feliz
É preciso consolar a actriz
é preciso morrer
oxalá não te vás esquecer
de tudo isto que tens que fazer
Licenciado conceituado benemérito
excelência reverência senhoria
pai de filhos ou marido e mulher
entre esta terra estes homens estas árvores
já despes vestes que envergaste um dia
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 115 a 118 | Círculo de Leitores, Dez 2000
Empurram-no as ondas como horas para a praia da manhã
lá onde a ponta mais ocidental dos dedos já percorre
as mais agrestes árvores do sonho
O homem nada sabe sem queimar os pés no fogo
As luzes brilham cedo certos anos o Natal não vem
e é opinião comum de todos os doutores
que a culpa pode ser secreta e primitiva
pois a ninguém cabe servir a dois
muito menos a mais e mesmo muito mais que dois senhores
Morremos todos da maneira mais mortal possível
mas todas as crianças se conhecem e reconhecem
na praia que talvez – quem sabe? – alguma outra praia encubra
Essa é na verdade a mais pequena de todas as sementes
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha,
ó tecelão de outonos nos cabelos
Em teus intensos braços onde em certos dias
o puro cheiro do lilás ascende
e os toldados lírios outra vez almejam
e abrem no bosque sempre outras estradas
e rompem as raízes das mais brancas flores,
nesses teus braços desmedidamente abertos
na mesa onde se cruza a vária luz das horas
e sõ tão económicas as nossas ambições
que não vão muito além das mil evoluções das moscas,
nesses braços os únicos capazes
de nos fazer sair da nossa pobre situação
deponho finalmente o que o que dos dias me viera
Ó homem verdadeiramente unânime, ó incapaz de astúcia,
perdoa eu não ser mais do que um homem
e cruzo o guarda-chuva atrás das costas
Pela variedade de todas estas faces obrigado
Por ti há tantos séculos morremos
és para perseguir sem encontrar
para exaltar onde caíste mais
Às flores imóveis vou no vento irrequieto
e regresso a um rosto onde nunca estou
mas passou entretanto tanto tempo
que quando à minha mesa volto não sou já quem dela se ausentou
Deixa-me cultivar o dia apenas o meu dia
doméstico modesto ameaçado ajardinado
e só depois então depois morrer
com toda a atenção que o gosto principal requer
Havia árvores talvez ciprestes nos teus sonhos
prometeste-me o rio solidão submersa
a quem – se me não queres – irei?
Eu peço o teu passado para a minha história
e ergo contra ti todo o meu rosto
o verde é meu mas é teu o vermelho
e escondes-te no côncavo da pedra
Mas o mais doloroso é ser eu eu próprio
e tudo me ocorrer precisamente a mim
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai
todo eu fui calcado como o feno
e esqueci-me mesmo de comer o pão
Decerto é impossível o antigo adro e mesmo o mais recente cedro
e a alma é como as águas vastamente entregues a si próprias
que inocentes se agitam que crescem e que matam
e alheias a si mesmas tudo cobrem
e multiplicam lisas mãos na já serena superfície
Ainda distingo vagamente os anos mas
a onda molha já os meus primeiros pés
Chegou o tempo de chorar Sião
non amplius memoretur nomen eius
São imensos os olhos que no mundo cansam
o vento restitui-me a ida para a escola
há uma grande morte só a Deus devida
E o sol o grande ausente dos meus dedos
Por vezes é inverno ou canta em nós
a esteira de perfume o cargo oficial a madrugada
aberta para o mundo. Noutro oásis (ou montanha)
levanta já a tenda o viandante
(não seriam de mais mesmo três tendas)
E o assunto é de morte é de morte que eu falo
Extremamente discretos são os mortos
que já nenhuma chuva ousa molhar
Que fácil para eles é ter vivido
Por exemplo morreu
mais um vizinho meu
casado e até feliz
um novo nome inútil na lista telefónica
E nada mais já pode acontecer
àquele a quem a morte veio
os vários e domésticos problemas resolver
Ele tinha
o caminho contado
como as crianças
Vestia camisola pisou terra mas morreu
sem conseguir nadar correctamente o crawl
sem tempo de dizer sequer a frase célebre
tão insignificante o viram ingressar na morte
Ah, eu não sei
a posição agora desse homem
que morreu mais aqui que noutro lado
sei apenas que nos olhos com que via nunca houve
imagem que os enchesse e os bebesse tanto como agora
Morreu e habita hoje entre o seu povo
Mas aonde se nunca mais é visto
contra este mesmo persistente céu que nos esmaga a fronte?
Ele morreu começo a acreditar na morte nessa morte
que tão perto de mim e tão mortal se deu
Também tu hás-de ser a secretária abandonada
mãos inertes tarefa interrompida
Então virão lá das origens visitar-te serão três serão três mil
Tu tens porém ainda de comprar a grande jóia
precisas ter na mão um pau (de giz)
precisas de servir as plantas pagar alguma quota
e seres – como passou? – muito feliz
É preciso consolar a actriz
é preciso morrer
oxalá não te vás esquecer
de tudo isto que tens que fazer
Licenciado conceituado benemérito
excelência reverência senhoria
pai de filhos ou marido e mulher
entre esta terra estes homens estas árvores
já despes vestes que envergaste um dia
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 115 a 118 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 318
Edmir Domingues
Assim a vida
A suave luz do sol que cedo aporta
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
876
Edmir Domingues
Assim a vida
A suave luz do sol que cedo aporta
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
876
Edmir Domingues
Assim a vida
A suave luz do sol que cedo aporta
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
nos caminhos do mar, quando chegada,
dispersa sobre o tudo e sobre o nada
esse clarão que acorda a face morta.
A sombra destilada na retorta
do Mago mau, ao mal predestinada,
concebe a grande noite, que é culpada
dos demônios uivando à nossa porta.
Assim a vida. As vezes noite negra,
as vezes dia branco, que se integra
aos aromas da terra, ao cheiro do ar.
876
Edmir Domingues
Cidade Submersa
CIDADE SUBMERSA
Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.
Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?
Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam do seu passeio.
Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.
Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.
Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.
Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.
Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.
Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.
Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.
Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.
Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede
Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade
há tanto tempo famosa.
Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos
nos fios da rede elétrica.
Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.
E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.
Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.
Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.
Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.
Respiro profundamente
o ar frio da manhã fria,
e como um peixe me afogo
no ar que agora me sufoca,
e morro dessa asfixia
na mansa luz da manhã.
Recife, janeiro de 1958.
Acordo súbito, é tarde
e a surpresa me surpreende,
encheu-se-me de água o quarto
os livros bóiam no teto
grandes peixes taciturnos
espiam-me o sono imenso.
Desperto pondero os fatos
não sei por que não sei como
respiro não tendo guelras
no centro das águas mansas
e a vida se me parece
como antes naturalmente.
Mas o quarto submarino
nunca o vira nem soubera
e entanto as águas estavam
lá dentro literalmente.
Será que a guerra dos mundos
no meu sono começara?
ou que o degelo dos pólos
se fizera num momento?
Os russos e americanos
também contidos nas águas
será que enfim maldiriam
do tempo da guerra fria?
Fria mesmo era a água fria
que me estava enchendo o quarto.
Levanto-me e já percorro
a casa e a casa era toda
o aquário onde os bichos d'água
faziam do seu passeio.
Saio à rua e não há rua
que a cidade está submersa
e o longo painel das águas
se desenrola no tempo.
Ah que eu sempre suspeitara
que esta cidade tão plana
seria um dia contida
no dorso verde do mar.
que o mar guardava os seus mangues
como espias traiçoeiros
como cúmplices danados
mesmo no seio da incauta.
Percorro a cidade toda
cidade não há, se acaso
não se há de dizer cidade
das águas que a devoraram,
porém é um mundo de mágica
o aquário onde vejo e sinto
toda a fauna do mistério
desenvolvendo o seu jogo.
Eis que com pouco me encontro
no Parque Treze de Maio
ao lado do qual dormia
a sombra da Faculdade.
As antigas namoradas
travestidas de sereias
será que estão pela praça
com suas caudas de peixe?
Já percorro a praça toda
como em domingos antigos
mas o parque está deserto
ninguém que veja o meu passo.
Ninguém não, porque estão peixes
nadando tranqüilamente
iluminando o passeio
nessa luz difusa e vaga
que é sempre própria dos peixes.
Calamares cor de cinza
envolvem os seus tentáculos
como as estrelas do inferno
nos seios de bronze escuro
das estátuas no silêncio.
Será que apenas eu vivo
existo em toda a cidade?
Ou aquelas que eu buscara
estão vivendo do sono
porquanto é tarde da noite?
(Impossível ter certeza
se a vida nos nega sempre
certeza plena das coisas.)
Resta que eu viva pesquisa
nesta cidade afogada
num campo de mar - pai nosso
cruzado da reconquista.
Procuro o rio, ora o ri
é uma ficção tão somente
junto das formas estranhas
das pontes debaixo d água.
Arcos (as pontes) ligando
dois pontos mal divisados
neste instante em que eu os vejo
já me parecem mais belos
dessa beleza mais pura
que vem da inutilidade.
Mas sinto que sofro muito
sabendo o rio afogado,
e somente então percebo
o quanto amava esse rio
que amor só se sente pleno
depois do instante da perda.
Cruzo a ponte, na avenida
cefalópodes descansam
as suas formas fantásticas
a um passo do meio-fio.
Larvas, actinias, estrelas
do mar, no que fora terra,
emprestam a tudo o aspecto
de um quadro sobre a parede
Microplantas iluminam
com suas roupas de fósforo
os meus passos no passeio
de ver a cidade minha.
Percebe-se no ambiente
tão grandes luminescências
que eu na verdade suspeito
que os peixes que têm luz própria
subiram todos do abismo
para ver esta cidade
há tanto tempo famosa.
Na rua Nova lagostas
deslizam contornos vagos,
mexilhões no calçamento
enfeitam de novo brilho
o pouso onde os pés descansam,
sifonóforos, retidos,
têm espasmos de agonia
com seus tentáculos presos
nos fios da rede elétrica.
Busco o Pátio de São Pedro
para a surpresa feliz,
porque são peixes barrocos
os que em cardume se encontram
neste recinto sagrado,
respeitando a arquitetura
e o nosso próprio respeito.
E em tudo reina um silêncio
que talvez não seja unânime,
mas que é a realidade
para os ouvidos que tenho
mal refeitos da surpresa,
mas ah ouvidos escutam
um sino batendo ao longe
e uma canção se espalhando
pela espessura das águas.
Procuro seguir o rumo
da voz do sino e percebo
- milagre de São Francisco -
tocando o sino da Penha
tangido pelas correntes
marinhas, ou por si próprios,
lembrando que a fé subsiste
mesmo no íntimo das águas.
Oh bairro de São José
pedaço da minha infância,
das tuas ruas tão tristes
somente uma rua triste
entre as ruas da cidade
(a rua das Águas Verdes)
não hã de trocar de nome.
Nesta altura já percebo
toda a cidade submersa
pelo que já não me sobra
mais a razão de viver.
Subo à tona onde me ferem
as flechas da madrugada
que vem surgindo do mar.
Nem as copas das palmeiras
emergem do lençol d água
e apenas se vê no extremo
alguns dos montes de Olinda.
Respiro profundamente
o ar frio da manhã fria,
e como um peixe me afogo
no ar que agora me sufoca,
e morro dessa asfixia
na mansa luz da manhã.
Recife, janeiro de 1958.
1 012
Edmir Domingues
Canção amarga II
Acender o cigarro que não fumo
nos limites finais da noite enorme.
A janela, o jornal, o dia amargo
da amargura sem causa
que é a amargura
maior.
Pela janela aberta chegam ventos
(por nome alísios) sopros descendentes.
Ao longe o nosso barco, abertos panos
para todos os ventos do universo.
Por que tanto amargor
se na distância
há outros ventos calmos
carregados
dos aromas silvestres?
Por que tanto amargor
quando nos longes
correm claros regatos
de águas mansas paradas nos remansos?
Por que tanto amargor
se há garças brancas
sobrevoando o pantanal imenso?
E há paz ainda - a paz inexcedível
- nos recantos do mundo
que habitamos?
No entanto um outro mundo
o mundo interior, sofre esse mundo
a angústia de existir.
A resposta à amargura
o trágico desejo
de um auto-venefício, a ter por termo
o aspirado não ser
melhor que o ser.
Uma estranha anaconda
(o íntimo inimigo)
envolve e esmaga o coração
ferido.
nos limites finais da noite enorme.
A janela, o jornal, o dia amargo
da amargura sem causa
que é a amargura
maior.
Pela janela aberta chegam ventos
(por nome alísios) sopros descendentes.
Ao longe o nosso barco, abertos panos
para todos os ventos do universo.
Por que tanto amargor
se na distância
há outros ventos calmos
carregados
dos aromas silvestres?
Por que tanto amargor
quando nos longes
correm claros regatos
de águas mansas paradas nos remansos?
Por que tanto amargor
se há garças brancas
sobrevoando o pantanal imenso?
E há paz ainda - a paz inexcedível
- nos recantos do mundo
que habitamos?
No entanto um outro mundo
o mundo interior, sofre esse mundo
a angústia de existir.
A resposta à amargura
o trágico desejo
de um auto-venefício, a ter por termo
o aspirado não ser
melhor que o ser.
Uma estranha anaconda
(o íntimo inimigo)
envolve e esmaga o coração
ferido.
688
Edmir Domingues
Soneto das estrelas sem conta
E eu galguei o alcantil tendo-a em meus braços,
vestida não de sol, porém de lua,
e havia cavalgadas nos espaços,
seu suave suor, e estava nua.
Houve então cavalgadas sobre a terra,
o espanto do luar que tudo via,
e a grande paz que habita nessa guerra
de corpos enlaçados em porfia.
Veio depois o estranho cataclismo
desse grande vazio de depois.
À margem desse negro mar, o abismo
do mar, ao pé da soma de nós dois.
A Mão do Orvalho então, sabe fazê-lo,
pôs estrelas sem conta em seu cabelo.
vestida não de sol, porém de lua,
e havia cavalgadas nos espaços,
seu suave suor, e estava nua.
Houve então cavalgadas sobre a terra,
o espanto do luar que tudo via,
e a grande paz que habita nessa guerra
de corpos enlaçados em porfia.
Veio depois o estranho cataclismo
desse grande vazio de depois.
À margem desse negro mar, o abismo
do mar, ao pé da soma de nós dois.
A Mão do Orvalho então, sabe fazê-lo,
pôs estrelas sem conta em seu cabelo.
762
Ruy Belo
Laboratório (2)
Não foi aquela a cara a quem a morte
deu de beber do cântaro mais cheio
de sóis e anéis azuis? Tão pura sorte
noutro céu se cumpriu que não no meio-
dia do pão partido no recreio?
Ou outrem conheceu o súbito transporte
do convívio dos dias para alheio
olhar os gestos de que foi suporte?
Envólucro quebrado contra a crista
do antigo cipreste, ó fantástica festa
das coisas que se tocam pela vista
esta daquela como aquela desta
E há país aonde Deus assista
a hora entreaberta como esta?
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 135 e 136 | Círculo de Leitores, Dez 2000
deu de beber do cântaro mais cheio
de sóis e anéis azuis? Tão pura sorte
noutro céu se cumpriu que não no meio-
dia do pão partido no recreio?
Ou outrem conheceu o súbito transporte
do convívio dos dias para alheio
olhar os gestos de que foi suporte?
Envólucro quebrado contra a crista
do antigo cipreste, ó fantástica festa
das coisas que se tocam pela vista
esta daquela como aquela desta
E há país aonde Deus assista
a hora entreaberta como esta?
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 135 e 136 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 015
Ruy Belo
Laboratório (2)
Não foi aquela a cara a quem a morte
deu de beber do cântaro mais cheio
de sóis e anéis azuis? Tão pura sorte
noutro céu se cumpriu que não no meio-
dia do pão partido no recreio?
Ou outrem conheceu o súbito transporte
do convívio dos dias para alheio
olhar os gestos de que foi suporte?
Envólucro quebrado contra a crista
do antigo cipreste, ó fantástica festa
das coisas que se tocam pela vista
esta daquela como aquela desta
E há país aonde Deus assista
a hora entreaberta como esta?
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 135 e 136 | Círculo de Leitores, Dez 2000
deu de beber do cântaro mais cheio
de sóis e anéis azuis? Tão pura sorte
noutro céu se cumpriu que não no meio-
dia do pão partido no recreio?
Ou outrem conheceu o súbito transporte
do convívio dos dias para alheio
olhar os gestos de que foi suporte?
Envólucro quebrado contra a crista
do antigo cipreste, ó fantástica festa
das coisas que se tocam pela vista
esta daquela como aquela desta
E há país aonde Deus assista
a hora entreaberta como esta?
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 135 e 136 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 015
Cesare Pavese
Tens sangue, tens fôlego
Tens sangue, tens fôlego.
Você é feita de carne,
e cabelos e olhares,
mesmo você. A terra e as plantas,
o céu de março e a luz
vibram, e a ti se assemelham -
o teu riso e o teu passo
como águas sussurram -
A tua ruga entre os olhos,
como nuvens recolhidas -
E o teu suave corpo,
como um gramado ao sol.
Tens sangue, tens fôlego.
Você vive sobre esta terra.
Conheces os sabores,
as estações, os despertares;
brincaste ao sol,
falaste conosco.
Água cristalina, desabrochar
da primavera, terra,
germinante silêncio,
brincaste, quando menina,
sob um céu diverso,
e tens nos olhos o silêncio
como uma nuvem, que flui
como um peixe das profundezas.
Ora ris e sussurras
sobre este silêncio.
Doce fruto que vives
sob o céu límpido,
que respira e vive
esta nossa estação,
em teu silêncio fechado
está a tua força. Como
uma erva viva no ar,
você estremece e ri,
mas você, você é a terra.
Você é raiz feroz.
Você é a terra que aguarda.
Você é feita de carne,
e cabelos e olhares,
mesmo você. A terra e as plantas,
o céu de março e a luz
vibram, e a ti se assemelham -
o teu riso e o teu passo
como águas sussurram -
A tua ruga entre os olhos,
como nuvens recolhidas -
E o teu suave corpo,
como um gramado ao sol.
Tens sangue, tens fôlego.
Você vive sobre esta terra.
Conheces os sabores,
as estações, os despertares;
brincaste ao sol,
falaste conosco.
Água cristalina, desabrochar
da primavera, terra,
germinante silêncio,
brincaste, quando menina,
sob um céu diverso,
e tens nos olhos o silêncio
como uma nuvem, que flui
como um peixe das profundezas.
Ora ris e sussurras
sobre este silêncio.
Doce fruto que vives
sob o céu límpido,
que respira e vive
esta nossa estação,
em teu silêncio fechado
está a tua força. Como
uma erva viva no ar,
você estremece e ri,
mas você, você é a terra.
Você é raiz feroz.
Você é a terra que aguarda.
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