Poemas neste tema
Outros
Manuel António Pina
Estarei Ainda Muito Perto Da Luz
Estarei ainda muito perto da luz?
Poderei esquecer
estes rostos,estas vozes,
e ficar diante do meu rosto?
Às vezes,como num sonho,
vejo formas como um rosto
e pergunto:"De quem é este rosto?"
E ainda:"Quem pergunta isto?"
E:"E com quem fala?"
Estarei ainda longe de Ti,
quem quer que sejas ou eu seja?
Cresce a noite à minha volta,
terei palavras para falar-Te?
E compreenderás Tu este,
não sei qual de nós,que procura
a Tua face entre as sombras?
Quando eu me calar
sabei que estarei diante de uma coisa imensa.
E que esta é a minha voz,
o que no fundo de isto se escuta.
Poderei esquecer
estes rostos,estas vozes,
e ficar diante do meu rosto?
Às vezes,como num sonho,
vejo formas como um rosto
e pergunto:"De quem é este rosto?"
E ainda:"Quem pergunta isto?"
E:"E com quem fala?"
Estarei ainda longe de Ti,
quem quer que sejas ou eu seja?
Cresce a noite à minha volta,
terei palavras para falar-Te?
E compreenderás Tu este,
não sei qual de nós,que procura
a Tua face entre as sombras?
Quando eu me calar
sabei que estarei diante de uma coisa imensa.
E que esta é a minha voz,
o que no fundo de isto se escuta.
4 017
2
Manuel António Pina
Estarei Ainda Muito Perto Da Luz
Estarei ainda muito perto da luz?
Poderei esquecer
estes rostos,estas vozes,
e ficar diante do meu rosto?
Às vezes,como num sonho,
vejo formas como um rosto
e pergunto:"De quem é este rosto?"
E ainda:"Quem pergunta isto?"
E:"E com quem fala?"
Estarei ainda longe de Ti,
quem quer que sejas ou eu seja?
Cresce a noite à minha volta,
terei palavras para falar-Te?
E compreenderás Tu este,
não sei qual de nós,que procura
a Tua face entre as sombras?
Quando eu me calar
sabei que estarei diante de uma coisa imensa.
E que esta é a minha voz,
o que no fundo de isto se escuta.
Poderei esquecer
estes rostos,estas vozes,
e ficar diante do meu rosto?
Às vezes,como num sonho,
vejo formas como um rosto
e pergunto:"De quem é este rosto?"
E ainda:"Quem pergunta isto?"
E:"E com quem fala?"
Estarei ainda longe de Ti,
quem quer que sejas ou eu seja?
Cresce a noite à minha volta,
terei palavras para falar-Te?
E compreenderás Tu este,
não sei qual de nós,que procura
a Tua face entre as sombras?
Quando eu me calar
sabei que estarei diante de uma coisa imensa.
E que esta é a minha voz,
o que no fundo de isto se escuta.
4 017
2
Anna Akhmatova
Música
Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
3 099
2
Anna Akhmatova
Música
Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
3 099
2
Anna Akhmatova
Música
Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
3 099
2
Anna Akhmatova
Música
Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
3 099
2
David Mourão-Ferreira
Grito
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que é nosso.
São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo que é nosso
é excessivo.
E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a spádua.
São os teus olhos.
Depois, o grito.
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
do outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.
E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa!
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que é nosso.
São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo que é nosso
é excessivo.
E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a spádua.
São os teus olhos.
Depois, o grito.
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
do outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.
E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa!
4 051
2
David Mourão-Ferreira
Grito
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que é nosso.
São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo que é nosso
é excessivo.
E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a spádua.
São os teus olhos.
Depois, o grito.
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
do outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.
E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa!
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que é nosso.
São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo que é nosso
é excessivo.
E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a spádua.
São os teus olhos.
Depois, o grito.
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
do outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.
E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa!
4 051
2
Janice Japiassu
O Discurso e o Deserto
Com o acre mel do deserto
De ouro veste-se o nome
Pronunciado na guerra.
O sol fecunda as espadas
Retesa o arco certeiro
E o sete nasce da pedra
No silêncio alumioso
Da noite mal-assombrada
Mistura o grito viçoso
Eis a palavra afiada
Nos pastos da solidão
Dentro do silêncio limpo
Voz de toda precisão
De ouro veste-se o nome
Pronunciado na guerra.
O sol fecunda as espadas
Retesa o arco certeiro
E o sete nasce da pedra
No silêncio alumioso
Da noite mal-assombrada
Mistura o grito viçoso
Eis a palavra afiada
Nos pastos da solidão
Dentro do silêncio limpo
Voz de toda precisão
721
2
José Tolentino Mendonça
O teu rosto aos vinte e cinco anos de idade
Numa conversa sobre o destino da arte
lembro o teu rosto
onde os elementos ensaiam
a revelação dos primeiros detalhes
irremediáveis:
a marca da sombra, o recuo das forças,
o alarme da dor
a arte existe apenas
como homenagem (pobre, desolada)
àquilo que cada rosto foi
um dia através da paisagem
lembro o teu rosto
onde os elementos ensaiam
a revelação dos primeiros detalhes
irremediáveis:
a marca da sombra, o recuo das forças,
o alarme da dor
a arte existe apenas
como homenagem (pobre, desolada)
àquilo que cada rosto foi
um dia através da paisagem
2 589
2
José Tolentino Mendonça
O teu rosto aos vinte e cinco anos de idade
Numa conversa sobre o destino da arte
lembro o teu rosto
onde os elementos ensaiam
a revelação dos primeiros detalhes
irremediáveis:
a marca da sombra, o recuo das forças,
o alarme da dor
a arte existe apenas
como homenagem (pobre, desolada)
àquilo que cada rosto foi
um dia através da paisagem
lembro o teu rosto
onde os elementos ensaiam
a revelação dos primeiros detalhes
irremediáveis:
a marca da sombra, o recuo das forças,
o alarme da dor
a arte existe apenas
como homenagem (pobre, desolada)
àquilo que cada rosto foi
um dia através da paisagem
2 589
2
Alexandre O'Neill
AutoCrítica
Cesário diz-me muito:gostava de ferramentas,como eu,
e vê-se que para ele o ser feliz
era lançar,originais e exactos,os seus alexandrinos,
empunhar ferramental honesto
cuja eficácia ele sabia que
não vinha da beleza,mas da perfeita
adequação.
Não tem halo,tem elo e o seu encadeado
é o verso habilmente proseado.
(Que feliz eu seria,ó prima,se o Cesário
me tivesse deixado uma garlopa!)
António Nobre,embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele(ai de mim,coitadinho!)
(E em conclusão do megalómano discurso,
ó prima,um bilhete-postal para o Pessoa,
a quem devemos todos tanto,a prima inclusive!)
Muito querido Pessoa,saberias agora
que não basta ser lúcido,merda,que não basta
a gente coser-se com as paredes
e cercar de grandes muros quem se sonha,
que não basta dizer basta de provincianos!
in:Feira Cabisbaixa(1965)
e vê-se que para ele o ser feliz
era lançar,originais e exactos,os seus alexandrinos,
empunhar ferramental honesto
cuja eficácia ele sabia que
não vinha da beleza,mas da perfeita
adequação.
Não tem halo,tem elo e o seu encadeado
é o verso habilmente proseado.
(Que feliz eu seria,ó prima,se o Cesário
me tivesse deixado uma garlopa!)
António Nobre,embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele(ai de mim,coitadinho!)
(E em conclusão do megalómano discurso,
ó prima,um bilhete-postal para o Pessoa,
a quem devemos todos tanto,a prima inclusive!)
Muito querido Pessoa,saberias agora
que não basta ser lúcido,merda,que não basta
a gente coser-se com as paredes
e cercar de grandes muros quem se sonha,
que não basta dizer basta de provincianos!
in:Feira Cabisbaixa(1965)
6 151
2
Alexandre O'Neill
AutoCrítica
Cesário diz-me muito:gostava de ferramentas,como eu,
e vê-se que para ele o ser feliz
era lançar,originais e exactos,os seus alexandrinos,
empunhar ferramental honesto
cuja eficácia ele sabia que
não vinha da beleza,mas da perfeita
adequação.
Não tem halo,tem elo e o seu encadeado
é o verso habilmente proseado.
(Que feliz eu seria,ó prima,se o Cesário
me tivesse deixado uma garlopa!)
António Nobre,embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele(ai de mim,coitadinho!)
(E em conclusão do megalómano discurso,
ó prima,um bilhete-postal para o Pessoa,
a quem devemos todos tanto,a prima inclusive!)
Muito querido Pessoa,saberias agora
que não basta ser lúcido,merda,que não basta
a gente coser-se com as paredes
e cercar de grandes muros quem se sonha,
que não basta dizer basta de provincianos!
in:Feira Cabisbaixa(1965)
e vê-se que para ele o ser feliz
era lançar,originais e exactos,os seus alexandrinos,
empunhar ferramental honesto
cuja eficácia ele sabia que
não vinha da beleza,mas da perfeita
adequação.
Não tem halo,tem elo e o seu encadeado
é o verso habilmente proseado.
(Que feliz eu seria,ó prima,se o Cesário
me tivesse deixado uma garlopa!)
António Nobre,embora seja muito em inho,
é o grande Só que somos nós,
por isso gosto dele(ai de mim,coitadinho!)
(E em conclusão do megalómano discurso,
ó prima,um bilhete-postal para o Pessoa,
a quem devemos todos tanto,a prima inclusive!)
Muito querido Pessoa,saberias agora
que não basta ser lúcido,merda,que não basta
a gente coser-se com as paredes
e cercar de grandes muros quem se sonha,
que não basta dizer basta de provincianos!
in:Feira Cabisbaixa(1965)
6 151
2
Manuel António Pina
A Pura Luz Pensante
Tudo é tudo ou quase tudo
e nada é a mesma coisa.
Na realidade são tudo coisas indiferentes.
(Imagens...Imagens...Imagens...)
É este o caminho da Inocência?Exis-
te tudo e a aparência de tudo.(Imagens...)
Totalmente tolerante é
a matéria metafórica da infância.
Tenho que tornar a fazer tudo,
a emoção é um fruto fútil,a pura luz
pensando dos dois lados da Literatura.
Aqui estão as palavras,metei o focinho nelas!
e nada é a mesma coisa.
Na realidade são tudo coisas indiferentes.
(Imagens...Imagens...Imagens...)
É este o caminho da Inocência?Exis-
te tudo e a aparência de tudo.(Imagens...)
Totalmente tolerante é
a matéria metafórica da infância.
Tenho que tornar a fazer tudo,
a emoção é um fruto fútil,a pura luz
pensando dos dois lados da Literatura.
Aqui estão as palavras,metei o focinho nelas!
3 792
2
Manuel António Pina
A Pura Luz Pensante
Tudo é tudo ou quase tudo
e nada é a mesma coisa.
Na realidade são tudo coisas indiferentes.
(Imagens...Imagens...Imagens...)
É este o caminho da Inocência?Exis-
te tudo e a aparência de tudo.(Imagens...)
Totalmente tolerante é
a matéria metafórica da infância.
Tenho que tornar a fazer tudo,
a emoção é um fruto fútil,a pura luz
pensando dos dois lados da Literatura.
Aqui estão as palavras,metei o focinho nelas!
e nada é a mesma coisa.
Na realidade são tudo coisas indiferentes.
(Imagens...Imagens...Imagens...)
É este o caminho da Inocência?Exis-
te tudo e a aparência de tudo.(Imagens...)
Totalmente tolerante é
a matéria metafórica da infância.
Tenho que tornar a fazer tudo,
a emoção é um fruto fútil,a pura luz
pensando dos dois lados da Literatura.
Aqui estão as palavras,metei o focinho nelas!
3 792
2
Natália Correia
A Defesa do Poeta
Senhores jurados sou um
poeta um multipétalo uivo um defeito e ando com
uma camisa de vento ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis de
armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim Sou em código o azul
de todos (curtido couro de cicatrizes) uma
avaria cantante na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte
serei não há cidade sem o parque do sono que
vos roubei Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição de raptar-me em
crianças que salvo do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho de em pó volverdes
sois os reis sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis Senhores
heróis até aos dentes puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos umas estrofes mais
além Senhores três quatro cinco e sete que
medo vos pôs na ordem ? que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ? Senhores
juízes que não molhais a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro sem que ele cante
minha defesa Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever ó
subalimentados do sonho ! a poesia é para comer.
de A Mosca Iluminada(1972)
poeta um multipétalo uivo um defeito e ando com
uma camisa de vento ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis de
armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim Sou em código o azul
de todos (curtido couro de cicatrizes) uma
avaria cantante na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte
serei não há cidade sem o parque do sono que
vos roubei Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição de raptar-me em
crianças que salvo do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho de em pó volverdes
sois os reis sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis Senhores
heróis até aos dentes puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos umas estrofes mais
além Senhores três quatro cinco e sete que
medo vos pôs na ordem ? que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ? Senhores
juízes que não molhais a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro sem que ele cante
minha defesa Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever ó
subalimentados do sonho ! a poesia é para comer.
de A Mosca Iluminada(1972)
3 330
2
David Mourão-Ferreira
Escolha
Entre vento e navalha escolho o vento
entre verde e vermelho aquele azul
que até na morte servirá de espelho
ao vento que por dentro me deslumbra
Entre ventre e cipreste escolho o Sol
Entre as mãos que se dão a que se oculta
Entre o que nunca soube o que já sobra
Entre a relva um milímetro de bruma.
entre verde e vermelho aquele azul
que até na morte servirá de espelho
ao vento que por dentro me deslumbra
Entre ventre e cipreste escolho o Sol
Entre as mãos que se dão a que se oculta
Entre o que nunca soube o que já sobra
Entre a relva um milímetro de bruma.
4 334
2
Natália Correia
Auto-retrato
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
5 776
2
Natália Correia
Auto-retrato
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
5 776
2
José Tolentino Mendonça
Ignorar a morte
Se agitares tesouras numa fogueira
não esqueças que me feres
um avesso de lume é o meu único
segredo
no impreciso avanço das lâminas
um anjo o descobriria
Tira a faca da gaveta
mas não esqueças
se a cravares na água
como altas vagas o mar me sepultará
dentro da casa abandonada
Não lamentes serem os versos
saberes tão frágeis
as flores mais belas são as que se colhem
quando ainda se ignora a morte.
não esqueças que me feres
um avesso de lume é o meu único
segredo
no impreciso avanço das lâminas
um anjo o descobriria
Tira a faca da gaveta
mas não esqueças
se a cravares na água
como altas vagas o mar me sepultará
dentro da casa abandonada
Não lamentes serem os versos
saberes tão frágeis
as flores mais belas são as que se colhem
quando ainda se ignora a morte.
3 199
2
José Tolentino Mendonça
Ignorar a morte
Se agitares tesouras numa fogueira
não esqueças que me feres
um avesso de lume é o meu único
segredo
no impreciso avanço das lâminas
um anjo o descobriria
Tira a faca da gaveta
mas não esqueças
se a cravares na água
como altas vagas o mar me sepultará
dentro da casa abandonada
Não lamentes serem os versos
saberes tão frágeis
as flores mais belas são as que se colhem
quando ainda se ignora a morte.
não esqueças que me feres
um avesso de lume é o meu único
segredo
no impreciso avanço das lâminas
um anjo o descobriria
Tira a faca da gaveta
mas não esqueças
se a cravares na água
como altas vagas o mar me sepultará
dentro da casa abandonada
Não lamentes serem os versos
saberes tão frágeis
as flores mais belas são as que se colhem
quando ainda se ignora a morte.
3 199
2
Eugénio de Andrade
Cristalizações
1.
Com palavras amo.
2.
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.
3.
Despe-te
como o orvalho
na concha da manhã.
4.
Ama
como o rio sobe os últimos degraus
ao encontro do seu leito.
5.
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?
6.
Estou de passagem:
ama o efémero.
7.
Onde espero morrer
será amanhã ainda?
de Ostinato Rigore
Com palavras amo.
2.
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.
3.
Despe-te
como o orvalho
na concha da manhã.
4.
Ama
como o rio sobe os últimos degraus
ao encontro do seu leito.
5.
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?
6.
Estou de passagem:
ama o efémero.
7.
Onde espero morrer
será amanhã ainda?
de Ostinato Rigore
6 366
2
Eugénio de Andrade
Cristalizações
1.
Com palavras amo.
2.
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.
3.
Despe-te
como o orvalho
na concha da manhã.
4.
Ama
como o rio sobe os últimos degraus
ao encontro do seu leito.
5.
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?
6.
Estou de passagem:
ama o efémero.
7.
Onde espero morrer
será amanhã ainda?
de Ostinato Rigore
Com palavras amo.
2.
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.
3.
Despe-te
como o orvalho
na concha da manhã.
4.
Ama
como o rio sobe os últimos degraus
ao encontro do seu leito.
5.
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?
6.
Estou de passagem:
ama o efémero.
7.
Onde espero morrer
será amanhã ainda?
de Ostinato Rigore
6 366
2
Eugénio de Andrade
Cristalizações
1.
Com palavras amo.
2.
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.
3.
Despe-te
como o orvalho
na concha da manhã.
4.
Ama
como o rio sobe os últimos degraus
ao encontro do seu leito.
5.
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?
6.
Estou de passagem:
ama o efémero.
7.
Onde espero morrer
será amanhã ainda?
de Ostinato Rigore
Com palavras amo.
2.
Inclina-te como a rosa
só quando o vento passe.
3.
Despe-te
como o orvalho
na concha da manhã.
4.
Ama
como o rio sobe os últimos degraus
ao encontro do seu leito.
5.
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?
6.
Estou de passagem:
ama o efémero.
7.
Onde espero morrer
será amanhã ainda?
de Ostinato Rigore
6 366
2