Poemas neste tema
Dinheiro e Riqueza
Sophia de Mello Breyner Andresen
Nestes Últimos Tempos
Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças
Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?
Que diremos do lixo do seu luxo — de seu
Viscoso gozo da nata da vida — que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?
Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?
Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?
Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto
Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?
Julho de 1976
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças
Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?
Que diremos do lixo do seu luxo — de seu
Viscoso gozo da nata da vida — que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?
Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?
Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?
Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto
Mas que diremos da meticulosa eficaz expedita
Degradação da vida que a direita pratica?
Julho de 1976
1 244
Sophia de Mello Breyner Andresen
Fragmento de «Os Gracos»
«………………………………………………»
Os ricos nunca perdem a jogada
Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros
São hábeis e sábios
Têm uma longa experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham
Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena
«………………………………………………»
(Os Gracos, I Acto, II Cena, 1968)
Os ricos nunca perdem a jogada
Nunca fazem um erro. Espiam
E esperam os erros dos outros
Administram os erros dos outros
São hábeis e sábios
Têm uma longa experiência do poder
E quando não podem usar a própria força
Usam a fraqueza dos outros
Apostam na fraqueza dos outros
E ganham
Tecem uma grande rede de estratagemas
Uma grande armadilha invisível
E devagar desviam o inimigo para o seu terreno
Para o sacrificar como um toiro na arena
«………………………………………………»
(Os Gracos, I Acto, II Cena, 1968)
1 155
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. Era a Rota do Oiro
Era a rota do oiro
Porém nos grandes mares
Ou em praias baloiçadas por coqueiros
O espanto nos guiava —
Água escorria de todas as imagens
1982
Porém nos grandes mares
Ou em praias baloiçadas por coqueiros
O espanto nos guiava —
Água escorria de todas as imagens
1982
1 246
Adélia Prado
Cacos Para Um Vitral
Existe mesmo o Japão?
E um país que não conheço, com seu litoral deserto?
Entre as coxas é público. Público e óbvio.
Quero é teu coração, o fundo dos teus dois olhos
que só faltam falar.
Mira-me en español pra ver se não estalo os dedos
e saio dançando em vermelho.
Fechei os olhos no sol, vi a forma-prima
por um segundo só e esqueci.
Como existiram os santos, Deus existe
e com um poder de sedução indizível.
Quem fez o ouro foi Ele, quem deu tino ao homem
pra inventar o cordão que se põe no pescoço.
Dito assim é tão puro, quase não vejo culpa
em comprar um pra mim.
Tenho os mesmos desejos de trinta anos atrás,
imutáveis como os mosquitos na cozinha ensolarada,
minha mãe fazendo café
e meu pai sentado, esperando.
E um país que não conheço, com seu litoral deserto?
Entre as coxas é público. Público e óbvio.
Quero é teu coração, o fundo dos teus dois olhos
que só faltam falar.
Mira-me en español pra ver se não estalo os dedos
e saio dançando em vermelho.
Fechei os olhos no sol, vi a forma-prima
por um segundo só e esqueci.
Como existiram os santos, Deus existe
e com um poder de sedução indizível.
Quem fez o ouro foi Ele, quem deu tino ao homem
pra inventar o cordão que se põe no pescoço.
Dito assim é tão puro, quase não vejo culpa
em comprar um pra mim.
Tenho os mesmos desejos de trinta anos atrás,
imutáveis como os mosquitos na cozinha ensolarada,
minha mãe fazendo café
e meu pai sentado, esperando.
2 020
Carlos Drummond de Andrade
Fmi
Ao vento do Parque dançam
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
as bandeiras.
Unem-se os povos finalmente
em torno do Direito Especial de Saque?
Baixa a taxa de juros como baixa
a temperatura?
Ou apenas glorificamos
o mistério do sorveteiro que devolve
NCr$600 ao Míster distraído?
Oh, salve honestidade
super
do sub
desenvolvido.
Mas tantos Governadores me intimidam
poderosos concentrados linguistranhos
em frente ao mar que nada sabe de Finanças
e propõe a grandeza sem governo,
o mar profundo em frente ao Fundo.
Qual dos dois colossos me conforta
a solidão do ser entre moedas
em que não está gravado o simples Nome
do Mundo?
Da passarela vejo o pássaro
que esvoaçando vira BIRD e no seu bico
biririco
leva o financiamento a curto prazo
e longa espera. Meu destino
em que junta de ricos e de pobres
se resolve ou dissolve
no catch do ouro contra o dólar?
Depressa, a Brocoió,
ao Maracanã, ao Golden Room,
onde o Fundo se esqueça de si mesmo
e boie na florínea superfície
de langues amavios.
Excesso de liquidez ou falta de,
matéria é de piscina
ou de pequenos bares de Ipanema,
onde o comércio internacional não vale
um chope bem tirado e seu diadema
de espuma.
De espuma e pluma e samba rodeemos
o fero Fundo, a fim que as frágeis
flébeis economias sobrevivam
ao sol latino ou africano
à custa de primários objetos
de troca, sob o pálio
protetoral dos Grandes, que decidem
a hora do Sol e a hora de cair
orvalho.
Grácil recepcionista, toma tento
com esse Governador ou Delegado
que quer levar ao extremo a ajuda técnica
para o desenvolvimento.
Não é qualquer projeto que convém
aos países e às jovens criaturas
que Deus, lá das alturas,
embelezou com arte refinada.
Ao vento dançam
bandeiras e bandeiras no ar que
é todo vibração no Parque,
e dos jardins um trevo brota
de quatro pétalas, flor de tráfego.
Que discutem os homens no areópago
do mercado mundial?
Pergunto — e não responde — a uma gaivota
junto de Kirti Bista, do Nepal,
que me serve de rima e de silêncio.
29/09/1967
1 219
Carlos Drummond de Andrade
Mosaico
Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 166
Carlos Drummond de Andrade
A Semana
Atendendo, compadre, a seu apelo,
envio-lhe esta carta, mas sem selo
(que a tarifa postal subiu à lua
e a controle nenhum cede ou recua),
para lhe dar as últimas notícias,
enquanto agosto vai, entre carícias
de um leve sol de julho, recordando
a matinal doçura de ir flanando.
Quem encontrei na praia? Aquele moço,
glória da Rússia, presa do alvoroço
de brotos mil: “Que pão!” — diziam elas,
e Gagárin, a sorrir, por entre as belas
garotas espaciais, me botou triste.
Ó mocidade, ave fugida! alpiste
nenhum te faz voltar, e nenhum verso
vale esse giro azul pelo universo.
(Gagarinamos, sim, em pensamento,
e nossa cosmonave é fumo e vento.)
Mas, compadre, voltando ao terra-a-terra,
se minha matemática não erra,
evite, enquanto é tempo, abrir falência,
evitando qualquer correspondência.
(Já pensou na copiosa Sévigné,
no Brasil, reduzida ao miserê?)
Com telegrama a cinco por palavra,
a pena do silêncio faz-se escrava.
Quero me distrair. E eis que se fecha
o velho, bom, jovial Circo Olimecha.
Um circo a menos? Dois. Outro, de horrores,
lá se foi, o de artistas-vereadores.
Não divertiu ninguém e custou caro,
deixando na lembrança gosto amaro…
Marota foi a Câmara, em Brasília:
passa a chamar “descanso” de “vigília”
— não já gratuito, mas remunerado —
e trabalho… é tortura do passado.
Inaugura-se um campo de corridas
quando elas já são coisas abolidas.
Nos açougues paulistas, a prová-lo,
a nova bossa: carne de cavalo.
Disseram por aí que isto é progresso,
porém meu coração diz que é regresso.
O caso de Berlim, você não pense
que, por não ter nascido berlinense,
eu dele me descuide. A autoridade
vem daí: ser alheio a essa cidade.
É Berlim coisa russa? americana?
Ou tudo é confusão, em meio à vana
verba de conferências e tratados?
Adeus, compadre, abraços apertados.
06/08/1961
envio-lhe esta carta, mas sem selo
(que a tarifa postal subiu à lua
e a controle nenhum cede ou recua),
para lhe dar as últimas notícias,
enquanto agosto vai, entre carícias
de um leve sol de julho, recordando
a matinal doçura de ir flanando.
Quem encontrei na praia? Aquele moço,
glória da Rússia, presa do alvoroço
de brotos mil: “Que pão!” — diziam elas,
e Gagárin, a sorrir, por entre as belas
garotas espaciais, me botou triste.
Ó mocidade, ave fugida! alpiste
nenhum te faz voltar, e nenhum verso
vale esse giro azul pelo universo.
(Gagarinamos, sim, em pensamento,
e nossa cosmonave é fumo e vento.)
Mas, compadre, voltando ao terra-a-terra,
se minha matemática não erra,
evite, enquanto é tempo, abrir falência,
evitando qualquer correspondência.
(Já pensou na copiosa Sévigné,
no Brasil, reduzida ao miserê?)
Com telegrama a cinco por palavra,
a pena do silêncio faz-se escrava.
Quero me distrair. E eis que se fecha
o velho, bom, jovial Circo Olimecha.
Um circo a menos? Dois. Outro, de horrores,
lá se foi, o de artistas-vereadores.
Não divertiu ninguém e custou caro,
deixando na lembrança gosto amaro…
Marota foi a Câmara, em Brasília:
passa a chamar “descanso” de “vigília”
— não já gratuito, mas remunerado —
e trabalho… é tortura do passado.
Inaugura-se um campo de corridas
quando elas já são coisas abolidas.
Nos açougues paulistas, a prová-lo,
a nova bossa: carne de cavalo.
Disseram por aí que isto é progresso,
porém meu coração diz que é regresso.
O caso de Berlim, você não pense
que, por não ter nascido berlinense,
eu dele me descuide. A autoridade
vem daí: ser alheio a essa cidade.
É Berlim coisa russa? americana?
Ou tudo é confusão, em meio à vana
verba de conferências e tratados?
Adeus, compadre, abraços apertados.
06/08/1961
1 013
Carlos Drummond de Andrade
Cruzeiro Vai, Cruzeiro Vem
Meu pobre cruzeiro velho:
não viveste nem trint’anos
e acabas mais acabado
que os fósseis aurinacianos.
Surgiste das cinzas ralas
do desossado mil-réis
e te saudaram em coro
monetários menestréis.
Assim crivado de estrelas
(de dívidas, nós, crivados)
luzias, dando esperança
a bolsos acabrunhados.
Atiraste um zero fora
como inútil ornamento
e o cifrão passaste à esquerda:
notável melhoramento.
Em teu afã reformista,
torceste o pescoço ao “conto
de réis” — e mais não fizeste
que aqui mereça raconto,
salvo trazeres ao colo
um menininho, o centavo,
que mesmo em grupo de oitenta
era o óvulo de um avo,
e durou menos que a rosa
do tal poeta francês,
enquanto te esmilinguias
cada vez mais cada vez.
O que o mil-réis adquiria
(aliás, coisa mofina)
fugiu de ti como o peixe
foge à caça submarina.
Em vão gastaste a reserva
de nossos atos de fé.
Em vão usaste o retrato
do bravo Tamandaré.
Até que afinal sumiste
de tão completo sumiço
que ouvindo falar teu nome
eu me pergunto: Que é isso?
Hoje te dá um decreto-
-lei piedosa sepultura
e de teu fantasma brota
uma diversa criatura.
Diversa mesmo? De novo
há o “novo”, no casco antigo:
valor de mil cruzas fluidos
florindo no seu jazigo.
Mas o simples adjetivo
que bem me faz e a meu povo!
Psicológico, é claro,
mais claro que clara de ovo.
O pequenino centavo
revive, tão camarada.
Ao vê-lo de roupa nova
sente-se a graça do nada.
Quanta coisa agora eu compro
pelo artifício da moeda!
Fico rico de repente,
mais ágil depois da queda.
Já não me cose o alfaiate
um saco em vez de algibeira:
cabe tudo, e sobra espaço
numa dobra de carteira.
Do que era mil resta um?
Pois onde há um penso mil.
E nesse ziriguidum,
do ceitil que sei? Sei til.
(Enquanto voa, sutil,
o Oiseau Bleu de Tyltyl.)
17/11/1965
não viveste nem trint’anos
e acabas mais acabado
que os fósseis aurinacianos.
Surgiste das cinzas ralas
do desossado mil-réis
e te saudaram em coro
monetários menestréis.
Assim crivado de estrelas
(de dívidas, nós, crivados)
luzias, dando esperança
a bolsos acabrunhados.
Atiraste um zero fora
como inútil ornamento
e o cifrão passaste à esquerda:
notável melhoramento.
Em teu afã reformista,
torceste o pescoço ao “conto
de réis” — e mais não fizeste
que aqui mereça raconto,
salvo trazeres ao colo
um menininho, o centavo,
que mesmo em grupo de oitenta
era o óvulo de um avo,
e durou menos que a rosa
do tal poeta francês,
enquanto te esmilinguias
cada vez mais cada vez.
O que o mil-réis adquiria
(aliás, coisa mofina)
fugiu de ti como o peixe
foge à caça submarina.
Em vão gastaste a reserva
de nossos atos de fé.
Em vão usaste o retrato
do bravo Tamandaré.
Até que afinal sumiste
de tão completo sumiço
que ouvindo falar teu nome
eu me pergunto: Que é isso?
Hoje te dá um decreto-
-lei piedosa sepultura
e de teu fantasma brota
uma diversa criatura.
Diversa mesmo? De novo
há o “novo”, no casco antigo:
valor de mil cruzas fluidos
florindo no seu jazigo.
Mas o simples adjetivo
que bem me faz e a meu povo!
Psicológico, é claro,
mais claro que clara de ovo.
O pequenino centavo
revive, tão camarada.
Ao vê-lo de roupa nova
sente-se a graça do nada.
Quanta coisa agora eu compro
pelo artifício da moeda!
Fico rico de repente,
mais ágil depois da queda.
Já não me cose o alfaiate
um saco em vez de algibeira:
cabe tudo, e sobra espaço
numa dobra de carteira.
Do que era mil resta um?
Pois onde há um penso mil.
E nesse ziriguidum,
do ceitil que sei? Sei til.
(Enquanto voa, sutil,
o Oiseau Bleu de Tyltyl.)
17/11/1965
616
Carlos Drummond de Andrade
Parelhas
Lá se foi a Revista da Semana,
mas eu começo a minha: uma pavana
de fatos mais ou menos exemplares.
— Senador Benedito Valadares,
que diz do PSD? Aquilo existe
ou é só um cochicho meio triste
ao pé do ouvido e à sombra do Catete?
Gato (escaldado) em rabo de foguete,
diz que vai mas não vai, e a presidência
da Câmara balança: a adolescência
da ala velha e a velhice da ala moça,
no decorrer dessa peleja insossa,
brigando, francamente, não resolvem,
nem os astros com isto se comovem.
Mas diz-que vem o tal Conselho sumo
de notáveis, limão que esguicha o sumo
de seu alto saber, meio escondido.
Pergunto, sem fazer-me de enxerido:
— Dr. Luz também entra, ou dá fricote
no General Ministro Duffles Lott?
Pergunto e caio fora. Do alto, a nívea
face da lua cora: na Bolívia,
espera-se um caboclo brasileiro
e é Tio Sam que chega, bem matreiro,
vestindo a nossa calça remendada.
Eu preferia não dizer mais nada,
que a moral deste conto é simples bolha.
Amigos bolivianos, livre escolha?
Seja MacKenna, Lunardi ou Galdeano,
russo, tupiniquim, americano,
Brabol ou Petrobol ou Caracol,
a verdade é uma só, luzindo ao sol:
os bens da terra, a todos prometidos,
são apenas doados e vendidos
em proveito de “grupos”, e a esperança
de um mais justo sistema não alcança
o próximo horizonte. Era de lata
a coroa de Momo, e tão abstrata
a sua monarquia que, deposto,
ninguém repara que mudou de rosto.
O movimento em Cuba foi mais duro,
e estranhamente acaba ao pé de um muro.
Como se mata! A coisa esplende à vista:
vem, depois de um Batista, outro Batista.
E, enquanto Fidel Castro perde o brilho
de herói libertador, importa milho
e feijão a Cofap — sai mais em conta
do que plantando nessa roça tonta…
De resto, o Carnaval recobre tudo.
A estátua de Chopin, durante o entrudo,
veste não sei o quê, na Cinelândia,
e a pobre da cidade, por onde anda
a arte prefeitural, mostra uma cara
que tenta rir, mas é de pau de arara.
Tudo é “vestir os nus” com roupa falsa…
Fernanda Montenegro, porém, se alça
no Ginástico, ali pelo Castelo,
à Arte Maior, e honra Pirandello.
18/01/1959
mas eu começo a minha: uma pavana
de fatos mais ou menos exemplares.
— Senador Benedito Valadares,
que diz do PSD? Aquilo existe
ou é só um cochicho meio triste
ao pé do ouvido e à sombra do Catete?
Gato (escaldado) em rabo de foguete,
diz que vai mas não vai, e a presidência
da Câmara balança: a adolescência
da ala velha e a velhice da ala moça,
no decorrer dessa peleja insossa,
brigando, francamente, não resolvem,
nem os astros com isto se comovem.
Mas diz-que vem o tal Conselho sumo
de notáveis, limão que esguicha o sumo
de seu alto saber, meio escondido.
Pergunto, sem fazer-me de enxerido:
— Dr. Luz também entra, ou dá fricote
no General Ministro Duffles Lott?
Pergunto e caio fora. Do alto, a nívea
face da lua cora: na Bolívia,
espera-se um caboclo brasileiro
e é Tio Sam que chega, bem matreiro,
vestindo a nossa calça remendada.
Eu preferia não dizer mais nada,
que a moral deste conto é simples bolha.
Amigos bolivianos, livre escolha?
Seja MacKenna, Lunardi ou Galdeano,
russo, tupiniquim, americano,
Brabol ou Petrobol ou Caracol,
a verdade é uma só, luzindo ao sol:
os bens da terra, a todos prometidos,
são apenas doados e vendidos
em proveito de “grupos”, e a esperança
de um mais justo sistema não alcança
o próximo horizonte. Era de lata
a coroa de Momo, e tão abstrata
a sua monarquia que, deposto,
ninguém repara que mudou de rosto.
O movimento em Cuba foi mais duro,
e estranhamente acaba ao pé de um muro.
Como se mata! A coisa esplende à vista:
vem, depois de um Batista, outro Batista.
E, enquanto Fidel Castro perde o brilho
de herói libertador, importa milho
e feijão a Cofap — sai mais em conta
do que plantando nessa roça tonta…
De resto, o Carnaval recobre tudo.
A estátua de Chopin, durante o entrudo,
veste não sei o quê, na Cinelândia,
e a pobre da cidade, por onde anda
a arte prefeitural, mostra uma cara
que tenta rir, mas é de pau de arara.
Tudo é “vestir os nus” com roupa falsa…
Fernanda Montenegro, porém, se alça
no Ginástico, ali pelo Castelo,
à Arte Maior, e honra Pirandello.
18/01/1959
1 048
Carlos Drummond de Andrade
Coisas de Maio
Era um límpido azul, vero azul-gaio,
a envolver, na retina, o mês de maio.
Nunca chovia então, ou, se chovia,
tamborilava o nome de Maria.
Quedávamo-nos no adro, enquanto o incenso
vinha até nós, fluido acenar de lenço.
Depois da coroação, mil e uma prendas
leiloadas em festa. Ai, não te emendas,
coração infantil na era vetusta,
e recrias o mundo à tua custa.
Irás ter, hoje à noite, a alguma igreja,
ou queres só montar a lunareja
mula da recordação, e pelos pastos
do tempo recompor teus pobres fastos?
Este maio de agora é bem distinto,
e todo de política vem tinto.
As preces vão flechando o ar estrelado?
São rogos de aspirante a deputado.
Os homens se anunciam que nem pílulas,
prometendo hospitais, escolas, vílulas.
Oh, por amor, vote em Fulano, cuja
publicidade os nossos muros suja,
mas vote porque nunca seja eleito,
e multas o persigam, que é bem feito.
Eleição custa caro — este outro chora,
mas a Câmara tem gosto de amora,
e é tão bom fazer leis ou não fazê-las,
passeando na terra entre as “estrelas”…
O fato é que um belíssimo decreto
proíbe as nomeações. Quem tenha neto
de sete anos à espreita de cartório,
de autarquia, sei lá, de um ajutório,
reconheça a moral do grande gesto,
e que a falta de vagas fez o resto,
pois não havia mais departamento
onde a fila estender, de pagamento.
E, depois de admitir trezentos mil,
fecha o governo a bica, e de fuzil
em punho, exclama, a brados iracundos:
“Não entra mais ninguém (só pelos fundos…)”.
Dá-me, florido maio, uma camélia.
Não, não desejo essa outra rima, a Argélia.
Generais e governo, em severino
afã de liquidar com o argelino,
querem todos poderes especiais,
surdos a muçulmanos gritos e ais.
França, ternura nossa, tens notado
que possessões são coisas do passado?
O que não passa nunca são as dores
telúricas, doídas, e os clamores
da gente nordestina exposta à seca
e à nacional politicagem peca.
Em dez anos, Israel vence o deserto…
Aumentamos o nosso, longe e perto.
Pesar de tudo, amo-te, maio e mano:
reverdeces em mim um ser lontano.
25/05/1958
a envolver, na retina, o mês de maio.
Nunca chovia então, ou, se chovia,
tamborilava o nome de Maria.
Quedávamo-nos no adro, enquanto o incenso
vinha até nós, fluido acenar de lenço.
Depois da coroação, mil e uma prendas
leiloadas em festa. Ai, não te emendas,
coração infantil na era vetusta,
e recrias o mundo à tua custa.
Irás ter, hoje à noite, a alguma igreja,
ou queres só montar a lunareja
mula da recordação, e pelos pastos
do tempo recompor teus pobres fastos?
Este maio de agora é bem distinto,
e todo de política vem tinto.
As preces vão flechando o ar estrelado?
São rogos de aspirante a deputado.
Os homens se anunciam que nem pílulas,
prometendo hospitais, escolas, vílulas.
Oh, por amor, vote em Fulano, cuja
publicidade os nossos muros suja,
mas vote porque nunca seja eleito,
e multas o persigam, que é bem feito.
Eleição custa caro — este outro chora,
mas a Câmara tem gosto de amora,
e é tão bom fazer leis ou não fazê-las,
passeando na terra entre as “estrelas”…
O fato é que um belíssimo decreto
proíbe as nomeações. Quem tenha neto
de sete anos à espreita de cartório,
de autarquia, sei lá, de um ajutório,
reconheça a moral do grande gesto,
e que a falta de vagas fez o resto,
pois não havia mais departamento
onde a fila estender, de pagamento.
E, depois de admitir trezentos mil,
fecha o governo a bica, e de fuzil
em punho, exclama, a brados iracundos:
“Não entra mais ninguém (só pelos fundos…)”.
Dá-me, florido maio, uma camélia.
Não, não desejo essa outra rima, a Argélia.
Generais e governo, em severino
afã de liquidar com o argelino,
querem todos poderes especiais,
surdos a muçulmanos gritos e ais.
França, ternura nossa, tens notado
que possessões são coisas do passado?
O que não passa nunca são as dores
telúricas, doídas, e os clamores
da gente nordestina exposta à seca
e à nacional politicagem peca.
Em dez anos, Israel vence o deserto…
Aumentamos o nosso, longe e perto.
Pesar de tudo, amo-te, maio e mano:
reverdeces em mim um ser lontano.
25/05/1958
1 368
Carlos Drummond de Andrade
Em Cinza E Em Verde
Êta semana triste! Os cavalinhos,
com surpresa estampada nos focinhos,
estacam de repente, por decreto.
Não era o meu esporte predileto,
mas vejo que a cidade se esvazia,
hora a hora, de mais uma alegria,
um prazer, e só resta, no trabalho,
sentir da austeridade o cheiro de alho.
O futebol, também, só aos domingos?
Dizem, não sei. E lacrimejam pingos
de tédio, mau humor. Brincam (boatos)
que será proibido usar sapatos
de mais de mil cruzeiros. Mas Bellini
é passado pra trás? Ainda retine
o coro vibrantíssimo, profundo,
ao bravo capitão… Copa do Mundo,
vais-te tornando taça de amarguras.
Sairão do fel as seleções futuras?
Pois, se tal não bastasse, eis que o cowboy
tomba sem um disparo, e quase dói
ver que com Gary Cooper morre um pouco
do mito herói-pacato em mundo louco.
Magro, desajeitado, qualquer um
de nós se via nele, alto, em High Noon.
Outros informes, turvos ou cinzentos,
há por aí, mas salve, ó quatrocentos
milhões — mais o bilhão — em cobre fino!
(Buracos a tapar, de Juscelino.)
Desses dólares não verei a cor?
Estou satisfeito, seja como for,
ao ver, toda azul-claro, Marta Rocha,
qual princesa de um conto de carocha,
azulmente sorrindo para a vida.
Tanta gente a fitá-la, comovida,
pois a beleza é — ninguém se ilude —
uma promessa de beatitude.
Faltam-me espaço e tempo (meus algozes),
mas vou daqui saudar o Herbert Moses,
que, ao longo de trint’anos de ABI,
soube tornar o que era abacaxi
numa cesta de flores e de abraços,
unindo os desunidos, em seus laços.
Oh velhinho eletrônico, de intensa
palpitação sempre em favor da imprensa!
(Nem acabei a crônica, e, no vento,
vem sua carta de agradecimento.)
21/05/1961
com surpresa estampada nos focinhos,
estacam de repente, por decreto.
Não era o meu esporte predileto,
mas vejo que a cidade se esvazia,
hora a hora, de mais uma alegria,
um prazer, e só resta, no trabalho,
sentir da austeridade o cheiro de alho.
O futebol, também, só aos domingos?
Dizem, não sei. E lacrimejam pingos
de tédio, mau humor. Brincam (boatos)
que será proibido usar sapatos
de mais de mil cruzeiros. Mas Bellini
é passado pra trás? Ainda retine
o coro vibrantíssimo, profundo,
ao bravo capitão… Copa do Mundo,
vais-te tornando taça de amarguras.
Sairão do fel as seleções futuras?
Pois, se tal não bastasse, eis que o cowboy
tomba sem um disparo, e quase dói
ver que com Gary Cooper morre um pouco
do mito herói-pacato em mundo louco.
Magro, desajeitado, qualquer um
de nós se via nele, alto, em High Noon.
Outros informes, turvos ou cinzentos,
há por aí, mas salve, ó quatrocentos
milhões — mais o bilhão — em cobre fino!
(Buracos a tapar, de Juscelino.)
Desses dólares não verei a cor?
Estou satisfeito, seja como for,
ao ver, toda azul-claro, Marta Rocha,
qual princesa de um conto de carocha,
azulmente sorrindo para a vida.
Tanta gente a fitá-la, comovida,
pois a beleza é — ninguém se ilude —
uma promessa de beatitude.
Faltam-me espaço e tempo (meus algozes),
mas vou daqui saudar o Herbert Moses,
que, ao longo de trint’anos de ABI,
soube tornar o que era abacaxi
numa cesta de flores e de abraços,
unindo os desunidos, em seus laços.
Oh velhinho eletrônico, de intensa
palpitação sempre em favor da imprensa!
(Nem acabei a crônica, e, no vento,
vem sua carta de agradecimento.)
21/05/1961
1 006
Carlos Drummond de Andrade
Na Semana
As alegrias no Maracanã
que um Garrincha, a brincar, dá a seu fã!
De repente, porém, o big estádio,
seja diretamente ou pelo rádio,
dá é enfarte, ou chocho desengano
ao candidato que entra pelo cano.
— Por favor, minha filha (sofredora,
a voz dirige-se à escrutinadora):
um votinho pra mim naquela urna!
Não o deixe fugir…
Porém soturna
prossegue a votação; nem uma cédula
surge para consolo da alma crédula,
que milhões despendeu em papelicos,
faixas, almoços e outros paparicos.
— Ô diabo, será que nem eu mesmo
votei em mim?
Com cara de torresmo
bem frito, o pobre volta para casa
como quem baixa à sepultura rasa,
queixando-se à patroa, em desatino:
— E eu fui acreditar no Juscelino!
Muitos mais acreditam no Brizola,
e até tirarem isso da cachola…
Por enquanto, esse mágico de Oz
o que fez foi nos tirar o arroz.
Por falar em arroz, sabe que o açúcar
volta a sumir, tal qual a rima em úcar?
Com doçura ou sem ela, uma esperança:
afinal, esta é a Semana da Criança,
e quem nasceu primeiro, dia doze,
ganhou três mil pratinhas. Que não ouse
a Inflação ricanar: — Ano que vem,
deem-lhe um bilhão, e não esse vintém.
Vai chovendo lá fora. E me comove
um livro-sangue: O País do Não-Chove.
O poeta Homero Homem quis dizer
em verso claro — e disse — o velho doer
de penas nordestinas tão doídas
que de lembradas tornam-se esquecidas,
mas de novo precisam ser lembradas
e, por mão da poesia, resgatadas.
14/10/1962
que um Garrincha, a brincar, dá a seu fã!
De repente, porém, o big estádio,
seja diretamente ou pelo rádio,
dá é enfarte, ou chocho desengano
ao candidato que entra pelo cano.
— Por favor, minha filha (sofredora,
a voz dirige-se à escrutinadora):
um votinho pra mim naquela urna!
Não o deixe fugir…
Porém soturna
prossegue a votação; nem uma cédula
surge para consolo da alma crédula,
que milhões despendeu em papelicos,
faixas, almoços e outros paparicos.
— Ô diabo, será que nem eu mesmo
votei em mim?
Com cara de torresmo
bem frito, o pobre volta para casa
como quem baixa à sepultura rasa,
queixando-se à patroa, em desatino:
— E eu fui acreditar no Juscelino!
Muitos mais acreditam no Brizola,
e até tirarem isso da cachola…
Por enquanto, esse mágico de Oz
o que fez foi nos tirar o arroz.
Por falar em arroz, sabe que o açúcar
volta a sumir, tal qual a rima em úcar?
Com doçura ou sem ela, uma esperança:
afinal, esta é a Semana da Criança,
e quem nasceu primeiro, dia doze,
ganhou três mil pratinhas. Que não ouse
a Inflação ricanar: — Ano que vem,
deem-lhe um bilhão, e não esse vintém.
Vai chovendo lá fora. E me comove
um livro-sangue: O País do Não-Chove.
O poeta Homero Homem quis dizer
em verso claro — e disse — o velho doer
de penas nordestinas tão doídas
que de lembradas tornam-se esquecidas,
mas de novo precisam ser lembradas
e, por mão da poesia, resgatadas.
14/10/1962
1 042
Carlos Drummond de Andrade
Brinquedos
Olha só as moedinhas de 50,
de 200,
500,
talvez de 5000.
Um jogo na calçada já se inventa
e diverte os garotos do Brasil
sem a menor despesa ou prejuízo,
pois, se rola no ralo tal dinheiro,
ninguém que o perca ficará mais liso,
embora seja quase verdadeiro.
Eu por mim guardo todas pra meu neto
menorzito, sem cofre nem escrínio.
Brincará no escritório, mui quieto,
com esses brinquedinhos de alumínio.
Outros brinquedos, mas que cospem fogo,
dos bolsos dos senhores deputados
tira Bilac, a rogo
dos instintos vitais tão desprezados.
Quer detonar o verbo lá na Câmara?
Faça, mas não detone aquela tâmara
de que o amigo tem estoque na algibeira
à guisa de eloquência derradeira.
Parlamento, excelência
— não se zangue —
não pode ser saloon de bang-bang.
(Seria tão melhor que esse desarme
não parasse no coldre, e que o gendarme
rigoroso, eficaz, de cada qual
consistisse no impulso fraternal
ante meu semelhante, sobre as siglas
do desentendimento partidário,
sobre a diversidade de narizes,
projetos, diretrizes.)
E esse outro brinquedo ameaçado,
o fardão diplomático? pomposa
fantasia fugida à passarela
— diz Vasconcelos Torres no Senado —,
carece ser guardada no baú
do Império
Serrano
e ser usada uma só vez por ano,
sob pena e castigo de andar nu.
Meu receio, caríssimo Athayde,
é que o fero gesto chegue à Academia,
cassando ao espadim
o grato retintim
e os fardões arquivando no cabide.
E se mais além? Se os uniformes
garbosos, medalhosos, são levados
a um saudoso Museu da Indumentária,
que conte da vaidade a sorte vária?
Sem galas e galões, a vida
fica mais triste, menos colorida
a passagem do homem sobre a Terra.
Ai, tenho medo
de perdermos a ideia de brinquedo.
11/04/1965
de 200,
500,
talvez de 5000.
Um jogo na calçada já se inventa
e diverte os garotos do Brasil
sem a menor despesa ou prejuízo,
pois, se rola no ralo tal dinheiro,
ninguém que o perca ficará mais liso,
embora seja quase verdadeiro.
Eu por mim guardo todas pra meu neto
menorzito, sem cofre nem escrínio.
Brincará no escritório, mui quieto,
com esses brinquedinhos de alumínio.
Outros brinquedos, mas que cospem fogo,
dos bolsos dos senhores deputados
tira Bilac, a rogo
dos instintos vitais tão desprezados.
Quer detonar o verbo lá na Câmara?
Faça, mas não detone aquela tâmara
de que o amigo tem estoque na algibeira
à guisa de eloquência derradeira.
Parlamento, excelência
— não se zangue —
não pode ser saloon de bang-bang.
(Seria tão melhor que esse desarme
não parasse no coldre, e que o gendarme
rigoroso, eficaz, de cada qual
consistisse no impulso fraternal
ante meu semelhante, sobre as siglas
do desentendimento partidário,
sobre a diversidade de narizes,
projetos, diretrizes.)
E esse outro brinquedo ameaçado,
o fardão diplomático? pomposa
fantasia fugida à passarela
— diz Vasconcelos Torres no Senado —,
carece ser guardada no baú
do Império
Serrano
e ser usada uma só vez por ano,
sob pena e castigo de andar nu.
Meu receio, caríssimo Athayde,
é que o fero gesto chegue à Academia,
cassando ao espadim
o grato retintim
e os fardões arquivando no cabide.
E se mais além? Se os uniformes
garbosos, medalhosos, são levados
a um saudoso Museu da Indumentária,
que conte da vaidade a sorte vária?
Sem galas e galões, a vida
fica mais triste, menos colorida
a passagem do homem sobre a Terra.
Ai, tenho medo
de perdermos a ideia de brinquedo.
11/04/1965
902
Carlos Drummond de Andrade
O Pagamento
Quando é que sai o pagamento?
O pagamento está difícil.
Quando se fará a folha
e se construirá a máquina
que fará o cálculo e os descontos?
E quando se fabricará o dinheiro,
espécie nova de dinheiro,
para fazer o pagamento?
Quem receberá no primeiro lote
quem no segundo e no terceiro
se antes de tudo vier a morte
poupar serviço ao tesoureiro?
O pagamento está difícil.
A espera, quem é que paga a espera
e os extraordinários da esperança
e os serviços (esquecidos) dos pais
e dos avós e dos antiquérrimos?
O pagamento está difícil.
Que contador porá em dia as contas
e qual será o seu critério?
Irá medir produtividade
assiduidade, pequenos méritos
oblíquas faltas, imperfeitos
serões, tarefas de má vontade?
Só sairá o pagamento
depois do inquérito concluído?
O pagamento está difícil.
Nem um simples apontamento
foi tomado, não há controle
e direção?
Ou não houve serviço nunca,
ninguém jamais se empregou
nem patrões existiram nem
saiu produção de nada?
Não houve encomenda de nada
na fábrica inexistente,
e ninguém podia tomar nota
alguma em nenhum escritório?
Não cabe pois reclamar
nem salário nem horas extras
nem demora ou juros de mora?
O pagamento está difícil.
Difícil é o pagamento
ou conceber a estranha folha
que nunca sai
e saindo, não se registra
e registrada, não se paga
e pagando, não vale a cédula
e valendo, o vento a carrega
e carregando, foi bem feito
se não havia o que pagar?
O pagamento está difícil
porque não há com que pagar
o que não era de ser pago
e contudo está-se cobrando?
cobrando com unhas, gritos
com bater pé, suplicar,
exigir latir bramir
chorar,
de lei na mão, uma lei feita
só de parágrafos riscados
outra vez escritos, outra vez
riscados escritos riscados
etc.?
O pagamento está difícil
ou já foi feito antes de tudo
há 40 anos, à sorrelfa,
que ninguém lembra ou se acaso lembra
é que o dinheiro era falso
era marcado era maldito
era por todos refugado?
O pagamento está difícil?
Depois de tão anunciado,
solenemente prometido,
foge o caixa, são massacrados
os condutores do dinheiro
tudo é furtado num segundo
e o próprio assalto é simulado?
Some a ideia de pagamento
de tal sorte que ninguém mais
lhe conhece o significado
e os que reclamam não reclamam
com intenção de receber
mas por força do triste hábito?
e tornam-se mudos
de voz e gesto
e se esquecem todos
de reclamar e de adiar
e de negar?
Então, de todos olvidado
não mais pensado ou referido
nem na lousa dos dicionários
o pagamento — afinal — saiu.
Para cada um e seu irmão,
seu amigo e seu inimigo,
seu desconhecido, seu antípoda,
seu ascendente e descendente,
seu curió demissionário, seu gato escaldado, seu cachorro caduco,
suas plantinhas de vaso (sem sol) da janela,
seu coração
de válvulas paradas
seu coração
entranhado de cisco
seu coração
já sem forma de
coração.
O pagamento total geral
saiu! saiu!
o pagamento sem escrita
sem cifrão
sem limitação
sem explicação
sem razão
sem código
sem termo
saiu.
Não havia quem recebesse.
O pagamento está difícil.
Quando se fará a folha
e se construirá a máquina
que fará o cálculo e os descontos?
E quando se fabricará o dinheiro,
espécie nova de dinheiro,
para fazer o pagamento?
Quem receberá no primeiro lote
quem no segundo e no terceiro
se antes de tudo vier a morte
poupar serviço ao tesoureiro?
O pagamento está difícil.
A espera, quem é que paga a espera
e os extraordinários da esperança
e os serviços (esquecidos) dos pais
e dos avós e dos antiquérrimos?
O pagamento está difícil.
Que contador porá em dia as contas
e qual será o seu critério?
Irá medir produtividade
assiduidade, pequenos méritos
oblíquas faltas, imperfeitos
serões, tarefas de má vontade?
Só sairá o pagamento
depois do inquérito concluído?
O pagamento está difícil.
Nem um simples apontamento
foi tomado, não há controle
e direção?
Ou não houve serviço nunca,
ninguém jamais se empregou
nem patrões existiram nem
saiu produção de nada?
Não houve encomenda de nada
na fábrica inexistente,
e ninguém podia tomar nota
alguma em nenhum escritório?
Não cabe pois reclamar
nem salário nem horas extras
nem demora ou juros de mora?
O pagamento está difícil.
Difícil é o pagamento
ou conceber a estranha folha
que nunca sai
e saindo, não se registra
e registrada, não se paga
e pagando, não vale a cédula
e valendo, o vento a carrega
e carregando, foi bem feito
se não havia o que pagar?
O pagamento está difícil
porque não há com que pagar
o que não era de ser pago
e contudo está-se cobrando?
cobrando com unhas, gritos
com bater pé, suplicar,
exigir latir bramir
chorar,
de lei na mão, uma lei feita
só de parágrafos riscados
outra vez escritos, outra vez
riscados escritos riscados
etc.?
O pagamento está difícil
ou já foi feito antes de tudo
há 40 anos, à sorrelfa,
que ninguém lembra ou se acaso lembra
é que o dinheiro era falso
era marcado era maldito
era por todos refugado?
O pagamento está difícil?
Depois de tão anunciado,
solenemente prometido,
foge o caixa, são massacrados
os condutores do dinheiro
tudo é furtado num segundo
e o próprio assalto é simulado?
Some a ideia de pagamento
de tal sorte que ninguém mais
lhe conhece o significado
e os que reclamam não reclamam
com intenção de receber
mas por força do triste hábito?
e tornam-se mudos
de voz e gesto
e se esquecem todos
de reclamar e de adiar
e de negar?
Então, de todos olvidado
não mais pensado ou referido
nem na lousa dos dicionários
o pagamento — afinal — saiu.
Para cada um e seu irmão,
seu amigo e seu inimigo,
seu desconhecido, seu antípoda,
seu ascendente e descendente,
seu curió demissionário, seu gato escaldado, seu cachorro caduco,
suas plantinhas de vaso (sem sol) da janela,
seu coração
de válvulas paradas
seu coração
entranhado de cisco
seu coração
já sem forma de
coração.
O pagamento total geral
saiu! saiu!
o pagamento sem escrita
sem cifrão
sem limitação
sem explicação
sem razão
sem código
sem termo
saiu.
Não havia quem recebesse.
1 468
Carlos Drummond de Andrade
Correio Municipal
De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?
Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.
A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.
Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,
dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?
Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.
Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.
Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.
De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).
O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.
Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.
Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.
Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.
Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.
Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)
Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.
Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.
As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?
Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.
A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.
Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,
dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?
Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.
Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.
Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.
De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).
O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.
Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.
Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.
Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.
Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.
Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)
Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.
Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.
As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 091
Carlos Drummond de Andrade
Sete Dias
Ó Musa semanária, que divisas
de bom e de gostoso, em meio a tanta
escassez de alegrias e divisas
que já ninguém repara nem se espanta?
Chegou Susan Hayward, porém não veio
essa amada exemplar que encomendamos
ao destino maroto, e é pobre o veio
de nossa fantasia, haste sem ramos.
Adoramos a Aída uma outra vez
(glamorizada) no Municipal.
Contemporânea do Canal de Suez,
se a leva o Egito, não faria mal.
O Exim Bank, olalá, chove dinheiro
muito oportuno, que anda a sorte aziaga.
Hipotenso anda o pobre do cruzeiro?
Sobe a quatro cruzeiros a “bisnaga”.
Tão bonitos, os Bancos decorados
ao estilo moderno! Mas destoa
ver à margem, sem banco, os namorados
de Rodrigo de Freitas (a lagoa).
Uma grave questão se nos depara
nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno?
Calor e frio, juntos, mesma cara…
Que vestido, capote, blusa ou terno?
Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há. Guimarães Rosa
em seu Grande Sertão traça Veredas.
Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá, e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias.
O mais são tristurinhas cotidianas
que a gente ilude como pode, ou mata.
Entre buritizais e sagaranas,
ó vida, és como o antílope na mata.
Mais não digo, leitora, que não sinto
de tua parte o mínimo interesse,
nem aceitas meus braços por teu cinto…
— “Mas que sujeito, que cronista é esse?!”
05/08/1956
de bom e de gostoso, em meio a tanta
escassez de alegrias e divisas
que já ninguém repara nem se espanta?
Chegou Susan Hayward, porém não veio
essa amada exemplar que encomendamos
ao destino maroto, e é pobre o veio
de nossa fantasia, haste sem ramos.
Adoramos a Aída uma outra vez
(glamorizada) no Municipal.
Contemporânea do Canal de Suez,
se a leva o Egito, não faria mal.
O Exim Bank, olalá, chove dinheiro
muito oportuno, que anda a sorte aziaga.
Hipotenso anda o pobre do cruzeiro?
Sobe a quatro cruzeiros a “bisnaga”.
Tão bonitos, os Bancos decorados
ao estilo moderno! Mas destoa
ver à margem, sem banco, os namorados
de Rodrigo de Freitas (a lagoa).
Uma grave questão se nos depara
nesta fímbria de agosto: foi-se o inverno?
Calor e frio, juntos, mesma cara…
Que vestido, capote, blusa ou terno?
Uma semana igual às outras: prosa,
entretanto (não vamos rasgar sedas),
tal como outra não há. Guimarães Rosa
em seu Grande Sertão traça Veredas.
Riobaldo e Diadorim bebem na flor
de gravatá, e vão vivendo estórias
em que a morte redoura, duro amor,
a perfeição de uma arte sem escórias.
O mais são tristurinhas cotidianas
que a gente ilude como pode, ou mata.
Entre buritizais e sagaranas,
ó vida, és como o antílope na mata.
Mais não digo, leitora, que não sinto
de tua parte o mínimo interesse,
nem aceitas meus braços por teu cinto…
— “Mas que sujeito, que cronista é esse?!”
05/08/1956
576
Carlos Drummond de Andrade
Domicílio
... O apartamento abria
janelas para o mundo. Crianças vinham
colher na maresia essas notícias
da vida por viver ou da inconsciente
saudade de nós mesmos. A pobreza
da terra era maior entre os metais
que a rua misturava a feios corpos,
duvidosos, na pressa. E do terraço
em solitude os ecos refluíam
e cada exílio em muitos se tornava
e outra cidade fora da cidade
na garra de um anzol ia subindo,
adunca pescaria, mal difuso,
problema de existir, amor sem uso.
janelas para o mundo. Crianças vinham
colher na maresia essas notícias
da vida por viver ou da inconsciente
saudade de nós mesmos. A pobreza
da terra era maior entre os metais
que a rua misturava a feios corpos,
duvidosos, na pressa. E do terraço
em solitude os ecos refluíam
e cada exílio em muitos se tornava
e outra cidade fora da cidade
na garra de um anzol ia subindo,
adunca pescaria, mal difuso,
problema de existir, amor sem uso.
1 414
Carlos Drummond de Andrade
Caso do Vestido
Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego ?
Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.
Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?
Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.
Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.
Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.
O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.
Nossa mãe, esse vestido,
tanta renda, esse segredo!
Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.
Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.
E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,
se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,
chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,
me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,
mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.
Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,
beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.
Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,
me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,
que tivesse paciência
e fosse dormir com êle. . .
Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.
Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.
Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.
Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.
Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.
Mas posso ficar com êle
se a senhora fizer gosto,
só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.
Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.
Olhei para a dona ruim,
Os olhos dela gozavam.
O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,
mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.
Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei. .. disse que sim.
Saí pensando na morte,
mas a morte não chegava.
Andei pelas cinco ruas.
passei ponte, passei rio,
visitei vossos parentes,
não comia, não falava,
tive uma febre terça,
mas a morte não chegava.
Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca.
perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,
minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,
minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.
Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.
Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,
pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.
Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido;
que não sei onde êle anda.
Mas te dou este vestido,
última peça de luxo
que guardei como lembrança
daquele dia de cobra,
da maior humilhação.
Eu não tinha amor por êle,
ao depois amor pegou.
Mas então êle enjoado
confessou que só gostava
de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara
me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.
Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito
de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.
Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão
Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?
quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?
quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?
quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?
Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.
Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.
Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada
vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,
mal reparou no vestido,
e disse apenas: Mulher,
põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, êle se assentou,
comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,
comia meio de lado
e nem estava mais velho.
O barulho da comida
na boca, me acalentava,
me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito
de que tudo foi um sonho,
vestido não há. . . nem nada.
Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.
vestido, naquele prego ?
Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.
Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?
Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.
Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.
Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.
O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.
Nossa mãe, esse vestido,
tanta renda, esse segredo!
Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.
Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.
E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,
se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,
chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,
me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,
mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.
Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,
beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.
Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,
me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,
que tivesse paciência
e fosse dormir com êle. . .
Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.
Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.
Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.
Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.
Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.
Mas posso ficar com êle
se a senhora fizer gosto,
só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.
Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.
Olhei para a dona ruim,
Os olhos dela gozavam.
O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,
mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.
Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei. .. disse que sim.
Saí pensando na morte,
mas a morte não chegava.
Andei pelas cinco ruas.
passei ponte, passei rio,
visitei vossos parentes,
não comia, não falava,
tive uma febre terça,
mas a morte não chegava.
Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca.
perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,
minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,
minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.
Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.
Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,
pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.
Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido;
que não sei onde êle anda.
Mas te dou este vestido,
última peça de luxo
que guardei como lembrança
daquele dia de cobra,
da maior humilhação.
Eu não tinha amor por êle,
ao depois amor pegou.
Mas então êle enjoado
confessou que só gostava
de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,
fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara
me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,
me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,
bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,
dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.
Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito
de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.
Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão
Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?
quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?
quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?
quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?
Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.
Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.
Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada
vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,
mal reparou no vestido,
e disse apenas: Mulher,
põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, êle se assentou,
comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,
comia meio de lado
e nem estava mais velho.
O barulho da comida
na boca, me acalentava,
me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito
de que tudo foi um sonho,
vestido não há. . . nem nada.
Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.
2 041
Carlos Drummond de Andrade
O Mito
Sequer conheço Fulana,
vejo Fulana tão curto,
Fulana jamais me vê,
mas como eu amo Fulana.
Amarei mesmo Fulana?
ou é ilusão de sexo?
Talvez a linha do busto,
da perna, talvez do ombro.
Amo Fulana tão forte,
amo Fulana tão dor,
que todo me despedaço
e choro, menino, choro.
Mas Fulana vai se rindo. . .
Vejam Fulana dançando.
No esporte ela está sozinha.
No bar, quão acompanhada.
E Fulana diz mistérios,
diz marxismo, rimmel, gás,
Fulana me bombardeia,
no entanto sequer me vê.
E sequer nos compreendemos.
É dama de alta fidúcia,
tem latifúndios, iates,
sustenta cinco mil pobres.
Menos eu... que de orgulhoso
me basto pensando nela.
Pensando com unha, plasma.
fúria, gilete, desânimo.
Amor tão disparatado.
Desbaratado é que é...
Nunca a sentei no meu colo
nem vi pela fechadura.
Mas eu sei quanto me custa
manter esse gelo digno,
essa indiferença gaia
e não gritar: Vem, Fulana!
Como deixar de invadir
sua casa de mil fechos
e sua veste arrancando
mostrá-la depois ao povo
tal como é ou deve ser:
branca, intacta, neutra, rara.
feita de pedra translúcida,
de ausência e ruivos ornatos.
Mas como será Fulana,
digamos, no seu banheiro?
Só de pensar em seu corpo
o meu se punge... Pois sim.
Porque preciso do corpo
para mendigar Fulana,
rogar-lhe que pise em mim,
que me maltrate... Assim não.
Mas Fulana será gente?
Estará somente em ópera?
Será figura de livro?
Será bicho? Saberei?
Não saberei? Só pegando,
pedindo: Dona, desculpe...
O seu vestido esconde algo?
tem coxas reais? cintura?
Fulana às vezes existe
demais; até me apavora.
Vou sozinho pela rua,
eis que Fulana me roça.
Olho: não tem mais Fulana.
Povo se rindo de mim.
(Na curva do seu sapato
o calcanhar rosa e puro.)
E eu insonte, pervagando,
em ruas de peixe e lágrima.
Ao's operários: A vistes ?
Não, dizem os operários.
Aos boiadeiros: A vistes?
Dizem não os boiadeiros.
Acaso a vistes, doutores?
Mas eles respondem: Não.
Pois é possível? pergunto
aos jornais: todos calados.
Não sabemos se Fulana
passou. De nada sabemos.
E são onze horas da noite,
são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulana
talvez dance no cassino
ou, e será mais provável,
talvez beije no Leblon,
talvez se banhe na Cólquida;
talvez se pinte no espelho
do táxi; talvez aplauda
certa peça miserável
num teatro barroco e louco;
talvez cruze a perna e beba,
talvez corte figurinhas,
talvez fume de piteira,
talvez ria ou talvez minta.
Esse insuportável riso
de Fulana de mil dentes
(anúncio de dentifrício)
é faca me escavacando.
Me ponho a correr na praia.
Venha o mar! Venham cações!
Que o farol me denuncie!
Que a fortaleza me ataque!
Quero morrer sufocado,
quero das mortes a hedionda,
quero voltar repelido
pela salsugem do largo,
já sem cabeça e sem perna,
à porta do apartamento,
para feder: de propósito,
somente para Fulana.
E Fulana apelará
para os frascos de perfume
Abre-os todos: mas de todos
eu salto, e ofendo, e sujo.
E Fulana correrá
(nem se cobriu: vai chispando),
talvez se atire lá do alto
Seu grito é: socorro! e deus.
Mas não quero nada disso.
Para que chatear Fulana?
Pancada na sua nuca
na minha é que vai doer.
E daí não sou criança.
Fulana estuda meu rosto.
Coitado: de raça branca.
Tadinho: tinha gravata.
Já morto, me quererá?
Esconjuro, se é necrófila...
Fulana é vida, ama as flores,
as artérias e as debêntures.
Sei que jamais me perdoara
matar-me para servi-la.
Fulana quer homens fortes,
couraçados, invasores.
Fulana é toda dinâmica,
tem um motor na barriga.
Suas unhas são elétricas,
seus beijos refrigerados,
desinfetados, gravados
em máquina multilite.
Fulana, como é sadia!
Os enfermos somos nós
Sou eu, o poeta precário
que fêz de Fulana um mito
nutrindo-me de Petrarca,
Ronsard, Camões e Capim;
que a sei embebida em leite,
carne, tomate, ginástica,
e lhe colo metafísicas,
enigmas, causas primeiras.
Mas, se tentasse construir
outra Fulana que não
essa de burguês sorriso
e de tão burro esplendor?
Mudo-lhe o nome; recorto-lhe
um traje de transparência;
já perde a carência humana;
e bato-a; de tirar sangue.
E lhe dou todas as faces
de meu sonho que especula;
e abolimos a cidade
já sem peso e nitidez.
E vadeamos a ciência,
mar de hipóteses. A lua
fica sendo nosso esquema
de um território mais justo.
E colocamos os dados
de um mundo sem classe e imposto;
e nesse mundo instalamos
os nossos irmãos vingados.
E nessa fase gloriosa,
de contradições extintas,
eu e Fulana, abrasados,
queremos. . . que mais queremos ?
E digo a Fulana: Amiga,
afinal nos compreendemos.
Já não sofro, já não brilhas,
mas somos a mesma coisa.
(Uma coisa tão diversa
da que pensava que fôssemos.)
vejo Fulana tão curto,
Fulana jamais me vê,
mas como eu amo Fulana.
Amarei mesmo Fulana?
ou é ilusão de sexo?
Talvez a linha do busto,
da perna, talvez do ombro.
Amo Fulana tão forte,
amo Fulana tão dor,
que todo me despedaço
e choro, menino, choro.
Mas Fulana vai se rindo. . .
Vejam Fulana dançando.
No esporte ela está sozinha.
No bar, quão acompanhada.
E Fulana diz mistérios,
diz marxismo, rimmel, gás,
Fulana me bombardeia,
no entanto sequer me vê.
E sequer nos compreendemos.
É dama de alta fidúcia,
tem latifúndios, iates,
sustenta cinco mil pobres.
Menos eu... que de orgulhoso
me basto pensando nela.
Pensando com unha, plasma.
fúria, gilete, desânimo.
Amor tão disparatado.
Desbaratado é que é...
Nunca a sentei no meu colo
nem vi pela fechadura.
Mas eu sei quanto me custa
manter esse gelo digno,
essa indiferença gaia
e não gritar: Vem, Fulana!
Como deixar de invadir
sua casa de mil fechos
e sua veste arrancando
mostrá-la depois ao povo
tal como é ou deve ser:
branca, intacta, neutra, rara.
feita de pedra translúcida,
de ausência e ruivos ornatos.
Mas como será Fulana,
digamos, no seu banheiro?
Só de pensar em seu corpo
o meu se punge... Pois sim.
Porque preciso do corpo
para mendigar Fulana,
rogar-lhe que pise em mim,
que me maltrate... Assim não.
Mas Fulana será gente?
Estará somente em ópera?
Será figura de livro?
Será bicho? Saberei?
Não saberei? Só pegando,
pedindo: Dona, desculpe...
O seu vestido esconde algo?
tem coxas reais? cintura?
Fulana às vezes existe
demais; até me apavora.
Vou sozinho pela rua,
eis que Fulana me roça.
Olho: não tem mais Fulana.
Povo se rindo de mim.
(Na curva do seu sapato
o calcanhar rosa e puro.)
E eu insonte, pervagando,
em ruas de peixe e lágrima.
Ao's operários: A vistes ?
Não, dizem os operários.
Aos boiadeiros: A vistes?
Dizem não os boiadeiros.
Acaso a vistes, doutores?
Mas eles respondem: Não.
Pois é possível? pergunto
aos jornais: todos calados.
Não sabemos se Fulana
passou. De nada sabemos.
E são onze horas da noite,
são onze rodas de chope,
onze vezes dei a volta
de minha sede; e Fulana
talvez dance no cassino
ou, e será mais provável,
talvez beije no Leblon,
talvez se banhe na Cólquida;
talvez se pinte no espelho
do táxi; talvez aplauda
certa peça miserável
num teatro barroco e louco;
talvez cruze a perna e beba,
talvez corte figurinhas,
talvez fume de piteira,
talvez ria ou talvez minta.
Esse insuportável riso
de Fulana de mil dentes
(anúncio de dentifrício)
é faca me escavacando.
Me ponho a correr na praia.
Venha o mar! Venham cações!
Que o farol me denuncie!
Que a fortaleza me ataque!
Quero morrer sufocado,
quero das mortes a hedionda,
quero voltar repelido
pela salsugem do largo,
já sem cabeça e sem perna,
à porta do apartamento,
para feder: de propósito,
somente para Fulana.
E Fulana apelará
para os frascos de perfume
Abre-os todos: mas de todos
eu salto, e ofendo, e sujo.
E Fulana correrá
(nem se cobriu: vai chispando),
talvez se atire lá do alto
Seu grito é: socorro! e deus.
Mas não quero nada disso.
Para que chatear Fulana?
Pancada na sua nuca
na minha é que vai doer.
E daí não sou criança.
Fulana estuda meu rosto.
Coitado: de raça branca.
Tadinho: tinha gravata.
Já morto, me quererá?
Esconjuro, se é necrófila...
Fulana é vida, ama as flores,
as artérias e as debêntures.
Sei que jamais me perdoara
matar-me para servi-la.
Fulana quer homens fortes,
couraçados, invasores.
Fulana é toda dinâmica,
tem um motor na barriga.
Suas unhas são elétricas,
seus beijos refrigerados,
desinfetados, gravados
em máquina multilite.
Fulana, como é sadia!
Os enfermos somos nós
Sou eu, o poeta precário
que fêz de Fulana um mito
nutrindo-me de Petrarca,
Ronsard, Camões e Capim;
que a sei embebida em leite,
carne, tomate, ginástica,
e lhe colo metafísicas,
enigmas, causas primeiras.
Mas, se tentasse construir
outra Fulana que não
essa de burguês sorriso
e de tão burro esplendor?
Mudo-lhe o nome; recorto-lhe
um traje de transparência;
já perde a carência humana;
e bato-a; de tirar sangue.
E lhe dou todas as faces
de meu sonho que especula;
e abolimos a cidade
já sem peso e nitidez.
E vadeamos a ciência,
mar de hipóteses. A lua
fica sendo nosso esquema
de um território mais justo.
E colocamos os dados
de um mundo sem classe e imposto;
e nesse mundo instalamos
os nossos irmãos vingados.
E nessa fase gloriosa,
de contradições extintas,
eu e Fulana, abrasados,
queremos. . . que mais queremos ?
E digo a Fulana: Amiga,
afinal nos compreendemos.
Já não sofro, já não brilhas,
mas somos a mesma coisa.
(Uma coisa tão diversa
da que pensava que fôssemos.)
1 341
Carlos Drummond de Andrade
O Céu Livre da Fazenda
Das loucas festas na fazenda da Jaguara
não resta mais nem um cristal trincado.
Matas e lagoas não recordam
o que ali se bebeu e se dançou
enquanto o antigo dono Antônio de Abreu Guimarães
carpia em penitência portuguesa seus pecados
de contrabandista de ouro e diamantes.
As obras pias que a Jaguara devia sustentar
morreram com os festejos. Tempos rotos.
Na torre da igreja da fazenda
a suinara é o epílogo de tudo.
A ganância e a vaidade se ausentaram
destes sítios. Nem mesmo ingleses
escoram mais galerias de Morro Velho com madeiras
cortadas na Jaguara. A natureza
recompõe seus prestígios onde o homem
parou de depredar. A garça branca
pousa delicada nos espelhos d’água remansosa, onde a presença
não se percebe mais da garça rósea.
E vem o gaturamo cantarilho
nas roçadas de milho, o quero-quero
circunvoando juncos. Multicor,
a plumagem do socozinho vai cruzando
o voo horizontal das jaçanãs.
Repara, homem do asfalto, a seriema
a preparar, no capim alto, seus disfarces,
e a corruíra-do-brejo, a viuvinha,
o lenhador-de-olho-branco, a saracura,
todas essas aves que só existem
nas gravuras dos livros, na empalhada
vitrina dos museus... porque matamos
o que era vida alada em nossa volta.
Ou não repares nada. Tenho medo
de convidar-te a ver o livre espaço
da Jaguara, e teu instinto predatório
novamente açular-se, tua fome
de frequentador de restaurante cinco estrelas
cobiçar a carne tenra e não sabida
que neste lugar-refúgio se compraz
em ter forma voante e livre-azul.
Neste lugar habito em pensamento
quando Marcus Vinícius e Marco Antônio
me emprestam seus binóculos científicos
e apontam para o sabiá-laranjeira
construindo seu ninho; o carcará
metuendo, que não assusta colibris;
e cento e oito mais espécies que aqui vivem
em seus ecossistemas primitivos,
sobrantes por milagre.
Ouço, na gravação, suas linguagens.
Estão perto de mim, reis-fazendeiros
das plantas e dos bichos-alimento.
Já não é a Jaguara voluptuosa,
mas o simples refúgio, ilha de vida,
enquanto a vida nega-se a si mesma
na exacerbação das técnicas de lucro.
Pequeno paraíso vegetal
ou resto de paraíso... à sombra austera
da torre onde a suinara tem sua noite.
não resta mais nem um cristal trincado.
Matas e lagoas não recordam
o que ali se bebeu e se dançou
enquanto o antigo dono Antônio de Abreu Guimarães
carpia em penitência portuguesa seus pecados
de contrabandista de ouro e diamantes.
As obras pias que a Jaguara devia sustentar
morreram com os festejos. Tempos rotos.
Na torre da igreja da fazenda
a suinara é o epílogo de tudo.
A ganância e a vaidade se ausentaram
destes sítios. Nem mesmo ingleses
escoram mais galerias de Morro Velho com madeiras
cortadas na Jaguara. A natureza
recompõe seus prestígios onde o homem
parou de depredar. A garça branca
pousa delicada nos espelhos d’água remansosa, onde a presença
não se percebe mais da garça rósea.
E vem o gaturamo cantarilho
nas roçadas de milho, o quero-quero
circunvoando juncos. Multicor,
a plumagem do socozinho vai cruzando
o voo horizontal das jaçanãs.
Repara, homem do asfalto, a seriema
a preparar, no capim alto, seus disfarces,
e a corruíra-do-brejo, a viuvinha,
o lenhador-de-olho-branco, a saracura,
todas essas aves que só existem
nas gravuras dos livros, na empalhada
vitrina dos museus... porque matamos
o que era vida alada em nossa volta.
Ou não repares nada. Tenho medo
de convidar-te a ver o livre espaço
da Jaguara, e teu instinto predatório
novamente açular-se, tua fome
de frequentador de restaurante cinco estrelas
cobiçar a carne tenra e não sabida
que neste lugar-refúgio se compraz
em ter forma voante e livre-azul.
Neste lugar habito em pensamento
quando Marcus Vinícius e Marco Antônio
me emprestam seus binóculos científicos
e apontam para o sabiá-laranjeira
construindo seu ninho; o carcará
metuendo, que não assusta colibris;
e cento e oito mais espécies que aqui vivem
em seus ecossistemas primitivos,
sobrantes por milagre.
Ouço, na gravação, suas linguagens.
Estão perto de mim, reis-fazendeiros
das plantas e dos bichos-alimento.
Já não é a Jaguara voluptuosa,
mas o simples refúgio, ilha de vida,
enquanto a vida nega-se a si mesma
na exacerbação das técnicas de lucro.
Pequeno paraíso vegetal
ou resto de paraíso... à sombra austera
da torre onde a suinara tem sua noite.
1 295
Carlos Drummond de Andrade
Ataíde À Venda?
— Quanto quer pelo Ataíde?
fala ao padre lazarista
o emissário paulista
de olhar guloso na “Ceia”
que na aguda serrania
ilumina qual candeia
as ruínas do Caraça.
Dou duzentos, dou quinhentos,
oitocentos mil cruzeiros
por esse quadro… — Não, não!
— Já que estou com a mão na massa,
reforço meus argumentos,
ofereço-lhe um milhão.
Pintura aqui nesses altos,
na friúra desolada
destas rocas, destes longes,
não tem sentido nem vez.
Só peregrinos e monges
podem curti-la. Melhor
é levá-la quanto antes
para o conforto envolvente
do Palácio Bandeirantes.
— Já disse: não. — Ah, desculpe,
prefere que se desfaça
a obra de Mestre Manuel
no desgaste que lhe inflige
o dente roaz do Tempo
em sua faina cruel?
Quer ver Cristo desbotado,
carcomido, atomizado,
mancha pálida no pano?
Seus bem-amados discípulos,
sua mesa, seu pão ázimo,
sua colação simbólica,
sua postura litúrgica,
e sua mensagem mística,
sumindo, pasto de traça,
de cupim e de pobreza,
neste sem-fim do Caraça?
— Deus é grande… — Deus ajuda
a quem, esperto, madruga.
E daí, meu padre, atente
que milagre brasileiro
anda bastante vasqueiro.
Pegue logo esse dinheiro
e com ele faça obras,
obras, obras e mais obras
que a casa do Irmão Lourenço
está pedindo, e que, feitas,
serão atrativo imenso
à multidão de turistas.
Bote piscina, playground,
cassino — um “Monte Cassino”,
bote som sofisticado
com Raquel Welch e quejandas
bailando pelas varandas!
— Jamais… — Jamais? Que pecado,
recusar a minha oferta!
Eis que outro sacerdote,
de mansinho e de oiça alerta,
já sonhando com um caixote
só de notas de quinhentos
abarrotando a arca murcha
da magra comunidade,
puxa o primo pela manga,
sussurra-lhe: — É bom negócio.
Deus decerto não se zanga,
se vige a necessidade.
Os dois discutem: — Não, não.
— Ora essa, meu irmão.
Vai-se a pintura, mas fica
a nossa vida segura.
Já se criam dois partidos
entre os padres pressionados
e já novos compradores
em enxames voadores
e propostas tentadoras
ferem o doce silêncio
em que, à tarde, ressoa
a melodia dos poemas
de Henriqueta Lisboa
sobre a vívida montanha.
Vende, não vende. Vendemos?
Que vale ter Ataíde
e não ter teto e parede?
Ser um sacrário de arte,
a mais pura arte mineira,
orgulho do nosso Estado
e da alma brasileira,
sem ter como restaurar
a velha casa de ensino
onde ensinamos a amar
as criações do passado?
Debatem os lazaristas
o grave dilema, enquanto
Manuel da Costa Ataíde
e sua tela, suprema
esperança de resgate
da indigência caracense,
viram tema de comércio.
Corre, corre, Aureliano,
vai, Conselho de Cultura,
depressa, Assembleia, vai,
salva os padres agoniados
da prontidão que os achaca,
e salvando-os, preservando-os
da mercantil ameaça,
salva a arte, salva a glória,
salva o máximo tesouro,
a riqueza que não passa:
Cristo-Ceia do Caraça!
fala ao padre lazarista
o emissário paulista
de olhar guloso na “Ceia”
que na aguda serrania
ilumina qual candeia
as ruínas do Caraça.
Dou duzentos, dou quinhentos,
oitocentos mil cruzeiros
por esse quadro… — Não, não!
— Já que estou com a mão na massa,
reforço meus argumentos,
ofereço-lhe um milhão.
Pintura aqui nesses altos,
na friúra desolada
destas rocas, destes longes,
não tem sentido nem vez.
Só peregrinos e monges
podem curti-la. Melhor
é levá-la quanto antes
para o conforto envolvente
do Palácio Bandeirantes.
— Já disse: não. — Ah, desculpe,
prefere que se desfaça
a obra de Mestre Manuel
no desgaste que lhe inflige
o dente roaz do Tempo
em sua faina cruel?
Quer ver Cristo desbotado,
carcomido, atomizado,
mancha pálida no pano?
Seus bem-amados discípulos,
sua mesa, seu pão ázimo,
sua colação simbólica,
sua postura litúrgica,
e sua mensagem mística,
sumindo, pasto de traça,
de cupim e de pobreza,
neste sem-fim do Caraça?
— Deus é grande… — Deus ajuda
a quem, esperto, madruga.
E daí, meu padre, atente
que milagre brasileiro
anda bastante vasqueiro.
Pegue logo esse dinheiro
e com ele faça obras,
obras, obras e mais obras
que a casa do Irmão Lourenço
está pedindo, e que, feitas,
serão atrativo imenso
à multidão de turistas.
Bote piscina, playground,
cassino — um “Monte Cassino”,
bote som sofisticado
com Raquel Welch e quejandas
bailando pelas varandas!
— Jamais… — Jamais? Que pecado,
recusar a minha oferta!
Eis que outro sacerdote,
de mansinho e de oiça alerta,
já sonhando com um caixote
só de notas de quinhentos
abarrotando a arca murcha
da magra comunidade,
puxa o primo pela manga,
sussurra-lhe: — É bom negócio.
Deus decerto não se zanga,
se vige a necessidade.
Os dois discutem: — Não, não.
— Ora essa, meu irmão.
Vai-se a pintura, mas fica
a nossa vida segura.
Já se criam dois partidos
entre os padres pressionados
e já novos compradores
em enxames voadores
e propostas tentadoras
ferem o doce silêncio
em que, à tarde, ressoa
a melodia dos poemas
de Henriqueta Lisboa
sobre a vívida montanha.
Vende, não vende. Vendemos?
Que vale ter Ataíde
e não ter teto e parede?
Ser um sacrário de arte,
a mais pura arte mineira,
orgulho do nosso Estado
e da alma brasileira,
sem ter como restaurar
a velha casa de ensino
onde ensinamos a amar
as criações do passado?
Debatem os lazaristas
o grave dilema, enquanto
Manuel da Costa Ataíde
e sua tela, suprema
esperança de resgate
da indigência caracense,
viram tema de comércio.
Corre, corre, Aureliano,
vai, Conselho de Cultura,
depressa, Assembleia, vai,
salva os padres agoniados
da prontidão que os achaca,
e salvando-os, preservando-os
da mercantil ameaça,
salva a arte, salva a glória,
salva o máximo tesouro,
a riqueza que não passa:
Cristo-Ceia do Caraça!
879
Carlos Drummond de Andrade
A Consciência Suja
I
Vadiar, namorar, namorar, vadiar,
escrever sem pensar, sentir sem compreender,
é isso a adolescência? E teu pai mourejando
na fanada fazenda para te sustentar?
Toma tento, rapaz. Escolhe qualquer rumo,
vai ser isto ou aquilo, ser: não disfarçar.
Que tal a profissão, o trabalho, o dinheiro
ganho por teu esforço, ó meu espelho débil?
Hesitas. Ziguezagueias. Chope não decide,
verso, muito menos. Teus amigos já seguem
o caminho direito: leva à Faculdade,
à pompa estadual e talvez federal.
Erras, noite a fundo, em rebanho, em revolta,
contra teu próprio errar, sem programa de vida.
Ó vida, vida, vida, assim desperdiçada
a cada esquina de Bahia ou Paraúna.
Ela te avisa que vai fugir, está fugindo,
segunda, terça, torta, quarta, parda, quinta,
sápida, sexta, seca, sábado — passou!
Domingo é soletrar o vácuo de domingo.
Então, sei lá por quê, tu serás farmacêutico.
II
E você continua a perder tempo
do Bar do Ponto à Escola de Farmácia
sem estudar.
Da Escola de Farmácia à doce Praça
da Liberdade
sem trabalhar.
Da Praça novamente ao Bar do Ponto faladeiro,
do Bar do Ponto — é noite — à casa na Floresta
sem levar a sério o sério desta vida,
e é só dormir e namorar e vadiar.
Seus amigos passam de ano,
você não passa.
Ganham salário nas repartições,
você não ganha nada.
O Anatole France que degustam,
o Verlaine, o Gourmont, outras essências
do clair génie français já decadente,
compram com dinheiro do ordenado,
não de fácil mesada.
Se dormem com a Pingo de Ouro, a Jordelina,
pagam do próprio bolso esse prazer,
não de bolsa paterna.
Você pretende o quê?
Ficar nesse remanso a vida inteira?
O tempo vai passando, Clara Weiss
avisa no cartaz: Addio, giovinezza,
e você não vê, você não sente
a mensagem colada ao seu nariz?
Olhe os outros: formados, clinicando,
soltando réus, vencendo causas gordas,
e você aí, à porta do Giacomo
esperando chegar o trem das 10
com seu poeminha em prosa na revista,
que ninguém lerá nem tal merece.
Quem afinal sustenta sua vida?
Bois longínquos, éguas enevoadas
no cinza além da serra, estrume de fazenda,
a colheita de milho, o enramado feijão
e…
Fim.
A raça que já não caça
ela em ti é caçada.
III
Noite montanha. Noite vazia. Noite indecisa.
Confusa noite. Noite à procura, mesmo sem alvo.
O trem do Rio trouxe os jornais. Já foram lidos.
Em nenhum deles a obra-prima doura teu nome.
Que vais fazer, magro estudante, se não estudas,
nesta avenida de tempo longo, de tédio infuso?
Deusas passaram na tarde esquiva, inabordáveis.
Os cabarés estão proibidos aos sem dinheiro.
Tua cerveja resta no copo, amargo-morna.
Minas inteira se banha em sono protocolar.
Nava deixou, leve no mármore, mais um desenho.
É Wilde? É Príapo? Vem o garçom, apaga o traço.
Galinha Cega, de João Alphonsus. Que vem fazer,
onze da noite, letra miúda, enquanto Emílio,
ao nosso lado, singra tão longe, boia tão nuvem
em seus transmundos de indagativas constelações?
Luís Vaz perpassa, em voo grave, no Bar do Ponto:
soneto antigo, em novo timbre, de Abgar Renault.
Anatoliano, Mílton assesta os olhos míopes.
Sua voz mansa busca alegrar teu desconforto.
Vem manquitando Alberto Campos. Sua ironia
esconde o lume do coração. Rápido Alberto,
será o primeiro a nos deixar. Sabe da morte
alguém da roda? Sabe da vida? E por acaso
queres saber? Em poço raso vais afundar-te
para que os outros fiquem cientes de tua ausência
e ao mesmo tempo tu te divirtas a contemplá-los,
ator em férias. Perdão, te ofendo? Martins de Almeida,
crítico-infante, faz o diagnóstico: Brasil errado.
Brasil, qual nada. O errado é este, sentado à mesa,
fraco aprendiz de desespero. Melhor: ingênuo?
Quantas caretas treinas no espelho para esconderes
a própria face? Nenhuma serve. O rosto autêntico
é o menos próprio para gravar o natural.
Que é natural? Verso? Mudez? Sais do letargo.
Cerram-se as portas, rangido-epílogo. Os outros vão-se,
com seus diplomas, brigar com a vida, domar a vida,
ganhar a vida. E teu cursinho físico-químico
não te vê nunca de livro aberto, de mão esperta,
laboratória. Não tomas jeito? Como é, rapaz?
A noite avança. O último bonde passa chispando
rumo à Floresta. Ou rumo aonde? Existe rumo?
Pedestre insone, vais caminhando. E nem reparas
nessa estrelinha, pálida, suja, na água do Arrudas.
Vadiar, namorar, namorar, vadiar,
escrever sem pensar, sentir sem compreender,
é isso a adolescência? E teu pai mourejando
na fanada fazenda para te sustentar?
Toma tento, rapaz. Escolhe qualquer rumo,
vai ser isto ou aquilo, ser: não disfarçar.
Que tal a profissão, o trabalho, o dinheiro
ganho por teu esforço, ó meu espelho débil?
Hesitas. Ziguezagueias. Chope não decide,
verso, muito menos. Teus amigos já seguem
o caminho direito: leva à Faculdade,
à pompa estadual e talvez federal.
Erras, noite a fundo, em rebanho, em revolta,
contra teu próprio errar, sem programa de vida.
Ó vida, vida, vida, assim desperdiçada
a cada esquina de Bahia ou Paraúna.
Ela te avisa que vai fugir, está fugindo,
segunda, terça, torta, quarta, parda, quinta,
sápida, sexta, seca, sábado — passou!
Domingo é soletrar o vácuo de domingo.
Então, sei lá por quê, tu serás farmacêutico.
II
E você continua a perder tempo
do Bar do Ponto à Escola de Farmácia
sem estudar.
Da Escola de Farmácia à doce Praça
da Liberdade
sem trabalhar.
Da Praça novamente ao Bar do Ponto faladeiro,
do Bar do Ponto — é noite — à casa na Floresta
sem levar a sério o sério desta vida,
e é só dormir e namorar e vadiar.
Seus amigos passam de ano,
você não passa.
Ganham salário nas repartições,
você não ganha nada.
O Anatole France que degustam,
o Verlaine, o Gourmont, outras essências
do clair génie français já decadente,
compram com dinheiro do ordenado,
não de fácil mesada.
Se dormem com a Pingo de Ouro, a Jordelina,
pagam do próprio bolso esse prazer,
não de bolsa paterna.
Você pretende o quê?
Ficar nesse remanso a vida inteira?
O tempo vai passando, Clara Weiss
avisa no cartaz: Addio, giovinezza,
e você não vê, você não sente
a mensagem colada ao seu nariz?
Olhe os outros: formados, clinicando,
soltando réus, vencendo causas gordas,
e você aí, à porta do Giacomo
esperando chegar o trem das 10
com seu poeminha em prosa na revista,
que ninguém lerá nem tal merece.
Quem afinal sustenta sua vida?
Bois longínquos, éguas enevoadas
no cinza além da serra, estrume de fazenda,
a colheita de milho, o enramado feijão
e…
Fim.
A raça que já não caça
ela em ti é caçada.
III
Noite montanha. Noite vazia. Noite indecisa.
Confusa noite. Noite à procura, mesmo sem alvo.
O trem do Rio trouxe os jornais. Já foram lidos.
Em nenhum deles a obra-prima doura teu nome.
Que vais fazer, magro estudante, se não estudas,
nesta avenida de tempo longo, de tédio infuso?
Deusas passaram na tarde esquiva, inabordáveis.
Os cabarés estão proibidos aos sem dinheiro.
Tua cerveja resta no copo, amargo-morna.
Minas inteira se banha em sono protocolar.
Nava deixou, leve no mármore, mais um desenho.
É Wilde? É Príapo? Vem o garçom, apaga o traço.
Galinha Cega, de João Alphonsus. Que vem fazer,
onze da noite, letra miúda, enquanto Emílio,
ao nosso lado, singra tão longe, boia tão nuvem
em seus transmundos de indagativas constelações?
Luís Vaz perpassa, em voo grave, no Bar do Ponto:
soneto antigo, em novo timbre, de Abgar Renault.
Anatoliano, Mílton assesta os olhos míopes.
Sua voz mansa busca alegrar teu desconforto.
Vem manquitando Alberto Campos. Sua ironia
esconde o lume do coração. Rápido Alberto,
será o primeiro a nos deixar. Sabe da morte
alguém da roda? Sabe da vida? E por acaso
queres saber? Em poço raso vais afundar-te
para que os outros fiquem cientes de tua ausência
e ao mesmo tempo tu te divirtas a contemplá-los,
ator em férias. Perdão, te ofendo? Martins de Almeida,
crítico-infante, faz o diagnóstico: Brasil errado.
Brasil, qual nada. O errado é este, sentado à mesa,
fraco aprendiz de desespero. Melhor: ingênuo?
Quantas caretas treinas no espelho para esconderes
a própria face? Nenhuma serve. O rosto autêntico
é o menos próprio para gravar o natural.
Que é natural? Verso? Mudez? Sais do letargo.
Cerram-se as portas, rangido-epílogo. Os outros vão-se,
com seus diplomas, brigar com a vida, domar a vida,
ganhar a vida. E teu cursinho físico-químico
não te vê nunca de livro aberto, de mão esperta,
laboratória. Não tomas jeito? Como é, rapaz?
A noite avança. O último bonde passa chispando
rumo à Floresta. Ou rumo aonde? Existe rumo?
Pedestre insone, vais caminhando. E nem reparas
nessa estrelinha, pálida, suja, na água do Arrudas.
1 118
Carlos Drummond de Andrade
A Tentação de Comprar
Com anúncios de página inteira
(coisa nunca vista nos sertões)
inaugura-se na Rua da Bahia
o fabuloso Parc Royal.
Três andares das mais finas futilidades
vindas diretamente da Rue de la Paix.
Seu Teotônio Caldeira, gerente,
manipula novas técnicas de vender.
As virgens loucas compram compram compram
e as mães das virgens loucas, outro tanto.
Pais de família, em pânico,
veem germinar no solo imáculo de Minas
a semente de luxo e desperdício.
Nada podem fazer, cruzam os braços:
o Parc Royal tem como padroeira
nada menos que Nossa Senhora da Conceição.
— Meu pai, posso botar na sua conta
três camisas de seda, um alfinete de gravata?
— Até você, meu filho, até você?!
(coisa nunca vista nos sertões)
inaugura-se na Rua da Bahia
o fabuloso Parc Royal.
Três andares das mais finas futilidades
vindas diretamente da Rue de la Paix.
Seu Teotônio Caldeira, gerente,
manipula novas técnicas de vender.
As virgens loucas compram compram compram
e as mães das virgens loucas, outro tanto.
Pais de família, em pânico,
veem germinar no solo imáculo de Minas
a semente de luxo e desperdício.
Nada podem fazer, cruzam os braços:
o Parc Royal tem como padroeira
nada menos que Nossa Senhora da Conceição.
— Meu pai, posso botar na sua conta
três camisas de seda, um alfinete de gravata?
— Até você, meu filho, até você?!
1 045
Carlos Drummond de Andrade
Dia de Flor
No Dia da Margarida minha lapela de estudante
cronicamente sem dinheiro
foge das senhoritas com cestinhas de flores
que evoluem (sílfides) na Avenida Afonso Pena
pedindo o nosso, o meu conforto pecuniário
para as vítimas da enchente de Arassuaí.
Queria tanto que uma delas
(a da Rua Goiás, especialmente)
pusesse a mão no meu casaco
oferecendo ao mesmo tempo
margarida e sorriso,
e eu tirasse do bolso, qual relógio
cigarro ou lenço, maquinal,
um conto de réis, me desculpando:
— Mais daria, se não fosse…
E vem aí o Dia da Violeta.
cronicamente sem dinheiro
foge das senhoritas com cestinhas de flores
que evoluem (sílfides) na Avenida Afonso Pena
pedindo o nosso, o meu conforto pecuniário
para as vítimas da enchente de Arassuaí.
Queria tanto que uma delas
(a da Rua Goiás, especialmente)
pusesse a mão no meu casaco
oferecendo ao mesmo tempo
margarida e sorriso,
e eu tirasse do bolso, qual relógio
cigarro ou lenço, maquinal,
um conto de réis, me desculpando:
— Mais daria, se não fosse…
E vem aí o Dia da Violeta.
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