Poemas neste tema
Dinheiro e Riqueza
Mário Donizete Massari
Das Dores
Anastácia
é simples como a noite
e ama João das Dores
filho de Dolores.
João lhe leva flores,
à noite
e chora suas dores.
A vida tá difícil
o amor tão escasso.
Trabalha no mercado
e em meio a tanta mercadoria,
sobre lhe apenas
a dura realidade
Alguns quilos de fadiga
muitos gramas de verdade.
João ama Anastácia,
é filho de Dolores
e em breve dividirá suas dores.
é simples como a noite
e ama João das Dores
filho de Dolores.
João lhe leva flores,
à noite
e chora suas dores.
A vida tá difícil
o amor tão escasso.
Trabalha no mercado
e em meio a tanta mercadoria,
sobre lhe apenas
a dura realidade
Alguns quilos de fadiga
muitos gramas de verdade.
João ama Anastácia,
é filho de Dolores
e em breve dividirá suas dores.
912
Mário Donizete Massari
Perda
Tolos dormiam
quando trouxeram
a notícia
"Sebastião perdera a vida"
Itinerário interrompido
O sexo interrompido
O salário inerrompido
(salário família)
que em vida lhe servira
para saldar as dívidas.
Agora choram a perda
do bastião da Nhá Maria
que parte deixando filhos,
dívidas e um salário
"FAMÍLIA"
quando trouxeram
a notícia
"Sebastião perdera a vida"
Itinerário interrompido
O sexo interrompido
O salário inerrompido
(salário família)
que em vida lhe servira
para saldar as dívidas.
Agora choram a perda
do bastião da Nhá Maria
que parte deixando filhos,
dívidas e um salário
"FAMÍLIA"
784
Sérgio Mattos
Independência
O sonho do poeta
não pode ser vendido
nem o amor, comprado.
O meu sonho e o meu amor
sobrevivem nesta sociedade artificial,
regida pela economia de mercado,
cheia de inflação e corrupção,
porque não precisam de autorização oficial.
não pode ser vendido
nem o amor, comprado.
O meu sonho e o meu amor
sobrevivem nesta sociedade artificial,
regida pela economia de mercado,
cheia de inflação e corrupção,
porque não precisam de autorização oficial.
891
Marco Antônio de Souza
Instrumentos de Trabalho
Brota a broca da tua mão
como a caneta da minha;
você faz versos com diamante,
eu me restauro com palavras...
Tuas rimas são de ouro,
a tristeza é o metal que liga meus motes !
Tua métrica é tão funda
quanto a profundidade da cárie;
Minha cárie é este destino,
que me fez poeta, antes de homem...
Teus sonetos são esculturas protéticas,
artísticamente lavradas e adaptadas;
minha prótese mais separa do que une
pois às vezes vergasta e fere...
Por ironia,
se é com a caneta que você ganha a vida,
eu também com a caneta
vivo arriscado a perder a minha...
Que dirão os astros
da união de um poeta com uma dentista ?
como a caneta da minha;
você faz versos com diamante,
eu me restauro com palavras...
Tuas rimas são de ouro,
a tristeza é o metal que liga meus motes !
Tua métrica é tão funda
quanto a profundidade da cárie;
Minha cárie é este destino,
que me fez poeta, antes de homem...
Teus sonetos são esculturas protéticas,
artísticamente lavradas e adaptadas;
minha prótese mais separa do que une
pois às vezes vergasta e fere...
Por ironia,
se é com a caneta que você ganha a vida,
eu também com a caneta
vivo arriscado a perder a minha...
Que dirão os astros
da união de um poeta com uma dentista ?
845
Marcelo Almeida de Oliveira
Paleta infeliz
Com suas tintas me pintaram criança,
da cor de seu céu,
de suas árvores,
da cor de seu ouro;
malditos reis gananciosos,
perceber não conseguem
que o céu é anil para todos,
as árvores não são de ninguém,
e seu ouro brilha para poucos.
Com suas tintas pintaram minha casa,
muito antes de eu nascer
num grande quarto sem janelas
e de portas fechadas por vocês;
conquistadores inconseqüentes,
nossos heróis de outrora,
negociando sofrimento por chão,
seus tons insanos são separados agora
pelo vermelho-sangue de meus irmãos.
Com suas tintas pintam cabeças,
preto e branco formam palavras,
elos de correntes impressas
em mentes desavisadas;
deuses impuros ditando leis,
triste realidade pintada por vocês,
quero fazer o que estiver afim,
afastem seus pincéis de mim.
da cor de seu céu,
de suas árvores,
da cor de seu ouro;
malditos reis gananciosos,
perceber não conseguem
que o céu é anil para todos,
as árvores não são de ninguém,
e seu ouro brilha para poucos.
Com suas tintas pintaram minha casa,
muito antes de eu nascer
num grande quarto sem janelas
e de portas fechadas por vocês;
conquistadores inconseqüentes,
nossos heróis de outrora,
negociando sofrimento por chão,
seus tons insanos são separados agora
pelo vermelho-sangue de meus irmãos.
Com suas tintas pintam cabeças,
preto e branco formam palavras,
elos de correntes impressas
em mentes desavisadas;
deuses impuros ditando leis,
triste realidade pintada por vocês,
quero fazer o que estiver afim,
afastem seus pincéis de mim.
697
Leandro Nogueira Monteiro
Terra Brazileira
Ó água doce! Quanto do teu açúcar
É cana do meu Brazil.
Por te explorarmos, quantos índios morreram,
Quantos bandeirantes não faleceram.
Quantos hectares foram devastados
Para que fosse nossa, oh harpa?
E valeu a pena? Tudo vale a pena
Pra terra não ser pequena.
Quem quer ter mais tesouros
Tem que conseguir mais oiro.
Deus à terra o verde e o amarelo deu
E nella é que inspirou-se o véu.
Paródia de "Mar Portuguez", de Fernando Pessoa
[Obs.: Gostaria de ressaltar que os "erros" como "brazileira", "Brazil", "oiro"
e "nella", são propositais, em busca de maior verossimilhança.]
É cana do meu Brazil.
Por te explorarmos, quantos índios morreram,
Quantos bandeirantes não faleceram.
Quantos hectares foram devastados
Para que fosse nossa, oh harpa?
E valeu a pena? Tudo vale a pena
Pra terra não ser pequena.
Quem quer ter mais tesouros
Tem que conseguir mais oiro.
Deus à terra o verde e o amarelo deu
E nella é que inspirou-se o véu.
Paródia de "Mar Portuguez", de Fernando Pessoa
[Obs.: Gostaria de ressaltar que os "erros" como "brazileira", "Brazil", "oiro"
e "nella", são propositais, em busca de maior verossimilhança.]
963
Luiz Moraes
Limites
Vi sofrendo
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos
971
Leopoldo Neto
Noite de Natal
Cidades enfeitadas
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.
947
Luiz Lopes Sobrinho
Cadê o Dinheiro?!
Seu doutor Secretário das Finanças,
Onde foi que o dinheiro se escondeu?
Será que o Estado já se fez judeu,
Também vive de usuras e de lambanças?
Mortas se vão as nossas esperanças.
— Nossas não! pois vossência não sofreu
A fome e o desespero, como eu,
Sem, nunca, ter um dia de bonanças!
Vamos ver, seu doutor, onde se esconde
O dinheiro do Estado. Explique, onde,
Que há tanto tempo não nos mostra a cara?
Por que, pra caraveles e banquetes,
As notas voam, tais como foguetes,
E o barnabé do Estado não se ampara?!
Onde foi que o dinheiro se escondeu?
Será que o Estado já se fez judeu,
Também vive de usuras e de lambanças?
Mortas se vão as nossas esperanças.
— Nossas não! pois vossência não sofreu
A fome e o desespero, como eu,
Sem, nunca, ter um dia de bonanças!
Vamos ver, seu doutor, onde se esconde
O dinheiro do Estado. Explique, onde,
Que há tanto tempo não nos mostra a cara?
Por que, pra caraveles e banquetes,
As notas voam, tais como foguetes,
E o barnabé do Estado não se ampara?!
821
Tomás Antônio Gonzaga
LIRA I
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro
Que viva de guardar alheio gado,
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos e dos sóis queimado;
Tenho própio casal e nele assisto;
Dá-me fruta, legume, vinho, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite
E mais a fina lã, de que me visto,
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado;
Com tal destreza toco a sanfoninha
Que inveja até me tem o próprio Alceste;
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra que não seja minha.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
Mas tendo tantos dotes de ventura,
Só apreço lhes dou, gentil pastora,
Depois que o teu afeto me assegura,
Que queres do que tenho ser senhora;
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho que cubra monte e prado;
Porém, gentil pastora, o teu agrado
Vale mais que um rebanho e mais que um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
Que viva de guardar alheio gado,
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos e dos sóis queimado;
Tenho própio casal e nele assisto;
Dá-me fruta, legume, vinho, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite
E mais a fina lã, de que me visto,
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado;
Com tal destreza toco a sanfoninha
Que inveja até me tem o próprio Alceste;
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra que não seja minha.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
Mas tendo tantos dotes de ventura,
Só apreço lhes dou, gentil pastora,
Depois que o teu afeto me assegura,
Que queres do que tenho ser senhora;
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho que cubra monte e prado;
Porém, gentil pastora, o teu agrado
Vale mais que um rebanho e mais que um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!
3 506
Luiz Ademir Souza
Favilla 2
ASSALTO. Droga de poder?
Nos ministérios
fervilha
a febre de poder
Favilla é o Brasil.
Nobrasil
mágoa de quebranto se instala.
Fervilham o homem
a guerrilha urbana
A DOR
Onde está o homem?
-claro,no Brasil.
Nos ministérios
fervilha
a febre de poder
Favilla é o Brasil.
Nobrasil
mágoa de quebranto se instala.
Fervilham o homem
a guerrilha urbana
A DOR
Onde está o homem?
-claro,no Brasil.
1 002
Luiz Ademir Souza
Favilla 1
A guerrilha urbana fervilha
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
instala o quebranto de mágoa
nobrasil
O Brasil é favilla
O poder a febre
fervilha
nos ministérios
ASSALTO. Droga de poder!
874
João Marcio Furtado Costa
Poema em Linha Torta
Poema em Linha Torta
(05/93)
Que bom que é a vida,
Quando ela é servida,
Com catupiry.
Que bom que é a vida,
Mesmo sofrida,
Se você sabe rir.
E eu gosto de rir.
E eu sei fazer rir.
Serei eu um palhaço?
E o palhaço o que é?
É ladrão de mulher.
Ôba, então que bom
Que eu sou um palhaço!!!
Que bom que eu caço,
Que bom que eu laço,
Que bom que eu traço,
Meu destino e tentação.
E apesar de todo crivo,
Que bom que eu vivo,
Que bom que eu sirvo,
Que bom que eu sou João.
Que bom praticar esporte,
Me cansa, descansa,
Me torna criança,
E ajuda a adiar a morte.
Que bom que é ter sorte,
Ser jovem, ser forte,
E ter muito dinheiro.
Que bom que é ter fogo,
Que bom se tem jogo,
E se vence, o cruzeiro.
Que bom que é o Brasil,
Quando ele é servido,
Ao óleo e ao alho.
Que bom que é o Brasil,
Mesmo sendo sofrido,
Ele é nosso galho.
(05/93)
Que bom que é a vida,
Quando ela é servida,
Com catupiry.
Que bom que é a vida,
Mesmo sofrida,
Se você sabe rir.
E eu gosto de rir.
E eu sei fazer rir.
Serei eu um palhaço?
E o palhaço o que é?
É ladrão de mulher.
Ôba, então que bom
Que eu sou um palhaço!!!
Que bom que eu caço,
Que bom que eu laço,
Que bom que eu traço,
Meu destino e tentação.
E apesar de todo crivo,
Que bom que eu vivo,
Que bom que eu sirvo,
Que bom que eu sou João.
Que bom praticar esporte,
Me cansa, descansa,
Me torna criança,
E ajuda a adiar a morte.
Que bom que é ter sorte,
Ser jovem, ser forte,
E ter muito dinheiro.
Que bom que é ter fogo,
Que bom se tem jogo,
E se vence, o cruzeiro.
Que bom que é o Brasil,
Quando ele é servido,
Ao óleo e ao alho.
Que bom que é o Brasil,
Mesmo sendo sofrido,
Ele é nosso galho.
1 043
João Alexandre Júnior
Flúvio-Cosmo-Variantes
Há um mini-Jesus Cristo
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
continua a mais vendida).
Nova estrela-arauto
reformula o comercial do Salvador
e em cadeia via Intelstar
anuncia à Aldeia Global:
...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
Júpiter, a Outra Terra Prometida
...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
continua a mais vendida).
Nova estrela-arauto
reformula o comercial do Salvador
e em cadeia via Intelstar
anuncia à Aldeia Global:
...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
Júpiter, a Outra Terra Prometida
...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).
751
Iacyr Anderson Freitas
Um Caminho Urge
quanto não haveria de consumir-se
para a ostentação e o claustro
dias voados no albume
céus voados
e um vento que não quer
deixar os livros
quanto não haveria de consumir-se
para quedar assim
sobre a mesa
farto
de si
e de toda e qualquer iniqüidade
dias voados céus de alheia estirpe
abancai-vos nestes campos
eis que um caminho urge
sozinho
sob o escuro da flora
para a ostentação e o claustro
dias voados no albume
céus voados
e um vento que não quer
deixar os livros
quanto não haveria de consumir-se
para quedar assim
sobre a mesa
farto
de si
e de toda e qualquer iniqüidade
dias voados céus de alheia estirpe
abancai-vos nestes campos
eis que um caminho urge
sozinho
sob o escuro da flora
826
Jaime Gralheiro
Fernão Mendes Pinto
Somos um povo de saltadores/poetas.
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
1 408
Otaviano Hudson
O Operário
(Fragmentos)
Sobre uma velha enxerga repousa o operário
Doente, sem recursos, exposto ao abandono,
Do leito à cabeceira os filhos recostando-se,
Extorcem-se de fome.
"Papai um pão — papai — exclamam esses lábios
Que a taça do infortúnio estréiam no libar,
"Papai, mamãe é má, o pão mamãe esconde-o,
Pede-lhe o pão — oh! pai!"
E a mulher infeliz, vertendo amaras lágrimas
Como louca vagueia opressa pela dor;
E aos céus conforto roga, ao desespero alívio
Implorando-o debalde!
Quantas vezes, oh! Deus abriu ela o armário
Contemplando-o vazio! e quantas a lareira
Sem nada mais achar, exclama genuflexa:
— Protege-nos oh Deus!
Enquanto atordoado o triste proletário
Revolve-se a gemer e sem poder dormir,
Os míseros filhinhos famintos e esquálidos
Lastimam-se chorando.
A noite desenrola a negra enorme túnica
Sobre áureos palácios e tristes pardieiros,
Em uns quê de folguedos, em outros quê de angústias
Travam-se à sua sombra!
Ai, quanto dissabor esmaga o operário
Quer no leito dolente ou ainda na oficina,
Quanto escárnio, meu Deus, às faces arremessa
Estúpida vaidade!
Tragando humilhações, exposto às intempéries,
À fome, frio, chuvas e outras mil agruras,
Eis do mais inditoso, infeliz operário
Horribile existência!
Novos Sísifos a rolar inglórios
O seixo enorme de um trabalho insano,
Quando tombam no leito — uma trindade abraça —
Miséria, escárnio e dores!
As mãos cheias de calos, as mãos que nobilita
Na lima, no martelo, na serra e na bigorna,
Colhem palhetas de ouro e como as conchas níveas
Pródigas emergem pérolas!
Letras, artes, comércio, indústrias e ciências
Não prescindem do braço invicto do trabalho,
E quando a pátria ultrajam, lá corre o operário
Defende-a te morrer!
Honrando do progresso o prefulgente lábaro,
Na vanguarda marchai dos grandes combatentes
Até que um dia reconquisteis impávidos,
Libérrimos direitos.
O sol que doura os montes espraia os raios ígneos,
Beijando as vossas frontes ungidas de suor;
Quando amortece a flama, no horizonte atufa-se,
Saúda-te operários
Sobre uma velha enxerga repousa o operário
Doente, sem recursos, exposto ao abandono,
Do leito à cabeceira os filhos recostando-se,
Extorcem-se de fome.
"Papai um pão — papai — exclamam esses lábios
Que a taça do infortúnio estréiam no libar,
"Papai, mamãe é má, o pão mamãe esconde-o,
Pede-lhe o pão — oh! pai!"
E a mulher infeliz, vertendo amaras lágrimas
Como louca vagueia opressa pela dor;
E aos céus conforto roga, ao desespero alívio
Implorando-o debalde!
Quantas vezes, oh! Deus abriu ela o armário
Contemplando-o vazio! e quantas a lareira
Sem nada mais achar, exclama genuflexa:
— Protege-nos oh Deus!
Enquanto atordoado o triste proletário
Revolve-se a gemer e sem poder dormir,
Os míseros filhinhos famintos e esquálidos
Lastimam-se chorando.
A noite desenrola a negra enorme túnica
Sobre áureos palácios e tristes pardieiros,
Em uns quê de folguedos, em outros quê de angústias
Travam-se à sua sombra!
Ai, quanto dissabor esmaga o operário
Quer no leito dolente ou ainda na oficina,
Quanto escárnio, meu Deus, às faces arremessa
Estúpida vaidade!
Tragando humilhações, exposto às intempéries,
À fome, frio, chuvas e outras mil agruras,
Eis do mais inditoso, infeliz operário
Horribile existência!
Novos Sísifos a rolar inglórios
O seixo enorme de um trabalho insano,
Quando tombam no leito — uma trindade abraça —
Miséria, escárnio e dores!
As mãos cheias de calos, as mãos que nobilita
Na lima, no martelo, na serra e na bigorna,
Colhem palhetas de ouro e como as conchas níveas
Pródigas emergem pérolas!
Letras, artes, comércio, indústrias e ciências
Não prescindem do braço invicto do trabalho,
E quando a pátria ultrajam, lá corre o operário
Defende-a te morrer!
Honrando do progresso o prefulgente lábaro,
Na vanguarda marchai dos grandes combatentes
Até que um dia reconquisteis impávidos,
Libérrimos direitos.
O sol que doura os montes espraia os raios ígneos,
Beijando as vossas frontes ungidas de suor;
Quando amortece a flama, no horizonte atufa-se,
Saúda-te operários
524
Myriam Fraga
Banquete
O vinho
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
1 130
Gregório de Matos
Coplas
Não sei, para que é nascer
neste Brasil empestado
um homem branco, e honrado
sem outra raça.
Terra tão grosseira, e crassa,
que a ninguém se tem respeito,
salvo quem mostra algum jeito
de ser Mulato.
Aqui o cão arranha o gato,
não por ser mais valentão,
mas porque sempre a um cão
outros acodem.
Os Brancos aqui não podem
mais que sofrer, e calar,
e se um negro vão matar,
chovem despesas.
Não lhe valem as defesas
do atrevimento de um cão,
porque acode a Relação
sempre faminta.
Logo a fazenda, e a quinta
vai com tudo o mais à praça,
onde se vende de graça,
ou fiado.
Que aguardas, homem honrado,
vendo tantas sem-razões,
que não vás para as nações
de Berberia,
Porque lá se te faria
com essa barbaridade
mais razão, e mais verdade,
que aqui fazem.
Porque esperas, que te engranzem,
e esgotem os cabedais,
os que tens por naturais,
sendo estrangeiros!
Ao cheiro dos teus dinheiros
vêm como cabedal tão fraco,
que tudo cabe num saco,
que anda às costas.
Os pés são duas lagostas
de andar montes, passar vaus,
as mãos são dois bacalhaus
já bem ardidos.
Sendo dous anos corridos,
na loja estão recostados
mais doces, enfidalgados,
que os mesmos Godos.
A mim me faltam apodos,
com que apodar estes tais
maganos de três canais
até a ponta.
Há outros de pior conta,
que entre esses, e entre aqueles
vêem cheios de PP, e LL
atrás do ombro.
De nada disso me assombro
pois bota aqui o Senhor
outros de marca maior
gualde, e tostada.
Perguntai à gente honrada,
por que causa se desterra;
diz que tem, quem lá na terra
lhe queima o sangue.
Vem viver ao pé de um mangue,
e já vos veda o mangal,
porque tem mais cabedal,
que Porto Rico.
Se algum vem de agudo bico,
lá vão prendê-lo ao sertão,
e ei-lo bugio em grilhão
entre os galfarros.
A terra é para os bizarros,
que vêm na sua terrinha
com mais gorda camisinha,
que um traquete.
Que me dizeis do clerguete,
que mandaram degradado
por dar o óleo sagrado
à sua Puta.
E a velhaca dissoluta
destra de todo o artifício
fez co óleo um malefício
ao mesmo Zote.
Folgo de ver tanto asnote,
que com seus risonhos lábios
andam zombando dos sábios
e entendidos.
E porque são aplaudidos
de outros de sua facção,
se fazem coa discrição
como com terra.
E dizendo ferra ferra,
quando vão a por o pé,
conhecem, que em boa fé
são uns asninhos.
Porque com quatro ditinhos
de conceitos estudados
não podem ser graduados
nas ciências.
Então suas negligências
os vão conhecendo ali,
porque de si para si
ninguém se engana.
Mas em vindo outra semana,
já caem no pecado velho,
e presumem dar conselho
a um Catão.
Aqui frisava o Frisão,
que foi o Heresiarca,
porque mais da sua alparca
o aprenderam.
As Mulatas me esqueceram,
a quem com veneração
darei o meu beliscão
pelo amoroso.
Geralmente é mui custoso
o conchego das Mulatas,
que se foram mais baratas,
não há mais Flandes.
Aos que presumem de grandes,
porque têm casa, e são forras
têm, e chamam de cachorras
às mais do trato.
Angelinha do Sapato,
valeria um pino de Ouro,
porém tem o cagadouro
muito baixo.
Traz o amigo cabisbaixo
com muitas aleivosias,
sendo, que às Ave-Marias
lhe fecha a porta.
Mas isso porém que importa
se ao fechar se põe já nua,
e sobre o plantar na rua
ainda a veste.
Fica dentro, quem a investe,
e o de fora suspirando
lhe grita de quando em quando
ora isto basta.
Há gente de tão má casta,
e de tão ruim catadura,
que até esta cornadura
bebe, e verte.
Todos Agrela converte,
porque se com tão ruim puta
a alma há de ser dissoluta,
antes mui Santa.
Quem encontra ossada tanta
nos beiços de uma caveira,
vai fugindo de carreira,
e a Deus busca.
Em uma cova se ofusca,
como eu estou ofuscado,
chorando o magro pecado,
que fiz com ela.
É mui semelhante a Agrela
a Mingota dos Negreiros,
que me mamou os dinheiros,
e pôs-me à orça.
A Mangá com ser de alcorça
dá-se a um Pardo vaganau,
que a cunha do mesmo pau
melhor atocha.
À Mariana da Rocha,
por outro nome a Pelica,
nenhum homem já dedica
a sua prata.
Não há no Brasil Mulata
que valha um recado só.
Mas Joana Picaró
O Brasil todo.
Se em gostos não me acomodo
das mais, não haja disputa,
cada um gabe a sua puta,
e haja sossego.
Porque eu calo o meu emprego
e o fiz com toda atenção,
porque tal veneração
se lhe devia.
Fica-te em boa, Bahia,
que eu me vou por esse mundo
cortando pelo mar fundo
numa barquinha.
Porque inda que és pátria minha,
sou segundo Cipião,
que com dobrada razão
a minha idéia
te diz "non possedebis ossa mea".
neste Brasil empestado
um homem branco, e honrado
sem outra raça.
Terra tão grosseira, e crassa,
que a ninguém se tem respeito,
salvo quem mostra algum jeito
de ser Mulato.
Aqui o cão arranha o gato,
não por ser mais valentão,
mas porque sempre a um cão
outros acodem.
Os Brancos aqui não podem
mais que sofrer, e calar,
e se um negro vão matar,
chovem despesas.
Não lhe valem as defesas
do atrevimento de um cão,
porque acode a Relação
sempre faminta.
Logo a fazenda, e a quinta
vai com tudo o mais à praça,
onde se vende de graça,
ou fiado.
Que aguardas, homem honrado,
vendo tantas sem-razões,
que não vás para as nações
de Berberia,
Porque lá se te faria
com essa barbaridade
mais razão, e mais verdade,
que aqui fazem.
Porque esperas, que te engranzem,
e esgotem os cabedais,
os que tens por naturais,
sendo estrangeiros!
Ao cheiro dos teus dinheiros
vêm como cabedal tão fraco,
que tudo cabe num saco,
que anda às costas.
Os pés são duas lagostas
de andar montes, passar vaus,
as mãos são dois bacalhaus
já bem ardidos.
Sendo dous anos corridos,
na loja estão recostados
mais doces, enfidalgados,
que os mesmos Godos.
A mim me faltam apodos,
com que apodar estes tais
maganos de três canais
até a ponta.
Há outros de pior conta,
que entre esses, e entre aqueles
vêem cheios de PP, e LL
atrás do ombro.
De nada disso me assombro
pois bota aqui o Senhor
outros de marca maior
gualde, e tostada.
Perguntai à gente honrada,
por que causa se desterra;
diz que tem, quem lá na terra
lhe queima o sangue.
Vem viver ao pé de um mangue,
e já vos veda o mangal,
porque tem mais cabedal,
que Porto Rico.
Se algum vem de agudo bico,
lá vão prendê-lo ao sertão,
e ei-lo bugio em grilhão
entre os galfarros.
A terra é para os bizarros,
que vêm na sua terrinha
com mais gorda camisinha,
que um traquete.
Que me dizeis do clerguete,
que mandaram degradado
por dar o óleo sagrado
à sua Puta.
E a velhaca dissoluta
destra de todo o artifício
fez co óleo um malefício
ao mesmo Zote.
Folgo de ver tanto asnote,
que com seus risonhos lábios
andam zombando dos sábios
e entendidos.
E porque são aplaudidos
de outros de sua facção,
se fazem coa discrição
como com terra.
E dizendo ferra ferra,
quando vão a por o pé,
conhecem, que em boa fé
são uns asninhos.
Porque com quatro ditinhos
de conceitos estudados
não podem ser graduados
nas ciências.
Então suas negligências
os vão conhecendo ali,
porque de si para si
ninguém se engana.
Mas em vindo outra semana,
já caem no pecado velho,
e presumem dar conselho
a um Catão.
Aqui frisava o Frisão,
que foi o Heresiarca,
porque mais da sua alparca
o aprenderam.
As Mulatas me esqueceram,
a quem com veneração
darei o meu beliscão
pelo amoroso.
Geralmente é mui custoso
o conchego das Mulatas,
que se foram mais baratas,
não há mais Flandes.
Aos que presumem de grandes,
porque têm casa, e são forras
têm, e chamam de cachorras
às mais do trato.
Angelinha do Sapato,
valeria um pino de Ouro,
porém tem o cagadouro
muito baixo.
Traz o amigo cabisbaixo
com muitas aleivosias,
sendo, que às Ave-Marias
lhe fecha a porta.
Mas isso porém que importa
se ao fechar se põe já nua,
e sobre o plantar na rua
ainda a veste.
Fica dentro, quem a investe,
e o de fora suspirando
lhe grita de quando em quando
ora isto basta.
Há gente de tão má casta,
e de tão ruim catadura,
que até esta cornadura
bebe, e verte.
Todos Agrela converte,
porque se com tão ruim puta
a alma há de ser dissoluta,
antes mui Santa.
Quem encontra ossada tanta
nos beiços de uma caveira,
vai fugindo de carreira,
e a Deus busca.
Em uma cova se ofusca,
como eu estou ofuscado,
chorando o magro pecado,
que fiz com ela.
É mui semelhante a Agrela
a Mingota dos Negreiros,
que me mamou os dinheiros,
e pôs-me à orça.
A Mangá com ser de alcorça
dá-se a um Pardo vaganau,
que a cunha do mesmo pau
melhor atocha.
À Mariana da Rocha,
por outro nome a Pelica,
nenhum homem já dedica
a sua prata.
Não há no Brasil Mulata
que valha um recado só.
Mas Joana Picaró
O Brasil todo.
Se em gostos não me acomodo
das mais, não haja disputa,
cada um gabe a sua puta,
e haja sossego.
Porque eu calo o meu emprego
e o fiz com toda atenção,
porque tal veneração
se lhe devia.
Fica-te em boa, Bahia,
que eu me vou por esse mundo
cortando pelo mar fundo
numa barquinha.
Porque inda que és pátria minha,
sou segundo Cipião,
que com dobrada razão
a minha idéia
te diz "non possedebis ossa mea".
2 483
Flávio Sátiro Fernandes
O Ponto de Cem Réis
O Ponto de Cem Réis
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
é a cara do funcionário público aposentado.
Veste a roupa do funcionário,
calça as sandálias do funcionário,
adormece com o funcionário,
ouve o funcionário,
fala pelo funcionário.
Será que o governo vai dar aumento?
Aumento do preço da carne
aumento do preço do leite,
aumento do preço do pão,
do preço do arroz,
do preço da farinha.
Do preço do feijão,
da água,
da luz,
do telefone.
E o salário minguando...
O funcionário aposentado é a cara do Ponto de Cem Réis.
Veja aquele moreno magro, comprido e desmantelado,
como o Edifício Régis.
O gordo que está na esquina
parece o prédio do IPASE (hoje INPS).
E o velho que ali está?
- O Café Alvear.
E a velhota rechonchuda?
- O viaduto.
Mas há naquela azáfama
um momento grave, em que todos se mostram solenes
e os espíritos se conturbam.
É quando ele surge, capanga a tiracolo,
apressado e rapace - o agiota.
O Ponto de Cem Réis
é o abrigo anti-nuclear dos funcionários.
Nada o destruirá.
O Ponto de Cem Réis viverá eternamente.
804
Urhacy Faustino
Inversão de valores
Na minha infância
não conheci moeda,
senão o celeiro cheio
e as vacas gordas.
Precisava de roupa
trocava algodão por fazenda.
Carecia de aliança
trocava o trigo pelo ouro.
E éramos felizes!
Meus irmãos iludiram meus pais
com a visão dos novos tempos
e modernizaram tudo.
Saíram das tetas das vacas
direto para as teclas dos computadores:
não conseguiram ordenhar as máquinas.
Hoje trocamos dívidas.
não conheci moeda,
senão o celeiro cheio
e as vacas gordas.
Precisava de roupa
trocava algodão por fazenda.
Carecia de aliança
trocava o trigo pelo ouro.
E éramos felizes!
Meus irmãos iludiram meus pais
com a visão dos novos tempos
e modernizaram tudo.
Saíram das tetas das vacas
direto para as teclas dos computadores:
não conseguiram ordenhar as máquinas.
Hoje trocamos dívidas.
836
Fernando Batinga de Mendonça
Poema do Homem Latino-Americano
Para Diego de Rivera,
em cima dos ombros
tens uma pedra:
pedra sem rosto
enorme incerta.
teu corpo de fome
de ossos de pele
trabalha na mina
na lavra da terra.
estendes as mãos
sem forma incertas
nos calos nos cortes
nos dedos nos ferros.
um corpo de fome
vestido de pele
carregas as mãos
um rosto de pedra.
em cima dos ombros
tens uma pedra:
pedra sem rosto
enorme incerta.
teu corpo de fome
de ossos de pele
trabalha na mina
na lavra da terra.
estendes as mãos
sem forma incertas
nos calos nos cortes
nos dedos nos ferros.
um corpo de fome
vestido de pele
carregas as mãos
um rosto de pedra.
1 143
Fernando Batinga de Mendonça
Tempo
é difícil
definir
o meu tempo:
desenhos
de fome
nas paredes
velhos meninos,
de manhã
poetas
à noite
nos quartéis.
é difícil
definir
o meu tempo:
homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais
definir
o meu tempo:
desenhos
de fome
nas paredes
velhos meninos,
de manhã
poetas
à noite
nos quartéis.
é difícil
definir
o meu tempo:
homens
contidos
nas marmitas,
e esperança
no subúrbio
dos quintais
972
Diamond
Horário de Verão
Por razão econômica, interesse nacional
Uma porra de decreto, governamental!
Me rouba uma hora de vida,
Pra me devolver, caso eu sobreviva
À chatura daquele horário eleitoral,
Ao calor e ao cupim, que voando
Em squizo zig-zag, me entra pelas ventas
Com a maior intimidade, e nada é pessoal.
Lá pelas horas tantas, em frente à televisão,
Se não faltar energia, essa única diversão,
Suando tomo outro banho, por pura recreação
Já não consigo dormir, desde que você partiu,
Com saudade da hora roubada, eta decreto de m....
P.... que o pariu.
Viver a plenitude da liberdade poética e depois
morrer.
Uma porra de decreto, governamental!
Me rouba uma hora de vida,
Pra me devolver, caso eu sobreviva
À chatura daquele horário eleitoral,
Ao calor e ao cupim, que voando
Em squizo zig-zag, me entra pelas ventas
Com a maior intimidade, e nada é pessoal.
Lá pelas horas tantas, em frente à televisão,
Se não faltar energia, essa única diversão,
Suando tomo outro banho, por pura recreação
Já não consigo dormir, desde que você partiu,
Com saudade da hora roubada, eta decreto de m....
P.... que o pariu.
Viver a plenitude da liberdade poética e depois
morrer.
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