Poemas neste tema
Arte
Nuno Júdice
Luta de classes
Nem todos os que construíram as catedrais viram
o mesmo. Uns, ergueram torres e pináculos, à luz do sol,
e chegaram ao céu; outros, metidos nas criptas,
pintaram infernos à luz de velas, deixando no chão
o lugar para os mais anónimos dos mortos. Os
que chegaram ao cimo, receberam o olhar divino e
viram o júbilo das madrugadas primaveris; os
que ficaram no fundo, arrancando à humidade das paredes
o gesto alucinado dos demónios, trocaram
obscenidades e doenças. No entanto, a catedral
é única; e quem a visita, apreciando a totalidade que, dizem,
nasceu de uma visão do absoluto, não pensa
em pormenores. Que importa os que trabalharam
na sombra, perdendo a luz dos olhos com o minucioso
desenho arrancando à treva, se o que hoje se vê
é esse contorno em que a pedra trabalha o céu? Assim,
conclui-se, é da desigualdade que nasce
a harmonia; e é a desordem humana que faz brotar,
do nada, tudo o que admiramos.
Nuno Júdice | "Cartografia de Emoções" | Publicações Dom Quixote, 2002
o mesmo. Uns, ergueram torres e pináculos, à luz do sol,
e chegaram ao céu; outros, metidos nas criptas,
pintaram infernos à luz de velas, deixando no chão
o lugar para os mais anónimos dos mortos. Os
que chegaram ao cimo, receberam o olhar divino e
viram o júbilo das madrugadas primaveris; os
que ficaram no fundo, arrancando à humidade das paredes
o gesto alucinado dos demónios, trocaram
obscenidades e doenças. No entanto, a catedral
é única; e quem a visita, apreciando a totalidade que, dizem,
nasceu de uma visão do absoluto, não pensa
em pormenores. Que importa os que trabalharam
na sombra, perdendo a luz dos olhos com o minucioso
desenho arrancando à treva, se o que hoje se vê
é esse contorno em que a pedra trabalha o céu? Assim,
conclui-se, é da desigualdade que nasce
a harmonia; e é a desordem humana que faz brotar,
do nada, tudo o que admiramos.
Nuno Júdice | "Cartografia de Emoções" | Publicações Dom Quixote, 2002
1 207
José Miguel Silva
Uffizi
Que faz um céptico hedonista e quezilento
no país da arte sacra? Como pode
libertar-se da noção de que estes jogos
de volumes, estes planos vivamente
coloridos, representam tudo aquilo em
que não crê: o fanatismo, a videiterna,
o sacrifício do corpo? Deambula
pelas salas como um cão esfomeado
por um campo de tremoço, sem achar
em tão exótica e senil mitologia
firme carne onde ferrar o pensamento.
Irritado, estuga o passo, cada vez
mais insensível à seráfica beleza
das madonas parideiras, de sorriso
complacente, ao intérmino desfile
de agonias, ascensões e pietás,
procurando avidamente as belas damas
de Bronzino, as doces Vénus ou até
o rosto duro (mas humano, pelo menos)
de burgueses, mercenários e fidalgos:
emissários do real, da violência
do desejo deturpado em senhorio.
À saída é contemplado pelo ébrio
sorriso dum velhaco sem futuro,
p'lo olhar esfomeado duma Maggie
de cem quilos, por dois cacos à procura
duma cola essencial. E promete
a São Vermeer cometer a breve trecho
expiatória romagem ao terreno,
liberal e nivelado mundo novo
da pintura de seiscentos holandesa.
no país da arte sacra? Como pode
libertar-se da noção de que estes jogos
de volumes, estes planos vivamente
coloridos, representam tudo aquilo em
que não crê: o fanatismo, a videiterna,
o sacrifício do corpo? Deambula
pelas salas como um cão esfomeado
por um campo de tremoço, sem achar
em tão exótica e senil mitologia
firme carne onde ferrar o pensamento.
Irritado, estuga o passo, cada vez
mais insensível à seráfica beleza
das madonas parideiras, de sorriso
complacente, ao intérmino desfile
de agonias, ascensões e pietás,
procurando avidamente as belas damas
de Bronzino, as doces Vénus ou até
o rosto duro (mas humano, pelo menos)
de burgueses, mercenários e fidalgos:
emissários do real, da violência
do desejo deturpado em senhorio.
À saída é contemplado pelo ébrio
sorriso dum velhaco sem futuro,
p'lo olhar esfomeado duma Maggie
de cem quilos, por dois cacos à procura
duma cola essencial. E promete
a São Vermeer cometer a breve trecho
expiatória romagem ao terreno,
liberal e nivelado mundo novo
da pintura de seiscentos holandesa.
1 166
Nuno Júdice
Explicação
O poema é esta casa abandonada, o rosto belíssimo de imagens mortas.
Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", contracapa | Quetzal Editores, 1999
Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", contracapa | Quetzal Editores, 1999
1 188
José Miguel Silva
Poema com Apólogo Moral
Há quem diga que depois da batalha de Queroneia,
de Los Alamos, do Rapto das Sabinas,
nunca mais se pode escrever com maiúsculas
a palavra "Deus"; que se tornou imoral
a gente queixar-se à lua de uma farpa no dedo,
do infortúnio, do tempo que perdemos na paragem
do autocarro. Quem o diz que não se pode,
não sabe, não entende o que poesia seja.
Era um homem que vivia a profissão de marceneiro.
É conhecida a ligação do marceneiro com as farpas
que lhe entram na pele. Este falava com elas,
contava-lhes casos de sorte e azar, queria-lhes bem.
Entendia que também as farpas são filhas de Deus,
isto é, do amor que sentia pela sua arte.
Um dia um acidente aconteceu na máquina de corte,
esse homem perdeu a mão direita. Não por isso deixou
de sentir farpas alojarem-se na mão perdida,
de falar com elas, de recomendar-lhes
que tivessem juizo, que fossem brincar para outro lado.
de Los Alamos, do Rapto das Sabinas,
nunca mais se pode escrever com maiúsculas
a palavra "Deus"; que se tornou imoral
a gente queixar-se à lua de uma farpa no dedo,
do infortúnio, do tempo que perdemos na paragem
do autocarro. Quem o diz que não se pode,
não sabe, não entende o que poesia seja.
Era um homem que vivia a profissão de marceneiro.
É conhecida a ligação do marceneiro com as farpas
que lhe entram na pele. Este falava com elas,
contava-lhes casos de sorte e azar, queria-lhes bem.
Entendia que também as farpas são filhas de Deus,
isto é, do amor que sentia pela sua arte.
Um dia um acidente aconteceu na máquina de corte,
esse homem perdeu a mão direita. Não por isso deixou
de sentir farpas alojarem-se na mão perdida,
de falar com elas, de recomendar-lhes
que tivessem juizo, que fossem brincar para outro lado.
1 333
José Miguel Silva
Nocturno
A arte já sabemos nasce
da imperfeição das coisas
que trazemos para casa
com o pó da rua
quando a tarde finda
e não temos água quente
para lavar a cabeça.
Tentamos regular
com açudes de orações
o curso da tristeza
mudamos de cadeira
e levamos a noite
a dizer oxalá
como se a palavra
praticasse anestesia.
da imperfeição das coisas
que trazemos para casa
com o pó da rua
quando a tarde finda
e não temos água quente
para lavar a cabeça.
Tentamos regular
com açudes de orações
o curso da tristeza
mudamos de cadeira
e levamos a noite
a dizer oxalá
como se a palavra
praticasse anestesia.
1 119
José Miguel Silva
Exame de estética
My rock & roll friend
The Go-Betweens
Eu estava na Lavandeira a espera do César
que me prometera 10 gramas para as 6,30
quando um desgraçado me trouxe a notícia
de que o Artur fora encontrado em casa
com a morte a correr-lhe nas veias.
Oh terríveis 6 horas da tarde, eu tinha
na manhã seguinte um exame de Estética
e a questão era responder para que serve
a arte, se não impede a mudança,
se não faz que estejas aqui ao pé de nós
a ouvir o último dos Go-Betweens.
Não serve para muito, serve apenas
para escudar uma sombra, para escorar
as lágrimas, para que a morte não seja
a penúltima a rir.
The Go-Betweens
Eu estava na Lavandeira a espera do César
que me prometera 10 gramas para as 6,30
quando um desgraçado me trouxe a notícia
de que o Artur fora encontrado em casa
com a morte a correr-lhe nas veias.
Oh terríveis 6 horas da tarde, eu tinha
na manhã seguinte um exame de Estética
e a questão era responder para que serve
a arte, se não impede a mudança,
se não faz que estejas aqui ao pé de nós
a ouvir o último dos Go-Betweens.
Não serve para muito, serve apenas
para escudar uma sombra, para escorar
as lágrimas, para que a morte não seja
a penúltima a rir.
1 317
Al Berto
Visita-me Enquanto não Envelheço
visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado
tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado
tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te
1 637
Nuno Júdice
O movimento do mundo
Às vezes, um verso transforma o modo como
se olha para o mundo; as coisas revelam-se
naquilo que imaginação alguma a supôs; e
o centro desloca-se de onde estava, desde
a origem, obrigando o pensamento a rodar
noutra direção. O poema, no entanto, não
tem obrigatoriamente de dizer tudo. A sua
essência reside no fragmento de um absoluto
que algum deus levou consigo. Olho para
esse vestígio da totalidade sem ver mais
do que isso - o desperdício da antiga
perfeição - e deixo para trás o caminho
da ideia, a ambição teológica, o sonho do
infinito. De que eternidade me esqueço,
então, no fundo da estrofe?
se olha para o mundo; as coisas revelam-se
naquilo que imaginação alguma a supôs; e
o centro desloca-se de onde estava, desde
a origem, obrigando o pensamento a rodar
noutra direção. O poema, no entanto, não
tem obrigatoriamente de dizer tudo. A sua
essência reside no fragmento de um absoluto
que algum deus levou consigo. Olho para
esse vestígio da totalidade sem ver mais
do que isso - o desperdício da antiga
perfeição - e deixo para trás o caminho
da ideia, a ambição teológica, o sonho do
infinito. De que eternidade me esqueço,
então, no fundo da estrofe?
1 959
Fernando Pessoa
EPIGRAMS - VIII
He asked me, half in his fine compassion,
To sketch in two strokes his portrait high;
'Tis done: a coat strikingly in fashion
And a red tie.
To sketch in two strokes his portrait high;
'Tis done: a coat strikingly in fashion
And a red tie.
1 254
Fernando Pessoa
THE PICTURE
In a saloon that is a sleep
Mine eyes did a picture meet,
And wondrously wise and woefully deep
And horribly complete.
A profound meaning more than tears
Are seen to give, and human fears,
And human madness and woe,
Come as a scent from that picture weird.
The name of the painter is ignored
And his purpose none do know.
Mine eyes did a picture meet,
And wondrously wise and woefully deep
And horribly complete.
A profound meaning more than tears
Are seen to give, and human fears,
And human madness and woe,
Come as a scent from that picture weird.
The name of the painter is ignored
And his purpose none do know.
1 377
Fernando Pessoa
TO MY DEAREST FRIEND
When I am dead you'll write - I know you will -
A thoughtful sonnet on my early death,
In which, stating that life but wearieth,
You'll notice how I lie pale, cold, and still.
This in the quatrains, which likewise you'll fill
With some reflections on how soon goes breath
And how the cold and heavy earth beneath
There is an end to living, good or ill.
After this, in the tercets, you will say
That death's a mystery, that nought doth stay,
Perhaps that immortality is true.
Then you will sign and put the date to it.
And, having read again the sonnet, you
Will be content, seeing it is well writ.
A thoughtful sonnet on my early death,
In which, stating that life but wearieth,
You'll notice how I lie pale, cold, and still.
This in the quatrains, which likewise you'll fill
With some reflections on how soon goes breath
And how the cold and heavy earth beneath
There is an end to living, good or ill.
After this, in the tercets, you will say
That death's a mystery, that nought doth stay,
Perhaps that immortality is true.
Then you will sign and put the date to it.
And, having read again the sonnet, you
Will be content, seeing it is well writ.
1 517
Fernando Pessoa
COMEDY
I.
Once in a theatre comic
’Tween acts I pondered to see
On a column sculptured, wide and comic,
The grinning mask of Comedy;
And broad and wild in satyr-glee,
The grinning face of Comedy.
II.
«Ah,» said I, «face merry and comic,
There is happiness in thee,
Few faces like thine, wide-mouth'd and comic,
Oh, grinning face of Comedy;
Boisterously wrinkled, ugly and free,
The grinning mask of Comedy.»
III.
But as I gazed at the face that smiled,
With mine eyes half-dreamfully,
«Ah,» said I, «it is forced and wild,
Untrue smile of pitiless glee;
Forcedly wrinkled, unreal, unfree,
Hard-grinning mask of Comedy.»
IV.
And I trembled — now it no longer smiled,
It had forcedly smiled — now not even so.
Oh, fearful face, terribly wild,
Terribly silent face or woe;
Worn, hysterical, mad, unfree,
Woe-twisted face of Comedy.
Once in a theatre comic
’Tween acts I pondered to see
On a column sculptured, wide and comic,
The grinning mask of Comedy;
And broad and wild in satyr-glee,
The grinning face of Comedy.
II.
«Ah,» said I, «face merry and comic,
There is happiness in thee,
Few faces like thine, wide-mouth'd and comic,
Oh, grinning face of Comedy;
Boisterously wrinkled, ugly and free,
The grinning mask of Comedy.»
III.
But as I gazed at the face that smiled,
With mine eyes half-dreamfully,
«Ah,» said I, «it is forced and wild,
Untrue smile of pitiless glee;
Forcedly wrinkled, unreal, unfree,
Hard-grinning mask of Comedy.»
IV.
And I trembled — now it no longer smiled,
It had forcedly smiled — now not even so.
Oh, fearful face, terribly wild,
Terribly silent face or woe;
Worn, hysterical, mad, unfree,
Woe-twisted face of Comedy.
1 457
Fernando Pessoa
Outros com liras ou com harpas narram,
Outros com liras ou com harpas narram,
Eu com meu pensamento.
Que, por meio de música, acham nada
Se acham só o que sentem.
Mais pesam as palavras que, medidas,
Dizem que o mundo existe.
Eu com meu pensamento.
Que, por meio de música, acham nada
Se acham só o que sentem.
Mais pesam as palavras que, medidas,
Dizem que o mundo existe.
1 306
Fernando Pessoa
Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,
Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,
Breve é a vida ao tempo e longa à alma.
A arte, com que todos,
— Ora sem saber virando os copos,
Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos,
Chegada a morte, despi-la.
Breve é a vida ao tempo e longa à alma.
A arte, com que todos,
— Ora sem saber virando os copos,
Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos,
Chegada a morte, despi-la.
1 394
Fernando Pessoa
She lives on the cover
She lives on the cover
Of a chocolate‑box.
Her wide hat comes over
Her too golden locks.
Near her many a blossom
Of a bad green tree
Her hand's on her bosom
And she looks past me.
Haply she is like
Someone I ne'er knew,
And can memory strike
In a way untrue.
A vague maiden made
Of bad printing work,
Of colours ill‑laid
……
Haply she's someone,
Real, person, and true
In a world, or none,
Our thoughts can construe.
Somehow she is there
And that means something
Real, but not near
Our imagining.
Why was she made that
There and thus, if she
Is not God‑known. What
Is reality?
Nothing that we can
Interpret or dream
Quite exhausts the span
Of what she can seem.
God is very complex.
Life is very wide.
Who knows? She resembles
Much that is denied.
This is idle, but
Perhaps out of here
Its sense may abut
On some notion clear.
Life is shallow water,
Dreams are ripples gone.
To think is to falter
What's known is unknown.
Of a chocolate‑box.
Her wide hat comes over
Her too golden locks.
Near her many a blossom
Of a bad green tree
Her hand's on her bosom
And she looks past me.
Haply she is like
Someone I ne'er knew,
And can memory strike
In a way untrue.
A vague maiden made
Of bad printing work,
Of colours ill‑laid
……
Haply she's someone,
Real, person, and true
In a world, or none,
Our thoughts can construe.
Somehow she is there
And that means something
Real, but not near
Our imagining.
Why was she made that
There and thus, if she
Is not God‑known. What
Is reality?
Nothing that we can
Interpret or dream
Quite exhausts the span
Of what she can seem.
God is very complex.
Life is very wide.
Who knows? She resembles
Much that is denied.
This is idle, but
Perhaps out of here
Its sense may abut
On some notion clear.
Life is shallow water,
Dreams are ripples gone.
To think is to falter
What's known is unknown.
1 404
Fernando Pessoa
Abram falência à nossa vitalidade!
Abram falência à nossa vitalidade!
Escrevemos versos, cantamos as coisas-falências; não as vivemos.
Como poder viver todas as vidas e todas as épocas
E todas as formas da forma
E todos os gestos do gesto?
O que é fazer versos senão confessar que a vida não basta
O que é arte senão uma esperança que não é ninguém
Adeus, Walt, adeus!
Adeus até ao indefinido do para além do Fim.
Espera-me, se aí se pode esperar,
Quando parte o último comboio?
Quando parte? (Quando partimos)
Escrevemos versos, cantamos as coisas-falências; não as vivemos.
Como poder viver todas as vidas e todas as épocas
E todas as formas da forma
E todos os gestos do gesto?
O que é fazer versos senão confessar que a vida não basta
O que é arte senão uma esperança que não é ninguém
Adeus, Walt, adeus!
Adeus até ao indefinido do para além do Fim.
Espera-me, se aí se pode esperar,
Quando parte o último comboio?
Quando parte? (Quando partimos)
1 447
Fernando Pessoa
O verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas,
O verdadeiro poema moderno é a vida sem poemas,
E o comboio real e não os versos que o cantam
É o ferro dos rails, dos rails quentes, é o ferro das rodas, é o giro real delas.
E não os meus poemas falando de rails e de rodas sem eles.
E o comboio real e não os versos que o cantam
É o ferro dos rails, dos rails quentes, é o ferro das rodas, é o giro real delas.
E não os meus poemas falando de rails e de rodas sem eles.
1 491
Fernando Pessoa
SAUDAÇÃO [c]
SAUDAÇÃO
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.
O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)
Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)
A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
1 110
Fernando Pessoa
Tantos poemas contemporâneos!
Tantos poemas contemporâneos!
Tantos poetas absolutamente de hoje —
Interessante tudo, interessantes todos...
Ah, mas é tudo quase...
É tudo vestíbulo
E tudo só para escrever.
Nem arte,
Nem ciência
Nem verdadeira nostalgia...
Este olhou bem o silêncio desse cipreste...
Esse viu bem o poente por trás do cipreste...
Este reparou bem na emoção que tudo isso daria...
Mas depois?...
Ah, meus poetas, meus poemas — e depois?
O pior é sempre o depois...
É que para dizer é preciso pensar —
Pensar com o segundo pensamento —
E vocês meus velhos, poetas e poemas,
Pensam só com a rapidez primária da asneira — é (...) e da pena —
Mais vale o clássico seguro.
Mais vale o soneto contente.
Mais vale qualquer coisa, ainda que má,
Que os arredores inconstruídos duma qualquer coisa boa...
"Tenho a minha alma!"
Não, não tens: tens a sensação dela.
Cuidado com a sensação.
Muitas vezes é dos outros,
E muitas vezes é nossa
Só pelo acidente estonteado de a sentirmos...
Tantos poetas absolutamente de hoje —
Interessante tudo, interessantes todos...
Ah, mas é tudo quase...
É tudo vestíbulo
E tudo só para escrever.
Nem arte,
Nem ciência
Nem verdadeira nostalgia...
Este olhou bem o silêncio desse cipreste...
Esse viu bem o poente por trás do cipreste...
Este reparou bem na emoção que tudo isso daria...
Mas depois?...
Ah, meus poetas, meus poemas — e depois?
O pior é sempre o depois...
É que para dizer é preciso pensar —
Pensar com o segundo pensamento —
E vocês meus velhos, poetas e poemas,
Pensam só com a rapidez primária da asneira — é (...) e da pena —
Mais vale o clássico seguro.
Mais vale o soneto contente.
Mais vale qualquer coisa, ainda que má,
Que os arredores inconstruídos duma qualquer coisa boa...
"Tenho a minha alma!"
Não, não tens: tens a sensação dela.
Cuidado com a sensação.
Muitas vezes é dos outros,
E muitas vezes é nossa
Só pelo acidente estonteado de a sentirmos...
1 631
Fernando Pessoa
IV - Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
IV
Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse pelos desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse
Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra — reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...
Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...
Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...
Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse pelos desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse
Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra — reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...
Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...
Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...
1 497
Fernando Pessoa
XI - Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
XI
Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.
Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?
Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...
E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...
Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.
Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?
Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...
E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...
1 676
Fernando Pessoa
Não como ante donzela ou mulher viva
Não como ante donzela ou mulher viva
Com calor na beleza humana delas
Devemos dar os olhos
À beleza imortal.
Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
Não de outro modo é ela
Imortal como os deuses.
Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
Devemos olhar de néscios
Olhos para a beleza.
Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
Diante da beleza
Façamo-nos sóbrios.
Para outra cousa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
Por isso a contemplemos
Num claro esquecimento.
E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
E o longínquo sorriso
De quem assiste à vida.
Com calor na beleza humana delas
Devemos dar os olhos
À beleza imortal.
Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
Não de outro modo é ela
Imortal como os deuses.
Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
Devemos olhar de néscios
Olhos para a beleza.
Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
Diante da beleza
Façamo-nos sóbrios.
Para outra cousa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
Por isso a contemplemos
Num claro esquecimento.
E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
E o longínquo sorriso
De quem assiste à vida.
1 350