Poemas neste tema
Alma
Renato Rezende
Eu
Esvaziar-me
e tornar-me nada.
Viver da mesma maneira, a mesma coisa, em barracas
ou palácios.
Ter o corpo oco, depois de cada encontro
e durante cada ato
não pensar em nada, não levar nada
para casa
não sentir nem desejo nem raiva.
Que não exista algo chamado Renato.
Nunca fazer nada.
Que Renato seja uma máscara
vazia—mas este espaço
não seja ausência, mas luminosidade.
A coisa mais pura e clara.
Nova York, 13 de março 1996
e tornar-me nada.
Viver da mesma maneira, a mesma coisa, em barracas
ou palácios.
Ter o corpo oco, depois de cada encontro
e durante cada ato
não pensar em nada, não levar nada
para casa
não sentir nem desejo nem raiva.
Que não exista algo chamado Renato.
Nunca fazer nada.
Que Renato seja uma máscara
vazia—mas este espaço
não seja ausência, mas luminosidade.
A coisa mais pura e clara.
Nova York, 13 de março 1996
1 046
Renato Rezende
Ensaio
Deitado na cama, sozinho, escrevo
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
989
Renato Rezende
Desejo
Um anjo desejou outro anjo.
Isso não foi inocente. Os primeiros
tons rubros surgiram no horizonte eterno.
Logo tudo foi tomado pelas chamas
e era o poente: a aurora do inferno.
Nova York, agôsto 1993
Isso não foi inocente. Os primeiros
tons rubros surgiram no horizonte eterno.
Logo tudo foi tomado pelas chamas
e era o poente: a aurora do inferno.
Nova York, agôsto 1993
1 159
Renato Rezende
A Ilha
Levanto as mãos para o céu,
os braços para o alto
num gesto
menos de agradecimento
do que desamparo.
Não sei como ainda me sustento
dentro dos sapatos.
Cada passo
um novo compasso.
Caminho pela cidade,
pelo Estácio
onde vim acalmar o sentido...
e penso
"A vida inteira que não foi
e que poderia ter sido".
A promessa, o sonho, o beijo
não propriamente esquecidos,
mas diluídos
no dia a dia do corpo.
Penso naquele que fui
sem saber que era
e procuro a essência da primavera
para dela partir novamente.
Mistério. Difícil
dilema:
me busco no passado ou me reconstruo
do nada?
Sou fênix ou sou cinzas?
Navego no escuro.
Contenho
no peito o grito.
Liberdade! Liberdade
é bairro em São Paulo.
ou ainda
Terra a vista!
ai, quem me dera, que vontade
de encontrar-me
Robinson Crusoé perdido em sua ilha.
Rio de Janeiro, 3 de abril 1997
os braços para o alto
num gesto
menos de agradecimento
do que desamparo.
Não sei como ainda me sustento
dentro dos sapatos.
Cada passo
um novo compasso.
Caminho pela cidade,
pelo Estácio
onde vim acalmar o sentido...
e penso
"A vida inteira que não foi
e que poderia ter sido".
A promessa, o sonho, o beijo
não propriamente esquecidos,
mas diluídos
no dia a dia do corpo.
Penso naquele que fui
sem saber que era
e procuro a essência da primavera
para dela partir novamente.
Mistério. Difícil
dilema:
me busco no passado ou me reconstruo
do nada?
Sou fênix ou sou cinzas?
Navego no escuro.
Contenho
no peito o grito.
Liberdade! Liberdade
é bairro em São Paulo.
ou ainda
Terra a vista!
ai, quem me dera, que vontade
de encontrar-me
Robinson Crusoé perdido em sua ilha.
Rio de Janeiro, 3 de abril 1997
755
Renato Rezende
A Idade de Cristo
I.
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
Sim, sim, sim, é o homem
que pertence à terra,
e não o contrário.
Esta casa de fazenda, por exemplo.
Seu sólido casarão de barro
pintado de branco e azul;
o terreiro de café;
a antiga senzala caindo;
é apenas nosso destino comum,
o nosso cenário.
Aqui há gerações jogamos o baralho
intricado de nossas vidas.
Aqui o teatro
aparente entre senhores e vassalos.
Junqueiras, Arrudas, Rezendes,
Prados, Azevedos.
Somos proprietários,
caseiros e camponeses.
Aqui onde hoje estão estas sombras
os jogos inocentes da infância,
as horas honestas do trabalho,
as noites de intriga,
os roubos, os atos ambíguos
jamais explicados ou compreendidos,
as palavras ditas e as não ditas,
os desejos da carne,
os encontros secretos de madrugada
sob o céu aberto
debaixo
das estrelas que caíam,
ou dentro das alcovas frias.
O casarão apreende o passado
em suas paredes, a fazenda em sua terra
e nos serve de volta no sabor do café diário.
II.
Caminho até o curral.
Dou bom-dia às vacas.
Volto para casa, o casarão
está vazio,
está vazia a colônia.
São 7 hrs. da manhã
o vento varre o terreirão
o sol nasce
atrás da serra
sento-me na sala e escrevo.
Hoje, domingo de Páscoa
bem cedo
sento-me no sofá, no centro
da sala,
no centro da casa,
e escrevo.
Volto ao curral
converso com as vacas,
desejo-lhes
feliz Páscoa.
Atravesso o terreiro
estou no pomar
varrido pelo vento
("Noite de vento
noite dos mortos")
pelo tempo e seus fantasmas.
Memória. Aqui é o caminho
do caçador de esmeraldas.
Velhas mangueiras, jabuticabas
cheias de barba de bode
abacates como corações verdes
de pedra pendurados nas árvores.
Pulo a cerca, estou no pasto.
Ossos
de outras gerações de vacas.
Garças, siriemas, possíveis cobras.
O campo aberto, o espaço
a distância
o vale seco
mais parece a India
mais parece a Africa
de um tempo remoto
que é meu e eu desconheço.
Contrariando a mim mesmo
de pijamas
cabelo ao vento
caminho até o café:
esta manhã eu me experimento.
Aqui estão eles: 30 mil pés
exigidos da terra
entre frestas de pedra.
Este é o nosso sustento,
este nosso exíguo alimento.
Destas alturas tudo vejo.
Sobem a estrada dois negros descalços
munidos de espingardas.
São lentos, mas sobem rápido.
Vão caçar na mata.
Penso em esconder-me,
mas já é tarde.
Passam por mim e desejo-lhes bom-dia,
e foi mais fácil desejá-lo às vacas.
Me sinto distante e isolado
destes outros seres, iguais a mim
e meus irmãos chamados.
Hoje, domingo de Páscoa, o Cristo
renascerá entre nós, ou melhor, em cada um de nós
como um sol solitário.
Volto para casa.
Fecho a porta, o vento
varre o terreiro
nesta manhã iluminada.
Estou só, mas me sinto preso
doce, tenuamente preso
(como um inseto
numa teia de aranha)
ao meu nome, meus fantasmas, meu feudo.
III.
Muitos lares cresceram
durante estes anos todos
na orla da fazenda.
A terra abafada
onde antes era mata
e depois pasto para vacas.
Casas simples, muita gente
onde numa tarde de outrora
eu e uma filha da colônia
nos deitamos em segredo.
É natural que tudo se transforme.
O amor se renova
em novos cénarios.
Nem um pouco desejo
o corpo da menina agora.
Nem sei se está viva ou morta.
No entanto, havia naqueles dias
na luz daqueles dias, ou no ar
a própria essência
da minha infância, da adolescência
que tinha uma vida inteira pela frente
mas não sabia.
Hoje se desenrola sem sentido
uma vida que não parece minha.
Em nada me reconheço
e em vão me busco na fazenda.
Sinto-me fora
de mim mesmo, fora de centro
ou escondido dentro:
vivendo um exílio às avessas.
Tenho 33 anos.
A idade de Cristo.
Sei apenas
que não ressucito, e já é tarde
para morrer jovem e bonito.
Atibaia, Semana Santa 1997
1 226
Renato Rezende
Cogumelos
Quando o coração se inflama
incendiado pela paixão
esse fogo não ilumina;
é como o cogumelo venenoso
que brota durante a noite úmida:
não alimenta, queima, apenas queima
o organismo, e alucina.
Nova York, setembro 1993
incendiado pela paixão
esse fogo não ilumina;
é como o cogumelo venenoso
que brota durante a noite úmida:
não alimenta, queima, apenas queima
o organismo, e alucina.
Nova York, setembro 1993
1 125
Renato Rezende
Copacabana, 1997
O mar brilha e arde.
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.
Depois danço e grito e salto.
Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.
Depois danço e grito e salto.
Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
948
Renato Rezende
Zelig
Como se não bastasse
ser gente
é preciso ser também
médico, professor, gerente.
Tudo bem. O Sr. Souza
é gerente de compras.
A Dona Raimunda
tem como profissão
alugar o corpo.
Me perguntam o que sou.
Poeta e pintor, eu digo,
ou aprendiz de mendigo.
(Algo que de si mesmo
duvida).
Meu nome é Zelig
e às vezes São Francisco.
Indefinível, sem qualidades
disassocio-me do meu corpo
que alguns chamam de veículo.
Me despeço do meu destino.
Sou metade vazio
e oco no meio
(a melhor parte de mim mesmo
onde sou mais inteiro).
Me espero no que restará
do fundo do meu próprio abismo.
O sol no mar infinito.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
ser gente
é preciso ser também
médico, professor, gerente.
Tudo bem. O Sr. Souza
é gerente de compras.
A Dona Raimunda
tem como profissão
alugar o corpo.
Me perguntam o que sou.
Poeta e pintor, eu digo,
ou aprendiz de mendigo.
(Algo que de si mesmo
duvida).
Meu nome é Zelig
e às vezes São Francisco.
Indefinível, sem qualidades
disassocio-me do meu corpo
que alguns chamam de veículo.
Me despeço do meu destino.
Sou metade vazio
e oco no meio
(a melhor parte de mim mesmo
onde sou mais inteiro).
Me espero no que restará
do fundo do meu próprio abismo.
O sol no mar infinito.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
977
Renato Rezende
As Moiras
Gostaria de estar lá, testemunha, bem na hora
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
773
Renato Rezende
Impressões do Parque Lage
Na floresta do Parque Lage
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).
Rio de Janeiro, 10 de março 1997
celebro
a minha enorme liberdade.
Sou o primeiro
homem a penetrar este reino
ainda selvagem.
Tudo é meu.
E eu também sou o alheio,
o esquecido, o estrangeiro.
Me sinto completo,
me sinto inteiro.
A mata está fechada.
O cheiro forte da jaca
faz total silêncio.
Caminho na picada.
Nesse mundo vegetal
comungam indigentes
adúlteros, solitários
soldados armados
olhando as mulheres que passam
drogados, aleijados, malucos
delinqüentes, prostitutas
crianças sem inocência.
Um jogo de passeios, de veredas
de miradas e mirantes
de olhos que se baixam
de movimentos obscuros
atrás dos arbustos
de corpos que se cruzam
de águas
que escutam
silenciosos anseios.
Tudo isso sou eu, tudo isso corre
nas minhas veias.
Macacos pulam
de galho em galho.
Surgem borboletas
que foram caçadas
mas de alguma forma sobreviveram.
Estamos no reino
da memória e da sombra
ou luz trespassada
do alto das árvores
fantasmas, almas penadas
coisas perdidas
primitiva vida sem idade.
Aqui é o ponto zero
da cidade.
Aqui é a cidade
antes de ser cidade.
Aqui eu bebo
a cidade
em tudo que ela tem de luz
e de intimidade,
em tudo o que nela é voraz
e eternidade,
aqui eu devoro a cidade pública
e impudica.
(Isso debaixo
detrás
do Cristo
envolvido em nuvens).
Rio de Janeiro, 10 de março 1997
823
Renato Rezende
O Bicho
Me misturo ao mundo absurdo,
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.
Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.
No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?
Sou uma alma em sua jaula.
Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.
Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.
No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?
Sou uma alma em sua jaula.
Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
684
Renato Rezende
Paraíso Perdido (Ou Pré-Poema)
Nenhum de nós jamais pensaria
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.
Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?
Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.
Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?
Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno
como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?
Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.
Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.
Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.
Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.
Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo mais me esqueço.
941
Renato Rezende
Sopro
Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
1 156
Renato Rezende
Para Uma Cruz Na Estrada
Carrego dentro de mim, esquecido
o filho dos meus pais,
o que um dia foi amado,
o que foi querido.
Acho que vindo do mar, de longe
por detrás do monte, escuto um ai:
Lá vai nosso filho
com sutilezas de menina.
Aonde ela vai
tão bem vestida?
-- Encontrar-se
com uma bala perdida.
Lá vai nosso filho
no Elevado.
Aonde ele vai
tão bem penteado?
-- Ser atropelado.
Ser negro, marginal, mendigo
travesti, bêbado, deficiente físico
caminhar ao lado da estrada
sob a tempestade
vestido num saco de lixo
e desaparecer imortalizado
entre os índices de sinistros.
(Para um dia retornar, pródigo
nos braços do Cristo).
Rio de Janeiro, 21 de janeiro 1998
o filho dos meus pais,
o que um dia foi amado,
o que foi querido.
Acho que vindo do mar, de longe
por detrás do monte, escuto um ai:
Lá vai nosso filho
com sutilezas de menina.
Aonde ela vai
tão bem vestida?
-- Encontrar-se
com uma bala perdida.
Lá vai nosso filho
no Elevado.
Aonde ele vai
tão bem penteado?
-- Ser atropelado.
Ser negro, marginal, mendigo
travesti, bêbado, deficiente físico
caminhar ao lado da estrada
sob a tempestade
vestido num saco de lixo
e desaparecer imortalizado
entre os índices de sinistros.
(Para um dia retornar, pródigo
nos braços do Cristo).
Rio de Janeiro, 21 de janeiro 1998
941
Renato Rezende
As Duas Águas
(Sou uma caixa ou uma concha
onde marulha uma água
um mar inteiro preso
entre o espírito e a carne)
Existem duas águas
em mim, em agonia.
As profundas e as rasas.
As rasas são claras,
e no entanto sujas.
Estão em contato
constante com o dia.
(O reino fecundo das cores
e das palavras-fontes).
As profundas são escuras,
embora de matéria mais pura.
Quase não refletem as nuvens.
São as águas
"onde a infância naufraga".
Águas paradas
onde a vida naufraga
em si mesma,
e o dia na noite.
Águas-alma
de total silêncio.
Há em mim
uma tensão entre tais águas
que não se mesclam.
Assim como não se mesclam
o Negro e o Solimões.
Entre estas duas águas
como um peixe
enfermo, eu me sufoco.
Eu, que quero
num salto Amazonas
engolir as águas,
e fazer delas uma.
São Paulo, 20 de junho 1997
onde marulha uma água
um mar inteiro preso
entre o espírito e a carne)
Existem duas águas
em mim, em agonia.
As profundas e as rasas.
As rasas são claras,
e no entanto sujas.
Estão em contato
constante com o dia.
(O reino fecundo das cores
e das palavras-fontes).
As profundas são escuras,
embora de matéria mais pura.
Quase não refletem as nuvens.
São as águas
"onde a infância naufraga".
Águas paradas
onde a vida naufraga
em si mesma,
e o dia na noite.
Águas-alma
de total silêncio.
Há em mim
uma tensão entre tais águas
que não se mesclam.
Assim como não se mesclam
o Negro e o Solimões.
Entre estas duas águas
como um peixe
enfermo, eu me sufoco.
Eu, que quero
num salto Amazonas
engolir as águas,
e fazer delas uma.
São Paulo, 20 de junho 1997
1 193
Renato Rezende
No Lixo
O homem mais bonito
está catando restos
no depósito de lixo.
A pessoa pura
se perdeu em apuros.
No mundo moderno
o amor é complexo:
quanto menos beijo
mais eterno.
Há várias epidemias
que assolam a população
como se fôssemos vermes.
Mas não morremos.
Sobrevivemos
ao próprio tempo.
No meio da multidão
no Paço
Imperial,
na estação Central,
eu juro
eu confesso
que me perco.
Sou ninguém,
mas tenho o coração aceso.
Rio de Janeiro, 18 de abril 1997
está catando restos
no depósito de lixo.
A pessoa pura
se perdeu em apuros.
No mundo moderno
o amor é complexo:
quanto menos beijo
mais eterno.
Há várias epidemias
que assolam a população
como se fôssemos vermes.
Mas não morremos.
Sobrevivemos
ao próprio tempo.
No meio da multidão
no Paço
Imperial,
na estação Central,
eu juro
eu confesso
que me perco.
Sou ninguém,
mas tenho o coração aceso.
Rio de Janeiro, 18 de abril 1997
975
Renato Rezende
Asas de Papel
Subir aos céus em asas de cristal
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir
São Paulo, março 1996
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir
São Paulo, março 1996
1 043
Renato Rezende
Os Antepassados
Meu tio José gostava de ficar
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
debruçado sobre a cerca escura da piscina
depois do jantar, ouvindo o bater da água, o coaxar dos sapos
no duplo prazer
de escutar as estrelas passando sobre a fazenda
e fazer a digestão, peidando.
Morreu de câncer nos intestinos
mas sua alma saiu pelos olhos.
Meu avô também morreu de olhos abertos
escancarados
para o teto...
o céu estrelado da sua infância,
não importa que na verdade fosse o céu cego de S. Paulo.
Aliás, São Paulo também é céu estrelado, é o reino da minha infância.
São Paulo para mim é desejo grande
de ser feliz e de voltar a ser o que se foi.
Todo lugar é lugar de esperança, todo corpo é lar
para o ser humano.
Meu avô Renato, de quem herdei o nome
e essa maneira de andar
entre inúmeras outras coisas que nem sei, além
do bem e do mal,
morreu neurastênico.
Morreu sem viajar muito pra lá de Minas...
sem conhecer
a sua bisneta, minha filha.
Morreu como eu vou morrer um dia
definido por seu espaço e seu tempo.
Morreu como morrem todos,
pleno e culpado, vazio
e completo
(ao mesmo tempo imperfeito e perfeito).
Meu tio José já morreu faz tempo,
poucas pessoas ainda tem saudades.
Meu avô morreu um pouco mais tarde.
A morte é natural
como a sombra crescente da tarde
cobrindo pouco a pouco a cidade,
escurecendo a cerca da piscina e a fazenda inteira.
Já é quase noite, depois do jantar
me retiro para o quarto a escutar as estrelas.
Estou no Rio de Janeiro
onde minha filha nasce e já é criança.
É a vida que passa, e cada um de nós, passando
empurra mais para longe, mais para o escuro
os seus antepassados.
Talvez tendo filhos nós os ajudemos de alguma forma.
Talvez assim paguemos nossas dívidas da carne.
Escuto saudoso as estrelas, o jantar me pesa no estômago,
produz gazes.
Minha filha brinca com seu corpo ainda ileso.
Já é tarde, digo, pra cama, Renata, olha o bicho-papão!
O bicho-papão viajando pelas estrelas e pela carne.
Rio de Janeiro, 13 de fevereiro 1997
962
Renato Rezende
Jagunço
Meio desistido de mim mesmo
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
978
Renato Rezende
A Mangueira
Sob o sol há sempre perda e esse pé
de manga na calçada da ladeira
me lembra agora a infância passada
descalça na ensolarada fazenda.
Meu pai a cavalo! As brincadeiras
no curral entre as vacas, as batalhas
de cevada quente, a terra vermelha,
a cachoeira em prata, o terreiro de café!
O sol parecia eterno.
Mas tudo passa. A cega mangueira
sozinha (longe da mata) na subida
íngreme desta alameda escondida
das avenidas do Rio de Janeiro
também parece me reconhecer, lenta
e perplexa --e como que se abaixa.
Aproximo-me. Sem que ninguém veja
longamente beijo sua antiga casca.
Velha amiga! Foi apenas ontem
que sem medo subia em seus galhos.
Durante o dia com fome dos seus frutos
como o sol dourados e doces;
ou na preguiçosa tarde sob sua sombra
observando os pássaros do mato.
E de noite contra seu tronco, sedento
do fruto proibido, os beijos escondidos
(na brincadeira de esconde-esconde), a boca
rosada da jovem moça da colônia...
No céu riscavam estrelas cadentes...
Lembra? Foi mesmo ontem! E hoje
nos reencontramos de novo!
Mas, amiga, não estaria eu sendo tolo
e dourando (de novo) a pílula do passado?
Fala a verdade, responde... uma rajada
de vento farfalha as suas folhas:
Isto é o lado bom, a grande vantagem
do tempo, que passa, e passando
recolore o já vivido com nova graça....
Que bom que isso aconteça, e é certo
que assim seja. Mas quando, amiga, onde
o sol que enfim nos espera, que vai dourar
o que sempre somos agora? Cá estamos,
você --permita-me-- abandonada e seca
eu, abandonado e longe, náufragos à deriva
em nossos corpos --de nossas próprias vidas.
Vivemos ainda da seiva dos velhos sonhos.
(Os velhos sonhos de ser tudo e todos
além do fogo-tempo e seus círculos).
Rio de Janeiro, 18 de julho 1997
de manga na calçada da ladeira
me lembra agora a infância passada
descalça na ensolarada fazenda.
Meu pai a cavalo! As brincadeiras
no curral entre as vacas, as batalhas
de cevada quente, a terra vermelha,
a cachoeira em prata, o terreiro de café!
O sol parecia eterno.
Mas tudo passa. A cega mangueira
sozinha (longe da mata) na subida
íngreme desta alameda escondida
das avenidas do Rio de Janeiro
também parece me reconhecer, lenta
e perplexa --e como que se abaixa.
Aproximo-me. Sem que ninguém veja
longamente beijo sua antiga casca.
Velha amiga! Foi apenas ontem
que sem medo subia em seus galhos.
Durante o dia com fome dos seus frutos
como o sol dourados e doces;
ou na preguiçosa tarde sob sua sombra
observando os pássaros do mato.
E de noite contra seu tronco, sedento
do fruto proibido, os beijos escondidos
(na brincadeira de esconde-esconde), a boca
rosada da jovem moça da colônia...
No céu riscavam estrelas cadentes...
Lembra? Foi mesmo ontem! E hoje
nos reencontramos de novo!
Mas, amiga, não estaria eu sendo tolo
e dourando (de novo) a pílula do passado?
Fala a verdade, responde... uma rajada
de vento farfalha as suas folhas:
Isto é o lado bom, a grande vantagem
do tempo, que passa, e passando
recolore o já vivido com nova graça....
Que bom que isso aconteça, e é certo
que assim seja. Mas quando, amiga, onde
o sol que enfim nos espera, que vai dourar
o que sempre somos agora? Cá estamos,
você --permita-me-- abandonada e seca
eu, abandonado e longe, náufragos à deriva
em nossos corpos --de nossas próprias vidas.
Vivemos ainda da seiva dos velhos sonhos.
(Os velhos sonhos de ser tudo e todos
além do fogo-tempo e seus círculos).
Rio de Janeiro, 18 de julho 1997
704
Renato Rezende
Nós
Cada um de nós
tem uma vida
atroz e parecida.
Parecida com a daqueles
do nosso meio:
o mesmo score
de infinitas viagens,
aventuras, sexo
e também dinheiro.
Mas igualmente atroz
ou, se quiseres
(a perspectiva
depende do dia)
igualmente feia
ou bonita ou inquieta
ou esquisita
a vida
de outros homens.
Igual em essência
a vida de todos nós
sofrendo no corpo
o fogo do tempo:
o mesmo prazer
a mesmíssima dor
a voz
presa no peito
a sede de amor
os nós
de tantos anseios
e afetos desfeitos,
o destino incerto
sem ritmo
sem nexo,
o enorme desejo
de um dia estar em paz
e conhecer Deus
por fim falso ou verdadeiro.
E por todo o caminho
o espelho perplexo:
quem sou?
Desconfio
que somos o mesmo.
Rio de Janeiro, 26 de maio 1997
tem uma vida
atroz e parecida.
Parecida com a daqueles
do nosso meio:
o mesmo score
de infinitas viagens,
aventuras, sexo
e também dinheiro.
Mas igualmente atroz
ou, se quiseres
(a perspectiva
depende do dia)
igualmente feia
ou bonita ou inquieta
ou esquisita
a vida
de outros homens.
Igual em essência
a vida de todos nós
sofrendo no corpo
o fogo do tempo:
o mesmo prazer
a mesmíssima dor
a voz
presa no peito
a sede de amor
os nós
de tantos anseios
e afetos desfeitos,
o destino incerto
sem ritmo
sem nexo,
o enorme desejo
de um dia estar em paz
e conhecer Deus
por fim falso ou verdadeiro.
E por todo o caminho
o espelho perplexo:
quem sou?
Desconfio
que somos o mesmo.
Rio de Janeiro, 26 de maio 1997
1 083
Renato Rezende
Passeio
Demoro-me
no centro da cidade,
no Castelo, no Passeio.
Demoro-me
no Rio de Janeiro
como se fosse outrora
e se dissesse:
Ele demorava-se no Centro,
a esmo.
Demoro-me como quem quer
ser atropelado
sumir num tropeção
esquecer-se de si mesmo.
Demoro-me como se demoram
os mendigos que moram na rua
e que esperam o dia inteiro
para suas casas serem abandonadas.
Demoro-me como um destituído
cuja única felicidade
o clarão de luz na cara.
Rio de Janeiro, 2 de fevereiro 1997
no centro da cidade,
no Castelo, no Passeio.
Demoro-me
no Rio de Janeiro
como se fosse outrora
e se dissesse:
Ele demorava-se no Centro,
a esmo.
Demoro-me como quem quer
ser atropelado
sumir num tropeção
esquecer-se de si mesmo.
Demoro-me como se demoram
os mendigos que moram na rua
e que esperam o dia inteiro
para suas casas serem abandonadas.
Demoro-me como um destituído
cuja única felicidade
o clarão de luz na cara.
Rio de Janeiro, 2 de fevereiro 1997
1 071
Renato Rezende
Estelita Lins Com Laranjeiras
Nesta esquina havia um mendigo
que queria sempre falar comigo.
Quando me via me chamava.
Ei, ei, preciso falar com você!
Mas eu passava apressado e deprimido.
E lá ficava ele, sentado
entre cocôs de cachorro e lixo.
Quem sabe ele era o anjo, um Zipruana
São Francisco de Assis, o próprio Jesus Cristo
que me levaria enfim ao Paraíso.
Talvez ele fosse o anjo do eu-redimido.
Talvez ele fosse o meu anjo prometido.
Duvido.
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro 1997
que queria sempre falar comigo.
Quando me via me chamava.
Ei, ei, preciso falar com você!
Mas eu passava apressado e deprimido.
E lá ficava ele, sentado
entre cocôs de cachorro e lixo.
Quem sabe ele era o anjo, um Zipruana
São Francisco de Assis, o próprio Jesus Cristo
que me levaria enfim ao Paraíso.
Talvez ele fosse o anjo do eu-redimido.
Talvez ele fosse o meu anjo prometido.
Duvido.
Rio de Janeiro, 27 de fevereiro 1997
924
Renato Rezende
Ao Menos
Houve um tempo
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.
Rio de Janeiro, fevereiro 1998
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.
Rio de Janeiro, fevereiro 1998
1 042