Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Pablo Neruda
LI
Por que detesto as cidades
que cheiram a mulher e urina?
Não é a cidade o grande oceano
dos colchões que palpitam?
A oceania dos ares
não tem ilhas e palmeiras?
Por que voltei à indiferença
do oceano desmedido?
que cheiram a mulher e urina?
Não é a cidade o grande oceano
dos colchões que palpitam?
A oceania dos ares
não tem ilhas e palmeiras?
Por que voltei à indiferença
do oceano desmedido?
1 172
Pablo Neruda
Combate da Itália
Europa vestida de velhas violetas e torres de estirpe angustiada
nos fez voar na sua onda de ilustres paixões
e em Roma as flores, as vozes, a noite iracunda,
os nobres irmãos que me resgataram da Polícia:
mas logo se abriram os braços da Itália abraçando-nos
com seus jasmineiros crescidos em gretas de rocha
e seu paroxismo de olhos que nos ensinaram a olhar o mundo.
nos fez voar na sua onda de ilustres paixões
e em Roma as flores, as vozes, a noite iracunda,
os nobres irmãos que me resgataram da Polícia:
mas logo se abriram os braços da Itália abraçando-nos
com seus jasmineiros crescidos em gretas de rocha
e seu paroxismo de olhos que nos ensinaram a olhar o mundo.
1 081
Pablo Neruda
XVI - Os homens
O fatigado, o órfão
das multidões, o eu,
o triturado, o do asfalto,
o apátrida dos restaurantes repletos,
o que queria ir mais longe, sempre,
não sabia o que fazer na ilha,
queria e não queria ficar ou voltar,
o vacilante, o híbrido, o enredado em si mesmo
aqui não teve lugar: a retidão de pedra,
o olhar infinito do prisma de granito,
a solidão redonda o expulsaram:
foi-se com suas tristezas para outra parte,
regressou às suas agonias natais,
às indecisões do frio e do verão.
das multidões, o eu,
o triturado, o do asfalto,
o apátrida dos restaurantes repletos,
o que queria ir mais longe, sempre,
não sabia o que fazer na ilha,
queria e não queria ficar ou voltar,
o vacilante, o híbrido, o enredado em si mesmo
aqui não teve lugar: a retidão de pedra,
o olhar infinito do prisma de granito,
a solidão redonda o expulsaram:
foi-se com suas tristezas para outra parte,
regressou às suas agonias natais,
às indecisões do frio e do verão.
1 161
Pablo Neruda
X - Os homens
Sim, próximos desenganados, antes de regressar
ao curral, à colmeia das tristes abelhas,
turistas convencidos de voltar, companheiros
de rua negra com casas de antiguidades
e latas de lixo, meio irmãos
do número trinta e três mil quatrocentos e vinte e sete,
sexto andar, apartamento A, B ou J
diante do armazém "Astorquiza, Williams e Companhia"
sim, meu pobre irmão que sou eu mesmo,
agora que sabemos que não ficaremos
aqui, nem condenados, que sabemos
de hoje, que este esplendor nos ofusca,
a solidão nos aperta como a roupa de um menino
que cresce demais ou como quando
a escuridão se apodera do dia.
ao curral, à colmeia das tristes abelhas,
turistas convencidos de voltar, companheiros
de rua negra com casas de antiguidades
e latas de lixo, meio irmãos
do número trinta e três mil quatrocentos e vinte e sete,
sexto andar, apartamento A, B ou J
diante do armazém "Astorquiza, Williams e Companhia"
sim, meu pobre irmão que sou eu mesmo,
agora que sabemos que não ficaremos
aqui, nem condenados, que sabemos
de hoje, que este esplendor nos ofusca,
a solidão nos aperta como a roupa de um menino
que cresce demais ou como quando
a escuridão se apodera do dia.
955
Pablo Neruda
A Barcarola
(O vento frio corre compacto como um peixe
e golpeia os talos da aveia. Ao rés do solo vive
um movimento múltiplo e delgado. O dia está nu.
O fulgor de Novembro como uma estalactite
lisa e azul decide a pompa do estio.
É verão. E as lanças do vento interminável
perfuram o favo do espaço amarelo:
olvido ao ver correr a música na aveia
a abóbada implacável do meio-dia.
Escuta,
mulher do sol, meu pensamento. Toca
com teus pés o tremor fugitivo do solo.
Entre a relva cresce meu rosto contra o verde,
através de meus olhos cruzam as espadanas
e bebo com a alma velocidade e vento.)
Mas eu, o cidadão de um tempo gasto e roído, de ruas direitas,
que vi converter-se em incêndio, em detritos, em pedras queimadas, em fogo e em pó,
e depois voltar da guerra o soldado com mortes em cima e embaixo,
e outra vez levantar a cidade infeliz colando cimento às ruínas
e janela e janela e janela e janela e janela
e outra porta outra porta outra porta outra porta outra porta
até o duro infinito moderno com seu inferno de fogo quadrado,
pois a pátria da geometria substitui a pátria do homem.
Viajante perdido, o regresso implacável, a vitória de
pernas cortadas,
a derrota guardada em um cesto como uma maçã diabólica:
este século em que me pariram também, entre tantos que já não alcançaram,
que caíram, Desnos, Frederico, Miguel, companheiros
sem trégua ao meu lado no sol e na morte,
estes anos que às vezes ao cravar a bandeira e cantar com orgulho aos povos
me apontaram com sanha os mesmos que eu defendi com meu canto
e quiseram atirar-me à fossa mordendo minha vida
com as mesmas ferozes mandíbulas do tigre inimigo.
(Os inseguros temem a integridade, golpeiam
então minhas costas com pequenos martelos,
querem assegurar o lugar que lhes toca,
porque medo e soberba sempre estiveram juntos
e suas acusações são suas únicas medalhas.)
(Temem que a violência desintegre seus ossos
e para defender-se vestem-se de violência.)
(Veja o testemunho mudo de depois de amanhã,
recolha os pedaços da torre calada
e quanto me tocou da crueldade inútil.
Compreenderá? Talvez. Os tambores
estarão rotos, e a buzina estridente
será pó no pó.
A felicidade te acompanhe,
companheiro, a felicidade, patrimônio futuro
que herdarás de nosso sangue encarniçado.)
Em minha barcarola se encontram voando os pregos do ódio
com o arroz negro que os invejosos me dão em seu prato
e devo estudar a linguagem do corvo, tocar a plumagem,
olhar nos olhos dos insaciáveis e dos insaciados
e no mesmo páramo das imundícies terrestres
arrojar as censuras de agora e as adulações de então.
Cantando entre escórias o canto reluz na taça de minha alma
e tinge com luz de amaranto o crepúsculo aziago,
eu só sustento a taça de sangue e a espada que canta na arena
e provo o sal em meus lábios, a chuva em minha língua e o fogo recebo em meus olhos,
cantando sem pressa nem pausa, coroado pelas nevascas.
Porque em cima e em torno de mim se sacode como uma bandeira
longitudinal, o capítulo puro de minha geografia,
e do Taltal platinado pela camanchaca13 salobre
até Ruca Diuca coberto por trepadeiras e salgueiros-chorões,
eu vou estendendo entre montes e torres calcáreas minha vertiginosa linhagem,
sem dúvida acossado pela trêmula fragrância do trevo,
talvez inerente produto do bosque na chuva no inverno
pelas estradas molhadas onde passou uma serpente vestida de verde,
de todas as maneiras, sem ser conduzido pelas aventuras do rio com seu batalhão transparente
percorro as terras contando os pássaros, as pedras, a água,
e me retribui o Outono com tanto dinheiro amarelo
que choro de puro cantor derramando meu canto no vento.
e golpeia os talos da aveia. Ao rés do solo vive
um movimento múltiplo e delgado. O dia está nu.
O fulgor de Novembro como uma estalactite
lisa e azul decide a pompa do estio.
É verão. E as lanças do vento interminável
perfuram o favo do espaço amarelo:
olvido ao ver correr a música na aveia
a abóbada implacável do meio-dia.
Escuta,
mulher do sol, meu pensamento. Toca
com teus pés o tremor fugitivo do solo.
Entre a relva cresce meu rosto contra o verde,
através de meus olhos cruzam as espadanas
e bebo com a alma velocidade e vento.)
Mas eu, o cidadão de um tempo gasto e roído, de ruas direitas,
que vi converter-se em incêndio, em detritos, em pedras queimadas, em fogo e em pó,
e depois voltar da guerra o soldado com mortes em cima e embaixo,
e outra vez levantar a cidade infeliz colando cimento às ruínas
e janela e janela e janela e janela e janela
e outra porta outra porta outra porta outra porta outra porta
até o duro infinito moderno com seu inferno de fogo quadrado,
pois a pátria da geometria substitui a pátria do homem.
Viajante perdido, o regresso implacável, a vitória de
pernas cortadas,
a derrota guardada em um cesto como uma maçã diabólica:
este século em que me pariram também, entre tantos que já não alcançaram,
que caíram, Desnos, Frederico, Miguel, companheiros
sem trégua ao meu lado no sol e na morte,
estes anos que às vezes ao cravar a bandeira e cantar com orgulho aos povos
me apontaram com sanha os mesmos que eu defendi com meu canto
e quiseram atirar-me à fossa mordendo minha vida
com as mesmas ferozes mandíbulas do tigre inimigo.
(Os inseguros temem a integridade, golpeiam
então minhas costas com pequenos martelos,
querem assegurar o lugar que lhes toca,
porque medo e soberba sempre estiveram juntos
e suas acusações são suas únicas medalhas.)
(Temem que a violência desintegre seus ossos
e para defender-se vestem-se de violência.)
(Veja o testemunho mudo de depois de amanhã,
recolha os pedaços da torre calada
e quanto me tocou da crueldade inútil.
Compreenderá? Talvez. Os tambores
estarão rotos, e a buzina estridente
será pó no pó.
A felicidade te acompanhe,
companheiro, a felicidade, patrimônio futuro
que herdarás de nosso sangue encarniçado.)
Em minha barcarola se encontram voando os pregos do ódio
com o arroz negro que os invejosos me dão em seu prato
e devo estudar a linguagem do corvo, tocar a plumagem,
olhar nos olhos dos insaciáveis e dos insaciados
e no mesmo páramo das imundícies terrestres
arrojar as censuras de agora e as adulações de então.
Cantando entre escórias o canto reluz na taça de minha alma
e tinge com luz de amaranto o crepúsculo aziago,
eu só sustento a taça de sangue e a espada que canta na arena
e provo o sal em meus lábios, a chuva em minha língua e o fogo recebo em meus olhos,
cantando sem pressa nem pausa, coroado pelas nevascas.
Porque em cima e em torno de mim se sacode como uma bandeira
longitudinal, o capítulo puro de minha geografia,
e do Taltal platinado pela camanchaca13 salobre
até Ruca Diuca coberto por trepadeiras e salgueiros-chorões,
eu vou estendendo entre montes e torres calcáreas minha vertiginosa linhagem,
sem dúvida acossado pela trêmula fragrância do trevo,
talvez inerente produto do bosque na chuva no inverno
pelas estradas molhadas onde passou uma serpente vestida de verde,
de todas as maneiras, sem ser conduzido pelas aventuras do rio com seu batalhão transparente
percorro as terras contando os pássaros, as pedras, a água,
e me retribui o Outono com tanto dinheiro amarelo
que choro de puro cantor derramando meu canto no vento.
1 355
Pablo Neruda
Solidão
Viajante, estou só na Rua da Huchette. É manhã.
Nem um só vestígio de ontem ficou colado nos muros.
Prepara-se o depois de amanhã na noite ruidosa
que passa enredada na névoa que sobe das cabeleiras.
Há um vago silêncio apoiado por uma guitarra tardia.
E compreendo que nesta minúscula ruela tortuosa
alguém toca a rebater o metal invisível
de um agudo sino que estende na noite seu círculo
e no mapa redondo baixando a vista descubro
caminhos de formiga que vêm sulcando o outono e os mares
e vão deslizando figuras que caem do mapa da Austrália,
que descem da Suécia nos trens da madrugada deserta,
pequenos caminhos de inseto que perfuram o ar e a terra
e que se desprenderam da Espanha, da Escócia, do Golfo do México,
tradeando buracos que tarde ou cedo penetram a terra
e aqui à meia-noite destapa a noite seu frio orifício
e assoma a fronte de algum colombiano que amarra no cinto
tua velha pistola e a louca guitarra dos guerrilheiros.
Talvez Aragón junto a Elsa estendeu o arquipélago
de seus sonhos povoados por amplas sereias que penteiam a música
e sobre a Rua de Varennes uma estrela, a única do céu vazio,
abre e fecha suas pálpebras de diamante e platina,
e mais longe o traje fragrante da França se guarda em uma arca
porque dormem as vinhas e o vinho nos barris prepara
a saída do sol, professor de francês no céu.
Para Menilmontant, nos meus tempos, para os acordeões
do ano de milnovecentosevinte acudíamos: era sério o encontro
com a malandragem de guimba na boca e brutal aparência.
Eu dancei com Friné Lavatier, com Marise e com quem?
Ah com quem? Fogem-me os nomes do baile
mas continuo dançando a “java” no impuro subúrbio
e viver era então tão fácil como o pão que se come nos trens,
como andar no campo assobiando, festejado pela primavera.
Nem um só vestígio de ontem ficou colado nos muros.
Prepara-se o depois de amanhã na noite ruidosa
que passa enredada na névoa que sobe das cabeleiras.
Há um vago silêncio apoiado por uma guitarra tardia.
E compreendo que nesta minúscula ruela tortuosa
alguém toca a rebater o metal invisível
de um agudo sino que estende na noite seu círculo
e no mapa redondo baixando a vista descubro
caminhos de formiga que vêm sulcando o outono e os mares
e vão deslizando figuras que caem do mapa da Austrália,
que descem da Suécia nos trens da madrugada deserta,
pequenos caminhos de inseto que perfuram o ar e a terra
e que se desprenderam da Espanha, da Escócia, do Golfo do México,
tradeando buracos que tarde ou cedo penetram a terra
e aqui à meia-noite destapa a noite seu frio orifício
e assoma a fronte de algum colombiano que amarra no cinto
tua velha pistola e a louca guitarra dos guerrilheiros.
Talvez Aragón junto a Elsa estendeu o arquipélago
de seus sonhos povoados por amplas sereias que penteiam a música
e sobre a Rua de Varennes uma estrela, a única do céu vazio,
abre e fecha suas pálpebras de diamante e platina,
e mais longe o traje fragrante da França se guarda em uma arca
porque dormem as vinhas e o vinho nos barris prepara
a saída do sol, professor de francês no céu.
Para Menilmontant, nos meus tempos, para os acordeões
do ano de milnovecentosevinte acudíamos: era sério o encontro
com a malandragem de guimba na boca e brutal aparência.
Eu dancei com Friné Lavatier, com Marise e com quem?
Ah com quem? Fogem-me os nomes do baile
mas continuo dançando a “java” no impuro subúrbio
e viver era então tão fácil como o pão que se come nos trens,
como andar no campo assobiando, festejado pela primavera.
1 271
Ana Martins Marques
Horóscopo
Há duas ou três promessas
espreitando o dia.
Indício de visitas
e incêndios.
Saúde, mas nenhuma alegria.
Distrações e alegrias no trabalho.
No amor talvez não seja bem isso.
Indiferença não é uma saída nessa hora.
Família e dívidas preocupam.
Os astros continuam rodando à toa.
Impossível domar
a fera que te habita
o signo inexato.
espreitando o dia.
Indício de visitas
e incêndios.
Saúde, mas nenhuma alegria.
Distrações e alegrias no trabalho.
No amor talvez não seja bem isso.
Indiferença não é uma saída nessa hora.
Família e dívidas preocupam.
Os astros continuam rodando à toa.
Impossível domar
a fera que te habita
o signo inexato.
758
Pablo Neruda
Os Que Me Esperam Em Milão
Os que me esperam em Milão
estão muito longe da névoa
não são os que estão e são eles
além de outros que me esperam.
Certamente não chegaram
porque têm pernas de pedra
e estão em círculo esperando
na entrada das igrejas,
asas gastas que não voam
narizes quebrados já faz tempo.
Não sabem estes que me esperam
que rumo a eles vou descendo
desde as nuvens e as dúvidas.
Os santos ensimesmados
as vênus de narizes quebrados
os atrabiliários répteis
que se enroscam e se encaixam.
As serpentes do Paraíso
e os profetas aborrecidos
chegam cedo a seus pórticos
para esperar-me com decoro.
estão muito longe da névoa
não são os que estão e são eles
além de outros que me esperam.
Certamente não chegaram
porque têm pernas de pedra
e estão em círculo esperando
na entrada das igrejas,
asas gastas que não voam
narizes quebrados já faz tempo.
Não sabem estes que me esperam
que rumo a eles vou descendo
desde as nuvens e as dúvidas.
Os santos ensimesmados
as vênus de narizes quebrados
os atrabiliários répteis
que se enroscam e se encaixam.
As serpentes do Paraíso
e os profetas aborrecidos
chegam cedo a seus pórticos
para esperar-me com decoro.
1 111
Ana Martins Marques
Relógio
De que nos serviria
um relógio?
se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia
se abres com os dedos um figo
maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia
quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite
se adoçamos o chá:
dia
se não o adoçamos:
noite
se varremos a casa ou a enceramos:
dia
se nela passamos panos úmidos:
noite
se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia
se temos febre, cólicas, inflamações:
noite
aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia
ataduras, compressas, unguentos:
noite
se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia
se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite
se bato claras em neve:
dia
se cozinho beterrabas grandes:
noite
se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia
se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite
(extensões e cimos:
dia
camadas e dobras:
noite)
se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia
se deixas a água fervendo
sozinha:
noite
se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia
se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite
se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia
se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite
se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia
se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite
se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia
se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite
de que nos serviria
um relógio?
um relógio?
se lavamos as roupas brancas:
é dia
as roupas escuras:
é noite
se partes com a faca uma laranja
em duas:
dia
se abres com os dedos um figo
maduro:
noite
se derramamos água:
dia
se entornamos vinho:
noite
quando ouvimos o alarme da torradeira
ou a chaleira como um pequeno animal
que tentasse cantar:
dia
quando abrimos certos livros lentos
e os mantemos acesos
à custa de álcool, cigarros, silêncio:
noite
se adoçamos o chá:
dia
se não o adoçamos:
noite
se varremos a casa ou a enceramos:
dia
se nela passamos panos úmidos:
noite
se temos enxaquecas, eczemas, alergias:
dia
se temos febre, cólicas, inflamações:
noite
aspirinas, raio-x, exame de urina:
dia
ataduras, compressas, unguentos:
noite
se esquento em banho-maria o mel que cristalizou
ou uso limões para limpar os vidros:
dia
se depois de comer maçãs
guardo por capricho o papel roxo escuro:
noite
se bato claras em neve:
dia
se cozinho beterrabas grandes:
noite
se escrevemos a lápis em papel pautado:
dia
se dobramos as folhas ou as amassamos:
noite
(extensões e cimos:
dia
camadas e dobras:
noite)
se esqueces no forno um bolo
amarelo:
dia
se deixas a água fervendo
sozinha:
noite
se pela janela o mar está quieto
lerdo e engordurado
como uma poça de óleo:
dia
se está raivoso
espumando
como um cachorro hidrófobo:
noite
se um pinguim chega a Ipanema
e deitando-se na areia quente sente ferver
seu coração gelado:
dia
se uma baleia encalha na maré baixa
e morre pesada, escura,
como numa ópera, cantando:
noite
se desabotoas lentamente
tua camisa branca:
dia
se nos despimos com ânsia
criando em torno de nós um ardente círculo de panos:
noite
se um besouro verde brilhante bate repetidamente
contra o vidro:
dia
se uma abelha ronda a sala
desorientada pelo sexo:
noite
de que nos serviria
um relógio?
1 815
José Saramago
5
A cidade que os homens deixaram de habitar está agora sitiada por eles
Não deve passar em claro o exagero que há na palavra sitiada
Como exagero haveria na palavra cercada ou outra qualquer sinónima sem querer levantar a debatida questão da sinonimia perfeita
Os homens estão apenas em redor da cidade tão incapazes de entrarem nela como de se afastarem para longe definitivamente
São como borboletas da noite atraídas não pelas luzes da cidade que já se apagaram há muito
Mas pelo perfil desarticulado dos telhados e das empenas e também pela rede impalpável das antenas da televisão
De dia uma enorme ausência guarda as portas da cidade
E as ruas têm aquele excesso de silêncio que há no que foi habitado e agora não
Na cidade apenas vivem os lobos
Deste modo se tendo invertido a ordem natural das coisas estão os homens fora e os lobos dentro
Nada acontece antes da noite
Então saem os lobos a caçar os homens e sempre apanham algum
O qual entra enfim na cidade deixando por onde passa um regueiro de sangue
Ali onde em tempos mais felizes combinara com parentes e amigos almoços intrigas calúnias
E caçadas aos lobos
Não deve passar em claro o exagero que há na palavra sitiada
Como exagero haveria na palavra cercada ou outra qualquer sinónima sem querer levantar a debatida questão da sinonimia perfeita
Os homens estão apenas em redor da cidade tão incapazes de entrarem nela como de se afastarem para longe definitivamente
São como borboletas da noite atraídas não pelas luzes da cidade que já se apagaram há muito
Mas pelo perfil desarticulado dos telhados e das empenas e também pela rede impalpável das antenas da televisão
De dia uma enorme ausência guarda as portas da cidade
E as ruas têm aquele excesso de silêncio que há no que foi habitado e agora não
Na cidade apenas vivem os lobos
Deste modo se tendo invertido a ordem natural das coisas estão os homens fora e os lobos dentro
Nada acontece antes da noite
Então saem os lobos a caçar os homens e sempre apanham algum
O qual entra enfim na cidade deixando por onde passa um regueiro de sangue
Ali onde em tempos mais felizes combinara com parentes e amigos almoços intrigas calúnias
E caçadas aos lobos
1 145
José Saramago
3
O elevador deixou de funcionar não se sabe quando mas a escada ainda serve
O que está para cima não importa do rés-do-chão ao vigésimo andar é senhorio do vento e das poucas aves que sobreviveram
Embora se afirme que em um dos milhares de compartimentos do edifício uma mulher ainda não parou o mais longo gemido da história do mundo
E também se diz que em outro dos compartimentos um homem aguarda que lhe cresçam as unhas o suficiente
Para espetando-as nos olhos chegar com elas ao côncavo do outro lado do crânio até porventura fazer calar o gemido invisível e abrir novos olhos para um mundo atrás deste
Mas o caminho por enquanto é para baixo menos um menos dois menos três ditos caves ou subterrâneos ou casas-fortes
Entre o primeiro e o segundo o elevador mostra o que resta do contínuo e do director principal
Ainda que não seja possível distinguir um do outro nem perguntando
Por acaso ficaram todas as portas abertas ou tiveram forças para se abrirem no último momento que lhes restara para isso
Razão por que podemos perceber sem necessidade de melhor lição a diferença entre riqueza mobiliária e riqueza imobiliária
Pelos corredores e salas reforçadas consoante as correntes de ar as notas voam com aquele rumor que fazem as folhas secas quando roçam umas nas outras
Enquanto os lingotes de ouro brilham sob uma luz que misteriosamente não se apagou
Como uma espécie de podridão fosforescente e venenosa
O que está para cima não importa do rés-do-chão ao vigésimo andar é senhorio do vento e das poucas aves que sobreviveram
Embora se afirme que em um dos milhares de compartimentos do edifício uma mulher ainda não parou o mais longo gemido da história do mundo
E também se diz que em outro dos compartimentos um homem aguarda que lhe cresçam as unhas o suficiente
Para espetando-as nos olhos chegar com elas ao côncavo do outro lado do crânio até porventura fazer calar o gemido invisível e abrir novos olhos para um mundo atrás deste
Mas o caminho por enquanto é para baixo menos um menos dois menos três ditos caves ou subterrâneos ou casas-fortes
Entre o primeiro e o segundo o elevador mostra o que resta do contínuo e do director principal
Ainda que não seja possível distinguir um do outro nem perguntando
Por acaso ficaram todas as portas abertas ou tiveram forças para se abrirem no último momento que lhes restara para isso
Razão por que podemos perceber sem necessidade de melhor lição a diferença entre riqueza mobiliária e riqueza imobiliária
Pelos corredores e salas reforçadas consoante as correntes de ar as notas voam com aquele rumor que fazem as folhas secas quando roçam umas nas outras
Enquanto os lingotes de ouro brilham sob uma luz que misteriosamente não se apagou
Como uma espécie de podridão fosforescente e venenosa
1 058
José Saramago
9
Todas as noites três vezes se faz a contagem dos habitantes que foram autorizados a viver na cidade
Por essa razão não são fechadas as portas das casas facto que levaria um observador apressado a pensar que ali se regressou à franqueza dos costumes da idade de ouro
É porém um ponto controverso
Importa sim que as casas estejam permanentemente abertas para que os recenseadores não percam tempo
Tanto mais que são três as contagens como já ficou dito
A primeira à meia-noite duas horas depois do deitar obrigatório
A segunda às três e a terceira de madrugada quando o céu ainda não clareia
De inverno ou de verão as pessoas dormem destapadas mas vestidas o mais que possam excepto uma perna a partir do joelho para baixo e a cara para respirarem
Se fosse possível tapariam a cabeça deixando apenas a perna descoberta
Porque os recenseadores precisam de tocar a pele destes adormecidos que raramente dormem
A primeira contagem é feita pelos ratos a segunda pelas cobras a terceira pelas aranhas
Os habitantes preferem as cobras e os ratos ainda que seja arrepiante o contacto frio e escamoso das cobras e o arranhar fino das unhas dos ratos
Mas o maior dos horrores trazem-no as aranhas
Embora sejam génios geométricos e matemáticos maliciosamente levam muito tempo a contar enquanto passeiam sobre os rostos espavoridos deslocando- se nas suas trémulas e altas patas
Todas as noites enlouquecem dois ou três habitantes da cidade
Por essa razão não são fechadas as portas das casas facto que levaria um observador apressado a pensar que ali se regressou à franqueza dos costumes da idade de ouro
É porém um ponto controverso
Importa sim que as casas estejam permanentemente abertas para que os recenseadores não percam tempo
Tanto mais que são três as contagens como já ficou dito
A primeira à meia-noite duas horas depois do deitar obrigatório
A segunda às três e a terceira de madrugada quando o céu ainda não clareia
De inverno ou de verão as pessoas dormem destapadas mas vestidas o mais que possam excepto uma perna a partir do joelho para baixo e a cara para respirarem
Se fosse possível tapariam a cabeça deixando apenas a perna descoberta
Porque os recenseadores precisam de tocar a pele destes adormecidos que raramente dormem
A primeira contagem é feita pelos ratos a segunda pelas cobras a terceira pelas aranhas
Os habitantes preferem as cobras e os ratos ainda que seja arrepiante o contacto frio e escamoso das cobras e o arranhar fino das unhas dos ratos
Mas o maior dos horrores trazem-no as aranhas
Embora sejam génios geométricos e matemáticos maliciosamente levam muito tempo a contar enquanto passeiam sobre os rostos espavoridos deslocando- se nas suas trémulas e altas patas
Todas as noites enlouquecem dois ou três habitantes da cidade
770
José Saramago
26
Entre o sopé da montanha e a primeira porta da cidade ficaram mortos muitos homens e mulheres
Pois é essa a condição das vitórias custar cada uma trinta derrotas e mesmo para uma simples vida duas são necessárias que depressa se extinguem
Ficaram mortos e não é possível deixar ditos os seus nomes porque eles próprios os haviam esquecido
Agora começavam apenas a retomar os da sua humanidade o nome de homem o nome de mulher sem mais saberem de si que a mão que vai adiante a reconhecer o que viram os olhos
Derrubados sobre a terra com a boca aberta como se dissessem a pena de morrerem ou murmurando alguma coisa da memória recobrada por inteiro no momento de por inteiro se perder
Caídos redondos mortos como nunca tão firmes assentando os ombros na dureza da terra e olhando um céu afinal negro
Não poucas foram as mulheres que continuaram avançando depois de sentirem a dor no coração pelo súbito vazio criado onde antes um corpo de homem se movia duro
E não foram os homens poucos que avançaram trémulos do último resvalar não já suave mas irremediável do corpo da mulher que tanto importava como a cidade
Quando a primeira porta foi alcançada amontoaram-se os corpos uns sobre os outros e os vivos passaram sobre uma ponte de mortos que eram a escora e o arco e a macia e dolorosa calçada
Assim entraram na cidade e ao amanhecer contaram-se e tendo-se achado de menos recolheram os seus mortos
A fim de recuperarem ao menos pelo breve tempo da lamentação a unidade primeira
Pois é essa a condição das vitórias custar cada uma trinta derrotas e mesmo para uma simples vida duas são necessárias que depressa se extinguem
Ficaram mortos e não é possível deixar ditos os seus nomes porque eles próprios os haviam esquecido
Agora começavam apenas a retomar os da sua humanidade o nome de homem o nome de mulher sem mais saberem de si que a mão que vai adiante a reconhecer o que viram os olhos
Derrubados sobre a terra com a boca aberta como se dissessem a pena de morrerem ou murmurando alguma coisa da memória recobrada por inteiro no momento de por inteiro se perder
Caídos redondos mortos como nunca tão firmes assentando os ombros na dureza da terra e olhando um céu afinal negro
Não poucas foram as mulheres que continuaram avançando depois de sentirem a dor no coração pelo súbito vazio criado onde antes um corpo de homem se movia duro
E não foram os homens poucos que avançaram trémulos do último resvalar não já suave mas irremediável do corpo da mulher que tanto importava como a cidade
Quando a primeira porta foi alcançada amontoaram-se os corpos uns sobre os outros e os vivos passaram sobre uma ponte de mortos que eram a escora e o arco e a macia e dolorosa calçada
Assim entraram na cidade e ao amanhecer contaram-se e tendo-se achado de menos recolheram os seus mortos
A fim de recuperarem ao menos pelo breve tempo da lamentação a unidade primeira
1 094
José Saramago
28
Uma após a outra as cidades foram reconquistadas e de todos os lugares afluíam as hordas que outro nome começavam a merecer
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
1 064
José Saramago
West Side Story
Os jardins de Verona redivivos
No cimento cinzento desta era:
Um recado passado a outra mão,
Uma nova experiência, outra espera.
No cimento cinzento desta era:
Um recado passado a outra mão,
Uma nova experiência, outra espera.
958
José Saramago
Acidente de Viação
Vago, secreto, alheio e disfarçado
No conforme cortejo da cidade,
Dobro esquinas e paro separado,
À espera de mim mesmo ou da metade
Que ficou sem saber do outro lado.
Ponho letras bastardas a deslado
Das palavras cruzadas do jornal,
Dou um grito de aviso, arrepiado,
Contra a luz encarnada do sinal
E piso, como brasa, o chão molhado.
Fica atrás o meu fato amarrotado,
A sangrar das costuras esgarçadas,
Acode o alfaiate convocado,
Enquanto vou pensando gargalhadas,
Vivo, secreto, alheio e disfarçado.
No conforme cortejo da cidade,
Dobro esquinas e paro separado,
À espera de mim mesmo ou da metade
Que ficou sem saber do outro lado.
Ponho letras bastardas a deslado
Das palavras cruzadas do jornal,
Dou um grito de aviso, arrepiado,
Contra a luz encarnada do sinal
E piso, como brasa, o chão molhado.
Fica atrás o meu fato amarrotado,
A sangrar das costuras esgarçadas,
Acode o alfaiate convocado,
Enquanto vou pensando gargalhadas,
Vivo, secreto, alheio e disfarçado.
1 093
Vinicius de Moraes
A Santa de Sabará
À gravadora chilena Graciela Fuenzalida
que trocou o mundo por Sabará
A um grito da Ponte Velha
Existe a "Pensão das Gordas"
(Cantou-as Mário de Andrade!)
Em Sabará. Na alpendrada
Sobre o rio que escorrega
A pensão mira a cidade
Ladeira acima. Na Páscoa
As quaresmeiras da serra
São manchas roxas de mágoa
E de manhã bem cedinho
A névoa pousa na terra
Como uma anágua de linho.
A cidade se espreguiça
Nas cores do casario
Que vive a pular carniça
Nas rampas de beira-rio.
E é doce vê-la sorrindo
Aos anjos do Aleijadinho
Que na portada do Carmo
Com bochechas inchadas
Assopram, de tanto frio.
Há paz na velha cidade
Uma paz de fazer longe...
A não ser na identidade
De certa dona chilena
Uma de rosto de monja
Corpo seco, tez serena
E que, na "Pensão das Gordas"
Onde há seis anos assiste
Desde o momento em que acorda
Vive, e nem sabe que existe
Entalhando na madeira
As horas mais dolorosas
Da Paixão de Jesus Cristo.
Atende por Graciela
Mas não atende a ninguém
Que não tenha como ela
A grande paixão do bem.
Sempre fechada em seu quarto
Mesmo à feição de uma freira
As suas dores do parto
Doem na carne de madeira
Onde ela entalha o fervor
De tudo o que há de mais casto
O rebanho e o bom pastor
O burrinho no seu pasto.
E às vezes, na nostalgia
Quem sabe, do mundo fora
Grava com luzes de aurora
Com milagres da poesia.
O viajante que passa
Itinerante por lá
Não se espante se, na aurora
Ou à luz crepuscular
Vir o vulto iluminado
De um belo arcanjo pousado
Guardando a casa onde mora
A santa de Sabará.
que trocou o mundo por Sabará
A um grito da Ponte Velha
Existe a "Pensão das Gordas"
(Cantou-as Mário de Andrade!)
Em Sabará. Na alpendrada
Sobre o rio que escorrega
A pensão mira a cidade
Ladeira acima. Na Páscoa
As quaresmeiras da serra
São manchas roxas de mágoa
E de manhã bem cedinho
A névoa pousa na terra
Como uma anágua de linho.
A cidade se espreguiça
Nas cores do casario
Que vive a pular carniça
Nas rampas de beira-rio.
E é doce vê-la sorrindo
Aos anjos do Aleijadinho
Que na portada do Carmo
Com bochechas inchadas
Assopram, de tanto frio.
Há paz na velha cidade
Uma paz de fazer longe...
A não ser na identidade
De certa dona chilena
Uma de rosto de monja
Corpo seco, tez serena
E que, na "Pensão das Gordas"
Onde há seis anos assiste
Desde o momento em que acorda
Vive, e nem sabe que existe
Entalhando na madeira
As horas mais dolorosas
Da Paixão de Jesus Cristo.
Atende por Graciela
Mas não atende a ninguém
Que não tenha como ela
A grande paixão do bem.
Sempre fechada em seu quarto
Mesmo à feição de uma freira
As suas dores do parto
Doem na carne de madeira
Onde ela entalha o fervor
De tudo o que há de mais casto
O rebanho e o bom pastor
O burrinho no seu pasto.
E às vezes, na nostalgia
Quem sabe, do mundo fora
Grava com luzes de aurora
Com milagres da poesia.
O viajante que passa
Itinerante por lá
Não se espante se, na aurora
Ou à luz crepuscular
Vir o vulto iluminado
De um belo arcanjo pousado
Guardando a casa onde mora
A santa de Sabará.
1 017
Vinicius de Moraes
Genebra Em Dezembro
Campos de neve e píncaros distantes
Sinos que morrem
Asas brancas em frios céus distantes
Águas que correm.
Canais como caminhos prisioneiros
Em busca de saída
Para os mares, os grandes, traiçoeiros
Mares da vida.
Cisnes em bando interrogando as águas
Do Ródano, cativas
Ruas sem perspectivas e sem mágoas
Fachadas pensativas.
Chuva fina tangendo namorados
Sem amanhã
Transitando transidos e apressados
Pont du Mont Blanc.
Relógios pontuais batendo horas
Aqui, ali, adiante
Vida sem tempo pela vida afora
Tédio constante.
Tédio bom, tédio conselheiro, tédio
Da vida que não é
E para a qual há sempre bom remédio
Do bar do "Rabelais".
Sinos que morrem
Asas brancas em frios céus distantes
Águas que correm.
Canais como caminhos prisioneiros
Em busca de saída
Para os mares, os grandes, traiçoeiros
Mares da vida.
Cisnes em bando interrogando as águas
Do Ródano, cativas
Ruas sem perspectivas e sem mágoas
Fachadas pensativas.
Chuva fina tangendo namorados
Sem amanhã
Transitando transidos e apressados
Pont du Mont Blanc.
Relógios pontuais batendo horas
Aqui, ali, adiante
Vida sem tempo pela vida afora
Tédio constante.
Tédio bom, tédio conselheiro, tédio
Da vida que não é
E para a qual há sempre bom remédio
Do bar do "Rabelais".
1 109
Vinicius de Moraes
Copacabana
Esta é Copacabana, ampla laguna
Curva e horizonte, arco de amor vibrando
Suas flechas de luz contra o infinito.
Aqui meus olhos desnudaram estrelas
Aqui meus braços discursaram à lua
Desabrochavam feras dos meus passos
Nas florestas de dor que percorriam.
Copacabana, praia de memórias!
Quantos êxtases, quantas madrugadas
Em teu colo marítimo!
- Esta é a areia
Que eu tanto enlameei com minhas lágrimas
- Aquele é o bar maldito. Podes ver
Naquele escuro ali? É um obelisco
De treva - cone erguido pela noite
Para marcar por toda a eternidade
O lugar onde o poeta foi perjuro.
Ali tombei, ali beijei-te ansiado
Como se a vida fosse terminar
Naquele louco embate. Ali cantei
À lua branca, cheio de bebida
Ali menti, ali me ciliciei
Para gozo da aurora pervertida.
Sobre o banco de pedra que ali tens
Nasceu uma canção. Ali fui mártir
Fui réprobo, fui bárbaro, fui santo
Aqui encontrarás minhas pegadas
E pedaços de mim por cada canto.
Numa gota de sangue numa pedra
Ali estou eu. Num grito de socorro
Entreouvido na noite, ali estou eu.
No eco longínquo e áspero do morro
Ali estou eu. Vês tu essa estrutura
De apartamento como uma colmeia
Gigantesca? em muitos penetrei
Tendo a guiar-me apenas o perfume
De um sexo de mulher a palpitar
Como uma flor carnívora na treva.
Copacabana! ah, cidadela forte
Desta minha paixão! a velha lua
Ficava de seu nicho me assistindo
Beber, e eu muita vez a vi luzindo
No meu copo de uísque, branca e pura
A destilar tristeza e poesia.
Copacabana! réstia de edifícios
Cujos nomes dão nome ao sentimento!
Foi no Leme que vi nascer o vento
Certa manhã, na praia. Uma mulher
Toda de negro no horizonte extremo
Entre muitos fantasmas me esperava:
A moça dos antúrios, deslembrada
A senhora dos círios, cuja alcova
O piscar do farol iluminava
Como a marcar o pulso da paixão
Morrendo intermitentemente. E ainda
Existe em algum lugar um gesto alto,
Um brilhar de punhal, um riso acústico
Que não morreu. Ou certa porta aberta
Para a infelicidade: inesquecível
Frincha de luz a separar-me apenas
Do irremediável. Ou o abismo aberto
Embaixo, elástico, e o meu ser disperso
No espaço em torno, e o vento me chamando
Me convidando a voar... (Ah, muitas mortes
Morri entre essas máquinas erguidas
Contra o Tempo!) Ou também o desespero
De andar como um metrônomo para cá
E para lá, marcando o passo do impossível
À espera do segredo, do milagre
Da poesia.
Tu, Copacabana,
Mais que nenhuma outra foste a arena
Onde o poeta lutou contra o invisível
E onde encontrou enfim sua poesia
Talvez pequena, mas suficiente
Para justificar uma existência
Que sem ela seria incompreensível.
Curva e horizonte, arco de amor vibrando
Suas flechas de luz contra o infinito.
Aqui meus olhos desnudaram estrelas
Aqui meus braços discursaram à lua
Desabrochavam feras dos meus passos
Nas florestas de dor que percorriam.
Copacabana, praia de memórias!
Quantos êxtases, quantas madrugadas
Em teu colo marítimo!
- Esta é a areia
Que eu tanto enlameei com minhas lágrimas
- Aquele é o bar maldito. Podes ver
Naquele escuro ali? É um obelisco
De treva - cone erguido pela noite
Para marcar por toda a eternidade
O lugar onde o poeta foi perjuro.
Ali tombei, ali beijei-te ansiado
Como se a vida fosse terminar
Naquele louco embate. Ali cantei
À lua branca, cheio de bebida
Ali menti, ali me ciliciei
Para gozo da aurora pervertida.
Sobre o banco de pedra que ali tens
Nasceu uma canção. Ali fui mártir
Fui réprobo, fui bárbaro, fui santo
Aqui encontrarás minhas pegadas
E pedaços de mim por cada canto.
Numa gota de sangue numa pedra
Ali estou eu. Num grito de socorro
Entreouvido na noite, ali estou eu.
No eco longínquo e áspero do morro
Ali estou eu. Vês tu essa estrutura
De apartamento como uma colmeia
Gigantesca? em muitos penetrei
Tendo a guiar-me apenas o perfume
De um sexo de mulher a palpitar
Como uma flor carnívora na treva.
Copacabana! ah, cidadela forte
Desta minha paixão! a velha lua
Ficava de seu nicho me assistindo
Beber, e eu muita vez a vi luzindo
No meu copo de uísque, branca e pura
A destilar tristeza e poesia.
Copacabana! réstia de edifícios
Cujos nomes dão nome ao sentimento!
Foi no Leme que vi nascer o vento
Certa manhã, na praia. Uma mulher
Toda de negro no horizonte extremo
Entre muitos fantasmas me esperava:
A moça dos antúrios, deslembrada
A senhora dos círios, cuja alcova
O piscar do farol iluminava
Como a marcar o pulso da paixão
Morrendo intermitentemente. E ainda
Existe em algum lugar um gesto alto,
Um brilhar de punhal, um riso acústico
Que não morreu. Ou certa porta aberta
Para a infelicidade: inesquecível
Frincha de luz a separar-me apenas
Do irremediável. Ou o abismo aberto
Embaixo, elástico, e o meu ser disperso
No espaço em torno, e o vento me chamando
Me convidando a voar... (Ah, muitas mortes
Morri entre essas máquinas erguidas
Contra o Tempo!) Ou também o desespero
De andar como um metrônomo para cá
E para lá, marcando o passo do impossível
À espera do segredo, do milagre
Da poesia.
Tu, Copacabana,
Mais que nenhuma outra foste a arena
Onde o poeta lutou contra o invisível
E onde encontrou enfim sua poesia
Talvez pequena, mas suficiente
Para justificar uma existência
Que sem ela seria incompreensível.
1 205
Vinicius de Moraes
Poema de Auteil
A coisa não é bem essa.
Não há nenhuma razão no mundo (ou talvez só tu, Tristeza!)
Para eu estar andando nesse meio-dia por essa rua estrangeira com o nome
de um pintor estrangeiro.
Eu devia estar andando numa rua chamada Travessa Di Cavalcanti
No Alto da Tijuca, ou melhor na Gávea, ou melhor ainda, no lado de dentro
de Ipanema:
E não vai nisso nenhum verde-amarelismo. De verde quereria apenas um
colo de morro e de amarelo um pé de acácias repontando de um quintal
entre telhados.
Deveria vir de algum lugar
Um dedilhar de menina estudando piano ou o assovio de um ciclista
Trauteando um samba de Antônio Maria. Deveria haver
Um silêncio pungente cortado apenas
Por um canto de cigarra, bruscamente interrompido
E o ruído de um ônibus varando como um desvairado uma preferencial
vizinha.
Deveria súbito
Fazer-se ouvir num apartamento térreo próximo
Uma fresca descarga de latrina abrindo um frio vórtice na espessura
irremediável do mormaço
Enquanto ao longe
O vulto de uma banhista (que tristeza sem fim voltar da praia!)
Atravessaria lentamente a rua arrastando um guarda-sol vermelho.
Ah, que vontade de chorar me subiria!
Que vontade de morrer, de me diluir em lágrimas
Entre uns seios suados de mulher! Que vontade
De ser menino, em vão, me subiria
Numa praia luminosa e sem fim, a buscar o não-sei-quê
Da infância, que faz correr correr correr...
Deveria haver também um rato morto na sarjeta, um odor de bogaris
E um cheiro de peixe fritando. Deveria
Haver muito calor, que uma sub-reptícia
Brisa viria suavizar fazendo festa na axila.
Deveria haver em mim um vago desejo de mulher e ao mesmo tempo
De espaciar-me. Relógios deveriam bater
Alternadamente como bons relógios nunca certos.
Eu poderia estar voltando de, ou indo para: não teria a menor importância.
O importante seria saber que eu estava presente
A um momento sem história, defendido embora
Por muros, casas e ruas (e sons, especialmente
Esses que fizeram dizer a um locutor novato, numa homenagem póstuma:
"Acabaram de ouvir um minuto de silêncio…")
Capazes de testemunhar por mim em minha imensa
E inútil poesia.
Eu deveria estar sem saber bem para onde ir: se para a casa materna
E seus encantados recantos, ou se para o apartamento do meu velho Braga
De onde me poria a telefonar, à Amiga e às amigas
A convocá-las para virem beber conosco, virem todas
Beber e conversar conosco e passear diante de nossos olhos gratos
A graça e nostalgia com que povoam a nossa infinita solidão.
Não há nenhuma razão no mundo (ou talvez só tu, Tristeza!)
Para eu estar andando nesse meio-dia por essa rua estrangeira com o nome
de um pintor estrangeiro.
Eu devia estar andando numa rua chamada Travessa Di Cavalcanti
No Alto da Tijuca, ou melhor na Gávea, ou melhor ainda, no lado de dentro
de Ipanema:
E não vai nisso nenhum verde-amarelismo. De verde quereria apenas um
colo de morro e de amarelo um pé de acácias repontando de um quintal
entre telhados.
Deveria vir de algum lugar
Um dedilhar de menina estudando piano ou o assovio de um ciclista
Trauteando um samba de Antônio Maria. Deveria haver
Um silêncio pungente cortado apenas
Por um canto de cigarra, bruscamente interrompido
E o ruído de um ônibus varando como um desvairado uma preferencial
vizinha.
Deveria súbito
Fazer-se ouvir num apartamento térreo próximo
Uma fresca descarga de latrina abrindo um frio vórtice na espessura
irremediável do mormaço
Enquanto ao longe
O vulto de uma banhista (que tristeza sem fim voltar da praia!)
Atravessaria lentamente a rua arrastando um guarda-sol vermelho.
Ah, que vontade de chorar me subiria!
Que vontade de morrer, de me diluir em lágrimas
Entre uns seios suados de mulher! Que vontade
De ser menino, em vão, me subiria
Numa praia luminosa e sem fim, a buscar o não-sei-quê
Da infância, que faz correr correr correr...
Deveria haver também um rato morto na sarjeta, um odor de bogaris
E um cheiro de peixe fritando. Deveria
Haver muito calor, que uma sub-reptícia
Brisa viria suavizar fazendo festa na axila.
Deveria haver em mim um vago desejo de mulher e ao mesmo tempo
De espaciar-me. Relógios deveriam bater
Alternadamente como bons relógios nunca certos.
Eu poderia estar voltando de, ou indo para: não teria a menor importância.
O importante seria saber que eu estava presente
A um momento sem história, defendido embora
Por muros, casas e ruas (e sons, especialmente
Esses que fizeram dizer a um locutor novato, numa homenagem póstuma:
"Acabaram de ouvir um minuto de silêncio…")
Capazes de testemunhar por mim em minha imensa
E inútil poesia.
Eu deveria estar sem saber bem para onde ir: se para a casa materna
E seus encantados recantos, ou se para o apartamento do meu velho Braga
De onde me poria a telefonar, à Amiga e às amigas
A convocá-las para virem beber conosco, virem todas
Beber e conversar conosco e passear diante de nossos olhos gratos
A graça e nostalgia com que povoam a nossa infinita solidão.
627
Vinicius de Moraes
Aurora, Com Movimento
(Posto 3)
A linha móvel do horizonte
Atira para cima o sol em diabolô
Os ventos de longe
Agitam docemente os cabelos da rocha
Passam em fachos o primeiro automóvel, a última estrela
A mulher que avança
Parece criar esferas exaltadas pelo espaço
Os pescadores puxando o arrastão parecem mover o mundo
O cardume de botos na distância parece mover o mar.
A linha móvel do horizonte
Atira para cima o sol em diabolô
Os ventos de longe
Agitam docemente os cabelos da rocha
Passam em fachos o primeiro automóvel, a última estrela
A mulher que avança
Parece criar esferas exaltadas pelo espaço
Os pescadores puxando o arrastão parecem mover o mundo
O cardume de botos na distância parece mover o mar.
1 113
Vinicius de Moraes
Balada Das Meninas de Bicicleta
Meninas de bicicleta
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfuziantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul:
As vossas jovens figuras
Retesadas nos selins
Me prendem, com serem puras
Em redondilhas afins.
Que lindas são vossas quilhas
Quando as praias abordais!
E as nervosas panturrilhas
Na rotação dos pedais:
Que douradas maravilhas!
Bicicletai, meninada
Aos ventos do Arpoador
Solta a flâmula agitada
Das cabeleiras em flor
Uma correndo à gandaia
Outra com jeito de séria
Mostrando as pernas sem saia
Feitas da mesma matéria.
Permanecei! vós que sois
O que o mundo não tem mais
Juventude de maiôs
Sobre máquinas da paz
Enxames de namoradas
Ao sol de Copacabana
Centauresas transpiradas
Que o leque do mar abana!
A vós o canto que inflama
Os meus trint'anos, meninas
Velozes massas em chama
Explodindo em vitaminas.
Bem haja a vossa saúde
À humanidade inquieta
Vós cuja ardente virtude
Preservais muito amiúde
Com um selim de bicicleta
Vós que levais tantas raças
Nos corpos firmes e crus:
Meninas, soltai as alças
Bicicletai seios nus!
No vosso rastro persiste
O mesmo eterno poeta
Um poeta - essa coisa triste
Escravizada à beleza
Que em vosso rastro persiste,
Levando a sua tristeza
No quadro da bicicleta.
Que fagueiras pedalais
Quero ser vosso poeta!
Ó transitórias estátuas
Esfuziantes de azul
Louras com peles mulatas
Princesas da zona sul:
As vossas jovens figuras
Retesadas nos selins
Me prendem, com serem puras
Em redondilhas afins.
Que lindas são vossas quilhas
Quando as praias abordais!
E as nervosas panturrilhas
Na rotação dos pedais:
Que douradas maravilhas!
Bicicletai, meninada
Aos ventos do Arpoador
Solta a flâmula agitada
Das cabeleiras em flor
Uma correndo à gandaia
Outra com jeito de séria
Mostrando as pernas sem saia
Feitas da mesma matéria.
Permanecei! vós que sois
O que o mundo não tem mais
Juventude de maiôs
Sobre máquinas da paz
Enxames de namoradas
Ao sol de Copacabana
Centauresas transpiradas
Que o leque do mar abana!
A vós o canto que inflama
Os meus trint'anos, meninas
Velozes massas em chama
Explodindo em vitaminas.
Bem haja a vossa saúde
À humanidade inquieta
Vós cuja ardente virtude
Preservais muito amiúde
Com um selim de bicicleta
Vós que levais tantas raças
Nos corpos firmes e crus:
Meninas, soltai as alças
Bicicletai seios nus!
No vosso rastro persiste
O mesmo eterno poeta
Um poeta - essa coisa triste
Escravizada à beleza
Que em vosso rastro persiste,
Levando a sua tristeza
No quadro da bicicleta.
1 155
Vinicius de Moraes
Mensagem a Rubem Braga
Os doces montes cônicos de feno
(Decassílabo solto num postal de Rubem Braga, da Itália.)
A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem
No Vermelhinho. Digam-lhe que a menina da caixa
Continua impassível, mas Caloca acha que ela está melhorando
Digam-lhe que o Ceschiatti continua tomando chope, e eu também
Malgrado uma avitaminose B e o fígado ligeiramente inchado.
Digam-lhe que o tédio às vezes é mortal; respira-se com a mais extrema
Dificuldade; bate-se, e ninguém responde. Sem embargo
Digam-lhe que as mulheres continuam passando no alto de seus saltos, e a
moda das saias curtas
E das mangas japonesas dão-lhes um novo interesse: ficam muito
provocantes.
O diabo é de manhã, quando se sai para o trabalho, dá uma tristeza, a
rotina: para a tarde melhora.
Oh, digam a ele, digam a ele, a meu amigo Rubem Braga
Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália
Que ainda há auroras apesar de tudo, e o esporro das cigarras
Na claridade matinal. Digam-lhe que o mar no Leblon
Porquanto se encontre eventualmente cocô boiando, devido aos despejos
Continua a lavar todos os males. Digam-lhe, aliás
Que há cocô boiando por aí tudo, mas que em não havendo marola
A gente se aguenta. Digam-lhe que escrevi uma carta terna
Contra os escritores mineiros: ele ia gostar. Digam-lhe
Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia).
Mas em compensação estive depois com o Aníbal
Que embora não dê para alimentar ninguém, é um amigo.
Digam-lhe que o Carlos
Drummond tem escrito ótimos poemas, mas eu larguei o Suplemento.
Digam-lhe que está com cara de que vai haver muita miséria-de-fim-de-ano
Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber e uma ânsia
Nas pessoas de se estrafegarem. Digam-lhe que o Compadre está na
insulina
Mas que a Comadre está linda. Digam-lhe que de quando em vez o Miranda
passa
E ri com ar de astúcia. Digam-lhe, oh, não se esqueçam de dizer
A meu amigo Rubem Braga, que comi camarões no Antero
Ovas na Cabaça e vatapá na Furna, e que tomei plenty coquinho
Digam-lhe também que o Werneck prossegue enamorado, está no tempo
De caju e abacaxi, e nas ruas
Já se perfumam os jasmineiros. Digam-lhe que tem havido
Poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões
À solta. Digam-lhe especialmente
Do azul da tarde carioca, recortado
Entre o Ministério da Educação e a ABI. Não creio que haja igual
Mesmo em Capri. Digam-lhe porém que muito o invejamos
Tati e eu, e as saudades são grandes, e eu seria muito feliz
De poder estar um pouco a seu lado, fardado de segundo sargento. Oh
Digam a meu amigo Rubem Braga
Que às vezes me sinto calhorda mas reajo, tenho tido meus maus momentos
Mas reajo. Digam-lhe que continuo aquele modesto lutador
Porém batata. Que estou perfeitamente esclarecido
E é bem capaz de nos revermos na Europa. Digam-lhe, discretamente,
Que isso seria uma alegria boa demais: que se ele
Não mandar buscar Zorinha e Roberto antes, que certamente
Os levaremos conosco, que quero muito
Vê-lo em Paris, em Roma, em Bucareste. Digam, oh digam
A meu amigo Rubem Braga que é pena estar chovendo aqui
Neste dia tão cheio de memórias. Mas
Que beberemos à sua saúde, e ele há de estar entre nós
O bravo capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil
Grave em seu gorro de campanha, suas sobrancelhas e seu bigode
circunflexos
Terno em seus olhos de pescador de fundo
Feroz em seu focinho de lobo solitário
Delicado em suas mãos e no seu modo de falar ao telefone
E brindaremos à sua figura, à sua poesia única, à sua revolta, e ao seu cavalheirismo
Para que lá, entre as velhas paredes renascentes e os doces montes cônicos de feno
Lá onde a cobra está fumando o seu moderado cigarro brasileiro
Ele seja feliz também, e forte, e se lembre com saudades
Do Rio, de nós todos e ai! de mim.
(Decassílabo solto num postal de Rubem Braga, da Itália.)
A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem
No Vermelhinho. Digam-lhe que a menina da caixa
Continua impassível, mas Caloca acha que ela está melhorando
Digam-lhe que o Ceschiatti continua tomando chope, e eu também
Malgrado uma avitaminose B e o fígado ligeiramente inchado.
Digam-lhe que o tédio às vezes é mortal; respira-se com a mais extrema
Dificuldade; bate-se, e ninguém responde. Sem embargo
Digam-lhe que as mulheres continuam passando no alto de seus saltos, e a
moda das saias curtas
E das mangas japonesas dão-lhes um novo interesse: ficam muito
provocantes.
O diabo é de manhã, quando se sai para o trabalho, dá uma tristeza, a
rotina: para a tarde melhora.
Oh, digam a ele, digam a ele, a meu amigo Rubem Braga
Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália
Que ainda há auroras apesar de tudo, e o esporro das cigarras
Na claridade matinal. Digam-lhe que o mar no Leblon
Porquanto se encontre eventualmente cocô boiando, devido aos despejos
Continua a lavar todos os males. Digam-lhe, aliás
Que há cocô boiando por aí tudo, mas que em não havendo marola
A gente se aguenta. Digam-lhe que escrevi uma carta terna
Contra os escritores mineiros: ele ia gostar. Digam-lhe
Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na rua Larga
Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
Que havendo coma não devia haver fome: mas havia).
Mas em compensação estive depois com o Aníbal
Que embora não dê para alimentar ninguém, é um amigo.
Digam-lhe que o Carlos
Drummond tem escrito ótimos poemas, mas eu larguei o Suplemento.
Digam-lhe que está com cara de que vai haver muita miséria-de-fim-de-ano
Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber e uma ânsia
Nas pessoas de se estrafegarem. Digam-lhe que o Compadre está na
insulina
Mas que a Comadre está linda. Digam-lhe que de quando em vez o Miranda
passa
E ri com ar de astúcia. Digam-lhe, oh, não se esqueçam de dizer
A meu amigo Rubem Braga, que comi camarões no Antero
Ovas na Cabaça e vatapá na Furna, e que tomei plenty coquinho
Digam-lhe também que o Werneck prossegue enamorado, está no tempo
De caju e abacaxi, e nas ruas
Já se perfumam os jasmineiros. Digam-lhe que tem havido
Poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões
À solta. Digam-lhe especialmente
Do azul da tarde carioca, recortado
Entre o Ministério da Educação e a ABI. Não creio que haja igual
Mesmo em Capri. Digam-lhe porém que muito o invejamos
Tati e eu, e as saudades são grandes, e eu seria muito feliz
De poder estar um pouco a seu lado, fardado de segundo sargento. Oh
Digam a meu amigo Rubem Braga
Que às vezes me sinto calhorda mas reajo, tenho tido meus maus momentos
Mas reajo. Digam-lhe que continuo aquele modesto lutador
Porém batata. Que estou perfeitamente esclarecido
E é bem capaz de nos revermos na Europa. Digam-lhe, discretamente,
Que isso seria uma alegria boa demais: que se ele
Não mandar buscar Zorinha e Roberto antes, que certamente
Os levaremos conosco, que quero muito
Vê-lo em Paris, em Roma, em Bucareste. Digam, oh digam
A meu amigo Rubem Braga que é pena estar chovendo aqui
Neste dia tão cheio de memórias. Mas
Que beberemos à sua saúde, e ele há de estar entre nós
O bravo capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil
Grave em seu gorro de campanha, suas sobrancelhas e seu bigode
circunflexos
Terno em seus olhos de pescador de fundo
Feroz em seu focinho de lobo solitário
Delicado em suas mãos e no seu modo de falar ao telefone
E brindaremos à sua figura, à sua poesia única, à sua revolta, e ao seu cavalheirismo
Para que lá, entre as velhas paredes renascentes e os doces montes cônicos de feno
Lá onde a cobra está fumando o seu moderado cigarro brasileiro
Ele seja feliz também, e forte, e se lembre com saudades
Do Rio, de nós todos e ai! de mim.
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Vinicius de Moraes
Crepúsculo Em New York
Com um gesto fulgurante o Arcanjo Gabriel
Abre de par em par o pórtico do poente
Sobre New York. A gigantesca espada de ouro
A faiscar simetria, ei-lo que monta guarda
A Heavens, Incorporations. Do crepúsculo
Baixam serenamente as pontes levadiças
De U.S.A. Sun até a ilha da Manhattan.
Agora é tudo anúncio, irradiação, promessa
Da Divina Presença. No imo da matéria
Os átomos aquietam-se e cria-se o vazio
Em cada coração de bicho, coisa e gente.
E o silêncio se deixa assim, profundamente...
Mas súbito sobe do abismo um som crestado
De saxofone, e logo a atroz polifonia
De cordas e metais, síncopas, arreganhos
De jazz negro, vindos de Fifty Second Street.
New York acorda para a noite. Oito milhões
De solitários se dissolvem pelas ruas
Sem manhã. New York entrega-se.
Do páramo Balizas celestiais põem-se a brotar, vibrantes
À frente da parada, enquanto anjos em nylon
As asas de alumínio, as coxas palpitantes
Fluem langues da Grande Porta diamantina.
Cai o câmbio da tarde. O Sublime Arquiteto
Satisfeito, do céu admira sua obra.
A maquete genial reflete em cada vidro
O olho meigo de Deus a dardejar ternuras.
Como é bela New York!
Aço e concreto armado
A erguer sempre mais alto eternas estruturas!
Deus sorri complacente. New York é muito bela!
Apesar do East Side, e da mancha amarela
De China Town, e da mancha escura do Harlem
New York é muito bela! As primeiras estrelas Afinam na amplidão
cantilenas singelas...
Mas Deus, que mudou muito, desde que enriqueceu
Liga a chave que acende a Broadway e apaga o céu
Pois às constelações que no espaço esparziu
Prefere hoje os ersätze sobre La Guardia Field.
Abre de par em par o pórtico do poente
Sobre New York. A gigantesca espada de ouro
A faiscar simetria, ei-lo que monta guarda
A Heavens, Incorporations. Do crepúsculo
Baixam serenamente as pontes levadiças
De U.S.A. Sun até a ilha da Manhattan.
Agora é tudo anúncio, irradiação, promessa
Da Divina Presença. No imo da matéria
Os átomos aquietam-se e cria-se o vazio
Em cada coração de bicho, coisa e gente.
E o silêncio se deixa assim, profundamente...
Mas súbito sobe do abismo um som crestado
De saxofone, e logo a atroz polifonia
De cordas e metais, síncopas, arreganhos
De jazz negro, vindos de Fifty Second Street.
New York acorda para a noite. Oito milhões
De solitários se dissolvem pelas ruas
Sem manhã. New York entrega-se.
Do páramo Balizas celestiais põem-se a brotar, vibrantes
À frente da parada, enquanto anjos em nylon
As asas de alumínio, as coxas palpitantes
Fluem langues da Grande Porta diamantina.
Cai o câmbio da tarde. O Sublime Arquiteto
Satisfeito, do céu admira sua obra.
A maquete genial reflete em cada vidro
O olho meigo de Deus a dardejar ternuras.
Como é bela New York!
Aço e concreto armado
A erguer sempre mais alto eternas estruturas!
Deus sorri complacente. New York é muito bela!
Apesar do East Side, e da mancha amarela
De China Town, e da mancha escura do Harlem
New York é muito bela! As primeiras estrelas Afinam na amplidão
cantilenas singelas...
Mas Deus, que mudou muito, desde que enriqueceu
Liga a chave que acende a Broadway e apaga o céu
Pois às constelações que no espaço esparziu
Prefere hoje os ersätze sobre La Guardia Field.
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