Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Renato Russo
Se fiquei esperando meu amor passar
Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que então eu não sabia
Amar e me via perdido e vivendo em erro
Sem querer me machucar de novo
Por culpa do amor
Mas você e eu podemos namorar
E era simples: ficamos fortes
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu
Sei rimar romã com travesseiro
Quero minha nação soberana
Com espaço, nobreza e descanso
Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido
Começo a ficar livre
- Espero
Acho que sim
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu prá mim
"Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Dai-nos a paz"
Já me basta que então eu não sabia
Amar e me via perdido e vivendo em erro
Sem querer me machucar de novo
Por culpa do amor
Mas você e eu podemos namorar
E era simples: ficamos fortes
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu
Sei rimar romã com travesseiro
Quero minha nação soberana
Com espaço, nobreza e descanso
Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido
Começo a ficar livre
- Espero
Acho que sim
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu prá mim
"Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Dai-nos a paz"
1 290
Paulo Augusto Rodrigues
Secos
Sentimentos secos.
Áridos,
Nevrálgicos,
Rachados.
Torretes óbvios de terra bruta,
Endurecida.
E freáticos,
São os desejos passando imunes ao fundo.
Onde a umidade e o frescor,
Não afloram.
Às vezes,
O impermeável senso desvia lençóis.
E em crus colchões
Expõe.
A água da fonte.
Áridos,
Nevrálgicos,
Rachados.
Torretes óbvios de terra bruta,
Endurecida.
E freáticos,
São os desejos passando imunes ao fundo.
Onde a umidade e o frescor,
Não afloram.
Às vezes,
O impermeável senso desvia lençóis.
E em crus colchões
Expõe.
A água da fonte.
925
Paulo Augusto Rodrigues
Diamante
Me assustam as crenças.
O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.
Muito me assustam as crenças.
As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.
Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,
E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.
O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.
Muito me assustam as crenças.
As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.
Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,
E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.
907
Rodrigo L. A. Santos
Quem entende
Quem entende
A vida?
Quando
Vivia na luz
Minha alma
Penava sozinha
No escuro
Quando
Estou no escuro
Minha alma
Dança alegre
Sob uma facho de luz
RLAS
A vida?
Quando
Vivia na luz
Minha alma
Penava sozinha
No escuro
Quando
Estou no escuro
Minha alma
Dança alegre
Sob uma facho de luz
RLAS
1 026
Paulo Augusto Rodrigues
Será
Será que não se vêem,
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
996
Rodrigo L. A. Santos
Não quero ficar preso
Não quero ficar preso em quatro paredes
Não quero ficar enjaulado numa caixa
Não quero seguir as tendências
Não quero ser massa de manobra
Não quero seu um "ista"
Seguindo algum "ismo"
Nem ficar preso numa linha imaginária
Quero fazer do mundo
Meu quintal
Fazer mais do que é possível
Mais do que é imaginável
Fazer de pessoas
Amigos
Não quero
Nem vou
Servir de matéria-prima
Pra ser moldado
Nessa forma moral
RLAS
Não quero ficar enjaulado numa caixa
Não quero seguir as tendências
Não quero ser massa de manobra
Não quero seu um "ista"
Seguindo algum "ismo"
Nem ficar preso numa linha imaginária
Quero fazer do mundo
Meu quintal
Fazer mais do que é possível
Mais do que é imaginável
Fazer de pessoas
Amigos
Não quero
Nem vou
Servir de matéria-prima
Pra ser moldado
Nessa forma moral
RLAS
849
Rita de Cássia
Pessoa
São tantas as minhas pessoas,
Tão diversa a minha face...
Conhece meus disfarces?
São quaisquer coisas boas;
É, talvez, o que devasse
Assim como um rio sem canoas...
São tantos os meus versos,
E tão falsa a minha imagem...
Compreende a minha mensagem?
Entendo, através dos meus nexos,
Os caminhos sem passagem;
Eram, talvez, possessos...
Sou fingidora e lástima
Aos leitores que percebem:
Cada verso é uma máscara ...
Tão diversa a minha face...
Conhece meus disfarces?
São quaisquer coisas boas;
É, talvez, o que devasse
Assim como um rio sem canoas...
São tantos os meus versos,
E tão falsa a minha imagem...
Compreende a minha mensagem?
Entendo, através dos meus nexos,
Os caminhos sem passagem;
Eram, talvez, possessos...
Sou fingidora e lástima
Aos leitores que percebem:
Cada verso é uma máscara ...
515
Rodrigo Guidi Peplau
Poêmio
Poêmio
sou eu
um poêmio
que foge se o sol nasceu
que tem várias paixões
mas nenhuma namorada
que é amigo das ilusões
e dorme com a tristeza
agarrada.
Poêmio
e toda sua papelada
o poêmio
que sem ela não é nada
que trata cada emoção
como sua afilhada
e cria seu coração
com as dores que tomou
das pancadas
sou eu
um poêmio
que foge se o sol nasceu
que tem várias paixões
mas nenhuma namorada
que é amigo das ilusões
e dorme com a tristeza
agarrada.
Poêmio
e toda sua papelada
o poêmio
que sem ela não é nada
que trata cada emoção
como sua afilhada
e cria seu coração
com as dores que tomou
das pancadas
1 129
Ribeiro Couto
Anjo de Outrora
O anjo de outrora, adormecido na minha alma,
Acordou esta noite e espiou nos meus olhos:
A lágrima caída ainda há pouco era dele.
Foi ele que a esqueceu à porta dos meus olhos,
Com o discreto pudor com que à porta da igreja
Deixamos cair a esmola na mão de um pobre.
Acordou esta noite e espiou nos meus olhos:
A lágrima caída ainda há pouco era dele.
Foi ele que a esqueceu à porta dos meus olhos,
Com o discreto pudor com que à porta da igreja
Deixamos cair a esmola na mão de um pobre.
1 146
Reginaldo Leal
A Morte, pois me mostraram a vida
trago a morte não como farsa
mas farta, ufana.
Zela pelo meu segredo
distraída, necessária, apressada
indivisível, única,
derradeira como eu.
persegue não a mim
mas aos meus passos
pois sequer me espera.
não me cansa
doura-me juventude
soma o sol, meu sol
minha estrada inteira
deseja o meu amor
questiona o meu desejo
sorri com o meu erro.
corre a morte
em busca de mais uma aventura
me ama, me trai
pois tem a mim
seu próximo ato
seu amo, seu guerreiro
que atravessa a fantasia
que sorri de medo
e falta.
trago a morte, inteira
infinita como meu âmago
incontestável e indesejável
que não pernoita
apenas espreme o ego
inconfundível como eu mesmo
apagado, vivo e morto.
trago a morte
não por essência ou desespero
mas porque o tempo me conta
e não me exclui,
porque não me esconde a náusea
nem me põe o rancho da maldade.
a morte quer apenas
fluir meu contentamento
acender a estrada, via láctea.
a morte nunca me deixará sozinho
como se eu fosse a vida inteira
reservado, preparado para a sorte.
a morte não me dará vida
mas me esconderá
dos transeuntes, dos descaminhos
e não me postará por inveja
em quase todos que me vêem.
mas farta, ufana.
Zela pelo meu segredo
distraída, necessária, apressada
indivisível, única,
derradeira como eu.
persegue não a mim
mas aos meus passos
pois sequer me espera.
não me cansa
doura-me juventude
soma o sol, meu sol
minha estrada inteira
deseja o meu amor
questiona o meu desejo
sorri com o meu erro.
corre a morte
em busca de mais uma aventura
me ama, me trai
pois tem a mim
seu próximo ato
seu amo, seu guerreiro
que atravessa a fantasia
que sorri de medo
e falta.
trago a morte, inteira
infinita como meu âmago
incontestável e indesejável
que não pernoita
apenas espreme o ego
inconfundível como eu mesmo
apagado, vivo e morto.
trago a morte
não por essência ou desespero
mas porque o tempo me conta
e não me exclui,
porque não me esconde a náusea
nem me põe o rancho da maldade.
a morte quer apenas
fluir meu contentamento
acender a estrada, via láctea.
a morte nunca me deixará sozinho
como se eu fosse a vida inteira
reservado, preparado para a sorte.
a morte não me dará vida
mas me esconderá
dos transeuntes, dos descaminhos
e não me postará por inveja
em quase todos que me vêem.
796
Rosani Abou Adal
Mistérios da Intimidade
Nossa intimidade é tão secreta
quanto as confidências de um soberano.
Nosso amor, cinto de castidade,
ninguém descobre nossas mãos proibidas.
Comemos maçãs e semeamos segredos
distantes do mundo e da vida.
Fugimos das pessoas como crianças carentes
em busca de carinho e afeto.
Ninguém nos percebe cercados de quatro paredes,
ninguém desvenda nossos mistérios.
Somos Édipo e Jocasta da era tecnológica.
Num pequeno vaso grego lapidamos
nossos sonhos, fantasias, medos,
verdades, mentiras,
fragilidades e sentimentos.
Vivemos o medo de ser descobertos
como meninos que roubam frutas
dos quintais e correm dos cachorros bravos.
Não sabemos quem somos,
não sei quem tu és.
Meu presente e meu passado?
Do futuro nada sei.
Quem és tu que me fazes fugir de mim mesma?
quanto as confidências de um soberano.
Nosso amor, cinto de castidade,
ninguém descobre nossas mãos proibidas.
Comemos maçãs e semeamos segredos
distantes do mundo e da vida.
Fugimos das pessoas como crianças carentes
em busca de carinho e afeto.
Ninguém nos percebe cercados de quatro paredes,
ninguém desvenda nossos mistérios.
Somos Édipo e Jocasta da era tecnológica.
Num pequeno vaso grego lapidamos
nossos sonhos, fantasias, medos,
verdades, mentiras,
fragilidades e sentimentos.
Vivemos o medo de ser descobertos
como meninos que roubam frutas
dos quintais e correm dos cachorros bravos.
Não sabemos quem somos,
não sei quem tu és.
Meu presente e meu passado?
Do futuro nada sei.
Quem és tu que me fazes fugir de mim mesma?
688
Pedro Paulo de Sena Madureira
Assim esqueço
Assim esqueço
e me renego.
Assim me abro
me aperto
e renasço ou desespero.
Assim me ergo
no cume deste lume
que não enxergo.
Assim me entrego
me prendo
reaprendo o que sonego.
Assim me transpasso
e integro o aço que me caça
com a brasa de sua acha.
Assim a hora e sua mora
assim do tempo os juros
que pago e não reclamo.
Assim — que não se apaga
— este fogo, cresce e lastra
o laivo túrgido
de um astro que me castra
e no chão fúlgido de minha queda
(urtiga que medra e me exaspera)
de era em era
de pedra em pedra
caído em meu mistério
assim de raiva
e sonho recomeço.
e me renego.
Assim me abro
me aperto
e renasço ou desespero.
Assim me ergo
no cume deste lume
que não enxergo.
Assim me entrego
me prendo
reaprendo o que sonego.
Assim me transpasso
e integro o aço que me caça
com a brasa de sua acha.
Assim a hora e sua mora
assim do tempo os juros
que pago e não reclamo.
Assim — que não se apaga
— este fogo, cresce e lastra
o laivo túrgido
de um astro que me castra
e no chão fúlgido de minha queda
(urtiga que medra e me exaspera)
de era em era
de pedra em pedra
caído em meu mistério
assim de raiva
e sonho recomeço.
907
Pedro Paulo de Sena Madureira
Clarice Lispector
1
Sou a barata velha que se arrasta pelo chão
na penumbra de uma casa abandonada.
Sou a aranha gélida aflita
gema negra imóvel na teia trêmula
Devastada pelo inverno.
Sou o morcego seco exangue
pendurado no sótão do esquecimento
— inferno.
Sou o rato correndo pelas paredes
roendo sua própria sombra.
Sou o caranguejo desde sempre igual a si mesmo
tímido e horrível
envergonhado de sua fome e esquiva crueldade.
Sou o escorpião entre pedras frias
único assassino do escorpião.
2
Sou o bicho qualquer bicho
que de repente ergueu o dorso
levantou os braços
espalmou as mãos
descobriu o rosto
desvendou a lágrima
aflorou o riso
mordeu o pão
saciou o desejo
afagou o ódio
devastou o corpo
bicho bicho de si
que nunca adiou
a morte do bicho
— escravo da treva
verdugo do amor.
3
Sou o deus
sou o anjo
sou a sombra do deus
a ferida no vôo do anjo
o homem
4
Sou
a gota de cristal
triturada na boca do tempo
intacta do poema
sou.
Sou a barata velha que se arrasta pelo chão
na penumbra de uma casa abandonada.
Sou a aranha gélida aflita
gema negra imóvel na teia trêmula
Devastada pelo inverno.
Sou o morcego seco exangue
pendurado no sótão do esquecimento
— inferno.
Sou o rato correndo pelas paredes
roendo sua própria sombra.
Sou o caranguejo desde sempre igual a si mesmo
tímido e horrível
envergonhado de sua fome e esquiva crueldade.
Sou o escorpião entre pedras frias
único assassino do escorpião.
2
Sou o bicho qualquer bicho
que de repente ergueu o dorso
levantou os braços
espalmou as mãos
descobriu o rosto
desvendou a lágrima
aflorou o riso
mordeu o pão
saciou o desejo
afagou o ódio
devastou o corpo
bicho bicho de si
que nunca adiou
a morte do bicho
— escravo da treva
verdugo do amor.
3
Sou o deus
sou o anjo
sou a sombra do deus
a ferida no vôo do anjo
o homem
4
Sou
a gota de cristal
triturada na boca do tempo
intacta do poema
sou.
999
Rosani Abou Adal
Nua
Sinto-me como um cabide
que pendura a própria roupa.
Estou nua diante de mim,
completamente nua.
Minha nudez é como o silêncio,
horas que param no tempo
com os ponteiros na mesma posição
por um longo período.
Sinto frio, muito frio.
É verão mas parece estar nevando
- o agasalho esquenta o guarda-roupa.
Não tenho cobertas,
durmo feito estátua no cimento.
Não há amigo dentro do armário
apenas suportes, pedaços de pano.
Abro as portas e procuro alguém,
não há ninguém no móvel imóvel.
Tento me vestir e não consigo,
troco de roupa a cada segundo
e não me sinto bem.
Talvez a cor, é melhor mudar.
Experimento outra, mais outra,
as roupas não me vestem, desnudam.
O guarda-roupa está vazio,
totalmente vazio, sem cabides,
suéter, paletó e linho.
Com certeza deve estar blefando
ou me dando um xeque-mate,
mas ele não sabe jogar.
É um pedaço de madeira
esculpida e esmaltada,
não se veste nem se despe
e não precisa de coberta para dormir.
Sinto frio, muito frio.
Deito na cama e não conquisto sonhos,
estão solitários, divagando
no porta-jóias do inconsciente.
Os pesadelos dormem como chumbo
e não acordam.
Eu grito e não escutam.
Estou nua diante de mim mesma.
Não tenho cobertores nem cobertas.
que pendura a própria roupa.
Estou nua diante de mim,
completamente nua.
Minha nudez é como o silêncio,
horas que param no tempo
com os ponteiros na mesma posição
por um longo período.
Sinto frio, muito frio.
É verão mas parece estar nevando
- o agasalho esquenta o guarda-roupa.
Não tenho cobertas,
durmo feito estátua no cimento.
Não há amigo dentro do armário
apenas suportes, pedaços de pano.
Abro as portas e procuro alguém,
não há ninguém no móvel imóvel.
Tento me vestir e não consigo,
troco de roupa a cada segundo
e não me sinto bem.
Talvez a cor, é melhor mudar.
Experimento outra, mais outra,
as roupas não me vestem, desnudam.
O guarda-roupa está vazio,
totalmente vazio, sem cabides,
suéter, paletó e linho.
Com certeza deve estar blefando
ou me dando um xeque-mate,
mas ele não sabe jogar.
É um pedaço de madeira
esculpida e esmaltada,
não se veste nem se despe
e não precisa de coberta para dormir.
Sinto frio, muito frio.
Deito na cama e não conquisto sonhos,
estão solitários, divagando
no porta-jóias do inconsciente.
Os pesadelos dormem como chumbo
e não acordam.
Eu grito e não escutam.
Estou nua diante de mim mesma.
Não tenho cobertores nem cobertas.
886
Rosani Abou Adal
Semifusa de Pétalas
Se as rosas expressassem meus sentimentos,
o roseiral seria uma orquestra
de melodias divinas,
os botões não murchariam,
brotariam a cada amanhecer
como um acorde harmônico.
Os espinhos, uma canção serena.
Pausa. Uma semibreve,
uma semifusa de pétalas.
Silêncio. As flores vibram acordes.
Uma melodia nasce em minhalma.
Não sei mais quem sou.
Pétala,
rosa,
acorde?
o roseiral seria uma orquestra
de melodias divinas,
os botões não murchariam,
brotariam a cada amanhecer
como um acorde harmônico.
Os espinhos, uma canção serena.
Pausa. Uma semibreve,
uma semifusa de pétalas.
Silêncio. As flores vibram acordes.
Uma melodia nasce em minhalma.
Não sei mais quem sou.
Pétala,
rosa,
acorde?
931
Pedro Marato
Voto
Corrompe-te um vício de humanidade.
Se teu verso repousar na pedra,
Na cúpula do tempo ressoar,
Gradua-lhe o tom de eternidade,
Em poeira de renúncia.
Se de humano o vício suplantares,
Implanta essa avareza
no gesto sem afago e cruel,
pois é necessário roubar ao convívio,
todo o traço de intimidade.
Hostil já não reputes
o veio corrosivo da cal,
no ardor de seu repouso sobre a pele.
A indolência da bondade
faz tombar as lágrimas,
úteis à higiene de teu rosto.
Se teu verso repousar na pedra,
Na cúpula do tempo ressoar,
Gradua-lhe o tom de eternidade,
Em poeira de renúncia.
Se de humano o vício suplantares,
Implanta essa avareza
no gesto sem afago e cruel,
pois é necessário roubar ao convívio,
todo o traço de intimidade.
Hostil já não reputes
o veio corrosivo da cal,
no ardor de seu repouso sobre a pele.
A indolência da bondade
faz tombar as lágrimas,
úteis à higiene de teu rosto.
759
Paulo F. Cunha
Insônia
Tanta insônia, tanta ,
o relógio passando eu ficando
que eu nem sabia para que
servia minha insônia.
Mas agora sei! Para que
encontre a multidão
que vive dentro de mim.
Noites silentes, tardias, cansadas,
que batiam à porta
do meu corpo.
E eu, ignaro a detestá-las
tanto quanto, agora, passo a amá-las
Não mais o “nhec-nhec”
das opiniões pre-fabricadas
pobres, secas, estioladas,
de quem não entende nada
da vida, das coisas, da gente.
Pensar que sabe :
eis a primeira e a ultima
ilusão do beócio que
repete o que lhe disseram,
sofre o que lhe fizeram,
e nunca chega a entender
que a pensar não pode pretender,
pois pensar é coisa de gente
gente que vê, lá na frente .
Pois mente demais o que pensa
que o que pensa é verdadeiro.
Mas só agora eu soube
que a insônia é meu dom
Não fosse ela eu jamais saberia
e que aquilo que tanto combatia,
era, na verdade , o que eu queria.
o relógio passando eu ficando
que eu nem sabia para que
servia minha insônia.
Mas agora sei! Para que
encontre a multidão
que vive dentro de mim.
Noites silentes, tardias, cansadas,
que batiam à porta
do meu corpo.
E eu, ignaro a detestá-las
tanto quanto, agora, passo a amá-las
Não mais o “nhec-nhec”
das opiniões pre-fabricadas
pobres, secas, estioladas,
de quem não entende nada
da vida, das coisas, da gente.
Pensar que sabe :
eis a primeira e a ultima
ilusão do beócio que
repete o que lhe disseram,
sofre o que lhe fizeram,
e nunca chega a entender
que a pensar não pode pretender,
pois pensar é coisa de gente
gente que vê, lá na frente .
Pois mente demais o que pensa
que o que pensa é verdadeiro.
Mas só agora eu soube
que a insônia é meu dom
Não fosse ela eu jamais saberia
e que aquilo que tanto combatia,
era, na verdade , o que eu queria.
744
Paulo F. Cunha
Solidão
Eu me examino na solidão ,
abro todos os contatos
comigo mesmo
Quantas vezes me envaideço ,
outras tantas me entristeço ,
com a visão que tenho de mim.
Ouço os ruídos da rua
que me arranham o corpo ,
que me ferem os tímpanos ,
que me apertam a cabeça
quando estou posto em solidão .
Os ruidos são tão claros
quanto escura a percepção
de mim mesmo .
Solidão é guerrear sem armadura ,
fazendo do coração a bomba
e da cabeça ,em riste , a lança .
Solidão , como te evito ,
solidão como te quero .
abro todos os contatos
comigo mesmo
Quantas vezes me envaideço ,
outras tantas me entristeço ,
com a visão que tenho de mim.
Ouço os ruídos da rua
que me arranham o corpo ,
que me ferem os tímpanos ,
que me apertam a cabeça
quando estou posto em solidão .
Os ruidos são tão claros
quanto escura a percepção
de mim mesmo .
Solidão é guerrear sem armadura ,
fazendo do coração a bomba
e da cabeça ,em riste , a lança .
Solidão , como te evito ,
solidão como te quero .
763
Paulo F. Cunha
Ora Danem-se
Que importa que me digam
liso , pobre , feio ou chato
se sei que sou , talvez
o contrário de tudo
e dono de mim mesmo ?
Que me importa que se vão
pessoas , coisas e cargos
se eu ( e meus olhos ) ficamos ?
Os outros , ora os outros
são apenas cegos falantes
e eu não sou guia de cegos
pois com eles - meu defeito ? -
não tenho a menor paciência ,
nem necessito dos seus olhos ,
pois só vejo com os meus
e com os de quem vale a pena.
O mundo é maior que isso
e ( principalmente ) o futuro também.
as coisas pequenas passam .
As em verdade grandes
que os cegos e parados não vêm ,
ficam , ou melhor , frutificam.
Quero comer agora estes frutos
para não sentirsaudades mais tarde
liso , pobre , feio ou chato
se sei que sou , talvez
o contrário de tudo
e dono de mim mesmo ?
Que me importa que se vão
pessoas , coisas e cargos
se eu ( e meus olhos ) ficamos ?
Os outros , ora os outros
são apenas cegos falantes
e eu não sou guia de cegos
pois com eles - meu defeito ? -
não tenho a menor paciência ,
nem necessito dos seus olhos ,
pois só vejo com os meus
e com os de quem vale a pena.
O mundo é maior que isso
e ( principalmente ) o futuro também.
as coisas pequenas passam .
As em verdade grandes
que os cegos e parados não vêm ,
ficam , ou melhor , frutificam.
Quero comer agora estes frutos
para não sentirsaudades mais tarde
873
Paulo F. Cunha
O Múltiplo Uno
Eu que , como todos , sou feito
de matéria igual às estrelas
e às pedras , não posso
ser o mesmo , nunca !
Sou dual triplo às vezes uno .
Cristalizo-me em matéria ,
,ou vibro em ondas infinitas
adequando-me às condições
e aos infinitos ambientes .
Se com uma vibro e com
a outra me torno sólido ,
não é culpa minha , mas
das infinitas probabilidades
que ser pedra e ser estrela
me conferem .
Vagando na verdade da incerteza
não me oponho- por não poder-
à inexorável submissão à natureza .
E é dentro dela que
me realizo e penso que sendo
uno dual ou triplo ,
jamais perco a essência mesma
de ser eu.
de matéria igual às estrelas
e às pedras , não posso
ser o mesmo , nunca !
Sou dual triplo às vezes uno .
Cristalizo-me em matéria ,
,ou vibro em ondas infinitas
adequando-me às condições
e aos infinitos ambientes .
Se com uma vibro e com
a outra me torno sólido ,
não é culpa minha , mas
das infinitas probabilidades
que ser pedra e ser estrela
me conferem .
Vagando na verdade da incerteza
não me oponho- por não poder-
à inexorável submissão à natureza .
E é dentro dela que
me realizo e penso que sendo
uno dual ou triplo ,
jamais perco a essência mesma
de ser eu.
921
Paulo F. Cunha
Sou Só
Sou só
Sou infinitamente só
dentro de mim mesmo.
Não era, dependia, queria...
Mas aprendi nos ramos
da Árvore da Vida que
não se consegue ser todo
sem primeiro ser total
e profundamente só,
até que eu seja apenas
uma nuvem branca
levada pelos ventos
e mudando , ao leu, a forma.
Tantos degraus, tantos
galhos devo passar.
Talvez nunca chegue a sê-lo
Mas, em havendo vida, vou tentar
Sou infinitamente só
dentro de mim mesmo.
Não era, dependia, queria...
Mas aprendi nos ramos
da Árvore da Vida que
não se consegue ser todo
sem primeiro ser total
e profundamente só,
até que eu seja apenas
uma nuvem branca
levada pelos ventos
e mudando , ao leu, a forma.
Tantos degraus, tantos
galhos devo passar.
Talvez nunca chegue a sê-lo
Mas, em havendo vida, vou tentar
911