Asco
O que buscam?
O que procuram?
Não sabem o valor do beijo simples,
Não crêem no momento feliz.
E são ávidos,
Complexos,
Sedentos e inconseqüentes.
Rosnam,
Rodam,
Esbarram no objetivo
E seguem em frente.
Palhetas nos olhos,
Imagem fixa na mente
Cega,
Obtusa,
Decadente.
Idéias por demais distantes
Obscurecem o próximo passo.
E querem de imediato,
Rápido.
Dementes.
Estão loucos,
Roucos de tanto silenciar.
Nas trevas,
Recrudesce a loucura.
E os insensatos,
Tolos,
Buscam.
Na dúvida,
Não sei se tenho pena...
Ou Asco.
Quero
Dores de menino.
Quero colo, carinho, abrigo,
Quero RocknRoll nos ouvidos,
E mais do que sangue nas veias.
E quero bomba, estrela cadente,
Quero guerra, medo e perigo.
Adrenalina e nostalgia.
Quero olhares perdidos achados,
Visões alucinantes existindo,
Horrores, Hiroximas e himens.
Homens de verdade.
Caráter, explosão e facadas.
Mães, pais e defuntos,
Filhos e netos,
Tensões, conflitos e alívios.
Quero tédio no sexo dos outros,
Liberdade de expressão a fórceps.
Quero paz...
De espírito.
Astral
Energia incandescente
Baixando ao fundo.
Algo cosméticamente simples
Retocado de pureza.
O sentido ingênuo da admiração aguçado
Pela beleza repetidamente nova.
A indecência do vermelho
A força do amarelo.
E a nós, só nos cabe ver e sentir
Enquanto dure este momento mágico.
Baixe sol,
Porque amanhã quero vê-lo nascer.
Diamante
Me assustam as crenças.
O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.
Muito me assustam as crenças.
As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.
Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,
E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.
Bicho
Hoje vive preso, trancado,
Atrás das cidades, inofensivo.
Existe apenas para lembrar-nos
Que um dia aquilo fomos nós.
A memória é como um zoológico
Isolando do mundo todo tipo de sentimentos animais
Que ainda não extinguimos.
Porém, o ritmo monótono e rápido da vida
Metralha, por aí, tudo que encontra
Matando espécies inteiras.
Resta o mêdo.
Que nunca durma o zelador.
Pois se assim for
Não existirá nenhuma lembrança real,
Viva.
Restará somente,
Fotos coloridas em livros desbotados
Mostrando a alma deste sentimento.
Desenhos a mão, esboços,
Num esforço de quem não sabe desenhar,
Num papel como este.
É essa a esperança,
Só depois de tudo acabado
Poderemos reconstruir.
Quando sofrer,
Rebusque a memória,
Numa jaula pequena, com a placa apagada,
Existe um bicho,
O mais indefeso.
Lá estava escrito...
Amor.
Moça
É de noite, noite de sábado.
Há movimento de gente, copos,
Mas em mim não há nada.
Para mim, as ruas estão vazias,
As pessoas perdidas,
Os caminhos escuros.
É de noite, noite de qualquer dia.
Há estrelas no céu
Iluminando a semente.
Fazendo crescer na lembrança,
O ponto luminoso e brilhante,
Que acende,
A imagem sorrisamente cativante
Da amizade calada.
É de noite, noite que aumenta a distância,
Mas, é de dia que a saudade gritante
Da amiga,
Estoura.
É momentâneo, mas é profundo.
Que vontade descabida
De estar neste momento,
Ao seu lado, tranqüilo,
Numa quieta cidade.
Talvez até,
Curitiba.
Espanto
É o silêncio que te choca?
Ver meu rosto contraído,
Meu copo vazio,
Meu estado de abandono.
Minha insônia,
Meus tremores,
Os vacilos de memória.
Ver minha bílis escarrada,
Meu desânimo latente,
Meu amargo desumor,
Meus suores quando durmo,
O volume do cinzeiro,
O escritório em desalinho,
A ausência do querer.
Me faltam as respostas.
É quando calo.
Agora, me diga,
É o silêncio que te choca?
Vida
Vem vida,
Porque eu não posso parar.
Vem noite,
Porque eu não posso parar.
Vem gente,
Venham todos,
Não me deixem pensar.
Não durmam,
Não me deixem lembrar...
Me salvem da tal solidão.
Que solidão mais sofrida,
É a solidão do amor,
É a solidão da saudade.
Um simples vacilo,
Ela vem, entra, para,
Estanca os músculos,
Embota a mente,
Turva a visão.
Esmaga,
Entristece,
Arranca,
Rasga,
Dói,
Mata.
Vem Vida,
Porque eu não posso...
Chave
Existe um lugar.
Além...
Muito além do alcance da visão,
Muito aquém de qualquer percepção.
Oculto,
Difuso as especulações.
Sob sombras fulgurantes,
Ruço úmido,
Impenetrante...
Esconde,
Os vultos das paixões.
A sede,
O desejo,
As vontades,
As hesitações.
A fagulha da explosão,
Guardada,
Fechada.
As portas da ternura,
Mantêm-se seguras,
Bloqueando.
Os vários ódios dos dilemas,
Insultando.
Sobre a mesa posta,
Com doçuras e carinhos,
Expõem-se gloriosa
A chave,
Do caminho.
Choro
Revendo as mesmas velhas fotos,
Relendo as mesmas lindas cartas,
Revivendo cada instante,
Cada detalhe.
Alguém canta na vitrola
Aquelas músicas esquecidas.
Ingenuidade perdida.
Neste momento de tristeza
Lembranças são troncos na água,
Me salvando a vida.
Impedindo que me afogue,
Nas correntezas e abismos
Que sobressaem neste dia.
O peso vem de fora,
Mas a força para suportá-lo
Esgota energias interiores.
Já não sinto meus membros...
As recordações voam sobre minha cabeça,
Se vão a garra e o ardor.
O tronco se afasta mais e mais,
As águas me engolem com ânsia.
Afundo...
E sinto que lá no fundo,
Choro.