Quero
Dores de menino.
Quero colo, carinho, abrigo,
Quero RocknRoll nos ouvidos,
E mais do que sangue nas veias.
E quero bomba, estrela cadente,
Quero guerra, medo e perigo.
Adrenalina e nostalgia.
Quero olhares perdidos achados,
Visões alucinantes existindo,
Horrores, Hiroximas e himens.
Homens de verdade.
Caráter, explosão e facadas.
Mães, pais e defuntos,
Filhos e netos,
Tensões, conflitos e alívios.
Quero tédio no sexo dos outros,
Liberdade de expressão a fórceps.
Quero paz...
De espírito.
Hora
Hora final!
Hora em que o mundo é mais vasto,
O sorriso mais fraco,
O aperto mais junto.
Hora que a saudade nem nasce,
E aborta,
A lembrança nem chega
E a imagem se perde.
Hora que nunca esperamos,
Hora que nunca queremos.
Hora da pequena morte.
Hora que ficamos mais velhos.
Hora que a vida me joga na cara.
Hora em que perco para deus.
Hora, que é só um instante!
Hora que desaba o castelo,
Da ruína das cartas.
Hora de se enroscar no futuro,
Largar os pedaços,
Os lastros.
Triste hora,
Porque me persegues?
Outra vez!
É chegada a hora!
A hora da despedida,
A hora do adeus.
Secos
Sentimentos secos.
Áridos,
Nevrálgicos,
Rachados.
Torretes óbvios de terra bruta,
Endurecida.
E freáticos,
São os desejos passando imunes ao fundo.
Onde a umidade e o frescor,
Não afloram.
Às vezes,
O impermeável senso desvia lençóis.
E em crus colchões
Expõe.
A água da fonte.
Choro
Revendo as mesmas velhas fotos,
Relendo as mesmas lindas cartas,
Revivendo cada instante,
Cada detalhe.
Alguém canta na vitrola
Aquelas músicas esquecidas.
Ingenuidade perdida.
Neste momento de tristeza
Lembranças são troncos na água,
Me salvando a vida.
Impedindo que me afogue,
Nas correntezas e abismos
Que sobressaem neste dia.
O peso vem de fora,
Mas a força para suportá-lo
Esgota energias interiores.
Já não sinto meus membros...
As recordações voam sobre minha cabeça,
Se vão a garra e o ardor.
O tronco se afasta mais e mais,
As águas me engolem com ânsia.
Afundo...
E sinto que lá no fundo,
Choro.
Será
Será que não se vêem,
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
Especial
Uma noite especial
Fica involuntáriamente
Guardada na memória
Do corpo e do coração.
Uma mulher especial
Fica voluntáriamente
Guardada na memória
Do corpo e do coração.
Minha verdade,
é fundade pela lembrança
De uma noite especial
Em que uma mulher especial
Levou meu corpo a quase loucura
E meu coração a quase paixão.
Orvalho
Os cabelos estão molhados
Escorrendo gotas,
Que deslizam, suavemente,
Como lágrimas.
Deixando límpidas marcas,
Na passagem,
Sobre a pele de mel.
Todo o corpo encharcado
Colando o desêjo,
No úmido trocar de carícias errantes,
Ao olhar penetrante,
Que disparam
Seus olhos macios.
A face revela a vontade.
Sua imagem reduz a paisagem
Ao contorno montanhoso do corpo.
Ao relêvo exato
De uma paixão constatada,
Sobre as gotas,
Que depois desta chuva,
Restou sobre a relva orvalhada.
Paraíso
Amas,
Amas,
Amas,
Concebes.
Gestas,
Gestas,
Gestas,
Pares.
Vai, filho,
Não te aflija.
Vai ter com anjos,
No lugar que te recebem.
Asco
O que buscam?
O que procuram?
Não sabem o valor do beijo simples,
Não crêem no momento feliz.
E são ávidos,
Complexos,
Sedentos e inconseqüentes.
Rosnam,
Rodam,
Esbarram no objetivo
E seguem em frente.
Palhetas nos olhos,
Imagem fixa na mente
Cega,
Obtusa,
Decadente.
Idéias por demais distantes
Obscurecem o próximo passo.
E querem de imediato,
Rápido.
Dementes.
Estão loucos,
Roucos de tanto silenciar.
Nas trevas,
Recrudesce a loucura.
E os insensatos,
Tolos,
Buscam.
Na dúvida,
Não sei se tenho pena...
Ou Asco.
Diamante
Me assustam as crenças.
O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.
Muito me assustam as crenças.
As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.
Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,
E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.