Poemas neste tema
Corpo
Cláudio Alex
Metamorfose Blues
O pensamento, essas mãos remotas
que te tocaram.
Te transformaram, fluindo em ti
uma vontade louca.
Um gosto acre, de amor,
invade a boca.
Uma sensação de contradição
revela o inatingível.
Dissera que o prazer
supremo libera a alma.
E traz a calma das manhãs
dormidas ao relento.
Mas o pensamento
navega em turvas águas
E nas mágoas que brotam
em teus segredos.
As mãos do pensamento
acharam teu recanto.
E a voz te penetrou
em íntimos encantos
E o gozo inundou...
E a noite prosseguiu...
E um choro convulsivo
te descobriu em ti.
que te tocaram.
Te transformaram, fluindo em ti
uma vontade louca.
Um gosto acre, de amor,
invade a boca.
Uma sensação de contradição
revela o inatingível.
Dissera que o prazer
supremo libera a alma.
E traz a calma das manhãs
dormidas ao relento.
Mas o pensamento
navega em turvas águas
E nas mágoas que brotam
em teus segredos.
As mãos do pensamento
acharam teu recanto.
E a voz te penetrou
em íntimos encantos
E o gozo inundou...
E a noite prosseguiu...
E um choro convulsivo
te descobriu em ti.
746
Alberico Carneiro
As Damas Negras em Noite de Núpcias
1
talvez um poema seja
simples sobra de palavras
impronunciadas por pessoas
na inútil Babel da fala
mas impressas como em tábuas
da sarça do Verbo em chamas
nessa partida de Damas
Negras em Noite de Núpcias
que num lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá
2
talvez um poema seja
simples poeira de palavras
projetadas de pessoas
imprimidas como trevas
bem no coração da névoa
que acaso num lance de dedos e dados
como silhuetas que se projetam
como penumbra esfumada
que o acaso não abolirá
3
talvez um poema seja
simples sombras de pessoas
transformadas em palavras
silhuetas tatuagendadas
por invisíveis carimbos
que explodem na claridade
a pista de rastros e restos
de cacos caos e resíduos
do simulacro das lágrimas
mumificadas em larvas
de adeuses e últimos gestos
salvo após o rescaldo
em caligramas e símbolos
que de súbito num lance de dedos e de dados
o acaso não abolirá
4
talvez um poema seja
simples escombros de palavras
projetadas de pessoas
balbuciados pedaços
de silêncios e silícios
de gritos amordaçados
silenciosos ideogramas
gritos dos olhos dos mudos
barulho de dedos dos surdos
o supertato dos cegos
na visão dos surdomudos
aprisionados em páginas
imagens anônimas das almas
mensagens psicografadas
na comunhão dos sentidos
que num lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá
5
talvez um poema seja
simples sobra de palavras
projeção de suas sombras
ou o espectro de suas auras
que da escassez ou da falta
ingressam na noite e tombam
no elíptico canto deságuam
no despenhadeiro da ascensão
que por um lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá
6
talvez um poema seja
simples sobras de palavras
impronunciadas por pessoas
projetadas como sombras
tatuagendadas na pele
tangenciadas na neve
com impressões digitais
silhuetas que despreendem
oscilam dos corpos e tombam
num lance de dados e dedos
que o acaso não abolirá
7
talvez um poema seja
simples sobras de pessoas
encantadas em palavras
projetadas como sombras
tatuagendadas incisões
como impressões digitais
de cicatrizes em ronda
que se despreendem da pele
oscilam dos corpos e tombam
num lance de dedos e dados
que o acaso não apagará
8
talvez um poema seja
somente sombras de palavras
pó que despreende dos corpos
como poeira de estrelas
que viola a gravidade
do Cosmo e telescópios
e foge de apelos celestes
viaja a mil anos-luz
e à noite poleniza as folhas
em suas densas corolas
e no coração das trevas
inscreve-se em simples larva
e deixa aí manuscrito
todo o poema da Terra
que nos charcos enfim enfloresce
como num lance de dedos e de dados
que o acaso não abolirá
9
talvez um poema assim
seja simples
como sombras de palavras
simples silhuetas ímpares
de simples pessoas pares
anônimo canto dos párias
que no caminho meio desta vida
entre lances de dedos e de dados
como as Damas súbitas da partida
o acaso não abolirá
talvez o poema assim seja
talvez um poema seja
simples sobra de palavras
impronunciadas por pessoas
na inútil Babel da fala
mas impressas como em tábuas
da sarça do Verbo em chamas
nessa partida de Damas
Negras em Noite de Núpcias
que num lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá
2
talvez um poema seja
simples poeira de palavras
projetadas de pessoas
imprimidas como trevas
bem no coração da névoa
que acaso num lance de dedos e dados
como silhuetas que se projetam
como penumbra esfumada
que o acaso não abolirá
3
talvez um poema seja
simples sombras de pessoas
transformadas em palavras
silhuetas tatuagendadas
por invisíveis carimbos
que explodem na claridade
a pista de rastros e restos
de cacos caos e resíduos
do simulacro das lágrimas
mumificadas em larvas
de adeuses e últimos gestos
salvo após o rescaldo
em caligramas e símbolos
que de súbito num lance de dedos e de dados
o acaso não abolirá
4
talvez um poema seja
simples escombros de palavras
projetadas de pessoas
balbuciados pedaços
de silêncios e silícios
de gritos amordaçados
silenciosos ideogramas
gritos dos olhos dos mudos
barulho de dedos dos surdos
o supertato dos cegos
na visão dos surdomudos
aprisionados em páginas
imagens anônimas das almas
mensagens psicografadas
na comunhão dos sentidos
que num lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá
5
talvez um poema seja
simples sobra de palavras
projeção de suas sombras
ou o espectro de suas auras
que da escassez ou da falta
ingressam na noite e tombam
no elíptico canto deságuam
no despenhadeiro da ascensão
que por um lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá
6
talvez um poema seja
simples sobras de palavras
impronunciadas por pessoas
projetadas como sombras
tatuagendadas na pele
tangenciadas na neve
com impressões digitais
silhuetas que despreendem
oscilam dos corpos e tombam
num lance de dados e dedos
que o acaso não abolirá
7
talvez um poema seja
simples sobras de pessoas
encantadas em palavras
projetadas como sombras
tatuagendadas incisões
como impressões digitais
de cicatrizes em ronda
que se despreendem da pele
oscilam dos corpos e tombam
num lance de dedos e dados
que o acaso não apagará
8
talvez um poema seja
somente sombras de palavras
pó que despreende dos corpos
como poeira de estrelas
que viola a gravidade
do Cosmo e telescópios
e foge de apelos celestes
viaja a mil anos-luz
e à noite poleniza as folhas
em suas densas corolas
e no coração das trevas
inscreve-se em simples larva
e deixa aí manuscrito
todo o poema da Terra
que nos charcos enfim enfloresce
como num lance de dedos e de dados
que o acaso não abolirá
9
talvez um poema assim
seja simples
como sombras de palavras
simples silhuetas ímpares
de simples pessoas pares
anônimo canto dos párias
que no caminho meio desta vida
entre lances de dedos e de dados
como as Damas súbitas da partida
o acaso não abolirá
talvez o poema assim seja
723
Cláudio Alex
Repouso em ti
Tu és meu leito.
A satisfação de um desejo realizado
Abraço teu corpo amado.
De novo um olhar ("te quero").
Torno a crescer dentro de ti
A magia do recomeço.
A orgia revisitada.
A satisfação de um desejo realizado
Abraço teu corpo amado.
De novo um olhar ("te quero").
Torno a crescer dentro de ti
A magia do recomeço.
A orgia revisitada.
899
Cláudio Alex
Quem é aquela mulher?
Deixe que eu te leve no sonho.
No sonho que meu corpo embala,
que a palavra cala,
que o pensamento voa.
Deixe que o calor te chegue
infiltre em teus poros,
erice teus pelos.
Escute meus apelos,
afague meus cabelos.
Arranhe minha pele.
Deixe essa fera,
esse fogo aberto,
essa mulher oculta,
renasça em carne viva.
Viva meu esforço,
minha luta.
Como me contorço,
como me refaço,
como que renasço.
É que para mim existe algo
diante do sonho.
Existe uma mulher real,
uma mulher que toco e que amo.
Existe uma força suavemente macia
que comprime meu peito,
que me engole a boca
que é meu próprio sangue,
na minha própria magia.
Existe uma mulher oculta,
renegada, calada
que me agarra e se integra comigo
num único momento,
num único organismo ofegante.
Depois se cala e me renega.
E já é outra que fala,
que me expulsa do leito,
que nega, que isola,
que repudia.
Quem é aquela nos momentos de entrega?
Quem é aquela que comigo revira os lençóis?
Quem é aquela mulher?
No sonho que meu corpo embala,
que a palavra cala,
que o pensamento voa.
Deixe que o calor te chegue
infiltre em teus poros,
erice teus pelos.
Escute meus apelos,
afague meus cabelos.
Arranhe minha pele.
Deixe essa fera,
esse fogo aberto,
essa mulher oculta,
renasça em carne viva.
Viva meu esforço,
minha luta.
Como me contorço,
como me refaço,
como que renasço.
É que para mim existe algo
diante do sonho.
Existe uma mulher real,
uma mulher que toco e que amo.
Existe uma força suavemente macia
que comprime meu peito,
que me engole a boca
que é meu próprio sangue,
na minha própria magia.
Existe uma mulher oculta,
renegada, calada
que me agarra e se integra comigo
num único momento,
num único organismo ofegante.
Depois se cala e me renega.
E já é outra que fala,
que me expulsa do leito,
que nega, que isola,
que repudia.
Quem é aquela nos momentos de entrega?
Quem é aquela que comigo revira os lençóis?
Quem é aquela mulher?
864
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Nossa Senhora da Piedade
Acolho-te em meus braços
Corpo exangue no cansaço
Dos beijos e da comunhão.
És agora o filho que não tive:
Pernas distanciadas, flexionadas
Sobre meu corpo em solidão.
Foi tão profundo o encontro
Foi tão dor e alegria
E o momento eterno, agonia.
Não te vejo mais como humano,
Teus olhos semi - cerrados ardem
Na antiga posse já redimida.
Não te vejo mais como irmão,
Tua boca semi - aberta, dentes
Que foram instrumentos de paixão.
Foste um Deus em meu caminho,
Jato de luz, campo de flores e carinhos,
Plenitude de êxtase e desejos.
Foste um Deus vivo em minha vida
E agora, lasso, te sustento em meu abraço,
Homem que se entregou ao longe do espaço...
Corpo exangue no cansaço
Dos beijos e da comunhão.
És agora o filho que não tive:
Pernas distanciadas, flexionadas
Sobre meu corpo em solidão.
Foi tão profundo o encontro
Foi tão dor e alegria
E o momento eterno, agonia.
Não te vejo mais como humano,
Teus olhos semi - cerrados ardem
Na antiga posse já redimida.
Não te vejo mais como irmão,
Tua boca semi - aberta, dentes
Que foram instrumentos de paixão.
Foste um Deus em meu caminho,
Jato de luz, campo de flores e carinhos,
Plenitude de êxtase e desejos.
Foste um Deus vivo em minha vida
E agora, lasso, te sustento em meu abraço,
Homem que se entregou ao longe do espaço...
1 073
Amílcar Dória
Então adormeceu em fundo sono
3.
Então adormeceu em fundo sono.
Mas quando despertou não era outro.
Continuava o mesmo, um ser tristonho
a se indagar do seu tristonho encanto.
Ergueu-se dos recantos da caverna
à luz das tochas vivas da agonia.
E pronto retomou a sua angústia
de se indagar da própria procedência.
Por que sou eu quem sou? - ele dizia.
Por que me deram mãos e um coração
que se perturba a cada vez que o dia
noite se torna, e a noite, madrugada,
enquanto os gatos no telhado miam?
Não sei se o gato tem a ver comigo.
Então adormeceu em fundo sono.
Mas quando despertou não era outro.
Continuava o mesmo, um ser tristonho
a se indagar do seu tristonho encanto.
Ergueu-se dos recantos da caverna
à luz das tochas vivas da agonia.
E pronto retomou a sua angústia
de se indagar da própria procedência.
Por que sou eu quem sou? - ele dizia.
Por que me deram mãos e um coração
que se perturba a cada vez que o dia
noite se torna, e a noite, madrugada,
enquanto os gatos no telhado miam?
Não sei se o gato tem a ver comigo.
958
Arthur Rimbaud
AS CATADORAS DE PIOLHOS
Quando a fronte do infante, vermelha das tormentas,
Só implora o enxame branco dos sonhos sem perfil,
Se acercam de sua cama duas grandes irmãs atentas
Trazendo dedos frágeis, com unhas de ar gentil.
Fazem sentar o infante ao pé de uma janela
Aberta (onde o ar azul banha uma confusão de flores)
E em seus cabelos densos que o orvalho gela
Passeiam os dedos finos, terríveis e encantadores.
Ele escuta cantar o hálito dessas divas
Temerosas, que rescende a longos méis vegetais,
Às vezes sincopado de um silvar: salivas
Chupadas para os lábios - ou vontades de beijar?
Ouve o bater de suas negras pestanas, sob silêncios
Perfumados; e aqueles dedos elétricos, mansinhos,
A fazer crepitar em meio a cinzas indolências,
Sob suas régias unhas, a morte dos piolhinhos.
Eis que sobe por ele o vinho da Preguiça,
Suspiro de acordeão capaz de delirar;
E nasce nele, conforme a lentidão das carícias,
Um exato querer-e-não-querer chorar.
(Tradução
de Rubens Torres Filho)
Só implora o enxame branco dos sonhos sem perfil,
Se acercam de sua cama duas grandes irmãs atentas
Trazendo dedos frágeis, com unhas de ar gentil.
Fazem sentar o infante ao pé de uma janela
Aberta (onde o ar azul banha uma confusão de flores)
E em seus cabelos densos que o orvalho gela
Passeiam os dedos finos, terríveis e encantadores.
Ele escuta cantar o hálito dessas divas
Temerosas, que rescende a longos méis vegetais,
Às vezes sincopado de um silvar: salivas
Chupadas para os lábios - ou vontades de beijar?
Ouve o bater de suas negras pestanas, sob silêncios
Perfumados; e aqueles dedos elétricos, mansinhos,
A fazer crepitar em meio a cinzas indolências,
Sob suas régias unhas, a morte dos piolhinhos.
Eis que sobe por ele o vinho da Preguiça,
Suspiro de acordeão capaz de delirar;
E nasce nele, conforme a lentidão das carícias,
Um exato querer-e-não-querer chorar.
(Tradução
de Rubens Torres Filho)
3 932
Marcial
VI, 36-A PAPILO
Tanto nariz, tão grande o membro teu:
Bem podes, quando erecto, farejá-lo.
Bem podes, quando erecto, farejá-lo.
969
Marcial
VII, 30 - CONTRA CÉLIA
Aos Partos, aos Germanos, dás-te, Célia, aos Dácios,
Nem aos de Capadócia ou de Cilícia negas
O que buscar-te vem do Egipto os cobridores,
Ou, pelo Mar Vermelho, os negros indianos
As ancas não recuas ante o circunciso
Hebreu, e mesmo o Alano em seu cavalo sármata
Te pára à porta. Ob, como sendo tu Romana,
Só de Romanos paus te não agradas nunca?
Nem aos de Capadócia ou de Cilícia negas
O que buscar-te vem do Egipto os cobridores,
Ou, pelo Mar Vermelho, os negros indianos
As ancas não recuas ante o circunciso
Hebreu, e mesmo o Alano em seu cavalo sármata
Te pára à porta. Ob, como sendo tu Romana,
Só de Romanos paus te não agradas nunca?
642
Gabriela Mistral
O PENSADOR DE RODIN
Apoiando na mão rugosa o queixo fino,
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.
E tremeu de amor; toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O havemos de morrer passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.
E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte
Que o reclama nos bronzes. Não há árvores torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.
O Pensador reflete que é carne sem defesa:
Carne da cova, nua em face do destino,
Carne que odeia a morte e tremeu de beleza.
E tremeu de amor; toda a primavera ardente,
E hoje, no outono, afoga-se em verdade e tristeza.
O havemos de morrer passa-lhe pela mente
Quando no bronze cai a noturna escureza.
E na angústia seus músculos se fendem sofredores.
Sua carne sulcada enche-se de terrores,
Fende-se, como a folha de outono, ao Senhor forte
Que o reclama nos bronzes. Não há árvores torcida
Pelo sol na planície, nem leão de anca ferida,
Crispados como este homem que medita na morte.
2 334
Marcial
VI, 23 - CONTRA LÉSBIA
Que eu esteja sempre de pau feito queres,
Lésbia, mas crê que membro não é dedo.
Coa mão, coa voz, tu docemente insistes,
E contra ti teu rosto não perdoa.
Lésbia, mas crê que membro não é dedo.
Coa mão, coa voz, tu docemente insistes,
E contra ti teu rosto não perdoa.
967
Octavio Paz
ESCRITO COM TINTA VERDE
A tinta verde cria jardins, selvas, prados,
folhagens onde cantam as letras,
palavras que são árvores,
frases que são verdes constelações.
Deixa que minhas palavras, oh branca, desçam e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de neve,
como a hera à estátua,
como a tinta a esta página.
Braços, cintura, colo, seios,
a fronte pura como o mar,
a nuca de bosque no outono,
os dentes que mordem fibra de alguma planta.
Teu corpo se constela de signos verdes
como o corpo de um tronco após a copa.
Não te importe tanta pequena cicatriz luminosa:
olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.
(Tradução de Gerson Valle)
folhagens onde cantam as letras,
palavras que são árvores,
frases que são verdes constelações.
Deixa que minhas palavras, oh branca, desçam e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de neve,
como a hera à estátua,
como a tinta a esta página.
Braços, cintura, colo, seios,
a fronte pura como o mar,
a nuca de bosque no outono,
os dentes que mordem fibra de alguma planta.
Teu corpo se constela de signos verdes
como o corpo de um tronco após a copa.
Não te importe tanta pequena cicatriz luminosa:
olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.
(Tradução de Gerson Valle)
2 388
Poemas Sânscritos
A UMA FINA CINTURA
1
Que atrevimento! Como é que ela quer
a passear levar-te?
Não sabe então que o peso de seus seios
basta para quebrar-te?
Que atrevimento! Como é que ela quer
a passear levar-te?
Não sabe então que o peso de seus seios
basta para quebrar-te?
997
Ovídio
FRAGMENTO
Era intenso o calor, passava do meio-dia;
Estava eu em minha cama repousando.
[...] Eis que vem Corina numa túnica ligeira,
Os cabelos lhe ocultando o alvo pescoço;
Assim entrava na alcova a formosa Semiramis,
Dizem, e Laís que amaram tantos homens.
Tirei-lhe a túnica; de tão tênue mal contava:
Ela lutou todavia por cobrir-se
Com a túnica, mas sem empenho de vencer:
Venceu-a, sem mágoa, a sua traição.
Ficou em pé, sem roupa, ali diante dos meus olhos.
Em seu corpo não havia um só defeito.
Que ombros e que braços me foi dado ver, tocar!
Os belos seios, que doce comprimi-los!
Que ventre mais polido logo abaixo do peito!
Que primor de ancas, que juvenil a coxa!
Por que pormenorizar? Nada vi não louvável,
E lhe estreitei a nudez contra o meu corpo.
O resto, quem não sabe? Exaustos, repousamos.
Que outros meios-dias me sejam tão prósperos!
Os amores, V:
12,9-26
Estava eu em minha cama repousando.
[...] Eis que vem Corina numa túnica ligeira,
Os cabelos lhe ocultando o alvo pescoço;
Assim entrava na alcova a formosa Semiramis,
Dizem, e Laís que amaram tantos homens.
Tirei-lhe a túnica; de tão tênue mal contava:
Ela lutou todavia por cobrir-se
Com a túnica, mas sem empenho de vencer:
Venceu-a, sem mágoa, a sua traição.
Ficou em pé, sem roupa, ali diante dos meus olhos.
Em seu corpo não havia um só defeito.
Que ombros e que braços me foi dado ver, tocar!
Os belos seios, que doce comprimi-los!
Que ventre mais polido logo abaixo do peito!
Que primor de ancas, que juvenil a coxa!
Por que pormenorizar? Nada vi não louvável,
E lhe estreitei a nudez contra o meu corpo.
O resto, quem não sabe? Exaustos, repousamos.
Que outros meios-dias me sejam tão prósperos!
Os amores, V:
12,9-26
1 087
Gaio Petrónio Árbitro
FOEDA EST IN COITUS
Brutal na posse e é breve uma volúpia,
Quanto a que a Vénus a exaustão persegue.
Não bestas somos, ao precipitá-la,
Na rapidez final a que corremos
(O amor se queima em sua própria chama).
Mas lá, oh, lá, nas férias sempiternas,
Nos possuiremos de oscular perene.
Lá cansaço não há, nem carne triste.
Lá só de gozo o gozo gozará.
Lá não acaba o que começa sempre.
Quanto a que a Vénus a exaustão persegue.
Não bestas somos, ao precipitá-la,
Na rapidez final a que corremos
(O amor se queima em sua própria chama).
Mas lá, oh, lá, nas férias sempiternas,
Nos possuiremos de oscular perene.
Lá cansaço não há, nem carne triste.
Lá só de gozo o gozo gozará.
Lá não acaba o que começa sempre.
992
Marcial
III, 68--A UMA MATRONA PUDIBUNDA
Só até aqui, matrona, é para ti o livro.
O mais interno dele. para quem? Pra mim.
Ginásio, estádio, termas, deste lado: foge.
Aqui nos desnudamos. Homens nus não vejas.
Despojando entre rosas, ébria já, o pudor,
Terpsícore não cuida que palavras diz.
Sem véus e sem rodeios, dá seu nome àquele
Que Vénus em Agosto em si recebe impante,
Que como de espantalho o lavrador coloca
Em meio do seu horto. E que as virgens só olham
Por entre os dedos castos. Se bem te conheço,
ias pousar meu livro. Ah, ah... vais lê-lo agora...
O mais interno dele. para quem? Pra mim.
Ginásio, estádio, termas, deste lado: foge.
Aqui nos desnudamos. Homens nus não vejas.
Despojando entre rosas, ébria já, o pudor,
Terpsícore não cuida que palavras diz.
Sem véus e sem rodeios, dá seu nome àquele
Que Vénus em Agosto em si recebe impante,
Que como de espantalho o lavrador coloca
Em meio do seu horto. E que as virgens só olham
Por entre os dedos castos. Se bem te conheço,
ias pousar meu livro. Ah, ah... vais lê-lo agora...
888
Marcial
I, 47 - A HÉDILO
Quando, Hédilo, me dizes: Venho-me depressa,
Despacha-te - venérea a rigidez eu perco.
Pois que, se me demoro, mais a tempo chego.
E se te logo vens, que não me apresse pede.
Despacha-te - venérea a rigidez eu perco.
Pois que, se me demoro, mais a tempo chego.
E se te logo vens, que não me apresse pede.
1 031
Marcial
IV, 42-A FLACO
Se os votos exalçados poderão ser meus,
Ouve que amante, Flaco, eu desejara ter.
Do Nilo, antes de mais, tenha nascido às margens
(Nenhuma terra ensina uma volúpla igual).
Mais branco do que a neve (pois que em Mareótida
Mais belo entre morenos quanto a alvura é rara.)
Olhos rivais dos astros, e moles flagelem
As comas o pescoço (caracóis não amo).
A fronte breve, e um pouco o nariz aquilino.
De Pestum os rubros lábios envergonhem rosas.
Que meus caprichos negue e aos seus me curve, às vezes.
Mais livre saiba ser, às vezes, que seu amo.
Rapazes tema, e exclua às vezes as mulheres.
Para todos um homem, para mim efebo.
Ah não te enganas, não, quanto meu juízo é vero:
Tal era, tu bem sabes, aquele que eu perdi.
Ouve que amante, Flaco, eu desejara ter.
Do Nilo, antes de mais, tenha nascido às margens
(Nenhuma terra ensina uma volúpla igual).
Mais branco do que a neve (pois que em Mareótida
Mais belo entre morenos quanto a alvura é rara.)
Olhos rivais dos astros, e moles flagelem
As comas o pescoço (caracóis não amo).
A fronte breve, e um pouco o nariz aquilino.
De Pestum os rubros lábios envergonhem rosas.
Que meus caprichos negue e aos seus me curve, às vezes.
Mais livre saiba ser, às vezes, que seu amo.
Rapazes tema, e exclua às vezes as mulheres.
Para todos um homem, para mim efebo.
Ah não te enganas, não, quanto meu juízo é vero:
Tal era, tu bem sabes, aquele que eu perdi.
915
Caio Valério Catulo
CARMEM 56
Mas que coisa mais ridícula e jocosa,
Digna, Catão, do teu riso e teus ouvidos.
Ri, pois, tanto quanto amas, Catão, Catulo,
Que a coisa é assaz ridícula e jocosa.
Há pouco vi um menino e uma meninaEngatados; e então nele, praza a Vênus,
De pronto engatei a minha vara rija.
(Tradução
de José Paulo Paes)
Digna, Catão, do teu riso e teus ouvidos.
Ri, pois, tanto quanto amas, Catão, Catulo,
Que a coisa é assaz ridícula e jocosa.
Há pouco vi um menino e uma meninaEngatados; e então nele, praza a Vênus,
De pronto engatei a minha vara rija.
(Tradução
de José Paulo Paes)
1 381
Lope de Vega
CANTAR DE CEIFA
CANTAR DE CEIFA
Tão branca tanto que eu era,
quando entrei para ceifeira;
deu-me o sol, fiquei morena.
Tão branca soía eu ser
antes de vir a ceifar,
mas não quis o sol deixar
branco o fogo em meu poder.
No tempo do amanhecer
era eu brilhante açucena:
deu-me o sol, fiquei morena.
Tão branca tanto que eu era,
quando entrei para ceifeira;
deu-me o sol, fiquei morena.
Tão branca soía eu ser
antes de vir a ceifar,
mas não quis o sol deixar
branco o fogo em meu poder.
No tempo do amanhecer
era eu brilhante açucena:
deu-me o sol, fiquei morena.
1 287
Bocage
AUTO-RETRATO
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades:
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.
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Simone Barbariz
Hemisférios
No Sul, arde o calor,
Que vai subindo por todo meu corpo,
Que vai me consumindo,
Deixando-me insana...
No Norte, há frio, há neve,
Que gela minha alma,
Que me faz tremer,
Mas não me faz chorar...
O Sul é meu sexo
Úmido e quente
Como uma floresta tropical...
O Norte é meu coração
O qual fiz uma fortaleza
Transponível, somente, por você...
Que vai subindo por todo meu corpo,
Que vai me consumindo,
Deixando-me insana...
No Norte, há frio, há neve,
Que gela minha alma,
Que me faz tremer,
Mas não me faz chorar...
O Sul é meu sexo
Úmido e quente
Como uma floresta tropical...
O Norte é meu coração
O qual fiz uma fortaleza
Transponível, somente, por você...
869
Calex Fagundes
Face do desejo
Lume.
A dança da chama,
bailarina esguia.
Pele.
Aceso toque da noite
leve invisível.
Antepercebe-se
a flauta do fauno
invadindo a sala.
A boca percorre
palavras de veludo
sorvidas aos tragos.
Sabe-se nada...
a alma é tomada
e tudo é momento.
Agora.
a noite é hora
neste aposento.
Toca o pêlo
entumescimento
das pontas.
Lambe a aura
da divindade
vaga.
Penumbra.
Chama do fogo,
lenho de carne.
Inebriam-se os lábios.
Frêmito.
Espírito absorvente da noite.
Cabelos
dedos em novelos
nebulosas e redondilhas.
Ilhas.
Crespos.
Águas.
Deitam-se a verter
ao sabor do nascituro,
eremita de fogo.
Gomo de fibras.
Lábio sorve a sede
da água que verte.
Um vaso aberto,
gardênia em chamas,
carmesim do fogo.
Ponto de fêmea.
Ambiente.
Atmosfera.
Hálito.
Perfume.
Máscara.
Sangue
em pele
marfim.
Cambraias
abertas
em pernas de mulher.
Heliocêntricos
raios olhos
fixos no nada.
Músculos tesos.
Úmida.
Tépida.
Abre-se a porta.
Rude o peregrino
chega e faz morada.
Língua molhada
ao encontro
de alvéolos e esponjas.
Água salgada
maresia de fêmea
Sede de nervos
e músculos
a forçar
entranhas.
Brumas
sangüíneas,
cama de ferro.
Fêmea de
pernas
escancaradas.
Cortina de gaze.
Vento marítimo.
Odor de dentro.
Envolvente
o prazer
da mulher deitada.
Faze de mim o tempo.
O simples pulsar
dentro de ti.
Anjo, te faço fêmea.
Mulher, te faço anjo.
Faço-te gozo.
O gozo de meu sangue
é o leite
que te serve.
Na águas de tua
fonte afogas
a minha sede.
A língua percorre
um fio na topografia
de montes e vales.
A fêmea é terra
latente na eterna
espera da semente.
Penumbra do quarto
olhos da noite.
Como me achas?
Como me vês?
Como sabes trazer-me
pra dentro de ti?
O vinho.
A noite.
O silêncio.
Nada além das janelas
Nem mesmo horizontes existem
num quarto de casal.
Deposito em ti a minha
Eternidade.
Sou teu amante.
E deito em ti
minhas surpresas em forma
de farsas adocicadas.
Quando dormes – e acordo
com teus gemidos – persigo
teu gozo com meu pensamento .
Vejo-te outra,
longe de mim,
a se espargir no éter.
Teu corpo é belo
tua mente, insana
quando deitas na cama
e te cobres de pétalas.
A alma da mulher
se esconde num beijo.
A dança da chama,
bailarina esguia.
Pele.
Aceso toque da noite
leve invisível.
Antepercebe-se
a flauta do fauno
invadindo a sala.
A boca percorre
palavras de veludo
sorvidas aos tragos.
Sabe-se nada...
a alma é tomada
e tudo é momento.
Agora.
a noite é hora
neste aposento.
Toca o pêlo
entumescimento
das pontas.
Lambe a aura
da divindade
vaga.
Penumbra.
Chama do fogo,
lenho de carne.
Inebriam-se os lábios.
Frêmito.
Espírito absorvente da noite.
Cabelos
dedos em novelos
nebulosas e redondilhas.
Ilhas.
Crespos.
Águas.
Deitam-se a verter
ao sabor do nascituro,
eremita de fogo.
Gomo de fibras.
Lábio sorve a sede
da água que verte.
Um vaso aberto,
gardênia em chamas,
carmesim do fogo.
Ponto de fêmea.
Ambiente.
Atmosfera.
Hálito.
Perfume.
Máscara.
Sangue
em pele
marfim.
Cambraias
abertas
em pernas de mulher.
Heliocêntricos
raios olhos
fixos no nada.
Músculos tesos.
Úmida.
Tépida.
Abre-se a porta.
Rude o peregrino
chega e faz morada.
Língua molhada
ao encontro
de alvéolos e esponjas.
Água salgada
maresia de fêmea
Sede de nervos
e músculos
a forçar
entranhas.
Brumas
sangüíneas,
cama de ferro.
Fêmea de
pernas
escancaradas.
Cortina de gaze.
Vento marítimo.
Odor de dentro.
Envolvente
o prazer
da mulher deitada.
Faze de mim o tempo.
O simples pulsar
dentro de ti.
Anjo, te faço fêmea.
Mulher, te faço anjo.
Faço-te gozo.
O gozo de meu sangue
é o leite
que te serve.
Na águas de tua
fonte afogas
a minha sede.
A língua percorre
um fio na topografia
de montes e vales.
A fêmea é terra
latente na eterna
espera da semente.
Penumbra do quarto
olhos da noite.
Como me achas?
Como me vês?
Como sabes trazer-me
pra dentro de ti?
O vinho.
A noite.
O silêncio.
Nada além das janelas
Nem mesmo horizontes existem
num quarto de casal.
Deposito em ti a minha
Eternidade.
Sou teu amante.
E deito em ti
minhas surpresas em forma
de farsas adocicadas.
Quando dormes – e acordo
com teus gemidos – persigo
teu gozo com meu pensamento .
Vejo-te outra,
longe de mim,
a se espargir no éter.
Teu corpo é belo
tua mente, insana
quando deitas na cama
e te cobres de pétalas.
A alma da mulher
se esconde num beijo.
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