Corpo
Fernando Pessoa
O pó que fica das velocidades que já não se vêem!
O do metálico dos êmbolos,
O furor uterino das válvulas lá por dentro —
O sangue dando em baque ao ataque dos excêntricos.
Minhas sensações
Protoplasma da humanidade matemática do futuro!
Eia-la-ho! Hó-oo-o!
Oh lá, saltos e pulos com o meu pensamento todo
Pula bola de mim — a mágica biológica que eu sou!
O cérebro servo de leis, os nervos movidos por normas
Por normas compostas em tratados de psiquiatras
Fernando Pessoa
Dos montes, dos vales,
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
São o Além!
Há risos e beijos
E olhares e abraços
De amor,
E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
Num estertor.
E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
Fernando Pessoa
EPITALÂMIO – II - T
Que menos que à luz a vista só proscreve!
Olhai o vasto campo, como jaz luminoso
Sob o azul poderoso
E limpo, e como aquece numa ardência leve
Que na vista se inscreve!
Já a noiva acordou. Ah como tremer sente
O coração dormente!
Os seios dela arrepanham-se por dentro numa frieza de medo
Mais sentido por crescido nela,
E que serão por outras mãos que não as suas tocados
E terão lábios chupando os bicos em botão.
Ah, ideia das mãos do noivo já
A tocar lá onde as mãos dela tímidas mal tocam,
E os pensamentos contraem-se-lhe até ser indistintos.
Do corpo está consciente mas continua deitada.
Vagamente deixa os olhos sentir que se abrem.
Numa névoa franjada cada coisa
Se ergue, e o dia actual é veramente claro
Menos ao seu sentir de medo.
Como mancha de cor a luz pousa na palpebrada vista
E ela quase detesta a inescapável luz.
Fernando Pessoa
EPITALÂMIO – XIV - T
De conhecer essas entranhas em chupados sorvos,
De pôr primeira mão nesse cabelo do ventre
E apalpar o fojo labiado,
A fortaleza feita para ser tomada, e pela qual
Sente o aríete engrossar e doer de desejo.
A trémula alegre noiva sente todo o calor do dia
Nesse lugar ainda enclaustrado
Onde a sua virginal mão nocturna fingia
Um vazio lucro de prazer.
E dos outros a maior parte é disto que segredará,
Sabendo o rápido trabalho que é;
E as crianças, que observam com ávidos olhos,
Agora antegozam de saber
Da carne, e com homens e mulheres crescidos fazer
O acto coceguento e líquido
Por cujo sabor em cantos escusos tentam
O que mal sabem como é seco ainda.
Fernando Pessoa
Estou doente. Meus pensamentos começam a estar confusos,
Mas o meu corpo, tocando nas coisas, entra nelas.
Sinto-me parte das coisas com o tacto
E urna grande libertação começa a fazer-se em mim,
Uma grande alegria solene como a de um acto heróico
Pondo a vis no gesto sóbrio e escondido.
Fernando Pessoa
II - Part from the windows the small curtains set
Part from the windows the small curtains set
Sight more than light to omit!
Look on the general fields, how bright they lie
Under the broad blue sky,
Cloudless, and the beginning of t1e heat
Does the sight half iil-treat!
The bride hath wakened. Lo! she feels her shaking
Heart better all her waking!
Her breasts are with fear's coldness inward clutched
And more felt on her grown,
That will by hands other than hers be touched
And will find lips sucking their budded crown.
Lo! the thought of the bridegroom's hands already
Feels her about where even her hands are shy,
And her thoughts shrink till they become unready.
She gathers up her body and still doth lie.
She vaguely lets her eyes feel opening.
In a fringed mist each thing
Looms, and the present day is truly clear
But to her sense of fear.
Like a hue, light lies on her lidded sight,
And she half hates the inevitable light.
Fernando Pessoa
Não creio ainda no que sinto -
Teus beijos, meu amor, que são
A aurora ao fundo do recinto
Do meu sentido coração...
Não creio ainda nessa boca
Que, por tua alma em beijos dada,
Na minha boca estaca e toca
E ali (...) fica parada.
Não creio ainda. Poderia
Acaso a mim acontecer
Tu, e teus beijos, e a alegria?
Tudo isto é, e não pode ser.
……
Fernando Pessoa
Boca de riso escarlate/E de sorriso de rir...
E de sorriso de rir...
Meu coração bate, bate,
Bate de te ver e ouvir.
Ibn Ammar
A amada
Olhares de narciso
Acenos de açucena
Sorriso de margarida.
E os seus brincos se agitam
Quedam-se os braceletes na escuta
Da música do requebro da cintura.
Florbela Espanca
Trazes-me em tuas mãos
Todos os bens que a vida me negou,
E todo um roseiral, a abrir, glorioso,
Que a solitária estrada perfumou.
Neste meio-dia límpido, radioso,
Sinto o teu coração que Deus talhou
Num pedaço de bronze luminoso,
Como um berço onde a vida me poisou.
0 silencio, em redor, é urna asa quieta...
E a tua boca que sorri e anseia,
Lembra um cálix de túlipa entreaberta...
Cheira a ervas amargas, cheira a sándalo...
E o meu corpo ondulante de sereia
Dorme em teus braços másculos de vândalo...
Manuel António Pina
[Uma casa]
nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;
pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,
na ausência das palavras calar-se.
Não, com nenhuma palavra abrirás a porta,
nem com o silêncio, nem com nenhuma chave,
a porta está fechada na palavra porta
para sempre.
O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás,
nem sob ele te deitarás nas longas tardes de Verão
como quando eras música apenas
sem uma casa guardando-te do mundo.
Manuel António Pina | "Todas as Palavras - Poesia Reunida (1974 - 2011)", pág. 354 | Assírio & Alvim, Abril 2012
Florbela Espanca
Toda a pureza
E a amargura infinita
Casaram. Assim nasceu
A tua boca bendita!
Florbela Espanca
Crepúsculo
Batendo as asas leves, irisadas,
Poisam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois lírios roxos e dolentes...
E os lírios fecham... Meu Amor, não sentes?
Minha boca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes...
O Silêncio abre as mãos... entorna rosas...
Andam no ar carícias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando...
E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha
Um coração ardente palpitando...
Florbela Espanca
Filtro
Numa concha vazia, choro errante...
Ah, olhos que não choram! Pobrezinhos...
Não há luz neste mundo que os levante!
Eu andarei por ti os maus caminhos
E as minhas mãos, abertas a diamante,
Hão de crucificar-se nos espinhos
Quando o meu peito for o teu mirante!
Para que corpos vis te não desejem,
Hei de dar-te o meu corpo, e a boca minha
Pra que bocas impuras te não beijem!
Como quem roça um lago que sonhou,
Minhas cansadas asas de andorinha
Hão de prender-te todo num só voo...
Florbela Espanca
Divino Instante
Hierática, deitada sob a terra,
Sem saber se no mundo há paz ou guerra,
Sem ver nascer, sem ver morrer o dia,
Luz apagada ao alto e que alumia,
Boca fechada à fala que não erra,
Urna de bronze que a Verdade encerra,
Ah! ser Eu essa morta inerte e fria!
Ah, fixar o efêmero! Esse instante
Em que o teu beijo sôfrego de amante
Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro;
Ah, fixar o momento em que, dolente,
Tuas pálpebras descem, lentamente,
Sobre a vertigem dos teus olhos de oiro!
Nuno Júdice
Metamorfose em agosto
que se ergueu do leito e avança para o espelho,
com as mãos da manhã a viajarem pela sua pele. O
que ela vê é o reflexo dos sonhos que as suas
pálpebras fecharam para que o dia se não apoderasse
de imagens que ela própria já esqueceu; e
quando despe a túnica da noite; olha
para os seios como se neles corresse o leite
que alimenta o desejo e entrelaça nos seus
cumes os gestos trânsfugas do amor.
O verão que subiu às açoteias do litoral
como o grito dos amantes que incendiou
a tarde e atravessou a terra com um calafrio
de nortada, transformou-se no carreiro
de formigas que se perderam da sua cova. Sigo-as
num caos de vagabundagem, como se elas me levassem
ao encontro de uma recordação de madrugadas
de ócio, ouvindo a voz que ficou da insónia
emergir de uma dobra de lençóis, com
as sílabas exaustas de um imenso abraço.
E saúdo o verão que as trepadeiras possuíram nos quintais anónimos de ruínas imprecisas, esse
que fez cair sobre nós o relâmpago de seda,
um sumo de palavras húmidas e a última ressonância
de uma sombra de corpos.
in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 13 - Lisboa, Outubro 2015
Orides Fontela
São Sebastião
- cruas - no corpo
as setas
no fresco sangue
as setas
na nudez jovem
as setas
- firmes - confirmando
a carne.
Luís Miguel Nava
Dois rios
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.
Maria José de Carvalho
o iniciado
Edoardo Sanguineti
em ti dormia como um fibroma enxuto...
Maria José de Carvalho
Ânsia imemorial
de ambarina e amavios impregnados
ossos tendões e carne e sangue nervos?
que impacto os enlouquece tange anula?
que plectro ou lançadeira ou sábia lâmina?
e exangues ao cansaço os abandona?
phallus vulva os seios mãos e boca
e a pele esse tecido permeável
são instrumentos de urdir tecer
e a estrutura imantada aniquilada
é deliquo amplo voo queda a pique
num abismo do fogo gelo e nada
do livro Os celebrantes (1988)
Luís Miguel Nava