Poemas neste tema
Desejo
Fernando Pessoa
HINO A PÃ
HINO A PÃ
(Mestre Therion)
Vibra do cio subtil da luz,
Meu homem e afã
Vem turbulento da noite a flux
De Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além
Vem da Sicília e da Arcádia vem!
Vem como Baco, com fauno e fera
E ninfa e sátiro à tua beira,
Num asno lácteo, do mar sem fim,
A mim, a mim!
Vem com Apolo, nupcial na brisa
(Pegureira e pitonisa),
Vem com Artemis, leve e estranha,
E a coxa branca, Deus lindo, banha
Ao luar do bosque, em marmóreo monte,
Manhã malhada da âmbrea fonte!
Mergulha o roxo da prece ardente
No ádito rubro, no laço quente,
A alma que aterra em olhos de azul
O ver errar teu capricho êxul
No bosque enredo, nos nás que espalma
A árvore viva que é espírito e alma
E corpo e mente - do mar sem fim
(Iô Pã! Iô Pã!),
Diabo ou deus, vem a mim, a mim!
Meu homem e afã!
Vem com trombeta estridente e fina
Pela colina!
Vem com tambor a rufar à beira
Da primavera!
Com frautas e avenas vem sem conto!
Não estou eu pronto?
Eu, que espero e me estorço e luto
Com ar sem ramos onde não nutro
Meu corpo, lasso do abraço em vão,
Áspide aguda, forte leão –
Vem, está fazia
Minha carne, fria
Do cio sozinho da demonia.
À espada corta o que ata e dói,
Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!
Dá-me o sinal do Olho Aberto,
E da coxa áspera o toque erecto,
Ó Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã.,
Sou homem e afã:
Faze o teu querer sem vontade vã,
Deus grande! Meu Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra
Do aperto da cobra.
A águia rasga com garra e fauce;
Os deuses vão-se;
As feras vêm. Iô Pã! A matado,
Vou no corno levado
Do Unicornado.
Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
Sou teu, teu homem e teu afã,
Cabra das tuas, ouro, deus, clara
Carne em teu osso, flor na tua vara.
Com patas de aço os rochedos roço
De solstício severo a equinócio.
E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
Sempiterno, mundo sem termo,
Homem, homúnculo, ménade, afã,
Na força de Pã.
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
Fernando Pessoa
O "Hino a Pã" é uma tradução do "Hymn to Pan", do prefácio do livro "Magick in Theory and Practice", de Aleister Crowley. A tradução foi publicada na revista "Presença" em Outubro de 1931.
(Mestre Therion)
Vibra do cio subtil da luz,
Meu homem e afã
Vem turbulento da noite a flux
De Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além
Vem da Sicília e da Arcádia vem!
Vem como Baco, com fauno e fera
E ninfa e sátiro à tua beira,
Num asno lácteo, do mar sem fim,
A mim, a mim!
Vem com Apolo, nupcial na brisa
(Pegureira e pitonisa),
Vem com Artemis, leve e estranha,
E a coxa branca, Deus lindo, banha
Ao luar do bosque, em marmóreo monte,
Manhã malhada da âmbrea fonte!
Mergulha o roxo da prece ardente
No ádito rubro, no laço quente,
A alma que aterra em olhos de azul
O ver errar teu capricho êxul
No bosque enredo, nos nás que espalma
A árvore viva que é espírito e alma
E corpo e mente - do mar sem fim
(Iô Pã! Iô Pã!),
Diabo ou deus, vem a mim, a mim!
Meu homem e afã!
Vem com trombeta estridente e fina
Pela colina!
Vem com tambor a rufar à beira
Da primavera!
Com frautas e avenas vem sem conto!
Não estou eu pronto?
Eu, que espero e me estorço e luto
Com ar sem ramos onde não nutro
Meu corpo, lasso do abraço em vão,
Áspide aguda, forte leão –
Vem, está fazia
Minha carne, fria
Do cio sozinho da demonia.
À espada corta o que ata e dói,
Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!
Dá-me o sinal do Olho Aberto,
E da coxa áspera o toque erecto,
Ó Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã.,
Sou homem e afã:
Faze o teu querer sem vontade vã,
Deus grande! Meu Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra
Do aperto da cobra.
A águia rasga com garra e fauce;
Os deuses vão-se;
As feras vêm. Iô Pã! A matado,
Vou no corno levado
Do Unicornado.
Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
Sou teu, teu homem e teu afã,
Cabra das tuas, ouro, deus, clara
Carne em teu osso, flor na tua vara.
Com patas de aço os rochedos roço
De solstício severo a equinócio.
E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
Sempiterno, mundo sem termo,
Homem, homúnculo, ménade, afã,
Na força de Pã.
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
Fernando Pessoa
O "Hino a Pã" é uma tradução do "Hymn to Pan", do prefácio do livro "Magick in Theory and Practice", de Aleister Crowley. A tradução foi publicada na revista "Presença" em Outubro de 1931.
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2
Gil Vicente
À Farsa seguinte chamam Auto da Índia
À Farsa seguinte chamam Auto da Índia. Foi fundada sobre que üa mulher, estando já embarcado pera a Índia seu marido, lhe vieram dizer que estava desaviado e que já não ia; e ela, de pesar, está chorando e fala-lhe üa sua criada. Foi feita em Almada, representada à muito católica Rainha Dona#Lianor. Era de 1509 anos.
Entram nela estas figuras:
Ama, Moça, Castelhano, Lemos, Maridreo.
MOÇA Jesu! Jesu! que é ora isso?
É porque se parte a armada?
AMA Olhade a mal estreada!
Eu hei-de chorar por isso?
MOÇA Por minh' alma que cuidei
e que sempre imaginei,
que choráveis por noss' amo.
AMA Por qual demo ou por qual gamo,
ali, má hora, chorarei?
Como me leixa saudosa!
Toda eu fico amargurada!
MOÇA Pois por que estais anojada?
Dizei-mo, por vida vossa.
AMA Leixa-m', ora, eramá,
que dizem que não vai já.
MOÇA Quem diz esse desconcerto?
AMA Dixeram-mo por mui certo
que é certo que fica cá.
O Concelos me faz isto.
MOÇA S'eles já estão em Restelo,
como pode vir a pêlo?
Melhor veja cu Jesu Cristo,
isso é quem porcos há menos.
AMA Certo é que bem pequenos
são meus desejos que fique.
MOÇA A armada está muito a pique.
AMA Arreceio#al#de#menos.
Andei na má hora e nela
a amassar e biscoutar,
pera o o demo levar
à sua negra canela,
e agora dizem que não.
Agasta-se-m'o coração,
que quero sair de mim.
MOÇA Eu irei saber s'é assim.
AMA Hajas a minha benção.
Vai Moça e fica a Ama dizendo:
AMA A Santo António rogo eu
que nunca mo cá depare:
não sinto quem não s'enfare
de um Diabo Zebedeu.
Dormirei, dormirei,
boas novas acharei.
São João no ermo estava,
e a passarinha cantava.
Deus me cumpra o que sonhei.
Cantando vem ela e leda.
MOÇA Dai-m' alvíssaras, Senhora,
já vai lá de foz em fora.
AMA Dou-te üa touca de seda.
MOÇA Ou, quando ele vier,
dai-me do que vos trouxer.
AMA Ali muitieramá!
Agora há-de tornar cá?
Que chegada e que prazer!
MOÇA Virtuosa está minha ama!
Do triste dele hei#dó.
AMA: E que falas tu lá só?
MOÇA: Falo cá co'esta cama.
AMA: E essa cama, bem, que há?
Mostra-m'essa roca cá:
siquer fiarei um fio.
Leixou-me aquele fastio
sem ceitil.
MOÇA: Ali eramá!
Todas ficassem assi.
Leixou-lhe pera três anos
trigo, azeite, mel e panos.
AMA: Mau pesar veja eu de ti!
Tu cuidas que não t'entendo?
MOÇA: Que entendeis? ando dizendo
que quem assi fica sem nada,
coma vós, que é obrigada...
Já me vós is entendendo.
AMA: Ha ah ah ah ah ah!
Est'era bem graciosa,
quem se vê moça e fermosa
esperar pola irá#má.
I se vai ele a pescar
meia légua polo mar,
isto bem o sabes tu,
quanto mais a Calecu:
quem há tanto d'esperar?
Melhor, Senhor, sé tu comigo.
À hora de minha morte,
qu'eu faça tão peca sorte.
Guarde-me Deus de tal p'rigo.
O certo é dar a prazer.
Pera que é envelhecer
esperando polo vento?
Quant'eu por mui nécia sento
a que o contrário fizer.
Partem em Maio daqui,
quando o sangue novo atiça:
parece-te que é justiça?
Melhor vivas tu amém,
e eu contigo também.
Quem sobe por essa escada?
CASTELHANO Paz sea n' esta posada.
AMA Vós sois? Cuidei que era alguém.
CASTFLHANO A según esso, soy yo nada.
AMA Bem, que vinda foi ora esta?
CASTELHANO Vengo aquí en busca mía,
que me perdí en aquel día
que os vi hermosa y honesta
y nunca más me topé.
Invisible me torné,
y de mí crudo enemigo;
el cielo, empero es testigo
que de mi parte no sé.
Y ando un cuerpo sin alma,
un papel que lleva el viento,
un pozo de pensamiento,
una fortuna sin calma.
Pese al dia en que nascí;
vos y Dios sois contra mí,
y nunca topo el diablo.
Reís de lo que yo hablo?
AMA Bem sei eu de que me ri.
CASTELHANO Reívos del mal que padezco,
reívos de mi desconcierto,
reívos que tenéis por cierto
que miraros non merezco.
AMA Andar embora.
CASTELHANO Oh, mi vida y mi señora,
luz de todo Portugal,
tenéis gracia especial
para linda matadora.
Supe que vuesso marido
era ido.
AMA Ant' ontem se foi.
CASTELHANO Al diablo que lo doy
el desestrado perdido.
Qué más India que vos,
qué más piedras preciosas,
qué más alindadas cosas,
qué estardes juntos los dos?
No fue él Juan de Çamora.
Que arrastrado muera yo,
si por cuanto Dios crió
os dexara media hora.
Y aunque la mar se humillara
y la tormenta cessara,
y el viento me obedcciera
y el cuarto cielo se abriera,
un momento no os dexara.
Mas como evangelio es esto
que la India hizo Dios,
solo porque yo con vos
pudiesse passar aquesto.
Y solo por dicha mía,
por gozar esta alegria,
la hizo Dios descobrir:
y no ha más que dezir,
por la sagrada María!
AMA Moça, vai àquele cão,
que anda naquelas tigelas.
MOÇA Mas os gatos andam nelas.
CASTELHANO Cuerpo del cielo con vos!
Hablo en las tripas de Dios,
y vos hablaisme en los gatos!
AMA Se vós falais desbaratos,
em que falaremos nós?
CASTELHANO No me hagáis derreñegar
o hazer un desatino.
Vós pensáis que soy devino?
Soy hombre y siento el pesar.
Trayo de dentro un léon,
metido en el coraçón:
tiéneme el alma dañada
de ensangrentar esta espada
en hombres, que es perdición.
Ya Dios es importunado
de las ánimas que le embío;
y no es en poder mío
dexar uno acuchilado.
Dexé bivo allá en el puerto
un hombrazo anto y tuerto
y después fuilo a encontrar;
pcnsó que lo iva a matar,
y de miedo cayó muerto.
AMA Vós queríeis ficar cá?
Agora é cedo ainda;
tornareis vós outra vinda,
e tudo se bem fará.
CASTELHANO A qué hora me mandáis?
AMA Às nove horas e nô mais.
E tirai üa pedrinha,
pedra muito pequenina,
à janela dos quintais.
Entonces vos abrirei
de muito boa vontade:
pois sois homem de verdade
nunca vos falecerei.
CASTELHANO Sabéis qué ganáis en esso?
El mundo todo por vuesso!
Que aunque tal capa me veis,
tengo más que pensaréis:
y no lo toméis em gruesso.
Bésoos las manos, Señora,
voyme con vuessa licencia
más ufano que Florencia.
AMA Ide e vinde muit' embora.
Entram nela estas figuras:
Ama, Moça, Castelhano, Lemos, Maridreo.
MOÇA Jesu! Jesu! que é ora isso?
É porque se parte a armada?
AMA Olhade a mal estreada!
Eu hei-de chorar por isso?
MOÇA Por minh' alma que cuidei
e que sempre imaginei,
que choráveis por noss' amo.
AMA Por qual demo ou por qual gamo,
ali, má hora, chorarei?
Como me leixa saudosa!
Toda eu fico amargurada!
MOÇA Pois por que estais anojada?
Dizei-mo, por vida vossa.
AMA Leixa-m', ora, eramá,
que dizem que não vai já.
MOÇA Quem diz esse desconcerto?
AMA Dixeram-mo por mui certo
que é certo que fica cá.
O Concelos me faz isto.
MOÇA S'eles já estão em Restelo,
como pode vir a pêlo?
Melhor veja cu Jesu Cristo,
isso é quem porcos há menos.
AMA Certo é que bem pequenos
são meus desejos que fique.
MOÇA A armada está muito a pique.
AMA Arreceio#al#de#menos.
Andei na má hora e nela
a amassar e biscoutar,
pera o o demo levar
à sua negra canela,
e agora dizem que não.
Agasta-se-m'o coração,
que quero sair de mim.
MOÇA Eu irei saber s'é assim.
AMA Hajas a minha benção.
Vai Moça e fica a Ama dizendo:
AMA A Santo António rogo eu
que nunca mo cá depare:
não sinto quem não s'enfare
de um Diabo Zebedeu.
Dormirei, dormirei,
boas novas acharei.
São João no ermo estava,
e a passarinha cantava.
Deus me cumpra o que sonhei.
Cantando vem ela e leda.
MOÇA Dai-m' alvíssaras, Senhora,
já vai lá de foz em fora.
AMA Dou-te üa touca de seda.
MOÇA Ou, quando ele vier,
dai-me do que vos trouxer.
AMA Ali muitieramá!
Agora há-de tornar cá?
Que chegada e que prazer!
MOÇA Virtuosa está minha ama!
Do triste dele hei#dó.
AMA: E que falas tu lá só?
MOÇA: Falo cá co'esta cama.
AMA: E essa cama, bem, que há?
Mostra-m'essa roca cá:
siquer fiarei um fio.
Leixou-me aquele fastio
sem ceitil.
MOÇA: Ali eramá!
Todas ficassem assi.
Leixou-lhe pera três anos
trigo, azeite, mel e panos.
AMA: Mau pesar veja eu de ti!
Tu cuidas que não t'entendo?
MOÇA: Que entendeis? ando dizendo
que quem assi fica sem nada,
coma vós, que é obrigada...
Já me vós is entendendo.
AMA: Ha ah ah ah ah ah!
Est'era bem graciosa,
quem se vê moça e fermosa
esperar pola irá#má.
I se vai ele a pescar
meia légua polo mar,
isto bem o sabes tu,
quanto mais a Calecu:
quem há tanto d'esperar?
Melhor, Senhor, sé tu comigo.
À hora de minha morte,
qu'eu faça tão peca sorte.
Guarde-me Deus de tal p'rigo.
O certo é dar a prazer.
Pera que é envelhecer
esperando polo vento?
Quant'eu por mui nécia sento
a que o contrário fizer.
Partem em Maio daqui,
quando o sangue novo atiça:
parece-te que é justiça?
Melhor vivas tu amém,
e eu contigo também.
Quem sobe por essa escada?
CASTELHANO Paz sea n' esta posada.
AMA Vós sois? Cuidei que era alguém.
CASTFLHANO A según esso, soy yo nada.
AMA Bem, que vinda foi ora esta?
CASTELHANO Vengo aquí en busca mía,
que me perdí en aquel día
que os vi hermosa y honesta
y nunca más me topé.
Invisible me torné,
y de mí crudo enemigo;
el cielo, empero es testigo
que de mi parte no sé.
Y ando un cuerpo sin alma,
un papel que lleva el viento,
un pozo de pensamiento,
una fortuna sin calma.
Pese al dia en que nascí;
vos y Dios sois contra mí,
y nunca topo el diablo.
Reís de lo que yo hablo?
AMA Bem sei eu de que me ri.
CASTELHANO Reívos del mal que padezco,
reívos de mi desconcierto,
reívos que tenéis por cierto
que miraros non merezco.
AMA Andar embora.
CASTELHANO Oh, mi vida y mi señora,
luz de todo Portugal,
tenéis gracia especial
para linda matadora.
Supe que vuesso marido
era ido.
AMA Ant' ontem se foi.
CASTELHANO Al diablo que lo doy
el desestrado perdido.
Qué más India que vos,
qué más piedras preciosas,
qué más alindadas cosas,
qué estardes juntos los dos?
No fue él Juan de Çamora.
Que arrastrado muera yo,
si por cuanto Dios crió
os dexara media hora.
Y aunque la mar se humillara
y la tormenta cessara,
y el viento me obedcciera
y el cuarto cielo se abriera,
un momento no os dexara.
Mas como evangelio es esto
que la India hizo Dios,
solo porque yo con vos
pudiesse passar aquesto.
Y solo por dicha mía,
por gozar esta alegria,
la hizo Dios descobrir:
y no ha más que dezir,
por la sagrada María!
AMA Moça, vai àquele cão,
que anda naquelas tigelas.
MOÇA Mas os gatos andam nelas.
CASTELHANO Cuerpo del cielo con vos!
Hablo en las tripas de Dios,
y vos hablaisme en los gatos!
AMA Se vós falais desbaratos,
em que falaremos nós?
CASTELHANO No me hagáis derreñegar
o hazer un desatino.
Vós pensáis que soy devino?
Soy hombre y siento el pesar.
Trayo de dentro un léon,
metido en el coraçón:
tiéneme el alma dañada
de ensangrentar esta espada
en hombres, que es perdición.
Ya Dios es importunado
de las ánimas que le embío;
y no es en poder mío
dexar uno acuchilado.
Dexé bivo allá en el puerto
un hombrazo anto y tuerto
y después fuilo a encontrar;
pcnsó que lo iva a matar,
y de miedo cayó muerto.
AMA Vós queríeis ficar cá?
Agora é cedo ainda;
tornareis vós outra vinda,
e tudo se bem fará.
CASTELHANO A qué hora me mandáis?
AMA Às nove horas e nô mais.
E tirai üa pedrinha,
pedra muito pequenina,
à janela dos quintais.
Entonces vos abrirei
de muito boa vontade:
pois sois homem de verdade
nunca vos falecerei.
CASTELHANO Sabéis qué ganáis en esso?
El mundo todo por vuesso!
Que aunque tal capa me veis,
tengo más que pensaréis:
y no lo toméis em gruesso.
Bésoos las manos, Señora,
voyme con vuessa licencia
más ufano que Florencia.
AMA Ide e vinde muit' embora.
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Fernando Pessoa
16 - Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
Que vem a chiar manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças – tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.
Que vem a chiar manhãzinha cedo, pela estrada,
E que para de onde veio volta depois
Quase à noitinha pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças – tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelo branco...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.
3 078
2
Herberto Helder
I A
A uma devagarosa mulher com a boca
do corpo cheia de sangue e a boca
do rosto cheia
de respiração, por cinco dedos meus
esquerdos, na curta duração de tudo,
a curta canção que pulsa
do fundo de si mesma:
a uma devagarosa mulher no mundo.
do corpo cheia de sangue e a boca
do rosto cheia
de respiração, por cinco dedos meus
esquerdos, na curta duração de tudo,
a curta canção que pulsa
do fundo de si mesma:
a uma devagarosa mulher no mundo.
1 152
1
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos, de Salomão
Beije-me ele com os beijos da sua boca.
Amor melhor do que o vinho.
— Delicado é o aroma dos teus perfumes;
e teu nome, unguento que se derrama.
Por isso te amam as virgens.
Leva-me contigo, corramos juntos.
O rei levou-me para as suas câmaras.
— Tu serás o nosso júbilo, a nossa alegria.
Cantaremos teu amor mais que o vinho.
Cheio de razão é o amor de quem te ama.
Amor melhor do que o vinho.
— Delicado é o aroma dos teus perfumes;
e teu nome, unguento que se derrama.
Por isso te amam as virgens.
Leva-me contigo, corramos juntos.
O rei levou-me para as suas câmaras.
— Tu serás o nosso júbilo, a nossa alegria.
Cantaremos teu amor mais que o vinho.
Cheio de razão é o amor de quem te ama.
1 111
1
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Quinto Poema
Tu és bela, minha amiga, como Tirça,
esplêndida como Jerusalém.
Terrível como um exército debaixo dos estandartes.
Afasta de mim teus olhos, que me fascinam.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras
deitado nas encostas de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
São sessenta as rainhas e oitenta as concubinas,
e é sem número o número das raparigas virgens.
Única porém é a minha amada,
a minha eleita.
E é a única de sua mãe, a amada filha
de sua mãe.
Viram-na as raparigas, e chamaram-na bem-aventurada,
e celebraram-na rainhas e concubinas.
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que aparece como a aurora,
grande como a lua,
branca como o sol,
terrível como um exército debaixo dos estandartes?
Desci ao jardim das nogueiras para ver os rebentos do vaie,
para ver se a vinha rebentara,
se as romãzeiras estavam em flor.
— Não sei, mas transportou-me o desejo
para a cabeça dos carros do meu povo.
Coro das raparigas de Jerusalém
Volta, volta, ó Sulamite,
volta, volta, para que nós te contemplemos.
Porque olhais para a Sulamite, como se dançasse
ao som de um coro duplo?
Que soberbos são teus pés nas sandálias,
ó filha de príncipe.
A curva das tuas coxas é como um colar,
obra das mãos de um artista.
Abre-se teu umbigo como uma taça redonda,
em teu ventre, montículo de trigo
cercado de lírios.
Teus seios parecem duas gazelinhas gémeas;
e o pescoço, uma torre de marfim.
Teus olhos são as piscinas de Heshbôn,
junto à porta de Bat-Rabbin.
E o teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela voltada para Damas.
E a tua cabeça ergue-se semelhante ao Carmelo,
e as tuas tranças são como a púrpura.
Um rei está fascinado pela tua cabeleira.
Como és bela bela, como
és bela, ó amor, ó delícias.
No teu impulso, és como a palmeira
— teus seios são cachos de tâmaras.
Sejam teus seios como cachos de uvas;
teu hálito, perfume de maçã;
tuas palavras, um vinho delicado.
Como corre nos lábios dos que dormem,
assim pertence o vinho ao meu amado.
E eu pertenço ao meu amado,
e é para mim que se dirige o seu desejo.
— Vem, meu amor, partamos para os campos.
Passaremos a noite nas aldeias,
e pela manhã iremos aos vinhedos.
Veremos se já rebenta a vinha,
e os pâmpanos florescem, e as romãzeiras estão em flor.
Então eu te farei o dom de mim mesma.
As mandrágoras libertam o seu perfume,
e os melhores frutos estão diante da nossa porta.
Para ti, meu amado, eu guardarei os frutos,
os verdes frutos, os frutos já maduros —
para ti os guardarei, ó meu amado.
Fosses tu meu irmão. Poderia beijar-te,
sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa de minha mãe,
e tudo me ensinarás.
Dar-te-ei a beber um vinho perfumado,
o meu licor de romãs.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
esplêndida como Jerusalém.
Terrível como um exército debaixo dos estandartes.
Afasta de mim teus olhos, que me fascinam.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras
deitado nas encostas de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
São sessenta as rainhas e oitenta as concubinas,
e é sem número o número das raparigas virgens.
Única porém é a minha amada,
a minha eleita.
E é a única de sua mãe, a amada filha
de sua mãe.
Viram-na as raparigas, e chamaram-na bem-aventurada,
e celebraram-na rainhas e concubinas.
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que aparece como a aurora,
grande como a lua,
branca como o sol,
terrível como um exército debaixo dos estandartes?
Desci ao jardim das nogueiras para ver os rebentos do vaie,
para ver se a vinha rebentara,
se as romãzeiras estavam em flor.
— Não sei, mas transportou-me o desejo
para a cabeça dos carros do meu povo.
Coro das raparigas de Jerusalém
Volta, volta, ó Sulamite,
volta, volta, para que nós te contemplemos.
Porque olhais para a Sulamite, como se dançasse
ao som de um coro duplo?
Que soberbos são teus pés nas sandálias,
ó filha de príncipe.
A curva das tuas coxas é como um colar,
obra das mãos de um artista.
Abre-se teu umbigo como uma taça redonda,
em teu ventre, montículo de trigo
cercado de lírios.
Teus seios parecem duas gazelinhas gémeas;
e o pescoço, uma torre de marfim.
Teus olhos são as piscinas de Heshbôn,
junto à porta de Bat-Rabbin.
E o teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela voltada para Damas.
E a tua cabeça ergue-se semelhante ao Carmelo,
e as tuas tranças são como a púrpura.
Um rei está fascinado pela tua cabeleira.
Como és bela bela, como
és bela, ó amor, ó delícias.
No teu impulso, és como a palmeira
— teus seios são cachos de tâmaras.
Sejam teus seios como cachos de uvas;
teu hálito, perfume de maçã;
tuas palavras, um vinho delicado.
Como corre nos lábios dos que dormem,
assim pertence o vinho ao meu amado.
E eu pertenço ao meu amado,
e é para mim que se dirige o seu desejo.
— Vem, meu amor, partamos para os campos.
Passaremos a noite nas aldeias,
e pela manhã iremos aos vinhedos.
Veremos se já rebenta a vinha,
e os pâmpanos florescem, e as romãzeiras estão em flor.
Então eu te farei o dom de mim mesma.
As mandrágoras libertam o seu perfume,
e os melhores frutos estão diante da nossa porta.
Para ti, meu amado, eu guardarei os frutos,
os verdes frutos, os frutos já maduros —
para ti os guardarei, ó meu amado.
Fosses tu meu irmão. Poderia beijar-te,
sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa de minha mãe,
e tudo me ensinarás.
Dar-te-ei a beber um vinho perfumado,
o meu licor de romãs.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
978
1
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Conclusão
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que sobe do deserto apoiada ao seu amado?
Acordei-te sob a macieira,
no mesmo sítio onde tua mãe te concebeu.
Põe-me como um selo em teu coração,
como um selo no teu braço.
Porque o amor é forte como a morte,
o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.
As suas feições são como flechas de fogo,
uma chama de Deus.
As grandes águas não poderão extinguir o amor,
nem submergi-lo os rios.
Quem é que sobe do deserto apoiada ao seu amado?
Acordei-te sob a macieira,
no mesmo sítio onde tua mãe te concebeu.
Põe-me como um selo em teu coração,
como um selo no teu braço.
Porque o amor é forte como a morte,
o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.
As suas feições são como flechas de fogo,
uma chama de Deus.
As grandes águas não poderão extinguir o amor,
nem submergi-lo os rios.
517
1
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Primeiro Poema
Sou morena mas bela, ó raparigas de Jerusalém,
como as tendas de Quedar,
como os pavilhões de Salomão.
Não olheis meu rosto bronzeado:
foi o sol que me queimou.
Os filhos de minha mãe viraram-se contra mim,
mandaram-me guardar as vinhas.
Porém, eu não guardei a minha própria vinha.
Diz-me, tu a quem ama o meu coração:
onde apascentas o rebanho,
onde o recolhes ao meio-dia?
Para que eu não erre, cara velada, como uma vagabunda,
entre os rebanhos dos teus companheiros.
Coro das raparigas de Jerusalém
Se o não sabes, ó mais bela entre as mulheres,
segue as pegadas dos rebanhos,
apascenta os cabritos junto às tendas dos pastores.
Comparo-te à minha égua, atrelada
ao carro do Faraó.
Inalterável em sua maravilha se conserva teu rosto
ao meio das arrecadas, e o pescoço
com seus colares.
Longos pingentes de ouro e esferas de prata,
para ti.
Enquanto o rei se assenta à sua mesa,
exala o meu nardo o seu perfume.
O meu amado é como um ramo de mirra
cravado entre meus seios —
cacho de ligustro nas vinhas de En-Gaddi.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas.
Como és belo belo, meu amado, como
és belo.
Verde de folhagem é o nosso leito verde.
As traves da nossa casa são de cedro, os forros
em madeira de cipreste.
Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.
Como o lírio no meio dos cardos,
assim é a minha amada entre as outras raparigas.
Como a macieira entre as árvores de um pomar,
assim é o meu amado entre os homens.
— Sentei-me à sua sombra, coberta
pelos grandes frutos da sua árvore.
Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
— Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
como as tendas de Quedar,
como os pavilhões de Salomão.
Não olheis meu rosto bronzeado:
foi o sol que me queimou.
Os filhos de minha mãe viraram-se contra mim,
mandaram-me guardar as vinhas.
Porém, eu não guardei a minha própria vinha.
Diz-me, tu a quem ama o meu coração:
onde apascentas o rebanho,
onde o recolhes ao meio-dia?
Para que eu não erre, cara velada, como uma vagabunda,
entre os rebanhos dos teus companheiros.
Coro das raparigas de Jerusalém
Se o não sabes, ó mais bela entre as mulheres,
segue as pegadas dos rebanhos,
apascenta os cabritos junto às tendas dos pastores.
Comparo-te à minha égua, atrelada
ao carro do Faraó.
Inalterável em sua maravilha se conserva teu rosto
ao meio das arrecadas, e o pescoço
com seus colares.
Longos pingentes de ouro e esferas de prata,
para ti.
Enquanto o rei se assenta à sua mesa,
exala o meu nardo o seu perfume.
O meu amado é como um ramo de mirra
cravado entre meus seios —
cacho de ligustro nas vinhas de En-Gaddi.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas.
Como és belo belo, meu amado, como
és belo.
Verde de folhagem é o nosso leito verde.
As traves da nossa casa são de cedro, os forros
em madeira de cipreste.
Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.
Como o lírio no meio dos cardos,
assim é a minha amada entre as outras raparigas.
Como a macieira entre as árvores de um pomar,
assim é o meu amado entre os homens.
— Sentei-me à sua sombra, coberta
pelos grandes frutos da sua árvore.
Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
— Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
700
1
Matilde Campilho
Eu Já Escuto Os Teus Sinais
Olhe lá
Eu nunca quis voltar
atrás no tempo
nem por uma vez
A vida já foi muito boa
e muito ruim comigo
com minhas costas
com meus rinscom meus estúpidos
glóbulos vermelhos
com minha melancolia
com minha nacionalidade
A vida já foi mais estúpida
que meus glóbulos vermelhos
Mais doce que a visão do sol
de junho batendo nos joelhos
de um garoto ou de uma mulher
A vida já se serviu de mim
como uma pega
como um garçom
como um respigador
como um profissional
da marcação de fronteiras
Serviu-se de mim
para todos os trabalhos
Quis cuspir-lhe na cara
vezinquando
Mas nunca
por razão nenhuma
quis voltar atrás
no tempo da vida
Pelo contrário
sempre me servi
do tempo dela
para aprender a contar
as partes todas
da futebolada mística
Desta vez é diferente
Escute agora é diferente
Daqui da bancada
dá para ver meio passado
e meio futuro
Me sento sobre o balde
do duro inverno boreal
E enquanto vou esculpindo
o lustroso nada a canivete
Eu vejo os 32 °C no pontão
do Leme (mais cinco graus
se contarmos a temperatura
externa da pedra física)
Sobre o cais estão dançando
alguns astros imperfeitos
Suspeito que são homens
Eles levantam suas plumas
até a garganta do deserto
Sim eu me lembro
Mais de 40 homens
e a banda tocando
uma canção de amor
De repente lá vem vindo
oba de repente lá vem
Estou falando da entrada
da menina na arena
Da entrada dos seus cabelos
na frente de nossas retinas
Estou falando da velocidade
de um bambolê elétrico
rodopiando em torno
de tantos triplos suores
enquanto a banda toca
Olhe lá não procure histórias
estou falando de algum passado
Estou falando do ritmo
de uma estação violenta
E nem por isso impiedosa
É verão no Rio de Janeiro
Daqui deste balde revirado
dá para ver a felicidade
desabando sobre as cabeças
Dá para ver a força santa
do desejo físico imortal
Dá para ver disparos
que arrasam com toda
espécie de nacionalidade
Olhe eu nunca quis trocar
os tempos nem as partes
da partida fundamental
Mas daqui deste balde
dá para ver o assalto
que deu cabo da puta
e do garçom e até mesmo
do barbudo fronteiriço
O crime alegórico
que restaurou a alegria
E portanto veja bem
hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para me sentar
sobre a pedra austral
e ficar assistindo às explosões
dos bambolês polifônicos
entre os dedos de uma mulher
Hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para beijar
a cidade na boca.
Eu nunca quis voltar
atrás no tempo
nem por uma vez
A vida já foi muito boa
e muito ruim comigo
com minhas costas
com meus rinscom meus estúpidos
glóbulos vermelhos
com minha melancolia
com minha nacionalidade
A vida já foi mais estúpida
que meus glóbulos vermelhos
Mais doce que a visão do sol
de junho batendo nos joelhos
de um garoto ou de uma mulher
A vida já se serviu de mim
como uma pega
como um garçom
como um respigador
como um profissional
da marcação de fronteiras
Serviu-se de mim
para todos os trabalhos
Quis cuspir-lhe na cara
vezinquando
Mas nunca
por razão nenhuma
quis voltar atrás
no tempo da vida
Pelo contrário
sempre me servi
do tempo dela
para aprender a contar
as partes todas
da futebolada mística
Desta vez é diferente
Escute agora é diferente
Daqui da bancada
dá para ver meio passado
e meio futuro
Me sento sobre o balde
do duro inverno boreal
E enquanto vou esculpindo
o lustroso nada a canivete
Eu vejo os 32 °C no pontão
do Leme (mais cinco graus
se contarmos a temperatura
externa da pedra física)
Sobre o cais estão dançando
alguns astros imperfeitos
Suspeito que são homens
Eles levantam suas plumas
até a garganta do deserto
Sim eu me lembro
Mais de 40 homens
e a banda tocando
uma canção de amor
De repente lá vem vindo
oba de repente lá vem
Estou falando da entrada
da menina na arena
Da entrada dos seus cabelos
na frente de nossas retinas
Estou falando da velocidade
de um bambolê elétrico
rodopiando em torno
de tantos triplos suores
enquanto a banda toca
Olhe lá não procure histórias
estou falando de algum passado
Estou falando do ritmo
de uma estação violenta
E nem por isso impiedosa
É verão no Rio de Janeiro
Daqui deste balde revirado
dá para ver a felicidade
desabando sobre as cabeças
Dá para ver a força santa
do desejo físico imortal
Dá para ver disparos
que arrasam com toda
espécie de nacionalidade
Olhe eu nunca quis trocar
os tempos nem as partes
da partida fundamental
Mas daqui deste balde
dá para ver o assalto
que deu cabo da puta
e do garçom e até mesmo
do barbudo fronteiriço
O crime alegórico
que restaurou a alegria
E portanto veja bem
hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para me sentar
sobre a pedra austral
e ficar assistindo às explosões
dos bambolês polifônicos
entre os dedos de uma mulher
Hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para beijar
a cidade na boca.
1 200
1
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Segundo Poema
Ouço o meu amado.
Ei-lo que chega, correndo pelas montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.
Ele ergue a voz.
— «Vem, meu amor.
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas —
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto.»
Não tardou, porém, que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
a frente daquela que me gerou.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.
O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas da aliança.
De noite, no meu leito, procurei
aquele a quem ama o meu coração.
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.
Acharam-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
— «Vistes porventura aquele a quem ama o meu coração?»
Ei-lo que chega, correndo pelas montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.
Ele ergue a voz.
— «Vem, meu amor.
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas —
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto.»
Não tardou, porém, que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
a frente daquela que me gerou.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.
O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas da aliança.
De noite, no meu leito, procurei
aquele a quem ama o meu coração.
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.
Acharam-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
— «Vistes porventura aquele a quem ama o meu coração?»
1 153
1
Martim Codax
Eno Sagrado Em Vigo
Eno sagrado em Vigo
bailava corpo velido.
Amor hei!
Em Vigo, no sagrado
bailava corpo delgado.
Amor hei!
Bailava corpo velido
que nunc'houver'amigo.
Amor hei!
Bailava corpo delgado
que nunc'houver'amado.
Amor hei!
Que nunc'houver'amigo
ergas no sagrad'em Vigo.
Amor hei!
Que nunc'houver'amado
ergas em Vigo no sagrado.
Amor hei!
bailava corpo velido.
Amor hei!
Em Vigo, no sagrado
bailava corpo delgado.
Amor hei!
Bailava corpo velido
que nunc'houver'amigo.
Amor hei!
Bailava corpo delgado
que nunc'houver'amado.
Amor hei!
Que nunc'houver'amigo
ergas no sagrad'em Vigo.
Amor hei!
Que nunc'houver'amado
ergas em Vigo no sagrado.
Amor hei!
1 236
1
Hélia Correia
Esmola
I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.
II
Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema
III
Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.
II
Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema
III
Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
1 290
1
Zulmira Ribeiro Tavares
Vida: objeto de desejo
Nós desejamos pinguins.
Não os de geladeira
com seu peso fixo de massa pintada
sua estatuária de cozinha
sem nenhum sopro de da Vinci.
Nós desejamos pinguins.
Não os das geleiras
que nos esfriam os dedos
ao toque de suas penas firmes.
Frios são os caminhos que a morte nos envia.
Desejamos os pinguins de nosso assombro
fechados dentro de nós no desejo
como pérolas nas ostras.
Ostras não sabem das pérolas
que engendram e trazem consigo.
E nós que os formamos do escuro,
deles só temos o rastro, pinguins,
com seu brilho
de nácar.
Não os de geladeira
com seu peso fixo de massa pintada
sua estatuária de cozinha
sem nenhum sopro de da Vinci.
Nós desejamos pinguins.
Não os das geleiras
que nos esfriam os dedos
ao toque de suas penas firmes.
Frios são os caminhos que a morte nos envia.
Desejamos os pinguins de nosso assombro
fechados dentro de nós no desejo
como pérolas nas ostras.
Ostras não sabem das pérolas
que engendram e trazem consigo.
E nós que os formamos do escuro,
deles só temos o rastro, pinguins,
com seu brilho
de nácar.
731
1
Manuel Bandeira
O Silêncio
Na sombra cúmplice do quarto,
Ao contato das minhas mãos lentas
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.
Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.
Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha...
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal adivinha.
É o silêncio da tua carne.
Da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.
Ao contato das minhas mãos lentas
A substância da tua carne
Era a mesma que a do silêncio.
Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.
Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha...
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal adivinha.
É o silêncio da tua carne.
Da tua carne de âmbar, nua,
Quase a espiritualizar-se
Na aspiração de mais ternura.
2 028
1
Charles Bukowski
Beijando-me e Levando-me Para Longe
ela sempre estava pensando naquilo
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
1 328
1
Manuel Bandeira
Na Solidão das Noites Úmidas
Como tenho pensado em ti na solidão das noites úmidas,
De névoa úmida,
Na areia úmida!
Eu te sabia assim também, assim olhando a mesma cousa
No ermo da noite que repousa.
E era como se a vida,
Mansa, pousasse as mãos sobre a minha ferida...
Mas, ah! como eu sentia
A falta de teu ser de volúpia e tristeza!
O mar... Onde se via o movimento da água,
Era como se a água estremecesse em mil sorrisos.
Como uma carne de mulher sob a carícia.
O luar era um afago tão suave,
— Tão imaterial —
E ao mesmo tempo tão voluptuoso e tão grave!
O luar era a minha inefável carícia:
A água era teu corpo a estremecer-se com delícia.
Ah, em música pôr o que eu então sentia!
Unir no espasmo da harmonia
Esses dois ritmos contrastantes:
O frêmito tão perdidamente alegre de amor sob a carícia
E essa grave volúpia da luz branca.
Oh, viver contigo!
Viver contigo todos os instantes...
Vivermos juntos, como seria viver a verdadeira vida,
Harmoniosa e pura,
Sem lastimar a fuga irreparável dos anos,
Dos anos lentos e monótonos que passam,
Esperando sempre que maior ventura
Viesse um dia no beijo infinito da mesma morte...
De névoa úmida,
Na areia úmida!
Eu te sabia assim também, assim olhando a mesma cousa
No ermo da noite que repousa.
E era como se a vida,
Mansa, pousasse as mãos sobre a minha ferida...
Mas, ah! como eu sentia
A falta de teu ser de volúpia e tristeza!
O mar... Onde se via o movimento da água,
Era como se a água estremecesse em mil sorrisos.
Como uma carne de mulher sob a carícia.
O luar era um afago tão suave,
— Tão imaterial —
E ao mesmo tempo tão voluptuoso e tão grave!
O luar era a minha inefável carícia:
A água era teu corpo a estremecer-se com delícia.
Ah, em música pôr o que eu então sentia!
Unir no espasmo da harmonia
Esses dois ritmos contrastantes:
O frêmito tão perdidamente alegre de amor sob a carícia
E essa grave volúpia da luz branca.
Oh, viver contigo!
Viver contigo todos os instantes...
Vivermos juntos, como seria viver a verdadeira vida,
Harmoniosa e pura,
Sem lastimar a fuga irreparável dos anos,
Dos anos lentos e monótonos que passam,
Esperando sempre que maior ventura
Viesse um dia no beijo infinito da mesma morte...
1 618
1
Charles Bukowski
Como Uma Flor Na Chuva
cortei a unha do dedo médio
da mão
direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
então acendeu um cigarro:
“não deixe que isso o desanime”,
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
“quer uma maçã?”, perguntei.
“claro”, ela disse, “tem uma aí?”
mas eu lhe dei outra coisa...
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
então ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mão por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saí para comprar um pouco de frango
e camarão e batatas fritas e pão doce
e purê de batatas e molho e
salada de repolho, e nós comemos. ela me disse
quão bem ela se sentia e eu lhe disse
o quão bem eu me sentia e nós comemos
o frango e o camarão e as batatas fritas e o pão doce
e o purê de batatas e o molho e
também a salada de repolho.
Dirigi de volta para casa. O apartamento estava do mesmo jeito de sempre – garrafas e lixo por toda parte. Precisava dar uma arrumada nas coisas. Se alguém o visse nesse estado facilmente me daria voz de prisão.
Escutei uma batida. Abri a porta. Era Tammie.
– Oi – ela disse.
– Olá.
– Você devia estar numa pressa desgraçada quando saiu. Todas as portas ficaram abertas. A porta dos fundos estava escancarada. Escute, promete que não conta pra ninguém se eu contar uma coisa pra você?
– Tudo bem.
– Arlene entrou e usou seu telefone, um interurbano.
– Tudo bem.
– Tentei deter ela, mas não consegui. Ela estava entupida de boletas.
– Tudo bem.
– Por onde você andava?
– Galveston.
– Por que você saiu assim desse jeito? Você é maluco.
– Vou precisar viajar de novo no sábado.
– Sábado? Que dia é hoje?
– Quinta-feira.
– Pra onde você vai agora?
– Nova York.
– Pra fazer o quê?
– Uma leitura. Mandaram as passagens duas semanas atrás. E eu fico com um percentual da bilheteria.
– Ah, me leve com você! Deixo a Dancy com a Mãe. Quero muito ir!
– Não tenho como bancar você. Isso acabaria com o meu cachê. Nos últimos tempos fiz umas despesas pesadas.
– Vai ser muito legal! Será bom demais. Não vou sair nem um minuto do seu lado. Senti tanto a sua falta.
– Não tem como, Tammie.
Ela foi até o refrigerador e apanhou uma cerveja.
– Você não dá a mínima pra mim. Todos esses poemas de amor, tudo papo furado.
– Quando eu os escrevi não era papo furado.
O telefone tocou. Era meu editor.
– Por onde você tem andado?
– Galveston. Fazendo uma pesquisa.
– Ouvi dizer que você fará uma leitura em Nova York no sábado.
– Sim, Tammie quer ir junto, minha namorada.
– Você vai levá-la junto?
– Não, não tenho como bancar.
– Quanto sairia isso?
– Por 316 dólares ida e volta.
– Você quer mesmo que ela vá?
– Sim, acho que seria uma boa.
– Tudo bem, vá em frente. Mando um cheque pra você pelo correio.
– Está falando sério?
– Sim.
– Não sei o que dizer...
– Não esquenta. Apenas lembre do Dylan Thomas.
– Eles não vão me matar.
Nos despedimos. Tammie sugava sua cerveja.
– Tudo bem – eu lhe disse –, você tem dois ou três dias pra fazer as malas.
– Está falando sério? Quer dizer que eu vou junto?
– Sim, meu editor pagará sua passagem.
Tammie deu um salto e se agarrou em mim. Me beijou, agarrou minhas bolas, se pendurou no meu pau.
– Você é o filho da puta mais legal do mundo!
Nova York. Tirando Dallas, Houston, Charleston e Atlanta, era o pior lugar em que eu já tinha estado. Tammie se grudou em mim e meu pau levantou. Joanna Dover não tinha levado tudo...
Sairíamos de Los Angeles naquele sábado no voo das três e meia. Às duas horas bati à porta de Tammie. Ela não estava lá. Voltei para minha casa e me sentei para esperar. O telefone tocou. Era Tammie.
– Veja – eu disse –, temos que ir. Há pessoas me esperando lá no Kennedy. Onde você está?
– Preciso de seis dólares aqui na farmácia. É pra comprar uns Quaaludes.[16]
– Onde você está?
– Logo abaixo do cruzamento da Western com Santa Monica Boulevard, cerca de uma quadra. É uma farmácia Coruja, não tem como errar.
Desliguei, entrei no fusca e fui até lá. Estacionei uma quadra abaixo da Western com Santa Monica, saí e dei uma olhada em volta. Não havia farmácia alguma.
Voltei para o fusca e dirigi pelas redondezas, procurando o Camaro vermelho dela. Então o avistei, cinco quadras abaixo. Estacionei e entrei no lugar. Tammie estava sentada numa cadeira. Dancy correu e para me fazer careta.
– Não podemos levar a criança.
– Eu sei. Vamos deixar ela na minha mãe, no meio do caminho.
– Na sua mãe? Mas são cinco quilômetros pro lado contrário.
– Fica no caminho do aeroporto.
– Não, fica pro outro lado.
– Você tem os seis contos?
Dei o dinheiro para Tammie.
– Encontro você na sua casa. Suas malas estão prontas?
– Sim, estou pronto.
Dirigi de volta e esperei. Então as ouvi chegar.
– Mamãe! – Dancy gritou. – Quero meus brinquedinhos!
As duas subiram a escada. Esperei que elas descessem. Nada. Subi. Tammie havia feito a mala, mas estava ajoelhada, abrindo e fechando o zíper de sua bagagem.
– Escute – eu disse –, vou levar o resto das suas coisas para o carro.
Ela levava consigo duas sacolas de compras de papelão, cheias, e três vestidos em cabides. Tudo isso além da mala.
Peguei as sacolas e os vestidos e coloquei no fusca. Quando voltei, ela ainda abria e fechava o zíper.
– Vamos, Tammie.
– Só mais um minuto.
Lá estava ela ajoelhada, pra lá e pra cá com o zíper, sem parar. Ela sequer olhava para dentro da mala. Ficava apenas abrindo e fechando o zíper.
– Mamãe – disse Dancy –, quero os meus brinquedinhos.
– Vamos, Tammie, vamos duma vez.
– Ah, tudo bem.
Apanhei a mala com o zíper e elas me seguiram para fora.
Segui seu Camaro demolido até a casa de sua mãe. Entramos. Tammie ficou em frente à cômoda da mãe e começou a abrir e fechar as gavetas. Cada vez que ela abria uma das gavetas, metia a mão lá dentro e fazia a maior bagunça. Então ela fechava a gaveta com uma pancada e partia para a próxima. Em sequência.
– Tammie, o avião já vai partir.
– Que nada, temos muito tempo. Odeio ficar fazendo hora em aeroportos.
– O que você pretende fazer com a Dancy?
– Vou deixar ela aqui até que a Mãe chegue do trabalho.
Dancy começou a urrar. Finalmente ela descobrira, e começou a urrar, e as lágrimas corriam, e então ela parou, cerrou o punho e gritou:
– QUERO OS MEUS BRINQUEDINHOS!
– Escute, Tammie, vou esperar no carro.
Saí e esperei. Depois de cinco minutos voltei a entrar na casa. Tammie continuava abrindo e fechando gavetas.
– Por favor, Tammie, temos que ir.
– Tudo bem.
Ela se voltou para Dancy.
– Escute só, você vai ficar aqui até a vovó chegar em casa. Mantenha a porta fechada e não deixe ninguém que não seja a vovó entrar!
Dancy voltou a urrar. E então gritou:
– EU ODEIO VOCÊ!
Tammie me seguiu e entramos no fusca. Dei a partida. Ela abriu a porta e se foi.
– TENHO QUE PEGAR UMA COISA NO MEU CARRO!
Tammie correu até o Camaro.
– Ah, merda, eu tranquei a porta e não tenho a chave! Você tem um arame?
– Não – gritei –, não tenho um arame!
– Já volto!
Tammie voltou correndo para dentro do apartamento da mãe. Escutei a porta se abrir. Dancy urrou e gritou. Então escutei a batida da porta e Tammie voltou com o arame. Ela foi até o Camaro e arrombou a porta.
Fui até seu carro. Tammie havia se inclinado sobre o banco de trás e cavoucava aquela inacreditável bagunça – roupas, sacos de papel, copos de papel, garrafas de cerveja, caixas vazias –, tudo empilhado ali. Então ela encontrou o que procurava: a câmara, uma Polaroid que eu havia lhe dado de aniversário.
– Você me ama de verdade, não é?
– Sim.
– Quando chegarmos a Nova York eu vou trepar com você como nenhuma outra mulher já trepou!
– Está falando sério?
– Sim.
Ela se agarrou no meu pau e colou em mim.
Minha primeira e única ruiva. Eu tinha sorte...
Corremos pela longa rampa. Eu carregava os vestidos e as sacolas dela.
Na escada rolante, Tammie avistou a máquina que vendia seguros de voo.
– Por favor – eu disse –, faltam cinco minutos pra decolagem.
– Quero que Dancy seja beneficiada.
– Tudo bem.
– Você tem cinquenta centavos?
Dei-lhe duas moedas. Ela as inseriu e um cartão foi cuspido pela máquina.
– Você tem uma caneta?
Tammie preencheu o cartão e depois havia um envelope. Ela colocou o cartão ali dentro e tentou enfiá-los na abertura da máquina.
– Essa porra não está entrando!
– Nós vamos perder o voo.
Ela continuava tentando enfiar o envelope na abertura. Não estava conseguindo.
Ficou ali plantada, tentando enfiar o envelope naquela abertura. A essas alturas o envelope já estava completamente dobrado no meio e as pontas estavam todas amassadas.
– Estou ficando louco – eu disse a ela. – Não suporto mais.
Tentou enfiar mais algumas vezes. Não teve jeito. Olhou para mim.
– Certo, vamos lá, então.
Subimos pela escada rolante com os vestidos e as sacolas.
Encontramos o portão de embarque. Tínhamos dois bancos no fundo do avião. Embarcamos.
– Viu só – ela disse –, não falei que a gente tinha tempo de sobra?
Olhei para o meu relógio. O avião começou a se mover...
Estávamos voando havia vinte minutos quando ela tirou um espelhinho da bolsa e começou a se maquiar, principalmente os olhos. Passava uma escovinha neles, concentrando-se, em especial, nos cílios. Ao fazer isso, ela arregalava bem os olhos, a boca entreaberta. Só de assisti-la, comecei a ter uma ereção.
Sua boca era tão carnuda e gostosa e aberta e ela ficava ajeitando os cílios. Pedi dois drinques.
Tammie parava para beber, e então continuava.
Um jovem numa poltrona à nossa direita começou a se tocar. Tammie continuava com os olhos fixos no espelhinho, mantendo a boca aberta. Parecia capaz de pagar um boquete dos bons com aquela boca.
Continuou naquela função por uma hora. Então deixou o espelho e a escovinha de lado, encostou-se no meu ombro e dormiu.
Havia uma mulher na poltrona à nossa esquerda. Estava na metade dos quarenta. Tammie dormia colada em mim.
A mulher me olhou.
– Quantos anos ela tem? – ela me perguntou.
De repente tudo ficou muito silencioso naquele avião. Todos ao redor escutavam.
– 23.
– Ela parece ter dezessete.
– Ela tem 23.
– Ela passou duas horas se maquiando e agora vai dormir.
– Foi mais ou menos uma hora.
– O senhor está indo para Nova York?
– Sim.
– É sua filha?
– Não, não sou pai nem avô dela. Não temos nenhum grau de parentesco. Ela é minha namorada e estamos indo pra Nova York. – Pude ver a manchete em seus olhos:
MONSTRO DO LESTE DE HOLLYWOOD DOPA GAROTA DE DEZESSETE ANOS, LEVA-A PARA NOVA YORK ONDE ELE A ABUSA SEXUALMENTE, VENDENDO DEPOIS SEU CORPO A INÚMEROS VAGABUNDOS.
A senhora inquisidora desistiu. Inclinou sua poltrona e fechou os olhos. Sua cabeça se inclinou na minha direção. Estava quase sobre meu colo. Segurando Tammie, fiquei olhando para aquela cabeça. Me perguntava se ela se importaria se eu lhe desse um beijo inesperado e louco. Tive outra ereção.
Estávamos prontos para aterrissar. Tammie parecia desacordada. Isso me deixou preocupado. Afivelei seu cinto.
– Tammie, estamos em Nova York! Já vamos pousar! Tammie, acorde!
Nenhuma resposta.
Overdose?
Tomei seu pulso. Não consegui sentir nada.
Olhei para os seus peitos enormes. Buscava algum sinal de que estivesse respirando. Eles não se moviam. Me levantei e fui ao encontro de uma aeromoça.
– Por favor, senhor, volte ao seu lugar. Estamos em procedimento de pouso.
– Escute, estou preocupado. Minha namorada não está acordando.
– O senhor acha que ela morreu? – sussurrou.
– Não sei – respondi também num sussurro.
– Tudo bem, senhor. Assim que nos aterrissarmos eu volto aqui.
O avião começou a descer. Fui até o banheiro e umedeci umas toalhas de papel. Retornei, sentei-me ao lado de Tammie e esfreguei sua face com os papéis. Toda aquela maquiagem, perdida. Tammie não respondeu.
– Acorde, sua puta!
Passei as toalhas por seus peitos. Nada. Nenhum movimento. Desisti.
Agora precisava despachar seu corpo de volta. Precisaria explicar o ocorrido à sua mãe. A velha iria me odiar.
Aterrissamos. As pessoas se levantaram e formaram uma fila, esperando para sair. Fiquei ali sentado. Chacoalhava Tammie, beliscava-a.
– É Nova York, Ruiva. A maçã podre. Vamos lá. Chega dessa palhaçada.
A aeromoça voltou e balançou Tammie.
– Querida, qual é o problema?
Tammie começou a responder. Ela se mexeu. Então seus olhos se abriram. Era tudo uma questão de ser chamada por uma voz diferente. Ninguém responde a uma voz conhecida. Vozes conhecidas se tornam parte da pessoa, como uma unha.
Tammie pegou seu espelhinho e começou a ajeitar o cabelo. A aeromoça lhe dava uns tapinhas no ombro. Me levantei e tirei os vestidos do compartimento superior. As sacolas também estavam ali. Tammie continuou a se olhar, não parava de ajeitar os cabelos.
– Tammie, estamos em Nova York. Vamos descer.
Ela se moveu depressa. Eu levava as duas sacolas e os vestidos. Ela saiu pela porta rebolando bem a bunda. Fui atrás dela.
– Mulheres
da mão
direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
então acendeu um cigarro:
“não deixe que isso o desanime”,
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
“quer uma maçã?”, perguntei.
“claro”, ela disse, “tem uma aí?”
mas eu lhe dei outra coisa...
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
então ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mão por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saí para comprar um pouco de frango
e camarão e batatas fritas e pão doce
e purê de batatas e molho e
salada de repolho, e nós comemos. ela me disse
quão bem ela se sentia e eu lhe disse
o quão bem eu me sentia e nós comemos
o frango e o camarão e as batatas fritas e o pão doce
e o purê de batatas e o molho e
também a salada de repolho.
Dirigi de volta para casa. O apartamento estava do mesmo jeito de sempre – garrafas e lixo por toda parte. Precisava dar uma arrumada nas coisas. Se alguém o visse nesse estado facilmente me daria voz de prisão.
Escutei uma batida. Abri a porta. Era Tammie.
– Oi – ela disse.
– Olá.
– Você devia estar numa pressa desgraçada quando saiu. Todas as portas ficaram abertas. A porta dos fundos estava escancarada. Escute, promete que não conta pra ninguém se eu contar uma coisa pra você?
– Tudo bem.
– Arlene entrou e usou seu telefone, um interurbano.
– Tudo bem.
– Tentei deter ela, mas não consegui. Ela estava entupida de boletas.
– Tudo bem.
– Por onde você andava?
– Galveston.
– Por que você saiu assim desse jeito? Você é maluco.
– Vou precisar viajar de novo no sábado.
– Sábado? Que dia é hoje?
– Quinta-feira.
– Pra onde você vai agora?
– Nova York.
– Pra fazer o quê?
– Uma leitura. Mandaram as passagens duas semanas atrás. E eu fico com um percentual da bilheteria.
– Ah, me leve com você! Deixo a Dancy com a Mãe. Quero muito ir!
– Não tenho como bancar você. Isso acabaria com o meu cachê. Nos últimos tempos fiz umas despesas pesadas.
– Vai ser muito legal! Será bom demais. Não vou sair nem um minuto do seu lado. Senti tanto a sua falta.
– Não tem como, Tammie.
Ela foi até o refrigerador e apanhou uma cerveja.
– Você não dá a mínima pra mim. Todos esses poemas de amor, tudo papo furado.
– Quando eu os escrevi não era papo furado.
O telefone tocou. Era meu editor.
– Por onde você tem andado?
– Galveston. Fazendo uma pesquisa.
– Ouvi dizer que você fará uma leitura em Nova York no sábado.
– Sim, Tammie quer ir junto, minha namorada.
– Você vai levá-la junto?
– Não, não tenho como bancar.
– Quanto sairia isso?
– Por 316 dólares ida e volta.
– Você quer mesmo que ela vá?
– Sim, acho que seria uma boa.
– Tudo bem, vá em frente. Mando um cheque pra você pelo correio.
– Está falando sério?
– Sim.
– Não sei o que dizer...
– Não esquenta. Apenas lembre do Dylan Thomas.
– Eles não vão me matar.
Nos despedimos. Tammie sugava sua cerveja.
– Tudo bem – eu lhe disse –, você tem dois ou três dias pra fazer as malas.
– Está falando sério? Quer dizer que eu vou junto?
– Sim, meu editor pagará sua passagem.
Tammie deu um salto e se agarrou em mim. Me beijou, agarrou minhas bolas, se pendurou no meu pau.
– Você é o filho da puta mais legal do mundo!
Nova York. Tirando Dallas, Houston, Charleston e Atlanta, era o pior lugar em que eu já tinha estado. Tammie se grudou em mim e meu pau levantou. Joanna Dover não tinha levado tudo...
Sairíamos de Los Angeles naquele sábado no voo das três e meia. Às duas horas bati à porta de Tammie. Ela não estava lá. Voltei para minha casa e me sentei para esperar. O telefone tocou. Era Tammie.
– Veja – eu disse –, temos que ir. Há pessoas me esperando lá no Kennedy. Onde você está?
– Preciso de seis dólares aqui na farmácia. É pra comprar uns Quaaludes.[16]
– Onde você está?
– Logo abaixo do cruzamento da Western com Santa Monica Boulevard, cerca de uma quadra. É uma farmácia Coruja, não tem como errar.
Desliguei, entrei no fusca e fui até lá. Estacionei uma quadra abaixo da Western com Santa Monica, saí e dei uma olhada em volta. Não havia farmácia alguma.
Voltei para o fusca e dirigi pelas redondezas, procurando o Camaro vermelho dela. Então o avistei, cinco quadras abaixo. Estacionei e entrei no lugar. Tammie estava sentada numa cadeira. Dancy correu e para me fazer careta.
– Não podemos levar a criança.
– Eu sei. Vamos deixar ela na minha mãe, no meio do caminho.
– Na sua mãe? Mas são cinco quilômetros pro lado contrário.
– Fica no caminho do aeroporto.
– Não, fica pro outro lado.
– Você tem os seis contos?
Dei o dinheiro para Tammie.
– Encontro você na sua casa. Suas malas estão prontas?
– Sim, estou pronto.
Dirigi de volta e esperei. Então as ouvi chegar.
– Mamãe! – Dancy gritou. – Quero meus brinquedinhos!
As duas subiram a escada. Esperei que elas descessem. Nada. Subi. Tammie havia feito a mala, mas estava ajoelhada, abrindo e fechando o zíper de sua bagagem.
– Escute – eu disse –, vou levar o resto das suas coisas para o carro.
Ela levava consigo duas sacolas de compras de papelão, cheias, e três vestidos em cabides. Tudo isso além da mala.
Peguei as sacolas e os vestidos e coloquei no fusca. Quando voltei, ela ainda abria e fechava o zíper.
– Vamos, Tammie.
– Só mais um minuto.
Lá estava ela ajoelhada, pra lá e pra cá com o zíper, sem parar. Ela sequer olhava para dentro da mala. Ficava apenas abrindo e fechando o zíper.
– Mamãe – disse Dancy –, quero os meus brinquedinhos.
– Vamos, Tammie, vamos duma vez.
– Ah, tudo bem.
Apanhei a mala com o zíper e elas me seguiram para fora.
Segui seu Camaro demolido até a casa de sua mãe. Entramos. Tammie ficou em frente à cômoda da mãe e começou a abrir e fechar as gavetas. Cada vez que ela abria uma das gavetas, metia a mão lá dentro e fazia a maior bagunça. Então ela fechava a gaveta com uma pancada e partia para a próxima. Em sequência.
– Tammie, o avião já vai partir.
– Que nada, temos muito tempo. Odeio ficar fazendo hora em aeroportos.
– O que você pretende fazer com a Dancy?
– Vou deixar ela aqui até que a Mãe chegue do trabalho.
Dancy começou a urrar. Finalmente ela descobrira, e começou a urrar, e as lágrimas corriam, e então ela parou, cerrou o punho e gritou:
– QUERO OS MEUS BRINQUEDINHOS!
– Escute, Tammie, vou esperar no carro.
Saí e esperei. Depois de cinco minutos voltei a entrar na casa. Tammie continuava abrindo e fechando gavetas.
– Por favor, Tammie, temos que ir.
– Tudo bem.
Ela se voltou para Dancy.
– Escute só, você vai ficar aqui até a vovó chegar em casa. Mantenha a porta fechada e não deixe ninguém que não seja a vovó entrar!
Dancy voltou a urrar. E então gritou:
– EU ODEIO VOCÊ!
Tammie me seguiu e entramos no fusca. Dei a partida. Ela abriu a porta e se foi.
– TENHO QUE PEGAR UMA COISA NO MEU CARRO!
Tammie correu até o Camaro.
– Ah, merda, eu tranquei a porta e não tenho a chave! Você tem um arame?
– Não – gritei –, não tenho um arame!
– Já volto!
Tammie voltou correndo para dentro do apartamento da mãe. Escutei a porta se abrir. Dancy urrou e gritou. Então escutei a batida da porta e Tammie voltou com o arame. Ela foi até o Camaro e arrombou a porta.
Fui até seu carro. Tammie havia se inclinado sobre o banco de trás e cavoucava aquela inacreditável bagunça – roupas, sacos de papel, copos de papel, garrafas de cerveja, caixas vazias –, tudo empilhado ali. Então ela encontrou o que procurava: a câmara, uma Polaroid que eu havia lhe dado de aniversário.
– Você me ama de verdade, não é?
– Sim.
– Quando chegarmos a Nova York eu vou trepar com você como nenhuma outra mulher já trepou!
– Está falando sério?
– Sim.
Ela se agarrou no meu pau e colou em mim.
Minha primeira e única ruiva. Eu tinha sorte...
Corremos pela longa rampa. Eu carregava os vestidos e as sacolas dela.
Na escada rolante, Tammie avistou a máquina que vendia seguros de voo.
– Por favor – eu disse –, faltam cinco minutos pra decolagem.
– Quero que Dancy seja beneficiada.
– Tudo bem.
– Você tem cinquenta centavos?
Dei-lhe duas moedas. Ela as inseriu e um cartão foi cuspido pela máquina.
– Você tem uma caneta?
Tammie preencheu o cartão e depois havia um envelope. Ela colocou o cartão ali dentro e tentou enfiá-los na abertura da máquina.
– Essa porra não está entrando!
– Nós vamos perder o voo.
Ela continuava tentando enfiar o envelope na abertura. Não estava conseguindo.
Ficou ali plantada, tentando enfiar o envelope naquela abertura. A essas alturas o envelope já estava completamente dobrado no meio e as pontas estavam todas amassadas.
– Estou ficando louco – eu disse a ela. – Não suporto mais.
Tentou enfiar mais algumas vezes. Não teve jeito. Olhou para mim.
– Certo, vamos lá, então.
Subimos pela escada rolante com os vestidos e as sacolas.
Encontramos o portão de embarque. Tínhamos dois bancos no fundo do avião. Embarcamos.
– Viu só – ela disse –, não falei que a gente tinha tempo de sobra?
Olhei para o meu relógio. O avião começou a se mover...
Estávamos voando havia vinte minutos quando ela tirou um espelhinho da bolsa e começou a se maquiar, principalmente os olhos. Passava uma escovinha neles, concentrando-se, em especial, nos cílios. Ao fazer isso, ela arregalava bem os olhos, a boca entreaberta. Só de assisti-la, comecei a ter uma ereção.
Sua boca era tão carnuda e gostosa e aberta e ela ficava ajeitando os cílios. Pedi dois drinques.
Tammie parava para beber, e então continuava.
Um jovem numa poltrona à nossa direita começou a se tocar. Tammie continuava com os olhos fixos no espelhinho, mantendo a boca aberta. Parecia capaz de pagar um boquete dos bons com aquela boca.
Continuou naquela função por uma hora. Então deixou o espelho e a escovinha de lado, encostou-se no meu ombro e dormiu.
Havia uma mulher na poltrona à nossa esquerda. Estava na metade dos quarenta. Tammie dormia colada em mim.
A mulher me olhou.
– Quantos anos ela tem? – ela me perguntou.
De repente tudo ficou muito silencioso naquele avião. Todos ao redor escutavam.
– 23.
– Ela parece ter dezessete.
– Ela tem 23.
– Ela passou duas horas se maquiando e agora vai dormir.
– Foi mais ou menos uma hora.
– O senhor está indo para Nova York?
– Sim.
– É sua filha?
– Não, não sou pai nem avô dela. Não temos nenhum grau de parentesco. Ela é minha namorada e estamos indo pra Nova York. – Pude ver a manchete em seus olhos:
MONSTRO DO LESTE DE HOLLYWOOD DOPA GAROTA DE DEZESSETE ANOS, LEVA-A PARA NOVA YORK ONDE ELE A ABUSA SEXUALMENTE, VENDENDO DEPOIS SEU CORPO A INÚMEROS VAGABUNDOS.
A senhora inquisidora desistiu. Inclinou sua poltrona e fechou os olhos. Sua cabeça se inclinou na minha direção. Estava quase sobre meu colo. Segurando Tammie, fiquei olhando para aquela cabeça. Me perguntava se ela se importaria se eu lhe desse um beijo inesperado e louco. Tive outra ereção.
Estávamos prontos para aterrissar. Tammie parecia desacordada. Isso me deixou preocupado. Afivelei seu cinto.
– Tammie, estamos em Nova York! Já vamos pousar! Tammie, acorde!
Nenhuma resposta.
Overdose?
Tomei seu pulso. Não consegui sentir nada.
Olhei para os seus peitos enormes. Buscava algum sinal de que estivesse respirando. Eles não se moviam. Me levantei e fui ao encontro de uma aeromoça.
– Por favor, senhor, volte ao seu lugar. Estamos em procedimento de pouso.
– Escute, estou preocupado. Minha namorada não está acordando.
– O senhor acha que ela morreu? – sussurrou.
– Não sei – respondi também num sussurro.
– Tudo bem, senhor. Assim que nos aterrissarmos eu volto aqui.
O avião começou a descer. Fui até o banheiro e umedeci umas toalhas de papel. Retornei, sentei-me ao lado de Tammie e esfreguei sua face com os papéis. Toda aquela maquiagem, perdida. Tammie não respondeu.
– Acorde, sua puta!
Passei as toalhas por seus peitos. Nada. Nenhum movimento. Desisti.
Agora precisava despachar seu corpo de volta. Precisaria explicar o ocorrido à sua mãe. A velha iria me odiar.
Aterrissamos. As pessoas se levantaram e formaram uma fila, esperando para sair. Fiquei ali sentado. Chacoalhava Tammie, beliscava-a.
– É Nova York, Ruiva. A maçã podre. Vamos lá. Chega dessa palhaçada.
A aeromoça voltou e balançou Tammie.
– Querida, qual é o problema?
Tammie começou a responder. Ela se mexeu. Então seus olhos se abriram. Era tudo uma questão de ser chamada por uma voz diferente. Ninguém responde a uma voz conhecida. Vozes conhecidas se tornam parte da pessoa, como uma unha.
Tammie pegou seu espelhinho e começou a ajeitar o cabelo. A aeromoça lhe dava uns tapinhas no ombro. Me levantei e tirei os vestidos do compartimento superior. As sacolas também estavam ali. Tammie continuou a se olhar, não parava de ajeitar os cabelos.
– Tammie, estamos em Nova York. Vamos descer.
Ela se moveu depressa. Eu levava as duas sacolas e os vestidos. Ela saiu pela porta rebolando bem a bunda. Fui atrás dela.
– Mulheres
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1
Charles Bukowski
Enfeitiçado em Nova York
a senhora foi a mais infiel e terrível que eu jamais havia
encontrado e eu sabia disso e ela sabia disso e ela era
as duas coisas, feia e linda ao mesmo tempo e as
duas dela estavam sentadas ali no peitoril
daquela janela aberta no hotel
em Nova York em
um dos dias mais quentes de todos os tempos, sem
ar-condicionado, sem ventilador, suávamos e sofríamos e esperávamos
algo
acontecer.
eu estava bêbado, ela estava nas drogas, havíamos acabado
de concluir uma copulação
rapidinha e logo depois ela disse, "seu filho da
puta, nós estamos encalhados aqui no inferno!"
"bom", eu disse.
então eu a vi cair da janela, estávamos
no quarto andar, eu escutei o grito,
seu corpo se havia ido.
então estava de volta, ela sentada no
peitoril da janela outra vez. "você viu isso?", ela
perguntou. "eu caí da janela!"
"bom", eu disse.
"mas de algum modo eu me empurrei de volta para dentro!", ela
disse.
"bom", eu disse.
"isso é tudo o que você sabe dizer?", ela perguntou.
"bom???"
"eu consigo dizer que acho você uma bruxa ou um demônio
e que seu ato na janela agora só prova
isso."
eu senti que por cair para fora ela havia melhorado meu
humor e que ela o havia estragado de propósito
ao subir de volta
para dentro.
"então eu sou uma bruxa ou um demônio, é? bem, então chega de
bunda para você!"
"bom", eu disse.
às vezes você vive e fica com uma mulher e não tem ideia
real do porquê.
com ela eu sabia: era o simples, fascinante,
inexorável mistério e terror
de ela ser assim.
encontrado e eu sabia disso e ela sabia disso e ela era
as duas coisas, feia e linda ao mesmo tempo e as
duas dela estavam sentadas ali no peitoril
daquela janela aberta no hotel
em Nova York em
um dos dias mais quentes de todos os tempos, sem
ar-condicionado, sem ventilador, suávamos e sofríamos e esperávamos
algo
acontecer.
eu estava bêbado, ela estava nas drogas, havíamos acabado
de concluir uma copulação
rapidinha e logo depois ela disse, "seu filho da
puta, nós estamos encalhados aqui no inferno!"
"bom", eu disse.
então eu a vi cair da janela, estávamos
no quarto andar, eu escutei o grito,
seu corpo se havia ido.
então estava de volta, ela sentada no
peitoril da janela outra vez. "você viu isso?", ela
perguntou. "eu caí da janela!"
"bom", eu disse.
"mas de algum modo eu me empurrei de volta para dentro!", ela
disse.
"bom", eu disse.
"isso é tudo o que você sabe dizer?", ela perguntou.
"bom???"
"eu consigo dizer que acho você uma bruxa ou um demônio
e que seu ato na janela agora só prova
isso."
eu senti que por cair para fora ela havia melhorado meu
humor e que ela o havia estragado de propósito
ao subir de volta
para dentro.
"então eu sou uma bruxa ou um demônio, é? bem, então chega de
bunda para você!"
"bom", eu disse.
às vezes você vive e fica com uma mulher e não tem ideia
real do porquê.
com ela eu sabia: era o simples, fascinante,
inexorável mistério e terror
de ela ser assim.
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Manuel Bandeira
Pierrette
O relento hiperestesia
O ritmo tardo de meu sangue.
Sinto correr-me a espinha langue
Um calefrio de histeria...
Gemem ondinas nos repuxos
Das fontes. Faunos aparecem.
E salamandras desfalecem
Nas sarças, nos braços dos bruxos.
Corro à floresta: entre miríades
De vaga-lumes, junto aos troncos,
Gênios caprípedes e broncos
Estupram virgens hamadríades.
Ergo olhos súplices: e vejo,
Ante as minhas pupilas tontas,
No sete-estrelo as sete pontas
De sete espadas de desejo.
O sexo obsidente alucina
A minha índole surpresa:
As imagens da natureza
São um delírio de morfina.
A minha carne complicada
Espreita, em voluptuoso ardil,
Alguém que tenha a alma sutil,
Decadente, degenerada!
E a lua verte como uma âmbula
O filtro erótico que assombra...
Vem, meu Pierrot, ó minha sombra
Cocainômana e noctâmbula!...
O ritmo tardo de meu sangue.
Sinto correr-me a espinha langue
Um calefrio de histeria...
Gemem ondinas nos repuxos
Das fontes. Faunos aparecem.
E salamandras desfalecem
Nas sarças, nos braços dos bruxos.
Corro à floresta: entre miríades
De vaga-lumes, junto aos troncos,
Gênios caprípedes e broncos
Estupram virgens hamadríades.
Ergo olhos súplices: e vejo,
Ante as minhas pupilas tontas,
No sete-estrelo as sete pontas
De sete espadas de desejo.
O sexo obsidente alucina
A minha índole surpresa:
As imagens da natureza
São um delírio de morfina.
A minha carne complicada
Espreita, em voluptuoso ardil,
Alguém que tenha a alma sutil,
Decadente, degenerada!
E a lua verte como uma âmbula
O filtro erótico que assombra...
Vem, meu Pierrot, ó minha sombra
Cocainômana e noctâmbula!...
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1
Pablo Neruda
Se Me Esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
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1
José Saramago
Aprendamos, Amor
Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.
Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.
Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.
1 431
1
Marina Colasanti
Sim, mas também
Porque é meu amor
põe a mão em mim
em qualquer lugar
sem que a carne crispe.
Porque é meu amor
em qualquer lugar
onde ponha a mão
toda me estremece.
põe a mão em mim
em qualquer lugar
sem que a carne crispe.
Porque é meu amor
em qualquer lugar
onde ponha a mão
toda me estremece.
1 339
1
Ana Martins Marques
Um café com a Medusa
Ou será então que você acredita, teria ela, escreve Beyle, ainda acrescentado, que Petrarca foi infeliz só porque nunca pôde tomar um café?
W. G. Sebald, Vertigem
Tudo o que com os olhos toco
ela diz
transformo em pedra
mas tudo é já
desde sempre pedra
pó futuro
seus pais eram filhos do mar e da terra
cetáceos de um mundo arcaico
informe ainda
mas ela é mortal
destinada, como nós, ao pó
Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque ela se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito
desde sempre amputadas
de suas terríveis cabeças
mas hoje estamos velhas
ela e eu
cansadas de refletir o tempo
como um escudo
só queremos tomar nosso café
cada serpente que lhe adorna a cabeça
fala em uma língua
e a traduz
mas na realidade
falamos pouco
enquanto olhamos o porto
e ela ajeita as asas
na cadeira
cúmplices
ela e eu
(embora eu evite
confesso
olhá-la nos olhos)
tomamos nosso café quase
em silêncio
ela diz que agora sonha apenas com o mar
que seus cabelos são algas e não serpentes
e que dançam lentamente no fundo de um oceano
cheio de monstros, como são os oceanos,
lagostas enormes e águas-vivas
e outras incongruências marinhas
corais e conchas que são
como estojos
e baleias que vivem até duzentos anos
o que para ela é nada, alguns segundos
como de fato é
e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda
e sempre o sexo
é talvez o que há no desejo de mais cruel
quando nele há tanto de cruel:
que ele dure, continue
e às vezes seja só desejo
do desejo
e seja móvel e mesmo
como o mar
aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país se exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países
mas extensões variáveis de terra
que as nuvens sem passaporte
atravessam
resta só a memória do mar
ela diz
batendo inutilmente
o mar e o café
ela diz
e, a cada qual,
suas serpentes
W. G. Sebald, Vertigem
Tudo o que com os olhos toco
ela diz
transformo em pedra
mas tudo é já
desde sempre pedra
pó futuro
seus pais eram filhos do mar e da terra
cetáceos de um mundo arcaico
informe ainda
mas ela é mortal
destinada, como nós, ao pó
Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque ela se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito
desde sempre amputadas
de suas terríveis cabeças
mas hoje estamos velhas
ela e eu
cansadas de refletir o tempo
como um escudo
só queremos tomar nosso café
cada serpente que lhe adorna a cabeça
fala em uma língua
e a traduz
mas na realidade
falamos pouco
enquanto olhamos o porto
e ela ajeita as asas
na cadeira
cúmplices
ela e eu
(embora eu evite
confesso
olhá-la nos olhos)
tomamos nosso café quase
em silêncio
ela diz que agora sonha apenas com o mar
que seus cabelos são algas e não serpentes
e que dançam lentamente no fundo de um oceano
cheio de monstros, como são os oceanos,
lagostas enormes e águas-vivas
e outras incongruências marinhas
corais e conchas que são
como estojos
e baleias que vivem até duzentos anos
o que para ela é nada, alguns segundos
como de fato é
e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda
e sempre o sexo
é talvez o que há no desejo de mais cruel
quando nele há tanto de cruel:
que ele dure, continue
e às vezes seja só desejo
do desejo
e seja móvel e mesmo
como o mar
aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país se exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países
mas extensões variáveis de terra
que as nuvens sem passaporte
atravessam
resta só a memória do mar
ela diz
batendo inutilmente
o mar e o café
ela diz
e, a cada qual,
suas serpentes
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Manuel Bandeira
Boda Espiritual
Tu não estás comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
— Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.
O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...
Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.
Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...
Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...
E te amo como se ama um passarinho morto.
No pensamento meu, amor, tu vives nua
— Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.
O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...
Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.
Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...
Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...
E te amo como se ama um passarinho morto.
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