Poemas neste tema
Desejo
Manuel Bandeira
Rimancete
À dona de seu encanto,
À bem-amada pudica,
Por quem se desvela tanto,
Por quem tanto se dedica,
Olhos lavados em pranto,
O seu amante suplica:
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus olhos (disse ela),
Os meus olhos sem senhor...
— Ai não me fales assim!
Que uma esperança tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela;
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus lábios (disse ela),
Os meus lábios sem senhor...
— Ái não me enganes assim,
Sonho meu! Coisa tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te as minhas mãos (disse ela),
As minhas mãos sem senhor...
— Não me escarneças assim!
Bem sei que prenda tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus peitos (disse ela),
Os meus peitos sem senhor...
— Não me tortures assim!
Mentes! Dádiva tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Minha rosa e minha vida...
Que por perdê-la perdida,
Me desfaleço de dor...
— Não me enlouqueças assim,
Vida minha! Flor tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela?...
— Deixas-me triste e sombria.
Cismo... Não atino o quê...
Dava-te quanto podia...
Que queres mais que te dê?
Responde o moço destarte:
— Teu pensamento quero eu!
— Isso não... não posso dar-te...
Que há muito tempo ele é teu...
À bem-amada pudica,
Por quem se desvela tanto,
Por quem tanto se dedica,
Olhos lavados em pranto,
O seu amante suplica:
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus olhos (disse ela),
Os meus olhos sem senhor...
— Ai não me fales assim!
Que uma esperança tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela;
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus lábios (disse ela),
Os meus lábios sem senhor...
— Ái não me enganes assim,
Sonho meu! Coisa tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te as minhas mãos (disse ela),
As minhas mãos sem senhor...
— Não me escarneças assim!
Bem sei que prenda tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Dou-te os meus peitos (disse ela),
Os meus peitos sem senhor...
— Não me tortures assim!
Mentes! Dádiva tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela,
Por preço de meu amor?
— Minha rosa e minha vida...
Que por perdê-la perdida,
Me desfaleço de dor...
— Não me enlouqueças assim,
Vida minha! Flor tão bela
Nunca será para mim!
O que me darás, donzela?...
— Deixas-me triste e sombria.
Cismo... Não atino o quê...
Dava-te quanto podia...
Que queres mais que te dê?
Responde o moço destarte:
— Teu pensamento quero eu!
— Isso não... não posso dar-te...
Que há muito tempo ele é teu...
1 457
Manuel Bandeira
Epígrafe
Ela entrou com embaraço, tentou sorrir, e perguntou tristemente — se eu a reconhecia?
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia do que do
seu ar de extrema penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sorriso se lhe transmudou em ricto amargo. E os olhos ficaram baços, como duas poças de água suja...
Então, para cortar o soluço que adivinhei subindo de sua garganta, puxei-a
para ao pé de mim e, com doçura:
— Tu és a minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero
mais, com perdida volúpia, com desesperação e angústia...
O aspecto carnavalesco lhe vinha menos do frangalho de fantasia do que do
seu ar de extrema penúria. Fez por parecer alegre. Mas o sorriso se lhe transmudou em ricto amargo. E os olhos ficaram baços, como duas poças de água suja...
Então, para cortar o soluço que adivinhei subindo de sua garganta, puxei-a
para ao pé de mim e, com doçura:
— Tu és a minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero
mais, com perdida volúpia, com desesperação e angústia...
874
Manuel Bandeira
Pierrot Branco
Atrás de minha fronte esquálida,
Que em insônias se mortifica,
Brilha uma como chama pálida
De pálida, pálida mica...
Não a acendeu a ardente febre,
Ai de mim, da consumpção hética
Que esgalga, até que um dia a quebre,
A minha carcaça caquética!
Nem a alumiou a fantasia
Por velar de rúbido pejo
Aquela agitação sombria
Que em pancadas de mau desejo
Tortura o coração aflito,
Sugere requintes de gozo,
Por concriar — sonho infinito —
O andrógino miraculoso!
A chama que em suave lampejo
A esquálida tez me ilumina,
Não a ateou febre nem desejo,
— Mas um beijo de Colombina
Que em insônias se mortifica,
Brilha uma como chama pálida
De pálida, pálida mica...
Não a acendeu a ardente febre,
Ai de mim, da consumpção hética
Que esgalga, até que um dia a quebre,
A minha carcaça caquética!
Nem a alumiou a fantasia
Por velar de rúbido pejo
Aquela agitação sombria
Que em pancadas de mau desejo
Tortura o coração aflito,
Sugere requintes de gozo,
Por concriar — sonho infinito —
O andrógino miraculoso!
A chama que em suave lampejo
A esquálida tez me ilumina,
Não a ateou febre nem desejo,
— Mas um beijo de Colombina
1 301
Manuel Bandeira
Balada das Três Mulheres do Sabonete Araxá
As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam, me hipfnotizam.
Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde!
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!
Que outros, não eu, a pedra cortem
Para brutais vos adorarem,
Ó brancaranas azedas,
Mulatas cor da lua vêm saindo cor de prata
Ou celestes africanas:
Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá! São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do sabonete Araxá?
São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?
São as três Marias?
Meu Deus, serão as três Marias?
A mais nua é doirada borboleta.
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida, dava pra beber e nunca mais telefonava.
Mas se a terceira morresse... Oh, então, nunca mais a minha vida outrora teria sido um festim!
Se me perguntassem: Queres ser estrela? queres ser rei? queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana?
Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca. Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá:
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!
Teresópolis, 1931
Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde!
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!
Que outros, não eu, a pedra cortem
Para brutais vos adorarem,
Ó brancaranas azedas,
Mulatas cor da lua vêm saindo cor de prata
Ou celestes africanas:
Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá! São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do sabonete Araxá?
São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?
São as três Marias?
Meu Deus, serão as três Marias?
A mais nua é doirada borboleta.
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida, dava pra beber e nunca mais telefonava.
Mas se a terceira morresse... Oh, então, nunca mais a minha vida outrora teria sido um festim!
Se me perguntassem: Queres ser estrela? queres ser rei? queres uma ilha no Pacífico? um bangalô em Copacabana?
Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca. Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá:
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!
Teresópolis, 1931
1 530
1
Manuel Bandeira
Ad Instar Delphini
Teus pés são voluptuosos: é por isso
Que andas com tanta graça, ó Cassiopéia!
De onde te vem tal chama e tal feitiço,
Que dás idéia ao corpo, e corpo à idéia?
Camões, valei-me! Adamastor, Magriço,
Dai-me força, e tu, Vênus Citeréia,
Essa doçura, esse imortal derriço...
Quero também compor minha epopéia!
Não cantarei Helena e a antiga Tróia,
Nem as Missões e a nacional Lindóia,
Nem Deus, nem Diacho! Quero, oh por quem és,
Flor ou mulher, chave do meu destino,
Quero cantar, como cantou Delfino,
As duas curvas de dois brancos pés!
Que andas com tanta graça, ó Cassiopéia!
De onde te vem tal chama e tal feitiço,
Que dás idéia ao corpo, e corpo à idéia?
Camões, valei-me! Adamastor, Magriço,
Dai-me força, e tu, Vênus Citeréia,
Essa doçura, esse imortal derriço...
Quero também compor minha epopéia!
Não cantarei Helena e a antiga Tróia,
Nem as Missões e a nacional Lindóia,
Nem Deus, nem Diacho! Quero, oh por quem és,
Flor ou mulher, chave do meu destino,
Quero cantar, como cantou Delfino,
As duas curvas de dois brancos pés!
1 031
Manuel Bandeira
Vita Nuova
De onde me veio esse tremor de ninho
A alvorecer na morta madrugada?
Era todo o meu ser... Não era nada,
Senão na pele a sombra de um carinho.
Ah, bem velho carinho! Um desalinho
De dedos tontos no painel da escada...
Batia a minha cor multiplicada,
— Era o sangue de Deus mudado em vinho!
Bandeiras tatalavam no alto mastro
Do meu desejo. No fervor da espera
Clareou a distância o súbito alabastro.
E na memória, em nova primavera,
Revivesceu, candente como um astro,
A flor do sonho, o sonho da quimera.
A alvorecer na morta madrugada?
Era todo o meu ser... Não era nada,
Senão na pele a sombra de um carinho.
Ah, bem velho carinho! Um desalinho
De dedos tontos no painel da escada...
Batia a minha cor multiplicada,
— Era o sangue de Deus mudado em vinho!
Bandeiras tatalavam no alto mastro
Do meu desejo. No fervor da espera
Clareou a distância o súbito alabastro.
E na memória, em nova primavera,
Revivesceu, candente como um astro,
A flor do sonho, o sonho da quimera.
1 359
Manuel Bandeira
Confissão
Se não a vejo e o espírito a afigura,
Cresce este meu desejo de hora em hora...
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.
Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura...
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora...
E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo...
Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim... tão linda e rara...
Que hesito, balbucio e me acobardo.
Cresce este meu desejo de hora em hora...
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.
Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura...
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora...
E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo...
Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim... tão linda e rara...
Que hesito, balbucio e me acobardo.
1 144
Manuel Bandeira
Ternura
Enquanto nesta atroz demora,
Que me tortura, que me abrasa,
Espero a cobiçada hora
Em que irei ver-te à tua casa;
Por enganar o meu desejo
De inteira e descuidada posse,
Ai de nós! que não antevejo
Uma só vez que ao menos fosse;
Sentindo em minha carne langue
Toda a volúpia do teu sonho,
Toda a ternura do teu sangue,
Minh'alma nestes versos ponho;
Por que os escondas de teu seio
No doce e pequenino vale,
— Por que os envolva o teu enleio,
Por que o teu hálito os embale;
E o meu desejo, que assim foge
Ao pé de ti e te acarinha,
Possa sentir que és minha hoje,
E és para todo o sempre minha...
Que me tortura, que me abrasa,
Espero a cobiçada hora
Em que irei ver-te à tua casa;
Por enganar o meu desejo
De inteira e descuidada posse,
Ai de nós! que não antevejo
Uma só vez que ao menos fosse;
Sentindo em minha carne langue
Toda a volúpia do teu sonho,
Toda a ternura do teu sangue,
Minh'alma nestes versos ponho;
Por que os escondas de teu seio
No doce e pequenino vale,
— Por que os envolva o teu enleio,
Por que o teu hálito os embale;
E o meu desejo, que assim foge
Ao pé de ti e te acarinha,
Possa sentir que és minha hoje,
E és para todo o sempre minha...
782
Manuel Bandeira
Tempo-será
A Eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo,
E a palma de minha mão).
Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo,
E a palma de minha mão).
Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
2 059
Manuel Bandeira
Poemeto Irônico
O que tu chamas tua paixão,
E tão-somente curiosidade.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua pele.
Sonhas um ventre de alvura tal,
Que escuro o linho fique ao pé dele.
Dentre os perfumes sutis que vêm
Das suas charpas, dos seus vestidos,
Isolar tentas o odor que tem
A trama rara dos seus tecidos.
Encanto a encanto, toda a prevês.
Afagos longos, carinhos sábios,
Carícias lentas, de uma maciez
Que se diriam feitas por lábios...
Tu te perguntas, curioso, quais
Serão seus gestos, balbuciamento,
Quando descerdes nas espirais
Deslumbradoras do esquecimento...
E acima disso, buscas saber
Os seus instintos, suas tendências...
Espiar-lhe na alma por conhecer
O que há sincero nas aparências.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
O que tu chamas tua paixão,
É tão-somente curiosidade.
E tão-somente curiosidade.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
Curiosidade sentimental
Do seu aroma, da sua pele.
Sonhas um ventre de alvura tal,
Que escuro o linho fique ao pé dele.
Dentre os perfumes sutis que vêm
Das suas charpas, dos seus vestidos,
Isolar tentas o odor que tem
A trama rara dos seus tecidos.
Encanto a encanto, toda a prevês.
Afagos longos, carinhos sábios,
Carícias lentas, de uma maciez
Que se diriam feitas por lábios...
Tu te perguntas, curioso, quais
Serão seus gestos, balbuciamento,
Quando descerdes nas espirais
Deslumbradoras do esquecimento...
E acima disso, buscas saber
Os seus instintos, suas tendências...
Espiar-lhe na alma por conhecer
O que há sincero nas aparências.
E os teus desejos ferventes vão
Batendo as asas na irrealidade...
O que tu chamas tua paixão,
É tão-somente curiosidade.
2 032
Manuel Bandeira
A Fina, a Doce Ferida...
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.
Pois que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo!
Como uma adaga partida
Punge o golpe voluptuoso...
Que no peito sem repouso
Me arderá por toda a vida
A fina, a doce ferida...
Que foi a dor do meu gozo
Deixou quebranto amoroso
Na cicatriz dolorida.
Pois que ardor pecaminoso
Ateou a esta alma perdida
A fina, a doce ferida
Que foi a dor do meu gozo!
Como uma adaga partida
Punge o golpe voluptuoso...
Que no peito sem repouso
Me arderá por toda a vida
A fina, a doce ferida...
1 206
Manuel Bandeira
Ingênuo Enleio
Ingênuo enleio de surpresa,
Sutil afago em meus sentidos,
Foi para mim tua beleza,
À tua voz nos meus ouvidos.
Ao pé de ti, do mal antigo
Meu triste ser convalesceu.
Então me fiz teu grande amigo,
E teu afeto se me deu.
Mas o teu corpo tinha a graça
Das aves... Musical adejo...
Vela no mar que freme e passa...
E assim nasceu o meu desejo.
Depois, momento por momento,
Eu conheci teu coração.
E se mudou meu sentimento
Em doce e grave adoração.
Sutil afago em meus sentidos,
Foi para mim tua beleza,
À tua voz nos meus ouvidos.
Ao pé de ti, do mal antigo
Meu triste ser convalesceu.
Então me fiz teu grande amigo,
E teu afeto se me deu.
Mas o teu corpo tinha a graça
Das aves... Musical adejo...
Vela no mar que freme e passa...
E assim nasceu o meu desejo.
Depois, momento por momento,
Eu conheci teu coração.
E se mudou meu sentimento
Em doce e grave adoração.
1 364
Marina Colasanti
Ao nosso
Sentir teu pau crescer
depois do beijo
por entre o pano da calça
do lençol
da minha saia
delicada membrana entre nós dois
tecido
como hímen complacente
que cede
e que consente ao teu desejo.
depois do beijo
por entre o pano da calça
do lençol
da minha saia
delicada membrana entre nós dois
tecido
como hímen complacente
que cede
e que consente ao teu desejo.
1 106
Marina Colasanti
Pela janela aberta
Se deitada de costas
dobro as pernas afastando os joelhos
e se entre as pernas
olho
vejo ao longe a montanha emoldurada
pela encosta das coxas
canyon talhado em luz
que se aprofunda
na escura sombra do púbis.
O vértice dos montes
se confunde
no cume arredondado dos joelhos
das vertentes escorre
a promessa de vales.
Pele
e floresta
submergem
no canto lamentoso
das cigarras.
dobro as pernas afastando os joelhos
e se entre as pernas
olho
vejo ao longe a montanha emoldurada
pela encosta das coxas
canyon talhado em luz
que se aprofunda
na escura sombra do púbis.
O vértice dos montes
se confunde
no cume arredondado dos joelhos
das vertentes escorre
a promessa de vales.
Pele
e floresta
submergem
no canto lamentoso
das cigarras.
1 170
Marina Colasanti
Aberta frincha
Há tempos não abraço meu amado
com essa alma aberta
mais que os braços.
O corpo dele é tão parelho ao meu
que às vezes quando o envolvo
nos meus braços
é como se em meus braços
me abraçasse.
Mas hoje
uma frincha no espelho
me revela
que a pele dele não é minha pele
que suas coxas e peito são só dele.
E os corpos
tão alheios por instantes
por serem mais alheios
mais se querem.
com essa alma aberta
mais que os braços.
O corpo dele é tão parelho ao meu
que às vezes quando o envolvo
nos meus braços
é como se em meus braços
me abraçasse.
Mas hoje
uma frincha no espelho
me revela
que a pele dele não é minha pele
que suas coxas e peito são só dele.
E os corpos
tão alheios por instantes
por serem mais alheios
mais se querem.
1 136
Marina Colasanti
A coxa
Sendo redonda
a coxa
ainda assim tem
dois lados
pois tem um lado de fora
que sem medo se mostra
e tem um lado de dentro
que é sagrado.
No lado de fora
a coxa
é carne sem fronteira
que do joelho sobe
até a cintura
sem entrave ou ruptura
mas do lado de dentro
se fratura contra a beira fechada
da virilha.
Roliça, embora,
a coxa
como o diamante é
plurifacetada
próxima ao toque em
alguns pontos e
em outros
afastada.
Nem é a mesma
a pele
que os dois lados veste
e que ao olhar se diz inteira
e una
enquanto a mão
conhece a mais secreta e fina
que ao seu roçar
floresce
e aquela
que na quina do corpo
se oferece.
Mais que suporte
a coxa
é ponte levadiça
guardiã que a entrada
tranca a todo intruso,
defesa que se abaixa
repentina
para atrair o invasor
e
fazer uso.
a coxa
ainda assim tem
dois lados
pois tem um lado de fora
que sem medo se mostra
e tem um lado de dentro
que é sagrado.
No lado de fora
a coxa
é carne sem fronteira
que do joelho sobe
até a cintura
sem entrave ou ruptura
mas do lado de dentro
se fratura contra a beira fechada
da virilha.
Roliça, embora,
a coxa
como o diamante é
plurifacetada
próxima ao toque em
alguns pontos e
em outros
afastada.
Nem é a mesma
a pele
que os dois lados veste
e que ao olhar se diz inteira
e una
enquanto a mão
conhece a mais secreta e fina
que ao seu roçar
floresce
e aquela
que na quina do corpo
se oferece.
Mais que suporte
a coxa
é ponte levadiça
guardiã que a entrada
tranca a todo intruso,
defesa que se abaixa
repentina
para atrair o invasor
e
fazer uso.
1 237
Marina Colasanti
A LARGURA DE UM HOMEM
A largura de um homem
se mede
naquele exato ponto
que não sendo a cintura
está à altura dos rins
naquele ponto exato
em que a charneira do corpo
se dobra para o ato.
A largura de um homem
não é a mesma
quando caminha ou senta
e quando está deitado
porque de pé se apresenta
com uma frente que é larga
e um perfil que é magro
mas deitado se expande
e se faz todo massa
mesmo visto de lado.
Não é como a da estrada
atada à terra
e rasa
a largura de um homem.
É largura de rio
espessa e funda
que correndo no leito
de outro corpo não se contenta
e força
e desbarranca
as brancas margens
até abater
vencidos
os pilares das coxas
que o contêm.
se mede
naquele exato ponto
que não sendo a cintura
está à altura dos rins
naquele ponto exato
em que a charneira do corpo
se dobra para o ato.
A largura de um homem
não é a mesma
quando caminha ou senta
e quando está deitado
porque de pé se apresenta
com uma frente que é larga
e um perfil que é magro
mas deitado se expande
e se faz todo massa
mesmo visto de lado.
Não é como a da estrada
atada à terra
e rasa
a largura de um homem.
É largura de rio
espessa e funda
que correndo no leito
de outro corpo não se contenta
e força
e desbarranca
as brancas margens
até abater
vencidos
os pilares das coxas
que o contêm.
1 066
Marina Colasanti
AO REDOR
Ao redor, a pele.
Que como a moeda
tem verso e reverso
onde só o verso reconhecemos
e chamamos por nome
pois ao reverso dizemos
carne.
Que como a folha
respira sem orificios
em toda sua lisa forma
incapaz porém
de clorofila e verde.
Que ao contrário do mar
é toda superficie
as suas funduras sendo
superficies secretas
Que como a água
que como o vento
se move sem ruído ou movimento
parada igual
e sempre irredutível.
A pele toma a forma
do corpo que contém?
Ou o corpo
dócil
à pele obedece?
Lisa ao olhar
embora as cicatrizes
a pele abriga o pó
e ao seu peso se entrega
e se desfaz.
Casca sensivel
que a faca fere
que a pedra rasga
que a força esmaga
a pele
não tem ferocidade.
É pele a unha
que da pele sai
ou ser estranho
que a pele abriga
como o areal
abriga a concha?
A pele não se deixa
penetrar por dedos.
A pele não cede à pele
mas com ela se magoa.
A pele
na pele
não deixa marcas.
E no entanto se rompe
para os olhos
o sexo
os orificios.
Se rompe?
Ou abre-se em texturas
e se permite conhecer aquilo
que interno
lhe é tão próximo
e distante?
Que como a moeda
tem verso e reverso
onde só o verso reconhecemos
e chamamos por nome
pois ao reverso dizemos
carne.
Que como a folha
respira sem orificios
em toda sua lisa forma
incapaz porém
de clorofila e verde.
Que ao contrário do mar
é toda superficie
as suas funduras sendo
superficies secretas
Que como a água
que como o vento
se move sem ruído ou movimento
parada igual
e sempre irredutível.
A pele toma a forma
do corpo que contém?
Ou o corpo
dócil
à pele obedece?
Lisa ao olhar
embora as cicatrizes
a pele abriga o pó
e ao seu peso se entrega
e se desfaz.
Casca sensivel
que a faca fere
que a pedra rasga
que a força esmaga
a pele
não tem ferocidade.
É pele a unha
que da pele sai
ou ser estranho
que a pele abriga
como o areal
abriga a concha?
A pele não se deixa
penetrar por dedos.
A pele não cede à pele
mas com ela se magoa.
A pele
na pele
não deixa marcas.
E no entanto se rompe
para os olhos
o sexo
os orificios.
Se rompe?
Ou abre-se em texturas
e se permite conhecer aquilo
que interno
lhe é tão próximo
e distante?
1 155
Marina Colasanti
ALI, ONDE
Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
1 193
Marina Colasanti
CARNAVAL EM FRIBURGO
Dirigiam trator à tarde
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
973
Marina Colasanti
CARNE DE LEITE E LUA
Nenhuma mulher foi mais branca
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
1 179
Marina Colasanti
SIM, PODE-SE
Podem-se abrir as pernas
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
1 043
Allen Ginsberg
Escrito no meu sonho W. C. Williams
“Já que você
carrega
uma
conhecida
verdade
Mais
conhecida como
Desejo
Pra quê
vesti-la de
adornos
ou torcê-la até
ficar
sob medida
para ser
entendida?
Arrisque-se –
Nariz
olhos orelhas
língua
sexo e
cérebro
atirados ao
público
Confie
no seu
próprio
taco
Escute
você mesmo
Fale com
você mesmo
e outros
o farão
felizes,
aliviados
de um fardo –
seu próprio
pensar
e pesar.
O que era
Desejo
terá ainda
mais brilho.”
23 de Novembro, 1984
carrega
uma
conhecida
verdade
Mais
conhecida como
Desejo
Pra quê
vesti-la de
adornos
ou torcê-la até
ficar
sob medida
para ser
entendida?
Arrisque-se –
Nariz
olhos orelhas
língua
sexo e
cérebro
atirados ao
público
Confie
no seu
próprio
taco
Escute
você mesmo
Fale com
você mesmo
e outros
o farão
felizes,
aliviados
de um fardo –
seu próprio
pensar
e pesar.
O que era
Desejo
terá ainda
mais brilho.”
23 de Novembro, 1984
716
Marina Colasanti
POR UMA LUZ
O que foi que te fez
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
1 084