Poemas neste tema
Destino e Superação
Pablo Neruda
Esperemos
Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
— há fábricas de dias que virão —
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
— há fábricas de dias que virão —
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.
1 484
Murillo Mendes
Panfletos
Eu recebi o mal e a miséria
De meu pai que os recebeu de meu avô
Que os recebeu de seus avós
Que os receberam de Adão
Que os recebeu de Eva
Que os recebeu de Satã
Que foi criado por Deus.
Não me conformo e destruirei em mim a fome a peste a guerra e a morte
De meu pai que os recebeu de meu avô
Que os recebeu de seus avós
Que os receberam de Adão
Que os recebeu de Eva
Que os recebeu de Satã
Que foi criado por Deus.
Não me conformo e destruirei em mim a fome a peste a guerra e a morte
544
José Saramago
Virgindade
Não essa que o pudor um dia larga,
Não essa que foi miragem e é negaça.
A porta derradeira é a que importa:
Caçador que porfia, mata caça.
Não essa que foi miragem e é negaça.
A porta derradeira é a que importa:
Caçador que porfia, mata caça.
1 211
José Saramago
Baralho
Lanço na mesa as cartas de jogar:
Os amores de cartão e as espadas,
Os losangos vermelhos de ouro falso,
A trilobada folha que ameaça.
Caso e descaso as damas e os valetes.
Andam os reis pasmados nesta farsa.
E quando conto os pontos da derrota,
Sai-me de lá a rir, como perdido,
Na figura do bobo o meu retrato.
Os amores de cartão e as espadas,
Os losangos vermelhos de ouro falso,
A trilobada folha que ameaça.
Caso e descaso as damas e os valetes.
Andam os reis pasmados nesta farsa.
E quando conto os pontos da derrota,
Sai-me de lá a rir, como perdido,
Na figura do bobo o meu retrato.
1 175
José Saramago
Tenho a Alma Queimada
Tenho a alma queimada
Por saliva de sapo
Fingindo que descubro
Tapo
A palavra me infecta
Sob a pele da aparência
Deito o certo remédio
Paciência
Neste mal não se vive
Mas também ninguém morre
Quando a ave não voa
Corre
Quem às estrelas não chega
Pode vê-las da terra
Quem não tem voz de cantar
Berra
Por saliva de sapo
Fingindo que descubro
Tapo
A palavra me infecta
Sob a pele da aparência
Deito o certo remédio
Paciência
Neste mal não se vive
Mas também ninguém morre
Quando a ave não voa
Corre
Quem às estrelas não chega
Pode vê-las da terra
Quem não tem voz de cantar
Berra
1 081
José Saramago
Elegia À Moda Antiga
Nem tão tarde que me farte
Nem que me raive de cedo
Quando o mundo não tiver
Nada mais por descobrir
Quando o amor se acabar
Morra com ele o desejo
De ficar a ver as sobras
Os restos da vida cheia
Parado à beira do rio
Onde as águas não descansam
No outro lado milagres
E margens verdes eternas
Enterro os dedos no lodo
Quatrocentas gerações
Um grande sonho pairando
Enquanto o céu se carrega
Ai o destino dos homens
Ai o destino de mim
Corta-se a voz ao para encontrar
Consolo só no fim
Nem que me raive de cedo
Quando o mundo não tiver
Nada mais por descobrir
Quando o amor se acabar
Morra com ele o desejo
De ficar a ver as sobras
Os restos da vida cheia
Parado à beira do rio
Onde as águas não descansam
No outro lado milagres
E margens verdes eternas
Enterro os dedos no lodo
Quatrocentas gerações
Um grande sonho pairando
Enquanto o céu se carrega
Ai o destino dos homens
Ai o destino de mim
Corta-se a voz ao para encontrar
Consolo só no fim
1 094
José Saramago
Flor de Cacto
Flor de cacto, flor que se arrancou
À secura do chão.
Era aí o deserto, a pedra dura,
A sede e a solidão.
Sobre a palma de espinhos, triunfante,
Flor, ou coração?
À secura do chão.
Era aí o deserto, a pedra dura,
A sede e a solidão.
Sobre a palma de espinhos, triunfante,
Flor, ou coração?
2 936
José Saramago
No Teu Ombro Pousada
No teu ombro pousada, a minha mão
Toma posse do mundo. Outro sinal
Não proponho de mim ao que defino:
Que no mínimo espaço desse gesto
Se desenhem as formas do destino.
Toma posse do mundo. Outro sinal
Não proponho de mim ao que defino:
Que no mínimo espaço desse gesto
Se desenhem as formas do destino.
1 074
Vinicius de Moraes
Fim
Será que cheguei ao fim de todos os caminhos
E só resta a possibilidade de permanecer?
Será a Verdade apenas um incentivo à caminhada
Ou será ela a própria caminhada?
Terão mentido os que surgiram da treva e gritaram — Espírito!
E gritaram — Coragem!
Rasgarei as mãos nas pedras da enorme muralha
Que fecha tudo à libertação?
Lançarei meu corpo à vala comum dos falidos
Ou cairei lutando contra o impossível que antolha-me os passos
Apenas pela glória de tombar lutando?
Será que eu cheguei ao fim de todos os caminhos...
Ao fim de todos os caminhos?
E só resta a possibilidade de permanecer?
Será a Verdade apenas um incentivo à caminhada
Ou será ela a própria caminhada?
Terão mentido os que surgiram da treva e gritaram — Espírito!
E gritaram — Coragem!
Rasgarei as mãos nas pedras da enorme muralha
Que fecha tudo à libertação?
Lançarei meu corpo à vala comum dos falidos
Ou cairei lutando contra o impossível que antolha-me os passos
Apenas pela glória de tombar lutando?
Será que eu cheguei ao fim de todos os caminhos...
Ao fim de todos os caminhos?
637
Vinicius de Moraes
Sacrifício
Num instante foi o sangue, o horror, a morte na lama do chão.
— Segue, disse a voz. E o homem seguiu, impávido
Pisando o sangue do chão, vibrando, na luta.
No ódio do monstro que vinha
Abatendo com o peito a miséria que vivia na terra
O homem sentiu a própria grandeza
E gritou que o heroísmo é das almas incompreendidas.
Ele avançou.
Com o fogo da luta no olhar ele avançou sozinho.
As únicas estrelas que restavam no céu
Desapareceram ofuscadas ao brilho fictício da lua.
O homem sozinho, abandonado na treva
Gritou que a treva é das almas traídas
E que o sacrifício é a luz que redime.
Ele avançou.
Sem temer ele olhou a morte que vinha
E viu na morte o sentido da vitória do Espírito.
No horror do choque tremendo
Aberto em feridas o peito
O homem gritou que a traição é da alma covarde
E que o forte que luta é como o raio que fere
E que deixa no espaço o estrondo da sua vinda.
No sangue e na lama
O corpo sem vida tombou.
Mas nos olhos do homem caído
Havia ainda a luz do sacrifício que redime
E no grande Espírito que adejava o mar e o monte
Mil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na luta
Era o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo.
— Segue, disse a voz. E o homem seguiu, impávido
Pisando o sangue do chão, vibrando, na luta.
No ódio do monstro que vinha
Abatendo com o peito a miséria que vivia na terra
O homem sentiu a própria grandeza
E gritou que o heroísmo é das almas incompreendidas.
Ele avançou.
Com o fogo da luta no olhar ele avançou sozinho.
As únicas estrelas que restavam no céu
Desapareceram ofuscadas ao brilho fictício da lua.
O homem sozinho, abandonado na treva
Gritou que a treva é das almas traídas
E que o sacrifício é a luz que redime.
Ele avançou.
Sem temer ele olhou a morte que vinha
E viu na morte o sentido da vitória do Espírito.
No horror do choque tremendo
Aberto em feridas o peito
O homem gritou que a traição é da alma covarde
E que o forte que luta é como o raio que fere
E que deixa no espaço o estrondo da sua vinda.
No sangue e na lama
O corpo sem vida tombou.
Mas nos olhos do homem caído
Havia ainda a luz do sacrifício que redime
E no grande Espírito que adejava o mar e o monte
Mil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na luta
Era o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo.
1 186
Vinicius de Moraes
Romanza
Branca mulher de olhos claros
De olhar branco e luminoso
Que tinhas luz nas pupilas
E luz nos cabelos louros
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?
Andavas sempre sozinha
Sem cão, sem homem, sem Deus
Eu te seguia sozinho
Sem cão, sem mulher, sem Deus
Eras a imagem de um sonho
A imagem de um sonho eu era
Ambos levando a tristeza
Dos que andam em busca do sonho.
Ias sempre, sempre andando
E eu ia sempre seguindo
Pisando na tua sombra
Vendo-a às vezes se afastar
Nem sabias quem eu era
Não te assustavam meus passos
Tu sempre andando na frente
Eu sempre atrás caminhando.
Toda a noite em minha casa
Passavas na caminhada
Eu te esperava e seguia
Na proteção do meu passo
E após o curto caminho
Da praia de ponta a ponta
Entravas na tua casa
E eu ia, na caminhada.
Eu te amei, mulher serena
Amei teu vulto distante
Amei teu passo elegante
E a tua beleza clara
Na noite que sempre vinha
Mas sempre custava tanto
Eu via a hora suprema
Das horas da minha vida.
Eu te seguia e sonhava
Sonhava que te seguia
Esperava ansioso o instante
De defender-te de alguém
E então meu passo mais forte
Dizia: quero falar-te
E o teu, mais brando, dizia:
Se queres destruir... vem.
Eu ficava. E te seguia
Pelo deserto da praia
Até avistar a casa
Pequena e branca da esquina.
Entravas. Por um momento
Esperavas que eu passasse
Para o olhar de boa-noite
E o olhar de até-amanhã.
Quase um ano o nosso idílio.
Uma noite... não passaste.
Esperei-te ansioso, inquieto
Mas não vieste. Por quê?
Foste embora? Procuraste
O amor de algum outro passo
Que em vez de seguir-te sempre
Andasse sempre ao teu lado?
Eu ando agora sozinho
Na praia longa e deserta
Eu ando agora sozinho
Por que fugiste? Por quê?
Ao meu passo solitário
Triste e incerto como nunca
Só responde a voz das ondas
Que se esfacelam na areia.
Branca mulher de olhos claros
Minha alma ainda te deseja
Traze ao meu passo cansado
A alegria do teu passo
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?
De olhar branco e luminoso
Que tinhas luz nas pupilas
E luz nos cabelos louros
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?
Andavas sempre sozinha
Sem cão, sem homem, sem Deus
Eu te seguia sozinho
Sem cão, sem mulher, sem Deus
Eras a imagem de um sonho
A imagem de um sonho eu era
Ambos levando a tristeza
Dos que andam em busca do sonho.
Ias sempre, sempre andando
E eu ia sempre seguindo
Pisando na tua sombra
Vendo-a às vezes se afastar
Nem sabias quem eu era
Não te assustavam meus passos
Tu sempre andando na frente
Eu sempre atrás caminhando.
Toda a noite em minha casa
Passavas na caminhada
Eu te esperava e seguia
Na proteção do meu passo
E após o curto caminho
Da praia de ponta a ponta
Entravas na tua casa
E eu ia, na caminhada.
Eu te amei, mulher serena
Amei teu vulto distante
Amei teu passo elegante
E a tua beleza clara
Na noite que sempre vinha
Mas sempre custava tanto
Eu via a hora suprema
Das horas da minha vida.
Eu te seguia e sonhava
Sonhava que te seguia
Esperava ansioso o instante
De defender-te de alguém
E então meu passo mais forte
Dizia: quero falar-te
E o teu, mais brando, dizia:
Se queres destruir... vem.
Eu ficava. E te seguia
Pelo deserto da praia
Até avistar a casa
Pequena e branca da esquina.
Entravas. Por um momento
Esperavas que eu passasse
Para o olhar de boa-noite
E o olhar de até-amanhã.
Quase um ano o nosso idílio.
Uma noite... não passaste.
Esperei-te ansioso, inquieto
Mas não vieste. Por quê?
Foste embora? Procuraste
O amor de algum outro passo
Que em vez de seguir-te sempre
Andasse sempre ao teu lado?
Eu ando agora sozinho
Na praia longa e deserta
Eu ando agora sozinho
Por que fugiste? Por quê?
Ao meu passo solitário
Triste e incerto como nunca
Só responde a voz das ondas
Que se esfacelam na areia.
Branca mulher de olhos claros
Minha alma ainda te deseja
Traze ao meu passo cansado
A alegria do teu passo
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?
1 282
Martha Medeiros
você teria ido sem mim
você teria ido sem mim
mesmo que eu não me atrasasse
você teria dito tudo aquilo
mesmo que eu não te ofendesse
você teria me deixado
mesmo que eu não propusesse
você faz tudo o que quer
mas sou eu que deixo tudo preparado
mesmo que eu não me atrasasse
você teria dito tudo aquilo
mesmo que eu não te ofendesse
você teria me deixado
mesmo que eu não propusesse
você faz tudo o que quer
mas sou eu que deixo tudo preparado
1 114
Martha Medeiros
de um rali que escapei
de um rali que escapei
quase ilesa
um pouco de lama na alma
e olho injetado de dor
descobri novas marchas
copilota de planos que não tinha
tirei meu nome do mapa
e segui a trilha sozinha
quase ilesa
um pouco de lama na alma
e olho injetado de dor
descobri novas marchas
copilota de planos que não tinha
tirei meu nome do mapa
e segui a trilha sozinha
1 143
Martha Medeiros
o caminho é este
o caminho é este
tem pedra, tem sol
tem bandido, mocinho
tem você amando
tem você sozinho
é só escolher
ou vai, ou fica.
fui.
tem pedra, tem sol
tem bandido, mocinho
tem você amando
tem você sozinho
é só escolher
ou vai, ou fica.
fui.
1 137
Martha Medeiros
marquei um encontro com o destino
marquei um encontro com o destino
mas cheguei antes da hora e não deu pra esperar
segui outro caminho e fui dar o que falar
mas cheguei antes da hora e não deu pra esperar
segui outro caminho e fui dar o que falar
1 107
Sophia de Mello Breyner Andresen
Anjos Sem Asas Meus Anjos Pesados
De boca sem voz
As fadas que disseram os maus fados
Falavam de vós
De mãos dadas em círculos dançantes
Infinita valsa
Todos brilhavam como diamantes
Madrugada falsa
E eu chorando e cantando fui levada
Pálida e morta
Até à taciturna encruzilhada
Duma estrada torta
1940
As fadas que disseram os maus fados
Falavam de vós
De mãos dadas em círculos dançantes
Infinita valsa
Todos brilhavam como diamantes
Madrugada falsa
E eu chorando e cantando fui levada
Pálida e morta
Até à taciturna encruzilhada
Duma estrada torta
1940
1 214
Sophia de Mello Breyner Andresen
Elegia
Aprende
A não esperar por ti pois não te encontrarás
No instante de dizer sim ao destino
Incerta paraste emudecida
E os oceanos depois devagar te rodearam
A isso chamaste Orpheu Eurydice —
Incessante intensa a lira vibrava ao lado
Do desfilar real dos teus dias
Nunca se distingue bem o vivido do não vivido
O encontro do fracasso —
Quem se lembra do fino escorrer da areia na ampulheta
Quando se ergue o canto
Por isso a memória sequiosa quer vir à tona
Em procura da parte que não deste
No rouco instante da noite mais calada
Ou no secreto jardim à beira-rio
Em Junho
1994
A não esperar por ti pois não te encontrarás
No instante de dizer sim ao destino
Incerta paraste emudecida
E os oceanos depois devagar te rodearam
A isso chamaste Orpheu Eurydice —
Incessante intensa a lira vibrava ao lado
Do desfilar real dos teus dias
Nunca se distingue bem o vivido do não vivido
O encontro do fracasso —
Quem se lembra do fino escorrer da areia na ampulheta
Quando se ergue o canto
Por isso a memória sequiosa quer vir à tona
Em procura da parte que não deste
No rouco instante da noite mais calada
Ou no secreto jardim à beira-rio
Em Junho
1994
1 296
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Príncipe Bastardo
O príncipe bastardo António Prior do Crato
Morreu no exílio não conquistou seu reino
E aqueles que invocou não o coroaram
Entre ele e seu destino havia um outro
Perdido em batalha tão confusa
Que ninguém sabe se está vivo ou morto
Morreu no exílio não conquistou seu reino
E aqueles que invocou não o coroaram
Entre ele e seu destino havia um outro
Perdido em batalha tão confusa
Que ninguém sabe se está vivo ou morto
1 047
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iv. Ele Porém Dobrou o Cabo E Não Achou a Índia
Ele porém dobrou o cabo e não achou a Índia
E o mar o devorou com o instinto de destino que há no mar
1982
E o mar o devorou com o instinto de destino que há no mar
1982
1 389
Sophia de Mello Breyner Andresen
Procelária
É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento
Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento
Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo
2 006
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. Faz da Tua Vida Em Frente À Luz
Faz da tua vida em frente à luz
Um lúcido terraço exacto e branco,
Docemente cortado
Pelo rio das noites.
Alheio o passo em tão perdida estrada
Vive, sem seres ele, o teu destino.
Inflexível assiste
À tua própria ausência.
Um lúcido terraço exacto e branco,
Docemente cortado
Pelo rio das noites.
Alheio o passo em tão perdida estrada
Vive, sem seres ele, o teu destino.
Inflexível assiste
À tua própria ausência.
1 182
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. o Escultor E a Tarde
No meio da tarde
Um homem caminha:
Tudo em suas mãos
Se multiplica e brilha.
O tempo onde ele mora
É completo e denso
Semelhante ao fruto
Interiormente aceso.
No meio da tarde
O escultor caminha:
Por trás de uma porta
Que se abre sozinha
O destino espera.
E depois a porta
Se fecha gemendo
Sobre a Primavera.
Um homem caminha:
Tudo em suas mãos
Se multiplica e brilha.
O tempo onde ele mora
É completo e denso
Semelhante ao fruto
Interiormente aceso.
No meio da tarde
O escultor caminha:
Por trás de uma porta
Que se abre sozinha
O destino espera.
E depois a porta
Se fecha gemendo
Sobre a Primavera.
2 004