Poemas neste tema
Destino e Superação
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. o Escultor E a Tarde
No meio da tarde
Um homem caminha:
Tudo em suas mãos
Se multiplica e brilha.
O tempo onde ele mora
É completo e denso
Semelhante ao fruto
Interiormente aceso.
No meio da tarde
O escultor caminha:
Por trás de uma porta
Que se abre sozinha
O destino espera.
E depois a porta
Se fecha gemendo
Sobre a Primavera.
Um homem caminha:
Tudo em suas mãos
Se multiplica e brilha.
O tempo onde ele mora
É completo e denso
Semelhante ao fruto
Interiormente aceso.
No meio da tarde
O escultor caminha:
Por trás de uma porta
Que se abre sozinha
O destino espera.
E depois a porta
Se fecha gemendo
Sobre a Primavera.
2 004
Adélia Prado
Ícaro
Caminho sobre o planeta
como os equilibristas em suas bolas gigantes,
não se sai do lugar,
de si mesmo não se pode sair.
Aviões, dirigíveis, saltos de alta montanha
confrangem o coração.
O voo aborta sempre.
Ainda que em chão de lua,
todo destino é o chão.
como os equilibristas em suas bolas gigantes,
não se sai do lugar,
de si mesmo não se pode sair.
Aviões, dirigíveis, saltos de alta montanha
confrangem o coração.
O voo aborta sempre.
Ainda que em chão de lua,
todo destino é o chão.
1 727
Adélia Prado
Agora, Ó José
É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
o que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”,
“Tu és pedra e sobre esta pedra”,
a pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
o que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”,
“Tu és pedra e sobre esta pedra”,
a pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.
1 693
Carlos Drummond de Andrade
Aos Atletas
Os poetas haviam composto suas odes
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.
Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.
Que importa hajam perdido?
Que importa o não ter sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?
É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?
Nem valia ter ganho
a esquiva Copa
e dar a volta olímpica no estádio
se fosse para tê-la em nossa copa
eternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.
Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.
Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.
Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
24/07/1966
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.
Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.
Que importa hajam perdido?
Que importa o não ter sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?
É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?
Nem valia ter ganho
a esquiva Copa
e dar a volta olímpica no estádio
se fosse para tê-la em nossa copa
eternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.
Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.
Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.
Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.
24/07/1966
1 926
Carlos Drummond de Andrade
Sussurro
Se não erro
ao decifrar a voz dos vegetais,
eis que suspira a muda de pau-ferro
no silêncio do ser:
— Eu sei que fui plantada
com música, discurso e tudo mais,
para a alguém, no futuro, oferecer
sem discurso e sem música o prazer
da derrubada.
ao decifrar a voz dos vegetais,
eis que suspira a muda de pau-ferro
no silêncio do ser:
— Eu sei que fui plantada
com música, discurso e tudo mais,
para a alguém, no futuro, oferecer
sem discurso e sem música o prazer
da derrubada.
1 230
Carlos Drummond de Andrade
O Chamado
Na rua escura o velho poeta
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.
Ao vê-lo curvo e desgarrado
na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.
E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai — a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?
A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.
E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.
(lume de minha mocidade)
já não criava, simples criatura
exposta aos ventos da cidade.
Ao vê-lo curvo e desgarrado
na caótica noite urbana,
o que senti, não alegria,
era, talvez, carência humana.
E pergunto ao poeta, pergunto-lhe
(numa esperança que não digo)
para onde vai — a que angra serena,
a que Pasárgada, a que abrigo?
A palavra oscila no espaço
um momento. Eis que, sibilino,
entre as aparências sem rumo,
responde o poeta: Ao meu destino.
E foi-se para onde a intuição,
o amor, o risco desejado
o chamavam, sem que ninguém
pressentisse, em torno, o Chamado.
1 183
Carlos Drummond de Andrade
As Letras Em Jantar
Meu primeiro banquete literário.
O espelho art nouveau do Hotel Avenida
reflete doze ilustres escritores.
Convidado! sento à mesa dos ilustres,
ilustre me tornando em potencial,
representante da escola, por nascer,
dos bárbaros futuristas do Curral.
Osvaldo de Araújo, Aldo Delfino,
Mário Mendes Campos, cristais, flores,
Abílio Barreto, Silva Guimaraens,
Rangel Coelho, quem mais? Não os distingo,
pois nem distingo a mim, de tão repleta
esta hora (o vinho, a carne) de horizontes.
Qual a razão do bródio? Precisa haver razão
para bródios? As letras mandam
comer, sorver a glória deste instante,
Agripa de Vasconcelos, o poeta,
recém-eleito acadêmico mineiro,
oferece-nos o prândio. Na verdade
nós é que devíamos prestar-lhe
este preito ritual.
Mas ele paga. E recita
à sobremesa, com voz clara:
“O meu destino… onde me levará?”.
A pergunta ressoa (garfos, copos)
e ninguém na mesa em festa ousa fazer
de si para si mesmo
a grave indagação.
Quedamos importantes, paralisados,
na foto de magnésio.
O espelho art nouveau do Hotel Avenida
reflete doze ilustres escritores.
Convidado! sento à mesa dos ilustres,
ilustre me tornando em potencial,
representante da escola, por nascer,
dos bárbaros futuristas do Curral.
Osvaldo de Araújo, Aldo Delfino,
Mário Mendes Campos, cristais, flores,
Abílio Barreto, Silva Guimaraens,
Rangel Coelho, quem mais? Não os distingo,
pois nem distingo a mim, de tão repleta
esta hora (o vinho, a carne) de horizontes.
Qual a razão do bródio? Precisa haver razão
para bródios? As letras mandam
comer, sorver a glória deste instante,
Agripa de Vasconcelos, o poeta,
recém-eleito acadêmico mineiro,
oferece-nos o prândio. Na verdade
nós é que devíamos prestar-lhe
este preito ritual.
Mas ele paga. E recita
à sobremesa, com voz clara:
“O meu destino… onde me levará?”.
A pergunta ressoa (garfos, copos)
e ninguém na mesa em festa ousa fazer
de si para si mesmo
a grave indagação.
Quedamos importantes, paralisados,
na foto de magnésio.
1 033
Carlos Drummond de Andrade
Os Assassinos
Os assassinos vêm de longe.
Vêm do Onça, do Periquito, das Bateias,
da Serra do Alves.
Sangue seco nos dedos, olhar duro,
na roupa o crime escrito.
Os assassinos alçam a foice
na curva da estrada. A gameleira
conta o que viu e foi um brilho desabando
na entranha do inimigo.
Estavam destinados a matar.
Mamaram leite turvo.
Na escola eram diferentes.
As namoradas estranhavam
seus beijos sem doçura.
A terra decidiu que matassem.
Cumpriram, sem discutir.
Júri mais concorrido do que missa.
Vêm do Onça, do Periquito, das Bateias,
da Serra do Alves.
Sangue seco nos dedos, olhar duro,
na roupa o crime escrito.
Os assassinos alçam a foice
na curva da estrada. A gameleira
conta o que viu e foi um brilho desabando
na entranha do inimigo.
Estavam destinados a matar.
Mamaram leite turvo.
Na escola eram diferentes.
As namoradas estranhavam
seus beijos sem doçura.
A terra decidiu que matassem.
Cumpriram, sem discutir.
Júri mais concorrido do que missa.
1 248
António Ramos Rosa
Onde Ainda Não Nasci
Será montanha e amoroso destino.
Será sob a ligeira pele o peito vivo.
Será uma ilha que navega silenciosa.
Ou não será mais que uma cabeça, uma penumbra.
Ou uma delicada mão lentamente pousada.
Olho a tua fronte sossegada, a tua sombra ébria.
Envolvo-me na tua cabeleira fulgurante.
Sim, quero viver onde ainda não nasci,
onde ainda é noite e há um navio frágil sobre os ombros.
Eis o instante em que o mundo roda
e a madeira dos gritos antigos se incendeia
e uma voz entre os ramos canta a terra nua.
Já nada me separa de uma matéria lúcida
que trabalho e acaricio com o meu corpo inteiro.
Uma abóbada se curva em torno das carícias
que esculpem as palavras brancas e violentas.
Será sob a ligeira pele o peito vivo.
Será uma ilha que navega silenciosa.
Ou não será mais que uma cabeça, uma penumbra.
Ou uma delicada mão lentamente pousada.
Olho a tua fronte sossegada, a tua sombra ébria.
Envolvo-me na tua cabeleira fulgurante.
Sim, quero viver onde ainda não nasci,
onde ainda é noite e há um navio frágil sobre os ombros.
Eis o instante em que o mundo roda
e a madeira dos gritos antigos se incendeia
e uma voz entre os ramos canta a terra nua.
Já nada me separa de uma matéria lúcida
que trabalho e acaricio com o meu corpo inteiro.
Uma abóbada se curva em torno das carícias
que esculpem as palavras brancas e violentas.
1 050
António Ramos Rosa
Ao Sabor do Mundo, Na Deriva
Ao sabor do mundo, na deriva
que conduz aos confins do advir
o que inicia em suaves surpresas
até que o silêncio seja um puro acorde
de estar no sustentáculo ilimitado.
que conduz aos confins do advir
o que inicia em suaves surpresas
até que o silêncio seja um puro acorde
de estar no sustentáculo ilimitado.
942
António Ramos Rosa
O Corpo Talhado
duro é o silêncio, e são os ossos. duro
é também o veneno dos dias transparentes
ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE
Um sopro nas escadas leves
uma frase inútil
e frágil
a tessitura expõe-se na nudez
a boca do compacto e os seus ouvidos
lentos duro
é o silêncio e são os ossos
onde talharam o corpo e o dobraram
com suas lâmpadas de ferro
escondeu-se o luto da manhã abriu-se a vala
azul do espaço
duro é o destino dos ossos duro é o sol
esta é a pequena noite de uma face
um minúsculo corpo abre a sua ferida sideral
unas são as sombras das pernas traves
silenciosas
o corpo recebe o grande barco do sepulcro
da água
o vento levantou as pálpebras das palavras
um íman novo atraiu imponderáveis
vocábulos animais
de veludo e pedra sobre as dunas
o ar é a sílaba mais viva ouve-se
o desespero de um pássaro soterrado
Já ninguém diz qual a face do vento
obscuro nem qual o ângulo
da água Máscaras do mar
viúvas de sangue
abrem o ventre estéril o simulacro
arroja a sua coroa rubra
Os pés nus pisam o cérebro dos vocábulos
é também o veneno dos dias transparentes
ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE
Um sopro nas escadas leves
uma frase inútil
e frágil
a tessitura expõe-se na nudez
a boca do compacto e os seus ouvidos
lentos duro
é o silêncio e são os ossos
onde talharam o corpo e o dobraram
com suas lâmpadas de ferro
escondeu-se o luto da manhã abriu-se a vala
azul do espaço
duro é o destino dos ossos duro é o sol
esta é a pequena noite de uma face
um minúsculo corpo abre a sua ferida sideral
unas são as sombras das pernas traves
silenciosas
o corpo recebe o grande barco do sepulcro
da água
o vento levantou as pálpebras das palavras
um íman novo atraiu imponderáveis
vocábulos animais
de veludo e pedra sobre as dunas
o ar é a sílaba mais viva ouve-se
o desespero de um pássaro soterrado
Já ninguém diz qual a face do vento
obscuro nem qual o ângulo
da água Máscaras do mar
viúvas de sangue
abrem o ventre estéril o simulacro
arroja a sua coroa rubra
Os pés nus pisam o cérebro dos vocábulos
1 036
António Ramos Rosa
O Que Eu Movo
O que eu movo
até
onde não sei
suspendo
e algo avança
à minha frente
até
onde não sei
suspendo
e algo avança
à minha frente
1 103
António Ramos Rosa
Acende-Se o Desejo E É Tão Precária a Voz!
Acende-se o desejo e é tão precária a voz!
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
Ou ainda não tão pobre que se ouça
na humidade da erva, na limpidez do ar.
Quem me desperta? Quem sou eu? Quem somos nós?
Nele tudo se conjugaria, essencial.
O quotidiano e a palavra idêntica.
Mas o destino e a liberdade nascem
na distorção das linhas, nos encontros.
Eu não sou a voz do personagem mudo.
Entre o interior e o exterior confundo-o.
Se passa além, nas árvores, se o distingo
sou eu ainda que o desenho ou crio.
Pobre invenção, visão tão pobre!
Serei igual a ti, na confusão ou não.
Porque estou só, com todos, todos sós.
517
António Ramos Rosa
Onde o Caminho
Onde o caminho é um dorso
enrugado
sem o fogo do ar.
Que difícil acender uma folha!
Formar o braço
e o pulso do caminho.
Entre as ervas uma pedra branca.
enrugado
sem o fogo do ar.
Que difícil acender uma folha!
Formar o braço
e o pulso do caminho.
Entre as ervas uma pedra branca.
1 092
António Ramos Rosa
Aqui Seria a Mancha Mais Clara
Aqui seria a mancha mais clara
para um cavalo rosado ou cinza suave.
Aqui seria linear e ténue,
a vocação feliz de uma pequena nódoa.
As patas do cavalo vencem a inércia
de um princípio sem fim.
A fúria que eu invento é uma vontade
de dar à terra o seu cavalo fortíssimo.
E eu com ele soçobro ou me levanto.
Aqui seria… e é destino e força
o peso do animal que amo sobre mim.
para um cavalo rosado ou cinza suave.
Aqui seria linear e ténue,
a vocação feliz de uma pequena nódoa.
As patas do cavalo vencem a inércia
de um princípio sem fim.
A fúria que eu invento é uma vontade
de dar à terra o seu cavalo fortíssimo.
E eu com ele soçobro ou me levanto.
Aqui seria… e é destino e força
o peso do animal que amo sobre mim.
1 092
Edmir Domingues
O espelho retrovisor
Vejo o presente de há pouco
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
836
Edmir Domingues
Soneto do amor imperfeito
Mas houve no outro dia o amor ardente
em país de outras flores. No outro dia.
Esquecido o desastre, a clava fria,
a noite do insucesso ainda recente.
Por que não houve nada quando havia
o clima da atração mais que presente?
Mistério da surpresa e da agonia
do vendaval descido sobre a gente.
Há sempre um outro dia sem tropeço,
que desvira o que estava pelo avesso,
que nos conduz, do vale, a outra subida.
A vitória do sempre sobre o instante,
o retorno da força adormecida,
o vir do duplo orgasmo deslumbrante.
em país de outras flores. No outro dia.
Esquecido o desastre, a clava fria,
a noite do insucesso ainda recente.
Por que não houve nada quando havia
o clima da atração mais que presente?
Mistério da surpresa e da agonia
do vendaval descido sobre a gente.
Há sempre um outro dia sem tropeço,
que desvira o que estava pelo avesso,
que nos conduz, do vale, a outra subida.
A vitória do sempre sobre o instante,
o retorno da força adormecida,
o vir do duplo orgasmo deslumbrante.
769
Edmir Domingues
Schoteinós
(em grego: obscuro)
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
Cada minuto guarda, em seu seio, esse dano
que deve ser previsto, aos acasos da vida.
Nada que nos produza um gosto de surpresa
nos deverá chocar Tudo é essência do Ser.
Será que o que acontece é produto do acaso?
Ou tudo está escrito, o que é Vida e o que é Morte?
Ah, como me persegue esse tema da morte!
Simplesmente porque não a tenho por dano.
Nada do que acontece é um fruto do acaso.
Se não se sabe nunca o que é que vale a vida,
só resta duvidar sobre a essência do ser
e amar-se o acidental - o surto da surpresa.
Vive-se cada dia a espera da surpresa.
Se desde que nasci fui destinado à morte
não me cabe esperar a Eternidade. Ser
bom é simples dever, não causar nenhum dano
aos que herdaram conosco o castigo da Vida,
essa rota sem fuga imune a escolha e acaso.
Será que algo acontece acaso por acaso?
O micro e o telescópio acaso são surpresa?
Ampliam, cada hora, as dimensões da Vida
colocando mais longe as dimensões da Morte,
em descobertas que não trazem qualquer dano
para quem põe em cheque o sentido do ser.
Muito melhor que Ser, ah, seria o não Ser.
O simples não saber das ciladas do acaso.
Nunca ter existido, escápoles do dano,
da certeza do nada à morte da surpresa,
se fosse a eterna Vida a mesma eterna Morte,
se fosse a eterna Morte a mesma eterna Vida.
Maldita a Criação, a Evolução, a Vida,
maldito esse castigo, o de existir, de Ser.
A bem-aventurança está na eterna morte.
Mortos também a angústia, e a incerteza, e o acaso.
Para que não mais reste um laivo de surpresa,
para que se desfaça a armadilha do dano.
E se por nosso dano e volta da surpresa,
por capricho do acaso, acaso seja a morte
outra forma de ser da que vivemos, Vida?!
1996.
Sextina com coda sugerida por versos de Abgar Renault.
556
Edmir Domingues
Coroa de sonetos - Com o estranho pulsar da estrela morta
I
Com o estranho pulsar da estrela morta
a Vida sobrevive, a vida escura,
quase nunca no odor da coisa pura,
quase sempre em feição de coisa torta.
O simples ter na vida não conforta
quando o importante é ser, À iluminura
nunca fala do esforço e da aventura
(ou ventura?) daquele que se importa
com sua essência viva, porque quando
a criou, concebeu, e a fez do nada,
e a resgatou do limbo, o fez vibrando.
Por infinitas noites, longos dias,
viveu o criador que a fez criada
numa parafernália de agonias.
II
Numa parafernália de agonias
cada hora morremos nova morte,
e já não há a mão que nos conforte
nas infinitas noites, longos dias.
Aqui, e nas antigas sesmarias
dos reinados antigos, cuja sorte
as cinzas não cobriram, e onde a coorte
chamada Legião, estrepolias
semeou, como sempre, a vida vive
o constante rosário dos azares
que sempre tu tiveste e eu sempre tive.
Tudo são sofrimentos, neste lado.
Penélope indecisa, em seus teares,
a Vida desenvolve o seu bordado.
III
A Vida desenvolve o seu bordado
no universo das cores, dos matizes,
narcejas, e faisões, e codornizes
estáticas na trama do brocado
enfeitam chãos, paredes, cortinado
com força dos mais fortes chamarizes,
perdição de calhandras e perdizes,
que a velhos susto e a novos dão cuidado.
É os mistérios da vida? Quem desvenda
os mistérios da vida? Quem tem tino
que separe a verdade da legenda?
Eu, pobre semideus, desarvorado,
aflito silencio. E o Destino
esse grande animal sempre a meu lado.
IV
Esse grande animal sempre a meu lado
já não é o Destino, mas a Mente.
Um reflexo no espelho à minha frente
o seu olhar é o meu, o olhar magoado
na rede de torturas torturado,
consequência de um mundo inconseqüente,
tocado da demência mais demente
e para todo o sempre condenado.
Sonoros atambores é atabaques
sonoros, percutidos lua a pino
ao pé dos fogos vivos dos bivaques,
são para nós os pães dos nossos dias
pois é a Mente o mais trágico destino,
egresso de noturnas bruxarias.
V
Egresso de noturnas bruxarias
trago os lábios dormentes da jurema
e da liamba, mas trago as mãos vazias,
e retomo, por isso, o antigo tema
dos fumos da adivinha, do dilema
de não poder chegar, por quaisquer vias,
ao sentido da vida, esse problema
das vigílias noturnas, e dos dias
de vigília também, daquela vaga
sensação de um lugar só de carícias
e de um tranqüilo amor, inconquistado
ou perdido, uma luz que o tempo apaga.
A perda dessa paz, dessas primícias,
conserva-me entre atônito e calado.
VI
Conserva-me entre atônito e calado
o não saber quem sou, o que é que tenho,
por quê carrego sempre o enorme lenho
para o topo do monte designado.
Sendo nada e ninguém na esfera, venho
sem ter para onde ir, em triste estado
de astenia, o cadáver adiado
que procura implodir, mas que contenho.
Quem sou? Que sou? Por quê? Quem me responde
aqui e agora? Quem? Ninguém riposta,
ninguém conhece tais filosofias.
O cálix não se afasta e não se esconde
sempre ofertado, a mesa sempre posta,
por noites infinitas, longos dias.
VII
Por noites infinitas, longos dias,
perguntei-me o que sou, o que conheço
pois não conheço nada. Nem começo
e nem fim, que não sei filosofias.
Olho os buracos negros e estremeço,
quasares e pulsares, correrias
do Cometa, no azul das noites frias,
vindo da nuvem de Oort, o adereço
que restou da explosão, (mas não se prova),
da órbita alongada a eterna presa,
coisa antiga que é sempre coisa nova.
Tudo que é cislunar são teorias
e a minha Religião é a da incerteza
sem consolo de antigas fantasias.
VIII
Sem consolo de antigas fantasias
hoje sei que não sei e eis que sou sábio.
Roteiros de sextante e de astrolábio
não são os meus caminhos, minhas vias.
E essa verdade é quase certa. Sabe-o
quem raciocina e lê, quem faz poesias,
quem frequenta mosteiros, livrarias,
quem guarda o gosto antigo do alfarrábio.
A certeza é a incerteza, com certeza.
No reinado dos quanta, na beleza
de saber-se a constância da inconstância.
O tapete invisível e ondulado,
eu nutrindo-me apenas da ignorância
e para todo o sempre condenado.
IX
E para todo o sempre condenado
é preciso ficar. Nada sabemos
desse olho que nos olha dos extremos
do universo. Um olhar que é do passado
de muitos anos-luz, e que é chegado
agora, e vem de longe, dos supremos
confins, para que um dia o decifremos
para tê-lo, por fim, por decifrado.
Aqui, do grão de areia, na tormenta,
a que o vento solar nutre e alimenta,
é que o bicho da terra mais se achata.
Falo de mim, que vivo ao desabrigo,
quero viver em paz e não consigo,
não consigo matar o que me mata.
X
Não consigo matar o que me mata.
A dúvida de tudo, a dolorosa,
que não sabe porque é que a rosa é a rosa,
que não sabe porque é que a angústia é inata.
Olhar o firmamento, há longa data,
ver M-trinta e um, maravilhosa,
depois para nós mesmos, na inditosa
visão da poeira humilde da alparcata.
Nosso sistema é pobre, e está num canto
do Universo, vivendo a curvatura
com que se encurva a linha curviforme.
Ao lodo a ciência. O céu é um simples manto,
e nada já nos sobra nesta altura
so restando morrer na noite enorme.
XI
So restando morrer na noite enorme
eis que então me questiono, novamente,
da Razão inicial e da presente,
do porquê da existência multiforme,
e desafio a Esfinge à nossa frente,
que nos devora sempre, que não dorme,
esse oráculo antigo e desconforme
na sua danação. Constantemente
a vida se renova em novas provas,
anãs brancas, e novas, supernovas,
número infindo de ergs libertando.
Se a dúvida é constante, sempre ingrata,
na solidão da noite sigo andando
banhado de um luar de pura prata.
XII
Banhado de um luar de pura prata
(o leite de Amaltéia?) enquanto vivo
é preciso seguir o imperativo
a imposição que vem de longa data,
desde quando, da carnação cativo,
o Mundo esmaga os ossos da omoplata,
o macro e o microcosmo, a serenata
do nada contorcido e negativo.
Que é que eu tenho de meu? A chuva, o vento,
a larga estrada real onde transito,
um raro ser feliz por um momento,
um pobre sonho vago, de uniforme
presença, que é cansaço e que é conflito,
porque já quase morto e já disforme.
XIII
Porque já quase morto e já disforme
morrer aos pés do Deus não desejado
que tudo nos negou, nos fez cansado
e cego e surdo e só, na noite enorme.
Pedir contas ao Deus, quando chamado
ao juízo final. Não se conforme
quem foi o Prisioneiro, em pluriforme
universo, o mais curvo e o mais fechado.
Pedir contas ao Deus, quem foi na vida
convicto de universo sem saída,
e que teve, por isso, a vida morta.
Desafio que é apenas asteísmo
porque mesmo que role o cataclismo
bate o meu coração, fechada porta.
XIV
Bate o meu coração, fechada porta,
a espera seja Nêmesis tornada,
nossa Estrela Assassina, a inculpada,
que tudo purifica e a vida corta.
Que tudo morra então. O que é que importa
quando a Vida não morre? Eternizada,
nascida novamente, e renovada
que numa nova vida se transporta?
Por não restar diversa alternativa,
ser feliz, assumindo a ignorância
e as Sementes da Morte, sempre viva.
Conformação que, é certo, já conforta
o coração que pulsa na inconstância
com o estranho pulsar da estrela morta.
XV COROA
Numa parafernália de agonias
a Vida desenvolve o seu bordado.
Esse grande animal, sempre a meu lado,
egresso de noturnas bruxarias,
conserva-me entre atônito e calado
por noites infinitas, longos dias,
sem consolo de antigas fantasias
e para todo o sempre condenado.
Não consigo matar o que me mata,
só restando morrer, na noite enorme,
banhado de um luar de pura prata.
Porque já quase morto e já disforme
bate o meu coração, fechada porta,
com o estranho pulsar da estrela morta.
Com o estranho pulsar da estrela morta
a Vida sobrevive, a vida escura,
quase nunca no odor da coisa pura,
quase sempre em feição de coisa torta.
O simples ter na vida não conforta
quando o importante é ser, À iluminura
nunca fala do esforço e da aventura
(ou ventura?) daquele que se importa
com sua essência viva, porque quando
a criou, concebeu, e a fez do nada,
e a resgatou do limbo, o fez vibrando.
Por infinitas noites, longos dias,
viveu o criador que a fez criada
numa parafernália de agonias.
II
Numa parafernália de agonias
cada hora morremos nova morte,
e já não há a mão que nos conforte
nas infinitas noites, longos dias.
Aqui, e nas antigas sesmarias
dos reinados antigos, cuja sorte
as cinzas não cobriram, e onde a coorte
chamada Legião, estrepolias
semeou, como sempre, a vida vive
o constante rosário dos azares
que sempre tu tiveste e eu sempre tive.
Tudo são sofrimentos, neste lado.
Penélope indecisa, em seus teares,
a Vida desenvolve o seu bordado.
III
A Vida desenvolve o seu bordado
no universo das cores, dos matizes,
narcejas, e faisões, e codornizes
estáticas na trama do brocado
enfeitam chãos, paredes, cortinado
com força dos mais fortes chamarizes,
perdição de calhandras e perdizes,
que a velhos susto e a novos dão cuidado.
É os mistérios da vida? Quem desvenda
os mistérios da vida? Quem tem tino
que separe a verdade da legenda?
Eu, pobre semideus, desarvorado,
aflito silencio. E o Destino
esse grande animal sempre a meu lado.
IV
Esse grande animal sempre a meu lado
já não é o Destino, mas a Mente.
Um reflexo no espelho à minha frente
o seu olhar é o meu, o olhar magoado
na rede de torturas torturado,
consequência de um mundo inconseqüente,
tocado da demência mais demente
e para todo o sempre condenado.
Sonoros atambores é atabaques
sonoros, percutidos lua a pino
ao pé dos fogos vivos dos bivaques,
são para nós os pães dos nossos dias
pois é a Mente o mais trágico destino,
egresso de noturnas bruxarias.
V
Egresso de noturnas bruxarias
trago os lábios dormentes da jurema
e da liamba, mas trago as mãos vazias,
e retomo, por isso, o antigo tema
dos fumos da adivinha, do dilema
de não poder chegar, por quaisquer vias,
ao sentido da vida, esse problema
das vigílias noturnas, e dos dias
de vigília também, daquela vaga
sensação de um lugar só de carícias
e de um tranqüilo amor, inconquistado
ou perdido, uma luz que o tempo apaga.
A perda dessa paz, dessas primícias,
conserva-me entre atônito e calado.
VI
Conserva-me entre atônito e calado
o não saber quem sou, o que é que tenho,
por quê carrego sempre o enorme lenho
para o topo do monte designado.
Sendo nada e ninguém na esfera, venho
sem ter para onde ir, em triste estado
de astenia, o cadáver adiado
que procura implodir, mas que contenho.
Quem sou? Que sou? Por quê? Quem me responde
aqui e agora? Quem? Ninguém riposta,
ninguém conhece tais filosofias.
O cálix não se afasta e não se esconde
sempre ofertado, a mesa sempre posta,
por noites infinitas, longos dias.
VII
Por noites infinitas, longos dias,
perguntei-me o que sou, o que conheço
pois não conheço nada. Nem começo
e nem fim, que não sei filosofias.
Olho os buracos negros e estremeço,
quasares e pulsares, correrias
do Cometa, no azul das noites frias,
vindo da nuvem de Oort, o adereço
que restou da explosão, (mas não se prova),
da órbita alongada a eterna presa,
coisa antiga que é sempre coisa nova.
Tudo que é cislunar são teorias
e a minha Religião é a da incerteza
sem consolo de antigas fantasias.
VIII
Sem consolo de antigas fantasias
hoje sei que não sei e eis que sou sábio.
Roteiros de sextante e de astrolábio
não são os meus caminhos, minhas vias.
E essa verdade é quase certa. Sabe-o
quem raciocina e lê, quem faz poesias,
quem frequenta mosteiros, livrarias,
quem guarda o gosto antigo do alfarrábio.
A certeza é a incerteza, com certeza.
No reinado dos quanta, na beleza
de saber-se a constância da inconstância.
O tapete invisível e ondulado,
eu nutrindo-me apenas da ignorância
e para todo o sempre condenado.
IX
E para todo o sempre condenado
é preciso ficar. Nada sabemos
desse olho que nos olha dos extremos
do universo. Um olhar que é do passado
de muitos anos-luz, e que é chegado
agora, e vem de longe, dos supremos
confins, para que um dia o decifremos
para tê-lo, por fim, por decifrado.
Aqui, do grão de areia, na tormenta,
a que o vento solar nutre e alimenta,
é que o bicho da terra mais se achata.
Falo de mim, que vivo ao desabrigo,
quero viver em paz e não consigo,
não consigo matar o que me mata.
X
Não consigo matar o que me mata.
A dúvida de tudo, a dolorosa,
que não sabe porque é que a rosa é a rosa,
que não sabe porque é que a angústia é inata.
Olhar o firmamento, há longa data,
ver M-trinta e um, maravilhosa,
depois para nós mesmos, na inditosa
visão da poeira humilde da alparcata.
Nosso sistema é pobre, e está num canto
do Universo, vivendo a curvatura
com que se encurva a linha curviforme.
Ao lodo a ciência. O céu é um simples manto,
e nada já nos sobra nesta altura
so restando morrer na noite enorme.
XI
So restando morrer na noite enorme
eis que então me questiono, novamente,
da Razão inicial e da presente,
do porquê da existência multiforme,
e desafio a Esfinge à nossa frente,
que nos devora sempre, que não dorme,
esse oráculo antigo e desconforme
na sua danação. Constantemente
a vida se renova em novas provas,
anãs brancas, e novas, supernovas,
número infindo de ergs libertando.
Se a dúvida é constante, sempre ingrata,
na solidão da noite sigo andando
banhado de um luar de pura prata.
XII
Banhado de um luar de pura prata
(o leite de Amaltéia?) enquanto vivo
é preciso seguir o imperativo
a imposição que vem de longa data,
desde quando, da carnação cativo,
o Mundo esmaga os ossos da omoplata,
o macro e o microcosmo, a serenata
do nada contorcido e negativo.
Que é que eu tenho de meu? A chuva, o vento,
a larga estrada real onde transito,
um raro ser feliz por um momento,
um pobre sonho vago, de uniforme
presença, que é cansaço e que é conflito,
porque já quase morto e já disforme.
XIII
Porque já quase morto e já disforme
morrer aos pés do Deus não desejado
que tudo nos negou, nos fez cansado
e cego e surdo e só, na noite enorme.
Pedir contas ao Deus, quando chamado
ao juízo final. Não se conforme
quem foi o Prisioneiro, em pluriforme
universo, o mais curvo e o mais fechado.
Pedir contas ao Deus, quem foi na vida
convicto de universo sem saída,
e que teve, por isso, a vida morta.
Desafio que é apenas asteísmo
porque mesmo que role o cataclismo
bate o meu coração, fechada porta.
XIV
Bate o meu coração, fechada porta,
a espera seja Nêmesis tornada,
nossa Estrela Assassina, a inculpada,
que tudo purifica e a vida corta.
Que tudo morra então. O que é que importa
quando a Vida não morre? Eternizada,
nascida novamente, e renovada
que numa nova vida se transporta?
Por não restar diversa alternativa,
ser feliz, assumindo a ignorância
e as Sementes da Morte, sempre viva.
Conformação que, é certo, já conforta
o coração que pulsa na inconstância
com o estranho pulsar da estrela morta.
XV COROA
Numa parafernália de agonias
a Vida desenvolve o seu bordado.
Esse grande animal, sempre a meu lado,
egresso de noturnas bruxarias,
conserva-me entre atônito e calado
por noites infinitas, longos dias,
sem consolo de antigas fantasias
e para todo o sempre condenado.
Não consigo matar o que me mata,
só restando morrer, na noite enorme,
banhado de um luar de pura prata.
Porque já quase morto e já disforme
bate o meu coração, fechada porta,
com o estranho pulsar da estrela morta.
1 049
Edmir Domingues
Halley
Dos limites do afélio,
dos longes do anti-hélio,
caminhei, dia a dia.
Mas por que dia a dia
quando dias não há?
Bem melhor noite a noite
nas paisagens do escuro.
Nem mesmo noite a noite
quando uma noite só.
Antenome: Cometa.
Filho de gelo e neve,
de coma inexistente,
acéfalo, porquanto
longe do periélio.
A suja massa fria
em cuja me resumo,
caminhou, lento lento,
no espaço sideral.
O destino futuro
puxou-me, como um quante,
na rota irrecusável.
E eis que chego, no agora,
e eis que por fim me aqueço,
e solto a cabeleira
sob os ventos solares,
e agora macrocéfalo
e por fim belo e enorme
surpreendo e espalho o espanto
e, enfim, me realizo,
Será de um breve instante
o degustar da glória,
o calor do astro-pai.
A órbita alongada,
a rota irrecusável
(que a liberdade é um mito),
me levará de novo
aos Países da Treva,
a Noite Interminável,
de um distante retorno.
Como tudo o que vive.
Um momento, o mais breve,
para as luzes da vida
enquanto a negra noite
é a quase-eternidade.
O gelo, a neve, o frio,
as Solidões da Morte.
dos longes do anti-hélio,
caminhei, dia a dia.
Mas por que dia a dia
quando dias não há?
Bem melhor noite a noite
nas paisagens do escuro.
Nem mesmo noite a noite
quando uma noite só.
Antenome: Cometa.
Filho de gelo e neve,
de coma inexistente,
acéfalo, porquanto
longe do periélio.
A suja massa fria
em cuja me resumo,
caminhou, lento lento,
no espaço sideral.
O destino futuro
puxou-me, como um quante,
na rota irrecusável.
E eis que chego, no agora,
e eis que por fim me aqueço,
e solto a cabeleira
sob os ventos solares,
e agora macrocéfalo
e por fim belo e enorme
surpreendo e espalho o espanto
e, enfim, me realizo,
Será de um breve instante
o degustar da glória,
o calor do astro-pai.
A órbita alongada,
a rota irrecusável
(que a liberdade é um mito),
me levará de novo
aos Países da Treva,
a Noite Interminável,
de um distante retorno.
Como tudo o que vive.
Um momento, o mais breve,
para as luzes da vida
enquanto a negra noite
é a quase-eternidade.
O gelo, a neve, o frio,
as Solidões da Morte.
770
Edmir Domingues
Sextina da face oculta
Penetrar no infinito pela porta
que o desvão da memória acaso oculta,
(Que esta mão indecisa porte a vela,
a luz para o caminho). Passo a passo.
Penetrar o invisível sempre sabe
o gosto das lições para o presente.
É preciso se tenha então presente
essa atenção constante que se porta
sempre que se conhece, que se sabe.
Urgente é decifrar a face oculta
mesmo sabendo que esse incerto passo
requer todo o cuidado de quem vela.
Haja o sopro do vento que enche a vela
do barco do desejo, aqui presente,
que se apresta a aventura desse passo.
Na procura incessante dessa porta
que é sempre disfarçada, sempre oculta,
não constante do mapa, ao que se sabe.
É pequeno o saber que o sábio sabe.
Mais precária que a chama de uma vela
a ciência vaidosa sempre oculta
o escasso conhecer mais que presente.
Ninguém herdou a chave dessa porta
que impede ao ser humano o grande passo.
Resta pois prosseguir marcando passo
com que fim, que destino, não se sabe.
A nós os prisioneiros dessa porta,
que não podem viver sem sempre vê-la,
a quem foi sonegado esse presente
que seria o entender a face oculta.
O demônio (o Destino) nos oculta
o que é que significa o nosso passo.
Se é que existe o futuro do presente
para o que se destina ninguém sabe.
A luz mortiça e vaga de uma vela
não dá para enxergar além da porta.
(Quem vive neste passo apenas sabe
desse Dragão presente ao pé da Porta
que dia e noite vela a face oculta.
que o desvão da memória acaso oculta,
(Que esta mão indecisa porte a vela,
a luz para o caminho). Passo a passo.
Penetrar o invisível sempre sabe
o gosto das lições para o presente.
É preciso se tenha então presente
essa atenção constante que se porta
sempre que se conhece, que se sabe.
Urgente é decifrar a face oculta
mesmo sabendo que esse incerto passo
requer todo o cuidado de quem vela.
Haja o sopro do vento que enche a vela
do barco do desejo, aqui presente,
que se apresta a aventura desse passo.
Na procura incessante dessa porta
que é sempre disfarçada, sempre oculta,
não constante do mapa, ao que se sabe.
É pequeno o saber que o sábio sabe.
Mais precária que a chama de uma vela
a ciência vaidosa sempre oculta
o escasso conhecer mais que presente.
Ninguém herdou a chave dessa porta
que impede ao ser humano o grande passo.
Resta pois prosseguir marcando passo
com que fim, que destino, não se sabe.
A nós os prisioneiros dessa porta,
que não podem viver sem sempre vê-la,
a quem foi sonegado esse presente
que seria o entender a face oculta.
O demônio (o Destino) nos oculta
o que é que significa o nosso passo.
Se é que existe o futuro do presente
para o que se destina ninguém sabe.
A luz mortiça e vaga de uma vela
não dá para enxergar além da porta.
(Quem vive neste passo apenas sabe
desse Dragão presente ao pé da Porta
que dia e noite vela a face oculta.
521
Edmir Domingues
Sextina da rosa do amor e da morte
De que uma rosa é uma rosa
é uma rosa, até quando
lhe seja dado viver,
disse poeta. É a vida
que ao cabelo prende o pente
até que Destino a mata.
Quem sabe a tocaia, a mata,
a bala ferindo a rosa,
com outras balas no pente?
Da assassina à espreita quando
tudo eram flores na vida
e um puro sabor viver.
Mas vale a pena viver?
Não é a vida o que mata?
A morte é o fruto da vida
que floresce como rosa
e em versos se torna quando
sabe à lã cardada ao pente.
No campo marinho o pente,
concha bivalve, a viver
no meio das algas, quando
pescador o apresa e mata,
para alimento, que é rosa
que sustenta e enfeita a vida.
O artesão que ganha a vida
tece em seu tear, no pente,
a teia. Motivo: rosa.
Que se destina a viver
matando o tédio que mata,
não se sabe aonde, quando.
Rosas serão pedras, quando
em carga tornar-se a vida.
O desespero que mata
retira ao cabelo o pente,
que é desalento o viver
num país que não tem rosa.
No entanto viver é a Vida
na escura rosa do pente
ainda quando ou fere ou mata.
1995.
És o editor deste autor: Alterar texto Publicar texto ou poema Ap
é uma rosa, até quando
lhe seja dado viver,
disse poeta. É a vida
que ao cabelo prende o pente
até que Destino a mata.
Quem sabe a tocaia, a mata,
a bala ferindo a rosa,
com outras balas no pente?
Da assassina à espreita quando
tudo eram flores na vida
e um puro sabor viver.
Mas vale a pena viver?
Não é a vida o que mata?
A morte é o fruto da vida
que floresce como rosa
e em versos se torna quando
sabe à lã cardada ao pente.
No campo marinho o pente,
concha bivalve, a viver
no meio das algas, quando
pescador o apresa e mata,
para alimento, que é rosa
que sustenta e enfeita a vida.
O artesão que ganha a vida
tece em seu tear, no pente,
a teia. Motivo: rosa.
Que se destina a viver
matando o tédio que mata,
não se sabe aonde, quando.
Rosas serão pedras, quando
em carga tornar-se a vida.
O desespero que mata
retira ao cabelo o pente,
que é desalento o viver
num país que não tem rosa.
No entanto viver é a Vida
na escura rosa do pente
ainda quando ou fere ou mata.
1995.
És o editor deste autor: Alterar texto Publicar texto ou poema Ap
624
Edmir Domingues
Sextina da vida breve
Em dia destes dias (muito breve)
partirei sem remorso desta vida.
Quem sentir minha falta seja forte.
Sei que a terra em meu peito será leve
se pesada me soube a dura lida
e quem viveu no bem não teme a morte.
O que vida será? Que será morte?
Que haverá que eu não saiba muito em breve?
A ciência dos homens, por mais lida,
não decifrou sentido nesta vida.
Toda a filosofia que se leve
do mundo vão, nada terá de forte.
Bandeiras coloridas nalgum forte
fremem sempre de vida. Mas a morte
há de vir mansamente, o passo leve,
lembrando o acidental da vida breve.
Pois só de brevidade vive a vida,
e de mágoa, de dor, de dura lida.
Quanto haverá de prêmio após a lida
a quem não se curvou, a quem foi forte?
Ou é pura ilusão o Mundo, a vida?
Ou é sono sem fim, nirvana, a morte?
Sonho a se esvanecer, fumaça breve
que o vento mais sutil num sopro leve?
Possa eu seguir no barco de alma leve
ganho o óbolo em suor, preço da lida.
(Não dure a travessia, seja breve).
Um copo cheio de bebida forte
ajudará a olhar de frente a Morte
como ajudou a olhar de frente a Vida.
Nunca houvesse rompido o ovo da vida
e não conheceria a dor. Mais leve
do que o ser é o não ser. A vida e a morte
são dois prismas iguais da humana lida.
Pois todo o que nasceu, ou fraco ou forte,
um só destino teve: a vida breve.
Tenha-se assim por leve a vida breve,
o espírito o mais forte em toda a lida,
e se viva na vida amando a morte.
abril, 1983.
partirei sem remorso desta vida.
Quem sentir minha falta seja forte.
Sei que a terra em meu peito será leve
se pesada me soube a dura lida
e quem viveu no bem não teme a morte.
O que vida será? Que será morte?
Que haverá que eu não saiba muito em breve?
A ciência dos homens, por mais lida,
não decifrou sentido nesta vida.
Toda a filosofia que se leve
do mundo vão, nada terá de forte.
Bandeiras coloridas nalgum forte
fremem sempre de vida. Mas a morte
há de vir mansamente, o passo leve,
lembrando o acidental da vida breve.
Pois só de brevidade vive a vida,
e de mágoa, de dor, de dura lida.
Quanto haverá de prêmio após a lida
a quem não se curvou, a quem foi forte?
Ou é pura ilusão o Mundo, a vida?
Ou é sono sem fim, nirvana, a morte?
Sonho a se esvanecer, fumaça breve
que o vento mais sutil num sopro leve?
Possa eu seguir no barco de alma leve
ganho o óbolo em suor, preço da lida.
(Não dure a travessia, seja breve).
Um copo cheio de bebida forte
ajudará a olhar de frente a Morte
como ajudou a olhar de frente a Vida.
Nunca houvesse rompido o ovo da vida
e não conheceria a dor. Mais leve
do que o ser é o não ser. A vida e a morte
são dois prismas iguais da humana lida.
Pois todo o que nasceu, ou fraco ou forte,
um só destino teve: a vida breve.
Tenha-se assim por leve a vida breve,
o espírito o mais forte em toda a lida,
e se viva na vida amando a morte.
abril, 1983.
921
Edmir Domingues
Coroa de sete sonetos
I
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
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