Poemas neste tema
Destino e Superação
Marilina Ross
Dança
Dança sobre restos de cristais
deste tempo não tão belo
porque sozinha não estás
Dança sobre antigas cinzas
sobre todas as tuas feridas
sozinha não estás
Se a imagem de teu espelho já não está
será que estás
aprendendo a caminhar?
Dança sobre tua casa, entre a erva
o odor do inverno
sozinha não estás
Dança bela criança, pequena criança
distorções do tempo...
sozinha não estás
Sobre a fumaça que cobriu
a luz de nossa cidade
e ainda que doa
não a podemos modificar
Dança sobre a dor
que a dança à consumirá
Dança sobre a tua rua que dança
sobre esta casa que dança
se não se pode fazer mais...
Dança sobre a desventura
à luz da lua
sobre o campo e o mar
Dança, é caricia, é pudor
dança não é ódio, é amor
é aprender a voar
Se puderes dançar pelo ar
também as estrelas poderão abraçar-te
não sigas agarrada as tuas dores
que não sabem dançar
Dança junto a tua vida que dança
junto a tudo que falta
se não se pode fazer mais...
Dança...
Dança...
Dança...
deste tempo não tão belo
porque sozinha não estás
Dança sobre antigas cinzas
sobre todas as tuas feridas
sozinha não estás
Se a imagem de teu espelho já não está
será que estás
aprendendo a caminhar?
Dança sobre tua casa, entre a erva
o odor do inverno
sozinha não estás
Dança bela criança, pequena criança
distorções do tempo...
sozinha não estás
Sobre a fumaça que cobriu
a luz de nossa cidade
e ainda que doa
não a podemos modificar
Dança sobre a dor
que a dança à consumirá
Dança sobre a tua rua que dança
sobre esta casa que dança
se não se pode fazer mais...
Dança sobre a desventura
à luz da lua
sobre o campo e o mar
Dança, é caricia, é pudor
dança não é ódio, é amor
é aprender a voar
Se puderes dançar pelo ar
também as estrelas poderão abraçar-te
não sigas agarrada as tuas dores
que não sabem dançar
Dança junto a tua vida que dança
junto a tudo que falta
se não se pode fazer mais...
Dança...
Dança...
Dança...
1 026
Maria Teresa M. Carrilho
A García Lorca
Trágico é
o destino de alguém
que nasceu para ser herói!
Sabias
desde menino
que a liberdade
às vezes, só a ferros,
se constrói!
Falaste e escreveste
e denunciaste
mais que uma fraude.
Lutaste
até ao fim.
E mesmo sujeito à opressão,
não desanimaste
e aliviaste
muita tensão
Contra a Razão
e todas as invioláveis razões
foste tu próprio e sempre
sempre ponto a defender
as silenciadas multidões!
Desvendaste
e ultrapassaste
as fronteiras íntimas do ser
e levado pela ânsia
e vertigem do Tempo
foste mais além
ignorando ditames materiais
pronto a criar
a recriar
e superar
quaisquer amarras existenciais!
Quis o Destino
que fosses herói
e penetrasses na mansão
dos Imortais!
Foste herói
no teu tempo
e em qualquer tempo
de sujeição!
o destino de alguém
que nasceu para ser herói!
Sabias
desde menino
que a liberdade
às vezes, só a ferros,
se constrói!
Falaste e escreveste
e denunciaste
mais que uma fraude.
Lutaste
até ao fim.
E mesmo sujeito à opressão,
não desanimaste
e aliviaste
muita tensão
Contra a Razão
e todas as invioláveis razões
foste tu próprio e sempre
sempre ponto a defender
as silenciadas multidões!
Desvendaste
e ultrapassaste
as fronteiras íntimas do ser
e levado pela ânsia
e vertigem do Tempo
foste mais além
ignorando ditames materiais
pronto a criar
a recriar
e superar
quaisquer amarras existenciais!
Quis o Destino
que fosses herói
e penetrasses na mansão
dos Imortais!
Foste herói
no teu tempo
e em qualquer tempo
de sujeição!
1 057
Violante do Céu
Soneto
Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tirano Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido
Me deixa o sentimento duplicado.
Absorta no rigor de um duro fado,
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido
E tenho já de morte o mal logrado.
Enlevo-me no dano que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.
Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto
Que para que de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.
É este meu, tirano Cupido?
Pois tirando-me enfim todo o sentido
Me deixa o sentimento duplicado.
Absorta no rigor de um duro fado,
Tanto de meus sentidos me divido,
Que tenho só de vida o bem sentido
E tenho já de morte o mal logrado.
Enlevo-me no dano que me ofende,
Suspendo-me na causa de meu pranto
Mas meu mal (ai de mim!) não se suspende.
Ó cesse, cesse, amor, tão raro encanto
Que para que de ti não se defende
Basta menos rigor, não rigor tanto.
1 561
Lenilde Freitas
A Alfonsina Storni
O bulício do amanhecer
destranca as portas da sabedoria.
É o mesmo e não é o mesmo
o destino dos homens.
Com a chuva vigorosa,
as enredadeiras se desvencilham
dos muros os ventos recuam e
poucas cigarras sobrevivem.
Assim, agora.
A mulher
– passante -
se desveste da cor cambiante do sonho.
destranca as portas da sabedoria.
É o mesmo e não é o mesmo
o destino dos homens.
Com a chuva vigorosa,
as enredadeiras se desvencilham
dos muros os ventos recuam e
poucas cigarras sobrevivem.
Assim, agora.
A mulher
– passante -
se desveste da cor cambiante do sonho.
909
Angela Santos
Estrada de Luz
Depois do assombro daqueles dias
sobre um mar de punhais feito caminho
cuidando não saber aonde iria,
secretos meus passos em busca foram
do porto onde fundear se achassem
despida dos grilhões que ao medo assomam
foi na nudez da alma reflectida
que desvendei de mim escuros cantos
onde acolhi, às vezes a alma ferida....
na estrada de luar que então se abria
por sobre um mar nocturno embarcava
toda a esperança que a aurora anuncia
depois do breu que veio sem esperar
não soube eu no instante em que ardia
a alma feita lava consumida
que dos porões cavados nesses dias
haveria de erguer-se a voz antiga
arauta do que havia de chegar....
Foi naquela hora precisa em que vieste
que os sonhos antigos se reverteram
aos olhos mergulhados na luz branca
do mistério anunciado onde jaziam
e agora são teus os passos que oiço
nos sonhos novos que em meus dias teço
e é tua a voz que vem
acordar o tempo que esperei.
sobre um mar de punhais feito caminho
cuidando não saber aonde iria,
secretos meus passos em busca foram
do porto onde fundear se achassem
despida dos grilhões que ao medo assomam
foi na nudez da alma reflectida
que desvendei de mim escuros cantos
onde acolhi, às vezes a alma ferida....
na estrada de luar que então se abria
por sobre um mar nocturno embarcava
toda a esperança que a aurora anuncia
depois do breu que veio sem esperar
não soube eu no instante em que ardia
a alma feita lava consumida
que dos porões cavados nesses dias
haveria de erguer-se a voz antiga
arauta do que havia de chegar....
Foi naquela hora precisa em que vieste
que os sonhos antigos se reverteram
aos olhos mergulhados na luz branca
do mistério anunciado onde jaziam
e agora são teus os passos que oiço
nos sonhos novos que em meus dias teço
e é tua a voz que vem
acordar o tempo que esperei.
1 099
Angela Santos
Ânima
Ânima
Podem estirar-me na pedra fria
deixar-me ao relento dos dias vácuos
podem esvair-me de sonhos,
pendurar minha alma ferida
para que a escarneçam
podem saquear-me a memória
fazer-me deambular contra o destino
na total amnésia
para que de mim me esqueça
podem saquear-me a alma
mas nunca a forma que tomou
podem estilhaçar-me a vida
mas os sinais da carne viva,
não!
Aconchegada pelo mistério
mais obscuro e profundo,
eu seguirei.
Podem estirar-me na pedra fria
deixar-me ao relento dos dias vácuos
podem esvair-me de sonhos,
pendurar minha alma ferida
para que a escarneçam
podem saquear-me a memória
fazer-me deambular contra o destino
na total amnésia
para que de mim me esqueça
podem saquear-me a alma
mas nunca a forma que tomou
podem estilhaçar-me a vida
mas os sinais da carne viva,
não!
Aconchegada pelo mistério
mais obscuro e profundo,
eu seguirei.
650
Angela Santos
Senda
A mim retornam
os caminhos,
risco-os em cada muro que se ergue...
e sigo o rasto da voz que se alteia
cada manhã de custo e diligente teima
Se não mais me abraçam as palavras doces,
resta-me a ponte que lancei no dia
em que a tempestade me abeirou do abismo
dou o enlace amante ao desconhecido
onde se afigura uma estrela guia
surgindo do breu , do inominável espaço,
onde sinto o eco dos meus próprios passos....
Sei que há-de ser lá - onde quer que seja-
o lugar, o abrigo, casa a que regresso
reatando, enfim, invisíveis fios
que à vida me trazem presa pelo umbigo.
os caminhos,
risco-os em cada muro que se ergue...
e sigo o rasto da voz que se alteia
cada manhã de custo e diligente teima
Se não mais me abraçam as palavras doces,
resta-me a ponte que lancei no dia
em que a tempestade me abeirou do abismo
dou o enlace amante ao desconhecido
onde se afigura uma estrela guia
surgindo do breu , do inominável espaço,
onde sinto o eco dos meus próprios passos....
Sei que há-de ser lá - onde quer que seja-
o lugar, o abrigo, casa a que regresso
reatando, enfim, invisíveis fios
que à vida me trazem presa pelo umbigo.
641
Eduardo Valente da Fonseca
Onde nem tudo o que luz é oiro
Somos talvez até um país rico,
e tivemos Camões, e tivemos pessoa e o infante,
mas a beleza está nos escombros,
e atola-se na areia e morre sem nos ver.
porque se eu abro a minha mão à noite
e nela só vejo as linhas do destino,
de que me vale a história do meu povo?
Sim, é possível que a profética rosa do oriente
ainda venha pelo rio da primavera
ancorar na solidão imensa deste cais.
e tivemos Camões, e tivemos pessoa e o infante,
mas a beleza está nos escombros,
e atola-se na areia e morre sem nos ver.
porque se eu abro a minha mão à noite
e nela só vejo as linhas do destino,
de que me vale a história do meu povo?
Sim, é possível que a profética rosa do oriente
ainda venha pelo rio da primavera
ancorar na solidão imensa deste cais.
1 019
Angela Santos
Dança do
Sol
Esperei o sol
chegar
sabendo que como flor desabrochando
a ele se abriria o coração
E no meio da dança
eu então me vi
qual adoradora da estrela-rainha,
evocar teu nome.
e claramente à luz do meu dia
límpidos emergiram
contornos, sinais, nuances da alma
que te fazem estar dentro e fora de mim
É à luz do sol
que o coração vive e se dá em oferenda
à mulher amada e ao chão que pisa.
esse lugar que de longe me chama
a cumprir o que foi
inscrito em minha sina.
Esperei o sol
chegar
sabendo que como flor desabrochando
a ele se abriria o coração
E no meio da dança
eu então me vi
qual adoradora da estrela-rainha,
evocar teu nome.
e claramente à luz do meu dia
límpidos emergiram
contornos, sinais, nuances da alma
que te fazem estar dentro e fora de mim
É à luz do sol
que o coração vive e se dá em oferenda
à mulher amada e ao chão que pisa.
esse lugar que de longe me chama
a cumprir o que foi
inscrito em minha sina.
649
Angela Santos
Ao Sul
Nas
terras do sul
há uma lonjura que entra pelos olhos
Instala-se na alma e deixa-se ficar
Nas terras do sul
há homens cansados, colados às paredes
brancas de cal lisa
A planície entende-se e lembra o mar
outras vezes lembra
um deserto vasto a perder de vista
E os homens do sul
cansados de olhar o que foi planície
e parece mar
quando o sol abrasa perdem-se na miragem
que os desertos guardam
Nas terras do sul
há um destino vago e dias de incerteza
e é junto às árvores
que se erguem a prumo e a sombra espelham
que param cansados e choram a terra
com seu olhar vago, seu olhar sem rumo
E na corda a prumo que à arvore se enlaça
em silencio acenam um ultimo adeus
ao sol, à planície, ao vazio ao mundo.
terras do sul
há uma lonjura que entra pelos olhos
Instala-se na alma e deixa-se ficar
Nas terras do sul
há homens cansados, colados às paredes
brancas de cal lisa
A planície entende-se e lembra o mar
outras vezes lembra
um deserto vasto a perder de vista
E os homens do sul
cansados de olhar o que foi planície
e parece mar
quando o sol abrasa perdem-se na miragem
que os desertos guardam
Nas terras do sul
há um destino vago e dias de incerteza
e é junto às árvores
que se erguem a prumo e a sombra espelham
que param cansados e choram a terra
com seu olhar vago, seu olhar sem rumo
E na corda a prumo que à arvore se enlaça
em silencio acenam um ultimo adeus
ao sol, à planície, ao vazio ao mundo.
988
Angela Santos
Imprevisto
Como
se de repente
se fizesse luz
e os meus olhos sedentos
ali fossem beber
Como se de repente
eu segurasse o fio de Ariadne
e mergulhasse no azul do dia
deixando para trás as sombras dos
labirintos
Como se de repente
eu visse um caminho
e soubesse
porquê, para quê
e cada manhã anunciasse
uma razão renovada.
De imprevisto,
assim, tão de repente
tudo era claridade
e eu via
qual era o caminho
enquanto caminhava.
se de repente
se fizesse luz
e os meus olhos sedentos
ali fossem beber
Como se de repente
eu segurasse o fio de Ariadne
e mergulhasse no azul do dia
deixando para trás as sombras dos
labirintos
Como se de repente
eu visse um caminho
e soubesse
porquê, para quê
e cada manhã anunciasse
uma razão renovada.
De imprevisto,
assim, tão de repente
tudo era claridade
e eu via
qual era o caminho
enquanto caminhava.
1 246
Angela Santos
Ideologia
Vinham
de longe,
atravessavam desertos
tempestades resistiam,
e no coração guardada
a fórmula do alquimista
viandantes condenados
grilhões de ferro nos pés
vezes e vezes caíram,
seguir era a sua sina
fosse ou não razão ficar.
E cumpriam-se à chegada
exaustos, e sem sentido
um outro norte, a mesma senha…
por eles de novo se erguiam
por eles de novo partir…
Alvoradas, bandeiras, hinos
espadas em punho brandindo
contra o tempo contra os ventos,
sem resistência lá iam,
um novo mundo cumprir.
de longe,
atravessavam desertos
tempestades resistiam,
e no coração guardada
a fórmula do alquimista
viandantes condenados
grilhões de ferro nos pés
vezes e vezes caíram,
seguir era a sua sina
fosse ou não razão ficar.
E cumpriam-se à chegada
exaustos, e sem sentido
um outro norte, a mesma senha…
por eles de novo se erguiam
por eles de novo partir…
Alvoradas, bandeiras, hinos
espadas em punho brandindo
contra o tempo contra os ventos,
sem resistência lá iam,
um novo mundo cumprir.
1 065
Angela Santos
Orientação
Ainda
que perdidos
meus passos pareçam…
ainda que a alma segrede
o desencontro dos exilados,
eu sei de uma razão…
e por ela sigo,
busca incessante
teimando o caminho.
leva-me o sonho
que em mim ganhou voz…
minha estrela, meu norte,
meu rumo, meu trilho
minha barca d´Alva
levando na proa
o mapa dos ventos que
lhe dá sentido.
que perdidos
meus passos pareçam…
ainda que a alma segrede
o desencontro dos exilados,
eu sei de uma razão…
e por ela sigo,
busca incessante
teimando o caminho.
leva-me o sonho
que em mim ganhou voz…
minha estrela, meu norte,
meu rumo, meu trilho
minha barca d´Alva
levando na proa
o mapa dos ventos que
lhe dá sentido.
1 182
Angela Santos
Caminhos
Há
caminho, e caminhos
largos uns, estreitando-se
outros.
Há os que caminham
a par de outros que caminham
outros caminhos
Há os que seguem seus caminhos,
solitários
à força de o querer
Há os solitários
que buscam caminhos paralelos
mas sempre e só
a solidão companheira
suspensa no seu caminho.
caminho, e caminhos
largos uns, estreitando-se
outros.
Há os que caminham
a par de outros que caminham
outros caminhos
Há os que seguem seus caminhos,
solitários
à força de o querer
Há os solitários
que buscam caminhos paralelos
mas sempre e só
a solidão companheira
suspensa no seu caminho.
1 101
Miriam Paglia Costa
O Anjo Vingador
- gosto
de matar pelas costas
é tão bonito!
o menino fala assim ao psicólogo
que conta ao repórter
que conta ao leitor
que todos se horrorizem
o tiro joga o corpo á frente
abertos braços
o quase morto, o morto
cai
súbito vôo em curto abismo
a morte é bela ?
a fala espanta o estudioso
belo é o poder?
a morte assombra
fútil, nas mãos do fútil assassino
mas
entre mitos mais que antigos existe outra moral:
num livro grosso , o livro dos destinos
estaria inscrito eternamente
o encontro do morto e seu carrasco
segundo o rito do fado e da tragédia
a mão que ceifa está sagrada
é outra a ira que executa, grave e dura
relâmpago divino
aqui, no palco das vilezas
horror é fala de meninos.
de matar pelas costas
é tão bonito!
o menino fala assim ao psicólogo
que conta ao repórter
que conta ao leitor
que todos se horrorizem
o tiro joga o corpo á frente
abertos braços
o quase morto, o morto
cai
súbito vôo em curto abismo
a morte é bela ?
a fala espanta o estudioso
belo é o poder?
a morte assombra
fútil, nas mãos do fútil assassino
mas
entre mitos mais que antigos existe outra moral:
num livro grosso , o livro dos destinos
estaria inscrito eternamente
o encontro do morto e seu carrasco
segundo o rito do fado e da tragédia
a mão que ceifa está sagrada
é outra a ira que executa, grave e dura
relâmpago divino
aqui, no palco das vilezas
horror é fala de meninos.
873
Angela Santos
Aspiração
Que
seja de luar a fonte
gota a gota sorvida,
sede inesgotável só amansada…
Que seja de luz o caminho
passo a passo percorrido
viandante ou peregrino
nele imprime seu destino.
seja de luar a fonte
gota a gota sorvida,
sede inesgotável só amansada…
Que seja de luz o caminho
passo a passo percorrido
viandante ou peregrino
nele imprime seu destino.
1 224
Carlos Nejar
Cântico
Limarás
tua esperança
Até que a mó se desgaste;
Mesmo sem mó, limarás
Contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
Mais doloroso e profundo
Limarás sem mãos ou braços,
Com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
Após a morte de tudo.
tua esperança
Até que a mó se desgaste;
Mesmo sem mó, limarás
Contra a sorte e o desespero.
Até que tudo te seja
Mais doloroso e profundo
Limarás sem mãos ou braços,
Com o coração resoluto.
Conhecerás a esperança,
Após a morte de tudo.
1 166
Carlos Nejar
Inscrição
Aqui estou,
aberto o pórtico.
Serei breve no amor e no transporte.
O óbolo está pago, o dia resgatado
E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.
Aos deuses não ouso nada,
nem compro,
senão o intervalo
de meu próprio espanto.
Carregai-me, barca
E ainda canto.
aberto o pórtico.
Serei breve no amor e no transporte.
O óbolo está pago, o dia resgatado
E a barca pronta, com seu barqueiro amargo.
Aos deuses não ouso nada,
nem compro,
senão o intervalo
de meu próprio espanto.
Carregai-me, barca
E ainda canto.
915
Carlos Nejar
Chegamento
Até aqui
cheguei
vivente, ileso ainda,
apresentando as trilhas
que só eu caminhei,
amamentadas filhas.
Até aqui cheguei,
pressuroso, confiante
mas seco, sem detenças
no depois e no antes;
sou a colina estreita
e o sol posto à direita.
Amigos, inimigos
até aqui cheguei,
por força de eu comigo;
com armas fabriquei
o tempo, onde Vulcano
subterrâneo, desceu.
A liberdade amei,
era bela e eu moço,
donzela a desposei.
E por sabê-la amada
e sempre mais diversa
do amor sobrou-me nada
e da esperança, réstias
Até aqui cheguei;
esse poder que tinha
de tanto andar, gastei.
Por isto na cantina,
guardador me encerrei
à espera de outra vinha.
Até aqui cheguei.
Para tantos cuidados,
afinal o que é meu
Que treva e luz se aninha
No corpo, que é só minha?
A roupa, quem ma deu
há muito apodreceu.
Os bens desempregados
são vindos e voltados.
E de tanto buscar
desfaço-me no ar.
Afinal o que é meu?
Até aqui cheguei.
Exaurido, remando
ou sem remos.
Amando ou desamando,
desconheço quando
os pés na mesma via
atingirão o dia.
Caminharei.
cheguei
vivente, ileso ainda,
apresentando as trilhas
que só eu caminhei,
amamentadas filhas.
Até aqui cheguei,
pressuroso, confiante
mas seco, sem detenças
no depois e no antes;
sou a colina estreita
e o sol posto à direita.
Amigos, inimigos
até aqui cheguei,
por força de eu comigo;
com armas fabriquei
o tempo, onde Vulcano
subterrâneo, desceu.
A liberdade amei,
era bela e eu moço,
donzela a desposei.
E por sabê-la amada
e sempre mais diversa
do amor sobrou-me nada
e da esperança, réstias
Até aqui cheguei;
esse poder que tinha
de tanto andar, gastei.
Por isto na cantina,
guardador me encerrei
à espera de outra vinha.
Até aqui cheguei.
Para tantos cuidados,
afinal o que é meu
Que treva e luz se aninha
No corpo, que é só minha?
A roupa, quem ma deu
há muito apodreceu.
Os bens desempregados
são vindos e voltados.
E de tanto buscar
desfaço-me no ar.
Afinal o que é meu?
Até aqui cheguei.
Exaurido, remando
ou sem remos.
Amando ou desamando,
desconheço quando
os pés na mesma via
atingirão o dia.
Caminharei.
1 176
Mariana Ianelli
Testamento
"Chora,
irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também
cumprir o seu próprio destino."
(Mário de Andrade - Rito do Irmão Pequeno)
A vida, para desejares
viver.
Um rosto emprestado de Deus
suscita da calada
para ser um rosto de homem,
teu voto de beleza.
O tempo de vir
é fortuna que não escolheste,
tua mãe é o primeiro regaço que não escolheste,
primeiro amor para amar, exaltado e fiel.
Mais tarde, o teu corpo desiludido
ou transformado em fonte,
um amigo arrastado no vento,
adágio seduzido,
mais tarde e de novo o silêncio,
que já não é o teu sereno,
mas uma tristeza inimiga
mais leal para ti que o teu corpo,
que o teu nome sonoro
e as concessões pela mãe.
Procuras um amor natural
como quando nada sabias,
mas a perda de Deus te ensinou,
como aos outros, a desconfiar.
Uma doçura é tão próxima,
mas e o teu pavor de amar ...
Na concha acanhada, durante,
escutas o sangue no passeio pelos dedos,
escutas no peito uma autonomia ignota.
Daí compreendes o sigiloso
de perseverar e doer ...
Tu és a vida que não veio,
e que mais sinceramente, no entanto,
está perto da tua nitidez.
És teu próprio filho emudecido, desatento.
Mesmo que sintas frio, como sentes.
irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também
cumprir o seu próprio destino."
(Mário de Andrade - Rito do Irmão Pequeno)
A vida, para desejares
viver.
Um rosto emprestado de Deus
suscita da calada
para ser um rosto de homem,
teu voto de beleza.
O tempo de vir
é fortuna que não escolheste,
tua mãe é o primeiro regaço que não escolheste,
primeiro amor para amar, exaltado e fiel.
Mais tarde, o teu corpo desiludido
ou transformado em fonte,
um amigo arrastado no vento,
adágio seduzido,
mais tarde e de novo o silêncio,
que já não é o teu sereno,
mas uma tristeza inimiga
mais leal para ti que o teu corpo,
que o teu nome sonoro
e as concessões pela mãe.
Procuras um amor natural
como quando nada sabias,
mas a perda de Deus te ensinou,
como aos outros, a desconfiar.
Uma doçura é tão próxima,
mas e o teu pavor de amar ...
Na concha acanhada, durante,
escutas o sangue no passeio pelos dedos,
escutas no peito uma autonomia ignota.
Daí compreendes o sigiloso
de perseverar e doer ...
Tu és a vida que não veio,
e que mais sinceramente, no entanto,
está perto da tua nitidez.
És teu próprio filho emudecido, desatento.
Mesmo que sintas frio, como sentes.
918
Emídia Felipe
A Meu Pai
Cansado
de lutar, o guerreiro subiu ao monte mais alto e disse: " – Mestre,
não quero me entregar, mas sou fraco. Quero acreditar, mas minha
fé é pouca.
Quero vencer, mas estou cansado. Não quero ser covarde, mas tenho
medo."
Depois, sentou-se em uma pedra, baixou a cabeça e viu como sua
espada
reluzia apesar dos arranhões. Lembrou-se de cada combate que
havia trazido
cada arranhão. Levantou-se, tomou a espada em suas mãos,
empunhou-a com
firmeza e, vendo o sol refletir na sua lâmina, olhou ao redor
... Viu muito
até a linha do horizonte, viu muitas coisas. Seu pensamento,
porém, viajou
muito além de onde seu olhar podia alcançar. Refez então
a sua fala: "-
Mestre, é preciso pensar ser forte para continuar? É preciso
pensar ser
grande a fé para acreditar? É preciso estar intacto para
vencer? É preciso
ter coragem para enfrentar a escuridão?"
Certo de que havia encontrado a resposta, o guerreiro desceu o monte
com a
certeza de que bastava a ele confiar em si e em seu Senhor para seguir
em
frente e cumprir sua jornada.
de lutar, o guerreiro subiu ao monte mais alto e disse: " – Mestre,
não quero me entregar, mas sou fraco. Quero acreditar, mas minha
fé é pouca.
Quero vencer, mas estou cansado. Não quero ser covarde, mas tenho
medo."
Depois, sentou-se em uma pedra, baixou a cabeça e viu como sua
espada
reluzia apesar dos arranhões. Lembrou-se de cada combate que
havia trazido
cada arranhão. Levantou-se, tomou a espada em suas mãos,
empunhou-a com
firmeza e, vendo o sol refletir na sua lâmina, olhou ao redor
... Viu muito
até a linha do horizonte, viu muitas coisas. Seu pensamento,
porém, viajou
muito além de onde seu olhar podia alcançar. Refez então
a sua fala: "-
Mestre, é preciso pensar ser forte para continuar? É preciso
pensar ser
grande a fé para acreditar? É preciso estar intacto para
vencer? É preciso
ter coragem para enfrentar a escuridão?"
Certo de que havia encontrado a resposta, o guerreiro desceu o monte
com a
certeza de que bastava a ele confiar em si e em seu Senhor para seguir
em
frente e cumprir sua jornada.
907
Reinaldo Ferreira
Há que morrer no convés
Há que morrer no convés
Do seu previsto naufrágio.
Tremem-lhe as tábuas aos pés,
Cheira a presságio.
Negros augúrios com asas
Cruzam agoiros nos mastros.
Os ventos sabem a brasas.
Recusam-se astros.
Já o Piloto que ruma
A proa dos embaraços,
Pressentiu que além da bruma
Esperam sargaços.
A agulha mentiu o norte,
Mas o Piloto sabia.
Quem busca as rotas da Morte
Não de desvia!
Não de desvia!
Do seu previsto naufrágio.
Tremem-lhe as tábuas aos pés,
Cheira a presságio.
Negros augúrios com asas
Cruzam agoiros nos mastros.
Os ventos sabem a brasas.
Recusam-se astros.
Já o Piloto que ruma
A proa dos embaraços,
Pressentiu que além da bruma
Esperam sargaços.
A agulha mentiu o norte,
Mas o Piloto sabia.
Quem busca as rotas da Morte
Não de desvia!
Não de desvia!
1 844
Reinaldo Ferreira
Canção do pastor perdido
Ia eu pra Belém
Com oferendas também
Por Babel me passava;
E, passando, hesitei,
Hesitando, parei
E parando, ficava.
Mas nem lavas, nem lodos,
Nem os répteis todos
Da Paixão e do Mal
Terão força que possa
Afundar-me na fossa
Do Juízo final.
Com oferendas também
Por Babel me passava;
E, passando, hesitei,
Hesitando, parei
E parando, ficava.
Mas nem lavas, nem lodos,
Nem os répteis todos
Da Paixão e do Mal
Terão força que possa
Afundar-me na fossa
Do Juízo final.
1 867
Reinaldo Ferreira
Na vida somos iguais
Na vida somos iguais
Às peças que no xadrez
Valem o menos e o mais,
Segundo o acaso que a fez.
Do mesmo cepo nascer
Para as batalhas pensadas,
Aos mais, peões de perder,
A raros, ficções coroadas.
Mas, findo o jogo, receio
Que, extintas as convenções,
Durma a rainha no meio
Dos mal nascidos peões.
Às peças que no xadrez
Valem o menos e o mais,
Segundo o acaso que a fez.
Do mesmo cepo nascer
Para as batalhas pensadas,
Aos mais, peões de perder,
A raros, ficções coroadas.
Mas, findo o jogo, receio
Que, extintas as convenções,
Durma a rainha no meio
Dos mal nascidos peões.
1 837