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Poemas neste tema

Dor e Desespero

José Régio

José Régio

Ode a Eros

Eros, Cupido, Amor, pequeno Deus travesso
Com quem todos brincamos!
Brincando nos ferimos,
Ferindo-nos gozamos,
Se rimos já choramos,
Mal que choramos rimos...
Já, voltados do avesso,
Por igual o voltamos,
O torturamos nós como ele nos tortura,
Descemos aos recessos da criatura...

Pequenino gigante!
Sonhava, ou não sonhava,
Quem te representou risonho e pequenino
Que de Hércules a clava
Não pesa como pesa a tua mão de infante,
Nem seu furor destrói
Como nos dói
Teu riso de menino?

Nas tuas leves setas
Nas flâmulas gentis
Que cantam os poetas
E os namorados juvenis,
Que longos ópios e letais licores,
Que pântanos de lodo e que furores,
Que grinaldas de louros e de espinhos,
Que abissais labirintos de caminhos!

Mascarilha de seda e de veludo
Sob a qual o olhar brilha, a boca ri,
Que olhar ambíguo ou mudo,
Que boca atormentada
Não terás além ti
Na mascarada?

Pai da Crueldade e da Piedade,
Filho do Crime e da Beleza,
Que infante serás tu, que, desde que há Idade,
Aos Ícaros opões a mesma astral parede,
E os Lázaros susténs dos restos dessa mesa
Em que se bebe sempre a mesma sede,
Se come
A mesma fome?

Divindade nocturna
Que te cinges de rosas,
Suprema fúria mascarada
Que a porta abres do céu... escancarada
Sobre o negro vazio duma furna,
Que a urna de cristal nas mãos formosas
Vens ofertar às bocas sequiosas
E escorres sangue do cristal da urna,
Que tens tu afinal, ao fundo da caverna
Sempre aos mortais vedada:
A eterna morte... o nada,
Ou a vida eterna?

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Gonçalves de Magalhães

Gonçalves de Magalhães

Canto Quarto

(...)

Um ai do peito a mísera soltando,
A maviosa voz destarte exala:

"Só, eis-me aqui no cimo da montanha,
Dos meus abandonada; como um tronco
Despido, inútil no alto da colina,
A que os ramos quebrou Tupã co'a frecha.

"Só, eis-me aqui, do velho pai ausente,
Ausente do querido bem-amado,
Como viúva, solitária rola
Em deserto areal seu mal carpindo!

"Ainda hoje o caro pai vi a meu lado;
Ainda hoje o amante eu vi!... Fugiram ambos,
Velozes como os cervos da floresta:
Já fui feliz; mas hoje desgraçada!"

E os ecos responderam — desgraçada!

"Desgraçada!... E ainda vivo? Antes à guerra
O pai e o bravo amante acompanhasse;
Ouvindo sua voz, seu rosto vendo,
Acabar a seu lado melhor fora."

E os ecos responderam — melhor fora!

"Gênios, que as grotas povoais e os vales,
Gênios, que repetis os meus acentos,
Ide, e do amado murmurai no ouvido
Que a amante sua de saudades morre."

E os ecos responderam — morre... morre!

Morre... morre! soou por longo tempo.
O canto cala um pouco a triste moça,
Murmurando dos ecos o estribilho,
Como se algum presságio concebesse.
Os negros olhos de chorar cansados
Co'as mãos ele os enxuga; mas de novo
Desses doridos olhos as estanques
Lágrimas brotam, que lhe o peito aljofram,
Como goteja em bagas abundantes
Da fendida taboca a pura linfa.

(...)

"Sim, morrerei..."
E mais dizer não pôde;
Em meio de um gemido a voz faltou-lhe.
Os lábios lhe tremiam convulsivos,
Como flores batidas pelos ventos.
Cruza os braços no colo, os olhos cerra,
Pende a fronte, e no peito o queixo apóia,
As derretidas perlas entornando:
Tal num jardim a pálida açucena,
De matutino orvalho o cálix cheio,
Se o zéfiro a bafeja, a fronte inclina,
Puros cristais em lágrimas vertendo.
Não sei se dorme, ou se respira ainda;
Mas parece entre pedras bela estátua,
Que do abandono o desalento exprime!
O sol, que ao ressurgir a viu chorosa,
Nesse mesmo lugar chorosa a deixa.

(...)

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Publicado no livro A Confederação dos Tamoios: poema (1856).

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949

NOTA: Poema composto de 10 canto
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O silêncio

Era complicado. Primeiro deitou os restos de comida no caixote do lixo. Depois passou os pratos e os talheres por água corrente debaixo da torneira. Depois mergulhou-os numa bacia com sabão e água quente e, com um esfregão, limpou tudo muito bem. Depois tornou a aquecer água e deitou-a no lava-loiças com duas medidas de sonasol e de novo lavou pra­tos, colheres, garfos e facas. Em seguida passou a loiça e os talheres por água limpa e pô-los a escorrer na banca de pedra.
As suas mãos tinham ficado ásperas, esta­va cansada de estar de pé e doíam-lhe um pou­co as costas. Mas sentia dentro de si uma gran­de limpeza como se em vez de, estar a lavar a loiça estivesse a lavar a sua alma. A luz sem abat-jour da cozinha fazia brilhar os azulejos brancos. Lá fora, na doce noite de Verão, um cipreste ondulava branda­mente.
O pão estava no cesto, a roupa na gaveta, os copos no armário. O vaivém, a agitação e o tumulto do dia repousavam.
Havia um grande sossego. Tudo estava ar­rumado e o dia estava pronto.
E Joana atravessou devagar a sua casa.
Ia abrindo e fechando as portas, abrindo e fechando as luzes. Os quartos desapareciam no escuro e surgiam do escuro na claridade.
Um doce silêncio pairava como uma sede estendida.
O silêncio desenhava as paredes, cobria as mesas, emoldurava os retratos. O silêncio escul­pia os volumes, recortava as linhas, aprofunda­va os espaços. Tudo era plástico e vibrante, denso da própria realidade. O silêncio como um estremecer profundo percorria a casa.
As coisas conhecidas - o muro, a porta, o espelho - mostravam uma por uma a sua bele­za e a sua serenidade. E nas janelas abertas a noite de Junho mostrava o seu rosto constelado e suspenso.
Joana deu lentamente a volta à sala. To­cou o vidro, a cal, a madeira. Há muito já que cada coisa tinha encontrado ali o seu lugar. E era como se esse lugar, como se a relação entre a mesa, o espelho, a porta, fossem a expressão de uma ordem que ultrapassava a casa.
As coisas pareciam atentas. E a mulher que lavara a loiça procurava o centro dessa atenção. Sempre o procurara, mas quem o po­de captar?
O silêncio agora era maior. Era como uma flor que tivesse desabrochado inteiramente e alisasse todas as suas pétalas.
E em roda deste silêncio os astros da noite exterior giravam lentamente e o seu movimen­to imperceptível tomava em si a ordem e o si­lêncio da casa.
Com as mãos tocando a parede branca Joa­na respirou docemente. Era ali o seu reino, ali na paz da contemplação nocturna. Da ordem e do silêncio do universo erguia-se uma infinita liberdade: Ela respirava essa liberdade que era a lei da sua vida, o alimento do seu ser.
A paz que a cercava era aberta e transparente. A forma das coisas era uma grafia, uma escrita. Uma escrita que ela não entendia mas reconhecia.
Atravessou a sala e debruçou-se na janela aberta em frente do puro instante azul da noi­te.
As estrelas brilhavam, íntimas e distantes. E pareceu-lhe que entre ela e a casa e as estrelas fora estabelecida desde sempre uma aliança. Era como se o peso da sua consciência fosse ne­cessário ao equilíbrio das constelações, como se uma intensa unidade atravessasse o universo in­teiro.
E ela habitava essa unidade, estava presen­te e viva na relação das coisas e a própria reali­dade atenta a abrigava em sua imensa e aguda presença.
No ar, na cal, no vidro, tocava a sua felici­dade e essa felicidade era no seu centro unida­de.
Debruçou-se na janela e apoiou os braços na pedra fresca do parapeito.
Uma leve brisa agitou os ramos dos cedros. No rio, rouca, apitou uma sereia. Na torre o si­no bateu duas badaladas. Foi então que se ouviu o grito.
Um longo grito agudo, desmedido. Um grito que atravessava as paredes, as portas, a sa­la, os ramos do cedro.
Joana virou-se na janela. Houve uma pau­sa. Um pequeno momento imóvel, suspenso, hesitante. Mas logo novos gritos se ergueram, trespassando a noite. Estavam a gritar na rua, do outro lado da casa. Era uma voz de mulher. Uma voz nua, desgarrada, solitária. Uma voz que de grito em grito se ia desformando, desfi­gurando até ficar transformada em uivo. Uivo rouco e cego. Depois a voz enfraqueceu, bai­xou, tomou um ritmo de soluço, um tom de la­mentação. Mas logo voltou a crescer, com fúria, raiva, desespero, violência.
Na paz da noite, de cima a baixo, os gritos abriram uma grande fenda, uma ferida, E as­sim como a água começa a invadir o interior en­xuto quando se abre um rombo no casco de um navio, assim agora, pela fenda que os gritos ti­nham aberto, o terror, a desordem, a divisão, o pânico penetravam no interior da casa, do mundo, da noite.
Joana afastou-se da janela que dava para o jardim, atravessou a sala, o corredor e o quarto e, no outro lado da casa, debruçou-se na janela que dava para a rua.
A mulher via-se mal, agarrada à parede, na meia-luz, do outro lado do passeio. Os seus gritos nus, próximos, desmedidos enchiam a penumbra. Na sua voz a terra e a vida tinham despido os seus véus, o seu pudor e mostravam o seu abismo, revelavam a sua desordem, a sua treva. De uma ponta à outra da rua os gritos corriam batendo contra as portas fechadas.
Era uma rua estreita, apertada entre edifí­cios sem cor, pesados e tristes. Ali a noite era cinzenta, o ar baço, parado e pegajoso.
Cães vadios farejavam o chão dos passeios e rebuscavam os caixotes do lixo tentando agar­rar sob as tampas os restos, as cascas, o pescoço da galinha degolada.
O edifício enorme da prisão enchia todo o lado esquerdo da rua com as altas paredes cor­tadas por pequenas janelas de grades. A essa parede estava encostada a mulher. As vezes er­guia a cara e então via-se o rosto torcido e desfi­gurado pelo grito. Ao seu lado desenhava-se o vulto de um homem. Era tarde. As portas e as janelas estavam fe­chadas sobre gente adormecida e na rua não pas­sava mais ninguém. Só de longe a longe se ouvia um chiar de carros na viragem das esquinas.
O homem procurava arrastar a mulher e, quando os gritos diminuíam um instante, im­plorava-lhe que se calasse, pedia:
- Vamos embora.
Mas ela não o ouvia. Gritava como se esti­vesse só no mundo, como se tivesse ultrapassa­do toda a companhia e toda a razão e tivesse encontrado a pura solidão. Gritava contra as paredes, contra as pedras, contra a sombra da noite. Erguia a sua voz como se a arrancasse do chão, como se o seu desespero e a sua dor bro­tassem do próprio chão que a suportava. Erguia a sua voz como se quisesse atingir com ela os confins do universo e, aí, tocar alguém, acordar alguém, obrigar alguém, a responder. Gritava contra o silêncio.
Às vezes calava-se um momento e inclina­va a cabeça para trás como quem espera ouvir uma resposta.
Então, de novo, o homem implorava:
- Cala-te, cala-te. Vamos embora daqui.
Mas ela recomeçava a gritar e batia com os punhos na parede da prisão como se quisesse forçar a pedra a responder. Gritava como se quisesse atingir um ausente, acordar um ador­mecido, abalar uma consciência impassível e, alheada, tocar o coração de um morto.
Através das paredes, das portas, das ruas, da cidade, gritava para o fundo do universo, para o fundo do espaço, para o fundo da ocul­tação da noite, para o fundo do silêncio.
De repente calou-se, curvou a cabeça, ta­pou o rosto com as mãos. Então o homem co­briu-lhe os cabelos com o xaile, afastou-a da parede, passou-lhe um braço em roda dos om­bros, e, devagar, juntos, desceram a rua e vira­ram a esquina.
Durante algum tempo flutuou no ar pesa­do da rua um eco de soluços e de passos que se afastavam e diminuíam. Depois voltou o silên­cio.
Um silêncio opaco e sinistro onde se ouvia o esgravatar dos cães.
Joana voltou para a sala. Tudo agora, des­de o fogo da estrela até ao brilho polido da me­sa, se tinha tornado desconhecido. Tudo se tinha tornado acidente absurdo, sem ligação, sem reino. As coisas não eram dela, nem eram ela, nem estavam com ela. Tudo se tornara alheio, tudo se tornara ruína irreconhecível.
E, tocando sem os sentir o vidro, a madei­ra, a cal, Joana atravessou como estrangeira a sua casa.

(1966)


Sophia de Mello Breyner Andresen | "Histórias da Terra e do Mar", págs. 47 a 55 | Texto Editora, 3ª. edição, 1989
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