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Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Os Dois Vigários

Há cinquenta anos passados,
Padre Olímpio bendizia,
Padre Júlio fornicava.
E Padre Olímpio advertia
e Padre Júlio triscava.
Padre Júlio excomungava
quem se erguesse a censurá-lo
e Padre Olímpio em seu canto
antes de cantar o galo
pedia a Deus pelo homem.
Padre Júlio em seu jardim
colhia flor e mulher
num contentamento imundo.
Padre Olímpio suspirava,
Padre Júlio blasfemava.
Padre Olímpio, sem leitura
latina, sem ironia,
e Padre Júlio, criatura
de Ovídio, ria, atacava
a chã fortaleza do outro.
Padre Olímpio silenciava.
Padre Júlio perorava,
rascante e politiqueiro.
Padre Olímpio se omitia
e Padre Júlio raptava
mulher e filhos do próximo,
outros filhos aditava.
Padre Júlio responsava
os mortos pedindo contas
do mal que apenas pensaram
e desmontava filáucias
de altos brasões esboroados
entre moscas defuntórias.
Padre Olímpio respeitava
as classes depois de extintos
os sopros dos mais distintos
festeiros e imperadores.
Se Padre Olímpio perdoava,
Padre Júlio não cedia.
Padre Júlio foi ganhando
com o tempo cara diabólica
e em sua púrpura calva,
em seu mento proeminente,
ardiam brasas. E Padre
Olímpio se desolava
de ver um padre demente
e o Senhor atraiçoado.
E Padre Júlio oficiava
como oficia um demônio
sem que o escândalo esgarçasse
a santidade do ofício.
Padre Olímpio se doía,
muito se mortificava
que nenhum anjo surgisse
a consolá-lo em segredo:
“Olímpio, se é tudo um jogo
do céu com a terra, o desfecho
dorme entre véus de justiça.”
Padre Olímpio encanecia
e em sua estrita piedade,
em seu manso pastoreio,
não via, não discernia
a celeste preferência.
Seria por Padre Júlio?
Valorizava-se o inferno?
E sentindo-se culpado
de conceber turvamente
o augustíssimo pecado
atribuído ao Padre Eterno,
sofre-rezando sem tino
todo se penitenciava.
Em suas costas botava
os crimes de Padre Júlio,
refugando-lhe os prazeres.
Emagrecia, minguava,
sem ganhar forma de santo.
Seu corpo se recolhia
à própria sombra, no solo.
Padre Júlio coruscava,
ria, inflava, apostrofava.
Um pecava, outro pagava.
O povo ia desertando
a lição de Padre Olímpio.
Muito melhor escutava
de Padre Júlio as bocagens.
Dois raios, na mesma noite,
os dois padres fulminaram.
Padre Olímpio, Padre Júlio
iguaizinhos se tornaram:
onde o vício, onde a virtude,
ninguém mais o demarcava.
Enterrados lado a lado
irmanados confundidos,
dos dois padres consumidos
juliolímpio em terra neutra
uma flor nasce monótona
que não se sabe até hoje
(cinquenta anos se passaram)
se é de compaixão divina
ou divina indiferença.

(lc)
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Alceu, Radiante Espelho

Lá se vai Alceu, voltado para o futuro,
para um sol de infinita duração.
Lá se vai Alceu, sem as melancolias do passado,
que para ele tinha a forma de um casarão azul,
e sem as ilusões adolescentes do progresso.
Julga-se ouvir no seu trânsito
os acordes da Sonata para piano e violino de César Frank,
que ele tanto amava.
Seu claro riso e humana compreensão e universal doçura
revelam que pensar não é triste.
Pensar é exercício de alegria
entre veredas de erro, cordilheiras de dúvida,
oceanos de perplexidade.
Pensar, ele o provou, abrange todos os contrastes,
como blocos de vida que é preciso polir e facetar
para a criação de pura imagem:
o ser restituído a si mesmo.
Contingência em busca de transcendência.

Lá se vai Alceu: as letras não o limitam
no paraíso de sensualidade das palavras
que substituem coisas e sentimentos,
diluindo o sangue de existir.
Para além das letras restam indícios mais luminosos
de uma insondável, solene realidade
de que muitos tentam aproximar-se
com a cegueira de seus pontos de vista
e a avidez da insatisfação.
Alceu chega bem perto do fogo incandescente
e não tem medo.
Sorri. Venceu o conformismo
com a classe, a carreira, a biografia.
Alceu, radiante espelho
de humildade e fortaleza entrelaçadas.
Não chora as ruínas da esperança.
Com elas faz uma esperança nova
de que a justiça não continue uma dor e um escândalo
de incrível raridade,
e sim atmosfera do ato de viver
em liberdade e comunhão.

Lá se vai Alceu, gentil presença,
convívio militante entre solidões de ideias
cada vez mais fechadas — e ele aberto
aos ventos do mundo, à decifração do lancinante
anseio de instituir a paz interior
no regaço da paz exterior:
anseio de homens
desencontrados, tontos, malferidos
no horror da vida escrava do azinhavre
de moedas viciadas no poder da Terra.
Alceu tão frágil no seu grande corpo
que não comanda os rumos da aventura,
mas adverte, ensina, faz o gesto
que anima a prosseguir e a procurar
a mais exata explicação do homem.
E lá se vai Alceu, servo de Deus,
servo do amor, que é cúmplice de Deus.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lira Pedestre

Gerontologia econômica

Simone de Beauvoir, tua lição
não me interessa, não, sobre a velhice.
Prefiro agora ver José da Cruz,
mineiro de Ouro Preto (quem diria?),
trabalhando de dar sumiço a velhos.
“Já não valem mais nada”, ele declara.
Como não? Valem muito: à custa deles,
cria José, em meio à vida cara,
uma nova e rendosa profissão.


No balcão

O cafezinho está mais caro?
Sabe melhor o cafezinho?
De diâmetro aumentou a xícara?
A colherzinha não é mais de prata
(se algum dia foi), e um sorriso
de boas-vindas nos acolhe
sob os bigodes do gerente?
É mais café o cafezinho,
mais quente, inspira mais piadas
a seus costumeiros clientes?
Tem um pó mais fino, o adoçante
não mata mais que o ciclamato,
e há no açúcar um princípio
de tornar o dia contente
quando o céu da boca relembra
o cafezinho em pé tomado?
O cafezinho contém mesmo
café do bom, que a velha casa
de nosso avô servia a todos,
e repetiam todos, uai?
Não. Simplesmente, meus amigos,
o cafezinho está mais caro.


Acordo entre cavalheiros

O esquadrão primeiro, depois
de liquidar mil marginais,
ao esquadrão número dois
se dirigiu em termos tais:
— Se tu me tascas, eu te tasco,
não sobra um para semente.
É melhor acordo: um carrasco
não deve morrer inocente!


Quem avisa amigo é

Que vontade antiga de ir a Roma,
ver as coisas antigas, sentir
a alma antiga das coisas.
Certa manhã,
entrar na Basílica de São Pedro,
procurar Miguel Ângelo:
ainda briga muito com Bramante?
Depois, ajoelhar-me,
pedir a Deus a graça, entre milhares,
de que careço…
— Ah, isso não — adverte Paulo VI
em amistoso alarme:
É tão esplendoroso aqui, bofé,
que rezar nesta igreja não dá pé.

25/04/1970
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