Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Guerra-Duval
Soneto do Olhar
(Para os teus olhos, para os teus olhares
o Soneto bordado de saudade
e a lisonja das sílabas de seda.)
Pelo céu, pela noite, pelos mares,
— Via-láctea de amor e claridade —
o teu olhar é plácida alameda,
onde a minhalma, anêmica e doente,
anda bebendo o ar da vida nova,
nesse quebranto do convalescente
que fugiu ao mistério duma cova.
(já estive à morte, sendo assim tão moço...)
— Tarde de calma e de melancolia
é o teu olhar; e, quando me olhas, ouço
tocar dentro de mim Ave-Maria.
o Soneto bordado de saudade
e a lisonja das sílabas de seda.)
Pelo céu, pela noite, pelos mares,
— Via-láctea de amor e claridade —
o teu olhar é plácida alameda,
onde a minhalma, anêmica e doente,
anda bebendo o ar da vida nova,
nesse quebranto do convalescente
que fugiu ao mistério duma cova.
(já estive à morte, sendo assim tão moço...)
— Tarde de calma e de melancolia
é o teu olhar; e, quando me olhas, ouço
tocar dentro de mim Ave-Maria.
947
Dantas Motta
Éclogas Pequenas em que Fala um Só Pastor
No Sertão das Vacarias o leite e o País
escorriam do mistério e das estrelas serranas.
As vacas, ruminando o tempo,
pastavam o sereno num campo de bíblias.
E foram delas, Joaquina, e foram delas
que Jó nasceu, o Cristo e meu pai.
E o eu sabê-lo morto, mortas sei as invernadas,
por isto, substituindo-o na paterna casa,
aonde agora razão venho dar de mim,
esforço envidei por que corresse ainda,
nas margens de um sentido crepúsculo,
um novo rio que da pobreza manasse.
Tudo o que eu pude dar-vos dela,
em sossego e noite, perdi. Porque a noite,
hoje em mim, é apenas lembrança de poesia,
sol e crescimento. Contudo
nela ainda precisamos crer, Joaquina,
como a morada da paz, da nostalgia
e da conformação, além do que
todos os dias são prisões, nunca exílio.
E se eu em Deus outra vez vier a crer,
e esta carcaça, de novo, Ele se dignar
de bem cavalgar, que o faça à noite
com seus túmulos e suas estrelas,
porque, em verdade, o dia me envelhece.
De fato eu creio que morri.
E quem não morreu, Joaquina?
escorriam do mistério e das estrelas serranas.
As vacas, ruminando o tempo,
pastavam o sereno num campo de bíblias.
E foram delas, Joaquina, e foram delas
que Jó nasceu, o Cristo e meu pai.
E o eu sabê-lo morto, mortas sei as invernadas,
por isto, substituindo-o na paterna casa,
aonde agora razão venho dar de mim,
esforço envidei por que corresse ainda,
nas margens de um sentido crepúsculo,
um novo rio que da pobreza manasse.
Tudo o que eu pude dar-vos dela,
em sossego e noite, perdi. Porque a noite,
hoje em mim, é apenas lembrança de poesia,
sol e crescimento. Contudo
nela ainda precisamos crer, Joaquina,
como a morada da paz, da nostalgia
e da conformação, além do que
todos os dias são prisões, nunca exílio.
E se eu em Deus outra vez vier a crer,
e esta carcaça, de novo, Ele se dignar
de bem cavalgar, que o faça à noite
com seus túmulos e suas estrelas,
porque, em verdade, o dia me envelhece.
De fato eu creio que morri.
E quem não morreu, Joaquina?
1 071
Dário Veloso
Paredra
Vênus pagã, olhos de sete-estrêlo,
A cabeleira rútila fulgindo...
Amei-te!... Amor, nos olhos tens fulgindo,
Volúpia; luz o sol de teu cabelo.
A luxúria findou. Astro maldito,
Rolei do azul aos pélagos hiantes...
Procurava a minha alma... Além, distantes,
Lótus colhi nos édens do Infinito.
Morreste. Ao val da Sombra, compungido,
Boa que foras para meus delírios,
Levei teu nobre coração partido.
Só então, osculando o altar de pedra,
À luz morrente de funéreos círios,
Tua alma ouvi... — a minha Irmã, Paredra.
A cabeleira rútila fulgindo...
Amei-te!... Amor, nos olhos tens fulgindo,
Volúpia; luz o sol de teu cabelo.
A luxúria findou. Astro maldito,
Rolei do azul aos pélagos hiantes...
Procurava a minha alma... Além, distantes,
Lótus colhi nos édens do Infinito.
Morreste. Ao val da Sombra, compungido,
Boa que foras para meus delírios,
Levei teu nobre coração partido.
Só então, osculando o altar de pedra,
À luz morrente de funéreos círios,
Tua alma ouvi... — a minha Irmã, Paredra.
1 252
Frutuoso Ferreira
15 de Novembro
Repúblicas dos céus tão belas, tão faustosas...
Oh! Quem vos concebera as formas grandiosas?
— Quem fora esse Escultor dos vossos alabastros
E o Fáon que acendera os fogos desses astros?
Sereias ou vestais de uns esplendores lácteos,
Em meio às amplidões de aéneos céus, eufráteus,
Por entre o oiro e o azul de siderais Elêusis,
Vossos seios, em flor, de apocalípticos deuses,
Entre a pompa a escander, dos arrebóis ardentes
E o deserto e o negror das noites arquialgentes:
— Quem vos alcandorara as negridões nevosas,
Repúblicas dos Céus... Valquírias... Nebulosas?...
Minh’alma é vaga e loira assim como as Quimeras,
Eu ouço a melopéia ardente das esferas,
Eu sigo no Infinito os grupos das visões
................................................................................
Eu sou como Aassvero, eu venho de outras plagas
Remotas, de outros céus azúleos como as vagas,
Exausto e já cansado atrás das harmonias,
Deixai banhar-me aí ao sol das Utopias,
Nas vossas regiões adúleas, peregrinas,
Quero beber a luz das vastidões divinas,
Repúblicas do Azul... Valquírias... Nebulosas...
Oh! Quem vos concebera as formas grandiosas?
— Quem fora esse Escultor dos vossos alabastros
E o Fáon que acendera os fogos desses astros?
Sereias ou vestais de uns esplendores lácteos,
Em meio às amplidões de aéneos céus, eufráteus,
Por entre o oiro e o azul de siderais Elêusis,
Vossos seios, em flor, de apocalípticos deuses,
Entre a pompa a escander, dos arrebóis ardentes
E o deserto e o negror das noites arquialgentes:
— Quem vos alcandorara as negridões nevosas,
Repúblicas dos Céus... Valquírias... Nebulosas?...
Minh’alma é vaga e loira assim como as Quimeras,
Eu ouço a melopéia ardente das esferas,
Eu sigo no Infinito os grupos das visões
................................................................................
Eu sou como Aassvero, eu venho de outras plagas
Remotas, de outros céus azúleos como as vagas,
Exausto e já cansado atrás das harmonias,
Deixai banhar-me aí ao sol das Utopias,
Nas vossas regiões adúleas, peregrinas,
Quero beber a luz das vastidões divinas,
Repúblicas do Azul... Valquírias... Nebulosas...
972
Flexa Ribeiro
Crucificação
Forrado de cristal quero nosso aposento.
Abertas num perfume, orquídeas solitárias.
Subindo em espiral, como o meu Sentimento,
duma caçoila estranha, as essências mais várias...
Quatro esfinges a olhar, vagas e funerárias...
Um Cristo de marfim, visionário e sangrento.
Quase apagado o som de aveludadas árias,
através dos cristais, trazidas pelo vento...
E de tons de violeta uma luz o ilumina:
ambiente sensual, espiritualizado
à emoção virginal que me prende e domina...
Sobre lâmina de ouro — em formato de lira —
se estende o Corpo em flor, macio e perfumado,
em que todo o meu ser se alucina e delira!
Abertas num perfume, orquídeas solitárias.
Subindo em espiral, como o meu Sentimento,
duma caçoila estranha, as essências mais várias...
Quatro esfinges a olhar, vagas e funerárias...
Um Cristo de marfim, visionário e sangrento.
Quase apagado o som de aveludadas árias,
através dos cristais, trazidas pelo vento...
E de tons de violeta uma luz o ilumina:
ambiente sensual, espiritualizado
à emoção virginal que me prende e domina...
Sobre lâmina de ouro — em formato de lira —
se estende o Corpo em flor, macio e perfumado,
em que todo o meu ser se alucina e delira!
721
Faria Neves Sobrinho
O Pântano
Ouve e guarda contigo
este conceito amigo:
Alma não há de crimes tão perdida,
nem coração tão torvo e escuso e escuro,
que se não abra, uma só vez na vida,
ao riso em flor de um sentimento puro.
Olha:o pântano é todo
feito de vasa e lodo.
No entanto, em noites claras, é de vê-las:
na água malsã que a vasa está cobrindo
chispam, tremeluzindo,
cintilações de estrelas...
este conceito amigo:
Alma não há de crimes tão perdida,
nem coração tão torvo e escuso e escuro,
que se não abra, uma só vez na vida,
ao riso em flor de um sentimento puro.
Olha:o pântano é todo
feito de vasa e lodo.
No entanto, em noites claras, é de vê-las:
na água malsã que a vasa está cobrindo
chispam, tremeluzindo,
cintilações de estrelas...
1 117
Francisco Mangabeira
Regina
Em alegrias fortes prorrompa
Nervosamente meu coração,
Que se celebra, com toda a pompa,
Um desvairado festim pagão.
Corra um delírio pelo Universo,
Que nem um homem pense sequer,
E ocupe o loiro sólio do Verso
A Imagem Branca duma Mulher!
A um riso dela, deixem os filhos
Mortas nas chamas as próprias mães,
E aos seus Pés tremam fracos, sem brilhos,
Os astros, como se fossem cães!
Lancem blasfêmias todas as bocas,
Os ares sejam um escarcéu,
As aves fiquem mortas ou loucas,
E as nuvens todas ardam no céu!
Raios e roncos de trovoadas
Venham o espaço negro ferir...
E, entre essas raivas desordenadas,
Ela, no sólio, branca, a sorrir.
Para de beijos encher o Ardente
Corpo da minha Deusa Pagã,
Eu quereria ser Deus clemente,
E choraria não ser Satã.
De almas sangrentas e cancerosas
Se erija um trono descomunal,
Onde ela se erga, nas Mãos Formosas
Sustendo um rubro, quente punhal.
Soluce o vento pelos espaços,
O oceano ferva cheio de dor,
E esmague peitos, crânios e braços
Seu Grande Carro Triunfador.
Quando Esse Carro Sombrio e Horrendo
Por sobre o sangue morno passar,
Cantarei sendo Satã — e sendo
Deus, pelas trevas irei chorar.
Depois os corpos estreitamente
Unamos, deles fazendo um só.
E então o Carro furiosamente
Os pise, unindo-os no mesmo pó.
Nervosamente meu coração,
Que se celebra, com toda a pompa,
Um desvairado festim pagão.
Corra um delírio pelo Universo,
Que nem um homem pense sequer,
E ocupe o loiro sólio do Verso
A Imagem Branca duma Mulher!
A um riso dela, deixem os filhos
Mortas nas chamas as próprias mães,
E aos seus Pés tremam fracos, sem brilhos,
Os astros, como se fossem cães!
Lancem blasfêmias todas as bocas,
Os ares sejam um escarcéu,
As aves fiquem mortas ou loucas,
E as nuvens todas ardam no céu!
Raios e roncos de trovoadas
Venham o espaço negro ferir...
E, entre essas raivas desordenadas,
Ela, no sólio, branca, a sorrir.
Para de beijos encher o Ardente
Corpo da minha Deusa Pagã,
Eu quereria ser Deus clemente,
E choraria não ser Satã.
De almas sangrentas e cancerosas
Se erija um trono descomunal,
Onde ela se erga, nas Mãos Formosas
Sustendo um rubro, quente punhal.
Soluce o vento pelos espaços,
O oceano ferva cheio de dor,
E esmague peitos, crânios e braços
Seu Grande Carro Triunfador.
Quando Esse Carro Sombrio e Horrendo
Por sobre o sangue morno passar,
Cantarei sendo Satã — e sendo
Deus, pelas trevas irei chorar.
Depois os corpos estreitamente
Unamos, deles fazendo um só.
E então o Carro furiosamente
Os pise, unindo-os no mesmo pó.
1 059
Gilberto Gil
Procissão
Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu
E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na terra isto tem que se acabar
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu
E Jesus prometeu vida melhor
Pra quem vive nesse mundo sem amor
Só depois de entregar o corpo ao chão
Só depois de morrer neste sertão
Eu também tô do lado de Jesus
Só que acho que ele se esqueceu
De dizer que na terra a gente tem
De arranjar um jeitinho pra viver
Muita gente se arvora a ser Deus
E promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria
E promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem
Meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento
Cá na terra isto tem que se acabar
1 686
Durval de Morais
O Cortejo Nupcial
Pelo estreito caminho da colina,
O cortejo subia lentamente...
Ela, trajando veste purpurina,
Trazia à face a púrpura do crente.
Tendo a clara inocência da menina,
Que abaixa os olhos, quando o olhar pressente
De alguém que a pensa linda, o rosto inclina,
Maria, e, pousa o olhar no chão, tremente!
Coroados de flores, precedidos
De cânticos, em cismas embebidos,
Atravessam desertos e devesas...
Louvando o amor dos imortais amantes,
Dez virgens de alvas vestes flutuantes
Erguem, ao sol, dez lâmpadas acesas.
O cortejo subia lentamente...
Ela, trajando veste purpurina,
Trazia à face a púrpura do crente.
Tendo a clara inocência da menina,
Que abaixa os olhos, quando o olhar pressente
De alguém que a pensa linda, o rosto inclina,
Maria, e, pousa o olhar no chão, tremente!
Coroados de flores, precedidos
De cânticos, em cismas embebidos,
Atravessam desertos e devesas...
Louvando o amor dos imortais amantes,
Dez virgens de alvas vestes flutuantes
Erguem, ao sol, dez lâmpadas acesas.
780
Carvalho Aranha
Vigília
No meu retiro, agora, as lágrimas benditas
De minha santa mãe, pranto mudado em rosas,
Pelas manhãs de sol e nas manhãs brumosas
Hão de, lestas, cair. Alma, por que te agitas?
A paz, a grande paz das coisas silenciosas,
Nostalgias do Além e as curvas infinitas
Do Nirvana fatal em que, sábio, meditas,
Surgem, aos olhos meus, do véu das nebulosas.
Voa um mocho, a chilrar, e a maldição noturna
Do vento ao ciprestal a ramaria esgalha,
Vai rolando a gemer, crebra, de furna em furna;
Enquanto, a palpitar, núcleos de mundos, pelas
Estradas siderais, da luz náurea mortalha,
Giram os eternos sóis e as trêmulas estrelas!
De minha santa mãe, pranto mudado em rosas,
Pelas manhãs de sol e nas manhãs brumosas
Hão de, lestas, cair. Alma, por que te agitas?
A paz, a grande paz das coisas silenciosas,
Nostalgias do Além e as curvas infinitas
Do Nirvana fatal em que, sábio, meditas,
Surgem, aos olhos meus, do véu das nebulosas.
Voa um mocho, a chilrar, e a maldição noturna
Do vento ao ciprestal a ramaria esgalha,
Vai rolando a gemer, crebra, de furna em furna;
Enquanto, a palpitar, núcleos de mundos, pelas
Estradas siderais, da luz náurea mortalha,
Giram os eternos sóis e as trêmulas estrelas!
785
Carlos Góes
Mística
Rezas, postas as mãos em súplice postura.
Pedes a Deus perdão das faltas que deploras,
E Ele, em quem lacrimosa o fito olhar demoras,
Sorri, por te saber acrisolada e pura.
Há na tua atitude mística doçura
De quem contempla o albor de célicas auroras,
— O olhar vago de quem se impregna e se satura
De toda a contrição que exala o Livro de Horas...
Volves agora o olhar à imagem de Maria,
E Maria, de cima, a unção prodigaliza
De outro olhar, onde a graça esplêndida irradia!
Nem sequer o cansaço as fibras te quebranta...
E, arroubada, não vês que assim se imobiliza
Genuflexa uma santa em face de outra Santa...
Pedes a Deus perdão das faltas que deploras,
E Ele, em quem lacrimosa o fito olhar demoras,
Sorri, por te saber acrisolada e pura.
Há na tua atitude mística doçura
De quem contempla o albor de célicas auroras,
— O olhar vago de quem se impregna e se satura
De toda a contrição que exala o Livro de Horas...
Volves agora o olhar à imagem de Maria,
E Maria, de cima, a unção prodigaliza
De outro olhar, onde a graça esplêndida irradia!
Nem sequer o cansaço as fibras te quebranta...
E, arroubada, não vês que assim se imobiliza
Genuflexa uma santa em face de outra Santa...
858
Bocage
Se quereis, bom Monarca, ter soldados
Se quereis, bom Monarca, ter soldados
Para compor lustrosos regimentos,
Mandai desentulhar esses conventos
Em favor da preguiça edificados:
Nos Bernardos lambões, e asselvajados
Achareis mil guerreiros corpulentos;
Nos Vicentes, nos Neris, e nos Bentos
Outros tantos, não menos esforçados:
Tudo extingui, senhor: fiquem somente
Os Franciscanos, Loios, e Torneiros,
Do Centimano aspérrima semente:
Existam estes lobos carniceiros,
Para não arruinar inteiramente
Putas, pívias, cações e alcoviteiros.
Para compor lustrosos regimentos,
Mandai desentulhar esses conventos
Em favor da preguiça edificados:
Nos Bernardos lambões, e asselvajados
Achareis mil guerreiros corpulentos;
Nos Vicentes, nos Neris, e nos Bentos
Outros tantos, não menos esforçados:
Tudo extingui, senhor: fiquem somente
Os Franciscanos, Loios, e Torneiros,
Do Centimano aspérrima semente:
Existam estes lobos carniceiros,
Para não arruinar inteiramente
Putas, pívias, cações e alcoviteiros.
1 204
Caetano Ximenes Aragão
Dia da Libertação
pelas vertentes da noite
a manhã já se fazia
quando Iansã abriu as grades
das cadeias da Bahia
pra ver Bárbara passar
por dentro da luz do dia
dia pleno de orixás
cavalgando a ventania
ogun oxum olorun
vento alvo alvenaria
de cabelos cor de cal
que de seu rosto escorria
do corpo dos encantados
a noite se fez em dia
tocaram todos os sinos
das igrejas da Bahia
pra ver Bárbara passar
por dentro da luz do dia
a manhã já se fazia
quando Iansã abriu as grades
das cadeias da Bahia
pra ver Bárbara passar
por dentro da luz do dia
dia pleno de orixás
cavalgando a ventania
ogun oxum olorun
vento alvo alvenaria
de cabelos cor de cal
que de seu rosto escorria
do corpo dos encantados
a noite se fez em dia
tocaram todos os sinos
das igrejas da Bahia
pra ver Bárbara passar
por dentro da luz do dia
1 058
Castro Menezes
Baudelaire
Na água-forte onde vejo o rigor sem exemplo
Do severo perfil de teu busto de poeta,
Charles, o teu olhar, não sei por que, me inquieta,
Evocando o pavor de uma orgia num templo.
Penetra-me essa luz de encantos esquisitos,
Que deviam possuir, em rápidos instantes,
Os teus olhos fatais como dois sóis malditos,
Fixos num céu de sonhos de ópio alucinantes...
Há um ríctus singular na tua boca estranha...
E esse ríctus cruel, de tédio ou de loucura,
Imprime a esta água-forte uma vida tamanha,
Que desvairo ao fitá-la e, num trágico espanto,
Vejo Satã possuir, na paz da cela escura,
O corpo virginal de uma noviça em pranto...
Do severo perfil de teu busto de poeta,
Charles, o teu olhar, não sei por que, me inquieta,
Evocando o pavor de uma orgia num templo.
Penetra-me essa luz de encantos esquisitos,
Que deviam possuir, em rápidos instantes,
Os teus olhos fatais como dois sóis malditos,
Fixos num céu de sonhos de ópio alucinantes...
Há um ríctus singular na tua boca estranha...
E esse ríctus cruel, de tédio ou de loucura,
Imprime a esta água-forte uma vida tamanha,
Que desvairo ao fitá-la e, num trágico espanto,
Vejo Satã possuir, na paz da cela escura,
O corpo virginal de uma noviça em pranto...
969
Araújo Filho
Fatalismo
Foi meu erro idear maior altura,
para um Sonho tão Pobre e pequenino:
— Ninguém torna em ventura a desventura,
que é mais forte o desígnio do Destino.
Ninguém pode mudar a noite escura
em dia azul, sem nuvens, cristalino...
Da vida, a estrada é tão agreste e dura
que leva muita vez ao desatino.
Gira em torno de tudo uma Alta Força,
que, com letras de fogo, escreve a sorte
de cada Ser... Escreve, e passa adiante...
E do que escrito foi, não há quem torça
ou mude uma só letra, nem durante
a vida, nem também depois da morte.
para um Sonho tão Pobre e pequenino:
— Ninguém torna em ventura a desventura,
que é mais forte o desígnio do Destino.
Ninguém pode mudar a noite escura
em dia azul, sem nuvens, cristalino...
Da vida, a estrada é tão agreste e dura
que leva muita vez ao desatino.
Gira em torno de tudo uma Alta Força,
que, com letras de fogo, escreve a sorte
de cada Ser... Escreve, e passa adiante...
E do que escrito foi, não há quem torça
ou mude uma só letra, nem durante
a vida, nem também depois da morte.
848
Adail Coelho Maia
Segundo a Bíblia
Diz a Bíblia que o nosso Criador
Fez o mundo em seis dias, simplesmente,
Deus criou Adão, puro, inocente,
Para exaltar as glórias do Senhor.
Vendo Adão tanta luz, tanto esplendor,
Uma idéia fatal lhe veio à mente:
— Pedir um companheiro ao Onipotente,
Para gozar de tudo igual favor!
E Eva lá se vem, e Adão vencido,
Foi levado a um pomar, por entre trevas,
Para comer de um fruto proibido!
E por castigo eterno ao crime bruto,
O pomar inda existe, e novas Evas,
Com a mesma história do maldito fruto!...
Fez o mundo em seis dias, simplesmente,
Deus criou Adão, puro, inocente,
Para exaltar as glórias do Senhor.
Vendo Adão tanta luz, tanto esplendor,
Uma idéia fatal lhe veio à mente:
— Pedir um companheiro ao Onipotente,
Para gozar de tudo igual favor!
E Eva lá se vem, e Adão vencido,
Foi levado a um pomar, por entre trevas,
Para comer de um fruto proibido!
E por castigo eterno ao crime bruto,
O pomar inda existe, e novas Evas,
Com a mesma história do maldito fruto!...
1 047
Antônio de Godói
Místico
Lua, noiva do azul, Verônica sombria,
Sobe à igreja do Céu para o eterno noivado...
Amplo e curvo cintila o espaço iluminado
Como um pálio de luz em funeral ao dia.
Tem volúpias o luar que roça à noite a fria
Face... Profano ser, feito para o Pecado,
Eu não posso beijar o teu rosto sagrado,
Santo, como, talvez, o rosto de Maria...
Deus as pálpebras fecha e fica a noite escura;
Sombras descem à terra e a noite doce e calma
Enche o peito de amor e põe sossego na alma.
Ah! se deres um beijo em minha boca impura,
Por glórias contarei os beijos que me deres,
Bela Nossa Senhora entre as outras mulheres...
Sobe à igreja do Céu para o eterno noivado...
Amplo e curvo cintila o espaço iluminado
Como um pálio de luz em funeral ao dia.
Tem volúpias o luar que roça à noite a fria
Face... Profano ser, feito para o Pecado,
Eu não posso beijar o teu rosto sagrado,
Santo, como, talvez, o rosto de Maria...
Deus as pálpebras fecha e fica a noite escura;
Sombras descem à terra e a noite doce e calma
Enche o peito de amor e põe sossego na alma.
Ah! se deres um beijo em minha boca impura,
Por glórias contarei os beijos que me deres,
Bela Nossa Senhora entre as outras mulheres...
818
Adelino Fontoura
Celeste
É tão divina a angélica aparência
E a graça que ilumina o rosto dela,
Que eu concebera o tipo da inocência
Nessa criança imaculada e bela.
Peregrina do céu, pálida estrela,
Exilada da etérea transparência,
Sua origem não pode ser aquela
Da nossa triste e mísera existência.
Tem a celeste e ingênua formosura
E a luminosa auréola sacrossanta
De uma visão do céu, cândida e pura.
E quando os olhos para o céu levanta,
Inundados de mística doçura,
Nem parece mulher — parece santa.
E a graça que ilumina o rosto dela,
Que eu concebera o tipo da inocência
Nessa criança imaculada e bela.
Peregrina do céu, pálida estrela,
Exilada da etérea transparência,
Sua origem não pode ser aquela
Da nossa triste e mísera existência.
Tem a celeste e ingênua formosura
E a luminosa auréola sacrossanta
De uma visão do céu, cândida e pura.
E quando os olhos para o céu levanta,
Inundados de mística doçura,
Nem parece mulher — parece santa.
2 507
Beni Carvalho
Magdá (Um quadro de Tiziano)
Colo desnudo em flor, lábio entreaberto em prece,
olhos, no alto, exorando o perdão de seu crime,
Magdalena, a ofegar, toda em febre aparece...
E o almo encanto da Vida e do Pecado exprime.
Perscruta o coração, que o Amor, voraz, oprime;
Sente-lhe a luta, e a dor que, dentro da alma, cresce...
E, a cada pulsação que lhe o peito oprime,
Os delírios sensuais, em prantos, amortece.
Em fogo o olhar, tremendo a voz, a mente em brasas,
Desnastrado o cabelo em ondas de veludos,
Demanda o Azul, assim, nessas formosas asas...
Enquanto, aos céus, contrita, a suplicar, exangue,
Mostra os duros punhais dos seios pontiagudos,
Ainda quentes de amor, ainda rubros de sangue!
olhos, no alto, exorando o perdão de seu crime,
Magdalena, a ofegar, toda em febre aparece...
E o almo encanto da Vida e do Pecado exprime.
Perscruta o coração, que o Amor, voraz, oprime;
Sente-lhe a luta, e a dor que, dentro da alma, cresce...
E, a cada pulsação que lhe o peito oprime,
Os delírios sensuais, em prantos, amortece.
Em fogo o olhar, tremendo a voz, a mente em brasas,
Desnastrado o cabelo em ondas de veludos,
Demanda o Azul, assim, nessas formosas asas...
Enquanto, aos céus, contrita, a suplicar, exangue,
Mostra os duros punhais dos seios pontiagudos,
Ainda quentes de amor, ainda rubros de sangue!
992
Aristêo Seixas
Juízo Final
Raive o sol, pulse a dor, lateje o grito,
E o fel tragado seja, gole a gole.
Todo o amor, todo o bem seja proscrito,
Todo o perfume deste chão se evole...
Caia de cima o aerólito e, bendito,
Esmigalhando vá prole por prole...
E embaixo, a atroar em chamas o infinito,
Pedra por pedra sobre pedra role...
Senhor meu Deus! são vendilhões: matai-os!
Em vão se estorça a humanidade espúria!
E veja cada qual, nessa hora incerta,
O céu, em ódio, desprendendo raios,
O mar cuspindo vagalhões em fúria
E a terra inteira em túmulos aberta!...
E o fel tragado seja, gole a gole.
Todo o amor, todo o bem seja proscrito,
Todo o perfume deste chão se evole...
Caia de cima o aerólito e, bendito,
Esmigalhando vá prole por prole...
E embaixo, a atroar em chamas o infinito,
Pedra por pedra sobre pedra role...
Senhor meu Deus! são vendilhões: matai-os!
Em vão se estorça a humanidade espúria!
E veja cada qual, nessa hora incerta,
O céu, em ódio, desprendendo raios,
O mar cuspindo vagalhões em fúria
E a terra inteira em túmulos aberta!...
1 006
Ana Maria Ramiro
Iniciação
Oráculos em sonhos,
Inconscientes rituais,
Como posso possuir alma cigana,
se me prendo a tantas convenções?
Procuro um mago, um alquimista,
um pai, um guru, um artista,
Que me instrua na ciência inexata,
mas absoluta das transformações.
Que através de sua abstrata teoria,
Possa eu, luz em redoma,
transformar, não mais vil metal em ouro,
mas em amor, as paixões.
Inconscientes rituais,
Como posso possuir alma cigana,
se me prendo a tantas convenções?
Procuro um mago, um alquimista,
um pai, um guru, um artista,
Que me instrua na ciência inexata,
mas absoluta das transformações.
Que através de sua abstrata teoria,
Possa eu, luz em redoma,
transformar, não mais vil metal em ouro,
mas em amor, as paixões.
841
Venúsia Neiva
O Cemitério
cruzes.
guirlandas.
flores.
ciprestes.
tudo se confunde num funéreo lamento de loucura.
podridão de estátuas que já foram vivas,
que sorriam,
que choravam,
que gritavam ao mundo a inutilidade das coisas mortas.
eu sinto o vento a gemer na solidão e no tempo.
eu vejo os anjos de mármore incendiarem-se no luar
que povoa a cidade deserta.
madrugadas gélidas.
dentro de noites gélidas.
corujas piando sobre cruzes eretas.
coroas de rosas desbotadas.
vôos agoureiros de morcegos negros.
tudo pede luz. tudo pede vida!
alvas sombras entrechocam-se ao ritmo macabro
das convulsões do pavor.
a morte mora ali.
ela vigia seus súditos acorrentados sob lápides marmóreas.
nunca mais os deixará sair.
para sempre escravizados.
até à eternidade, até ao fim dos tempos!
até que a ressurreição se processe
em suas cinzas esquecidas.
guirlandas.
flores.
ciprestes.
tudo se confunde num funéreo lamento de loucura.
podridão de estátuas que já foram vivas,
que sorriam,
que choravam,
que gritavam ao mundo a inutilidade das coisas mortas.
eu sinto o vento a gemer na solidão e no tempo.
eu vejo os anjos de mármore incendiarem-se no luar
que povoa a cidade deserta.
madrugadas gélidas.
dentro de noites gélidas.
corujas piando sobre cruzes eretas.
coroas de rosas desbotadas.
vôos agoureiros de morcegos negros.
tudo pede luz. tudo pede vida!
alvas sombras entrechocam-se ao ritmo macabro
das convulsões do pavor.
a morte mora ali.
ela vigia seus súditos acorrentados sob lápides marmóreas.
nunca mais os deixará sair.
para sempre escravizados.
até à eternidade, até ao fim dos tempos!
até que a ressurreição se processe
em suas cinzas esquecidas.
718
Teixeira de Melo
Ao Sol
Não te amo, ó Sol, senão como rascunho
Da luz de Deus! senão como lembrança
Da mão que te acendeu, lâmpada de ouro,
Por sobre o abismo em que eu treina da morte,
A teus pés pela vida às tontas erro.
Verme que esconde um átomo da essência
Que te anima e renova! Átomo mesmo
Do pó da eternidade em frágil vaso
Amassado de sangue e pranto e orgulho!
Águia sem asas — fito-te um momento
E tua luz me embebeda e faz vertigens!
Amo o silêncio, a sombra, o isolamento,
Embora os do sepulcro! E tu, abutre
De asas de fogo, eterno pirilampo
Em basta selva, acima esvoaçando
De milhões de cadáveres corruptos
Que o tempo, rio rápido e revolto,
Roda té o mar sem raias do infinito,
Insultas minha dor, meu pranto estancas!
Tu vês sem dó arcar a humanidade
Sob o peso de séculos e séculos
Sempre moça e garrida e fátua sempre,
À luz dos raios concertando as braças
Que o vento desatou, tingindo as faces
Macilentas da orgia e das insônias,
E abrindo os alvos seios infecundos
Ao beijo frio do que tem mais ouro!
Tu vês de longe a louca humanidade,
Nova Eva despertando entre as delícias
Da vida sem a morte, ambicionando
Outra vida melhor, mais curta embora!
Penélope senil que se não cansa
De a eterna teia desmanchar contudo
Que o esposo a venha achar tecendo ainda!
Ou doida Ofélia a desfolhar sem fino
Sua coroa de noiva – antes da noite!
E o mundo de Panúrgio e Sancho Pança
Te vê passar também como um sarcasmo
Palpitante de fel, e ri-se ao ver-te!
É sempre nova a velha humanidade!
Só o homem passa — palha ou flor de feno —
Nas garras do tufão que não te alcança!
Como ela viverás... mas momento
A mão que te acendeu pode apagar-te.
Eu te amaria, ó Sol, se por um dia
Conhecesse o segredo que me escondes
Das tontas gerações que patinharam
— Como as de hoje — na lama e adormeceram
Na esteira do passado, entre as neblinas
Das era que, impassível como o tempo,
Desde o primeiro dia alumiaste.
Podes, feixe de luz que te desatas
No colo requeimado do universo,
Dar-me um raio dos teus com que ilumine
Minha cegueira a tatear na sombra
Das exploradas minas de ouro puro,
Hoje cinza e carvão, dessa linguagem
Sublime e rude — do cantor mendigo
Da Grécia, o heróico berço em que tu nasces,
E onde Byron morreu contigo, ó Grécia!
Ó Sol, olho de Deus aberto sempre,
Guia meus passos trêmulos ainda
Por entre as flores dos jardins celestes
Em que Camões ceifou perpétuos louros!
Para cantar as lendas esquecidas
Do ninho meu paterno, à sombra amiga
Das copadas mangueiras embalado
Pelas auras dos trópicos aos cantos
Da ferrenha araponga do deserto;
Para cantar as graças feiticeiras
Do meu berço de musgo inda selvagem
Como os primeiros que dormiram nele,
Dá-me um raio dos teus! um só me bastar
Que me esqueçam depois... terei vivido!
Que tu, página branca para o mundo,
Irás talvez vagar onde eu já durma,
No leito frio em que me espera o olvido.
Hei de acordar das matas seculares
Onde o silêncio é o canto do passado,
O gênio adormecido desses tempos
Que sob os olhos meus às vezes passam.
Dá-me imagens de fogo ainda virgens
Das mãos calmas dos cantores todos.
Triste bardo das raças do deserto,
Hei de perdir-te, ó Sol, que as requeimaste,
A história triste das extintas tribos!
Hei de rasgar a página mais pura
Do livro virginal da natureza!
Hei de arrancar ao colibri — das penas
O pó dourado e azul — para escrevê-la!
Hei de quebrar as asas furta-cores
Das nossas borboletas, para dá-las
Em saudoso holocausto à pátria e ao lmundo!
Da luz de Deus! senão como lembrança
Da mão que te acendeu, lâmpada de ouro,
Por sobre o abismo em que eu treina da morte,
A teus pés pela vida às tontas erro.
Verme que esconde um átomo da essência
Que te anima e renova! Átomo mesmo
Do pó da eternidade em frágil vaso
Amassado de sangue e pranto e orgulho!
Águia sem asas — fito-te um momento
E tua luz me embebeda e faz vertigens!
Amo o silêncio, a sombra, o isolamento,
Embora os do sepulcro! E tu, abutre
De asas de fogo, eterno pirilampo
Em basta selva, acima esvoaçando
De milhões de cadáveres corruptos
Que o tempo, rio rápido e revolto,
Roda té o mar sem raias do infinito,
Insultas minha dor, meu pranto estancas!
Tu vês sem dó arcar a humanidade
Sob o peso de séculos e séculos
Sempre moça e garrida e fátua sempre,
À luz dos raios concertando as braças
Que o vento desatou, tingindo as faces
Macilentas da orgia e das insônias,
E abrindo os alvos seios infecundos
Ao beijo frio do que tem mais ouro!
Tu vês de longe a louca humanidade,
Nova Eva despertando entre as delícias
Da vida sem a morte, ambicionando
Outra vida melhor, mais curta embora!
Penélope senil que se não cansa
De a eterna teia desmanchar contudo
Que o esposo a venha achar tecendo ainda!
Ou doida Ofélia a desfolhar sem fino
Sua coroa de noiva – antes da noite!
E o mundo de Panúrgio e Sancho Pança
Te vê passar também como um sarcasmo
Palpitante de fel, e ri-se ao ver-te!
É sempre nova a velha humanidade!
Só o homem passa — palha ou flor de feno —
Nas garras do tufão que não te alcança!
Como ela viverás... mas momento
A mão que te acendeu pode apagar-te.
Eu te amaria, ó Sol, se por um dia
Conhecesse o segredo que me escondes
Das tontas gerações que patinharam
— Como as de hoje — na lama e adormeceram
Na esteira do passado, entre as neblinas
Das era que, impassível como o tempo,
Desde o primeiro dia alumiaste.
Podes, feixe de luz que te desatas
No colo requeimado do universo,
Dar-me um raio dos teus com que ilumine
Minha cegueira a tatear na sombra
Das exploradas minas de ouro puro,
Hoje cinza e carvão, dessa linguagem
Sublime e rude — do cantor mendigo
Da Grécia, o heróico berço em que tu nasces,
E onde Byron morreu contigo, ó Grécia!
Ó Sol, olho de Deus aberto sempre,
Guia meus passos trêmulos ainda
Por entre as flores dos jardins celestes
Em que Camões ceifou perpétuos louros!
Para cantar as lendas esquecidas
Do ninho meu paterno, à sombra amiga
Das copadas mangueiras embalado
Pelas auras dos trópicos aos cantos
Da ferrenha araponga do deserto;
Para cantar as graças feiticeiras
Do meu berço de musgo inda selvagem
Como os primeiros que dormiram nele,
Dá-me um raio dos teus! um só me bastar
Que me esqueçam depois... terei vivido!
Que tu, página branca para o mundo,
Irás talvez vagar onde eu já durma,
No leito frio em que me espera o olvido.
Hei de acordar das matas seculares
Onde o silêncio é o canto do passado,
O gênio adormecido desses tempos
Que sob os olhos meus às vezes passam.
Dá-me imagens de fogo ainda virgens
Das mãos calmas dos cantores todos.
Triste bardo das raças do deserto,
Hei de perdir-te, ó Sol, que as requeimaste,
A história triste das extintas tribos!
Hei de rasgar a página mais pura
Do livro virginal da natureza!
Hei de arrancar ao colibri — das penas
O pó dourado e azul — para escrevê-la!
Hei de quebrar as asas furta-cores
Das nossas borboletas, para dá-las
Em saudoso holocausto à pátria e ao lmundo!
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Vespasiano Ramos
Samaritana
Piedosa gentil Samaritana:
Venho, de longe, trêmulo, bater
À vossa humilde e plácida cabana,
Pedindo alívio para o meu viver!
Sou perseguido pela sede insana
Do amor que anima e que nos faz sofrer:
Tenho sede demais, Samaritana
Tenho sede demais: quero beber!
Fugis, então, ao mísero que implora
o saciar da sede que o consome,
o saciar da sede que o devora?
Pecais, assim, Samaritana! Vede:
— Filhos, dai de comer a quem tem fome,
Filhos, dai de beber a quem tem sede.
Venho, de longe, trêmulo, bater
À vossa humilde e plácida cabana,
Pedindo alívio para o meu viver!
Sou perseguido pela sede insana
Do amor que anima e que nos faz sofrer:
Tenho sede demais, Samaritana
Tenho sede demais: quero beber!
Fugis, então, ao mísero que implora
o saciar da sede que o consome,
o saciar da sede que o devora?
Pecais, assim, Samaritana! Vede:
— Filhos, dai de comer a quem tem fome,
Filhos, dai de beber a quem tem sede.
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