Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Reinaldo Ferreira
Canção do pastor perdido
Ia eu pra Belém
Com oferendas também
Por Babel me passava;
E, passando, hesitei,
Hesitando, parei
E parando, ficava.
Mas nem lavas, nem lodos,
Nem os répteis todos
Da Paixão e do Mal
Terão força que possa
Afundar-me na fossa
Do Juízo final.
Com oferendas também
Por Babel me passava;
E, passando, hesitei,
Hesitando, parei
E parando, ficava.
Mas nem lavas, nem lodos,
Nem os répteis todos
Da Paixão e do Mal
Terão força que possa
Afundar-me na fossa
Do Juízo final.
1 868
Reinaldo Ferreira
A estátua jacente
Mandei, mundano, talhar
Esta galante postura.
Ai de mim!, que a desventura
Dura o que a pedra durar!
Latinas frases austeras
Dizem de mim ilegíveis,
As mil virtudes possíveis
À pressão das sete esferas.
O nome, farto e faustoso
Com que de nada me enchi
Horizontal, o esqueci
Da altura do meu repouso.
Mas sempre sofro, emanando
Das cinzas por mim guardadas,
Memória de horas danadas
Que vão meu sono acordando.
Bispo fui; amando a guerra,
Cego ao aceno dos céus,
Troquei a graça de Deus
Pelas miragens da terra
Fui cobiçoso, mesquinho,
Falso, cruel, intrigante,
E numa orgia infamante
Pequei a carne e o vinho.
Morto me acharam um dia
No leito; tão decomposto
Que pelos restos do rosto
Ninguém já me conhecia.
Em vão, com óleos, essências
De aroma arábico e forte,
Se disputaram à morte
Minhas letais pestilências.
Húmido, em nardo, eu jazia;
Mas o fedor que exalava,
Mais que da carne, alastrava
Da alma que apodrecia.
Mãos, num vagar rancoroso,
Vingadas, porque adularam,
Em brocado entalharam
Meu corpo inchado e escabroso.
Por fim, fantoche mitrado,
Entre cem círios a arder
- Pudesse um deles também ser
E consumir-me queimado! -
Entrei na nave deserta
Que do pórtico parecia
Que a todos nos engolia,
Fauce esfaimada e aberta.
Oh! Com que náusea os ouvi
Salmodiar-me; e exausto
De tão falsíssimo fausto,
Com terror me apercebi
De que o cansaço devia
Ter-se extinguido também
Comigo, não ir além
Da vida que em mim havia.
Mas não! Meus cinco sentidos
Desenfreados agora
Os tinha mais do que outrora,
Buscando os vícios preferidos!
Incapaz de movimento,
Eu, cego, impotente e mudo,
Dentro de mim, via tudo
Num pavoroso tormento!
Só a solidão me deixaram
Na cava nave nocturna
E a presença taciturna
Dos que a meu soldo mataram,
Dos que a meu lado morreram
Sem confissão, emboscados,
Dos que ao meu oiro amarrados
Porque os perdi se perderam!
O tempo, enorme, passou.
Mais que um vitral se partiu,
Mais de que um arco ruiu
E eu vivo e morto ainda estou.
Quando o tempo ao fim desbaste
Minhas puídas feições,
Talvez as minhas acções
Também o tempo as desgaste.
A sombra silenciosa
Da cruz, que alonga ao sol posto
Sua brandura ao meu rosto,
Talvez parando piedosa
Sobre os meus olhos, talvez
Dorida do meu quebranto,
Amoleça em meigo pranto
Tanta maciça altivez.
Talvez os vermes, por dó,
Os alicerces minando,
Altos tectos derrubando,
Me restituam ao pó.
Talvez também - maldição! -
Em cada grão inda viva
A minha insónia, cativa
De um remorso sem perdão!
Não creias, pois, viajante
No meu sossego aparente;
Sê calmo, casto e constante,
Sê sóbrio, humano e paciente;
Sê tudo quanto eu não sendo,
Porque o não fui, Deus legou,
À pedra inerme jazendo
A sensação de quem sou.
Esta galante postura.
Ai de mim!, que a desventura
Dura o que a pedra durar!
Latinas frases austeras
Dizem de mim ilegíveis,
As mil virtudes possíveis
À pressão das sete esferas.
O nome, farto e faustoso
Com que de nada me enchi
Horizontal, o esqueci
Da altura do meu repouso.
Mas sempre sofro, emanando
Das cinzas por mim guardadas,
Memória de horas danadas
Que vão meu sono acordando.
Bispo fui; amando a guerra,
Cego ao aceno dos céus,
Troquei a graça de Deus
Pelas miragens da terra
Fui cobiçoso, mesquinho,
Falso, cruel, intrigante,
E numa orgia infamante
Pequei a carne e o vinho.
Morto me acharam um dia
No leito; tão decomposto
Que pelos restos do rosto
Ninguém já me conhecia.
Em vão, com óleos, essências
De aroma arábico e forte,
Se disputaram à morte
Minhas letais pestilências.
Húmido, em nardo, eu jazia;
Mas o fedor que exalava,
Mais que da carne, alastrava
Da alma que apodrecia.
Mãos, num vagar rancoroso,
Vingadas, porque adularam,
Em brocado entalharam
Meu corpo inchado e escabroso.
Por fim, fantoche mitrado,
Entre cem círios a arder
- Pudesse um deles também ser
E consumir-me queimado! -
Entrei na nave deserta
Que do pórtico parecia
Que a todos nos engolia,
Fauce esfaimada e aberta.
Oh! Com que náusea os ouvi
Salmodiar-me; e exausto
De tão falsíssimo fausto,
Com terror me apercebi
De que o cansaço devia
Ter-se extinguido também
Comigo, não ir além
Da vida que em mim havia.
Mas não! Meus cinco sentidos
Desenfreados agora
Os tinha mais do que outrora,
Buscando os vícios preferidos!
Incapaz de movimento,
Eu, cego, impotente e mudo,
Dentro de mim, via tudo
Num pavoroso tormento!
Só a solidão me deixaram
Na cava nave nocturna
E a presença taciturna
Dos que a meu soldo mataram,
Dos que a meu lado morreram
Sem confissão, emboscados,
Dos que ao meu oiro amarrados
Porque os perdi se perderam!
O tempo, enorme, passou.
Mais que um vitral se partiu,
Mais de que um arco ruiu
E eu vivo e morto ainda estou.
Quando o tempo ao fim desbaste
Minhas puídas feições,
Talvez as minhas acções
Também o tempo as desgaste.
A sombra silenciosa
Da cruz, que alonga ao sol posto
Sua brandura ao meu rosto,
Talvez parando piedosa
Sobre os meus olhos, talvez
Dorida do meu quebranto,
Amoleça em meigo pranto
Tanta maciça altivez.
Talvez os vermes, por dó,
Os alicerces minando,
Altos tectos derrubando,
Me restituam ao pó.
Talvez também - maldição! -
Em cada grão inda viva
A minha insónia, cativa
De um remorso sem perdão!
Não creias, pois, viajante
No meu sossego aparente;
Sê calmo, casto e constante,
Sê sóbrio, humano e paciente;
Sê tudo quanto eu não sendo,
Porque o não fui, Deus legou,
À pedra inerme jazendo
A sensação de quem sou.
2 080
Reinaldo Ferreira
Stabat Mater
Tu, mãe de Deus,
Nesta hora e sempre
Mãe dEle e nossa mãe,
Pare-o com dor humana
E renovada
E consagrada,
A Ele, que nós buscamos
Com outros e afinal equivalentes credos,
A quem chamamos nos desolados medos,
Talvez com outro nome
Porque é diversa a língua
E não a fome
Que lhe temos.
Nesta hora e sempre
Mãe dEle e nossa mãe,
Pare-o com dor humana
E renovada
E consagrada,
A Ele, que nós buscamos
Com outros e afinal equivalentes credos,
A quem chamamos nos desolados medos,
Talvez com outro nome
Porque é diversa a língua
E não a fome
Que lhe temos.
1 417
Reinaldo Ferreira
Domina-me um terror incoerente
Domina-me um terror incoerente
Do Nada, da final insensação
Por isso creio em Deus com Fé demente,
Por medo, por defesa, com paixão.
Se busco todavia uma razão
Que fortaleça a Fé de que sou crente,
Tortura-me o saber que tudo é vão,
Que tudo se aniquila finalmente,
Que tudo se transmuta e se transforma
E que perdura apenas noutra forma
Aquilo que no mundo é material.
Concebo que tudo isto tenha um fim.
Só não concebo o que será de mim,
Cumprido o meu degredo terreal.
Do Nada, da final insensação
Por isso creio em Deus com Fé demente,
Por medo, por defesa, com paixão.
Se busco todavia uma razão
Que fortaleça a Fé de que sou crente,
Tortura-me o saber que tudo é vão,
Que tudo se aniquila finalmente,
Que tudo se transmuta e se transforma
E que perdura apenas noutra forma
Aquilo que no mundo é material.
Concebo que tudo isto tenha um fim.
Só não concebo o que será de mim,
Cumprido o meu degredo terreal.
1 832
Tobias Pinheiro
A Consciência
BASTA! A dor já se impõe no mundo inteiro,
plantou nos corações o desencanto,
profanou e maldisse o que era santo
na imolação do último Cordeiro.
Se buscam a consciência com alarde,
se choram a bondade já perdida,
se aspiram a virtude para a vida,
querem paz, querem DEUS e, agora, é tarde.
O mundo inteiro vai rolar vencido,
sem crença, sem amor, sem luz, sem calma,
enquanto grita a voz lá dentro da alma:
— Quem perdeu a consciência está perdido.
plantou nos corações o desencanto,
profanou e maldisse o que era santo
na imolação do último Cordeiro.
Se buscam a consciência com alarde,
se choram a bondade já perdida,
se aspiram a virtude para a vida,
querem paz, querem DEUS e, agora, é tarde.
O mundo inteiro vai rolar vencido,
sem crença, sem amor, sem luz, sem calma,
enquanto grita a voz lá dentro da alma:
— Quem perdeu a consciência está perdido.
832
Raul Machado
Céu do Brasil
Praz-me ver este céu que em palpitante messe
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!
Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!
Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!
Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!
Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!
Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!
Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!
1 092
Reinaldo Ferreira
Apocalipse
João, iracundo João,
Tu, que sabias dos tempos que haviam de vir
Senão que eras judeu e perseguido?
João, iracundo João!
Possas agora
(Que o reino temporal do Messias falhou
E os demónios governam sem freio o mundo)
Olhar, do único reino possível,
O planeta onde somos à espera
Do final dos tempos
Possas João! E vejas
Como a tua cenografia patética
Empalideceu ante o drama real
Que tu, João,
Iracundo João!
Perseguido e judeu,
Não podias prever
No largo mar olhaste
E, fanático, não viste
mais do que o ódio e o caos,
A vingança e o extremínio.
Tu, que sabias dos tempos que haviam de vir
Senão que eras judeu e perseguido?
João, iracundo João!
Possas agora
(Que o reino temporal do Messias falhou
E os demónios governam sem freio o mundo)
Olhar, do único reino possível,
O planeta onde somos à espera
Do final dos tempos
Possas João! E vejas
Como a tua cenografia patética
Empalideceu ante o drama real
Que tu, João,
Iracundo João!
Perseguido e judeu,
Não podias prever
No largo mar olhaste
E, fanático, não viste
mais do que o ódio e o caos,
A vingança e o extremínio.
1 679
Rosalina Coelho Lisboa
S Luís
Na caravela real, que o mar verde balança,
Entre adeuses febris da multidão em terra,
E êneos choques casuais de petrechos de guerra,
Embarca a fina flor da nobreza de França.
O velame se enfuna a um vento de bonança,
E essa legião de heróis, que o destino desterra,
Na ambição de lutar e de vencer, encerra
Em páreas e troféus a guerreira esperança.
Na fé, que lhe enche o olhar e lhe ilumina o aspeito,
Um homem sobressai de soberano porte;
Traz da cruz, na loriga, o símbolo perfeito:
— É el-rei S. Luís, que vai, abroquelado e forte,
O orgulho à fronte, o gládio à mão, o escudo ao peito,
Cavaleiro de Deus, à conquista da morte!
Entre adeuses febris da multidão em terra,
E êneos choques casuais de petrechos de guerra,
Embarca a fina flor da nobreza de França.
O velame se enfuna a um vento de bonança,
E essa legião de heróis, que o destino desterra,
Na ambição de lutar e de vencer, encerra
Em páreas e troféus a guerreira esperança.
Na fé, que lhe enche o olhar e lhe ilumina o aspeito,
Um homem sobressai de soberano porte;
Traz da cruz, na loriga, o símbolo perfeito:
— É el-rei S. Luís, que vai, abroquelado e forte,
O orgulho à fronte, o gládio à mão, o escudo ao peito,
Cavaleiro de Deus, à conquista da morte!
471
Taumaturgo Vaz
Minha Madrinha
Aqui na terra, desiludido
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!
Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar,
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!
Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniqüidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!
Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma
A era negra da perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar o doce bando
Das esperanças,
— Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!
Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar,
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!
Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniqüidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!
Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma
A era negra da perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar o doce bando
Das esperanças,
— Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
1 416
Renato Castelo Branco
O Instante
É um instante
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.
É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,
De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.
É um instante de glória,
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.
É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,
De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.
É um instante de glória,
1 139
Zito Batista
Meu Coração
Meu coração é um lúgubre convento:
Dentro dele, a rezar noites inteiras,
As minhas ilusões — tristonhas freiras
Vivem presas de estranho desalento...
E ouvindo, às vezes, queixas agourentas,
E ameaças de morte e sofrimento,
— Soluçando, no escuro isolamento,
Falam de amor as pobres prisioneiras...
No entanto outrora, alegre, iluminado,
Como a igreja formosa em que se canta
A missa azul da crença e do conforto...
Meu coração foi céu alcandorado,
Onde imperava, ingenuamente santa,
A Forma viva do meu Sonho morto!
Dentro dele, a rezar noites inteiras,
As minhas ilusões — tristonhas freiras
Vivem presas de estranho desalento...
E ouvindo, às vezes, queixas agourentas,
E ameaças de morte e sofrimento,
— Soluçando, no escuro isolamento,
Falam de amor as pobres prisioneiras...
No entanto outrora, alegre, iluminado,
Como a igreja formosa em que se canta
A missa azul da crença e do conforto...
Meu coração foi céu alcandorado,
Onde imperava, ingenuamente santa,
A Forma viva do meu Sonho morto!
983
Rosemberg Cariry
Tambor de Criola
São Luiz. Luzir da lua.
Entre ruínas — fogueiras.
Os olhinhos de São Benedito
abençoando seus filhos,
tão pobrezinhos, tão simples,
que de dia até se matam
de trabalhar, de rezar,
mas de noite... deixa está!
São anjos belos, orixás,
são músculos e rebeldia,
batucando os tambores
que reacendem nos deuses
as luxúrias adormecidas
A lua bem que espia
e levanta a sua saia,
tecendo rendas nas águas
que se derramam na areia.
Sem vergonha, espia...
Os homens mais do que homens
são ritmo, fôlego, tesão,
entre as pernas o tambor,
nervo duro e inquieto,
descomunal em tamanho,
que se anuncia em batuque
virando pelo avesso
a face da outra face
do que é religião.
Matracas desesperadas
quebram os selos do pudor
para que os corpos se liberem
e urrem feito uma onça
nas cachoeiras do cio.
Entre ruínas — fogueiras.
Os olhinhos de São Benedito
abençoando seus filhos,
tão pobrezinhos, tão simples,
que de dia até se matam
de trabalhar, de rezar,
mas de noite... deixa está!
São anjos belos, orixás,
são músculos e rebeldia,
batucando os tambores
que reacendem nos deuses
as luxúrias adormecidas
A lua bem que espia
e levanta a sua saia,
tecendo rendas nas águas
que se derramam na areia.
Sem vergonha, espia...
Os homens mais do que homens
são ritmo, fôlego, tesão,
entre as pernas o tambor,
nervo duro e inquieto,
descomunal em tamanho,
que se anuncia em batuque
virando pelo avesso
a face da outra face
do que é religião.
Matracas desesperadas
quebram os selos do pudor
para que os corpos se liberem
e urrem feito uma onça
nas cachoeiras do cio.
1 324
Quintino Cunha
Comunhão da Serra
Ontem, à noite, eu vi a minha Serra,
Como uma virgem, trêmula, contrita,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
Uma hóstia do Céu, hóstia bendita.
Como foi, para vê-la assim? De neves
Era o véu transparente, que a cobria,
Vendo-se aqui e ali negros tons leves,
Do negro que do verde aparecia.
Tons negros, talvez restos, que os comparo,
De alguma nuvem torva, esfacelada
Por Deus, que só queria o Céu bem claro,
Porque ia dar a hóstia consagrada!
o cafeeiral, que rebentava em flores,
A grinalda na fronte lhe brotava;
E o frio, rebento dos temores,
No seu intimo, o frio rebentava!
Assim a Natureza era o sacrário,
De onde Deus dava a comunhão radiosa
À Serra! E era o Céu o grande hostiário
E era a lua, a hóstia luminosa.
E digam que eu não vi a minha Serra,
Como uma virgem, de grinalda e véu,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
A hóstia luminosa lá do Céu!
Como uma virgem, trêmula, contrita,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
Uma hóstia do Céu, hóstia bendita.
Como foi, para vê-la assim? De neves
Era o véu transparente, que a cobria,
Vendo-se aqui e ali negros tons leves,
Do negro que do verde aparecia.
Tons negros, talvez restos, que os comparo,
De alguma nuvem torva, esfacelada
Por Deus, que só queria o Céu bem claro,
Porque ia dar a hóstia consagrada!
o cafeeiral, que rebentava em flores,
A grinalda na fronte lhe brotava;
E o frio, rebento dos temores,
No seu intimo, o frio rebentava!
Assim a Natureza era o sacrário,
De onde Deus dava a comunhão radiosa
À Serra! E era o Céu o grande hostiário
E era a lua, a hóstia luminosa.
E digam que eu não vi a minha Serra,
Como uma virgem, de grinalda e véu,
Recebendo de Deus, daqui da terra,
A hóstia luminosa lá do Céu!
1 656
Rogério Bessa
Poema do Bom Pastor
cruzeiro luminoso não feito de acrílico
apagando e acendendo no céu
navegante de mil viagens
inventor ousado do esputinique
jato supereternidade
comedor de distâncias de ontem a hoje
o Bom Pastor apascenta seus rebanhos de nuvens
o Bom Pastor, chefe do setor administrativo
apascenta rebanhos de lã
seus rebanhos pastam chuva e eternidade
Bom Pastor de olhos de estrela
cravejado de estrelas em disposição de cruz
Bom Pastor capitão de fragata
Bom Pastor amansador de pirata
salvador de mil naufrágios
Bom Pastor marinheiro antigo
carpinteiro de mil barcas
pregadas nas pontinhas com as tachinhas das estrelas
Bom Pastor olhar de neve
cabelos de espiga dourados
cajado de feixe de trigo
reluzindo ao sol da graça
Bom Pastor de dedos vertendo cintilações
Bom Pastor de olhar de neve
tange essas barcas de leve
para o ancoradouro de Paz e Eternidade.
apagando e acendendo no céu
navegante de mil viagens
inventor ousado do esputinique
jato supereternidade
comedor de distâncias de ontem a hoje
o Bom Pastor apascenta seus rebanhos de nuvens
o Bom Pastor, chefe do setor administrativo
apascenta rebanhos de lã
seus rebanhos pastam chuva e eternidade
Bom Pastor de olhos de estrela
cravejado de estrelas em disposição de cruz
Bom Pastor capitão de fragata
Bom Pastor amansador de pirata
salvador de mil naufrágios
Bom Pastor marinheiro antigo
carpinteiro de mil barcas
pregadas nas pontinhas com as tachinhas das estrelas
Bom Pastor olhar de neve
cabelos de espiga dourados
cajado de feixe de trigo
reluzindo ao sol da graça
Bom Pastor de dedos vertendo cintilações
Bom Pastor de olhar de neve
tange essas barcas de leve
para o ancoradouro de Paz e Eternidade.
1 823
José Lannes
Confissão
Vou caminhando para ti, Senhor!
Perdoa a minha confissão sincera:
Vou lentamente e não como quisera,
que mal se pode caminhar na dor.
Atraso-me, a sentir, no meu horror,
a dúvida, que tanto me lacera...
Mas eu bem sei que o teu amor espera:
Se o não fizesse, não seria amor.
Muitos clamam, Senhor, toda a descrença...
Mas eu que sei a solidão imensa
de uma alma, em treva, neste mundo a ansiar,
sofro e calo... E se o espírito escarninho
mofa: — "Não tem saída este caminho",
responde o coração: — "Hei de chegar!"
Perdoa a minha confissão sincera:
Vou lentamente e não como quisera,
que mal se pode caminhar na dor.
Atraso-me, a sentir, no meu horror,
a dúvida, que tanto me lacera...
Mas eu bem sei que o teu amor espera:
Se o não fizesse, não seria amor.
Muitos clamam, Senhor, toda a descrença...
Mas eu que sei a solidão imensa
de uma alma, em treva, neste mundo a ansiar,
sofro e calo... E se o espírito escarninho
mofa: — "Não tem saída este caminho",
responde o coração: — "Hei de chegar!"
955
João Luiz Pacheco Mendes
Travelling
Jejum de coca
maratona de yoga
serenata de Mantra
noite adentro, mundo afora
nas profundezas de Atlântida
sobre as cinzas de Tróia,
criatura sua
eu procurei o criador.
Será que ousei pouca aventura?
Empunhei armaduras
saqueei as sagradas escrituras
entrei em cruzadas homéricas
esotéricas, telúricas,
bebi do Daime, Graal,
Mahabharata, Alcorão
etc. e tal.
Mas fui condenado
à lei do eterno retorno.
Eis-me aqui de novo
com a mesma questão:
de onde vim, pra onde vôo?
Guiai-me Platão.
No fim do túnel há uma luz rude
que ofusca os sentidos da gente.
Tanta peregrinação
dava até um road-movie
(com direito a happy-end?)
Help Thelma & Louise,
please,
não me largue nesta crise.
maratona de yoga
serenata de Mantra
noite adentro, mundo afora
nas profundezas de Atlântida
sobre as cinzas de Tróia,
criatura sua
eu procurei o criador.
Será que ousei pouca aventura?
Empunhei armaduras
saqueei as sagradas escrituras
entrei em cruzadas homéricas
esotéricas, telúricas,
bebi do Daime, Graal,
Mahabharata, Alcorão
etc. e tal.
Mas fui condenado
à lei do eterno retorno.
Eis-me aqui de novo
com a mesma questão:
de onde vim, pra onde vôo?
Guiai-me Platão.
No fim do túnel há uma luz rude
que ofusca os sentidos da gente.
Tanta peregrinação
dava até um road-movie
(com direito a happy-end?)
Help Thelma & Louise,
please,
não me largue nesta crise.
911
Iranildo Sampaio
Teoria da Última Ladeira
Nada tenho a dizer.
Deus está do outro lado, eu estou aqui, e o demônio,
astuto, talvez não tenha vindo.
Presto serviço a qualquer santo.
As circunstâncias de que me valho são neutras
e me fazem pensar noutras medidas.
Passo em revista as minhas incertezas.
Não sei refletir quando tudo me parece adverso.
Ninguém admite o efeito transitório do meu remédio abstrato.
Agora, vasculho as minhas intenções e me resumo a isto
que hoje sou.
Poeta de tantas agonias, divido-me em poemas comedidos,
e elaboro esse longo apocalipse de verdades esdrúxulas.
A certa altura, nem eu mesmo me entendo.
Meu quadro é irreversível.
Nunca violei qualquer segredo.
Ainda assim, dou graças ao meu Deus por tudo isto,
antes que o Diabo interceda em favor de seus súditos.
Meu horóscopo é outro.
O planeta que rege a minha sorte mudou de órbita.
De dia, arrumo estas idéias na cabeça em desordem.
De noite, desarrumo tudo e adormeço.
Se algo me aborrece, pouco importa.
O princípio é o meu.
Salgo a memória e corro novamente em busca do que quero.
Sei que tudo é inútil.
A ciência do bem é a mesma.
Tenho a força de minha gratidão a me amparar
diante do meu mundo.
Não posso aliciar as minhas mágoas.
No entanto, as cosias permanecem iguais, e eu saio
de casa a toda hora, com os mesmos propósitos.
Deus está do outro lado, eu estou aqui, e o demônio,
astuto, talvez não tenha vindo.
Presto serviço a qualquer santo.
As circunstâncias de que me valho são neutras
e me fazem pensar noutras medidas.
Passo em revista as minhas incertezas.
Não sei refletir quando tudo me parece adverso.
Ninguém admite o efeito transitório do meu remédio abstrato.
Agora, vasculho as minhas intenções e me resumo a isto
que hoje sou.
Poeta de tantas agonias, divido-me em poemas comedidos,
e elaboro esse longo apocalipse de verdades esdrúxulas.
A certa altura, nem eu mesmo me entendo.
Meu quadro é irreversível.
Nunca violei qualquer segredo.
Ainda assim, dou graças ao meu Deus por tudo isto,
antes que o Diabo interceda em favor de seus súditos.
Meu horóscopo é outro.
O planeta que rege a minha sorte mudou de órbita.
De dia, arrumo estas idéias na cabeça em desordem.
De noite, desarrumo tudo e adormeço.
Se algo me aborrece, pouco importa.
O princípio é o meu.
Salgo a memória e corro novamente em busca do que quero.
Sei que tudo é inútil.
A ciência do bem é a mesma.
Tenho a força de minha gratidão a me amparar
diante do meu mundo.
Não posso aliciar as minhas mágoas.
No entanto, as cosias permanecem iguais, e eu saio
de casa a toda hora, com os mesmos propósitos.
864
Frutuoso Ferreira
Noite de Brahma
Corre a Noite de Brahma... A Eternidade avulta...
Aí junto à Porta de Oiro o grande Arcanjo exulta
Na voragem sem fim dos êxtases deiformes;
Estruge o vendaval dos céus pelagiformes
E o Arcanjo vencedor enfrenta os temporais,
Cheio desse esplendor das glórias eternais
E Ele vibra da epopéia azul dos cataclismas,
Nas lavas colossais dos Etnas das cismas.
Corre a Noite de Brahma... O espírito da Flor
Desdobra um madrigal — a apoteose do Amor,
O Amor — Guerreiro audaz — Sol de inefável luz,
Que se tornara um Deus, assim como Jesus:
Pompeiam céus, a flux, chispantes de arrebóis
E a Noite, em flor de Brahma acorda os seus Heróis;
Este que vem fulgindo assim como os cristais,
É um daqueles milhões de assinalados tais.
Aí junto à Porta de Oiro o grande Arcanjo exulta
Na voragem sem fim dos êxtases deiformes;
Estruge o vendaval dos céus pelagiformes
E o Arcanjo vencedor enfrenta os temporais,
Cheio desse esplendor das glórias eternais
E Ele vibra da epopéia azul dos cataclismas,
Nas lavas colossais dos Etnas das cismas.
Corre a Noite de Brahma... O espírito da Flor
Desdobra um madrigal — a apoteose do Amor,
O Amor — Guerreiro audaz — Sol de inefável luz,
Que se tornara um Deus, assim como Jesus:
Pompeiam céus, a flux, chispantes de arrebóis
E a Noite, em flor de Brahma acorda os seus Heróis;
Este que vem fulgindo assim como os cristais,
É um daqueles milhões de assinalados tais.
1 026
Gonçalo Jácome
Flores Noturnas
Na eterna paz das noites silenciosas
E por onde estrelas glaciais florescem,
Pelas excelsas aras luminosas
Dos céus azuis, brancas neblinas descem.
Cristalinas hosanas langorosas
Na boca dos arcanjos desfalecem.
E num concerto de harpas misteriosas
Lótus de amor pela amplidão fenecem.
Todo o paul da terra se perfuma
E desabrocha no éter e na bruma
A gestação das flores imortais.
E, do mar das angústias e das ânsias,
As nossas almas bóiam nas distâncias
Das remotas paragens siderais.
E por onde estrelas glaciais florescem,
Pelas excelsas aras luminosas
Dos céus azuis, brancas neblinas descem.
Cristalinas hosanas langorosas
Na boca dos arcanjos desfalecem.
E num concerto de harpas misteriosas
Lótus de amor pela amplidão fenecem.
Todo o paul da terra se perfuma
E desabrocha no éter e na bruma
A gestação das flores imortais.
E, do mar das angústias e das ânsias,
As nossas almas bóiam nas distâncias
Das remotas paragens siderais.
1 000
Fontoura Xavier
Flor da Decadência
Sou como o guardião dos tempos do mosteiro!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.
De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois um som cavado — a enxada do coveiro!
Minhalma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.
— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!
Na tumular mudez dum povo que descansa,
As criações do Sonho, os fetos da Esperança
Repousam no meu seio o sono derradeiro.
De quando em vez eu ouço os dobres do sineiro:
É mais uma ilusão, um féretro que avança...
Dizem-me — Deus... Jesus... outra palavra mansa
Depois um som cavado — a enxada do coveiro!
Minhalma, como o monge à sombra das clausuras,
Passa na solidão do pó das sepulturas
A desfiar a dor no pranto da demência.
— E é de cogitar insano nessas cousas,
É da supuração medonha dessas lousas
Que medra em nós o tédio — a flor da decadência!
1 182
Félix Pacheco
Ofertório
Cerca-te a nobre fronte uma auréola bendita.
Na nostalgia azul dos teus olhares leio
Uma Balada atroz com Lágrimas escrita.
És para mim, ó Mãe, o vigoroso esteio
Que sustenta de pé a velha e augusta Cripta,
A colunata de oiro erguida em frágil seio,
Para amparar a Torre Astral dos Meus Cismares,
E impedir que ela tombe, em pó desfeita, em ruínas.
A tua voz espalha, em ondas, pelos ares,
Suaves, doridos sons de aflitivas surdinas,
Enchendo o Oceano, enchendo os Céus, enchendo os Mundos.
Como um Réquiem cantado através de neblinas.
Vieste para extinguir os tormentos profundos!
Vieste para apagar as velhas cicatrizes,
Para descortinar o Céu aos moribundos!
Vieste para aliviar a Dor dos infelizes!
Vieste para espancar as Trevas de MinhAlma,
Para arrancar à Dor as rígidas raízes!
Arcanjo de asa branca e protetora espalma,
Emissário de Deus, ó Mãe, tu me trouxeste,
Como uma Bênção do Alto, a esplendorosa calma.
Abrandas a Agonia, exterminas a Peste,
Escravizas o Leão ao teu olhar piedoso,
E o Corvo teme, e o Tigre, a alvura que te veste.
Arcanjo, Santa, Lírio, Estrela, Sol glorioso,
Filtro que os Corações Humanos fortalece,
Tamareira que ensombra o deserto arenoso,
Mater! Suprema Força! Acolhe minha prece!
Na nostalgia azul dos teus olhares leio
Uma Balada atroz com Lágrimas escrita.
És para mim, ó Mãe, o vigoroso esteio
Que sustenta de pé a velha e augusta Cripta,
A colunata de oiro erguida em frágil seio,
Para amparar a Torre Astral dos Meus Cismares,
E impedir que ela tombe, em pó desfeita, em ruínas.
A tua voz espalha, em ondas, pelos ares,
Suaves, doridos sons de aflitivas surdinas,
Enchendo o Oceano, enchendo os Céus, enchendo os Mundos.
Como um Réquiem cantado através de neblinas.
Vieste para extinguir os tormentos profundos!
Vieste para apagar as velhas cicatrizes,
Para descortinar o Céu aos moribundos!
Vieste para aliviar a Dor dos infelizes!
Vieste para espancar as Trevas de MinhAlma,
Para arrancar à Dor as rígidas raízes!
Arcanjo de asa branca e protetora espalma,
Emissário de Deus, ó Mãe, tu me trouxeste,
Como uma Bênção do Alto, a esplendorosa calma.
Abrandas a Agonia, exterminas a Peste,
Escravizas o Leão ao teu olhar piedoso,
E o Corvo teme, e o Tigre, a alvura que te veste.
Arcanjo, Santa, Lírio, Estrela, Sol glorioso,
Filtro que os Corações Humanos fortalece,
Tamareira que ensombra o deserto arenoso,
Mater! Suprema Força! Acolhe minha prece!
978
Irineu Filho
O Padre Cacete
Nédio, careca e culto reverendo,
vadio monsenhor que ainda namora,
pesar de com a velhice ir já perdendo
o risco de perder qualquer senhora!
Foi o padre das moças; foi outrora
um Don Juan de batina... E, hoje, descendo
pela encosta da vida, de hora em hora,
saudades do passado vai vertendo...
Professor normalista de francês,
matéria ingrata e má... porém, gostosa:
pelo arame que dá no fim do mês...
Mas, se a língua que ensina sabe mal,
leva vida folgada e milagrosa
beliscando as meninas da Normal...
vadio monsenhor que ainda namora,
pesar de com a velhice ir já perdendo
o risco de perder qualquer senhora!
Foi o padre das moças; foi outrora
um Don Juan de batina... E, hoje, descendo
pela encosta da vida, de hora em hora,
saudades do passado vai vertendo...
Professor normalista de francês,
matéria ingrata e má... porém, gostosa:
pelo arame que dá no fim do mês...
Mas, se a língua que ensina sabe mal,
leva vida folgada e milagrosa
beliscando as meninas da Normal...
841
Gonçalo Jácome
Predestinação
Não deplores viver sob o anátema triste
De um sofrer infinito, estranho visionário,
Pois a glória de um deus neste mundo consiste
Em ser como Jesus e subir ao Calvário.
Poeta! às altas regiões os teus vôos desferiste.
Teu espírito foi à terra refratário.
Contra os maus, com teu gládio, um dia te insurgiste,
Resigna-te afinal e cumpre o teu fadário.
Teu nobre coração será exposto às lanças,
Às perfídias brutais, às míseras vinganças,
E hás de errante morrer sem pouso e sem carinhos...
Mas por ti luzirão as noites estreladas,
Mas por ti vibrarão as almas delicadas,
Mas por ti clamarão as pedras dos caminhos.
De um sofrer infinito, estranho visionário,
Pois a glória de um deus neste mundo consiste
Em ser como Jesus e subir ao Calvário.
Poeta! às altas regiões os teus vôos desferiste.
Teu espírito foi à terra refratário.
Contra os maus, com teu gládio, um dia te insurgiste,
Resigna-te afinal e cumpre o teu fadário.
Teu nobre coração será exposto às lanças,
Às perfídias brutais, às míseras vinganças,
E hás de errante morrer sem pouso e sem carinhos...
Mas por ti luzirão as noites estreladas,
Mas por ti vibrarão as almas delicadas,
Mas por ti clamarão as pedras dos caminhos.
908
Emiliano Perneta
Solidão
Que bom se eu fosse aquele lavrador,
Que eu nunca pude ser e que eu não sou,
Que depois de lavrar os campos, flor,
Centeio, milho e trigo semeou...
Esse trabalho nunca lhe amargou,
Mas à hora doce e triste de sol-pôr,
Tanta canseira o pobre desfolhou,
Tanto fez, que semeou a própria dor...
E oh! que amargura, quando a noite vem,
Toda dum roxo frio de lilás...
Quem dera ser o lavrador, porém!
Entrar em casa, a mesa posta, os seus
Em derredor, a consciência em paz,
E tudo em paz, louvado seja Deus!
Que eu nunca pude ser e que eu não sou,
Que depois de lavrar os campos, flor,
Centeio, milho e trigo semeou...
Esse trabalho nunca lhe amargou,
Mas à hora doce e triste de sol-pôr,
Tanta canseira o pobre desfolhou,
Tanto fez, que semeou a própria dor...
E oh! que amargura, quando a noite vem,
Toda dum roxo frio de lilás...
Quem dera ser o lavrador, porém!
Entrar em casa, a mesa posta, os seus
Em derredor, a consciência em paz,
E tudo em paz, louvado seja Deus!
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