Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Adélia Prado
Homilia
Quem dentre vós
dirá convictamente:
os alquimistas morreram
— aqueles simples —,
morreram os conquistadores,
os reis,
os tocadores de alaúde,
os mágicos.
Oh, engano!
A vida é eterna, irmãos,
aquietai-vos, pois, em vossas lidas,
louvai a Deus e reparti a côdea,
o boi, vosso marido e esposa
e sobretudo
e mais que tudo
a palavra sem fel.
dirá convictamente:
os alquimistas morreram
— aqueles simples —,
morreram os conquistadores,
os reis,
os tocadores de alaúde,
os mágicos.
Oh, engano!
A vida é eterna, irmãos,
aquietai-vos, pois, em vossas lidas,
louvai a Deus e reparti a côdea,
o boi, vosso marido e esposa
e sobretudo
e mais que tudo
a palavra sem fel.
3 169
Carlos Nejar
Ganho
Dos deuses
não espero soldo, nem reses.
De ganho, só meus proventos;
De ganho, o que esbanjo ao vento.
De ganho o que cava a pá
De ganho o que faz a paz.
De ganho o que a morte dá,
Dia a dia, ano a ano.
Neles não ponho linhas ou malhas
como a peixes.
Ponho luz e ponho tento;
nenhum lucro lanço em dados.
Qual a réstia que os distingue?
Qual a torre? Qual o sino?
Vestem blusas, vestem nuvens?
São humanos ou divinos?
De que tempo o seu declive?
De que sarro?
Dos deuses não espero soldo, nem reses.
Só lhes ganho o não rendido,
o obscuro, o solo virgem,
onde parte deles vive
e outra parte se redime.
não espero soldo, nem reses.
De ganho, só meus proventos;
De ganho, o que esbanjo ao vento.
De ganho o que cava a pá
De ganho o que faz a paz.
De ganho o que a morte dá,
Dia a dia, ano a ano.
Neles não ponho linhas ou malhas
como a peixes.
Ponho luz e ponho tento;
nenhum lucro lanço em dados.
Qual a réstia que os distingue?
Qual a torre? Qual o sino?
Vestem blusas, vestem nuvens?
São humanos ou divinos?
De que tempo o seu declive?
De que sarro?
Dos deuses não espero soldo, nem reses.
Só lhes ganho o não rendido,
o obscuro, o solo virgem,
onde parte deles vive
e outra parte se redime.
1 096
Hilda Hilst
Venho de Tempos Antigos
Deus
pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante
sorvete de cereja.
Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso.
Venho de tempos antigos. Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst… eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.
pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante
sorvete de cereja.
Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso.
Venho de tempos antigos. Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst… eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.
1 481
Armindo Trevisan
Elogio da Nudez
Quando
me vejo nu,
carne e tamanho apenas,
sofrendo a garra de algo
que me não orna, nem me afaga
Sinto por dentro um silencio
Que me deixa inda mais nu!
Quando me vejo nu
ao sol que me rói, parado
ao sal que me entra na vida,
ao ar que me desnuda a alma
Fico no mundo sem par,
Desejando me enterrar
Ah que desnudez faminta!
no banheiro, sobre o leito,
em qualquer parte do mundo,
onde se deixe o vestido
É o próprio medo do homem,
que aparece sobre a pele
Mas é tão bom , delicioso
O jôrro de água, o unguento
O perfume, a relva, a seda
De outra carne inda mais nua
Que o terror é esquecido
Por um instante florido!
Só um homem todo nu
Pode acreditar em algo,
Num pássaro azul, em deus
Numa coisa irreversível....
me vejo nu,
carne e tamanho apenas,
sofrendo a garra de algo
que me não orna, nem me afaga
Sinto por dentro um silencio
Que me deixa inda mais nu!
Quando me vejo nu
ao sol que me rói, parado
ao sal que me entra na vida,
ao ar que me desnuda a alma
Fico no mundo sem par,
Desejando me enterrar
Ah que desnudez faminta!
no banheiro, sobre o leito,
em qualquer parte do mundo,
onde se deixe o vestido
É o próprio medo do homem,
que aparece sobre a pele
Mas é tão bom , delicioso
O jôrro de água, o unguento
O perfume, a relva, a seda
De outra carne inda mais nua
Que o terror é esquecido
Por um instante florido!
Só um homem todo nu
Pode acreditar em algo,
Num pássaro azul, em deus
Numa coisa irreversível....
989
Armindo Trevisan
A Difusão
De Deus
só quero
a infinitude,
que me destrói
(me preservando).
De Deus não quero
a omnipotência,
que é muito grande
para este mundo.
De Deus só quero
o seu excesso
que desabrocha
em criatura
só quero
a infinitude,
que me destrói
(me preservando).
De Deus não quero
a omnipotência,
que é muito grande
para este mundo.
De Deus só quero
o seu excesso
que desabrocha
em criatura
1 172
Cruz e Sousa
Humilde Secreta
Fico parado,
em êxtase suspenso,
Às vezes quando vou considerando
Na humildade simpática, no brando
Mistério simples do teu ser imenso.
Tudo o que aspiro, tudo quanto penso
De estrelas que andam dentro em mim cantando,
Ah! Tudo ao teu fenômeno vai dando
Um céu de azul mais carregado e denso.
De onde não sei tanta simplicidade
Tanta secreta e límpida humildade
Vem ao teu ser como os encantos raros.
Nos teus olhos tua alma transparece...
E de tal sorte que o bom Deus parece
Viver sonhando nos teus olhos claros.
em êxtase suspenso,
Às vezes quando vou considerando
Na humildade simpática, no brando
Mistério simples do teu ser imenso.
Tudo o que aspiro, tudo quanto penso
De estrelas que andam dentro em mim cantando,
Ah! Tudo ao teu fenômeno vai dando
Um céu de azul mais carregado e denso.
De onde não sei tanta simplicidade
Tanta secreta e límpida humildade
Vem ao teu ser como os encantos raros.
Nos teus olhos tua alma transparece...
E de tal sorte que o bom Deus parece
Viver sonhando nos teus olhos claros.
1 770
Cruz e Sousa
Visionários
Amam batalhas
pelo mundo adiante
Os que vagam no mundo visionários
Abrindo as áureas portas de sacrários
Do mistério soturno e palpitante
O coração flameja a cada instante
Com brilho estranho, com fervores vários,
Sente a febre dos bons missionários
Da ardente catequese fecundante
Os visionários vão buscar frescura
De água celeste na cisterna pura
Da esperança por horas nebulosas...
Buscam frescura, um outro novo encanto...
E livres , belos através do pranto,
Falam baixo com as almas misteriosas!
pelo mundo adiante
Os que vagam no mundo visionários
Abrindo as áureas portas de sacrários
Do mistério soturno e palpitante
O coração flameja a cada instante
Com brilho estranho, com fervores vários,
Sente a febre dos bons missionários
Da ardente catequese fecundante
Os visionários vão buscar frescura
De água celeste na cisterna pura
Da esperança por horas nebulosas...
Buscam frescura, um outro novo encanto...
E livres , belos através do pranto,
Falam baixo com as almas misteriosas!
1 525
Jorge Viegas
Gratidão
Gratidão
é dádiva de Deus,
Em tudo dai graças, Paulo dizia,
Pela salvação que vem dos céus,
Graças a Ele ainda que tardia.
O agradecer não humilha, edifica
Nossas vidas que o mal persegue
E nos cerca de tudo que não vivifica,
Enobrece o homem que a Deus segue.
Graças pela doença, graças pela saúde.
Por fracassos para que Deus nos ajude
Até a vitoria final e júbilo que abraças.
Sejamos humildes, sejamos gratos
Pelas bênçãos, e também pelos ingratos,
Por insignificâncias, ... Em tudo dai graças.
é dádiva de Deus,
Em tudo dai graças, Paulo dizia,
Pela salvação que vem dos céus,
Graças a Ele ainda que tardia.
O agradecer não humilha, edifica
Nossas vidas que o mal persegue
E nos cerca de tudo que não vivifica,
Enobrece o homem que a Deus segue.
Graças pela doença, graças pela saúde.
Por fracassos para que Deus nos ajude
Até a vitoria final e júbilo que abraças.
Sejamos humildes, sejamos gratos
Pelas bênçãos, e também pelos ingratos,
Por insignificâncias, ... Em tudo dai graças.
1 824
Silvaney Paes
Crucificado
Abre a
cruz dos teus braços
Já fui suficientemente flagelado
Agora tenho que ser crucificado
Devo morrer e ser ressuscitado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
De alma na mão fui coroado
Tive o peito perfurado
Nessa dor fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
Fui três vezes nesse amor negado
Saudade, dor e desprezo cravados.
Sangrando fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
Já fui suficientemente flagelado
Em teu amor fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Nesse abraço posso ser ressuscitado
cruz dos teus braços
Já fui suficientemente flagelado
Agora tenho que ser crucificado
Devo morrer e ser ressuscitado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
De alma na mão fui coroado
Tive o peito perfurado
Nessa dor fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
Fui três vezes nesse amor negado
Saudade, dor e desprezo cravados.
Sangrando fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Abre a cruz dos teus braços
Já fui suficientemente flagelado
Em teu amor fui crucificado
Fecha a cruz dos teus braços
Nesse abraço posso ser ressuscitado
1 065
Agostina Akemi Sasaoka
Cântico
Abre-te,
anjo,
das asas que pendes
e rola vagaroso
entre os espinhos da coroa.
Sucumbe,
ainda tolo,
dentro do último riso
à espera do mar.
Nada cantará esta noite
- de crepúsculo inusitado -
Dos ossos que sustentam
teus olhos em sangue,
extraio, sem cuidado,
o único vestígio
da vida decadente.
Não mintas,
ainda que a boca
gravídica
tente o suicídio.
Dá a paz
a todos os insetos
abaixo de teu olhar.
Sepulta-me
entre as pétalas
do cárcere dos lobos.
Estás certo...
Ainda que o sol
se deteriore,
sou a porta.
anjo,
das asas que pendes
e rola vagaroso
entre os espinhos da coroa.
Sucumbe,
ainda tolo,
dentro do último riso
à espera do mar.
Nada cantará esta noite
- de crepúsculo inusitado -
Dos ossos que sustentam
teus olhos em sangue,
extraio, sem cuidado,
o único vestígio
da vida decadente.
Não mintas,
ainda que a boca
gravídica
tente o suicídio.
Dá a paz
a todos os insetos
abaixo de teu olhar.
Sepulta-me
entre as pétalas
do cárcere dos lobos.
Estás certo...
Ainda que o sol
se deteriore,
sou a porta.
841
Silvaney Paes
Psiu Disse o Verbo
A mulher,
voltada para o Altíssimo,
sorvia luz, e clamava:
Responde-me Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Era desocultação
a mulher,
e também dúvidas.
Nada lhe dizia O Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Vai-se O Altíssimo.
a mulher divaga,
chora e grita.
Abandonou-me Verbo?
Mais o que seja O Verbo, era silêncio.
Retorna O Verbo,
trás consigo um menino.
Pensa a mulher:
Não é tão grande O Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Deposita ali o menino,
faminto, entristecido,
e parte
parecendo órfão de Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Escuta a mulher,
algo frágil, baixo.
não tem voz de trovão,
não parece ser O Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Psiu...Psiu,
diz o menino:
tenho fome, frio...
É tu O Verbo?
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
A Mulher
olha sob o nariz,
acolhe o menino,
sentindo-se Verbo.
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Psiu...Psiu...
era tudo o que falava
o silêncio
do que seja O Verbo.
Mas o que seja O Verbo, era silêncio!
Agora a mulher,
o menino,
eram o silêncio do Verbo.
Sabiam!...
Todos nós somos O Verbo.
voltada para o Altíssimo,
sorvia luz, e clamava:
Responde-me Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Era desocultação
a mulher,
e também dúvidas.
Nada lhe dizia O Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Vai-se O Altíssimo.
a mulher divaga,
chora e grita.
Abandonou-me Verbo?
Mais o que seja O Verbo, era silêncio.
Retorna O Verbo,
trás consigo um menino.
Pensa a mulher:
Não é tão grande O Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Deposita ali o menino,
faminto, entristecido,
e parte
parecendo órfão de Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Escuta a mulher,
algo frágil, baixo.
não tem voz de trovão,
não parece ser O Verbo!
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Psiu...Psiu,
diz o menino:
tenho fome, frio...
É tu O Verbo?
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
A Mulher
olha sob o nariz,
acolhe o menino,
sentindo-se Verbo.
Mas o que seja O Verbo, era silêncio.
Psiu...Psiu...
era tudo o que falava
o silêncio
do que seja O Verbo.
Mas o que seja O Verbo, era silêncio!
Agora a mulher,
o menino,
eram o silêncio do Verbo.
Sabiam!...
Todos nós somos O Verbo.
1 134
Silvaney Paes
Contido
Algo ofendeu a vida.
A poesia,
Ou o sentimento
Nela Contida?
..................
A saudade ou a dor
Ofenderam a vida.
Viu ter Deus
Nelas contidas?
...................
Não sabes?
São teus os dois
E tudo
Nela contida.
...................
E das folhas?
Viste vida
Ou viste morte
Nela contidas?
.................
Algo ofendeu a vida
Foi a poesia
E o sentimento
Nela contida.
A poesia,
Ou o sentimento
Nela Contida?
..................
A saudade ou a dor
Ofenderam a vida.
Viu ter Deus
Nelas contidas?
...................
Não sabes?
São teus os dois
E tudo
Nela contida.
...................
E das folhas?
Viste vida
Ou viste morte
Nela contidas?
.................
Algo ofendeu a vida
Foi a poesia
E o sentimento
Nela contida.
748
Rosa Leonor Pedro
Quero Palavras Antigas
Quero palavras antigas, muito antigas
as mais antigas de todo o sempre:
A primeira de todas, a mais sagrada;
a palavra mágica que deu vida ao universo
e inteligência aos "hanimais" que somos.
Aquela que fez as águas aparecer primeiro
e depois as separou da terra.
Quero aquela palavra
que era o verbo e se fez carne,
que disse que o dia era bom e a noite também,
aquela mesma palavra
que fez com que da grande mãe nascesses
e fosses para sempre a imagem sagrada da mulher
sobre este planeta.
as mais antigas de todo o sempre:
A primeira de todas, a mais sagrada;
a palavra mágica que deu vida ao universo
e inteligência aos "hanimais" que somos.
Aquela que fez as águas aparecer primeiro
e depois as separou da terra.
Quero aquela palavra
que era o verbo e se fez carne,
que disse que o dia era bom e a noite também,
aquela mesma palavra
que fez com que da grande mãe nascesses
e fosses para sempre a imagem sagrada da mulher
sobre este planeta.
1 256
Marcelo Ribeiro
Do Corpo à Cálida Desgraça
Nudos peitos desnudos
Coxas alvas e ao mundo
Num harém de pecados desmedidos
E profundos
No toque de recorrer de outrora ou
Na galhofa do clicar de um fotógrafo
De leda estirpe e olho fundo
Inocência vendida por vintém
E a pureza que hoje
Sabe-se lá quem ainda a têm
Registradas em retangulares quadros de uma vida
Periódica
Nos desejos de criança sujo à óleo ou graxa
Ou entorpecidos de dinheiro sujo
Que nos proporciona um corpo límpido
De aspirações mortas
Da germinal dobra rósea exposta
Servida em qualquer esquina como uma suja hóstia
Disposta a engordar a confissão
De qualquer trágico beato
E ao padre o sermão
Sermão e raiva reprimida de também
Ele, pároco cético de seu credo
Não ter aproveitado
Em Eva o pecado original
Ou de tê-lo feito
Escondido em regalias seminais
Nos seminários
Nada angelicais
De nossas desgraças
Coxas alvas e ao mundo
Num harém de pecados desmedidos
E profundos
No toque de recorrer de outrora ou
Na galhofa do clicar de um fotógrafo
De leda estirpe e olho fundo
Inocência vendida por vintém
E a pureza que hoje
Sabe-se lá quem ainda a têm
Registradas em retangulares quadros de uma vida
Periódica
Nos desejos de criança sujo à óleo ou graxa
Ou entorpecidos de dinheiro sujo
Que nos proporciona um corpo límpido
De aspirações mortas
Da germinal dobra rósea exposta
Servida em qualquer esquina como uma suja hóstia
Disposta a engordar a confissão
De qualquer trágico beato
E ao padre o sermão
Sermão e raiva reprimida de também
Ele, pároco cético de seu credo
Não ter aproveitado
Em Eva o pecado original
Ou de tê-lo feito
Escondido em regalias seminais
Nos seminários
Nada angelicais
De nossas desgraças
1 002
Emídia Felipe
A Meu Pai
Cansado
de lutar, o guerreiro subiu ao monte mais alto e disse: " – Mestre,
não quero me entregar, mas sou fraco. Quero acreditar, mas minha
fé é pouca.
Quero vencer, mas estou cansado. Não quero ser covarde, mas tenho
medo."
Depois, sentou-se em uma pedra, baixou a cabeça e viu como sua
espada
reluzia apesar dos arranhões. Lembrou-se de cada combate que
havia trazido
cada arranhão. Levantou-se, tomou a espada em suas mãos,
empunhou-a com
firmeza e, vendo o sol refletir na sua lâmina, olhou ao redor
... Viu muito
até a linha do horizonte, viu muitas coisas. Seu pensamento,
porém, viajou
muito além de onde seu olhar podia alcançar. Refez então
a sua fala: "-
Mestre, é preciso pensar ser forte para continuar? É preciso
pensar ser
grande a fé para acreditar? É preciso estar intacto para
vencer? É preciso
ter coragem para enfrentar a escuridão?"
Certo de que havia encontrado a resposta, o guerreiro desceu o monte
com a
certeza de que bastava a ele confiar em si e em seu Senhor para seguir
em
frente e cumprir sua jornada.
de lutar, o guerreiro subiu ao monte mais alto e disse: " – Mestre,
não quero me entregar, mas sou fraco. Quero acreditar, mas minha
fé é pouca.
Quero vencer, mas estou cansado. Não quero ser covarde, mas tenho
medo."
Depois, sentou-se em uma pedra, baixou a cabeça e viu como sua
espada
reluzia apesar dos arranhões. Lembrou-se de cada combate que
havia trazido
cada arranhão. Levantou-se, tomou a espada em suas mãos,
empunhou-a com
firmeza e, vendo o sol refletir na sua lâmina, olhou ao redor
... Viu muito
até a linha do horizonte, viu muitas coisas. Seu pensamento,
porém, viajou
muito além de onde seu olhar podia alcançar. Refez então
a sua fala: "-
Mestre, é preciso pensar ser forte para continuar? É preciso
pensar ser
grande a fé para acreditar? É preciso estar intacto para
vencer? É preciso
ter coragem para enfrentar a escuridão?"
Certo de que havia encontrado a resposta, o guerreiro desceu o monte
com a
certeza de que bastava a ele confiar em si e em seu Senhor para seguir
em
frente e cumprir sua jornada.
907
Mariana Ianelli
Testamento
"Chora,
irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também
cumprir o seu próprio destino."
(Mário de Andrade - Rito do Irmão Pequeno)
A vida, para desejares
viver.
Um rosto emprestado de Deus
suscita da calada
para ser um rosto de homem,
teu voto de beleza.
O tempo de vir
é fortuna que não escolheste,
tua mãe é o primeiro regaço que não escolheste,
primeiro amor para amar, exaltado e fiel.
Mais tarde, o teu corpo desiludido
ou transformado em fonte,
um amigo arrastado no vento,
adágio seduzido,
mais tarde e de novo o silêncio,
que já não é o teu sereno,
mas uma tristeza inimiga
mais leal para ti que o teu corpo,
que o teu nome sonoro
e as concessões pela mãe.
Procuras um amor natural
como quando nada sabias,
mas a perda de Deus te ensinou,
como aos outros, a desconfiar.
Uma doçura é tão próxima,
mas e o teu pavor de amar ...
Na concha acanhada, durante,
escutas o sangue no passeio pelos dedos,
escutas no peito uma autonomia ignota.
Daí compreendes o sigiloso
de perseverar e doer ...
Tu és a vida que não veio,
e que mais sinceramente, no entanto,
está perto da tua nitidez.
És teu próprio filho emudecido, desatento.
Mesmo que sintas frio, como sentes.
irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também
cumprir o seu próprio destino."
(Mário de Andrade - Rito do Irmão Pequeno)
A vida, para desejares
viver.
Um rosto emprestado de Deus
suscita da calada
para ser um rosto de homem,
teu voto de beleza.
O tempo de vir
é fortuna que não escolheste,
tua mãe é o primeiro regaço que não escolheste,
primeiro amor para amar, exaltado e fiel.
Mais tarde, o teu corpo desiludido
ou transformado em fonte,
um amigo arrastado no vento,
adágio seduzido,
mais tarde e de novo o silêncio,
que já não é o teu sereno,
mas uma tristeza inimiga
mais leal para ti que o teu corpo,
que o teu nome sonoro
e as concessões pela mãe.
Procuras um amor natural
como quando nada sabias,
mas a perda de Deus te ensinou,
como aos outros, a desconfiar.
Uma doçura é tão próxima,
mas e o teu pavor de amar ...
Na concha acanhada, durante,
escutas o sangue no passeio pelos dedos,
escutas no peito uma autonomia ignota.
Daí compreendes o sigiloso
de perseverar e doer ...
Tu és a vida que não veio,
e que mais sinceramente, no entanto,
está perto da tua nitidez.
És teu próprio filho emudecido, desatento.
Mesmo que sintas frio, como sentes.
919
Silvaney Paes
Adão
Ah...Deus!
Retira de mim vossa vergonha,
De que me serve?
Já não podeis
Retira-me de Vós!
Provei do proibido
E já não estou perdido,
Desnudei algum segredo
E vi, ali, além...
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Mais alguém me viu sem pele.
Mais que vós vistes
E tocou-me com os olhos
De carne viva incandescente,
Que morderam e despiram,
Sem mãos, cem mãos,
Ou gengivas com dentes
Que também morderam,
Sem dor, cem gozos...
Para me travesti de Deus!
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Poupa-me de vosso legado,
De vosso zelo cioso,
De cicerônicas prestanças,
Pois tudo que carrego é pressa,
De amar...Ah!... Mar...
Sem vergonhas, sem-vergonha,
Mas ponde-vos a meu lado,
Sem esquecimento ou desprezo,
Pois já não sou o vosso anjo
E trago o desiderato de ser mais...
Um ser, único, homem,
E vós me servireis...
Dagora,
Tenho que servir Eva,
Ela já me serve agora.
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Olhei além do turvo que destes,
Onde o silêncio cantava
Insólita balada,
Que não era solitária,
Orquestrada para duas almas
Dagora abraçadas, desnudadas,
Misturando carne nalma...
E me senti água desgarrada,
Que lá no alto reconhecia sua amada
E protestava em tamanha escala,
Que o céu riscava,
Esbravejava, gritava, trovejava,
E como lágrima voltava
Para o seio de sua amada,
Seu amor, Ah!...Mar...Amo!
Como é bom descobrir
Amar...!
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Chamastes de serpente
Ao meu desejo...
Mas o desejo brada alto
E forja-se no silêncio
Do peito,
Por detrás dos olhos,
Para que não se veja germinar
E não se possa exterminar
Antes de se estar imperecedouro,
Sendo a insídia de todo amor
Que sempre nos possui...
Cego, esconso, intricado.
Em meio ao infinito,
Cheio de onipotência, onipresente.
O tudo, o nada, o vago, o que faltava...
Simplesmente Amor... Mar...
Provedor de nós...
Pai de minha transgressão,
De toda a rebeldia,
De estar à vossa revelia,
Fruto desse Amor... Eva...
Há...Deus,
Além de Vós...
Retira de mim vossa vergonha,
De que me serve?
Já não podeis
Retira-me de Vós!
Provei do proibido
E já não estou perdido,
Desnudei algum segredo
E vi, ali, além...
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Mais alguém me viu sem pele.
Mais que vós vistes
E tocou-me com os olhos
De carne viva incandescente,
Que morderam e despiram,
Sem mãos, cem mãos,
Ou gengivas com dentes
Que também morderam,
Sem dor, cem gozos...
Para me travesti de Deus!
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Poupa-me de vosso legado,
De vosso zelo cioso,
De cicerônicas prestanças,
Pois tudo que carrego é pressa,
De amar...Ah!... Mar...
Sem vergonhas, sem-vergonha,
Mas ponde-vos a meu lado,
Sem esquecimento ou desprezo,
Pois já não sou o vosso anjo
E trago o desiderato de ser mais...
Um ser, único, homem,
E vós me servireis...
Dagora,
Tenho que servir Eva,
Ela já me serve agora.
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Olhei além do turvo que destes,
Onde o silêncio cantava
Insólita balada,
Que não era solitária,
Orquestrada para duas almas
Dagora abraçadas, desnudadas,
Misturando carne nalma...
E me senti água desgarrada,
Que lá no alto reconhecia sua amada
E protestava em tamanha escala,
Que o céu riscava,
Esbravejava, gritava, trovejava,
E como lágrima voltava
Para o seio de sua amada,
Seu amor, Ah!...Mar...Amo!
Como é bom descobrir
Amar...!
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Chamastes de serpente
Ao meu desejo...
Mas o desejo brada alto
E forja-se no silêncio
Do peito,
Por detrás dos olhos,
Para que não se veja germinar
E não se possa exterminar
Antes de se estar imperecedouro,
Sendo a insídia de todo amor
Que sempre nos possui...
Cego, esconso, intricado.
Em meio ao infinito,
Cheio de onipotência, onipresente.
O tudo, o nada, o vago, o que faltava...
Simplesmente Amor... Mar...
Provedor de nós...
Pai de minha transgressão,
De toda a rebeldia,
De estar à vossa revelia,
Fruto desse Amor... Eva...
Há...Deus,
Além de Vós...
789
Reinaldo Ferreira
Menino só
Assim que o Anjo descer,
Hei-de sentar-me na estrada
Ao pé da hora marcada
Para o menino nascer.
E quando venha - sem mais
Porque o não quero também
Maculado -
Hei-de fitá-Lo e sorrir
Pensando no que podia
Mas não lhe quero ensinar:
Nem a ler,
Nem a contar,
Nem que requinte a mentir.
Depois - mas depressa,
Não lhe desponte um vislumbre
De lucidez na cabeça -
.......................
Hei-de sentar-me na estrada
Ao pé da hora marcada
Para o menino nascer.
E quando venha - sem mais
Porque o não quero também
Maculado -
Hei-de fitá-Lo e sorrir
Pensando no que podia
Mas não lhe quero ensinar:
Nem a ler,
Nem a contar,
Nem que requinte a mentir.
Depois - mas depressa,
Não lhe desponte um vislumbre
De lucidez na cabeça -
.......................
2 199
Reinaldo Ferreira
Os Profetas
Assombra, esta verdade que trazemos.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no Tempo - Aquém.
Correm palavras, como um rio, em nós:
A Verdade é Belém.
Aterra, a nitidez com que falamos.
Mas nós, mais do que vós, nos aterramos
Da certeza que temos.
Porque há distâncias que ninguém transpôs
E predizer é ser no Tempo - Aquém.
Correm palavras, como um rio, em nós:
A Verdade é Belém.
1 878
Silvaney Paes
Depois de blasfemar
Depois
de blasfemar contra Meu Senhor,
Já curada a febre e seus vãos delírios,
Provei do silêncio...
E enquanto esperava um castigo,
Que nunca adveio,
Deparei-me com o imenso vazio
Em que me encontro agora.
E descobrir com os olhos alevantados
Para o firmamento
Que sou sonhos, delírio, crença...
E que esta carne se putrefaria
Como toda matéria impura
Para que restasse apenas o vínculo,
Destalma dantes em cruéis enganos,
Com Àquele que sempre nela fez morada.
Mas se considerado indigno de Vós,
Mesmo em tardio castigo,
Hei de querer assim mesmo o Vosso Anagrama
Gravado em minha laje fria,
Pois que em mim sempre esteve escrito;
Eis que sois um templo do Senhor.
E essas letras, que canto...
Vez por outra, serão Hinos de Louvor
de blasfemar contra Meu Senhor,
Já curada a febre e seus vãos delírios,
Provei do silêncio...
E enquanto esperava um castigo,
Que nunca adveio,
Deparei-me com o imenso vazio
Em que me encontro agora.
E descobrir com os olhos alevantados
Para o firmamento
Que sou sonhos, delírio, crença...
E que esta carne se putrefaria
Como toda matéria impura
Para que restasse apenas o vínculo,
Destalma dantes em cruéis enganos,
Com Àquele que sempre nela fez morada.
Mas se considerado indigno de Vós,
Mesmo em tardio castigo,
Hei de querer assim mesmo o Vosso Anagrama
Gravado em minha laje fria,
Pois que em mim sempre esteve escrito;
Eis que sois um templo do Senhor.
E essas letras, que canto...
Vez por outra, serão Hinos de Louvor
677
Reinaldo Ferreira
Quanto mistério na semente
Quanto mistério na semente
Que ergue ao sol o pulmão de uma folha;
Quanto mistério em mim, que a vejo;
E quanto, quanto mais mistério em mim,
Que vejo nisto um mistério!
Que ergue ao sol o pulmão de uma folha;
Quanto mistério em mim, que a vejo;
E quanto, quanto mais mistério em mim,
Que vejo nisto um mistério!
1 741
Reinaldo Ferreira
Segundo canto para a renovação do Natal
A Noémia de Sousa
Tudo foi emprestado e alheio
Para que Deus nascesse conforme as Escrituras:
A gruta, que os presépios embelezam,
- Ou talvez um estábulo?
- Ou talvez o ventre autêntico da mãe?
A burra e a vaca,
José, que era o pai cómodo,
E a mãe, que era o empréstimo supremo,
O recurso, a verdade
E a necessidade
Para que Deus nascesse entre os homens,
Mais do que Deus,
Um Homem.
Havia os magos com presentes deslocados,
O astro dos sinais,
A voz, o anjo, os pastores e a frase
Que nos presépios fabricados
Fala da paz, dos homens e da boa-vontade.
Havia a noite e nós,
Filhos de pai e mãe,
Nascidos antes e depois à espera de que Deus viesse,
Fruto dA que não teve marido neste mundo
Para que o filho deslisasse sem pecado.
E havia Herodes,
Para que não fosse fácil
O que era inevitável.
E houvesse drama.
Ora bem.
Entre a burra e a vaca,
Dentro do hálito tépido das bestas,
Sobre as palhas
E ao nível das tetas,
O menino jazia
Nascido,
Que é como quem diz cumprido
Da promessa que havia.
José,
Os magos e os pastores
Tinham a sua fé;
A estrela tinha o seu ofício de ser estrela;
A noite e as bestas tinham a sua inconsciência,
Que é tudo,
Porque tudo e nada são a mesma coisa;
O Menino tinha o mistério de ser menino
E já Deus;
Ela, Ela tinha a miséria de ser mãe
E só mãe.
Ela é o Natal.
Ora bem.
Não falemos de Herodes, nem dos magos, nem dos pastores,
Nem sequer de José,
Do amável, do amoroso José
Que nos enternece
E discreto desaparece
Pela esquerda baixa
Do primeiro quadro da tragédia
De que somos o coro
- E também a tragédia.
Mas falemos dEle,
Que Ele é Ele,
Mesmo quando se faz pequenino
Para ter o nosso tamanho.
Não falemos da noite,
Que é um pouco mais que tudo isso,
- E menos do que a mãe,
De quem falemos.
Ora bem.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada na vista do conjunto
Que é o Natal,
Comparsa dos presépios que hão-de vir,
Entre arraiais e foguetes
E estrelas de papel.
Ela ali estava para ser pintada
Na fuga para o Egipto,
Ao trote gracioso do burrito,
Sem vaca, só com José e o deserto e as escrituras,
Que mandam mais que Herodes
E todos os seus bigodes.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada - pouco e bem -
Sem o burrito, só com SantAna e S. José
No breve engano de ser só mãe
Dum filho que fosse só filho.
Ela ali estava para ser pintada
No alarme de Jesus entre os doutores.
Ela ali estava pra não ser pintada
Depois que Jesus fez trinta,
Antes dos trinta e três
(Disseram trinta doutores:
- Diga trinta e três.
Ele disse.
Ele disse e morreu
Sem sofrer dos pulmões).
Ela ali estava para ser pintada
E no zénite de Jesus ser Jesus,
Depois dos trinta,
Quando Jesus
Fez
Trinta e três,
Ela ressuscitou pintura ao pé da cruz.
Ora bem.
A cruz que Ele trazia,
Mal lhe pesava.
Ele esperava.
Ele salvava.
Ele descia
E por isso subia.
Ela era mulher, era mãe - e Sabia.
A sua cruz
Era Jesus.
O seu inferno
Era ser mãe do Eterno
Que havia de sangrar
E morrer
Pelo caminho.
Por isso é que Ela mal se vê no palheiro,
Que é como quem diz, no estábulo.
Não é a estrela que A deslustra
(O Universo e todos os seus astros
Não valem o que Ela é);
Não são os magos que A repelem
Para o canto, de não ser rainha,
Porque Ela o é dos reinos que eles buscavam;
Não é José que A excede, porque José é José,
E isso lhe basta sem ser bastante;
Não é o Filho que A tolda,
Porque Ela é a Mãe.
Ora bem.
É ser a Mãe.
É ver que o Seu menino
Não é apenas menino,
Mas a dose anunciada
De Homem e Deus;
A ponte que tem de ser pisada
Para que haja estrada
Para os céus;
É o ser-lhe filho e ser-lhe pai,
O filho que Ela estremece
Vivo e já morto,
Porque o Pai quer e Ela obedece.
Irmãos em Cristo!
Irmãos do mesmo pai,
Quem quer que seja o Cristo
Que buscais.
Esta é a Sua hora!
A Sua - e a nossa.
Ela é o Natal.
Ave-Maria.
Ora bem.
Tudo foi emprestado e alheio
Para que Deus nascesse conforme as Escrituras:
A gruta, que os presépios embelezam,
- Ou talvez um estábulo?
- Ou talvez o ventre autêntico da mãe?
A burra e a vaca,
José, que era o pai cómodo,
E a mãe, que era o empréstimo supremo,
O recurso, a verdade
E a necessidade
Para que Deus nascesse entre os homens,
Mais do que Deus,
Um Homem.
Havia os magos com presentes deslocados,
O astro dos sinais,
A voz, o anjo, os pastores e a frase
Que nos presépios fabricados
Fala da paz, dos homens e da boa-vontade.
Havia a noite e nós,
Filhos de pai e mãe,
Nascidos antes e depois à espera de que Deus viesse,
Fruto dA que não teve marido neste mundo
Para que o filho deslisasse sem pecado.
E havia Herodes,
Para que não fosse fácil
O que era inevitável.
E houvesse drama.
Ora bem.
Entre a burra e a vaca,
Dentro do hálito tépido das bestas,
Sobre as palhas
E ao nível das tetas,
O menino jazia
Nascido,
Que é como quem diz cumprido
Da promessa que havia.
José,
Os magos e os pastores
Tinham a sua fé;
A estrela tinha o seu ofício de ser estrela;
A noite e as bestas tinham a sua inconsciência,
Que é tudo,
Porque tudo e nada são a mesma coisa;
O Menino tinha o mistério de ser menino
E já Deus;
Ela, Ela tinha a miséria de ser mãe
E só mãe.
Ela é o Natal.
Ora bem.
Não falemos de Herodes, nem dos magos, nem dos pastores,
Nem sequer de José,
Do amável, do amoroso José
Que nos enternece
E discreto desaparece
Pela esquerda baixa
Do primeiro quadro da tragédia
De que somos o coro
- E também a tragédia.
Mas falemos dEle,
Que Ele é Ele,
Mesmo quando se faz pequenino
Para ter o nosso tamanho.
Não falemos da noite,
Que é um pouco mais que tudo isso,
- E menos do que a mãe,
De quem falemos.
Ora bem.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada na vista do conjunto
Que é o Natal,
Comparsa dos presépios que hão-de vir,
Entre arraiais e foguetes
E estrelas de papel.
Ela ali estava para ser pintada
Na fuga para o Egipto,
Ao trote gracioso do burrito,
Sem vaca, só com José e o deserto e as escrituras,
Que mandam mais que Herodes
E todos os seus bigodes.
Ela ali estava para ser pintada.
Para ser pintada - pouco e bem -
Sem o burrito, só com SantAna e S. José
No breve engano de ser só mãe
Dum filho que fosse só filho.
Ela ali estava para ser pintada
No alarme de Jesus entre os doutores.
Ela ali estava pra não ser pintada
Depois que Jesus fez trinta,
Antes dos trinta e três
(Disseram trinta doutores:
- Diga trinta e três.
Ele disse.
Ele disse e morreu
Sem sofrer dos pulmões).
Ela ali estava para ser pintada
E no zénite de Jesus ser Jesus,
Depois dos trinta,
Quando Jesus
Fez
Trinta e três,
Ela ressuscitou pintura ao pé da cruz.
Ora bem.
A cruz que Ele trazia,
Mal lhe pesava.
Ele esperava.
Ele salvava.
Ele descia
E por isso subia.
Ela era mulher, era mãe - e Sabia.
A sua cruz
Era Jesus.
O seu inferno
Era ser mãe do Eterno
Que havia de sangrar
E morrer
Pelo caminho.
Por isso é que Ela mal se vê no palheiro,
Que é como quem diz, no estábulo.
Não é a estrela que A deslustra
(O Universo e todos os seus astros
Não valem o que Ela é);
Não são os magos que A repelem
Para o canto, de não ser rainha,
Porque Ela o é dos reinos que eles buscavam;
Não é José que A excede, porque José é José,
E isso lhe basta sem ser bastante;
Não é o Filho que A tolda,
Porque Ela é a Mãe.
Ora bem.
É ser a Mãe.
É ver que o Seu menino
Não é apenas menino,
Mas a dose anunciada
De Homem e Deus;
A ponte que tem de ser pisada
Para que haja estrada
Para os céus;
É o ser-lhe filho e ser-lhe pai,
O filho que Ela estremece
Vivo e já morto,
Porque o Pai quer e Ela obedece.
Irmãos em Cristo!
Irmãos do mesmo pai,
Quem quer que seja o Cristo
Que buscais.
Esta é a Sua hora!
A Sua - e a nossa.
Ela é o Natal.
Ave-Maria.
Ora bem.
2 289
Reinaldo Ferreira
Bispo de Pádua
Seria frade, é certo.
Mas que doce e estável céu aberto
Então, o meu destino !
Seguiria, talvez, Tomás dAquino
E outros claros sóis
Da teologia.
E por fecundo amor à luz do dia,
Feroz, destroçaria
O pérfido Averrois
Recalcitrante,
Com trinta silogismos de lógica esmagante,
Excedendo, porventura, o próprio Frade Angélico
No meu santo furor aristotélico !
E na maturidade,
Atingida aquela obesidade
Que deve ter um frade,
Dotaria as conclusões a minha inteligência
Sobre Potência
e Acto
Ao mundo estupefacto
De tal clarividência.
Após, o irmão copista,
Um precioso artista,
Paciente por excelência,
Copiaria o muito que eu pensava
No bárbaro latim da decadência,
Iluminando as frases ressequidas
Com galantes maiúsculas refloridas.
Em Pádua, subiria a ser reitor,
Por virtude e fulgor
Da minha erudição;
E, firme desde início,
Recusaria o sólio pontifício
No transe aflitivo de Avinhão.
Já então,
Por antecipação,
Nas forjas legendárias
Onde o bisonho Vulcano temperou
As cóleras incendiárias
Do Júpiter Tonante,
Um bando rutilante,
Ingénuo e palrador,
De serafins, cantando,
Estaria burilando,
Com gemas siderais
E trémulos orvalhos matinais,
O fulvo resplendor
Da minha santidade.
Entre santos e santas veneráveis,
Nos paços inefáveis
Da bem-aventurança,
Como um rio que transborda o leito,
A nova correria, sem tardança,
De haver um novo eleito;
E a excelsa e moderada academia
Entre si disputaria
A rara regalia
Da minha vizinhança.
Teimoso e resistente como um cedro,
Que fortes argumentos não teria
O indomável Pedro ?
E Paulo, o das epístolas ardentes ?
E a trigueira Maria de Magdala,
De que os olhos, carvões incandescentes,
São, mais que a muda boca, eloquentes ?
Mas um Santo que fora em vida grego,
E, dizem, muito lido em história antiga,
Prudente, acalmaria os imprudentes,
Lembrando que fora por intrigas,
Por miseráveis brigas,
Que outrora tivera o seu ocaso
A glória dos Deuses no Parnaso.
.......................
Paris,
Burgo cinzento,
Da cor do pensamento,
Vestiria de luto
Um hermético céu de nuvens negras,
Sombrio e triunfal,
Por esse velho astuto,
Malabarista arguto
Das mil e uma regras
Da lógica formal.
E esse velho,
Por quem chorava o meigo céu da França,
De olhar agudo, como o dum judeu,
Cortante, como o ferro duma lança,
Esse velho, esse velho era eu.
.......................
Da Gália
- A Doutora,
A muito sabedora -
Partiria, entretanto,
Um certo santo
Esfomeado de azul,
De rumo para a Itália.
.......................
Combatera uma bula,
Fora reitor em Pádua,
Prelado de Mogúncia
(E Papa não fora
Por um triz...)
E saía de Paris
Em lazarenta mula,
Viúvo de ambições
E noivo da renúncia.
.......................
O céu dessa manhã gloriosa
Dir-se-ia, de ambarino e pouco azul,
Cavado numa pétala de rosa...
Já então o degelo abraçava
No seu harém de cristal
O corpo nu das montanhas
- Hirtas, distantes,
Impossuíveis e místicas amantes
Raptadas a um convento das Espanhas.
E ao longo das cogulas concubinas,
Violadas, sem esperanças,
A água deslisava como um choro,
Tombava, toda a desfazer-se em tranças...
Pensativas,
Em voos circulares de procissão
Dum estranho ritual,
As nuvens punham, nos cumes das cativas,
Grinaldas de Irreal.
.......................
Ora o céu não é um pálio
Para a passagem de quem
Vai para o trono da morte
Desde as entranhas da mãe,
Nem o mundo coroação,
Nem as vidas que pisamos
Poeira erguida, ao de leve,
Pelo manto que envergamos,
Nem Deus o erro prudente,
Degrau de altura do trono,
Osso de esprança atirado
À boca dos cães sem dono.
Nós somos mais, porque vamos
Lutando contra o capricho
Que fez de nós uma estrela
Num firmamento de lixo.
.......................
Sobre um declive juncado
De podres pássaros mortos,
Desço os atalhos que, tortos,
Sobem a Deus.
E cego aos voos parados
Que o mesmo frémito impele
E um só cansaço frustrou,
Lúcido e louco, prossigo
Pra exaltação e castigo
De quem não sou.
.......................
E um terror satânico e antigo,
O que nasceu comigo
À hora em que acordei
Para a miséria da minha condição,
Ergue-se todo,
Num garrote de lodo
E solidão...
.......................
No horto das consciências desfolharam-se os deuses.
Vastos devastadores
- A Paixão e a Dúvida -
Disputaram às raízes
Os pedúnculos airosos,
E um longo estio de indiferença
Evaporou nas seivas
As ilusões piedosas.
Já a morte não abre
Para encruzilhada
Dos dois caminhos eternos.
.......................
Mais do que mitos infernais ou laços
Dum sobre-humano engenho aterrador,
Proíbem-me os umbrais, cujo transpor
É todo o fim dos meus perdidos passos.
.......................
Porquê ? Porque hei-de ver apenas isto ?
Eu que sou autêntico, que existo
Sem símbolos, real, naturalmente ?
.......................
Deuses, inferno e céu, foi tudo em vão;
Mito após mito, ergueu-se o ígneo horror
Do Eterno sem Deus, e com ele o esplendor...
Ao cabo, os homens são o que homens são.
Mas que doce e estável céu aberto
Então, o meu destino !
Seguiria, talvez, Tomás dAquino
E outros claros sóis
Da teologia.
E por fecundo amor à luz do dia,
Feroz, destroçaria
O pérfido Averrois
Recalcitrante,
Com trinta silogismos de lógica esmagante,
Excedendo, porventura, o próprio Frade Angélico
No meu santo furor aristotélico !
E na maturidade,
Atingida aquela obesidade
Que deve ter um frade,
Dotaria as conclusões a minha inteligência
Sobre Potência
e Acto
Ao mundo estupefacto
De tal clarividência.
Após, o irmão copista,
Um precioso artista,
Paciente por excelência,
Copiaria o muito que eu pensava
No bárbaro latim da decadência,
Iluminando as frases ressequidas
Com galantes maiúsculas refloridas.
Em Pádua, subiria a ser reitor,
Por virtude e fulgor
Da minha erudição;
E, firme desde início,
Recusaria o sólio pontifício
No transe aflitivo de Avinhão.
Já então,
Por antecipação,
Nas forjas legendárias
Onde o bisonho Vulcano temperou
As cóleras incendiárias
Do Júpiter Tonante,
Um bando rutilante,
Ingénuo e palrador,
De serafins, cantando,
Estaria burilando,
Com gemas siderais
E trémulos orvalhos matinais,
O fulvo resplendor
Da minha santidade.
Entre santos e santas veneráveis,
Nos paços inefáveis
Da bem-aventurança,
Como um rio que transborda o leito,
A nova correria, sem tardança,
De haver um novo eleito;
E a excelsa e moderada academia
Entre si disputaria
A rara regalia
Da minha vizinhança.
Teimoso e resistente como um cedro,
Que fortes argumentos não teria
O indomável Pedro ?
E Paulo, o das epístolas ardentes ?
E a trigueira Maria de Magdala,
De que os olhos, carvões incandescentes,
São, mais que a muda boca, eloquentes ?
Mas um Santo que fora em vida grego,
E, dizem, muito lido em história antiga,
Prudente, acalmaria os imprudentes,
Lembrando que fora por intrigas,
Por miseráveis brigas,
Que outrora tivera o seu ocaso
A glória dos Deuses no Parnaso.
.......................
Paris,
Burgo cinzento,
Da cor do pensamento,
Vestiria de luto
Um hermético céu de nuvens negras,
Sombrio e triunfal,
Por esse velho astuto,
Malabarista arguto
Das mil e uma regras
Da lógica formal.
E esse velho,
Por quem chorava o meigo céu da França,
De olhar agudo, como o dum judeu,
Cortante, como o ferro duma lança,
Esse velho, esse velho era eu.
.......................
Da Gália
- A Doutora,
A muito sabedora -
Partiria, entretanto,
Um certo santo
Esfomeado de azul,
De rumo para a Itália.
.......................
Combatera uma bula,
Fora reitor em Pádua,
Prelado de Mogúncia
(E Papa não fora
Por um triz...)
E saía de Paris
Em lazarenta mula,
Viúvo de ambições
E noivo da renúncia.
.......................
O céu dessa manhã gloriosa
Dir-se-ia, de ambarino e pouco azul,
Cavado numa pétala de rosa...
Já então o degelo abraçava
No seu harém de cristal
O corpo nu das montanhas
- Hirtas, distantes,
Impossuíveis e místicas amantes
Raptadas a um convento das Espanhas.
E ao longo das cogulas concubinas,
Violadas, sem esperanças,
A água deslisava como um choro,
Tombava, toda a desfazer-se em tranças...
Pensativas,
Em voos circulares de procissão
Dum estranho ritual,
As nuvens punham, nos cumes das cativas,
Grinaldas de Irreal.
.......................
Ora o céu não é um pálio
Para a passagem de quem
Vai para o trono da morte
Desde as entranhas da mãe,
Nem o mundo coroação,
Nem as vidas que pisamos
Poeira erguida, ao de leve,
Pelo manto que envergamos,
Nem Deus o erro prudente,
Degrau de altura do trono,
Osso de esprança atirado
À boca dos cães sem dono.
Nós somos mais, porque vamos
Lutando contra o capricho
Que fez de nós uma estrela
Num firmamento de lixo.
.......................
Sobre um declive juncado
De podres pássaros mortos,
Desço os atalhos que, tortos,
Sobem a Deus.
E cego aos voos parados
Que o mesmo frémito impele
E um só cansaço frustrou,
Lúcido e louco, prossigo
Pra exaltação e castigo
De quem não sou.
.......................
E um terror satânico e antigo,
O que nasceu comigo
À hora em que acordei
Para a miséria da minha condição,
Ergue-se todo,
Num garrote de lodo
E solidão...
.......................
No horto das consciências desfolharam-se os deuses.
Vastos devastadores
- A Paixão e a Dúvida -
Disputaram às raízes
Os pedúnculos airosos,
E um longo estio de indiferença
Evaporou nas seivas
As ilusões piedosas.
Já a morte não abre
Para encruzilhada
Dos dois caminhos eternos.
.......................
Mais do que mitos infernais ou laços
Dum sobre-humano engenho aterrador,
Proíbem-me os umbrais, cujo transpor
É todo o fim dos meus perdidos passos.
.......................
Porquê ? Porque hei-de ver apenas isto ?
Eu que sou autêntico, que existo
Sem símbolos, real, naturalmente ?
.......................
Deuses, inferno e céu, foi tudo em vão;
Mito após mito, ergueu-se o ígneo horror
Do Eterno sem Deus, e com ele o esplendor...
Ao cabo, os homens são o que homens são.
1 471
Reinaldo Ferreira
Deus que me fez e fizera
Deus que me fez e fizera
O pecado antes de mim,
Junto de Si não me espera,
Sabe o destino a que vim.
Pode tudo; e não altera
O pecador que há em mim,
Nem nunca tanto pudera:
Pecarei até ao fim.
Pois que tudo em mim venera
O pecador que há em mim.
Deus já não pode nem espera:
Fez o destino a que vim.
O pecado antes de mim,
Junto de Si não me espera,
Sabe o destino a que vim.
Pode tudo; e não altera
O pecador que há em mim,
Nem nunca tanto pudera:
Pecarei até ao fim.
Pois que tudo em mim venera
O pecador que há em mim.
Deus já não pode nem espera:
Fez o destino a que vim.
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