Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Gilka Machado
Odor dos manacás
De onde vem esta voz, este fundo lamento
com vagas vibrações de violino em surdina?
De onde vem esta voz que, nas asas, o vento
me traz, na hora violácea em que o dia declina?
Esta voz vegetal, que o meu olfato atento
ouve, certo é a expansão de uma mágoa ferina,
é o odor que os manacás soltam, num desalento,
sempre que a brisa os plange e as frondes lhes inclina.
Creio, aspirando-o, ouvir, numa metempsicose,
a alma errante e infeliz de uma extinta criatura
chamar ansiosamente outra alma que a despose...
Uma alma que viveu sozinha e incompreendida,
mas que, mesmo gozando uma vida mais pura,
inda chora a ilusão frustada noutra vida.
com vagas vibrações de violino em surdina?
De onde vem esta voz que, nas asas, o vento
me traz, na hora violácea em que o dia declina?
Esta voz vegetal, que o meu olfato atento
ouve, certo é a expansão de uma mágoa ferina,
é o odor que os manacás soltam, num desalento,
sempre que a brisa os plange e as frondes lhes inclina.
Creio, aspirando-o, ouvir, numa metempsicose,
a alma errante e infeliz de uma extinta criatura
chamar ansiosamente outra alma que a despose...
Uma alma que viveu sozinha e incompreendida,
mas que, mesmo gozando uma vida mais pura,
inda chora a ilusão frustada noutra vida.
1 638
Rita Barém de Melo
Vem!
Vem! Que t importa que maldiga o mundo
O amor profundo que nos liga? vem;
Vem, que nos vales de cheirosas flores,
Nossos amores viçarão também.
Vem! de joelhos nos tapiz de nardo
Há de te o brado suspirar idílios,
Cantar-te a face rosejada em pranto,
O orvalho santo do frouxel dos cílios.
Pensa na sombra da floresta virgem...
Nesta vertigem ... nestamor ali!...
Aves felizes no sendal dos ramos
Seremos: vamos, que o serei por ti!
Vamos unidos como a luz ao astro
O amor da Castro na soidão lembrá-lo,
Nas longas plumas que a palmeira agita
A alma palpita de Virgínia e Paulo.
Que mais tu queres, anjo e flor? Escuta:
Quem ama luta? Não lutemos, vem!
Vamos aos vales de cheirosas flores,
Que é flor damores meu amor também.
Olha, de tarde quando o sol se esconde
Diz-me tu onde mais poesia viste?
Calam-se os ventos - só a brisa arrula -
O céu se azula - mas o céu é triste.
Pois bem, o bardo na soidão exprime
Na voz sublime dum arcanjo a voz:
Hei de dos seios arrancar os lírios
Dos meus delírios, pra tos dar - a sós. -
Perdidos ambos no deserto infinito
Que sonho lindo, que visões também!
E o éter puro como véu destrelas...
E a chama delas a tremer além!...
"Mas quando um dia desbotar-se o prado?
Quando o valado se cobrir de gelos?
Ai! tu só vives - beija-flor - de orvalhos
Em verdes galhos de sonhares belos!
Qu importa o prado de cheirosas flores
Se teus amores morrerão também!"
Quando morrerem, morrerão comigo
E ao céu contigo voarei - Oh! vem!
"Oh! não! Minhalma se coroa em flores;
Nos esplendores de celeste aurora;
Deus abençoa só amores santos
Cala teus cantos: morrerás agora?"
(Rio Grande, julho de 1867)
O amor profundo que nos liga? vem;
Vem, que nos vales de cheirosas flores,
Nossos amores viçarão também.
Vem! de joelhos nos tapiz de nardo
Há de te o brado suspirar idílios,
Cantar-te a face rosejada em pranto,
O orvalho santo do frouxel dos cílios.
Pensa na sombra da floresta virgem...
Nesta vertigem ... nestamor ali!...
Aves felizes no sendal dos ramos
Seremos: vamos, que o serei por ti!
Vamos unidos como a luz ao astro
O amor da Castro na soidão lembrá-lo,
Nas longas plumas que a palmeira agita
A alma palpita de Virgínia e Paulo.
Que mais tu queres, anjo e flor? Escuta:
Quem ama luta? Não lutemos, vem!
Vamos aos vales de cheirosas flores,
Que é flor damores meu amor também.
Olha, de tarde quando o sol se esconde
Diz-me tu onde mais poesia viste?
Calam-se os ventos - só a brisa arrula -
O céu se azula - mas o céu é triste.
Pois bem, o bardo na soidão exprime
Na voz sublime dum arcanjo a voz:
Hei de dos seios arrancar os lírios
Dos meus delírios, pra tos dar - a sós. -
Perdidos ambos no deserto infinito
Que sonho lindo, que visões também!
E o éter puro como véu destrelas...
E a chama delas a tremer além!...
"Mas quando um dia desbotar-se o prado?
Quando o valado se cobrir de gelos?
Ai! tu só vives - beija-flor - de orvalhos
Em verdes galhos de sonhares belos!
Qu importa o prado de cheirosas flores
Se teus amores morrerão também!"
Quando morrerem, morrerão comigo
E ao céu contigo voarei - Oh! vem!
"Oh! não! Minhalma se coroa em flores;
Nos esplendores de celeste aurora;
Deus abençoa só amores santos
Cala teus cantos: morrerás agora?"
(Rio Grande, julho de 1867)
1 286
Patrícia Clemente
Sensatez
Se eu fosse sóbria e séria, se sensata,
Do amor, tomava um trago a cada dia,
Com calma, em paz, em cálida alegria,
Se eu fosse sóbria, sim,
Isso eu faria.
Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Do cultos a verdade aceitaria,
Um bom pastor, não Deus pra ser meu guia,
Se eu fosse sábia, sim,
Eu buscaria.
Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Casada e gorda, comportada e fria.
Um mundo bom, o amor de uma família,
Se eu fosse séria, sim,
Eu já teria.
Mas a paixão não quer a sobriedade,
Nem seriedade sabe o coração,
E quem busca o calor da divindade
Não se consola com religião.
E não sou sóbria e séria e nem sensata,
Eu meço a hipocrisia dos contentes
E ao justo criador nada mais peço
Que a luz do Sol, pra me afiar os dentes
Do amor, tomava um trago a cada dia,
Com calma, em paz, em cálida alegria,
Se eu fosse sóbria, sim,
Isso eu faria.
Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Do cultos a verdade aceitaria,
Um bom pastor, não Deus pra ser meu guia,
Se eu fosse sábia, sim,
Eu buscaria.
Seu fosse sóbria e séria, se sensata,
Casada e gorda, comportada e fria.
Um mundo bom, o amor de uma família,
Se eu fosse séria, sim,
Eu já teria.
Mas a paixão não quer a sobriedade,
Nem seriedade sabe o coração,
E quem busca o calor da divindade
Não se consola com religião.
E não sou sóbria e séria e nem sensata,
Eu meço a hipocrisia dos contentes
E ao justo criador nada mais peço
Que a luz do Sol, pra me afiar os dentes
1 143
Angela Santos
Templo
Terá
que ser e acontecer
o amor que assim é
o amor que assim quer...
Terá que ser e acontecer
esse amor que do fundo vem
que nos consome e alimenta
que nos abriga, e é ninho
água de fonte que brota.
Terá que ser e acontecer
esse amor de pedras raras
de noites sem sono
enluaradas,
onde o amor que fazemos é quase oração...
E no altar o que vemos?
a alma e o corpo deitados,
unidos sem culpas, sem medos,
porque o que for amor
será sagrado!
que ser e acontecer
o amor que assim é
o amor que assim quer...
Terá que ser e acontecer
esse amor que do fundo vem
que nos consome e alimenta
que nos abriga, e é ninho
água de fonte que brota.
Terá que ser e acontecer
esse amor de pedras raras
de noites sem sono
enluaradas,
onde o amor que fazemos é quase oração...
E no altar o que vemos?
a alma e o corpo deitados,
unidos sem culpas, sem medos,
porque o que for amor
será sagrado!
1 116
Angela Santos
Pedras Raras
Se
cuidarmos desse amor
com o cuidado que colocamos
nas flores delicadas e frágeis
ele vai florir
Se cuidarmos desse amor
e nele pomos o brilho de pedras raras
ele vai devolver aos olhos e ao coração
a luz que em nós se acendeu
Se esse amor foi plantado
por mão que não conhecemos
se tem brilho de safiras, opalas e ametistas
ele vai crescer e vai brilhar,
Deus sabe
se pelo resto das nossas vidas.
cuidarmos desse amor
com o cuidado que colocamos
nas flores delicadas e frágeis
ele vai florir
Se cuidarmos desse amor
e nele pomos o brilho de pedras raras
ele vai devolver aos olhos e ao coração
a luz que em nós se acendeu
Se esse amor foi plantado
por mão que não conhecemos
se tem brilho de safiras, opalas e ametistas
ele vai crescer e vai brilhar,
Deus sabe
se pelo resto das nossas vidas.
1 064
Angela Santos
Jardim das Delícias
Convido-te
a entrar no meu jardim,
devagarinho, primeiro
como quem chega pé ante pé...
dou-te a provar, a cheirar, a tocar
os frutos, as flores
laranjas, a orquídea , perfeitos amores
Levo-te aos recantos onde serenos
correm leves fios de água
e é aí que lavamos lembranças, memórias
e até nossas mágoas.
Lavados e nus, o corpo e a alma
se entregam depois a uma dança antiga
de antes dos tempos
e antes da vida
Aqui não sentimos
o tempo da demora, o espaço, ou a distância
este é lugar onde Deus
juntou almas prometidas
e que aguardam o adiado enlace
que una e sele suas vidas
Juntas e enamoradas nesse jardim das delicias,
não falamos, não é preciso
nossos olhos em si descobrem
o fio que nos traz unidas.
a entrar no meu jardim,
devagarinho, primeiro
como quem chega pé ante pé...
dou-te a provar, a cheirar, a tocar
os frutos, as flores
laranjas, a orquídea , perfeitos amores
Levo-te aos recantos onde serenos
correm leves fios de água
e é aí que lavamos lembranças, memórias
e até nossas mágoas.
Lavados e nus, o corpo e a alma
se entregam depois a uma dança antiga
de antes dos tempos
e antes da vida
Aqui não sentimos
o tempo da demora, o espaço, ou a distância
este é lugar onde Deus
juntou almas prometidas
e que aguardam o adiado enlace
que una e sele suas vidas
Juntas e enamoradas nesse jardim das delicias,
não falamos, não é preciso
nossos olhos em si descobrem
o fio que nos traz unidas.
1 056
Angela Santos
Chão de
Mim
Há
um rito solar
pendente em minha alma
rito secular
de bacantes abraçadas em adoração
à luz diuturna ou à prenhe lua
nas noites de incêndio
que ao corpo afloram
Há nos meus sentidos
orgias de cores
o vermelho vivo, o sangue e a vida
o azul infinito
onde rasga voo este meu olhar,
o verde ondeante
onde voga a vontade de ser caravela
e em ti mulher,
meu porto de abrigo
ancorar
E há virgens descalças
de todas as cores
de todas as raças
carregando aos ombros
meninos sagrados,
almas de crianças
emergindo firmes
da luxuriante verde
exuberância…
O cheiro da terra e a singeleza
do que vejo e sinto
levam-me ao fundo
da estranha certeza
de que há um lugar
onde eu já respiro
Lá nesse lugar
onde o coração pressente a batida
e a vibração do que eu sinto ser
essa outra forma de sentir a vida,
vida inteira ter.
Há
um rito solar
pendente em minha alma
rito secular
de bacantes abraçadas em adoração
à luz diuturna ou à prenhe lua
nas noites de incêndio
que ao corpo afloram
Há nos meus sentidos
orgias de cores
o vermelho vivo, o sangue e a vida
o azul infinito
onde rasga voo este meu olhar,
o verde ondeante
onde voga a vontade de ser caravela
e em ti mulher,
meu porto de abrigo
ancorar
E há virgens descalças
de todas as cores
de todas as raças
carregando aos ombros
meninos sagrados,
almas de crianças
emergindo firmes
da luxuriante verde
exuberância…
O cheiro da terra e a singeleza
do que vejo e sinto
levam-me ao fundo
da estranha certeza
de que há um lugar
onde eu já respiro
Lá nesse lugar
onde o coração pressente a batida
e a vibração do que eu sinto ser
essa outra forma de sentir a vida,
vida inteira ter.
1 106
Angela Santos
Inesperadamente
Hoje,
talvez um anjo azul
me visite
e o leve roçar de suas asas
(quem sabe) , me sussurre
o inaudível sentido
da minha teimosia
Hoje,
Talvez uma palavra
Infinitamente repetida
Desvende no ápice
Do seu surgimento
O que na sucessão do antes
O afã de dizer , não dizia
Hoje,
Talvez que um olhar
envolto em sinais
que ler eu não soube
desvende o mistério
que vive no fogo
à flor do seu brilho
Hoje,
Talvez no turbilhão de vozes
Ou no mais fundo vazio
O imponderável
Me responda
E sobre o muro férreo dos dias
Inesperadamente, uma nesga se abra
E um pedaço de azul
Do outro lado surgindo
Me faça acreditar.
Talvez…..
talvez um anjo azul
me visite
e o leve roçar de suas asas
(quem sabe) , me sussurre
o inaudível sentido
da minha teimosia
Hoje,
Talvez uma palavra
Infinitamente repetida
Desvende no ápice
Do seu surgimento
O que na sucessão do antes
O afã de dizer , não dizia
Hoje,
Talvez que um olhar
envolto em sinais
que ler eu não soube
desvende o mistério
que vive no fogo
à flor do seu brilho
Hoje,
Talvez no turbilhão de vozes
Ou no mais fundo vazio
O imponderável
Me responda
E sobre o muro férreo dos dias
Inesperadamente, uma nesga se abra
E um pedaço de azul
Do outro lado surgindo
Me faça acreditar.
Talvez…..
635
Angela Santos
A Contas com Deus
Há dias
em que à conversa com Deus
O chamo para o ajuste de contas....
E ainda que o Verbo seja,
Deus, não me responde!
Há dias
em que quebrando os remos
contra as vagas
cansa-me remar...
E pergunto:
quando aportarei?
E o que seja o Verbo
não me responde!
Há dias
em que não suporto as horas
e pergunto....
Até quando?
E o que seja o Verbo
o insustentável silencio me devolve
Há dias
em que o silencio aceito
e não pergunto
espero só de outro modo
saber ....
Porquê
o que seja o Verbo
o mais que perfeito
amor consentiu,
sem me doar o tempo
da sua infinita forma
conjugar?
em que à conversa com Deus
O chamo para o ajuste de contas....
E ainda que o Verbo seja,
Deus, não me responde!
Há dias
em que quebrando os remos
contra as vagas
cansa-me remar...
E pergunto:
quando aportarei?
E o que seja o Verbo
não me responde!
Há dias
em que não suporto as horas
e pergunto....
Até quando?
E o que seja o Verbo
o insustentável silencio me devolve
Há dias
em que o silencio aceito
e não pergunto
espero só de outro modo
saber ....
Porquê
o que seja o Verbo
o mais que perfeito
amor consentiu,
sem me doar o tempo
da sua infinita forma
conjugar?
1 112
Angela Santos
Em parte e no
todo
Serei, a
sereia,
mulher pla metade
metade no mar
outra metade
na areia...
mas é nesta cama
despida do mito
que me deito inteira....
E no abandono,
adentrando o todo
para tudo ser...
de que serei feita?
mulher, pele, medusa, mito,
metafísica das formas
que me ditam
seios
quadris
plexus,
olhos
boca
mãos,
instinto....
E alma...
alma presa a este chão
aspirando ao infinito.
Serei, a
sereia,
mulher pla metade
metade no mar
outra metade
na areia...
mas é nesta cama
despida do mito
que me deito inteira....
E no abandono,
adentrando o todo
para tudo ser...
de que serei feita?
mulher, pele, medusa, mito,
metafísica das formas
que me ditam
seios
quadris
plexus,
olhos
boca
mãos,
instinto....
E alma...
alma presa a este chão
aspirando ao infinito.
1 066
Angela Santos
Em Nome do Pai
Todos os
nomes inominável
te colam ao rosto, como se fosses forma,
corpo mesuravel, e tornam-te espelho
de impasses e limites, os nossos,
e chamam-te a grande presença
como se pudesses, sendo-o, caber nos estreitos
domínios onde tolhidos nos movemos
e pedem-te a benção na sagração
da guerra e na miragem de vitórias que a honra
lave, ante os escombros da civilização em ruínas
às mãos da barbárie que o rosto cobre...
saiem por aí nas armaduras espelhantes
ribombando tiradas moralistas
invocando protecções, ondulando bandeiras
que são suas, exibindo os dentes lavados
depois do canibalismo
são pútridos os restos que trazem agarrados
e desfilam pela história dos mortos
que esqueceram ou apagaram como riscos de giz
e discursivos acenam máximas aos vivos
que a memória dos seus mortos são agora ...
Manchados hoje os chãos de Nova York.....
os da Palestina, Hiroshima, Auschwitz e Guernica,
o chão exangue de África, quem lembra ainda?
Marcada a ferro e brasa a terra toda,
em teu nome, inominável, quantas vezes...
a soldo de quem não estás urge que o digas,
que não o sabem os que te dão rosto
os que te armam pra que mates em seu nome
os que se benzem com a mesma mão que esgana
os que erguem obeliscos e esculpem frases póstumas
os que se prostram ante o deus das míseras vitórias.
esses que nada sabem e pouco crêem
na estultícia de razões invocam o deus da inumanidade
e num voo ágil de águias
sobrevoam o espectáculo do mundo como Neros frios
cobrindo a terra com asas de anjo negro
em nome da liberdade que é a deles,
em nome duma pátria que é deles
em nome de um deus que é o deles.
Enquanto isso, apocalípticos sinais
desnudam o ventre imundo
onde germina a besta cega e bruta
em nome do pai!
nomes inominável
te colam ao rosto, como se fosses forma,
corpo mesuravel, e tornam-te espelho
de impasses e limites, os nossos,
e chamam-te a grande presença
como se pudesses, sendo-o, caber nos estreitos
domínios onde tolhidos nos movemos
e pedem-te a benção na sagração
da guerra e na miragem de vitórias que a honra
lave, ante os escombros da civilização em ruínas
às mãos da barbárie que o rosto cobre...
saiem por aí nas armaduras espelhantes
ribombando tiradas moralistas
invocando protecções, ondulando bandeiras
que são suas, exibindo os dentes lavados
depois do canibalismo
são pútridos os restos que trazem agarrados
e desfilam pela história dos mortos
que esqueceram ou apagaram como riscos de giz
e discursivos acenam máximas aos vivos
que a memória dos seus mortos são agora ...
Manchados hoje os chãos de Nova York.....
os da Palestina, Hiroshima, Auschwitz e Guernica,
o chão exangue de África, quem lembra ainda?
Marcada a ferro e brasa a terra toda,
em teu nome, inominável, quantas vezes...
a soldo de quem não estás urge que o digas,
que não o sabem os que te dão rosto
os que te armam pra que mates em seu nome
os que se benzem com a mesma mão que esgana
os que erguem obeliscos e esculpem frases póstumas
os que se prostram ante o deus das míseras vitórias.
esses que nada sabem e pouco crêem
na estultícia de razões invocam o deus da inumanidade
e num voo ágil de águias
sobrevoam o espectáculo do mundo como Neros frios
cobrindo a terra com asas de anjo negro
em nome da liberdade que é a deles,
em nome duma pátria que é deles
em nome de um deus que é o deles.
Enquanto isso, apocalípticos sinais
desnudam o ventre imundo
onde germina a besta cega e bruta
em nome do pai!
662
Angela Santos
Nega-Entropia
O
cigarro em arabescos ascendentes
desfaz-se lentamente em anéis
e entre os meus dedos, pouco a pouco
se exaure ardendo sem parar.
Parada fico a olhar o inevitável!
Há impotências no meu gesto,
no vago do olhar que espera,
e o gosto ébrio de um Nero,
espectador que comanda e baba gozos festivos
diante dos arabescos do que arde sem remédio.
E até que nada sobre,
destinado a arder está
um cigarro entre os meus dedos
que em arabescos efémeros se esfuma e dilui no ar.
Ardem invisivelmente iguais
os ténues fios da vida,
fogo da consumação inscrito nas nossas fibras,
nas microscópicas células onde se aloja implacável
o fogo entropico de um qualquer fim.
Anéis de fumo diluindo-se no ar,
que ora vejo….ora deixo de ver,
e a consumação nos veios da vida, implícita,
não me trazem angustias
nem em líquidos amargos de inúteis existências
me deixam embebida.
Os arabescos… o fumo… o cigarro que ardeu
lembram-me a vida e seus compassos
presa entre os dedos de Deus
que dizem brincar aos dados
E nós corremos no chão onde Deus joga se quer
e decide do impulso que nos lança e suspende
entre os dois grandes instantes:
a Vida que nos é dada,
a Vida que nos mantém,
a Morte que não queremos,
e essa outra que sempre vem.
cigarro em arabescos ascendentes
desfaz-se lentamente em anéis
e entre os meus dedos, pouco a pouco
se exaure ardendo sem parar.
Parada fico a olhar o inevitável!
Há impotências no meu gesto,
no vago do olhar que espera,
e o gosto ébrio de um Nero,
espectador que comanda e baba gozos festivos
diante dos arabescos do que arde sem remédio.
E até que nada sobre,
destinado a arder está
um cigarro entre os meus dedos
que em arabescos efémeros se esfuma e dilui no ar.
Ardem invisivelmente iguais
os ténues fios da vida,
fogo da consumação inscrito nas nossas fibras,
nas microscópicas células onde se aloja implacável
o fogo entropico de um qualquer fim.
Anéis de fumo diluindo-se no ar,
que ora vejo….ora deixo de ver,
e a consumação nos veios da vida, implícita,
não me trazem angustias
nem em líquidos amargos de inúteis existências
me deixam embebida.
Os arabescos… o fumo… o cigarro que ardeu
lembram-me a vida e seus compassos
presa entre os dedos de Deus
que dizem brincar aos dados
E nós corremos no chão onde Deus joga se quer
e decide do impulso que nos lança e suspende
entre os dois grandes instantes:
a Vida que nos é dada,
a Vida que nos mantém,
a Morte que não queremos,
e essa outra que sempre vem.
1 497
Angela Santos
Ajuda
Ajuda-me
, meu guardião a ler nas linhas do meu coração, a
escutar minha voz mais profunda e a ser capaz de ir além das dúvidas
e das feridas que se abrem enquanto caminho.
Dá-me a coragem, a lucidez e a capacidade de fazer entender, aqueles que amo
que o Amor que se dá sem espera de retorno, é amor eterno.
Eu sei que em todos os lugares e em todos os momentos a tua luz sobre mim
incidirá e tua asa protectora me guiará rumo ao que for
mais certo.
, meu guardião a ler nas linhas do meu coração, a
escutar minha voz mais profunda e a ser capaz de ir além das dúvidas
e das feridas que se abrem enquanto caminho.
Dá-me a coragem, a lucidez e a capacidade de fazer entender, aqueles que amo
que o Amor que se dá sem espera de retorno, é amor eterno.
Eu sei que em todos os lugares e em todos os momentos a tua luz sobre mim
incidirá e tua asa protectora me guiará rumo ao que for
mais certo.
1 068
Angela Santos
Secreta Morada
Vem,
e assume a força de um grito amordaçado,
irrompe nas minhas veias, lateja na minha cabeça
e no meu peito é incandescência .
Vem, e assoma à boca em palavras sussurradas
ditas não a medo, mas em sons transfigurados
perceptíveis no silencio só,
inaudíveis palavras
que o ar atravessam e buscam chegar às margens
de outro ser que em mim é.
Vem, debruado com orlas de saudade
isso que em mim
tem um nome que não sei dizer
que é meu mar de calmaria
minha raiva, minha crença, meu ir além
fome e saciar do meu ser.
Veio....como haveria de vir
de manso, sem pré-aviso
como quem chega a um lugar que soube sempre foi seu
veio para me deixar assim,
para sempre acompanhada pela certeza
de que em mim ergueu
sua secreta morada
abrigo do que não tem nome
e nem precisa de ter,
feito de um sentir mais fundo
que é sentir e saber.
Veio e em mim ficou
porque tinha que ser!
e assume a força de um grito amordaçado,
irrompe nas minhas veias, lateja na minha cabeça
e no meu peito é incandescência .
Vem, e assoma à boca em palavras sussurradas
ditas não a medo, mas em sons transfigurados
perceptíveis no silencio só,
inaudíveis palavras
que o ar atravessam e buscam chegar às margens
de outro ser que em mim é.
Vem, debruado com orlas de saudade
isso que em mim
tem um nome que não sei dizer
que é meu mar de calmaria
minha raiva, minha crença, meu ir além
fome e saciar do meu ser.
Veio....como haveria de vir
de manso, sem pré-aviso
como quem chega a um lugar que soube sempre foi seu
veio para me deixar assim,
para sempre acompanhada pela certeza
de que em mim ergueu
sua secreta morada
abrigo do que não tem nome
e nem precisa de ter,
feito de um sentir mais fundo
que é sentir e saber.
Veio e em mim ficou
porque tinha que ser!
1 109
Fernando Pinto do Amaral
Escotomas
Não sei
o que é um espírito. Ninguém
conhece a fundo a luz do seu abismo
enquanto o vento, à noite, vai abrindo
as infinitas portas de uma casa
vazia. A minha voz
procura responder a outra voz,
ao choro dos espectros que celebram
a sua missa negra, o seu eterno
sobressalto. Num ermo
da cidade magoada escuto ainda
o rumor de um oráculo,
a febre de um adeus que se prolonga
no estertor dos ponteiros de um relógio,
nesse ritmo feroz, na pulsação
do meu sangue exilado que recorda
um abrigo divino. pai nosso, que estás
entre o céu e a terra, conduz-me
ao precipício onde hibernou a alma
e ensina-me a romper a madrugada
como se a minha face fosse
um estilhaço da tua
e nela derretessem, por milagre,
estas gotas de gelo ou de cristal
que não sabem ser lágrimas.
o que é um espírito. Ninguém
conhece a fundo a luz do seu abismo
enquanto o vento, à noite, vai abrindo
as infinitas portas de uma casa
vazia. A minha voz
procura responder a outra voz,
ao choro dos espectros que celebram
a sua missa negra, o seu eterno
sobressalto. Num ermo
da cidade magoada escuto ainda
o rumor de um oráculo,
a febre de um adeus que se prolonga
no estertor dos ponteiros de um relógio,
nesse ritmo feroz, na pulsação
do meu sangue exilado que recorda
um abrigo divino. pai nosso, que estás
entre o céu e a terra, conduz-me
ao precipício onde hibernou a alma
e ensina-me a romper a madrugada
como se a minha face fosse
um estilhaço da tua
e nela derretessem, por milagre,
estas gotas de gelo ou de cristal
que não sabem ser lágrimas.
1 980
Joaquim Pessoa
Ícaro
A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.
Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...
Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:
Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.
Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...
Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:
Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
1 694
Angela Santos
De Profundis
Diante
da Beleza, do Amor, de Deus
emudecemos
As palavras são excrescências
e despropositadas vêm
invadir a densa profundidade do silêncio
onde se vive a dimensão do essencial.
da Beleza, do Amor, de Deus
emudecemos
As palavras são excrescências
e despropositadas vêm
invadir a densa profundidade do silêncio
onde se vive a dimensão do essencial.
966
Fernando Fabião
Dá-me Sempre Esse Dom
Dá-me sempre
esse Dom
Obscuro e precário esse fulgor da cinza
Essa pureza na alegria da terra
Dá-me uma cisterna de luz
Um cântaro de água aprisionada
Dá-me a tua aurora e o teu presságio
Para eu dançar no centro da noite
E na orla do coração
Escutar os pássaros.
esse Dom
Obscuro e precário esse fulgor da cinza
Essa pureza na alegria da terra
Dá-me uma cisterna de luz
Um cântaro de água aprisionada
Dá-me a tua aurora e o teu presságio
Para eu dançar no centro da noite
E na orla do coração
Escutar os pássaros.
766
Angela Santos
Cristais do Tempo
Agora
quero apenas ser daqui...
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso
sinto e fruo por inteiro
A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol
Aqui e agora
Ser
chão rude e àspero
anjo sem asas
brisa que passa
poeira de estrelas....
e até lodo ser
se a beleza de um Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pantano
teimosamente se erguer.
quero apenas ser daqui...
sem ânsia de outro mundo
ou beleza que se eleve
à que rente ao chão que piso
sinto e fruo por inteiro
A fealdade não é
senão um olhar ao invés
e aqui
neste chão que sou
até do lodo se elevam
prodígios da natureza
em busca da luz do sol
Aqui e agora
Ser
chão rude e àspero
anjo sem asas
brisa que passa
poeira de estrelas....
e até lodo ser
se a beleza de um Lotus
abrindo-se ao sol
do fundo do pantano
teimosamente se erguer.
1 013
Angela Santos
Oikos
Oiço,
quedo-me serena
buscando decifrar as vozes
que emergem do fundo da terra
dos abismos do mar
O mistério …o obscuro
na transparência possível
vozes que emergem…
de onde?
Terra-mãe
mar, berço original
arvore sagrada verde serenidade
serena e erecta matriz do ser
na vertical.
quedo-me serena
buscando decifrar as vozes
que emergem do fundo da terra
dos abismos do mar
O mistério …o obscuro
na transparência possível
vozes que emergem…
de onde?
Terra-mãe
mar, berço original
arvore sagrada verde serenidade
serena e erecta matriz do ser
na vertical.
1 156
Angela Santos
Aparição
Se
existes em mim
e és voz que desvende
o que olhos e razão
não alcançam,
vem, despida de bruma
sem traições…
Se és caminho, quiçá o único,
no fim do qual eu possa rever
a coincidência de mim
no ser,
porque não vens mais vezes,
ainda que em esparsos signos,
iluminar o sentido?
existes em mim
e és voz que desvende
o que olhos e razão
não alcançam,
vem, despida de bruma
sem traições…
Se és caminho, quiçá o único,
no fim do qual eu possa rever
a coincidência de mim
no ser,
porque não vens mais vezes,
ainda que em esparsos signos,
iluminar o sentido?
1 061
Hilda Hilst
X
Como se
fosse verdade encantações, poemas
Como se Aquele ouvisse arrebatado
Teus cantares de louca, as cantigas da pena.
Como se a cada noite de ti se despedisse
Com colibris na boca.
E candeias e frutos, como se fosses amante
E estivesses de luto, e Ele, o Pai
Te fizesse porisso adormecer...
(Como se se apiedasse porque humana
És apenas poeira,
E Ele o grande Tecelão da tua morte: a teia).
Como se
fosse vão te amar e por isso perfeito.
Amar o perecível, o nada, o pó, é sempre despedir-se.
E não é Ele, o Fazedor, o Artífice, o Cego
O Seguidor disso sem nome? ISSO...
O amor
e sua fome.
fosse verdade encantações, poemas
Como se Aquele ouvisse arrebatado
Teus cantares de louca, as cantigas da pena.
Como se a cada noite de ti se despedisse
Com colibris na boca.
E candeias e frutos, como se fosses amante
E estivesses de luto, e Ele, o Pai
Te fizesse porisso adormecer...
(Como se se apiedasse porque humana
És apenas poeira,
E Ele o grande Tecelão da tua morte: a teia).
Como se
fosse vão te amar e por isso perfeito.
Amar o perecível, o nada, o pó, é sempre despedir-se.
E não é Ele, o Fazedor, o Artífice, o Cego
O Seguidor disso sem nome? ISSO...
O amor
e sua fome.
1 634
Nauro Machado
IF
Há um se
na vida de cada um,
Um se de depois do fóceps
(no tempo em que a dor cumpria a Bíblia)
e um se de depois da cesariana
(no tempo em que apodrece o fruto
no gozo da emurchecida árvore).
Ah! Se o se negasse o se, e tudo
Fosse um único sim, certeza
De aceitarmos o ser e o fato
E o espelho reflita a imagem caída
Das mãos de imponderável Deus.
na vida de cada um,
Um se de depois do fóceps
(no tempo em que a dor cumpria a Bíblia)
e um se de depois da cesariana
(no tempo em que apodrece o fruto
no gozo da emurchecida árvore).
Ah! Se o se negasse o se, e tudo
Fosse um único sim, certeza
De aceitarmos o ser e o fato
E o espelho reflita a imagem caída
Das mãos de imponderável Deus.
1 199
Carlos Nejar
Os Meus Sentidos
Um dia
vi Deus numa palavra
e luminosa despontava, argila.
E Deus vagueava tudo, aquietava
as numinosas letras, quase em fila.
E depois se banhava nesta ilha
de bosques e bilênios. Clareava
as formigas noctâmbulas da fala.
E nele os meus sentidos se nutriam.
Os meus sentidos eram coelhos ébrios
na verdura de Deus entretecidos.
A palavra empurrava o que era cego,
a palavra luzia nos sentidos.
E Deus nas vistas do menino, roda
e roda nos olhos da palavra.
vi Deus numa palavra
e luminosa despontava, argila.
E Deus vagueava tudo, aquietava
as numinosas letras, quase em fila.
E depois se banhava nesta ilha
de bosques e bilênios. Clareava
as formigas noctâmbulas da fala.
E nele os meus sentidos se nutriam.
Os meus sentidos eram coelhos ébrios
na verdura de Deus entretecidos.
A palavra empurrava o que era cego,
a palavra luzia nos sentidos.
E Deus nas vistas do menino, roda
e roda nos olhos da palavra.
1 508