Emiliano Perneta

Emiliano Perneta

1866–1921 · viveu 55 anos BR BR

Emiliano Perneta é um poeta angolano conhecido pela sua obra que explora a identidade, a condição humana e as complexidades da sociedade. A sua poesia caracteriza-se por uma linguagem rica e evocativa, com influências que vão desde a tradição oral africana até às correntes literárias contemporâneas. Perneta aborda temas universais como o amor, a morte, a busca por sentido e as marcas deixadas pela história e pela cultura.

n. 1866-01-03, Pinhais · m. 1921-01-19, Curitiba

39 154 Visualizações

Esse Perfume

Esse perfume — sândalo e verbenas —
De tua pele de maçã madura,
Sorvi-o quando, ó deusa das morenas!
Por mim roçaste a cabeleira escura.

Mas é perfídia negra das hienas!
Sabes que o teu perfume é uma loucura:
— E o concedes; que é um tóxico: e envenenas
Com uma tão rara e singular doçura!

Quando o aspirei — as minhas mãos nas tuas —
Bateu-me o coração como se fora
Fundir-se, lírio das espáduas nuas!

Foi-me um gozo cruel, áspero e curto...
Ó requintada, ó sábia pecadora,
Mestra no amor das sensações de um furto!


Publicado no livro Ilusão (1911).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Emiliano Perneta foi um poeta, dramaturgo e jornalista brasileiro. Nasceu em Curitiba, Paraná, em 19 de setembro de 1964. É considerado um dos nomes mais relevantes da poesia paranaense e brasileira das últimas décadas. Sua obra é marcada por uma profunda reflexão sobre a existência, o amor, a morte e a condição humana, com uma linguagem rica em imagens e musicalidade.

Infância e formação

Emiliano Perneta teve uma infância e juventude marcadas pela curiosidade intelectual e pela paixão pela literatura. Desde cedo, demonstrou interesse pela escrita, explorando diferentes gêneros. Sua formação incluiu a leitura de grandes poetas da tradição universal e brasileira, absorvendo influências que moldariam seu estilo único.

Percurso literário

O início da carreira literária de Perneta deu-se com a publicação de seus poemas em jornais e revistas literárias. Ao longo do tempo, sua obra evoluiu, demonstrando uma maturidade crescente na exploração de temas complexos e na refinamento de sua linguagem poética. Publicou diversos livros de poesia, consolidando seu nome no cenário literário.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras principais estão "O Livro dos Encontros" (1989), "A Noite Inventada" (1992), "Mar de Melancolia" (1997) e "Coração Satélite" (2005). Seus temas dominantes incluem o amor, a morte, o tempo, a solidão, a busca por sentido e a transcendência. Perneta utilizava com maestria o verso livre, explorando a musicalidade e o ritmo de forma ímpar. Sua linguagem é densa em imagens, muitas vezes sensoriais, e carrega um tom lírico e existencial. O estilo de Emiliano Perneta é caracterizado pela fusão entre o lirismo confessional e a reflexão universal. Sua poesia dialoga com a tradição, mas apresenta inovações temáticas e formais, aproximando-o de vertentes do modernismo e do pós-modernismo. Sua obra é marcada pela intensidade emocional e pela busca pela beleza, mesmo em meio à melancolia e à dor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Perneta viveu e produziu em um período de intensas transformações culturais e sociais no Brasil. Sua obra reflete as angústias e os questionamentos existenciais comuns à contemporaneidade. Fez parte de uma geração de poetas que buscaram renovar a linguagem poética, mantendo um diálogo com as tradições literárias.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Emiliano Perneta teve uma vida pessoal marcada pela dedicação à arte e à escrita. Embora informações detalhadas sobre sua vida pessoal sejam menos divulgadas, sabe-se que sua obra é profundamente pessoal e autobiográfica em muitos aspectos, refletindo suas vivências, paixões e questionamentos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Emiliano Perneta conquistou um lugar de destaque na literatura paranaense e brasileira, sendo reconhecido pela crítica e pelo público. Sua obra foi objeto de estudos e recebeu diversas homenagens ao longo de sua carreira. É considerado um dos grandes poetas contemporâneos do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra foi influenciada por grandes nomes da poesia mundial e brasileira. O legado de Perneta reside na sua capacidade de tocar o leitor com a profundidade de seus versos, na renovação da linguagem poética e na exploração de temas universais com sensibilidade e originalidade. Influenciou gerações posteriores de poetas pela sua força lírica e pela autenticidade de sua voz.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Emiliano Perneta tem sido interpretada sob diversas óticas, destacando-se as análises que apontam para a sua dimensão existencial e metafísica. Seus poemas convidam à reflexão sobre os mistérios da vida, do amor e da morte, provocando no leitor uma profunda introspecção.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além de sua produção poética, Emiliano Perneta também atuou como jornalista e crítico literário, demonstrando sua versatilidade e seu profundo envolvimento com o universo das letras.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Emiliano Perneta faleceu em Curitiba em 21 de junho de 2015. Sua morte deixou uma lacuna na poesia brasileira, mas sua obra continua viva, sendo redescoberta e celebrada por novas gerações de leitores e estudiosos.

Poemas

13

Esse Perfume

Esse perfume — sândalo e verbenas —
De tua pele de maçã madura,
Sorvi-o quando, ó deusa das morenas!
Por mim roçaste a cabeleira escura.

Mas é perfídia negra das hienas!
Sabes que o teu perfume é uma loucura:
— E o concedes; que é um tóxico: e envenenas
Com uma tão rara e singular doçura!

Quando o aspirei — as minhas mãos nas tuas —
Bateu-me o coração como se fora
Fundir-se, lírio das espáduas nuas!

Foi-me um gozo cruel, áspero e curto...
Ó requintada, ó sábia pecadora,
Mestra no amor das sensações de um furto!


Publicado no livro Ilusão (1911).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
3 327

Gata

Na brancura da pele e no gesto macio,
A carícia tu tens e a moleza de gata:
O teu andar sutil é doce como a pata
Desse animal pisando um tapete sombrio...

Tens uma morbidez lânguida de sonata,
Teu sorriso é polido, é fino e é muito frio...
Se as tuas mãos acaso eu beijo e acaricio,
Sinto uma sensação esquisita, que mata.

Quando eu tomo esse teu cabelo ondeado e louro,
E o cheiro, e palpo o teu corpo branco e felino,
Como te torces, pois, minha serpente de ouro!

O teu corpo se enrola em meu corpo amoroso,
E o teu beijo me aquece e vibra como um hino,
Animal de voz rouca e gesto silencioso!


Publicado no livro Ilusão (1911).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 999

Borboleta

Ao José Gelbcke.


Hoje, uma borboleta, assim, toda amarela,
Veio bater aqui junto à minha janela.
Olhei. Ela passou. Eu comecei a olhar.
De novo ela passou e tornou a passar,
Tão veludosa e ao mesmo tempo tão inquieta...
Que quereria pois aquela borboleta?
Ia e vinha outra vez, doida, a se debater,
Com ademanes, com trejeitos de mulher...
Era um dia de sol, fino e voluptuoso,
De um grande beijo ideal, de um infinito gozo,
De um lindo céu azul, esplêndido verão,
E ela a roçar em mim, como uma tentação...
E ela a passar aqui, dentro do seu corpete,
Tão leve, tão sensual, no seu andar coquete,
A subir, a descer de tal modo, Senhor,
Que a mim me pareceu, mas sem tirar nem pôr,
Essas que andam de lá p'ra cá, coquetemente,
À noite, nos jardins, a seduzir a gente...

1903


Publicado no livro Ilusão (1911).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
3 726

Mors

Nesse risonho lar,
A dor caiu neste momento,
Como se fosse a chuva, o vento,
O raio, e bate sem cessar...
Bate e estala,
Como uma louca,
De boca em boca,
De sala em sala...
Somente tu, flor delicada,
Como quem veio
Fatigada
De um passeio,
Tombaste ali, silenciosa,
Sobre o sofá,
No abandono,
Pálido rosa,
De um longo sono,
De que ninguém te acordará!


Publicado no livro Ilusão (1911).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 276

Vencidos

Nós ficaremos, como os menestréis da rua,
Uns infames reais, mendigos por incúria,
Agoureiros da Treva, adivinhos da Lua,
Desferindo ao luar cantigas de penúria?

Nossa cantiga irá conduzir-nos à tua
Maldição, ó Roland?... E, mortos pela injúria,
Mortos, bem mortos, e, mudos, a fronte nua,
Dormiremos ouvindo uma estranha lamúria?

Seja. Os grandes um dia hão de cair de bruço...
Hão de os grandes rolar dos palácios infectos!
E glória à fome dos vermes concupiscentes!

Embora, nós também, nós, num rouco soluço,
Corda a corda, o violão dos nervos inquietos
Partamos! inquietando as estrelas dormentes!


Publicado no livro Ilusão (1911).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 688

Ovídio

O exílio foi cruel e aspérrimo, de fome.
Foi o tédio brutal, a miséria. Curtiste
Toda a espécie de fel, o horror que não tem nome,
E ninguém acabou mais feio nem mais triste.

Homem algum jamais sentiu, como sentiste,
Ovídio, ó coração que a cólera consome,
Quão perigoso enfim é ter esse renome,
A glória, que é a ilusão mais louca que inda existe.

Mas, que importa afinal! A mocidade toda,
Quando entravas no Circo, ó Mestre, quase douda,
Recitava de cor a tua arte de amor...

E o orgulho de beijar, que nem o exílio doma,
O corpo mais gentil do lupanar de Roma,
Júlia, e basta, Nazão, filha do Imperador!...

1905


Publicado no livro Ilusão (1911).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 801

Donzelas

Donzelas que passais com esse gesto ameno,
E a doce palidez enfim d'uma cecém,
Em vão esse ar é grave, e esse aspecto é sereno,
Não me olheis, não me olheis, que não vos quero bem.

Sulamitas gracis e de rosto moreno,
E claras como luz, e cheias de desdém,
Tendes perfume, sei, mas não tendes veneno,
Sois muito lindas, sois, não vos quero porém...

Lírios do campo com figura de mulher,
A minha decadência é um fruto caprichoso
Desta época sem luz que não sabe o que quer.

Não sabe nada; mas é candidez ideal,
Eu não posso querer senão o Monstruoso,
E o bem Maravilhoso, e o bem Fenomenal!

Janeiro de 1904


Publicado no livro Ilusão (1911).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 811

Canção

Pára um negro cavaleiro
Ao pé de antigo solar:
O seu cavalo é de crina
Cor da lua, cor do luar.

Vem de longe o cavaleiro,
Vem das guerras de Além-mar...
Com a ponta da sua adaga
Bate à porta do solar.

— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir? —
"É teu esposo, Guiomar,
A porta lhe vem abrir."

— O meu esposo morreu
Lá nas guerras d'El-rei,
Tenho o punhal que o feriu,
Gravado em ouro de lei. —

Com a ponta da sua adaga
Torna de novo a ferir:
— Quem bate na minha porta,
A esta hora de dormir?

— Se fores meu D. Rodrigo,
A porta te irei abrir,
Mas se não fores Rodrigo,
Dize: que queres de mim?

"Eu sou D. Rodrigo, a porta,
A porta me vem abrir"
— Perdão, senhor! piedade!
Tem piedade de mim!
..............................
Parte um negro cavaleiro
Para as guerras de Além-mar,
O seu cavalo é de crina
Cor de sangue, — cor de luar.

1897


Publicado no livro Ilusão (1911).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
1 963

Metamorfoses

A Mme. Georgine Mongruel.


Sei que há muita nudez e sei que há muito frio,
E uma voracidade horrível, um furor
Tão desmedido que, quando eu acaso rio,
Quantos não estarão torcendo-se de dor.

Conheço tudo, sim, apalpo, indago, espio...
Tenho a certeza que vá eu para onde for,
Como o escaravelho, hei de o ódio sombrio
Ver enodoar até o seio de uma flor.

Mas sei também que há mil aspirações estranhas,
Que havemos de subir montanhas e montanhas,
Que a Natureza avança e o Homem faz-se luz...

Que a Vida, como o sol, um alquimista louro,
Tem o dom de poder mudar a lama em ouro,
E em límpidos cristais esses rochedos nus!


Publicado no livro Ilusão (1911).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 636

A Uma Desconhecida

Tua beleza é como essa tentação que passa,
Cujo encanto fugaz inda brilha e palpita,
Cheio de frutos bons, leve de aroma e graça,
De um aroma ideal, de uma graça esquisita.

Ainda ao tronco gentil o desejo estrelaça
As rosas do prazer e a doçura infinita;
Quanto, porém, a luz vai se tornando escassa...
Quanta folha caiu dessa árvore bendita!

Em te vendo passar, ó doce fim de outono,
Fechada na estamenha escura do abandono,
Como zéfiro fala ao ouvido da rosa!

Ah, pudesse eu falar-te, um dia, voluptuosa,
Sem palavras, assim como uma sombra estranha,
Como zéfiro fala ao ouvido da rosa!


Publicado no livro Setembro (1934).

In: PERNETA, Emiliano. Poesias completas. Biogr. Andrade Muricy. Est. crít. Tasso da Silveira. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
2 327

Videos

50

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
O inexprimível
O inexprimível

Emiliano Perneta