Auta de Souza

Auta de Souza

1876–1901 · viveu 24 anos BR BR

Auta de Souza foi uma poeta brasileira, pioneira na literatura religiosa de expressão lírica no Brasil. Sua obra é marcada por uma profunda fé católica, expressa em poemas que celebram a divindade, a devoção e a esperança, muitas vezes com um tom de exaltação e contemplação espiritual.

n. 1876-09-12, Macaíba · m. 1901-02-07, Natal

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Fio Partido

Fugir à mágoa terrena
E ao sonho, que faz sofrer,
Deixar o mundo sem pena
Será morrer?

Fugir neste anseio infindo
À treva do anoitecer,
Buscar a aurora sorrindo
Será morrer?

E ao grito que a dor arranca
E o coração faz tremer,
Voar uma pomba branca
Será morrer?

II

Lá vai a pomba voando
Livre, através dos espaços...
Sacode as asas cantando:
"Quebrei meus laços!"

Aqui na amplidão liberta,
Quem pode deter-me os passos?
Deixei a prisão deserta,
Quebrei meus laços!

Jesus, este vôo infindo
Há de amparar-me nos braços
Enquanto eu direi sorrindo:
Quebrei meus laços!

Janeiro, 1901


In: SOUSA, Auta de. Horto. 4.ed. Natal: Fundação José Augusto, 197
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Biografia

Identificação e contexto básico

Auta de Souza, nascida Maria das Dores de Souza, foi uma escritora e poetisa brasileira, nascida em 1879. É conhecida como a "Poetisa de Jesus" e considerada uma das precursoras da literatura religiosa no Brasil, com uma obra notadamente centrada na fé católica e na devoção a Deus. Sua nacionalidade era brasileira e a língua de escrita, o português.

Infância e formação

Auta de Souza nasceu em uma família de posses em Pindamonhangaba, São Paulo. Desde cedo, demonstrou uma inclinação para a vida religiosa e espiritual, influenciada pelo ambiente familiar e pela educação religiosa de sua época. Embora sua formação formal não seja amplamente detalhada, sua obra reflete um profundo conhecimento da doutrina católica e uma forte espiritualidade.

Percurso literário

Auta de Souza começou a escrever poesia em sua juventude, dedicando-se a temas religiosos e de exaltação à fé. Sua obra ganhou notoriedade com a publicação de "Horto de Deus", em 1901, que se tornou um marco na literatura religiosa brasileira. Continuou a publicar ao longo de sua vida, consolidando sua posição como uma voz poética de profunda devoção e inspiração espiritual.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Auta de Souza é predominantemente religiosa, com foco na celebração de Deus, na Virgem Maria e nos santos. Seus poemas exploram temas como a fé, a esperança, o amor divino, a penitência e a vida eterna. O estilo é caracterizado por uma linguagem acessível, mas repleta de lirismo e devoção, com o uso de formas poéticas tradicionais, como o soneto, e um tom de exaltação e contemplação. Sua voz poética é pessoal e fervorosa, expressando uma intimidade profunda com o divino.

Contexto cultural e histórico

Auta de Souza viveu em um período de forte influência da Igreja Católica no Brasil, e sua obra reflete essa atmosfera religiosa e cultural. Ela se insere em um movimento de renovação espiritual que buscava expressar a fé de maneira mais pessoal e literária. Sua poesia, embora focada no espiritual, dialogava com os anseios de uma sociedade que encontrava na religião um pilar importante de sua identidade.

Vida pessoal

Auta de Souza foi uma mulher de profunda devoção e simplicidade. Dedicou sua vida à oração e à escrita, mantendo um estilo de vida recluso e focado em sua espiritualidade. Suas relações pessoais eram marcadas pela sua fé e pela sua dedicação à causa religiosa. Não se casou e viveu uma vida dedicada à poesia e à contemplação.

Reconhecimento e receção

Auta de Souza foi amplamente reconhecida em vida por sua obra religiosa, recebendo o título de "Poetisa de Jesus". Sua poesia tocou o coração de muitos fiéis e inspirou a devoção. Embora seu reconhecimento possa ter sido mais concentrado em círculos religiosos, sua importância como pioneira da poesia religiosa brasileira é inegável.

Influências e legado

A principal influência de Auta de Souza em sua obra foi a própria fé católica e as Sagradas Escrituras. Seu legado reside na introdução e consolidação da poesia de cunho religioso no cenário literário brasileiro, abrindo caminho para outros escritores que viriam a explorar essa temática. Sua obra continua a ser uma fonte de inspiração para leitores que buscam na poesia uma expressão da fé.

Interpretação e análise crítica

A obra de Auta de Souza tem sido interpretada como uma expressão genuína da fé e da devoção católica. As análises críticas costumam destacar a sua capacidade de traduzir sentimentos religiosos em versos tocantes e inspiradores, reforçando a ideia de que a poesia pode ser um canal para a expressão do sagrado e da transcendência.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Um aspeto curioso de sua vida é o fato de ter escolhido o pseudônimo "Auta de Souza", que se tornou seu nome literário. Sua dedicação à escrita era tamanha que ela frequentemente ditava seus poemas, pois sofria de uma enfermidade que dificultava o ato de escrever.

Morte e memória

Auta de Souza faleceu em 1911. Sua memória é preservada através de suas obras, que continuam a ser lidas e admiradas por sua profundidade espiritual e beleza poética. Publicações póstumas mantiveram sua obra viva e acessível para novas gerações.

Poemas

5

Fio Partido

Fugir à mágoa terrena
E ao sonho, que faz sofrer,
Deixar o mundo sem pena
Será morrer?

Fugir neste anseio infindo
À treva do anoitecer,
Buscar a aurora sorrindo
Será morrer?

E ao grito que a dor arranca
E o coração faz tremer,
Voar uma pomba branca
Será morrer?

II

Lá vai a pomba voando
Livre, através dos espaços...
Sacode as asas cantando:
"Quebrei meus laços!"

Aqui na amplidão liberta,
Quem pode deter-me os passos?
Deixei a prisão deserta,
Quebrei meus laços!

Jesus, este vôo infindo
Há de amparar-me nos braços
Enquanto eu direi sorrindo:
Quebrei meus laços!

Janeiro, 1901


In: SOUSA, Auta de. Horto. 4.ed. Natal: Fundação José Augusto, 197
8 448

Boêmias

A Rosa Monteiro


Quando me vires chorar,
Que sou infeliz não creias;
Eu choro porque no Mar
Nem sempre cantam sereias.

Choro porque, no Infinito,
As estrelas luminosas
Choram o orvalho bendito,
Que faz desabrochar as rosas.

Do lábio o consolo santo
É o riso que vem cantando...
O riso do olhar é o pranto:
Meus olhos riem chorando.

O seio branco da aurora
Derrama orvalhos a flux...
O círio que brilha chora:
A dor também fere a luz?

Teus olhos cheios de ardores
Aninham rosas nas faces...
Que seria dessas flores,
Responde, se não chorasse?


In: SOUSA, Auta de. Horto. 4.ed. Natal: Fundação José Augusto, 197
2 938

Súplica

Se tudo foge e tudo desaparece,
Se tudo cai ao vento da Desgraça,
Se a vida é o sopro que nos lábios passa
Gelando o ardor da derradeira prece;

Se o sonho chora e geme e desfalece
Dentro do coração que o amor enlaça,
Se a rosa murcha inda em botão, e a graça
Da moça foge quando a idade cresce;

Se Deus transforma em sua lei tão pura
A dor das almas que o Ideal tortura
Na demência feliz de pobres loucos...

Se a água do rio para o oceano corre,
Se tudo cai, Senhor! por que não morre
A dor sem fim que me devora aos poucos?


In: SOUSA, Auta de. Horto. 4.ed. Natal: Fundação José Augusto, 197
3 450

Nunca Mais

...Il n'est plus dans mon coeur
Une fibre que n'ait résonné sa Douleur.
LAMARTINE - Harmonies

Que é feito de meu sonho, um sonho puro
Feito de rosa e feito de alabastro,
Quimera que brilhava, como um astro,
Pela noite sem fim do meu futuro?

Que é feito deste sonho, o cofre aberto
Que recebia as gotas de meu pranto,
Bagas de orvalho, folhas de amaranto,
Perdidas na solidão de meu deserto?

Ele passou como uma nuvem passa,
Roçando o azul em flor do firmamento...
Ele partiu, e apenas o tormento,
Sobre minh'alma triste, inda esvoaça.

Meu casto sonho! Lá se foi cantando,
Talvez em busca de uma pátria nova.
Deixou-me o coração como uma cova,
E, dentro dele, o meu amor chorando.

Nunca mais voltará... Pois, que lhe importa
Esta morada lúgubre e sombria?
Não pode agasalhar uma alegria
Minh'alma, pobre morta!


In: SOUSA, Auta de. Horto. 4.ed. Natal: Fundação José Augusto, 197
1 766

Num Leque

Na gaze loura deste leque adeja
Não sei que amora místico e encantado...
Doce morena! Abençoado seja
O doce aroma de teu leque amado

Quando o entreabres, a sorrir, na Igreja,
O templo inteiro fica embalsamado...
Até minh'alma carinhosa o beija,
Como a toalha de um altar sagrado.

E enquanto o aroma inebriante voa,
Unido aos hinos que, no coro, entoa
A voz de um órgão soluçando dores,

Só me parece que o choroso canto
Sobe da gaze de teu leque santo,
Cheio de luz e de perfume e flores!


In: SOUSA, Auta de. Horto. 4.ed. Natal: Fundação José Augusto, 197
2 250

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