Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Valeria Braga
Maçã
Maçã
A maçã perdura o gosto ácido
nas células do corpo e na saliva.
Na cesta de frutas, a maçã sobressai
um vermelho visível e indelével à lembrança.
O gosto da maçã é perpétuo na mastigação dos anos
e na solidão de uma viagem interior.
Na mesa, a maçã cortada numa mordida inesquecível
ao tato e ao olhar - dentro de si
a semente da imortalidade.
A maçã mordida sangra a realidade
do ciclo de nutrir e nutrir-se
a cada realimentar.
O sumo e o suco da polpa,
da carne. Pele de maçã.
Carne e cerne de maçã.
O perfume da fruta impregnando
lentamente cada movimento
e cada gesto.
A maçã oferecida,
fruto de um pecado originalíssimo.
Criatividade cria atividades.
Morde e alimenta
alimenta e morde
até sangrar e frutificar.
Até multiplicar.
A maçã perdura o gosto ácido
nas células do corpo e na saliva.
Na cesta de frutas, a maçã sobressai
um vermelho visível e indelével à lembrança.
O gosto da maçã é perpétuo na mastigação dos anos
e na solidão de uma viagem interior.
Na mesa, a maçã cortada numa mordida inesquecível
ao tato e ao olhar - dentro de si
a semente da imortalidade.
A maçã mordida sangra a realidade
do ciclo de nutrir e nutrir-se
a cada realimentar.
O sumo e o suco da polpa,
da carne. Pele de maçã.
Carne e cerne de maçã.
O perfume da fruta impregnando
lentamente cada movimento
e cada gesto.
A maçã oferecida,
fruto de um pecado originalíssimo.
Criatividade cria atividades.
Morde e alimenta
alimenta e morde
até sangrar e frutificar.
Até multiplicar.
1 218
Tasso da Silveira
Poema 17
Esquece o tempo. O tempo não existe.
Acende a chama às límpidas lanternas.
Nossas almas, a ansiar no mundo triste,
são de uma mesma idade: são eternas.
Se no meu rosto lês mortais cansaços,
é natural.A luta foi renhida:
caminhei tantos passos, tantos passos
para que te encontrasse em minha vida...
Não medites o tempo. Se muito antes
de ti cheguei, para a áspera, inclemente
sina de navegar por este mar,
foi para que tivesse olhos orantes,
e me purificasse longamente
na infinita aflição de te esparar...
Acende a chama às límpidas lanternas.
Nossas almas, a ansiar no mundo triste,
são de uma mesma idade: são eternas.
Se no meu rosto lês mortais cansaços,
é natural.A luta foi renhida:
caminhei tantos passos, tantos passos
para que te encontrasse em minha vida...
Não medites o tempo. Se muito antes
de ti cheguei, para a áspera, inclemente
sina de navegar por este mar,
foi para que tivesse olhos orantes,
e me purificasse longamente
na infinita aflição de te esparar...
1 078
Samuel Nogueira Filho
Templo Sagrado
Quanta suntuosidade ao teto e nos altares
de uma igreja cristã, qualquer uma latina...
porque essa ostentação, se dizem ser divina
inspiração de Deus, Senhor dos Avatares...
Onde estiverem dois, em meu nome, em surdina,
Eu estarei presente, a Bíblia em seus cantares
regista. Então, porque de luxo banqueteares,
quando a simplicidade é da cristã doutrina?
O verdadeiro amor jamais é compulsório,
subterfúgio não tem, Jesus dele é notório,
na criança o destacou, nos pobres e aleijados...
O templo mais sagrado, aquele que se imola,
é nosso próprio corpo, onde a alma se acrisola,
ensinava Jesus dois mil anos passados.
de uma igreja cristã, qualquer uma latina...
porque essa ostentação, se dizem ser divina
inspiração de Deus, Senhor dos Avatares...
Onde estiverem dois, em meu nome, em surdina,
Eu estarei presente, a Bíblia em seus cantares
regista. Então, porque de luxo banqueteares,
quando a simplicidade é da cristã doutrina?
O verdadeiro amor jamais é compulsório,
subterfúgio não tem, Jesus dele é notório,
na criança o destacou, nos pobres e aleijados...
O templo mais sagrado, aquele que se imola,
é nosso próprio corpo, onde a alma se acrisola,
ensinava Jesus dois mil anos passados.
920
Sinésio Cabral
Destinos Iguais
Eu leio em teu semblante desenhada
na sua plenitude a própria vida
de quem se sente em vida desolada,
sem sol e sem calor, desiludida.
Decerto, contrafeita, amargurada,
por vezes, entre amigas, esquecida,
tu ficas em silêncio, ó bem-amada,
e eu fico a contemplar-te, assim, querida.
E Deus nos fala pela voz dos sinos.
Ao lusco-fusco, sinto em tua prece
fervor e contrição. A noite desce.
Perdidos no tumulto dos destinos
traçados para todos os mortais,
parece que nós dois somos iguais.
na sua plenitude a própria vida
de quem se sente em vida desolada,
sem sol e sem calor, desiludida.
Decerto, contrafeita, amargurada,
por vezes, entre amigas, esquecida,
tu ficas em silêncio, ó bem-amada,
e eu fico a contemplar-te, assim, querida.
E Deus nos fala pela voz dos sinos.
Ao lusco-fusco, sinto em tua prece
fervor e contrição. A noite desce.
Perdidos no tumulto dos destinos
traçados para todos os mortais,
parece que nós dois somos iguais.
864
Sinésio Cabral
Introspecção II
A vida, neste mundo, é mesmo passageira.
Certeza ninguém tem de estar vivo, amanhã.
O ímpio endeusa a matéria, ao encher a algibeira.
Longe o Povo de Deus de qualquer coisa vã.
A alma — sopro divino. O corpo, esfeito em poeira,
sob outra forma, um dia... A doutrina cristã,
dentro da BOA NOVA — a fonte verdadeira —
diz sobre o Bem e o Mal — no maior talismã.
Nesta minha rotina, há pesados encargos.
E, se não fosse Deus, como suportaria
ver-te a sofrer, também, momentos tão amargos!
Mas me ajudas, meu bem, na luta, noite e dia,
a carregar a cruz, em gestos sempre largos
e a trazer nosso lar em constante harmonia.
Certeza ninguém tem de estar vivo, amanhã.
O ímpio endeusa a matéria, ao encher a algibeira.
Longe o Povo de Deus de qualquer coisa vã.
A alma — sopro divino. O corpo, esfeito em poeira,
sob outra forma, um dia... A doutrina cristã,
dentro da BOA NOVA — a fonte verdadeira —
diz sobre o Bem e o Mal — no maior talismã.
Nesta minha rotina, há pesados encargos.
E, se não fosse Deus, como suportaria
ver-te a sofrer, também, momentos tão amargos!
Mas me ajudas, meu bem, na luta, noite e dia,
a carregar a cruz, em gestos sempre largos
e a trazer nosso lar em constante harmonia.
815
Severiano de Resende
Bellua
Como, neste lagoal surdo, surde elétrica e lesta
A Fera? Como, sem que o passo em relvas resvalasse,
O monstro, que a campanha e a vila infesta,
Penetra o meu castelo e vem olhar-me face a face?
(Vejo-o surgir diante de mim no espelho
ígneo e fosforescente
Todo tinto de verde e de vermelho,
E senta-se, sem que eu lhe diga que se sente.)
Mas sob o manto astral aos meus ombros esparso
A essência do meu ser recôndito eu disfarço.
Mira-me de alto a baixo e dos pés à cabeça
E da cabeça aos pés
E do meu corpo esfuracando a impermeável e espessa
Penumbra, arranca-me a alma (em vão!) e inquire-me: "Quem és?"
Como se este medonho híspido avejão de outro mundo
(E de outras eras)
Não temesse que do meu cérebro arguto e profundo
Me saísse em resposta esta outra pergunta: "Quem eras?"
Ou: "Quem foste?" porque, sem erro algum, eu bem conheço
De onde este fantasma vem.
E preciso não é remontar ao começo
Do caos primevo, que os arcanos do cosmos contém,
Para desmascará-lo e conhecê-lo bem.
MAS DENTRO EM MlM RESPLENDE A ÁRVORE DO BEM.
A Fera? Como, sem que o passo em relvas resvalasse,
O monstro, que a campanha e a vila infesta,
Penetra o meu castelo e vem olhar-me face a face?
(Vejo-o surgir diante de mim no espelho
ígneo e fosforescente
Todo tinto de verde e de vermelho,
E senta-se, sem que eu lhe diga que se sente.)
Mas sob o manto astral aos meus ombros esparso
A essência do meu ser recôndito eu disfarço.
Mira-me de alto a baixo e dos pés à cabeça
E da cabeça aos pés
E do meu corpo esfuracando a impermeável e espessa
Penumbra, arranca-me a alma (em vão!) e inquire-me: "Quem és?"
Como se este medonho híspido avejão de outro mundo
(E de outras eras)
Não temesse que do meu cérebro arguto e profundo
Me saísse em resposta esta outra pergunta: "Quem eras?"
Ou: "Quem foste?" porque, sem erro algum, eu bem conheço
De onde este fantasma vem.
E preciso não é remontar ao começo
Do caos primevo, que os arcanos do cosmos contém,
Para desmascará-lo e conhecê-lo bem.
MAS DENTRO EM MlM RESPLENDE A ÁRVORE DO BEM.
668
Saturnino de Meireles
Ser Humilde
Ser humilde e sentindo-se o primeiro,
Na penumbra ficar dessa grandeza;
Ser feliz e trazer essa tristeza
De sempre andar da vida forasteiro;
Ser humilde e viver no mundo inteiro,
Como um deus sobraçando a natureza;
Ser assim e ter máxima certeza
De ficar para sempre prisioneiro;
É ser da fé a lâmpada impoluta
Que claro marca do destino o norte
Abrindo as portas para nova luta.
É ser de Deus esse perfil sereno,
É andar na vida e já sonhar na morte,
É ser tão grande sendo tão pequeno.
Na penumbra ficar dessa grandeza;
Ser feliz e trazer essa tristeza
De sempre andar da vida forasteiro;
Ser humilde e viver no mundo inteiro,
Como um deus sobraçando a natureza;
Ser assim e ter máxima certeza
De ficar para sempre prisioneiro;
É ser da fé a lâmpada impoluta
Que claro marca do destino o norte
Abrindo as portas para nova luta.
É ser de Deus esse perfil sereno,
É andar na vida e já sonhar na morte,
É ser tão grande sendo tão pequeno.
1 007
Sílvio Péllico
O Suspiro
(Tradução de Luís Vicente Simoni)
O amor é suspiro
De uma alma gemente,
A qual só se sente
E quer compaixão.
A dor é suspiro
De uma alma oprimida
A qual acha a vida
Sem satisfação.
A esperança é suspiro
De uma alma, se aspira,
Se sonha, se ira
Risonho fuzil.
O medo é suspiro
De uma alma abatida,
Talvez por perdida
Lisonja gentil.
Dor, medo, esperança
E amor do leviano
Coração humano,
Suspiros vêm ser.
Suspiro são breve
A pena, o prazer,
São breve suspiro
A vida e o morrer.
Mas neste suspiro,
Meu Deus, breve assim,
Me deste o desejo
Que venhas a mim;
Deste-me uma luz
Que diva se sente,
Me deste uma mente
Que a ti me conduz.
O amor é suspiro
De uma alma gemente,
A qual só se sente
E quer compaixão.
A dor é suspiro
De uma alma oprimida
A qual acha a vida
Sem satisfação.
A esperança é suspiro
De uma alma, se aspira,
Se sonha, se ira
Risonho fuzil.
O medo é suspiro
De uma alma abatida,
Talvez por perdida
Lisonja gentil.
Dor, medo, esperança
E amor do leviano
Coração humano,
Suspiros vêm ser.
Suspiro são breve
A pena, o prazer,
São breve suspiro
A vida e o morrer.
Mas neste suspiro,
Meu Deus, breve assim,
Me deste o desejo
Que venhas a mim;
Deste-me uma luz
Que diva se sente,
Me deste uma mente
Que a ti me conduz.
1 407
Simão Pereira de Sá
Soneto
Do Hibla as belas flores celebradas,
neste Rio, Senhor, as transplantasses,
e quando no Carmelo as dedicastes,
respiraram fragrâncias de abrasadas:
por vossas mãos a Deus já consagradas,
no Jardim da Clausura as encerrasses,
onde o Nome de Herói perpetuasses,
dando flores ao Céu iluminadas.
Já que o Astro brilhante, influxo ardente,
foi origem de ações tão peregrinas,
as mesmas flores orne a Augusta frente,
porque, mais que as de Ariadna, serão dignas
de frente, que merece justamente
de Ouro palmas, coroas Diamantinas.
neste Rio, Senhor, as transplantasses,
e quando no Carmelo as dedicastes,
respiraram fragrâncias de abrasadas:
por vossas mãos a Deus já consagradas,
no Jardim da Clausura as encerrasses,
onde o Nome de Herói perpetuasses,
dando flores ao Céu iluminadas.
Já que o Astro brilhante, influxo ardente,
foi origem de ações tão peregrinas,
as mesmas flores orne a Augusta frente,
porque, mais que as de Ariadna, serão dignas
de frente, que merece justamente
de Ouro palmas, coroas Diamantinas.
387
Sinésio Cabral
Outono
Quando a velhice chega, a vida perde a graça.
Vêm o tédio, o silêncio, o queixume, o abandono.
Sempre há de ser assim. Pelo tempo o homem passa,
na luta pela vida, a mergulhar no outono.
E (se não fosse Deus!) que dizer da carcaça
(sem alma) dos mortais, possíveis cães sem dono?
Materialista e ateu, o ancião se desengraça
de todos e de tudo, e, inda mais, perde o sono.
Como é bom ser cristão! A gente continua
a viver sempre bem, otimista, feliz,
sem queixumes, ao sol, sem pedradas na lua.
Sem Eva para Adão, que seria do mundo?
Da argila para a vida (a História no-lo diz),
houve o sopro divino, infinito, fecundo.
Vêm o tédio, o silêncio, o queixume, o abandono.
Sempre há de ser assim. Pelo tempo o homem passa,
na luta pela vida, a mergulhar no outono.
E (se não fosse Deus!) que dizer da carcaça
(sem alma) dos mortais, possíveis cães sem dono?
Materialista e ateu, o ancião se desengraça
de todos e de tudo, e, inda mais, perde o sono.
Como é bom ser cristão! A gente continua
a viver sempre bem, otimista, feliz,
sem queixumes, ao sol, sem pedradas na lua.
Sem Eva para Adão, que seria do mundo?
Da argila para a vida (a História no-lo diz),
houve o sopro divino, infinito, fecundo.
848
Sousa Caldas
Salmo I, de Davi
Feliz aquele que os ouvidos cerra
A malvados conselhos,
E não caminha pela estrada iníqua
Do pecador infame,
Nem se encosta orgulhoso na cadeira
Pelo vício empestada;
Mas na lei do Senhor fitando os olhos,
A revolve e medita,
Na tenebrosa noite e claro dia.
A fortuna e a desgraça,
Tudo parece a seu sabor moldar-se:
Ele é, qual tenro arbusto,
Plantado à margem de um ribeiro ameno,
Que de virentes folhas
A erguida frente bem depressa ornando,
Na sazão oportuna,
De frutos curva os suculentos ramos.
Não sois assim. ó ímpios;
Mas qual o leve pó que o vento assopra,
Aos ares alevanta,
E abate, e espalha, e com furor dissipa.
Por isso, vos espera
O dia da vingança, e o frio sangue
Vos coalhará de susto;
Nem surgireis, de glória revestidos,
Na assembléia dos justos;
O Senhor da virtude é firme esteio,
Enquanto o ímpio corre,
De horríssonas procelas combatido,
A naufragar sem tino.
A malvados conselhos,
E não caminha pela estrada iníqua
Do pecador infame,
Nem se encosta orgulhoso na cadeira
Pelo vício empestada;
Mas na lei do Senhor fitando os olhos,
A revolve e medita,
Na tenebrosa noite e claro dia.
A fortuna e a desgraça,
Tudo parece a seu sabor moldar-se:
Ele é, qual tenro arbusto,
Plantado à margem de um ribeiro ameno,
Que de virentes folhas
A erguida frente bem depressa ornando,
Na sazão oportuna,
De frutos curva os suculentos ramos.
Não sois assim. ó ímpios;
Mas qual o leve pó que o vento assopra,
Aos ares alevanta,
E abate, e espalha, e com furor dissipa.
Por isso, vos espera
O dia da vingança, e o frio sangue
Vos coalhará de susto;
Nem surgireis, de glória revestidos,
Na assembléia dos justos;
O Senhor da virtude é firme esteio,
Enquanto o ímpio corre,
De horríssonas procelas combatido,
A naufragar sem tino.
1 170
Rodrigo Carvalho
Lamento Derradeiro
à meu Pai
Salvador. Tarde de 5 de janeiro.
Brinco, excercendo o ofício da minha infância.
Curta.
Meu pai, nessa hora, junto a mim morria. . .
sem um gemido, como que se fosse feito e prometido.
E eu nem lhe ouvi o lamento derradeiro.
Quando acordei, sonhei que ele dormia,
mas o pranto fraterno desmentia. . .
E saí para ver a Santa natureza.
Em tudo, o mesmo tom cinzento.
Capitalismo selvagem das capitais.
Era só o cinza daquela selva de pedras.
Nem uma nuvem no céu.
Branca.
Mas, pareceu-me entre as estrelas flóreas,
como ti, num carro repleto de glórias,
ver tua alma subindo aos céus.
Por ti, penar é a certeza do amor.
Por ti, suplicar aos pés do Onipotente,
em preces comoventes. . .
e depois, remir meus desejos.
Volta!
Salvador. Tarde de 5 de janeiro.
Brinco, excercendo o ofício da minha infância.
Curta.
Meu pai, nessa hora, junto a mim morria. . .
sem um gemido, como que se fosse feito e prometido.
E eu nem lhe ouvi o lamento derradeiro.
Quando acordei, sonhei que ele dormia,
mas o pranto fraterno desmentia. . .
E saí para ver a Santa natureza.
Em tudo, o mesmo tom cinzento.
Capitalismo selvagem das capitais.
Era só o cinza daquela selva de pedras.
Nem uma nuvem no céu.
Branca.
Mas, pareceu-me entre as estrelas flóreas,
como ti, num carro repleto de glórias,
ver tua alma subindo aos céus.
Por ti, penar é a certeza do amor.
Por ti, suplicar aos pés do Onipotente,
em preces comoventes. . .
e depois, remir meus desejos.
Volta!
859
Renato Russo
Índios
Quem me dera, ao menos uma vez,
Ter de volta todo o ouro que entreguei
A quem conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Explicar o que ninguém consegue entender:
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer
Quem me dera, ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês -
É só maldade então, deixar um Deus tão triste.
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do começo ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,
Não ser atacado por ser inocente.
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do começo ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
Nos deram espelhos e vimos um mundo doente -
Tentei chorar e não consegui.
Ter de volta todo o ouro que entreguei
A quem conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Explicar o que ninguém consegue entender:
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer
Quem me dera, ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais importante
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês -
É só maldade então, deixar um Deus tão triste.
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do começo ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,
Não ser atacado por ser inocente.
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta prá mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do começo ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
Nos deram espelhos e vimos um mundo doente -
Tentei chorar e não consegui.
1 708
Renato Russo
Soul Parsifal
Ninguém pode dizer o que sentir
Meu coração está disperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar
Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, e estrela a me guiar
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar
Tenho anis
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem sou
Eu tenho um segredo e uma oração
Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado
Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir
Tenhos jasmim tenho hostelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã
Ninguém vai me dizer o que sentir
E eu vou cantar uma canção pra mim
Meu coração está disperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar
Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, e estrela a me guiar
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar
Tenho anis
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem sou
Eu tenho um segredo e uma oração
Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado
Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir
Tenhos jasmim tenho hostelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã
Ninguém vai me dizer o que sentir
E eu vou cantar uma canção pra mim
1 433
Renato Russo
Lâge Dor
Aprendi a esperar mas não tenho mais certeza
Agora que estou bem, tão pouca coisa me interessa
Contra minha própria vontade sou teimoso, sincero
E insisto em ter vontade própria
Se a sorte foi um dia alheia ao meu sustento
Não houve harmonia entre ação e pensamento
Qual é o teu nome, qual é o teu signo ?
Teu corpo é gostoso, teu rosto é bonito
Qual é o teu arcano, tua pedra preciosa -
Acho tocante acreditares nisso
Já tentei muitas coisas, de heroína a Jesus
Tudo que já fiz foi por vaidade
Jesus foi traído com um beijo
Davi teve um grande amigo
E não sei mais se é só questão de sorte
Eu vi uma serpente entrando no jardim
Vai ver que é de verdade desta vez
Meu tornozelo coça, por causa de mosquito
Estou com os cabelos molhados, me sinto limpo
Não existe beleza na miséria
E não tem volta por aqui
Vamos tentar outro caminho
Estamos em perigo, só que ainda não entendo
É que tudo faz sentido
E não sei mais se é só questão de sorte
Não sei mais não sei mais não sei mais
Oh, oh
Lá vem os jovens gigantes de mármore
Trazendo anzóis na palma da mão
Não é belo todo e qualquer mistério ?
O maior segredo é não haver mistério algum
Come share my life (Instrumental)
Agora que estou bem, tão pouca coisa me interessa
Contra minha própria vontade sou teimoso, sincero
E insisto em ter vontade própria
Se a sorte foi um dia alheia ao meu sustento
Não houve harmonia entre ação e pensamento
Qual é o teu nome, qual é o teu signo ?
Teu corpo é gostoso, teu rosto é bonito
Qual é o teu arcano, tua pedra preciosa -
Acho tocante acreditares nisso
Já tentei muitas coisas, de heroína a Jesus
Tudo que já fiz foi por vaidade
Jesus foi traído com um beijo
Davi teve um grande amigo
E não sei mais se é só questão de sorte
Eu vi uma serpente entrando no jardim
Vai ver que é de verdade desta vez
Meu tornozelo coça, por causa de mosquito
Estou com os cabelos molhados, me sinto limpo
Não existe beleza na miséria
E não tem volta por aqui
Vamos tentar outro caminho
Estamos em perigo, só que ainda não entendo
É que tudo faz sentido
E não sei mais se é só questão de sorte
Não sei mais não sei mais não sei mais
Oh, oh
Lá vem os jovens gigantes de mármore
Trazendo anzóis na palma da mão
Não é belo todo e qualquer mistério ?
O maior segredo é não haver mistério algum
Come share my life (Instrumental)
1 020
Renato Russo
Se fiquei esperando meu amor passar
Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que então eu não sabia
Amar e me via perdido e vivendo em erro
Sem querer me machucar de novo
Por culpa do amor
Mas você e eu podemos namorar
E era simples: ficamos fortes
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu
Sei rimar romã com travesseiro
Quero minha nação soberana
Com espaço, nobreza e descanso
Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido
Começo a ficar livre
- Espero
Acho que sim
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu prá mim
"Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Dai-nos a paz"
Já me basta que então eu não sabia
Amar e me via perdido e vivendo em erro
Sem querer me machucar de novo
Por culpa do amor
Mas você e eu podemos namorar
E era simples: ficamos fortes
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu
Sei rimar romã com travesseiro
Quero minha nação soberana
Com espaço, nobreza e descanso
Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido
Começo a ficar livre
- Espero
Acho que sim
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu prá mim
"Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Tende piedade de nós
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo
Dai-nos a paz"
1 290
Renato Russo
Depois do começo
Vamos deixar as janelas abertas
Deixar o equilíbrio ir embora
Cair como um saxofone na calçada
Amarrar um fio de cobre no pescoço
Acender um intervalo pelo filtro
Usar um extintor como lençol
Jogar pólo-aquático na cama
Ficar deslizando pelo teto
Da nossa casa cega e medieval
Cantar canções em línguas estranhas
Retalhar as cortinas desarmadas
Com a faca surda que a fé sujou
Desarmar os brinquedos indecentes
E a indecência pura dos retratos no salão
Vamos beber livros e mastigar tapetes
Catar pontas de cigarros nas paredes
Abrir a geladeira e deixar o vento sair
Cuspir um dia qualquer no futuro
De quem já desapareceu
Deus, Deus, somos todos ateus
Vamos cortar os cabelos do príncipe
E entregá-los a um deus plebeu
E depois do começo
O que vier vai começar a ser o fim.
Deixar o equilíbrio ir embora
Cair como um saxofone na calçada
Amarrar um fio de cobre no pescoço
Acender um intervalo pelo filtro
Usar um extintor como lençol
Jogar pólo-aquático na cama
Ficar deslizando pelo teto
Da nossa casa cega e medieval
Cantar canções em línguas estranhas
Retalhar as cortinas desarmadas
Com a faca surda que a fé sujou
Desarmar os brinquedos indecentes
E a indecência pura dos retratos no salão
Vamos beber livros e mastigar tapetes
Catar pontas de cigarros nas paredes
Abrir a geladeira e deixar o vento sair
Cuspir um dia qualquer no futuro
De quem já desapareceu
Deus, Deus, somos todos ateus
Vamos cortar os cabelos do príncipe
E entregá-los a um deus plebeu
E depois do começo
O que vier vai começar a ser o fim.
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Renata Trocoli
Teu Amor
Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas m2os me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas m2os.
Teu doce beijo acaricia meus l5bios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor 0 novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraTos
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me d5 esperanTas de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presenTa.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peTo com todo coraT2o que ela me abenToe
com tua presenTa a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor t2o puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos coraTes.
Este amor vem de longe,
vem do alto e 0 benT2o dos c0us.
+ perfeito e verdadeiro,
0 sentimento que n2o se sente por qualquer um,
que n2o brinca com o coraT2o
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas m2os me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas m2os.
Teu doce beijo acaricia meus l5bios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor 0 novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraTos
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me d5 esperanTas de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presenTa.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peTo com todo coraT2o que ela me abenToe
com tua presenTa a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor t2o puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos coraTes.
Este amor vem de longe,
vem do alto e 0 benT2o dos c0us.
+ perfeito e verdadeiro,
0 sentimento que n2o se sente por qualquer um,
que n2o brinca com o coraT2o
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
994
Roberto Pontes
Soneto Para Crer
Para não morrer, vivo acordado.
São muitas as maneiras de viver.
E entre os dois extremos tenho ao lado
Aquela que não cansa de me haver.
Estamos, assim, posto na vida
Igual à flor nascida para ser,
Mas se se abre em nós chaga dorida
Melhor é esquecê-la se doer.
Onde o mistério se a vida é vida?
Por que dormir suspenso no enfado,
Se a esta tenho a vida devotado?
Lá do céu, egressos, vêm anjos
Conselhar que sejam consumidas
A um só tempo flores e feridas.
(In: Revista de Letras. Fortaleza, 15 (1/8)- jan. 1990/dez.1993)
São muitas as maneiras de viver.
E entre os dois extremos tenho ao lado
Aquela que não cansa de me haver.
Estamos, assim, posto na vida
Igual à flor nascida para ser,
Mas se se abre em nós chaga dorida
Melhor é esquecê-la se doer.
Onde o mistério se a vida é vida?
Por que dormir suspenso no enfado,
Se a esta tenho a vida devotado?
Lá do céu, egressos, vêm anjos
Conselhar que sejam consumidas
A um só tempo flores e feridas.
(In: Revista de Letras. Fortaleza, 15 (1/8)- jan. 1990/dez.1993)
953
Renata Pallottini
O Cântaro
"Então, Jacó beijou Raquel e,
levantando a voz,
chorou."
Gênesis, 20: l l
O cântaro poreja a água amena
que do poço brotou, e adoça a areia
e que corre nos ombros, e que enleia
pelas espáduas seu frescor moreno.
O lácteo manto que uma brisa ondeia
desenha formas, cujo talho apenas
a tamareira imita, a flor receia,
o vento afaga e a solidão serena.
Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,
ouvir-lhe a voz uma doçura eleita,
roçar-lhe a fronte uma revelação.
O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,
beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita
catorze anos de vida pagarão.
levantando a voz,
chorou."
Gênesis, 20: l l
O cântaro poreja a água amena
que do poço brotou, e adoça a areia
e que corre nos ombros, e que enleia
pelas espáduas seu frescor moreno.
O lácteo manto que uma brisa ondeia
desenha formas, cujo talho apenas
a tamareira imita, a flor receia,
o vento afaga e a solidão serena.
Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,
ouvir-lhe a voz uma doçura eleita,
roçar-lhe a fronte uma revelação.
O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,
beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita
catorze anos de vida pagarão.
1 404
Renata Pallottini
Por Vós, Senhora
"o meu hálito se fez estranho a minha mulher..."
Jó, 19:17
Por vós, Senhora, dei o quanto hei dado:
minha parcela de aflição, incertas
as minhas tíbias mãos, no entanto abertas;
as flores e os afetos consumados.
Também por vós hei sido o quanto hei sido:
regato de cautela, pensamento
por vós pensado, inquieto tempo havido
por vós enlouquecido em sentimento.
Tudo isso é nada, agora que voltastes
a tudo o que vos dei e fiz, as frias
espigas do desprezo e as duras hastes
do tédio. Agora é nada o amor passado
em vós, jamais em mim, que vos daria
Senhora, uma vez mais, o quanto hei dado,
Jó, 19:17
Por vós, Senhora, dei o quanto hei dado:
minha parcela de aflição, incertas
as minhas tíbias mãos, no entanto abertas;
as flores e os afetos consumados.
Também por vós hei sido o quanto hei sido:
regato de cautela, pensamento
por vós pensado, inquieto tempo havido
por vós enlouquecido em sentimento.
Tudo isso é nada, agora que voltastes
a tudo o que vos dei e fiz, as frias
espigas do desprezo e as duras hastes
do tédio. Agora é nada o amor passado
em vós, jamais em mim, que vos daria
Senhora, uma vez mais, o quanto hei dado,
1 440
Renata Pallottini
Quando os Céus se Cerrarem
"ouve tu então nos céus e perdoa
o pecado do teu povo Israel
e torna a levá-lo à terra
que tens dado a seus pais.
I Reis, 8:34
Quando os céus se cerrarem, não por seca,
mas por extrema dor, sobre o teu povo,
que pecou contra ti e ainda peca
e pecará, o mísero, de novo,
e houver fome na terra, não de trigo
ou de carne, mas fome de ternura,
para estancar a fúria do inimigo
e a sua enorme e súbita loucura,
ouve do céu, Senhor, ouve e perdoa:
a gente que ontem fez a tua casa
e a fez grandiosa, e a fez dourada e boa
hoje, expulsa do Anjo e de sua asa,
entrepara e pergunta, se esqueceste:
para que herança, ó Deus, nos elegeste?
o pecado do teu povo Israel
e torna a levá-lo à terra
que tens dado a seus pais.
I Reis, 8:34
Quando os céus se cerrarem, não por seca,
mas por extrema dor, sobre o teu povo,
que pecou contra ti e ainda peca
e pecará, o mísero, de novo,
e houver fome na terra, não de trigo
ou de carne, mas fome de ternura,
para estancar a fúria do inimigo
e a sua enorme e súbita loucura,
ouve do céu, Senhor, ouve e perdoa:
a gente que ontem fez a tua casa
e a fez grandiosa, e a fez dourada e boa
hoje, expulsa do Anjo e de sua asa,
entrepara e pergunta, se esqueceste:
para que herança, ó Deus, nos elegeste?
1 486
Ricardo Moraes Ferreira
Desemprego
Tira do homem seu pão e seu emprego
O orgulho próprio e toda dignidade
Se tira da vida a paz e o sossego
Dizendo que o fazes por prosperidade
Por sorte de quem achaca-se o homem?
Dos lucros mesquinhos - Desumanidade
Pergunta que a todas cabeças consomem
Quem é consciente bem sabe a verdade.
É pelo dinheiro, pelo vil metal
A ganância é o mal de todo egoísta
Em tudo só vê o que é o Capital.
Pisando em todos, avilta e conquista
Se esquece que Deus é do homem igual
E que nada no mundo lhe foge da vista.
O orgulho próprio e toda dignidade
Se tira da vida a paz e o sossego
Dizendo que o fazes por prosperidade
Por sorte de quem achaca-se o homem?
Dos lucros mesquinhos - Desumanidade
Pergunta que a todas cabeças consomem
Quem é consciente bem sabe a verdade.
É pelo dinheiro, pelo vil metal
A ganância é o mal de todo egoísta
Em tudo só vê o que é o Capital.
Pisando em todos, avilta e conquista
Se esquece que Deus é do homem igual
E que nada no mundo lhe foge da vista.
1 349
Paulo Augusto Rodrigues
Será
Será que não se vêem,
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
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