Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Renata Pallottini
O Pão Amargo
"Ela foi sentar-se em frente dele a boa distância,
como a de um tiro de arco;
pois disse:
que não veja eu a morte do menino.
Sentada em frente dele,
levantou sua voz e chorou."
Gênesis, 21:16
O pão amargo e a água consumada
do odre seco em cáustico deserto;
sob o mirrado arbusto a esquiva sombra
se nega pela areia e é como um rastro.
Sem planta fresca, a fruta apetecida
traz a longínqua fixação do incerto;
quando a brasa arenosa for alfombra
tornar-se-á carícia o fogo do astro.
Para a criança adormecida ao braço
o olhar alonga, e faz como se fosse
para nos olhos tê-la, traço a traço.
Lembrando a noite aquela e a face gêmea
que lhe roçara a face em mágoa doce,
a escrava chora a condição de fêmea.
como a de um tiro de arco;
pois disse:
que não veja eu a morte do menino.
Sentada em frente dele,
levantou sua voz e chorou."
Gênesis, 21:16
O pão amargo e a água consumada
do odre seco em cáustico deserto;
sob o mirrado arbusto a esquiva sombra
se nega pela areia e é como um rastro.
Sem planta fresca, a fruta apetecida
traz a longínqua fixação do incerto;
quando a brasa arenosa for alfombra
tornar-se-á carícia o fogo do astro.
Para a criança adormecida ao braço
o olhar alonga, e faz como se fosse
para nos olhos tê-la, traço a traço.
Lembrando a noite aquela e a face gêmea
que lhe roçara a face em mágoa doce,
a escrava chora a condição de fêmea.
1 602
Antônio Rogério de Lima
Inverno
Saudando a manhã
cunhantã colhe no campo
a flor da suinã.
Menino solta o balão
Iansã leva sua esperança
pra Xangô São João
cunhantã colhe no campo
a flor da suinã.
Menino solta o balão
Iansã leva sua esperança
pra Xangô São João
951
Rosa Bruno
Senor Montado
Senhor da solidão, da soledade, Senhor Montado!...
Lembro os medonhos fragores
Das suas trovoadas,
Que pareciam mesmo zangas
Zangas da sua austera majestade...
Lembro as bolotas doces,
Melhores que castanhas das melhores,
Das suas tristonhas azinheiras,
Senhoras graves, nobres de maneiras...
Lembro os seus pastores,
Estáticos, altivos,
Dos rebanhos enormes, seus rebanhos,
Ai nos meus olhos tão vivos!...
E os silêncios infinitos
E os sois e os luares
Coados na ramagem...
E os troncos sangrentos, descarnados,
Escalpelo impiedoso do deus homem,
Nunca farto de carnagem...
E lembro-lhe ser-lhe sempre dedicado,
Sempre filho, sempre escravo,
Senhor da solidão, da soledade
Senhor Montado, de austera majestade...
Lembro os medonhos fragores
Das suas trovoadas,
Que pareciam mesmo zangas
Zangas da sua austera majestade...
Lembro as bolotas doces,
Melhores que castanhas das melhores,
Das suas tristonhas azinheiras,
Senhoras graves, nobres de maneiras...
Lembro os seus pastores,
Estáticos, altivos,
Dos rebanhos enormes, seus rebanhos,
Ai nos meus olhos tão vivos!...
E os silêncios infinitos
E os sois e os luares
Coados na ramagem...
E os troncos sangrentos, descarnados,
Escalpelo impiedoso do deus homem,
Nunca farto de carnagem...
E lembro-lhe ser-lhe sempre dedicado,
Sempre filho, sempre escravo,
Senhor da solidão, da soledade
Senhor Montado, de austera majestade...
871
Raquel Naveira
Elegância Suprema
Caminho por um tapete violeta
Estendido sobre nuvens.
Como é suntuosa tua morada!
Gotículas de chuva
Cristalizam-se em diamantes
E raios de sol
Pendem das colunas
Como correntes de ouro!
Meu rei, meu Senhor!
Quanto fausto!
Quanto brilho
Na tua túnica,
Na tua coroa,
No escabelo
A teus pés!
Por que ocultaste até o último instante que eras rei?
Por que não trouxeste teu séquito de anjos?
Tuas hordas,
Teus leões,
Tuas trombetas?
Por que te abandonaste a ti mesmo?
Indefeso,
Preso ao madeiro
Como fruto apodrecido?
Meu rei, meu Senhor!
Que suprema elegância!
O manto,
O cetro,
O olhar que me lanças
E que gera e mim a ânsia de combate,
A fé segura,
O equilíbrio.
Como eu poderia adivinhar
Que um homem era Deus?
Estendido sobre nuvens.
Como é suntuosa tua morada!
Gotículas de chuva
Cristalizam-se em diamantes
E raios de sol
Pendem das colunas
Como correntes de ouro!
Meu rei, meu Senhor!
Quanto fausto!
Quanto brilho
Na tua túnica,
Na tua coroa,
No escabelo
A teus pés!
Por que ocultaste até o último instante que eras rei?
Por que não trouxeste teu séquito de anjos?
Tuas hordas,
Teus leões,
Tuas trombetas?
Por que te abandonaste a ti mesmo?
Indefeso,
Preso ao madeiro
Como fruto apodrecido?
Meu rei, meu Senhor!
Que suprema elegância!
O manto,
O cetro,
O olhar que me lanças
E que gera e mim a ânsia de combate,
A fé segura,
O equilíbrio.
Como eu poderia adivinhar
Que um homem era Deus?
1 284
Ribeiro Couto
Anjo de Outrora
O anjo de outrora, adormecido na minha alma,
Acordou esta noite e espiou nos meus olhos:
A lágrima caída ainda há pouco era dele.
Foi ele que a esqueceu à porta dos meus olhos,
Com o discreto pudor com que à porta da igreja
Deixamos cair a esmola na mão de um pobre.
Acordou esta noite e espiou nos meus olhos:
A lágrima caída ainda há pouco era dele.
Foi ele que a esqueceu à porta dos meus olhos,
Com o discreto pudor com que à porta da igreja
Deixamos cair a esmola na mão de um pobre.
1 146
Renata Trocoli
Teu Amor
Teu Amor
Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas mãos me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.
Teu doce beijo acaricia meus lábios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor é novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraços
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me dá esperanças de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presença.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peço com todo coração que ela me abençoe
com tua presença a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor tão puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos corações.
Este amor vem de longe,
vem do alto e é benção dos céus.
É perfeito e verdadeiro,
é sentimento que não se sente por qualquer um,
que não brinca com o coração
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
Como uma luz aquecida e suave
Senti teu amor chegando para me presentear.
Teus olhos transmitem carinho.
Tua boca me fala de mansinho
tudo que eu sempre quis escutar.
Tuas mãos me tocam com ternura,
meu rosto, meus cabelos, minhas mãos.
Teu doce beijo acaricia meus lábios
com teus olhos fixos aos meus.
Esse amor é novo e puro.
Chegou devagar, me conquistou com ternura.
Tu me envolves com teus abraços
apertados e amorosos.
E me enche de medo de perder-te ainda mais uma vez.
Perder teus carinhos,
teus olhares,
tua boca,
tuas palavras
e teu amor ...
Amor este que me renova a alma,
e me dá esperanças de viver alegre
e sonhando sempre com tua doce presença.
A vida nem sempre atende nossos pedidos
de amor e felicidade.
Mas peço com todo coração que ela me abençoe
com tua presença a meu lado sempre.
Me dando carinho e um amor tão puro
e doce que sentimentos juntos dentro de nossos corações.
Este amor vem de longe,
vem do alto e é benção dos céus.
É perfeito e verdadeiro,
é sentimento que não se sente por qualquer um,
que não brinca com o coração
mas que envolve a alma e o corpo
como brisa suave e morna que sopra do mar.
949
Ricardo Madeira
Epitáfio
Se uma estrela cai na Terra,
Logo no céu nasce mais uma,
E, na praia, vinda da espuma
Surge outra estrela-do-mar.
Uma morre mas duas nascem,
O Universo acabou a ganhar,
O que me deu, voltou a tirar,
O que invejou teve de matar.
Se algum deus ou demónio pudesse...
Se pudesse as minhas preces atender,
Eu dar-lhe-ia, aqui juro, a minha alma
Se não fosse já tua e a pudesse vender.
E tocam os sinos enquanto a chuva cai,
Mas na aurora de um novo amanhecer,
Repousas ainda pálida e só num caixão,
Apenas bela e quieta, sem nada fazer,
Engraçado...
Pareces não ouvir nada do que estou a dizer...
"What do you say to the dead?
Will you forgive me for living?"
-Black Sabbath
Logo no céu nasce mais uma,
E, na praia, vinda da espuma
Surge outra estrela-do-mar.
Uma morre mas duas nascem,
O Universo acabou a ganhar,
O que me deu, voltou a tirar,
O que invejou teve de matar.
Se algum deus ou demónio pudesse...
Se pudesse as minhas preces atender,
Eu dar-lhe-ia, aqui juro, a minha alma
Se não fosse já tua e a pudesse vender.
E tocam os sinos enquanto a chuva cai,
Mas na aurora de um novo amanhecer,
Repousas ainda pálida e só num caixão,
Apenas bela e quieta, sem nada fazer,
Engraçado...
Pareces não ouvir nada do que estou a dizer...
"What do you say to the dead?
Will you forgive me for living?"
-Black Sabbath
919
Manuel de Araújo Porto Alegre
Colombo
Canto XXVI
O Descobrimento da América
Mais uma hora velou. Deu meia-noite.
Rendeu-se o quarto no maior silêncio.
Acalmada a emoção, e mais convicto,
Fez sinal, e a esquadra pôs à capa,
Sem que alguém da manobra visse a causa.
Sentado, e enfraquecido por vigílias,
Ainda olhava; mas, cedendo ao corpo,
Ali mesmo dormiu, té que de um salto
Erguido ao trom de festival bombarda,
E da grita dos seus, que repeliam
Com Bermejo, na Pinta — "Terra, Terra —
Sem olhar, convencido da verdade,
Por grato impulso, ajoelhou-se orando,
Antes que a terra lhe alegrasse a vista!
Vinha o dia rompendo, e descobrindo
Sobre a linha do mar a terra ansiada!
Como ao empaste das fecundas tintas,
A natureza e a luz na tela fulgem,
Assim fulgia o ondulado aspeto
De Condene floresta, e pouco a pouco,
Ao sorriso das auras fugitivas,
No ar se abriam graciosas palmas,
Como guerreiros de emplumados elmos,
Vindo à plaga a festejar as naves.
Com o prumo na mão, sondando a costa,
Entrou numa abra que no fundo tinha
Surgidouro seguro. Manda o chefe
A manobra de paz! e a um tempo viu-se
Cair o pano, atravessar a frota,
Morder o ferro a desejada areia.
Os descrentes então se convenceram
De que um homem de Deus vê mais que os outros.
Baixam dos turcos o ligeiro esquife
E o real escaler apendoado.
O prazer, que remoça, agita o Nauta.
Larga o burel da devoção, e o peito
De lúcida couraça veste; cinge
A espada de almirante, e sobre os ombros
Traça um manto escarlate, mimo régio.
Protege a fronte com um brilhante almafre,
De cujo cimo pontiagudo rompe
Trífida palma de recurvas plumas.
Toma o pacto real, feito em Granada,
E o pendão de Isabel, o novo lábaro,
Que há de breve vencer mais que o de Roma.
Descem com ele os empregados régios,
E os Pinzões, a quem dera a honra e guarda
Do estandarte real. Acena ao mestre:
Alam as prontas, vogas à ribeira;
Qual amplexo de amor, todos sentiram
O doce abalo do encontrão da praia.
De um salto juvenil pisa Colombo
A nova terra, e, com seguro braço,
A bandeira real, no solo planta.
Beija a plaga almejada, ledo chora:
Foi geral a emoção! Disse o silêncio
Na mudez respeitosa mais que a língua.
Ao céu erguendo os lacrimosos olhos
Na mão sustendo o crucifixo, disse:
"Deus eterno, Senhor onipotente,
A cujo verbo criador o espaço,
Fecundado, soltou o firmamento
O Sol, e a Terra, e os ventos do Oceano,
Bendito sejas, Santo, Santo, Santo!
Sempre bendito em toda parte sejas,
Que se exalte tua alta majestade
Por haver concedido ao servo humilde
O teu nome louvar nestas distâncias.
Permite, ó meu Senhor, que agora mesmo,
Como primícias deste santo empenho,
A teu Filho Divino humilde ofereça
Esta terra e o mundo sempre a chame
Terra de Vera Cruz! E que assim seja!"
Ergue-se, e o laço do estandarte afrouxa:
Sopra o vento, desdobra-o, resplandecem
De um lado a imagem do Cordeiro, e do outro
As armas espanholas. Como assenso
Da divina mansão, esparge a brisa
Um chuveiro de flores sobre a imagem,
Flores não vistas da européia gente!
O Descobrimento da América
Mais uma hora velou. Deu meia-noite.
Rendeu-se o quarto no maior silêncio.
Acalmada a emoção, e mais convicto,
Fez sinal, e a esquadra pôs à capa,
Sem que alguém da manobra visse a causa.
Sentado, e enfraquecido por vigílias,
Ainda olhava; mas, cedendo ao corpo,
Ali mesmo dormiu, té que de um salto
Erguido ao trom de festival bombarda,
E da grita dos seus, que repeliam
Com Bermejo, na Pinta — "Terra, Terra —
Sem olhar, convencido da verdade,
Por grato impulso, ajoelhou-se orando,
Antes que a terra lhe alegrasse a vista!
Vinha o dia rompendo, e descobrindo
Sobre a linha do mar a terra ansiada!
Como ao empaste das fecundas tintas,
A natureza e a luz na tela fulgem,
Assim fulgia o ondulado aspeto
De Condene floresta, e pouco a pouco,
Ao sorriso das auras fugitivas,
No ar se abriam graciosas palmas,
Como guerreiros de emplumados elmos,
Vindo à plaga a festejar as naves.
Com o prumo na mão, sondando a costa,
Entrou numa abra que no fundo tinha
Surgidouro seguro. Manda o chefe
A manobra de paz! e a um tempo viu-se
Cair o pano, atravessar a frota,
Morder o ferro a desejada areia.
Os descrentes então se convenceram
De que um homem de Deus vê mais que os outros.
Baixam dos turcos o ligeiro esquife
E o real escaler apendoado.
O prazer, que remoça, agita o Nauta.
Larga o burel da devoção, e o peito
De lúcida couraça veste; cinge
A espada de almirante, e sobre os ombros
Traça um manto escarlate, mimo régio.
Protege a fronte com um brilhante almafre,
De cujo cimo pontiagudo rompe
Trífida palma de recurvas plumas.
Toma o pacto real, feito em Granada,
E o pendão de Isabel, o novo lábaro,
Que há de breve vencer mais que o de Roma.
Descem com ele os empregados régios,
E os Pinzões, a quem dera a honra e guarda
Do estandarte real. Acena ao mestre:
Alam as prontas, vogas à ribeira;
Qual amplexo de amor, todos sentiram
O doce abalo do encontrão da praia.
De um salto juvenil pisa Colombo
A nova terra, e, com seguro braço,
A bandeira real, no solo planta.
Beija a plaga almejada, ledo chora:
Foi geral a emoção! Disse o silêncio
Na mudez respeitosa mais que a língua.
Ao céu erguendo os lacrimosos olhos
Na mão sustendo o crucifixo, disse:
"Deus eterno, Senhor onipotente,
A cujo verbo criador o espaço,
Fecundado, soltou o firmamento
O Sol, e a Terra, e os ventos do Oceano,
Bendito sejas, Santo, Santo, Santo!
Sempre bendito em toda parte sejas,
Que se exalte tua alta majestade
Por haver concedido ao servo humilde
O teu nome louvar nestas distâncias.
Permite, ó meu Senhor, que agora mesmo,
Como primícias deste santo empenho,
A teu Filho Divino humilde ofereça
Esta terra e o mundo sempre a chame
Terra de Vera Cruz! E que assim seja!"
Ergue-se, e o laço do estandarte afrouxa:
Sopra o vento, desdobra-o, resplandecem
De um lado a imagem do Cordeiro, e do outro
As armas espanholas. Como assenso
Da divina mansão, esparge a brisa
Um chuveiro de flores sobre a imagem,
Flores não vistas da européia gente!
1 783
Raimundo Correia
Ondas
Ilha de atrozes degredos!
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos. Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.
Em circuito, o Horror impera;
No centro, abrindo a cratera
Flagrante, arroja um volcão
Ígnea blasfêmia às alturas...
E, nas ínvias espessuras,
Brame o tigre, urra o leão.
Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.
Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.
No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.
Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...
Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.
Contempla, de olhos magoados,
Tudo... Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.
Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.
Quanto esplendor! São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital! E voa,
e voa àquelas regiões!...
Cinge um muro de rochedos
Seus flancos. Grosso a espumar
Contra a dura penedia,
Bate, arrebenta, assobia,
Retumba, estrondeia o mar.
Em circuito, o Horror impera;
No centro, abrindo a cratera
Flagrante, arroja um volcão
Ígnea blasfêmia às alturas...
E, nas ínvias espessuras,
Brame o tigre, urra o leão.
Aqui chora, aqui, proscrita,
Clama e desespera aflita
A alma de si mesma algoz,
Buscando na imensa plaga,
Entre mil vagas, a vaga,
Que neste exílio a depôs.
Se a vida a prende à matéria,
Fora desta, a alma, sidérea,
Radia em pleno candor;
O corpo, escravo dos vícios,
É que teme os precipícios,
Que este mar cava em redor.
No azul eterno ela busca,
No azul, cujo brilho a ofusca,
Pairar, incendida ao sol,
Despindo a crusta vil, onde
Se esconde, como se esconde
A lesma em seu caracol.
Contempla o infinito ... Um bando
De gerifaltos voando
Passou, desapareceu
No éter azul, na água verde...
E onde esse bando se perde,
seu longo olhar se perde...
Contempla o mar, silenciosa:
Ora mansa, ora raivosa,
Vai e vem a onda minaz,
E entre as pontas do arrecife,
Às vezes leva um esquife,
Às vezes um berço traz.
Contempla, de olhos magoados,
Tudo... Muitos degredados
Findo o seu degredo têm;
Vão-se na onda intumescida
Da Morte, mas na da Vida,
Novos degredados vêm.
Ó alma contemplativa !
Vem já, decumana e altiva,
Entre as ondas talvez,
A que, no supremo esforço
Da morte, em seu frio dorso,
Te leve ao largo, outra vez.
Quanto esplendor! São aquelas
As regiões de luz, que anelas,
Rompe os rígidos grilhões,
Com que à Carne de agrilhoa
O instinto vital! E voa,
e voa àquelas regiões!...
1 928
Fernando Py
Canto de Muro
A Mário Quintana
Num canto de muro
o garoto chorava
num canto de muro
a Terra findava
num canto de muro
a noite pousava
crepúsculo sujo
de rua asfaltada.
Num canto de muro
nem Deus se encontrava
num canto de muro
blasfêmia gravada
num canto de muro
o diabo urinava
no chão sem futuro
da terra ensombrada.
Num canto de muro
o sol desmaiava
e a noite tranqüila
o solo ocupava
— a posse, tão fria
(terreno tão duro)
teu ângulo diedro,
parede, rachado.
Num canto de muro
esquina forçada
o mundo vivia
e o mundo acabava.
Num canto de muro
a sombra vazia
prepara o futuro
da nova cidade.
Num canto de muro
o garoto chorava
num canto de muro
a Terra findava
num canto de muro
a noite pousava
crepúsculo sujo
de rua asfaltada.
Num canto de muro
nem Deus se encontrava
num canto de muro
blasfêmia gravada
num canto de muro
o diabo urinava
no chão sem futuro
da terra ensombrada.
Num canto de muro
o sol desmaiava
e a noite tranqüila
o solo ocupava
— a posse, tão fria
(terreno tão duro)
teu ângulo diedro,
parede, rachado.
Num canto de muro
esquina forçada
o mundo vivia
e o mundo acabava.
Num canto de muro
a sombra vazia
prepara o futuro
da nova cidade.
1 037
Paulo Vizioli
Apresentação de Donizete Galvão
Do silêncio da pedra é o terceiro volume de poesia de Donizete Galvão. Tem em comum com os anteriores -- Azul navalha (1988) e As faces do rio (1991) -- a profundidade das inquietações temáticas e o vigor dos recursos estilísticos -- além (é claro) da postura independente, livre das atitudes e dos modismos que permeiam boa parte da produção poética contemporânea. Mas a obra apresenta igualmente traços próprios, distinguindo-se de Azul navalha pela concisão maior da linguagem, e de As faces do rio pela escolha da "pedra", ao invés da "água", como motivo condutor. Com isso, o volume dá um pouco mais de ênfase ao "espaço" em detrimento do "tempo"(que normalmente se associa à fluidez do rio), complementando assim a visão que o poeta oferece da sua e da nossa realidade.
Ao contrário da água, que tem a fala dos seus rumorejos e fragores, a pedra é silenciosa, calando "o que nela dói". A água representa a vida, enquanto a pedra simboliza a esterilidade do deserto e, em última instância, a morte. Por isso, Donizete Galvão começa por repudiá-la: "Em que noite adormeci verde/ e acordei Saara?" Vê-se como um daqueles homens que, prisioneiros de suas poluídas cidades de pedra, se isolam uns dos outros na rotina de uma vida aparentemente sem propósito.
Nesta sua waste land particular, Deus se torna a própria pedra, "deus que não pune/ deus que não salva". Apesar disso, é para a pedra que o poeta acaba se voltando, procurando identificar-se com ela consciente e integralmente. Busca nessa imanência algo da eternidade, através das lições que se podem extrair da permanência dos minerais: "De pedra ser./Da pedra ter/ o duro desejo de durar". Sim, porque no espaço da pedra também se encontra uma dimensão temporal, como bem lembra o poema "Fósseis" (ainda que os indícios da vida passada sejam apenas "souvenirs para turistas". Pouco a pouco, o autor vai descobrindo os aspectos positivos de seu símbolo central, ora vendo a pedra como anteparo ou abrigo (como em "Motetos de São José del - Rei"), ora, entre sério e irônico, fazendo um pequeno rol de suas utilidades ("Almanaque da pedra"). A verdade, porém, é que a pedra é o chão essencial: é o que resta depois de tudo ("quando tudo já houver sido,/ lá estará ela"); e é também o que precede a tudo. É dela que brota a água, a fonte da vida: e, sem ela, não haveria o sustentáculo e a nutrição para as plantas e animais, -- como aquela garça que "ergue/ para o céu/ a hipérbole/ do seu alvo/ pescoço".
Até a linguagem da água nasce dos seus embates com o leito das rochas. E é esse processo que esta poesia reproduz, ao recorrer à realidade para dar voz à mesma realidade. Ele trabalha a pedra. E a pedra trabalhada -- a pedra lisa -- se transforma em arte, em algo acima da transitoriedade e do sofrimento ("no mundo das pedras lisas não cabe a dor"). É a pedra capaz de despertar em nós os mesmos devaneios de Keats diante dos relevos de uma urna grega, ou de Yeats diante de uma escultura em lápis lazúl
São esses, em resumo, alguns dos temas de Donizete Galvão em Do silêncio da pedra, temas sem dúvida relevantes, que, ademais, ganham vida graças a uma linguagem poética extremamente concisa e altamente sugestiva -- de tal riqueza metafórica que as imagens se atropelam umas ás outras ("o mar de pedra soterra/ a árvore dos brônquios") -- e toda pontilhada por funcionais sonoridades ( aliterações, rimas internas etc.). Temos, pois, aqui um autor que não só tem o que dizer, mas que também sabe como dizê-lo.
Sobre o autor
Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata, Minas Gerais, em 1955.
Publicou em l988 Azul navalha (T.A. Queiroz, Editor), prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como Revelação de Autor e indicado para o Prêmio Jabuti. Em l99l, publicou seu segundo livro de poesia As faces do rio (Água Viva Edições).
Tem trabalhos publicados nos jornais Nicolau, Suplemento Literário do Minas Gerais, O Galo, O Resto do Mundo , Mariel (editado nos EUA) e nas revistas Babel e Poesia, ambas da Venezuela. Participou também das antologias Veia Poética (Editora Escrita) e Antologia da nova poesia brasileira (Rioarte/Hipocampo).
Título da obra: Do Silêncio da Pedra
Editora: Arte Pau-Brasil Editora
R. Vergueiro, 923, Paraíso
01504-001- São Paulo -SP
Tel. (011) 279-0147
Páginas: 61
Preço: R$ 15,00
Lançamento: Dia 25 de junho- Terça-feira
Local: Livraria da Vila
R. Fradique Coutinho,915
Pinheiros
Tel. 814-5811
Das 18:30 às 21:30
Tels. para contato: 521-9697
871-6174
Ao contrário da água, que tem a fala dos seus rumorejos e fragores, a pedra é silenciosa, calando "o que nela dói". A água representa a vida, enquanto a pedra simboliza a esterilidade do deserto e, em última instância, a morte. Por isso, Donizete Galvão começa por repudiá-la: "Em que noite adormeci verde/ e acordei Saara?" Vê-se como um daqueles homens que, prisioneiros de suas poluídas cidades de pedra, se isolam uns dos outros na rotina de uma vida aparentemente sem propósito.
Nesta sua waste land particular, Deus se torna a própria pedra, "deus que não pune/ deus que não salva". Apesar disso, é para a pedra que o poeta acaba se voltando, procurando identificar-se com ela consciente e integralmente. Busca nessa imanência algo da eternidade, através das lições que se podem extrair da permanência dos minerais: "De pedra ser./Da pedra ter/ o duro desejo de durar". Sim, porque no espaço da pedra também se encontra uma dimensão temporal, como bem lembra o poema "Fósseis" (ainda que os indícios da vida passada sejam apenas "souvenirs para turistas". Pouco a pouco, o autor vai descobrindo os aspectos positivos de seu símbolo central, ora vendo a pedra como anteparo ou abrigo (como em "Motetos de São José del - Rei"), ora, entre sério e irônico, fazendo um pequeno rol de suas utilidades ("Almanaque da pedra"). A verdade, porém, é que a pedra é o chão essencial: é o que resta depois de tudo ("quando tudo já houver sido,/ lá estará ela"); e é também o que precede a tudo. É dela que brota a água, a fonte da vida: e, sem ela, não haveria o sustentáculo e a nutrição para as plantas e animais, -- como aquela garça que "ergue/ para o céu/ a hipérbole/ do seu alvo/ pescoço".
Até a linguagem da água nasce dos seus embates com o leito das rochas. E é esse processo que esta poesia reproduz, ao recorrer à realidade para dar voz à mesma realidade. Ele trabalha a pedra. E a pedra trabalhada -- a pedra lisa -- se transforma em arte, em algo acima da transitoriedade e do sofrimento ("no mundo das pedras lisas não cabe a dor"). É a pedra capaz de despertar em nós os mesmos devaneios de Keats diante dos relevos de uma urna grega, ou de Yeats diante de uma escultura em lápis lazúl
São esses, em resumo, alguns dos temas de Donizete Galvão em Do silêncio da pedra, temas sem dúvida relevantes, que, ademais, ganham vida graças a uma linguagem poética extremamente concisa e altamente sugestiva -- de tal riqueza metafórica que as imagens se atropelam umas ás outras ("o mar de pedra soterra/ a árvore dos brônquios") -- e toda pontilhada por funcionais sonoridades ( aliterações, rimas internas etc.). Temos, pois, aqui um autor que não só tem o que dizer, mas que também sabe como dizê-lo.
Sobre o autor
Donizete Galvão nasceu em Borda da Mata, Minas Gerais, em 1955.
Publicou em l988 Azul navalha (T.A. Queiroz, Editor), prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como Revelação de Autor e indicado para o Prêmio Jabuti. Em l99l, publicou seu segundo livro de poesia As faces do rio (Água Viva Edições).
Tem trabalhos publicados nos jornais Nicolau, Suplemento Literário do Minas Gerais, O Galo, O Resto do Mundo , Mariel (editado nos EUA) e nas revistas Babel e Poesia, ambas da Venezuela. Participou também das antologias Veia Poética (Editora Escrita) e Antologia da nova poesia brasileira (Rioarte/Hipocampo).
Título da obra: Do Silêncio da Pedra
Editora: Arte Pau-Brasil Editora
R. Vergueiro, 923, Paraíso
01504-001- São Paulo -SP
Tel. (011) 279-0147
Páginas: 61
Preço: R$ 15,00
Lançamento: Dia 25 de junho- Terça-feira
Local: Livraria da Vila
R. Fradique Coutinho,915
Pinheiros
Tel. 814-5811
Das 18:30 às 21:30
Tels. para contato: 521-9697
871-6174
976
Antero de Quental
Beatrice
Nem visao, nem real: amor! amor somente!...
Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor - ?
Quando deixa cair no peito esta semente,
Diz o que ha-de brotar, acaso, o Deus-Senhor
Somente amor... Somente?! e pouco esta palavra? Duas silabas
so - em pouco um mundo esta -
Loucos! mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra,
Bem como incendio a arder, tao pouco inda sera?
Gota, que alaga o mundo! atomo, e apos, colosso!
Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pos!
Foi Deus! de Deus me vem... e a Deus medir nao posso:
E imenso o que vem dele... os nadas somos nos.
E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso,
O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor,
Ha-de alagar teu peito e ser do templo incenso...
Mulher! has-de escutar, que eu vou falar damor!
Falar damor?!... se ele e como uma essencia,
Que nos perfuma, sem se ver de donde...
Se ele e como o sorriso da inocencia,
Que inda se ignora e, pra sorrir, se esconde...
Se e o sonho das noites vaporoso,
Que anda no ar, sem que possamos ve-lo...
Se e a concha no oceano caprichoso,
Se e das ondas do mar ligeiro velo...
Se e suspiro, que oculto se descerra,
Se escuta, mas se ignora de que banda...
Se e estrela, que manda a luz a terra,
Sem se ver de que paramos a manda...
Se e sonho, que sonhamos acordado...
Suspiro, que soltamos sem senti-lo...
Sopro que vai dum lado a outro lado...
Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo?
Falar do amor... do amor! o sempre-mudo!
Se e segredo entre dois, como dize-lo,
Sem divulga-lo, sem que o ouca tudo?
Se e misterio encoberto, como ve-lo?...
Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor - ?
Quando deixa cair no peito esta semente,
Diz o que ha-de brotar, acaso, o Deus-Senhor
Somente amor... Somente?! e pouco esta palavra? Duas silabas
so - em pouco um mundo esta -
Loucos! mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra,
Bem como incendio a arder, tao pouco inda sera?
Gota, que alaga o mundo! atomo, e apos, colosso!
Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pos!
Foi Deus! de Deus me vem... e a Deus medir nao posso:
E imenso o que vem dele... os nadas somos nos.
E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso,
O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor,
Ha-de alagar teu peito e ser do templo incenso...
Mulher! has-de escutar, que eu vou falar damor!
Falar damor?!... se ele e como uma essencia,
Que nos perfuma, sem se ver de donde...
Se ele e como o sorriso da inocencia,
Que inda se ignora e, pra sorrir, se esconde...
Se e o sonho das noites vaporoso,
Que anda no ar, sem que possamos ve-lo...
Se e a concha no oceano caprichoso,
Se e das ondas do mar ligeiro velo...
Se e suspiro, que oculto se descerra,
Se escuta, mas se ignora de que banda...
Se e estrela, que manda a luz a terra,
Sem se ver de que paramos a manda...
Se e sonho, que sonhamos acordado...
Suspiro, que soltamos sem senti-lo...
Sopro que vai dum lado a outro lado...
Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo?
Falar do amor... do amor! o sempre-mudo!
Se e segredo entre dois, como dize-lo,
Sem divulga-lo, sem que o ouca tudo?
Se e misterio encoberto, como ve-lo?...
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Quirino dos Santos
O Saci
(Lenda)
"Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.
Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;
Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.
Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.
No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.
Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!
Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!
Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.
É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!
Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.
Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!
Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.
Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.
Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"
Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!
Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.
Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!
Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...
"Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.
Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;
Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.
Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.
No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.
Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!
Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!
Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.
É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!
Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.
Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!
Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.
Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.
Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"
Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!
Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.
Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!
Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...
1 064
Elziário Pinto
O Festim de Baltasar
Mané... Teckel... Pharés...
I
"Queimai perfumes, escravas!
Trazei-nos sândalo e flores!
Vinho! do vinho os vap!res
Levem presságios cruéis!
Por Baal! Senhores e donas,
Não morra o prazer da festa!
Por Baal! Por Baal! soe a orquestra,
Tangei, tangei, menestréis!"
As luzes tremem nas salas,
Treme o ouro e a pedraria;
Das ânforas transborda a orgia
Como as espumas do mar:
— "Por Baal! Senhores e donas,
Repete a nobre assembléia,
Ao grande rei da Caldéia!
Ao grande rei Baltasar!"
Rompe a orquestra — e as concubinas,
Com os seios nus, palpitantes,
Entoam febris descanses,
Lasciva, ideal canção;
E em volta ao seu trono de ouro
Nabonid, rei poderoso,
Sente a alma a nadar no gozo,
Em que se afoga a razão.
E ferve, referve a orgia
Ao som da orquestra estridentes
E a lua toca o ocidente,
Sobre a cidade imortal:
Talvez mande a peregrina,
Do monte Efraim pendida,
Um raio por despedida
Do Cedron sobre o cristal.
II
Manda, sim, sobre ruínas
Que aí só resta um montão
Mirando a gentil cativa,
Dileta filha de Abraão:
— "Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Terra, terra bem-fadada,
Outrora — esposa de Arão,
Hoje ruínas dispersas,
Hoje o luto e a escravidão;
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Teus filhos gemem distante,
Jamais aqui voltarão...
Murchai, gardênias do prado!
Chorai, divino Jordão:
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Onde as endechas saudosas
Dos cantores de Sião?
Aves do céu, vossos carmes
Não solteis mais aqui, não!
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Lírio pendido no vale
Varreu-te acaso o tufão?
Nem uma gota de orvalho!
Isaac! Davi! Salomão!
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!"
E pela encosta do monte
A tristezinha lá vai,
Mandando um último pranto,
Um doce, sentido ai,
De um lado à imersa Sodoma,
Do outro ao monte Sinai.
III
E cresce, recresce a orgia
Nos salões de Baltasar,
Ondas de pura harmonia,
Ânsias de puro gozar,
— Entanto a cidade dorme
Envolta no manto enorme
Da noite — sono fatal!
E aquele peito gigante
Devora sede arquejante
De vícios, — sede infernal!
Nas salas grato ruído,
Luzes, perfumes e amor;
Lá fora estranho rugido,
Surdo — ao longe — e ameaçador;
No horizonte um fumo denso
Se eleva, bem como o incenso
Nas salas e a embriaguez...
Que importa ao rei o horizonte,
Se as flores ornam-lhe a fronte,
Se o âmbar corre-lhe aos pés?!
"Ao rei! ao rei poderoso!
Ao reino que não tem fim!
Como o Eufrates caudaloso
Corra a onda do festim!"
— "Perdão: as taças, senhores,
Não podem, tão sem lavores,
À festa de um rei convir;
Temos os vasos sagrados,
São soberbos, cinzelados,
Do ouro fino de Ofir.
"Trazei-mos", já vacilante,
Diz o rei: "Viva o Senhor!"
— E ruge o vento distante,
Como um gemido de dor.
Entram luzidos criados
Trazendo os vasos sagrados
Do templo de Salomão...
— E ruge o vento mais forte,
Lançando vascas de morte
Pelos umbrais do salão.
"Transborde o néctar, amigos!
Eis os vasos de Jeová!
Nesses lavores antigos.
Vê-se a cativa Judá."
— E cresce o estranho rugido,
Surdo, rouco, indefinido...
"São os soluços do Irã!"
E ruge, ruge mais perto...
"São os ventos do deserto
Sobre as areias de Omã!"
Nas caçoulas fumegantes,
Arde o mirto e o aloés,
Ao som das notas vibrantes
Sobe, sobe a embriaguez.
— "Por Baal! Por Baal! Pelos Medos!
Quebrem-se as harpas nos dedos,
Trema o teto do salão!"
Horror! ao tinir das taças,
Núncio de eternas desgraças,
Brame na sala um tufão.
"Depressa, luzes, depressa..."
Diz o rei: "longe o terror!
Mas não, e o vaso arremessa,
Recua trêmulo... horror!
— É que, em meio à noite brusca,
Mão, que de brilhos ofusca,
Toda a sala iluminou;
Cometa, a correr ardente,
Estranha cifra candente,
Pelas paredes traçou!
IV
"Meu colar de pedrarias
Àquele que decifrar
Venham magos e adivinhos,
Depressa, Beltisasar.
Ele, o mais sábio de todos,
Pode o mistério explicar!"
E dorme a cidade lassa
Dos vícios na prostração,
E cresce, cresce o rugido
Qual ressonar de um vulcão:
Ou é tremenda borrasca,
Ou é povo em multidão.
Entre os famosos convivas
Mais um conviva aparece,
As sandálias do proscrito
Traz — quem é que o não conhece
Diante do rei se inclina,
Do rei, que ao vê-lo estremece.
"Benvindo sejas, cativo,
Daniel Beltisasar;
Se sabes ler no impossível,
Tens ali — podes falar:
Terás um manto de púrpura,
Terás meu régio colar."
De novo ante o rei se inclina
A cabeça do ancião,
Depois, elevando a fronte
Altiva, e estendendo a mão,
Busca achar na ignota cifra
A divina inspiração.
Nem do Tibre o velho roble!
Nem os cedros do ocidente
A fronte mais alto elevam
Mais nobre, mais imponente!
O gênio é como as estrelas,
Beija os pés do Onipotente.
"Rei! escuta a voz do Eterno,
Que por meus lábios te fala:
O crime mais execrando,
O teu reinado assinala:
Vê, revê tua sentença
Escrita em letras de opala.
"Não ouves bramir confuso
Como o arfar da tempestade?
São os Persas que se arrojam
Sobre os muros da cidade:
Perdeu-te a lascívia impura,
Rei! perdeu-te a impiedade.
"Profanastes os vasos santos
Nas torpezas de um festim,
Teus dias foram contados
Como os da bela Seboim!
Agora o brinde, senhores,
— Ao reino que não tem fim!"
V
Gesto grave, altivo, acerbo,
Assim fala o escravo hebreu,
Soletrando o ardente verbo,
Que mão de raio escreveu:
E depois — braços pendidos,
Olhos de chama incendidos,
Verberando a maldição,
Deixa a sala, onde se espalha,
Como trevosa mortalha,
O terror na escuridão.
E quando o raio primeiro
Do sol, singrando o horizonte,
Rompe o denso nevoeiro
Sobre o cabeço do monte,
Em vez da cidade altiva,
Vê — desgrenhada cativa,
A dissoluta Babel,
E além dos muros colossos,
Daquele povo os destroços
E um homem só — Daniel!
I
"Queimai perfumes, escravas!
Trazei-nos sândalo e flores!
Vinho! do vinho os vap!res
Levem presságios cruéis!
Por Baal! Senhores e donas,
Não morra o prazer da festa!
Por Baal! Por Baal! soe a orquestra,
Tangei, tangei, menestréis!"
As luzes tremem nas salas,
Treme o ouro e a pedraria;
Das ânforas transborda a orgia
Como as espumas do mar:
— "Por Baal! Senhores e donas,
Repete a nobre assembléia,
Ao grande rei da Caldéia!
Ao grande rei Baltasar!"
Rompe a orquestra — e as concubinas,
Com os seios nus, palpitantes,
Entoam febris descanses,
Lasciva, ideal canção;
E em volta ao seu trono de ouro
Nabonid, rei poderoso,
Sente a alma a nadar no gozo,
Em que se afoga a razão.
E ferve, referve a orgia
Ao som da orquestra estridentes
E a lua toca o ocidente,
Sobre a cidade imortal:
Talvez mande a peregrina,
Do monte Efraim pendida,
Um raio por despedida
Do Cedron sobre o cristal.
II
Manda, sim, sobre ruínas
Que aí só resta um montão
Mirando a gentil cativa,
Dileta filha de Abraão:
— "Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Terra, terra bem-fadada,
Outrora — esposa de Arão,
Hoje ruínas dispersas,
Hoje o luto e a escravidão;
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Teus filhos gemem distante,
Jamais aqui voltarão...
Murchai, gardênias do prado!
Chorai, divino Jordão:
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Onde as endechas saudosas
Dos cantores de Sião?
Aves do céu, vossos carmes
Não solteis mais aqui, não!
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!
"Lírio pendido no vale
Varreu-te acaso o tufão?
Nem uma gota de orvalho!
Isaac! Davi! Salomão!
— Ai terra de Deus querida!
Ai terra da Promissão!"
E pela encosta do monte
A tristezinha lá vai,
Mandando um último pranto,
Um doce, sentido ai,
De um lado à imersa Sodoma,
Do outro ao monte Sinai.
III
E cresce, recresce a orgia
Nos salões de Baltasar,
Ondas de pura harmonia,
Ânsias de puro gozar,
— Entanto a cidade dorme
Envolta no manto enorme
Da noite — sono fatal!
E aquele peito gigante
Devora sede arquejante
De vícios, — sede infernal!
Nas salas grato ruído,
Luzes, perfumes e amor;
Lá fora estranho rugido,
Surdo — ao longe — e ameaçador;
No horizonte um fumo denso
Se eleva, bem como o incenso
Nas salas e a embriaguez...
Que importa ao rei o horizonte,
Se as flores ornam-lhe a fronte,
Se o âmbar corre-lhe aos pés?!
"Ao rei! ao rei poderoso!
Ao reino que não tem fim!
Como o Eufrates caudaloso
Corra a onda do festim!"
— "Perdão: as taças, senhores,
Não podem, tão sem lavores,
À festa de um rei convir;
Temos os vasos sagrados,
São soberbos, cinzelados,
Do ouro fino de Ofir.
"Trazei-mos", já vacilante,
Diz o rei: "Viva o Senhor!"
— E ruge o vento distante,
Como um gemido de dor.
Entram luzidos criados
Trazendo os vasos sagrados
Do templo de Salomão...
— E ruge o vento mais forte,
Lançando vascas de morte
Pelos umbrais do salão.
"Transborde o néctar, amigos!
Eis os vasos de Jeová!
Nesses lavores antigos.
Vê-se a cativa Judá."
— E cresce o estranho rugido,
Surdo, rouco, indefinido...
"São os soluços do Irã!"
E ruge, ruge mais perto...
"São os ventos do deserto
Sobre as areias de Omã!"
Nas caçoulas fumegantes,
Arde o mirto e o aloés,
Ao som das notas vibrantes
Sobe, sobe a embriaguez.
— "Por Baal! Por Baal! Pelos Medos!
Quebrem-se as harpas nos dedos,
Trema o teto do salão!"
Horror! ao tinir das taças,
Núncio de eternas desgraças,
Brame na sala um tufão.
"Depressa, luzes, depressa..."
Diz o rei: "longe o terror!
Mas não, e o vaso arremessa,
Recua trêmulo... horror!
— É que, em meio à noite brusca,
Mão, que de brilhos ofusca,
Toda a sala iluminou;
Cometa, a correr ardente,
Estranha cifra candente,
Pelas paredes traçou!
IV
"Meu colar de pedrarias
Àquele que decifrar
Venham magos e adivinhos,
Depressa, Beltisasar.
Ele, o mais sábio de todos,
Pode o mistério explicar!"
E dorme a cidade lassa
Dos vícios na prostração,
E cresce, cresce o rugido
Qual ressonar de um vulcão:
Ou é tremenda borrasca,
Ou é povo em multidão.
Entre os famosos convivas
Mais um conviva aparece,
As sandálias do proscrito
Traz — quem é que o não conhece
Diante do rei se inclina,
Do rei, que ao vê-lo estremece.
"Benvindo sejas, cativo,
Daniel Beltisasar;
Se sabes ler no impossível,
Tens ali — podes falar:
Terás um manto de púrpura,
Terás meu régio colar."
De novo ante o rei se inclina
A cabeça do ancião,
Depois, elevando a fronte
Altiva, e estendendo a mão,
Busca achar na ignota cifra
A divina inspiração.
Nem do Tibre o velho roble!
Nem os cedros do ocidente
A fronte mais alto elevam
Mais nobre, mais imponente!
O gênio é como as estrelas,
Beija os pés do Onipotente.
"Rei! escuta a voz do Eterno,
Que por meus lábios te fala:
O crime mais execrando,
O teu reinado assinala:
Vê, revê tua sentença
Escrita em letras de opala.
"Não ouves bramir confuso
Como o arfar da tempestade?
São os Persas que se arrojam
Sobre os muros da cidade:
Perdeu-te a lascívia impura,
Rei! perdeu-te a impiedade.
"Profanastes os vasos santos
Nas torpezas de um festim,
Teus dias foram contados
Como os da bela Seboim!
Agora o brinde, senhores,
— Ao reino que não tem fim!"
V
Gesto grave, altivo, acerbo,
Assim fala o escravo hebreu,
Soletrando o ardente verbo,
Que mão de raio escreveu:
E depois — braços pendidos,
Olhos de chama incendidos,
Verberando a maldição,
Deixa a sala, onde se espalha,
Como trevosa mortalha,
O terror na escuridão.
E quando o raio primeiro
Do sol, singrando o horizonte,
Rompe o denso nevoeiro
Sobre o cabeço do monte,
Em vez da cidade altiva,
Vê — desgrenhada cativa,
A dissoluta Babel,
E além dos muros colossos,
Daquele povo os destroços
E um homem só — Daniel!
1 023
Roberto Piva
Ritual dos 4 Ventos e dos 4 Gaviões
para Marco Antônio de Ossain
"Eu trago comigo os guardiões
dos Circuitos celestes."
— Livro dos Mortos do Antigo Egito —
Ali onde o gavião do Norte resplandesce
sua sombra
Ali onde a aventura conserva os cascos
do vudú da aurora
Ali onde o arco-íris da linguagem está
carregado de vinho subterrâneo
Ali onde os orixás dançam na velocidade
dos puros vegetais
Revoada das pedras do rio
Olhos no circuito da Ursa Maior
na investida louca
Olhos de metabolismo floral
Almofadas de floresta
Focinho silencioso da sussuarana com
passos de sabotagem
Carne rica de Exú nas couraças da noite
Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas
Bate o tambor
no ritmo dos sonhos espantosos
no ritmo dos naufrágios
no ritmo dos adolescentes
à porta dos hospícios
no ritmo do rebanho de atabaques
Bate o tambor
no ritmo das oferendas sepulcrais
no ritmo da levitação alquímica
no ritmo da paranóia de Júpiter
Caciques orgiásticos do tambor
Com meu Skate-gavião
Tambor na virada do século ganimedes
Iemanjá com seus cabelos de espuma.
"Eu trago comigo os guardiões
dos Circuitos celestes."
— Livro dos Mortos do Antigo Egito —
Ali onde o gavião do Norte resplandesce
sua sombra
Ali onde a aventura conserva os cascos
do vudú da aurora
Ali onde o arco-íris da linguagem está
carregado de vinho subterrâneo
Ali onde os orixás dançam na velocidade
dos puros vegetais
Revoada das pedras do rio
Olhos no circuito da Ursa Maior
na investida louca
Olhos de metabolismo floral
Almofadas de floresta
Focinho silencioso da sussuarana com
passos de sabotagem
Carne rica de Exú nas couraças da noite
Gavião-preto do oeste na tempestade sagrada
Incendiando seu crânio no frenesi das açucenas
Bate o tambor
no ritmo dos sonhos espantosos
no ritmo dos naufrágios
no ritmo dos adolescentes
à porta dos hospícios
no ritmo do rebanho de atabaques
Bate o tambor
no ritmo das oferendas sepulcrais
no ritmo da levitação alquímica
no ritmo da paranóia de Júpiter
Caciques orgiásticos do tambor
Com meu Skate-gavião
Tambor na virada do século ganimedes
Iemanjá com seus cabelos de espuma.
1 512
Paula Nei
De Viagem
Voa, minha alma, voa pelos ares
Como um trapo de nuvem flutuante!
Vai perdida, sozinha e soluçante,
Distende as tuas asas sobre os mares!
Leva contigo os lânguidos cismares
Que um dia acalentaste, delirante,
Como acalenta o vento roçagante
A copa verde-negra dos palmares.
Atira tudo isso aos pés de Deus!
Lá onde brilha a luz e estão os céus
E virgens mil coroadas de verbenas.
Isto que já brilhou como uma estrela,
A Deus, dirás, só pertenceu a ela,
Corpo de anjo, coração de hiena.
Como um trapo de nuvem flutuante!
Vai perdida, sozinha e soluçante,
Distende as tuas asas sobre os mares!
Leva contigo os lânguidos cismares
Que um dia acalentaste, delirante,
Como acalenta o vento roçagante
A copa verde-negra dos palmares.
Atira tudo isso aos pés de Deus!
Lá onde brilha a luz e estão os céus
E virgens mil coroadas de verbenas.
Isto que já brilhou como uma estrela,
A Deus, dirás, só pertenceu a ela,
Corpo de anjo, coração de hiena.
911
Pedro Magussi
Anjo Meu
Anjo Meu
A tua imagem esvanecida
Não está no tempo perdida
Também , não foi esquecida.
Jamais será por mim apagada,
Pois está bem guardada
No fundo do meu coração.
A tua presença , eu sentia
Quando via,
Crescendo dia a dia
O ventre de sua mãe .
Você, foi tão esperada,
Que contava a tua chegada
Nos dedos de minha mão.
Mas, quis o destino, num dia
De azar ou de má sorte
Desfazer os sonhos meus,
Pois Deus , dono da vida e da morte
Fechou os olhos teus.
Foi então que o dia tão esperado
Se tornou desesperado
De repente , tão amargo
Que não de para esquecer.
Mas hoje , quando eu olho pro céu eu sei
Que deus, diante de sua inocência,
Vendo a tua beleza,
Fez de ti um anjo seu.
Só ai eu me consolo,
Pois se na terra, jaz no solo
És no céu, também
Um anjo meu.
A tua imagem esvanecida
Não está no tempo perdida
Também , não foi esquecida.
Jamais será por mim apagada,
Pois está bem guardada
No fundo do meu coração.
A tua presença , eu sentia
Quando via,
Crescendo dia a dia
O ventre de sua mãe .
Você, foi tão esperada,
Que contava a tua chegada
Nos dedos de minha mão.
Mas, quis o destino, num dia
De azar ou de má sorte
Desfazer os sonhos meus,
Pois Deus , dono da vida e da morte
Fechou os olhos teus.
Foi então que o dia tão esperado
Se tornou desesperado
De repente , tão amargo
Que não de para esquecer.
Mas hoje , quando eu olho pro céu eu sei
Que deus, diante de sua inocência,
Vendo a tua beleza,
Fez de ti um anjo seu.
Só ai eu me consolo,
Pois se na terra, jaz no solo
És no céu, também
Um anjo meu.
927
Roberto Piva
Manifesto da Poesia Xamânica e Bio-Alquímica
para meu antepassado
nº serpente
1. O mundo são os Lugares de Poder
2. Sacralização xamânica do cotidiano
3. Perspectivas bio-regionais
4. Selvagem & Sagrado
5. Gaviões são divindades solares portadoras de poder
6. Hórus-Falcão rei das duas terras
7. Ecologia da Linguagem
8. Estados alterados da consciência
9. O Gavião fala por nossa boca
10. Xamã: sacerdote-poeta inspirado que em transe extático percorre o inframundo, florestas, mares, montanhas & sobe aos céus em "viagens". Dante foi um xamã-cabalista que conheceu em sua viagem pelos 3 mundos os orixás travessos da Sombra.
11. O olho divino do gavião se transforma em plantas florescentes
12. ÍSIS, Virgem Negra, mãe do Hórus
13. O Gavião plana acima das metrópolis-necrópolis
14. Divindade dos limites do Horizonte
15. "A orgia faz circular a energia vital & Sagrada"
M. Eliade
16. "A marginalidade é formada por aqueles que estão "out" — aqueles que não tem acesso ao poder estabelecido involuntariamente por miséria, ou voluntariamente por escolha estética-religiosa"
Timothy Leary
17. Deixe a Visão chegar
18. É a hora da despedida dos deuses do deserto & chegada dos deuses da vegetação
19. Conspiração sagrada dos terráqueos anônimos & guerreiros do Zuwya
20. Estado de conhecimento sensorial
21. "Dirige as flechas da voz dos jovens para celebrar o gozo desta terra"
Píndaro
22. Ilha subterrânea do gavião. Livro Egípcio dos Mortos. Bardo Todol. Orixás & vida quântica. O caminho do xamã é o caminho do Coração.
XAMÃS PELA NOVA CONSCIÊNCIA
nº serpente
1. O mundo são os Lugares de Poder
2. Sacralização xamânica do cotidiano
3. Perspectivas bio-regionais
4. Selvagem & Sagrado
5. Gaviões são divindades solares portadoras de poder
6. Hórus-Falcão rei das duas terras
7. Ecologia da Linguagem
8. Estados alterados da consciência
9. O Gavião fala por nossa boca
10. Xamã: sacerdote-poeta inspirado que em transe extático percorre o inframundo, florestas, mares, montanhas & sobe aos céus em "viagens". Dante foi um xamã-cabalista que conheceu em sua viagem pelos 3 mundos os orixás travessos da Sombra.
11. O olho divino do gavião se transforma em plantas florescentes
12. ÍSIS, Virgem Negra, mãe do Hórus
13. O Gavião plana acima das metrópolis-necrópolis
14. Divindade dos limites do Horizonte
15. "A orgia faz circular a energia vital & Sagrada"
M. Eliade
16. "A marginalidade é formada por aqueles que estão "out" — aqueles que não tem acesso ao poder estabelecido involuntariamente por miséria, ou voluntariamente por escolha estética-religiosa"
Timothy Leary
17. Deixe a Visão chegar
18. É a hora da despedida dos deuses do deserto & chegada dos deuses da vegetação
19. Conspiração sagrada dos terráqueos anônimos & guerreiros do Zuwya
20. Estado de conhecimento sensorial
21. "Dirige as flechas da voz dos jovens para celebrar o gozo desta terra"
Píndaro
22. Ilha subterrânea do gavião. Livro Egípcio dos Mortos. Bardo Todol. Orixás & vida quântica. O caminho do xamã é o caminho do Coração.
XAMÃS PELA NOVA CONSCIÊNCIA
2 223
Ona Gaia
Que amor não se explica
Que amor não se explica
e na vida permanece?
é a noite que passa
e o coração não envelhece.
Que faço no mundo
repetindo o mesmo fim?
é a espera celerada
de sermos sempre assim.
Que poder é todo em mim
coisa que não saiba?
é inexistir no céu as sombras
dos receios onde tudo caiba.
Que será após vivido
corpo-alma conhecido?
será algo parecido
como o porvir ter sido.
e na vida permanece?
é a noite que passa
e o coração não envelhece.
Que faço no mundo
repetindo o mesmo fim?
é a espera celerada
de sermos sempre assim.
Que poder é todo em mim
coisa que não saiba?
é inexistir no céu as sombras
dos receios onde tudo caiba.
Que será após vivido
corpo-alma conhecido?
será algo parecido
como o porvir ter sido.
834
Pe. Osvaldo Chaves
Sonho Medieval
Véspera de São José. Em Fortaleza. No Ceará.
As duas torres magras da Prainha
Estiram os pescoços para cima:
Duas garrafas brancas cheias de luar!
São dois poetas hirtos, absortos no infinito,
Cismando à beira-mar!
E com os olhos perdidos na luz rala
Sonham o sonho medieval
Das grandes catedrais,
Essas catedrais monumentais
Que falando a linguagem
Das ogivas e dos vitrais
Só elas falavam;
Porque naquele tempo o homem
Só ouvia,
Só podia
Entender
o que falasse do grandioso,
Do que há de sublime
No ideal religioso.
E a Prainha está sonhando,
Tão satisfeita por julgar que abriga
O coração da Idade-Média orando!
E as sombras vão cada vez mais baixando...
E a igrejinha, tão linda,
Sonha ainda.
E no sonho levanta um dos seus dedos góticos
Cheios de escamas batidos pelo malho do luar:
Um dedo colegial, taful,
Borrado de tinta azul.
Um dedo sonâmbulo
Que ela põe na boca da noite de asas de jaçanã
Para ao mar reclamar
Um momento de pausa no seu rataplã!
E o mar se cala
Para ouvir a sua fala...
Então diante do silêncio sentinela,
Do silêncio vespertino,
Ele começa dando a palavra
Ao badalo solene dum grande sino,
O Centenário
Que entoa o hino
Milenário
Do universo cristão;
Assim
Para o coração
Da Idade-Média ouvir:
"Adágio, andante, allegro, largo, maestoso..."
E lentamente as badaladas pelo espaço lá se vão...
"Marziale" agora, "prestíssimo, scherzo, molt piano",
Vão também muito além do sentimento humano,
Lá para onde os sinos,
Mínúsculos,
Franzinos,
Da humana razão em vão badalarão!
Este além, porém, aonde elas vão
E a fé que tem o coração cristão
E a melodia que os ares corta, num frenesi,
São acordes sem nomes,
Alguma coisa de Carlos Gomes
No prelúdio do Guarani!
E o Centenário continua,
À luz da lua,
Dobrando, badalando, bimbalhando,
Desmanchando-se em hinos
Ao sonzinho infantil de mais três sinos
Argentinos,
Cristalinos,
Que pulam, pinotam, saracoteiam
Em tomo de si mesmos
De boca aberta, gritando,
Assombrados com o Centenário
Virando e revirando!
De fato
É tão grande o aparato
Daquele declamador de badaladas,
Que quando recita os seus poemas de bronze
Parece com uma boca escancarada
Que engoliu ferozmente o próprio corpo;
Uma boca enorme, colossal,
Cuja língua secou de tanto badalar
Contra os rígidos beiços de metal!
E a Prainha acordou do sonho medieval,
No dia seguinte,
Cheinha de fiéis do século vinte.
Fortaleza, março de 1946.
As duas torres magras da Prainha
Estiram os pescoços para cima:
Duas garrafas brancas cheias de luar!
São dois poetas hirtos, absortos no infinito,
Cismando à beira-mar!
E com os olhos perdidos na luz rala
Sonham o sonho medieval
Das grandes catedrais,
Essas catedrais monumentais
Que falando a linguagem
Das ogivas e dos vitrais
Só elas falavam;
Porque naquele tempo o homem
Só ouvia,
Só podia
Entender
o que falasse do grandioso,
Do que há de sublime
No ideal religioso.
E a Prainha está sonhando,
Tão satisfeita por julgar que abriga
O coração da Idade-Média orando!
E as sombras vão cada vez mais baixando...
E a igrejinha, tão linda,
Sonha ainda.
E no sonho levanta um dos seus dedos góticos
Cheios de escamas batidos pelo malho do luar:
Um dedo colegial, taful,
Borrado de tinta azul.
Um dedo sonâmbulo
Que ela põe na boca da noite de asas de jaçanã
Para ao mar reclamar
Um momento de pausa no seu rataplã!
E o mar se cala
Para ouvir a sua fala...
Então diante do silêncio sentinela,
Do silêncio vespertino,
Ele começa dando a palavra
Ao badalo solene dum grande sino,
O Centenário
Que entoa o hino
Milenário
Do universo cristão;
Assim
Para o coração
Da Idade-Média ouvir:
"Adágio, andante, allegro, largo, maestoso..."
E lentamente as badaladas pelo espaço lá se vão...
"Marziale" agora, "prestíssimo, scherzo, molt piano",
Vão também muito além do sentimento humano,
Lá para onde os sinos,
Mínúsculos,
Franzinos,
Da humana razão em vão badalarão!
Este além, porém, aonde elas vão
E a fé que tem o coração cristão
E a melodia que os ares corta, num frenesi,
São acordes sem nomes,
Alguma coisa de Carlos Gomes
No prelúdio do Guarani!
E o Centenário continua,
À luz da lua,
Dobrando, badalando, bimbalhando,
Desmanchando-se em hinos
Ao sonzinho infantil de mais três sinos
Argentinos,
Cristalinos,
Que pulam, pinotam, saracoteiam
Em tomo de si mesmos
De boca aberta, gritando,
Assombrados com o Centenário
Virando e revirando!
De fato
É tão grande o aparato
Daquele declamador de badaladas,
Que quando recita os seus poemas de bronze
Parece com uma boca escancarada
Que engoliu ferozmente o próprio corpo;
Uma boca enorme, colossal,
Cuja língua secou de tanto badalar
Contra os rígidos beiços de metal!
E a Prainha acordou do sonho medieval,
No dia seguinte,
Cheinha de fiéis do século vinte.
Fortaleza, março de 1946.
909
Olegário Mariano
Kremme
Foi um dia de kremesse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.
E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.
— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.
E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.
Depois de rezá três prece
Pra que os santo me ajudasse,
Deus quis que nós se encontrasse
Pra que nós dois se queresse,
Pra que nós dois se gostasse.
Inté os sinos dizia
Na matriz da freguezia
Que embora o tempo corresse,
Que embora o tempo passasse,
Que nós sempre se queresse,
Que nós sempre se gostasse.
Um dia, na feira, eu disse
Com a voz cheia de meiguice
Nos teus ouvido, bem doce:
Rosinha si eu te falasse...
Si eu te beijasse na face...
Tu me dás-se um beijo? — Dou-se.
E toda a vez que nos vemo,
A um só tempo perguntemo
Tu a mim, eu a vancê:
Quando é que nós se casemo,
Nós que tanto se queremo,
Pro que esperamos pro quê?
Vancê não falou comigo
E eu com vancê, pro castigo,
Deixei de falá também,
Mas, no decorrê dos dia,
Vancê mais bem me queria
E eu mais te queria bem.
— Cabôco, vancê não presta,
Vancê tem ruga na testa,
Veneno no coração.
— Rosinha, vancê me xinga,
Morde a surucucutinga,
Mas fica o rasto no chão.
E de uma vez, (bem me lembro!)
Resto de safra... Dezembro...
Os carro afundando o chão.
Veio um home da cidade
E ao curuné Zé Trindade
Foi pedi a sua mão.
Peguei no meu cravinote
Dei quatro ou cinco pinote
Burricido como o quê,
Jurgando, antes não jurgasse,
Que tu de mim não gostasse,
Quando eu só amo a vancê.
Esperei outra kremesse
Que o seu vigário viesse
Pra que nós dois se casasse.
Mas Deus não quis que assim sesse
Pro mais que nós se queresse
Pro mais que nós se gostasse.
1 443
Oliveira Neto
O Solitário
Tristonho e desolado, um homem solitário,
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus — o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor — justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeira,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
— Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus — o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor — justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeira,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
— Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
1 032
Oliveira Roma
Avante!
Ao operário brasileiro
Operário, tem fé! Na oficina modesta
Em que vivo isolado e esquecido, moirejo,
Paciente mas tenaz, preso do alto desejo
De, como tu, ser bom e ter sempre a alma em festa.
Operário também, cheio de crença, nesta
Ânsia de progredir, humílimo, antevejo
A paz universal — o luminoso beijo
Em que o Infinito Amor, puro, se manifesta.
Não te causem vexame esses calos, que são
Em tuas mãos de herói, os emblemas fecundos
Do Labor, da Honradez e da Resignação.
Bendize o teu destino intenso, extraordinário.
Bendize-o porque Deus, arquitetando mundos,
Foi Ele — o próprio Deus — o primeiro operário.
Operário, tem fé! Na oficina modesta
Em que vivo isolado e esquecido, moirejo,
Paciente mas tenaz, preso do alto desejo
De, como tu, ser bom e ter sempre a alma em festa.
Operário também, cheio de crença, nesta
Ânsia de progredir, humílimo, antevejo
A paz universal — o luminoso beijo
Em que o Infinito Amor, puro, se manifesta.
Não te causem vexame esses calos, que são
Em tuas mãos de herói, os emblemas fecundos
Do Labor, da Honradez e da Resignação.
Bendize o teu destino intenso, extraordinário.
Bendize-o porque Deus, arquitetando mundos,
Foi Ele — o próprio Deus — o primeiro operário.
974
Oliveira Roma
Em u’a Festa Matuta
Nhá Quitéra! Nhá Quitéra!
Cuma tá bom hoje aqui!
Parece inté sambação
Lá da roça onde nasci!
Num pensei qui esta fonção
Tivesse o forte condão
De me fazê recordá
Aquelas noites de lá,
Condo a gente inté se esquece
Da própria vida, pensando
Qui o samba também é prece
Qui pro céu vai se elevando...
Nhá Quitéra! venha cá
Uvi minha alma gemê
No meio das alegria,
Bendo sonho e prazê!
Venha iscutá do meu peito
A ladainha da dó.
Cuma tá bom hoje aqui!
Parece inté sambação
Lá da roça onde nasci!
Num pensei qui esta fonção
Tivesse o forte condão
De me fazê recordá
Aquelas noites de lá,
Condo a gente inté se esquece
Da própria vida, pensando
Qui o samba também é prece
Qui pro céu vai se elevando...
Nhá Quitéra! venha cá
Uvi minha alma gemê
No meio das alegria,
Bendo sonho e prazê!
Venha iscutá do meu peito
A ladainha da dó.
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