Azathoth
Um turbilhão de imagens
Arasta consigo a consciência,
Perdido em estranhas viagens
Ao sabor da demência.
Ao som de flautas partidas
A sanidade desfaz-se em pó,
Rodeada por estrelas caídas,
A ordem do caos reina só.
Amorfo, cego, Deus e idiota,
No centro de toda a entropia,
O Criador da matéria morta,
O único inimigo da harmonia.
Nos seus vómitos profundos,
Envoltos em nevoeiro escuro,
Universos, estrelas e mundos
Giram em volta do Mal puro...
Tão puro que atrai e arrasta a luz,
Tão negro que a sufoca completamente,
Onde nem mesmo a morte pode viver,
Um pesadelo sonhando permanentemente.
"That last amorphous blight of nethermost confusion which
blasphemes and bubbles at the centre of all infinity -- the
boundless daemon sultan Azathoth, whose name no lips dare
speak aloud, and who gnaws hungrily in inconceivable, unlighted
chambers beyond time amidst the muffled, maddening beating of
vile drums and the thin monotonous whine of accursed flutes."
- H.P. Lovecraft
O Mosteiro Abandonado
Murmúrios no vento...
Na mais alta montanha: mosteiro abandonado,
Perdido no tempo...
Neve (algodão?)
Cobre bela a paisagem (apenas imagem?)
Sob sol de Verão...
E ela chora, naquela janela aberta,
Aguardando, etérea, a altura certa:
Um só instante,
Tão distante...
Mas, um dia, o dia chegará,
Hora a hora, por essa hora esperará...
Um dia...
Talvez um dia...
E o vento trará nos braços alegria...
Sonhos de Pó
The truth in me,
Too dark to see,
So bitter the taste,
Now the poison runs free.
-Mathias Lodmalm
Luz pálida,
A bela fragrância de uma lua calma,
Mas inútil,
É a escuridão que lhe abraça a alma.
As suas lágrimas,
Flores que o vento insiste em ceifar,
Imemoriais os tempos
Em que as estrelas lhe podiam falar.
Não se move,
Continua a querer o que não pode ter,
A chuva cai,
Deseja aquilo que não pode acontecer.
Os seus gritos
Embalam horrendos os seus ouvidos,
Sonhos de pó,
E o vazio que lhe perfaz os sentidos.
O relâmpago,
Um coração em brasa perde o brilho,
Depois trovão,
A noite que chama alto pelo seu filho.
Eco que persiste,
O bolso revela a lâmina sem hesitar,
E em vão resiste,
Dor esmaga o medo de se entregar.
Suave o corte,
Tal como as carícias de quem amou,
Chora na morte,
As lágrimas que também ela chorou
Quando a matou...
O Metropolitano
Num rosto
Nasceu e faleceu
Um sorriso
Que riu e ruiu.
Um Sol
Caído e ferido,
Astro-rei
Queimado, gelado.
Mas é assim que acaba tudo,
Sem saber aquilo que poderias ter alcançado,
O teu olhar tornou-se mudo,
Desconhecido um paraíso que jaz inexplorado.
Olhos sem brilho,
De luz despidos,
Nem caminho nem trilho,
Hotéis escuros...
Impuros...
Horror em tudo o que vês...
Olhos e caras,
Foges e páras,
Sombras e luzes,
Pregos e cruzes...
O som do martelo,
Tão suave, tão belo,
Apenas mais uma crucificação,
Apenas outra só razão
Para esquecer...
Para adormecer...
O túnel, o clarão,
Pensamentos, sentimentos a brotar,
O chiar e o trovão,
Tão poucos momentos, tanto para dar...
Em sangue um sol... não se tornará a erguer, infeliz...
Pedaços de algo outrora eterno são cadáver nos carris.
Sempre
Falta de ar,
Perda de visão:
Sintomas da morte,
Arautos da Escuridão.
Sinos que tocam,
Prisioneiro de um caixão,
Mas... Então?!...
Porque ainda bate o meu coração?
And it kept pulsing beneath the Earth,
A crimson jewel underneath six feet of dirt,
Forever waiting an impossible rebirth...
Fogo Imundo
Não dou sangue,
Mas roubo e tiro,
Sou vampiro.
Verdade crua!
Sou a Lua,
Brilho com a luz
Que não é minha.
Venho e vou,
A maré sou,
Afogo, inundo...
Teu mundo...
Memórias Perdidas de Tempos Esquecidos
Tudo o que tenho para te recordar
Está a meu lado: o teu vazio lugar
Que ninguém parece poder ocupar.
Que alternativa existe, para além de morrer,
Quando a única razão que temos para viver
É exactamente aquela que tentamos esquecer?
E o mais belo sonho que podemos sonhar
(O teu sorriso... Os teus olhos a brilhar...)
É aquele que temos de matar e enterrar...
As memórias perdidas de tempos esquecidos
Saem das sombras, voltam para me assombrar,
São os ecos das palavras que não te pude dizer,
Todos os sonhos que geram pesadelos ao acordar.
Um corredor sem sentido, nenhuma porta se abre,
Uma vida sem destino, a fechadura recusa a chave.
"Vem muerte tan escondida,
Que no te sienta venir,
Porque el plazer del morrir
No me torne á dar la vida."
-Miguel De Cervantes
Para Mais Tarde Recordar
Falas com luz
Que acende, reluz,
E que o Sol inveja;
Olhas com pérolas
Que o Mar deseja...
Sou como sou,
Nada posso fazer,
Nada a não ser
Se calhar talvez
Dizer outra vez
Como amo e te amo.
Tal como eu,
Eu sou eu
(Assim como eu),
Somos iguais,
Todos diferentes
E todos iguais.
Perguntei,
Disseste que sim,
Eu concordei,
Num sonho sem fim
Até terminar...
Inferno ao céu!
Fogo ao mar!
Raios de prata,
Rasguem o ar!
Grito com o vento,
Agarro o momento,
Guardo-o cá dentro,
Para mais tarde recordar...
"Night Music,
It keeps spinning inside my head,
Night Music,
Its all the things you never said..."
— Dio
Em Vales Encantados
O rio parou
E perguntou
À bela princesa (que na margem
Olhava o reflexo da sua imagem)
O porquê das suas lágrimas.
Depois continuou
E dias depois voltou
Carregando na sua corrente
Mensagem de teor urgente
Enviada pelo príncipe.
Milhares de flores,
Mil dores e amores,
Orquídeas, papoilas e rosas
Que flutuavam vagorosas
Desde destino longínquo.
E uma sublime doce canção
Atravessou os vales encantados
Serpenteando entre o silêncio
Daqueles bosques perfumados.
As Vozes da Noite
O Sol não nasce para os que amam,
A Lua, negra, não os pode consolar,
Uma a uma, apagam-se as estrelas,
Até não ficar nada para os iluminar.
Enterrados, numa sepultura sem nome,
Para sempre aprisionados no seu caixão,
Sentindo na língua o sabor dos vermes,
Os sonhos agora pregos no seu coração.
Espectros, vagueiam ainda sem destino,
Para sempre movidos pela perpétua dor,
Tentando libertar-se do que já perderam,
Sabendo que não há vida depois do amor.
"Morte..."
Desejo morto, a causa do seu sinistro pranto,
Direito negado aos seres do mais puro branco.
"Morte..."
Acariciando o silêncio, por um breve momento,
Um suspiro arrancado à pálida noite pelo vento.