Lista de Poemas

O Bem e o Mal

O bem é ser livre
E voar muito além dos pinheiros da montanha.
O mal é ser cativo
E ter olhos de pássaro cegados por agulhas.

O bem é ser jovem
E conquistar com passos decididos a estrada do ideal.
O mal é ficar velho de repente
E fazer um triste inventário de rugas.

O bem é ser semente
E fecundar de palavras o vento e a terra.
O mal é ser solo estéril
E não poder estalar de arroz e mistérios.

Como é árduo escolher o bem!
Voar pode ser extremamente perigoso,
Melhor ficar cego às verdades mais simples.

Como é difícil escolher o bem!
O ideal é chama que se apaga,
Melhor ficar velho diante da própria impotência.
Como é amargo escolher o bem!
A terra se cobre de ervas daninhas,
Melhor ficar calcinado do silêncio do deserto.

Mas se escolhermos o mal,
Não veremos nunca a paisagem além da montanha,
Não teremos o coração rejuvenescido do doce ideal,
Nem provaremos o alimento capaz de nutrir nossas
entranhas mais profundas!

6 249

Cheia de Graça

Maria era cheia de graça...
A graça estaria na sua forma?
No seu corpo longilíneo de garça,
No seu cabelo
Esgarçando feito véu?
No seu aspecto singeloe níveo
De esposa imaculada?
Na composição
De cada uma de suas partes
Formando um todo harmonioso?
Na expressão dos olhos,
Nos gestos,
Nos movimentos de quem sabe
Recolher água em cântaros
Para beber
E banhar-se?

A graça estaria no espírito?
Seria beleza invisível,
Estilo de ser,
Dons e virtudes
Escorrendo como caudas de cometas?

Gazela,
Bailarina,
Camélia,
Que graça seria a dela?
Que milagre inspirado
Era Maria
Cheia de graça!

938

Oração

Senhor,
Envia um anjo teu,
Que ele entre em minha casa
E tome lugar de honra
Como quem vem para um banquete.

Pode ser Miguel,
Valente,
Arcanjo poderoso
Com toda milícia celeste
Que percorre os ares.

Pode ser Rafael,
Pajem,
Estrela-guia
Que nos acompanha
Nesta difícil viagem.

Pode ser Ariel,
Jeriel,
Nanael,
Qualquer um que desça do céu
E diga que teu reino está próximo
Dentro do meu ouvido.

1 163

Bicho Esquisito

Poeta é cão perdigueiro
Farejando tudo:
Até no lixo
Encontra cacos de estrela.

Poeta é inseto de antena,
Captando sons,
Imagens,
Mensagens telepáticas.

Poeta vive procurando rastros,
Códigos cifrados,
Hieróglifos em rosetas.

Poeta vive deixando trilhas,
Caindo em armadilhas,
Desvencilhando-se de teias.

Poeta vive catando sinais,
Atento a gestos, a gosmas,
A gemidos no vento.

Poeta é bicho esquisito,
Meio cachorro,
Meio mosquito,
E com mania de perseguição.

1 661

Camalotes

Na cheia
Os camalotes bóiam,
Estufados corpos aquáticos
Que a correnteza leva;
Conjunto de leques duros,
Verdes,
Que se dissolvem no silêncio;
Aqui e ali um buquê de flores
Arrebenta lilás;
A malha fina de raízes
Apanha peixes,
Escamas,
Pés delicados de pássaros que pousam;
A canoa de folhas
Navega sem leme
Rumo à foz,
À pedra,
Ao mar que espreme
E espuma.

1 073

Jasmim-do-Cabo

Todo jardim deveria ter um jasmim-do-cabo,
aquela flor que perfuma,
embalsama,
derrama óleo grosso
nos pés da noite.
Todo jardim deveria ter um jasmim-do-cabo,
o dia transcorreria em agonia,
mas a lua viria
desatar os laços da magia
e nos tiraria o fôlego.
Todo jardim deveria ter um jasmim-do-cabo,
absorveríamos no pulmäo
uma torrente de pétalas brancas
e voaríamos como anjos
tocando banjos na noite.
(1994)

1 413

Cabelo

Estou triste,
Cortei o cabelo.
Näo sou mais adolescente
De tranças
E olhos lânguidos.
Näo sou mais moça,
Balançando a crina,
Como égua musculosa
Na colina.
Näo sou mais princesa,
Usando tiaras,
Arrastando a coma
Como se tivesse na cabeça
A cauda de um cometa.
Adeus, cabelame !
Derrame de seiva sobre meus ombros,
Véu natural
Com que penetrava câmaras ardentes.
Por que cortei o cabelo ?
Por que näo o mantive longo,
Mesmo branco e seco,
Preso na nuca
Por marfim e pentes ?

(1995)

1 176

Napoleão

Sonhei que era Napoleão
Como qualquer louco
Que tem direito a seu sonho.

Como Napoleão
Sonhei com uma coroa,
Um manto,
Um naco de mundo entre os dentes.

Como Napoleão
Sonhei com palácios,
Abelhas, lírios,
Passeios num cavalo branco.

Como Napoleão
Sonhei com pirâmides,
Tempestades de neve,
Uma cama de campanha no deserto.

Como Napoleão
Acordei
E não era dono de nada,
De nenhuma ilha,
De nenhuma bússola,
De nenhuma glória.

Como Napoleão
Acordei e vi que tudo era sonho.

1 220

Elegância Suprema

Caminho por um tapete violeta
Estendido sobre nuvens.
Como é suntuosa tua morada!
Gotículas de chuva
Cristalizam-se em diamantes
E raios de sol
Pendem das colunas
Como correntes de ouro!

Meu rei, meu Senhor!
Quanto fausto!
Quanto brilho
Na tua túnica,
Na tua coroa,
No escabelo
A teus pés!
Por que ocultaste até o último instante que eras rei?
Por que não trouxeste teu séquito de anjos?
Tuas hordas,
Teus leões,
Tuas trombetas?

Por que te abandonaste a ti mesmo?
Indefeso,
Preso ao madeiro
Como fruto apodrecido?

Meu rei, meu Senhor!
Que suprema elegância!
O manto,
O cetro,
O olhar que me lanças
E que gera e mim a ânsia de combate,
A fé segura,
O equilíbrio.

Como eu poderia adivinhar
Que um homem era Deus?

1 251

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Paulo
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Identificação e contexto básico

Raquel Naveira é uma poeta, cronista, artista plástica e performer brasileira. Nascida no Rio de Janeiro, é conhecida por sua obra multifacetada que transita entre a literatura e as artes visuais. Sua produção poética é frequentemente associada a uma sensibilidade lírica e a uma exploração da subjetividade feminina.

Infância e formação

(Informação não disponível)

Percurso literário

Raquel Naveira iniciou sua carreira literária como poeta, mas expandiu sua atuação para a crônica e outras formas de escrita. Sua obra poética evoluiu explorando temas como o amor, o corpo, a memória e a condição feminina, com um estilo que combina lirismo e uma certa urgência existencial. Participou de diversas antologias e publicações literárias.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Raquel Naveira é caracterizada por sua intensidade lírica, pela exploração do universo feminino e pela busca de uma linguagem que articule o pessoal com o universal. Aborda temas como o amor, o erotismo, a maternidade, a perda e a resiliência, muitas vezes com um tom confessional e intimista. Sua escrita se destaca pela musicalidade, pela força das imagens e pela capacidade de evocar emoções profundas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Raquel Naveira insere-se no panorama da literatura brasileira contemporânea, dialogando com outras vozes femininas e com as discussões sobre identidade e representatividade. Sua obra reflete um período de efervescência cultural e de novas possibilidades de expressão para as mulheres na arte.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos (Informação não disponível)

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória (Informação não disponível)