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Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Ona Gaia

Ona Gaia

O Sentido do Amor

Devir Louco

Que me desculpem os seus exacerbados paladinos, mas o devir louco é o reino das paixões. E a paixão? oh! a paixão, o que é isto caro leitor? É bem possível que você tenha a sua opinião. Apesar disso, permita que eu externe a minha. Bem, antes de mais nada a coloquemos no seu devido lugar, ou seja, dentro do corpo. Afinal, toda e qualquer paixão emana do corpo e o corpo é a sua fonte primeira e última. No corpo, a paixão é uma das nossas emoções, como o medo, o susto, a alegria, a coragem e etc. Inclusive, delas, é a principal, posto ser através da paixão que os animais suprem suas necessidades básicas, como a alimentação e o acasalamento. Decididamente, por ser uma emoção básica em qualquer animal, a paixão não é uma conquista da civilização ou da cultura. A paixão, sem dúvida, não é uma invenção humana.
Os seres humanos, entretanto, incorporaram as diversas paixões possíveis, isto é, as emoções, aos seus códigos, símbolos e condutas culturais. Entre os procedimentos necessários da paixão, decodificados e incorporados nas manifestações culturais, um dos mais antigos é a postura de caçador. Esta veio a ser a base modeladora de muitos mitos e ritos ao longo dos 100 mil anos de existência do Homo sapiens sapiens. No bojo dessa postura caçadora veio a paixão pela guerra.
Como condição necessária da vida animal, as emoções evocam situações restritivas uma vez que as necessidades são necessárias apenas enquanto o prazer é ausente. Se há falta, há necessidade e a sua satisfação é o seu limite. Além da necessidade há outra coisa, mas não mais o domínio da emoção. Há sentimento. Porém, a satisfação de uma paixão é o fim e início de outra falta. O ciclo gira em torno da necessidade, da falta e da satisfação, que neste caso, é sempre provisória: mais cedo ou mais tarde o caçador deverá sair à campo atrás de mais caça. E a satisfação, então passageira, não será nada mais ou nada menos do que o retorno da superação de uma necessidade insistindo em voltar. O retorno da necessidade através da permanência da falta, aflora assim que o desejo é satisfeito.
Não há como escapar disso amigo. Se a paixão é uma emoção necessária, sua satisfação deverá ser permanentemente ratificada. Neste caso, enquanto expressão básica da vida animal, a paixão existe porque existe a fome e a reprodução, que garantem a sobrevivência das espécies. Portanto, a paixão está presente no ser humano, assim como está presente nos animais selvagens, sejam mamíferos, répteis ou aves, porque é um instinto básico da luta pela sobrevivência. A paixão, quem diria, hem? é uma emoção demasiada animal!
A guerra só é possível quando existe a paixão por uma causa, na qual a luta pela sobrevivência, traduzida como necessidade de conquista, é um poderoso argumento de convencimento. Entretanto, se é necessidade, isto é, se a paixão é da conta dos instintos e, obviamente, do corpo, então seus parâmetros emocionais estão diretamente relacionados aos ciclos vitais. Ciclos esses que se colocam entre o nascimento e a morte. Em síntese, entre o prazer da vida (o prazer do ganho) e a dor da morte ( dor da perda).
Enquanto substrato de emoções tão díspares, como aquelas que se manifestam no prazer ou na dor, a paixão se manifesta positiva ou negativamente, dependendo do nível da falta a ser satisfeita. Em nome da satisfação da necessidade ausente, a luta e a morte são perfeitamente justificáveis.
Ah, a morte! Limite de toda e qualquer necessidade: a morte de um em prol da permanência de outro; o caçador mata a caça para permanecer vivo; para suprir uma falta só identificável na sua necessidade particular; identidade que só enxerga a si mesmo, acabando por excluir tudo o que é diferente, externo ou estranho. Porém, a natureza caçadora desconhece que ninguém abate uma presa impunemente. Todos os atos efetivados, unicamente, com a emoção da conquista, compromete os corpos envolvidos para sempre. Portanto, a conquista do outro ou do mundo, para a glória do ego, compromete o eu, o outro e ou o mundo, numa mesma miragem sem cor.
Como a paixão se manifesta no corpo, para o corpo e pela química do corpo, que segundo alguns até pode ser identificada e quantificada, ele é a sua catedral. Por isso que a morte desde o início, foi uma questão importante para a consciência. Uma vez que todo esforço visava a manutenção do corpo, como a sua ruína poderia ser tão inexorável, irrevogável, inevitável e improrrogável? Não, não poderia. A morte não era o limite do corpo e, com isto, descobriram a alma, coisa cuja estrutura invisível, sobrevivia além da carne. Opa, incrível! para espanto de alguns, logo descobriram que a alma também apresentava necessidades a serem satisfeitas. Daí inventaram a religião e, as suas manifestações, que desde sempre, foram expressadas através da paixão. Trágica paixão.
As necessidades da alma seriam carências muito profundas que, por sua vez, no extremo oposto, estavam na essência da vida. Por isto o homem inventou este artifício chamado religião, decidido a suprir a maior de todas as faltas, a da vida depois da morte. Visando preencher suas bases: falta, identidade, necessidade e exclusão; desviaram todos os recursos excedentes - aqueles os quais ficaram além das necessidades, quando foram produzidos ao longo do desenvolvimento das civilizações urbanas -, para um corpo invisível, intangível e cujas necessidades e faltas, de fato, ninguém sabia dizer ao certo quais eram. E muitos, em nome disto, se desviaram da natureza e do próprio corpo, porque quiseram acreditar que a vida, a eterna, não era física, porém incorpórea; incomensurável e perfeita mas no entanto, absolutamente fora deste mundo.
Projetada para o espaço inatingível, a paixão criou deuses, santos e até homens coroados por espíritos sobrenaturais, que se apropriando de necessidades divinas impossíveis, justificaram conquistas, massacres, extermínios e a exploração de uns poucos sobre a maioria. E o poder de alguns homens ser mais especial que dos demais mortais, encontrava justificativa por estes se nomearem os representantes, na Terra, das necessidades espirituais segundo as quais eles deveriam suprir.
Está claro que a paixão é eminentemente masculina. Afinal ela não foi aperfeiçoada pelo caçador e pelo guerreiro? Então!?!.. Nada de ilusão, óbvio que ela também está presente na mulher. Aliás, a eminência masculina da paixão no ser humano não se manifesta, forçosamente, do mesmo modo como nos demais representantes do reino animal. É mais que sabido, que entre os leões, por exemplo, são as fêmeas que caçam. Entretanto, cada animal é um animal e embora a paixão se manifeste em todos, foram os homens, através da caça e da guerra, que lapidaram e legaram às civilizações, a atitude apaixonada. A paixão, na mulher, veio a ser reconhecida apenas quando a alma foi descoberta. E o ingresso delas nos rituais até então masculinos, de iniciação espiritual, veio a ser tardio.
Entre as paixões que se manifestam na mulher, a especial, é a que diz respeito à reprodução. Por conta disto a paixão, na mulher, é mais objetivamente (efetivamente) agradável do que no homem. Ou seja, a mulher sente no corpo a satisfação da necessidade reprodutora. Através do sexo, a mulher tem no prazer, algo muito mais objetivo que o homem. Nele, as paixões da caça, guerra e religião, tornam-no mais subjetivo, muito mais estratégico. Na mulher não. Seu corpo físico é um campo de emoções poderosas, pois dele emanam sensações orgânicas, muito mais ricas do que nos homens. Mas ela também está entre o prazer e a dor e nela isto é muito mais bem percebido, visto não adiantar a satisfação de certas faltas, mesmo na fartura haverá a menstruação e senão, a dor do parto.
Na base da nossa atual civilização, entre as paixões, aquelas que foram consideradas as mais importantes de todas, são as da alma. E com um significado trágico: na Idade Média isto se tornou mais claro, ao interpretarem
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Natalício Barroso

Natalício Barroso

O Mercador

Deus, como se fosse o artífice meticuloso
e um mercador de pedras preciosas,
bordou o Universo num tapete
enrolou-o
e saiu com ele pelas ruas de Nova York.
Tinha muitas estrelas para vender.
Cada uma delas valia milhões.
Mas como o Universo não é composto só de estrelas
mas de cometas, anéis e arco-íris
(para não falar nos meteoros, etc.)
Deus também bordou a sua sombra, como se fosse um halo de
luz,
em volta do Universo.
Em Nova York, Washington e Maryland
Deus carregou o tapete sobre os ombros
e anunciou-o levando uma lua cheia na cabeça
e um relâmpago tão enredado quanto uma serpente nos
braços;
mas ninguém quis comprar.
Nem mesmo os árabes, donos de camelos
petróleo
e oásis no deserto;
nem os turistas,
cada um mais atarefado do que o outro,
que todos os dias desembarcam em Miami.
Estavam todos muito preocupados
com a cotação da bolsa em Wall Street
e com o dsempenho de alguns pilotos na Fórmula 1.
O Universo, para eles,
não era precioso:
— nem o Universo
nem os astros;
por isso Deus sentou-se numa grande nuvem,
quando se sentiu cansado;
abriu o tapete e pensou:
"— A Lua", disse ele olhando para a Lua,
"não vale um dólar;
o Sol, que eu pensava valer alguma coisa,
não vale nada (nem um raio de atenção)
e os anéis de Saturno que, para mim,
eram incalculáveis nem mesmo suscitaram
atenção".
Deus ficou tão ofendido
quando percebeu isso que, no lugar de desenrolar
e guardar o Universo a seus pés,
enrolou e guardou a sua sombra.

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Nauro Machado

Nauro Machado

Contumácia

Maldita a vida me seja,
três vezes maldita seja
a vida que me desastra
e que por ser-me finita,
três vezes seja maldita
e amaldiçoada madrasta.

Quem me fez como um qualquer,
dormindo aonde estiver,
saiba deste desprazer,
para sempre e desde saiba,
para que o seu Ser não caiba
na pequenez do meu ser,

que eu não pedi para estar
com minhas pernas no andar,
com minha emoção a sentir
este universo que tapa
a minha boca num tapa
e a minha língua sem Ti,

essa coisa que fede a iodo,
como a água do mar ou do
envelhecimento o rim,
essa coisa que derrama
seu púbis velho de chama
a extinguir-se quase ao fim,

corpo de Deus! Corpus Christi!
Viste-O algum dia? Tu O viste
sequer um dia como tu?
Integral e à dor exposto,
desde o cio ao suor do rosto,
desde impotente até nu?

Os meus membros são crepúsculos!
São sangue e iodo os meus músculos,
é iodo e sangue a minha cruz.
Por que não nasci não sendo?
Por que, ao amanhecer, acendo,
noutra treva, cega luz?

Se além da terra existe ar,
se além da terra ainda há
por menor que seja, um seja,
como à noite volta o dia,
como, ao corpo, o que o procria,
como, em mim, meu ser esteja!

Dentro ou fora, qual gaveta,
para que, em mim, o ser meta
quem, em mim, é este meu ser,
olho, em volta, à minha volta,
e olho nada — só o que solta
de qualquer um: quem ou o quê?

Nada é, pois tudo se sonha.
E se alguém me falar: ponha
tudo o que lhe resta, e resta
no que, ao pôr-se, se me põe,
para que em mim meu ser sonhe,
vivo morto — e a morte empesta!

Como dar à vida pôde
o nada ser que sou de
outro feito pelo ser?
De outro ser, igual a mim,
mas de outro início a outro fim,
noutra vida até morrer?

Ó envelhecer do meu estar!
Da leitura de Balzac,
de La Comédie Humaine,
se passaram tantos anos
nos malogros desenganos,
sem disfarce ou mise-en-scène.

Bela Eugénie Grandet:
sois lembrança a anoitecer
pelas tardes do meu Carmo,
quem me traz a quem não sou
na usura do pai Goriot
que me a mim dá, para dar-mo

no meu duplo a ser mais dois,
quais búfalos que são bois,
ao mar meu a ser mais mar de
ontem que ao ser-te, alma, foi-te,
nas noites que são mais noite,
nas tardes que são sem tarde.

Só me lembro das andorinhas,
que hoje são luas-vinhas
que iam e vinham às seis,
só me lembro das sequazes
na imprecisão de alguns quases,
na distância de vocês!

Róseas ruas da memória,
róseas ruas hoje escória
que a soçobrar mais me sobe,
afundai-me na lembrança
hoje cravos da criança
que meu cadáver descobre.

Como, à noite, acendo a lâmpada,
para imitar (rampa da
noite) uma inútil manhã,
como o como que mais como,
assumo, na idéia, o pomo
da primitiva maçã.

Assumo o dia original.
Nascimento à morte igual,
nascimento em morte assumo
nesta página onde, em branco,
minha vida inteira arranco
do nada em que subi. E sumo.

E sumo a sós. Mas prossigo:
"na idéia é bem maior o trigo
que na boca o próprio pão,
na idéia janto a sós, comigo,
o pão real que mastigo
feito de imaginação".

Azul manhã em contumácia!
Negra noite, azul, te amasse
a idéia sem pensamento,
te amasse a própria Idéia
reduzida a uma hiléia
sem ar, floresta, rio, vento.

Locador de um condomínio
frustrador de um hímen híneo,
frustrador de um hímem são,
locador que loca um louco,
de carne e ossos sou reboco
deste barro em maldição.

Tudo é farsa, menor dor.
Sou, em mim, o que me sou
desde o ventre que me fez.
E contemplo a arraia, e raia
dela, como de uma praia,
a noite toda. Ei-la aqui. Eis:

andaime, sucata, ferro,
vagido, vagina e berro,
viatura e papelório,
passa tudo, e é a viatura
conduzindo à sepultura
meu ser morto. E sem velório.

Pois viu a terra e além bebeu-a,
pois viu o tempo e disse: é meu, à
solidão cerzindo a roupa
onde, se me dispo, visto
o sexo nu de algum Cristo
que, despido, não me poupa.

Dez anos de coito cego
são as metáforas que lego
à solitária da escrita,
aonde não chega ninguém
exceto o vazio que vem
de uma montanha infinita.

Ao ouvir da tarde: fracasso!,
conquanto, vergando, os braços
dissessem: pára, enfim finda!
e morre, ó alma desgraçada,
eu ousei retornar do nada,
ousei retornar ainda.

Abandona, ó rei, abandona
o abono de qualquer cona
além do sangue e da queixa.
Cerca a tua casa e a mura
com o suor da tua estatura,
e deixa o remorso, deixa-o!

Senhor do teu sofrimento,
vai-te com o diabo e o vento,
vai-te com a noite e o monte.
E fala, ainda que mudo,
que, do nada, igual a tudo,
sobre ambos nasces. E põe-te!

Elimina todo se
da pretensão de existir
na existência que é demérito,
e no não haver nascido
elimina-te existido,
elimina-te pretérito!

Eliminar o talvez.
Não saber dia, hora ou mês,
não saber até o minuto
em que me vim sendo feito
plantando a morte no peito
e o espinhaço no meu fruto.

Por que o vemeversoverbo
da herbívora erva que eu erbo
no meu plantio masculino,
inverte o chão do seu galho
arrancado do assoalho
repicando como um sino?

Ter olhos-Deus! olhos-sóis
tem-no o Deus que cego a sós,
tem-no o horizonte a pôr-se
como colírio em dordolhos,
tem-no quem me olha nos olhos
como se cego eu já fosse!

Ah!, se a pedra me fizesse
fazer-me cobrir quem desce
à região do ser meu se,
para não haver nascido
ou o houvesse enfim já sido
sem que eu dissera: nasci!

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Tu me pediste notícias da Grécia:

Tu me pediste notícias da Grécia:
de Lisboa
por Goa e Madragoa e Itamaracá
me fui partindo e, pois, já tenho
algumas notícias da Grécia e escrevo
entre a mulher da bela cintura
dos olhos verdes
e o mar:
por mar chegadas, por mar envio
as notícias da Grécia;
redijo em alto mar entre
a madrugada jônia e a madrugada
de Maragogí — sudeste
do país dos Mourões.

E eras uma vez:
da cintura de Apolo o tornozelo dáctilo
vinhas e ao vinho o pé arisco —
de corda em corda a pisar na cítara
e em teu andar
notícias recentes da Grécia:
muitos corpos foram assados e o cheiro
da cútis das vítimas de fina raça
subiu das brasas e a fumaça
odorífera e a labareda e as libações
embriagavam os belos mancebos vindimados;
e era uma vez
Febo Apolo, o deus do arco de prata e lira de ouro
e ao teu andar, ao pé arteiro, a melodia
corda a corda
das notícias da Grécia:
aguardo informes: — aplacara a
hecatombe o deus irado ou, vagabundo
passeia Apolo pelos bosques
de aljava a tiracolo?

Escrevo no meio do mar entre a Grécia e a Itália
talvez Ilíria;
respirei quanto pude a violeta divina
vem o vento dos montes e à essência
das rosas maceradas
amadurecem-me as narinas sábias:
tal a rosa-dos-ventos dia e noite ao faro
dos navegantes.

E era uma vez Apolo e era uma vez uma palmeira
e os escravos de Dona Úrsula Mourão acharam
a imagem de São Gonçalo
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas
e na manhã seguinte a divina creatura
era de novo achada ao pé da mesma palmeira
e foi trazida para casa e louvada
em cânticos e ladainhas

e no terceiro dia — fugira durante a noite —
voltou à sua palmeira
e Dona Úrsula Mourão, mais os homens
e as outras mulheres e as crianças
foram cantando e se assombrando até a palmeira sagrada
e em duas medidas de sua sombra
riscaram um retângulo
e ergueram uma capela e onde
era seu tronco é hoje o altar
de São Gonçalo dos Mourões
e estas
são noticias da Grécia:

respirei fundo a violeta divina
de Tênedos a Delfos e guardei
a palmeira nos olhos e o templo na serra;
e era uma vez
na ilha flutuante uma palmeira
uma palmeira em Delos e ali
soprou Apoio a flauta e desde então se fez
estável a ilha
imóvel Delos por pisá-la um Deus:
e era macho e belo e tangia também
uma cítara de ouro e do arco de prata
a flecha disputava ao relâmpago
alvo e risco no céu; e sobre a pele
da serpente na trípode sagrada
uma virgem fundou o lábio imaculado
de conceber o oráculo: o divino pênis
aquecido na boca a sacra Pítia
da garganta emprenhada devolvia o sorvo cálido
a palavra profética: —

‘E AEYOEPÍA

e é na boca das virgens e no ventre das ninfas
e semente fecunda
e à sua volta — e à sua cítara
as fêmeas aprendiam a língua e a voz dos deuses
e os rapazes aprendiam o poder dos deuses
e os adolescentes mortos
tornavam à vida e a vida era fundada
à sua volta e à sua cítara;
e era fundada a morte à volta
de seu arco de prata — e os outros deuses
o expulsaram do Olimpo —
estas são noticias da Grécia:

de erguer-se o canto, toda voz se apaga
e as ilhas cessam de flutuar e os deuses
invejavam os carneiros e os pastores
tangidos pelos montes da Tessália
à lira de ouro. E ao seu acorde
em pétala e aroma a bem-amada abria
o coração do heliotrópio e o rosto
do adolescente — amor alheio à vida e à morte —
nas folhas do jacinto doloria
e à mera melodia iam surgindo
o loureiro, a romã, o girassol e o mirto
e o zimbro e o lotus
e o galo e o gavião e o cisne
e a cigarra e o grifo
e era a palmeira e à sombra dela
a invenção do santo e as ladainhas
de Dona Úrsula Mourão;
estas são, amor, as notícias da Grécia
e eu recebi no mar:
ao sul a palmeira de Delos e ao norte
as palmeiras — Camaragibe e Ibiapaba, País dos Mourões —
lá onde a vida
aguça a seta nas aljavas de prata
e a morte
se canta à lua-cheia na viola na cítara
de Apolo adolescente.

Tenho notícias da Grécia, algumas:
noticias para a tua cintura pequena e os calcanhares
o chão dos deuses exilados
e lembranças de um deus: no exílio,
de seu canto se sustentava e ao canto
— sustento dos deuses e perigo dos deuses —
floresciam os homens e o rei Midas foi punido
e em sua própria frauta soprou Mársyas
sua própria morte; e ao canto
— ó sustento dos deuses, ó perigo dos homens! —
por auroras e noites perigosas
tenho notícias da Grécia — algumas —
da corte de Admeto na Tessália
da cor das águas ao redor das Cícladas
das virilhas cheirosas de Kirina, Hotel Adrianos,
do vôo do gavião no ar da tarde
do poeta caldeu na noite de Poséidon
dessa relva curvada à brisa do Parnaso
Danai tragountai Danai e Lyda e uma canção
e uma taberna e o vinho
e a inocência e o espanto de Hiacinto
e o zéfiro da morte em meus cabelos.

Ao terror da delícia os olhos brilham
pisa a planta dos pés a palmilha de pedra
rastro incandescente de um deus:
quem sou eu que te trago
as noticias da Grécia — algumas —?
o doce filho
da raça dos Mourões — país de para lá
da linha do Equador onde o pecado
não é e os homens
são machos e as mulheres
fêmeas — onde
à sombra das palmeiras e em seus troncos
aparecem os deuses e seus santos.

Vem, formosa mulher, camélia pálida,
que banharam de luz as alvoradas
na concha de tuas mãos a água verde
flauta diáfana de água à pétala
do lábio estremecia
e desmanchada ao canto — ao canto
a água sugeria de novo o gomo verde
a flauta diáfana de água
ao milagre dos dedos e do sopro:
bem que me deste, tu mesma, as notícias da Grécia
e eras jônica e coríntia, às vezes dórica
em teus quadris eólios tua concha
à relva eólia
à pétala do lábio estremecia e era
a melodia de tuas flautas escondidas:
começara
no golfo de teus olhos a viagem
ao verde mar por onde
a lua esverdeara a lua
de mel dos cabelos
de Helena à espuma
do desvairado amor:
e estas são notícias da Grécia e um deus
tangia cítaras e ovelhas e os homens
jurados à beleza
domavam o cavalo, a nau, a lança, a espada e a terra
orvalhada de sangue dos guerreiros — um deus
anunciava
a vida e a morte por amor do amor
e anunciava a vida e a morte e os machos
do país dos Mourões.

pois o Major Galdino, meu avô,
cortava a taquara da serra com seu punhal de dois gumes
e ao fim da tarde e ao nascer da manhã
no alto do pé de tamarindo
pendurava a gaiola de alçapão armado e dentro dela
ou galo-de-campina de cabeça de púrpura
ou juriti arrulhadora:
e da copa das cajaranas de ouro
o outro galo-de-campina — a outra juriti —
vinha aprender
a banda de laranja a talhada de melão o arroz
a água do pequeno alguidar de barro e o canto
solitário entre as varetas de bambu — e logo
eram duas gargantas a cantar e era
aos ouvidos do risonho Major
um canto novo — e tu,
pássara chamadora,
ao furo de meu punhal na taquara
a flauta pura ao céu
azul irás sorvendo
soprada em sopro novo a velha
canção que cantavam as pássara
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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Pange língua gloriosi

Pange língua gloriosi
corporis mysterium:
Bernardo de Clairvaux atravessou os Alpes vinha de
Roma e trazia uma relíquia — o dente de São Cesário
pela Ibiapaba pela Mantiqueira os Pirineus e os Kárpatos
por Lisboa e Padova onde a língua de Antônio — trago
por nova York Buenos Aires e São Paulo
uma relíquia e calem-se
os pregões da Bolsa
trago a língua de Apolo a língua viva e pange a língua
do corpo glorioso o oráculo celeste.

Desce a tarde sobre os ananazes
e as mangabas verdes e os cajus vermelhos
em Feira de Santana:
consulto a bússola
onde o Norte da Musa — ali
é o pomar onde colher a viagem madura
e à sombra das mangueiras
entre as folhas morena
Antonieta Mello fundava a dor sagrada e a flor
do puro coração
e canto agora
aos céus de Mecejana
seu sorriso triste sua lágrima
seu lírio imarcessível enquanto
desçam as tardes sobre os ananazes:
abre, menina, o coração
na serena madrugada,
se o coração não me abrires
eu não sou eu nem sou nada:
pois junto
das de coração alanceado eu sou eu
sou eu
e amor
e dor,
Apolo,
e as amorosas e as dolorosas
sabem meu nome e a porta
de minha casa:
pois canto agora Antonieta Mello e um dia
desta partitura para flauta doce
em tua língua, Apolo, hão de dizer
que entre Alecrim e as Quintas
Antonieta Mello teve um cantor

Pange língua — pois canto no caminho
as coisas e as pessoas do caminho
do país dos Mourões a teu país, Apolo,
e teu país é meu caminho — e meu caminho
é minha residência
— pois
sobre meus pés caminho
e ao longo
de minha sombra —
e minha sombra
responde ao sol e à lua
seu mapa essencial:
não viajo de mim —
nesta fronteira
Ich bin der Markgraf
e o margrave marca
sua fronteira
e sua
fronteira é sua sombra
e habito minha sombra e sou
cartógrafo de seu mapa sob a planta
dos pés limito minha nação
pois natural
de praça e rua de monte e val
a pura sombra
dá deferência — deferimento
ao mero corpo:
ali sou eu onde o luar
defira à noite minha memória
pela raiz de minha sombra onde
o resíduo de meus dias

As viagens viajam a viagem
e além não vou
de minha sombra
sou nela imóvel
— eppur si muove —
e às vezes
passa-mo Apoio as rédeas de seu carro de fogo

E pelo lago
do céu pisando estrelas
até
a lapa do mundo galopavam
os cascos faiscantes:
um dia sobre as areias de Paranaguá
caminhava uma estrela:
para tua cabeça
aluguei uma estrela
para tua cabeça noite dia o diadema
de um beijo
em teus cabelos fulgurei — e o cometa
coruscante na omoplata banhou
o espinhaço moreno

no céu curvo e profundo
fundiu-se e resta
a glória moribunda
de sua coma
desde
até
e um dia me disseste:
"faz um milagre"

escrevia com o dedo sobre a página
"faz um milagre" — pedias
escrevia com o dedo sobre a areia
a rima de seu nome —
"faz um milagre"
e o dedo incandescente ejaculava cometas
à rima de seu nome

In firmamento coeli rorabam coeli desuper
e enquanto
os perfumes perguntam por teu seio
nubes pluant rosam e o trevo
de teu nome responde

no orvalho da madrugada:
poeta, ego
íncola dos trevos — íncola
de um trevo
desde
até
pois alí oh laudes regis — calida latet
el trébol — el trébol
ó oriunda de Calíope

a rosa veste a túnica e um perfume
de talictres silvestres veste o trevo
amante amore amavi amatam
desde as celestes fugitivas
e Carmen (carminum)
até

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Pois José Cupertino cantava na praça

Pois José Cupertino cantava na praça de
São Luís do Maranhão
já não entravam os deuses em seu negro
corpo — e as mãos
imploravam sobre a cabeça branca: — "um Deus
é um sopro" — e José Cupertino
soprava na praça à tarde de São Luís
— "sem o sopro eu sou um pneu vazio
já não me ouvem os deuses não me querem"
e requebrava e chorava e cantava:
—"Eu trepei na ponte
a ponte quebrou
sou moço bonito
desembargador" — e se embargava
a voz — e os deuses
não olhavam sua beleza
nas calçadas de São Luís:
— "sou moço bonito
desembargador" —

Canta o concrís canta a gamarra canta
o galo-de-campina ao céu
de Campina Grande — e ali
bêbada e bela pereceu Clarice
os cabelos de ouro numa poça de sangue:
resta uma cruz na estrada e esse aroma
de jasmins e maracujá na tarde
de Campina Grande
e a tua lira, Apolo, resta
onde canto o aroma a flor a morte ensangüentada
e adorno a morte
com flores e seus frutos
o jambo o dáctilo o espondeu
e os verdes anapestos

Pois vejo o anjo a verbena o verso o verbo
transitivo
florescido nas vozes e nos tempos e nos modos
finitos e infinitos — e Apolo
ensina a fonte de jorrar
o infinitivo dos intransitivos.

O amante de si mesmo beija as águas — mas Apolo
ergue das ondas deusas calipígias e onde
era espuma onde água verde brotam
em suas mãos
as cabeças castanhas
e as avelãs
as tuas avelãs
amada
de cintura fina e de redondo seio.

Nascido em minhas mãos um nome busco
para teu seio — Mirabelos —
um nome-próprio
para a touceira
de madressilvas
de tuas coxas — Delta-Delphulvia

Aqui, Apolo, venho
fundar o nome das partes de seu corpo
onde fundaste
teu tempo e teu país
e aqui
em tua data e em teu sítio
queimado o calendário se lerão nas cinzas
minha data e meu solo
pois sou datado e minha data
é a data da Sibila dos profetas hebreus
no chão do Apocalipse, Patmos,
entranhas de Capricórnio — e ali
arúspice de si mesmo
o poeta se lê — e a decifrada vítima
imola o imolador e entre
os outros deuses
ocupa o seu lugar:
pois somos, Dionísios,
Apolo, somos
as ovelhas de Deus e o deus que tange
os cordeiros nos montes da Tessália:
e em mar e, monte

e em ribeira e rio
vou profetizando a profecia
pois inventei o verbo depoente
e seu modo e seu tempo
e é este o depoimento:
profissão
— Inventor da palavra — Edi —
a voz ativa a voz passiva
reflexa perifrástica
Afrodite
germ
herm
afro
ditirambo

A flor a profecia
do fruto na corola
aos ventos inclementes
despetalada —
Pois posso a aurora e a noite
arconte epônimo da lua e das estrelas
Posso o azul posso o verde
posso as vogais e as consoantes
a cana-rosa
o cabrito montês o touro a égua
a ipecacuanha o cravo
a peroba a canela a cascavel o acônito:
— mas quem pode deter pupila e pálpebra?
pois meus olhos não posso
e neles vai crescendo a morte sua planta
florescido no talhe de meus filhos
já altos entre outros rapazes.

Mas posso a flor e a profecia
do fruto na corola
— Scardanelli —
pois tenho, Apolo, o prumo
da flor sobre seu fruto.

e José Cupertino cantava na praça de São Luís do
Maranhão e às vezes
por sua boca por seus ouvidos por seus poros
pelos buracos de seu corpo
entrava um deus em seu corpo — e ali
aprendi sua visita nas entranhas
e o possesso possui a possessão de um deus
e à chama de sua língua na boca acesa
arde o clarão de teu nome
e em Lambda e Léa
digo amor
nos lábios crepitares

Venho de um deus e
só do que me esqueci me vou lembrando
e só o que perdi procuro e acho
na touceira de relva e de cidreira
cidra
romã
respondem de teu corpo
aromas formas formaromas
assim chamados:
pois comedor de deuses
Abol
Apfel
Apple
Apolón
e um dia, Apolo,
os deuses serão fêmeas e na praça
de São Luís do Maranhão
o sopro e o sumo e a polpa
fruta à fruta o coração se nutra
da cidra e da romã:
pois
Apfel
Apple
Apolo e Apoléa —
seio por seio.

1 167
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

No caminho de Aretusa

No caminho de Aretusa
Hellas
elas
me iniciaram na língua e no alfabeto da língua:
sabem agora os engenheiros e os empreiteiros:
fui eu o ausente na torre de Babel
guardo a letra o dissílabo o fonema
e as chaves da sintaxe:
— enquanto
os povos se desentendiam em torno
da areia e da argamassa
e esqueciam o verbo e o advérbio
nosotros recusamos
a vã alvenaria
ficamos de serviço, Efraín, com as nove meninas
trabalhando na boca as promessas de amor
em que sois mestre, Apolo:
na sesmaria de violetas e girassóis por onde
o ditongo maiêutico e a vogal eólia
nominam nome e nume
a Euterpe e às outras
ao gavião e à pomba e à brisa
e ao pêssego e à mulher
e ao arco à flecha ao trigo ao vinho à abelha à fava ao favo
e Artemis e Afrodite
e Eleu
theria.

Quem se esqueceu pode lembrar-se
e a semente da letra em sua leiva Linos
faz florescer em Lambda e lírio
— "Do you speak english"?
— "No, darling",
não estive na torre de Babel
lambda loquor et lillia convallium
e entendo a água o ar o fogo o azul
e Lúcia e Laura e Léa
e Luciléa e Lauriléa
e Lucilauriléa
e os cavalos e as éguas relinchando
na madrugada de Pajeú das Flores
e o motim de amor
dos gatos no telhado de Iolanda

Não estive em Babel — estive
em Delfos e em Pentecostes
e a Musa e a Virgem-mãe
Mariamusa — Maria Leto Letícia
repartiram comigo a língua de fogo
e só ela conheço e tenho
o dom da língua
e me entendem o hebreu e o gentío
e seus dialetos voltam
à fonte e à flor
et fons et flos
dos tempos aurorais e a silaba da aurora
posou-me sobre a sílaba dos lábios
beijou-me a boca e neste beijo
lateja o paladar de um deus
e os outros deuses
massacram meu coração e as moiras
me plantam a demência na cabeça:
invejado dos deuses
"invejado a invejar os invejosos" — João —
testemunho a beleza e canto
a possessão de seu corpo
e adúltero da adúltera
choro a noite infiel
Afrodite Helena Eleu
theria
trina teu nome trino
pelas montanhas
do país de Apoio onde pisaste
as amoras maduras

Cobrem- me o palitó as borboletas e as libélulas
e aos lábios sábios de teu nome os beija-flores
chegam e digo
Mel
po
len
me
ne
e é
de mel
a nossa lua
desde

neiro
a janeiro
es
cravo
desse tufo de cravinas
na virilha em flor por onde a sílaba
da rosa pestaneja a pálpebra
e balbucio
o cio
verbo gerúndio e gerundivo
das intatas auroras
videndus videnda videndum videndi
video videmus videtur videbam
visionem
visa visione
ablativo absoluto
declino a Musa
Musae
Musaram
Musis
e o Musageta.

1 035
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Violava as borboletas e as violetas

Violava as borboletas e as violetas
lhe floresciam onde
as abelhas cercavam a sagrada colmeia:
Laura celebrava os ritos
e as outras concelebravam — pois
as bochechas cheias de esperma
Salústia e Beatriz borrifavam as alfaias
— manejava Mônica o estrangulado príncipe
com as sementes leitosas aspergindo
pupila umbigo e seio
orvalhavam gotas de opalina as axilas peludas
mas Laura
celebrava os ritos:
ao clarão do falus
ao mergulho litúrgico
celebrava os ritos
na rua Paula Freitas
sacrifício de lírios e verbenas
nas tardes pluviais
serviço de Perséfone e Afrodite
esmagada na relva a boca
na boca a relva:
o macho à fêmea a fêmea ao macho
imolados à súbita Ginandra

vinham cantando à primeira semente
de Apolo Ginandreu
— pois Laura
celebrava os ritos
nos quadris em flor

E deitado no mel das brisas flamejantes
ego poeta começo o canto e digo:
— "já nada mais existe, Apolo, e apenas somos
na primavera do tempo
quadris em flor" — e Laura
celebrava os ritos.

Quando
as borboletas violavam as violetas
inauguravam os áugures o augúrio
e as palavras pereciam no lábio
esquecidas de si mesmas
a sós contigo, Apolo,
e com a ninfa da vida e com a ninfa da morte
murmurei o sopro da inefável canção:
— pois somos celebrados enquanto
Laura celebra os ritos.

Mestre de cerimônias o poeta oficia
a cerimônia do silêncio:
o canto é seu ofício — mas
o imolador se imola enquanto
Laura celebra os ritos

Um a um vêm os deuses chegando
ao banquete da própria morte
e da ressurreição — pois Laura
moribunda e nascitura Laura
agoniza a agonia de nascer de novo
e ao ritmo e à tempestade de seu corpo o poeta
celebra os ritos —
e ali
começa a nossa coisa cosa nostra, Apolo,
de nossa raça:
ego poeta sacerdote e vítima
celebrado celebro a celebrante
e o espaço
perde a sua medida
e o tempo
perde a sua duração
pois Laura
celebra os ritos:
brota de minha cabeça o cometa
de seus cabelos e sob
a torrente de seus cabelos meus olhos
fitam o príncipe erguer
da maçã de seus oasis de relva
a cabeça da rosa
e ali
a derradeira súplica o suspiro e o pranto
pois Laura
despetalada
recompõe a rosa — Laura
celebra os ritos.

Desaprendi teus outros nomes
e na sabedoria do esquecimento
invento as novas sílabas
— Laura te digo
e à minha língua sábia
de teu próprio humus de tuas folhas te ergues — Laura
celebrando os ritos

Então começa — então termina
Laura
então se perde —então se busca
Laura
e neste chão o meu sepulcro e a minha fonte
de minha morte jorro e piso
minhas pupilas derelictas:
pois no rastro de Apolo
Laura celebra os ritos.

1 067
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Olho com olho

Olho com olho
tua pupila dura
sobre
a beleza feroz de tua boca
acompanhou meu canto — e não sei
se pouco a pouco ou de repente
começaram a nascer em tua pele
umas flores azuis — e brotaram
em teu rosto e invadiram
tua cabeça e cobriam
teus olhos e teus lábios e cresciam
em tufos nas orelhas e se abriam sobre
as narinas e a nuca e o seio e as pernas
e formavam uma
touceira de madressilvas onde
eram antes os ásperos pentelhos
e os beija-flores e as abelhas acendiam
a tesoura de suas asas fulgurantes
e sorviam o mel em teu semblante
rosa — margarida — violeta
e eu disse em vão teu nome — pois
as corolas cambiavam de cor à minha voz
Açucena e Magnólia
e às vezes
te desabrochavam da cútis
milhões de miosótis multicores — e outras —
eras toda um girassol de ouro — pois
de tua pele estão nascendo flores — de tuas
virilhas o antúrio vive — e um dia
de teu hálito à tua voz
se irão compondo nos lábios os gerânios
rosas-moiras e grinaldas.
de lavanda silvestre — e ao teu aroma
brotarão de meus dedos e de meu umbigo
e do sexo farejante
narinas insaciadas

Pois começaram a me nascer narizes
por todo o corpo e me passeias
os pulmões
e aspiro
e inspiro
tua presença odorífera — e a doçura
do orvalho orvalha
agora as violetas onde
fora a dura pupila de ouro

Também contemplo as tuas dimensões
pois ás vezes também me nascem, Godo,
dois miserandos olhos sobre a nuca
e quando
pergunto o meu futuro responde o meu passado
e quando
contemplo o meu passado vejo o meu futuro — e assim

caminho e sou
eu mesmo a minha própria órbita
mísero misérrimo vazio
e cheio de misericórdia
misericordioso pranto cerca os horizontes
e arrastando-me na areia
arrasto um Deus pelos cabelos e interpelo
Apolo, Apolo mostra
ao cego iluminado onde
o passado começa e o futuro termina
pois
o mísero poeta prisioneiro
nem de seu passado nem de seu futuro se liberta
e em vão
vê o cesto das horas
encher-se em vão da água de seus dias

Uma noite a rapariga de Serajevo apontou-me os Balkãs
e por vinte dinars começou a ler a minha mão
esquerda ao pé
de um poste sob a lua
de repente calou-se e passou a ler em silencio
— ou rezava talvez —
e começou a chorar — e as lágrimas
caíam de seus olhos ciganos
e o pranto vinha de longínquos países
e ela banhava com ele a minha mão Perplexa
e beijava e enxugava em seus cabelos
e eu não sei de outra palavra senão
a que naufragou em sua pupila e se despedaçou
em seu soluço quando
o cálamo vivo de seu dedo se erguia
do mapa de minha palma e apontava no ar
não sei se as serras dos Balkãs
não sei se as serras da Lua
não sei se os montes de Vênus
ou. as estrelas
de Capricórnio

E assim, amor,
em teus olhos transidos tenho lido
a estrofe e a catástrofe
de minha peripécia:
velhas terras me envenenam os pés
sobre o fio dos passos me devolvo
del mezzo del cammin e não me perco
na selva escura onde, Ariadne,
o chão musgoso guarda
a memória sábia do caminho
me Venerem quarente
per talos et paludes:
pela planta dos pés me envenenaram
esses doces venenos e rorejo
dos poros o suor deste mel — e das pupilas
oh dulce lacrymarum donum in quo salus
salus mundi salutat — pois Apolo
Apolo pai, Apolo filho, Apolo pneuma
caminha só entre as estrelas
nos outubros salubres do país.

1 211
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Nasci tocando viola

Nasci tocando viola
sou Mourão das Ipueiras,
dos Mello do pé-da-serra
reinador destas ribeiras
tanto canto em minha terra
como em terras estrangeiras

As cordas desta viola
são meus pés e minha mão:
no galope a beira-mar
nos oito pés em quadrão;
em martelo e gemedeira
em gabinete e mourão.

Devoto fiel de Apolo
cantador de profissão,
vou cantar o deus da lira
de minha religião
quero contar sua vida
fazer sua louvação.

E tanto o canto em sextilhas
como em versos espondeus,
que era Apoio sobre a terra
Deus e homem e homem-deus
pois a fêmea que o pariu
pariu do sêmen de Zeus

Quando Jesus veio ao mundo
nessa noite do Natal,
Maria, pra dar a luz
só encontrou um curral —
me ajoelho e peço a bênção
e faço o pelo-sinal.

Pois canto a história de Apolo
falho de Zeus e de Leto,
foi seu berço uma palmeira
e o céu de Delos seu teto:
mamou nos peitos de Temis
nectar puro e mel do Himeto.

Só Delos teve coragem
de oferecer o seu chão,
pois Hera, mulher de Zeus,
prometia maldição
a quem ajudasse o parto
na terrível solidão

Foi ali aos nove dias
que o Deus Apolo nasceu
Artemis, sua irmã gêmea,
antes dele apareceu,
vestido de linho e ouro
a doce lira tangeu

Pela folhinha dos gregos
faço a conta e não me engano,
foi dia sete de Bysios
que nasceu o deus humano:
fevereiro — entre oito e nove —
do calendário romano.

Até então era Delos
uma ilha flutuante,
quando nela um deus nasceu,
Poseidon, no mesmo instante,
firmou-a no chão com quatro
colunas de diamante.

Apenas nascido Apolo
os cisnes em revoada
sete vezes deram volta
sobre a ilha abençoada
e cantaram glória aos deuses
e paz à terra sagrada.

Mas Hera, mulher de Zeus,
contra a mãe de Apolo
irada ferida pelo ciúme
pela paixão desvairada:
contratou uma serpente
traiçoeira e envenenada:

Era a serpente Python
com cabeça de dragão:
contra Leto, mãe de Apolo,
sem a menor compaixão,
dia e noite ela movia
terrível perseguição.

Era Apolo deus e homem
em todo o seu esplendor,
e como homem — valente,
e como Deus — vingador:
pela honra da mãe armou-se
com seu ódio e seu amor.

Atrás da serpente pérfida
percorreu terras sem conta,
disposto a lavar em sangue
a miserável afronta,
nas cordas do arco de prata
a flecha certeira pronta.

Pelas bandas do Parnaso
foi a serpente ferida,
levou três flechas no lombo
mais inda saíu com vida,
no lugar santo de Delfos
escondeu-se espavorida.

E alí ao lado do oráculo,
da gruta sagrada à porta,
um rugido pavoroso
racha a terra e os ares corta:
com sua flecha certeira,
Apolo deixou-a morta.

É três, é quatro, é cinco, é seis,
é sete, é oito, é nove, é dez,
pegou o couro da cobra
cortou de frente e viés
e com ele fez o assento
da cadeira de três pés.

Era a trípode sagrada
o trono da profetisa,
no umbigo do mundo o céu
e a terra fazem divisa,
e a voz dos deuses se escuta
na boca da Pythonisa.

Pois o deus tomou à cobra
pele e nome por botim:
Apoio Pythio o chamaram
e eu também o chamo assim:
da história do mundo sabe
o começo, o meio e o fim.

E para purificar-se
do sangue dessa serpente,
com Artemis foi a Creta
lavou-se nágua corrente,
Karmanor lhe aspergiu
o corpo e a alma inocente.

Montou um delfim no mar,
veio a Delfos no outro dia,
arrebatou ao deus Pã
a arte da profecia
e pela boca da Pythia
seus oráculos dizia.

Afoito, ao bosque dos deuses
veio um gigante malvado,
quis violar sua mãe
e Apolo ficou irado:
chamou Artemis, a irmã,
e o pacto foi combinado.

Saíram os dois divinos
no arco a flecha certeira,
alvejaram o bandido
oculto numa touceira
e o corpo com duas flechas
rolou pela ribanceira.

Um dia o sileno Mársias
desconheceu seu lugar
e a pura lira de Apolo
pretendia superar
soprando a flauta de Atena
que o ensinara a soprar.

Os deuses e as musas foram
o tribunal julgador
do desafio insensato
feito ao divino cantor
e decretaram a Apolo
a palma de vencedor.

Para glória da poesia,
para dar uma lição,
Febo Apolo esfolou Mársias
e arrancou-lhe o coração,
que o desrespeito a um poeta
nunca pode ter perdão.

De outra feita ele tocava
contra Pã numa função,
Midas prefere o pastor,
e ao dar esta opinião,
duas orelhas de burro
lhe crescem por punição.

Há cantadores famosos
nas feiras do Cariri,
Jacó Alves Passarinho
de Mutamba, Aracatí,
há Romano de Mãe dÁgua,
Sinfrônio do Jabotí,

Azulão em Pernambuco
e Inácio da Catingueira,
Serrador, Cego Aderaldo
e mais Anselmo Vieira
que foi o melhor de todos
por ser filho da lpueira.

Na viola e na rabeca
eu também sou cantador,
mas somos pobres mortais,
eu, Anselmo ou Serrador,
não vamos desafiar
Apolo, Nosso Senhor.

A todos os que ofenderem
o poeta e sua glória,
sejam reis ou coronéis,
dos potentados a escória,
deixaremos pendurados
nos postes podres da história.

Mas canto é Apolo formoso
suas batalhas de amor,
com musas, ninfas e deusas
e raparigas em flor,
nem escaparam mancebos
de seu leito sedutor.

Passou nos peitos Cirene,
Coronis, Ária e Thalía,
Naiades, Graças, Driopes
e a mãe de Dorus, Phytía,
Urânia, Clítia e Kimene
e as nove Musas que havia.

Recusou-lhe a pura Dafne
seu lírio de castidade,
transformada num loureiro
Pasifae — na flor da idade,
as verdes folhas consagra
na doce dor da saudade.

Jacyntho, o belo mancebo
era seu lúdico amor,
quando morto cai na relva
pelo Zéfiro traidor,
inconsolável Apolo
o transforma numa flor,

Pois o amor, a flor e a morte
são obra de sua mão,
são água do mesmo rio,
são fonte do coração,
por onde o sopro de Apolo
rege a humana ordenação.

Seu espírito divino,
mais sábio que Salomão,
sabia a ferida e o bálsamo,
a doçura da canção,
pois era senhor da vida,
da morte e ressurreição.

Para remédio das almas,
fundou a Pythia divina,
para remédio do corpo
inventou a medicina,
foi o pai de Asclépio, médico,
mestre em sua disciplina.

E quando o raio de Zeus
fulminou este seu filho,
na corda tensa do arco
mostrou das setas o brilho,
matou todos os Ciclopes
como quem mata um novilho.

Expulso por Zeus do Olimpo,
foi ser pastor de carneiros,
pastoreava cantando
os rebanhos campineiros
e era o cordeiro de Deus
entre fontes e loureiros.

Exilado sobre a terra,
filho de Deus humanado,
sua canção governava
o bosque, as flores, o prado,
o mar, as fontes, os rios,
por todo o povo estimado.

Os deuses então sentiram
de seu prestígio temor,
voltou por isso ao Olimpo,
1 237
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Pois faço aos tempos surdos

Pois faço aos tempos surdos a doação deste ouvido
e venho doar ao tempo mudo esta língua
aprendi as álgebras do espaço
e calculei às vezes aurora e noite e sou
sabedor de sua hipotenusa e mestre
de sua bissetriz e de seu algarismo: posso armar
no doce teorema de seu caule
a parábola da rosa e sua paralaxe
pois proponho a rosa aos circunstantes desde
seu logaritmo — colho
teu nome em minha boca
e em minha mão floresces
com teu monte de pétalas
com teu seio redondo —
não seria ali
o sítio do desejo, Capitão Gofredo?
e venho e volto e um deus
veste na própria pele o corpo livre e gera
da incessante vida a saciada morte
e da morte incessante esta sede da vida.

Não estão mortos os deuses, Efraim,
sob a defunta máscara seus olhos
cravejados de esmeraldas
coruscam sobre nós
e a rosa de seus lábios
despetala ao fervor de seu sangue botânico
a suplicante saudação:
tu dichorisandra albo-lineata
tu campelia zanonia
tu gladiolus ceruleus
venustus labiatus
desde o musgo do chão ao firmamento firmas
no lírio vertical o fluxo de teu rosto:
também eu — ego poeta
arranco e piso aos pés minha máscara de morto
e sustento o fulgor de tua
pupila incandescente.

Não, Antônio José,
não morreram os deuses e na pata
do cavalo de Alexandre Mourão
na palmeira de dona Úrsula
em teus olhos moribundos, Capitão,
num punhal no relógio da sala
no patacão de prata no retrato da parede na relva
de tuas coxas sagradas
o rastro de Apolo:
ego poeta, ego cartographus
faço o mapa, Gonçalo, desse rastro
entre o cróton e o crótalus terrificus
pois de terra terrífica é o chão onde um dia
deixaste florescer a planta de teu pé:
e as distâncias do mundo
permanecem regidas
à balística de seu passo — não morreram, amor.

E deles os que um dia visitaram a morte
desceram aos infernos
e subiram aos céus no terceiro dia — e um dia, Augustin,
rebentou um ruido dos céus um vento de tempestade
e mandaram descer suas línguas de fogo
sobre a cabeça do poeta
e saí pelo boulevard bêbado de glória
e os Partas e os Medas e os Elamitas
e os que habitam a Capadócia o Ponto e a Ásia
a Frígia a Panfília e as partes da Líbia
perto de Cirene — e os forasteiros
romanos e judeus e seus prosélitos
e os cretenses e os árabes
e os servos e os croatas e os guerrilheiros guatemaltecos
e a puta de Quebec e o travesti de Amsterdam
recolhiam maravilhados
sílaba por sílaba meu canto — pois conheço
o poliedro da palavra — ego poeta
e no sonho dos adolescentes e dos moribundos
fiz minha morada no país de Pentecostes
e abriram-se as fontes das águas em minha língua
e todos entendiam a fala das fontes das águas.

Por isso
Pallas invoco — Palas Athenaia
e Afrodite clamo — Afrodite
e Zeus e Poseidon e Hermes Trimegisto
e Afrodite clamo — Afrodite — e ao seu nome
estremecem frementes
a pele e o corpo dos machos e das fêmeas:
da concha de seus lábios com seus olhos verdes
ergue-se Afrodite
os mesmos ombros de cabelos molhados
pelo mar da Jônia na concha de Poseidon
calipígia a oeste
e a leste — de pentelhos frondosos
mas ninguém lhe acaricia os pêlos
pois transfigurada
ela nos conta
sob a luz das estrelas
sua própria ficção
e não é mais
que a ficção de si mesma
e de sua metáfora a metáfora
a presença real
— e só a morte
dos deuses é irreal:

e da raiz do coração a língua erecta
ousa chegar ao êxtase:
Afrodite! Afrodite!
da transfiguração
de teu nome real
teu rosto original parece
irreal.
Um dia percorríamos a aurora de Montréal
saudávamos os bisontes e os jaguares nas esquinas do
bairro inglês
e alí
cantava o galo no quintal de Teresa e urrava
o touro de Vila Bela no curral de Eufrásio
ao quebrar das barras
na madrugada hermafrodita:
as donzelas e os Travestis e as putas da Guatemala e as
leopardas ciumentas e os lábios no cio perguntavam
— "por quem, poeta, teu amor, por quem?"
Amante sou é de meu próprio rosto — amoroso estou
do lago de tuas pupilas de onde
meu amor é pela gema de meu dedos no pelo
de tuas virilhas — e apaixonado
estou por minha mão que ronda as tuas coxas
pela língua
que diz teu nome — línguabela abelha
no mel de tuas pétalas em tua
rosa negra — e ali
em seu ninho de estrelas mergulhava
o pássaro — e por ele, amor,
o poeta,
e seu amor.

E não morreram — pois
era uma vez uma cidade, Gilbués chamada — e era uma vez
uma mulher por nome Laura — e outra vez
bebíamos o Ballantines twelve years
na fronteira do Maranhão
barrancas do Parnaíba:
sob a celeste água-marinha
da noite piauiense
as doces loucas de Terezina
penduravam sob as mangueiras
no sanatório de Clidenor
entre as douradas mangas-lira os redondos olhos — e a lua
arredondava o seio das putas quotidianas sob
os coqueiros de Ana Paula — e era uma vez uma noite —
e era uma vez
uma cidade, Gilbués chamada — e era uma vez
uma mulher por nome Isidora — Dora —
de Gilbués chegada — e quem se esquecerá
de Mariana — os mesmos olhos
augurais inaugurais
de Sanharó chegada
aos bordéis do Recife:
do trampolim de seu rosto
o peregrino pé ao desferir o salto
cunhara o rastro — e, pois,
por esses rostos e lugares vivo em romaria
Delos Delfos Gilbués Oeiras e ali o Coronel
Victor de Barros Galvão governador das armas
até Olho dÁgua Grande onde Domingos
o Coronel Domingos Mourão Filho
governador dos povos assentava
o rústico condado e cultivava
a rosa do perigo:
pois visconde conde comes senhor e servo
soldado de aventura sou, Apolo,
pelo sangue das veias
de todo chão de todo rosto
onde quer que esse rastro e tua mão
vela sobre nossos capitães
pois flor-de-lis pois rosa
de puro artelho rosa e flor-de-lis
onde marquês marquei minha fronteira pelo
som de uma flauta pela
corda de sua lira — e por ela
joguei a minha noiva e meu condado e meu escudo
de faixa verde em campo de ouro
um castelo em abismo e abismado
entre as coxas das nove castelãs — ali
farejo o faro de teu falus e sou
de tua corte o derradeiro conde
Gerardus derelictus — criatura
de Apolo e de Melpômene
ego poeta
conde do abismo.

Mas teço o pano pastoreio a cabra e forjo o ferro
e planto a cana
e camponez e obreiro
degolo o conde nas auroras de outubro
ego poeta o conde degolado
à beira de seu abismo:
depois com o sopro de meus pulmões
encho de ar os foles de couro
e malho a brasa dos metais
e produzo as estrelas
na oficina onde canto
o meu próprio motim
e o meu próprio massacre:

Pois malho, Apolo, na bigorna os colhões de aço
e o coração de chumbo — e invento
a mágica do ouro e vou
fazendo rosas braceletes pétalas
e outros objetos de ouro
até chegar à lira:
pois criei a minha mão e fiz
eu mesmo a minha própria lira
suas cordas fiei
e modelei os dedos com que as pulso
do pulso às unhas.

peregrino pelas calçadas do bairro
e os rapazes e as raparigas me apontam:
Gerardo
de
lira.
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