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Poemas neste tema

Fé, Espiritualidade e Religião

Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Divididos os idos in dimidio dierum meorum

Divididos os idos in dimidio dierum meorum
vadam ad portas inferi
in dimidio dierum midnight
she knocked at the door in Chelsea à porta
do coração — nos assombrados olhos
tacebit pupfila in oculo meo
e bato à porta do inferno e bato
ad portam paradisi
e aos surdos anjos e aos demônios surdos
emudece no olho a pupila — a minha —
e de olho a olho
sidera
considera:

considerei os astros, Musa,
Musa, Palatini referamus Apollinis aedem:
ali sob o reinado de Hilarius Bogbinder
entre os lençóis de linho e os limões verdes
floresciam as sardas ao redor de teus seios
tua beleza ferruginosa suplicava
os ruivos travesseiros:
chegava Jéssica lavada pelos sumos da lua
chegava por Santa Clara
Ariston
in dimidio dierum meorum:
pois me refiro a Jéssica ao buscar Afrodite
per talos
me Veneram quaerente:
e era uma vez a Infanta do crepúsculo
seus cabelos pesavam nove libras de ouro — e era uma vez
o céu de Coritiba e o vestido escocês
e era sempre Isabella
e o vento vindo de novembro pelo Paraná
me Venerem quaerente
pois quérulo me vou pelas veredas
buscando Vênus:
e onde tornozelos
— ancas
onde ancas
— tua cintura fina
onde tua cintura
— a dança
onde a dança
— Afrodite
e por ali
rastro de Apolo
poetae Venerem quaerenti — Apolo
no inventado rosto
inventa o coração

Chegávamos de junho e julho e agosto
vínhamos às vezes do mar da aurora e às vezes
cavalgávamos serras de saudades — outras
partíamos da noite enluarada
e os tropeiros na estrada tiravam o chapéu
na saudação ao poeta:

palmilhado o silêncio
no rumo da palavra
e onde sua sílaba
por alí Apolo
ludum ludendum ludens

e quando a madrugada explica a rosa
se explica o coração na pálpebra explicada:
mas ai de ti, Louis,
Louis Alphonse Donatien
na boca encarcerada morde
o cerrado botão da rosa muda — e queima
nos olhos moribundos queima a antífona
do próprio requiem —
mas Apolo
desabrocha à lira
a louvação da flor:
a corola celebra teus cabelos
a virilha celebra nome e nume
e este é o ludus do amor
a delta digo ao teu ouvido D e fundo
o alfabeto
em Lambda Delta Beta Kappa:
e assim te chama a língua sábia
o lábio o seio o umbigo a orquídea
a curva pígia
— por isso
uma noite me castraram as Fúrias Eríneas
e os eunucos dividiram entre si o pênis ceifado
e à negra relva o milagre de teu sopro
o ergueu de novo
e cem vezes mil vezes me castraram as Fúrias Eríneas
e os eunucos comiam as rodelas decepadas
mas és mágica e cem vezes
mil vezes
traziam das entranhas e entre antúrios
em seu pendão de cana florescia de novo
a cabeça do príncipe perene
no júbilo do orvalho entre os antúrios

E muita noite
quebrada a flauta
não cessava a melodia — tenho lábios
viciosos de música e de sopro
entre os dedos

teu corpo no ar
e de horizonte a horizonte
modulada canção se desferia
da fonte do desejo — pois ali
nessa clave de lua era soprada a rosa:

E sopro a flauta a rosa súplice
e a canção te compõe e decompõe
de seio a seio

Tanjo a ovelha da letra ovelha à ovelha
toureio o touro da palavra
picador banderilheiro
no trapézio dos chifres perde o solo a sílaba
do coração — e os olhos
guardam gota a gota
a espada matadora
pois tourovelha toureirotouro
arrebanha rebanho vivo
rebanho à morte —
e um dia
há de restar de mim o pranto de Erifânia.

Erifânia!. Erifânia!

Pois busco ovelha por ovelha
e touro a touro enfrento
y me aúlla la perra
Maira la perra
um morto um vivo um touro —
e salto
picador de ditongos e tritongos
sou o amante das Fúrias Eríneas
Eumênidas
Eumênidas
pica —
dor
me castraram de novo
e me busco no ventre das Eríneas
e encontro ao ladrido da perra
Erígona
e Erifânia —
— Erifânia
canta a dor adorada — picador do touro
pica as fúrias amadas
entre as doces ovelhas ao ladrido
de la perra Maira farejando
dissílabos trissílabos tetrassílabos
e chego ao pentassílabo per talos

a brisa violeteira violava
os irados cabelos dessa Moira
e ela ao vento favônio
— Musae, favete —
lavava o favo das pupilas de mel:
mas quem se esqueceria de teus olhos
Isabela Isavela
quem desse verde navegado pelas
borboletas em cio?

Pela perra Maira
a língua varada pela lança
por Maira e Moira
por Erígena e Erifânia e as Eumênídas
Pelas Fúrias Eríneas pela Musa pelas léguas
vou lendo o chão.

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Nascia o gerifalte sobre os ombros

Nascia o gerifalte sobre os ombros
na testa brotavam o louro e a madressilva
a cintura gerava o boldrié de Orion
e a flecha e o arco inteiravam as mãos
o cavalo baio decorria das coxas e das ancas
e nos olhos levantava-se a estrela:
Phaeton! Phaeton!

A caça caça o caçador

A sombra assusta o corpo
mas Apolo
não teme seu fantasma
e o cavalo baio
galopa seu galope
junto ao gerifalte à flecha à estrela
Phaeton! Phaeton!

Pois me nutrias quando
a mão celeste ordenhava as estrelas
apojadas de azul
poeta sum
a boca cheia
dos gomos luminosos
e da Vega da Lira e de Cassiopéia
por isso — Fratello Sole, digo,
Sorella Luna
doce incesto noturno
tu Pythia, tu Phebéia, tu Delphinia
Artemis Artemísia
quia nocte quasi dies
in diebus diabola

Bêbados de estrelas
rolávamos sobre as constelações
no lagar capitoso
Phaeton! Phaeton
Incestuosa —
de nós mesmos nascíamos
e éramos naquele tempo nossa própria fábula
e a mesma flama nos torneia agora
o corpo fulgurante no coração da lenda

Pois quem te lembra nua
empinado el culo quando
ardiam nos lençóis as sarças peludas —
eras a mera lenda
e em tua virilha lendária
fabulava o odor
do pênis mitológico —
Phaeton! Phaeton!

Os cavalos nitrian no pântano, dos astros
e seus cascos
golpeavam os planetas — a espuma
dos meteoros no focinho:
os que Zeus derruba das alturas
deixam no firmamento a Via-Láctea
Phaeton! Phaeton!
teu rastro
Pyrie eleison.

Sob plátanos brancos de uma ilha sepulcral
oficiava ao crepúsculo tua beleza, amor
Phanes Phanus Phalena
Phales Phalerus Phales
Phalanthus Phaletusa
Phaeton Phalanthus Phalus
De falernos
na cavalgada embriagada conhecemos
as veias da manhã e os ossos da noite
pois transpusemos
a aurora e seu crepúsculo
e do tempo regido ao casco dos cavalos falernos
apeei-me à fronteira
da eternidade
Atymnios —
da heroica louvação insaciado

Bebi o vinho do tempo —
e a eternidade
é minha embriaguez
pois não existo mais senão
no coração da lenda — e sou
eu mesmo a minha própria lenda
Phaeton
heroicis laudibus non satiatus
non satiatus
insaciável
inefável
inconsolável
pontífice e histrião
mordia os rins do planeta
e fincando as rosetas das esporas chibateava o lombo
da galáxia
com meu cometa coruscante
Phaeton!
Phaeton!

um trevo nos calcanhares
o rastro dos pés inapagável
dizia norte e sul e leste e oeste
com a rosa-dos-ventos sob os tornozelos
ego poeta
vou caminhando como o som caminha
desde
por
para
até
ubi unde quo qua
et usque quousque
quam diu.

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Digo o que vi — pois vi os anjos

Digo o que vi — pois vi os anjos
montados no lombo das poldras azuis
galopando nos potreiros ao redor da cidade — e digo
o que ouvi —
pois ouvi dizer que as deusas moribundas
voltavam à adolescência no crepúsculo
e se entregavam aos anjos
no lombo das poldras azuis
e muitas outras coisas sei
de ver e de ouvir dizer
sobre anjos e deuses
alguns deuses:
subi à montante do rio dos jaguares
no dorso dos crocodilos e achei
a nascente das águas — e escanchado
no espinhado dos sáurios
passei a divisa das águas — perguntei
todos os caminhos do mar
ao abismo à espuma à latitude
e à longitude — pois habitei
minha própria lonjura
e meu álibi:
a corrente das águas carregando
a imagem de meu rosto por onde
a figura se configura — pois habito
meus próprios álibis:
ali estou onde desejo estar — e desejo
o caminho de teus rastros onde
confinado e livre
confino o mundo — pois o prisioneiro
engenha a liberdade —
engenheiro
do dia e da noite
aloeste a sudeste a nornordeste
e quem queira encontrar-me há de seguir
a rota dos abismos — pois
incola do abismo — o abismo
é meu porto e minha pátria
ego poeta cidadão do abismo

pois mordi, Apolo, a fruta de teu nome
e, conheci o sal e o mel e o vinagre e a pimenta
da palavra — o sangue
dos seres e das coisas e seu vinho e sou
o bêbado dos abismos onde
veraneio os meses entre
demônios cartomantes:
— um moço louro a traição periga há uns
papéis confusos longas viagens dinheiros
curtos a mulher morena em lágrimas uma solteira
uma casada e lágrimas pela porta da rua
outra mulher mais outra
empalidece e treme o valete de espadas
uma ruiva pela porta da. rua por onde as já
citadas lágrimas risco de morte uma herança uma estrela
seus astres e desastres:

— "embaralhe o baralho" — e a mão astuta
arqueava as cartas e embaralhava os naipes
descia
ao abismo de seus signos cercado
de profecias por todos os lados
pois enxergava sempre a musa ali
e o coração estremecia aos olhos
da pythia alcovitada — e às vezes
fulgurei em seus olhos e em meus olhos
conheci minha verônica
— pois o que sei de mim
sei por uma sibila, pelas cartomantes
pelas ciganas rastreando as linhas
de minha mão
e o que sei do mundo
é o que sei de mim pelos profetas
é o que sei de mim
por ouvir dizer
é o que sei dos defuntos
na lívida escritura de seus rostos hirtos
entre cravos e rosas quando
meus olhos se agoniam sobre
seus pergaminhos — entre
o hieróglifo de seus dedos rúnicos
e o silêncio pulcro de seus lábios rupestres

Mas um dia rompo o meu silêncio — e as rosas
começam a cair de minha boca
as rosas e as estrelas
e os circunstantes atônitos
me tiram reverentes o chapéu
e dobram os joelhos e me beijam os pés
e quando se erguem
escarnecem de mim e de si mesmos

pois já não se vê mais
que a poeira de um rastro
a aparição e a desaparição — e as rosas
voltam a fechar-se em seus botões de silêncio diante
das estejas apagadas pelo sopro do vento
e sou apenas o que fui — e fui
apenas o que serei na boca dos profetas
dos contadores de lendas
eterno
toda vez que as cartomantes inventem
ao olhar de uma trêmula mulher
o perigo de um príncipe a caminho
e na palma da mão entre o monte de Vênus
e a linha do destino — o presságio
de meu nome alegrará um coração que espera
a chegada da esperança.

Não sou — já fui
não fui — serei
serei o que teria sido
num país que carrego nas pupilas
ego, poeta, Pigafetta
meus olhos pisam meu chão
e caminho pisando os próprios olhos
meus pés escrevem no celeste espaço
com o coruscante stil nuovo
do pentestrelo
minha bitácora — pois escrivão
de Capricórnio tenho por nome
meu pseudônimo
—Caramuru
ou Monteverde? —

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M. de Monte Maggiore

M. de Monte Maggiore

Salmo da Meia Noite

Tua voz suavizou minha alma e teu pensamento desceu ao meu
coração como um bálsamo.

As tristezas se foram, dispersadas.

A Paz veio, leve como um pássaro,
e a Poesia desatou suas pétalas perfumadas.

Repara, doce Amor, na melodia do meu alaúde.
Estes acordes delicados são para ti uma carícia.
Que vaie a vida sem o Cisne Branco do meu lago azul?
Desprende, Ave Sagrada, um vôo altaneiro e vem pousar nas
águas mansas do meu jardim fechado.

Dar-te-ei carne de coração na hóstia de um amor imenso!

Beberás o licor da poesia no cálice dos meus lábios.
Serás imortal!
Abre as asas brancas nas campinas azuis, onde o sol passeia, e
vem, que te espero, ansiosamente.

Ergueremos um pavilhão colorido nos montes de Sião.
Nossa casa terá água cristalina para os que têm sede
e pão branco para os que pisam os caminhos da vida.

Todas as tardes passearemos envoltos na brisa vespertina e descobriremos,
no horizonte, as telas imortais do Criador,

Em nossa tenda haverá tapetes de Caxemira e pérolas de Ofir e
marfim da índia e rosas de Jericó...

Nossas manhãs serão claras como as manhãs de abril e nossas
noites suaves como as noites de luar de agosto.

Haverá em tudo aquele riso bom que sai do coração, porque
nossa felicidade saiu das mãos de Deus!

Doce amiga, teu perfume me vem na asa da saudade.
A carícia de tuas mãos, sinto-a sobre meus olhos cansados, ao
cair da tarde.

Há um lugar chorando uma ausência... Dentro da noite, ouve-se
um canto triste. É o pombo chamando a companheira para o
ninho vazio.

A felicidade está cantando baixinho a cancão da "Espera". "Ela"
vem vindo, lá longe, na curva azul da lemerança...

2 512
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Coronel, estou vendo neste momento

Coronel, estou vendo neste momento os
cabras sangrarem o Padre Joaquim Mourão, daqui lá umas duzentas léguas,
no Maranhão"
e a vidente negra levou a mão ao velho seio onde mamaram
os filhos dos Mourões
e caiu com os olhos fulgurantes;
o Coronel mandou encher de paçoca os alforjes de couro
e encher de água da serra a borracha de sola
no arção da sela o terçado de cabo de ouro
na carona de vaqueta bordada sob os coxonilhos
cinqüenta contos de réis
o rifle na lua da sela
a matolagem e os capangas fiéis
quinze dias depois tirava o chapéu de couro e dobrava o joelho
diante da sepultura do Padre Mourão:
de duzentas léguas o sangue esguichara sobre
os olhos da vidente que lhe dera o seio
e os cabras no caminho de volta retiravam
sob o suadouro das cangalhas a manta
de carne de sol e enquanto
mastigavam os nacos sapecados na cachaça inflamada nos pratos de balança das
bodegas da estrada
ruminavam a morte;
e as veredas se enchiam de cruzes
e ao sacrifício dos padres inocentes
a bravura dos Mourões se celebrava
in illo tempore

e ungidos de Deus vamos morrendo
e flagelos de Deus vamos matando.

O mulato Tobias Barreto escrevia cartas em alemão ao filósofo alemão Emanuel Kant
e escreveu também a Monsenhor Gadelha Mourão, deputado
do Império e doutor de Roma:
"os padres deste país nem latim sabem mais, pois, como Vossa Reverendíssima,
aprendem é a mandar matar"
os assassinos do Padre Joaquim, de fato, estavam mortos
cum Christo erant
e o Monsenhor tirou uma edição de seu jornal político em São Luís do Maranhão,
toda em latim e remeteu ao prodigioso mulato
e veio a carta pedindo perdão:
"nunca li, Monsenhor, latim tão puro"
e uma nova edição explicava:
o latim era péssimo e cheio de eiva e fora escrito apenas para colher o elogio do sr.
Tobias Barreto e provar que ele, sim, não sabia latim:
Tobias fuit cum Christo: causa mortis — raiva apoplética contra
Monsenhor Mourão — testemunha Cynobelino.

Sabedora da morte, soberana da vida
a raça dos Mourões preparava o chão
e duro e puro
o espaço do cristal se construía
na clavina dos fortes e no sarcasmo dos sábios
in illo tempore.

717
Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Naquele tempo

Naquele tempo
o filho dos Mourões era pastor e muitas coisas
pastoreou seu cajado
o bode o cavalo o boi
e os rifles bandoleiros entre
a Canabrava dos Mourões e a Baixa Verde
dos Mourões
e por ali
tangia o pegureiro sua flauta
pastor de anjos tangeu uns tempos
os serafins e os querubins e Querubina
Januzzi à sombra
dos jasmineiros:
pastor das putas sua flauta
gemia nas esquinas e alegrava os bordéis e a
canção de Lesbos
saudava as meninas machas do L’Étoile
(para Paula e Jane)
e a flauta feiticeira
envenenou teus dias
e tuas noites:
de sua melodia
viveram e morreram as amadas e à beira
de suas sepulturas
o pastor das defuntas sopra o choro
pelas que se mataram de amor.

Pastor hei sido em tanto monte, desde
o monte de Vênus ao monte de Sião
e ao monte galego onde damas de copas e espadas
ambulavam na ronda
pastor de moedas — digo o Banco de Crédito
Real —
cordeiro de Deus tonsurado e imolado
naquelas mangedouras
gado inútil cevou-se à ração de meus dias
e os demônios astutos
dançaram sarabanda no monte de Sião —
e as damas
de copas e espadas corriam
do bordel de Helenita ao de Marina
e os lobos devoravam as meninas
dos olhos do pastor
e nada nos foi poupado — Angelo Simões
de Arruda, nada, Efraín,
pois pastor de heróis condottieri e guerrilheiros
tresmalhados todos os rebanhos — Abdias —
restava apenas este pastoreio
das putas e esta flauta
que nunca lhe caiu da boca na viagem
e um dia nesta flauta
apodrecido o canto de cantar
ensaiasse o pastor no sacro bosque
enfeitiçar os animais e as pedras
quem sabe as fêmeas — sempre elas — de
narinas acesas e de ouvidos em flor
esperassem à noite a serenata irresistível
e pedras e serpentes e fêmeas começassem
a chegar arrastados
da doce melodia.

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Gerardo Mello Mourão

Gerardo Mello Mourão

Restauração em Cristo

Não é verdade que a Igreja Católica tenha sido sempre um braço do poder ou das classes dominantes

GERARDO MELLO MOURÃO
O poeta Murilo Mendes, católico de confissão e católico militante, empreendeu ao lado de Jorge de Lima, lá nos anos 30, o movimento que foi um dos momentos mais altos da revolução de nossas letras, sob uma consigna singular: a ``restauração da poesia em Cristo. Projetada ao longo da obra dos dois poetas, a ``restauração apregoada desaguou, afinal, na cantata estupenda da ``Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, que o juízo praticamente unânime da melhor crítica, nacional e estrangeira, considera a obra poética mais importante da literatura brasileira em todos os tempos.
O nome de Murilo Mendes entra aqui não como uma instância poética, mas como uma referência para debater a suposta crise que algumas pobres perdições ideológicas atribuem, no Brasil, ao cristianismo em geral e à Igreja Católica em particular. No século passado, e ainda no primeiro quartel deste século, estava na moda ser anticlerical e atacar a igreja, como lembrava Jorge Luís Borges, referindo-se a seu próprio pai.
Todo mundo contava anedotas de padres corruptos, cheios de mulheres e de filhos, como se isso fosse razão para execrar a igreja. Uma tarde, um sujeito aproximou-se de Murilo Mendes, numa esquina do Rio, para apontar-lhe um padre que saía de um banco, com sua rica batina de seda. Naquele tempo, a Cúria ainda não cometera o equívoco de abolir as vestes talares. O indivíduo agarrou o braço do poeta e gritou-lhe: ``Como é que você tem coragem de ser católico, quando todo mundo sabe que padres como este têm uma amante e guardam uma fortuna nos bancos?
``Pois eu sei mais do que isto, respondeu o poeta. ``Sei até de bispos, cardeais e papas que não tinham apenas uma amante.
Tinham haréns. E não possuíam apenas uma pobre conta de banco. Eram donos de castelos, palácios e empresas. E, para mim, esta é uma das provas mais claras da divindade da igreja, que sobrevive, com seus santos e mártires, há 2.000 anos, apesar de formada e até dirigida às vezes por alguns patifes. No Brasil, grupos anacrônicos estão empenhados, em nossos dias, numa campanha de demolição da Igreja Católica e da fé cristã em geral, embora a grande maioria silenciosa, em todo o Ocidente, continue fiel ao cristianismo. São cerca de 90 os cristãos na Europa e nas Américas.
Pois, apesar disso, recentemente destaca-se, na grande imprensa, como um acontecimento estrondoso, um ``happening do sr.
Leonardo Boff, no Centro Cultural Banco do Brasil, em que aquele frade goliardo e desertor de seu juramento anuncia o fim da Igreja Católica. Pelo menos da igreja como a entendem o papa, a hierarquia e os fiéis.
Os jornais apresentam como um triunfo do frei gaudério, cornaca maior da Teologia da Libertação, a presença de 400 pessoas no auditório do Banco do Brasil, em evento pago com dinheiro meu e do leitor, por meio dos R$ 8 bilhões com que o Banco do Brasil socorreu, recentemente, aquela combalida casa bancária da República. Quatrocentas pessoas é um bom público para o Boff.
Mas o ``bispo Macedo reúne muito mais...
A promessa da fé ao ser humano não é a libertação do salário mínimo e dos juros altos, mas do pecado, do mal que tolda a limpidez da alma. A igreja é uma agência espiritual da fé, não um birô do salário mínimo nem da reforma agrária e outros instrumentos do convívio social, próprios do governo político.
Depositária do testamento de seu fundador, Jesus Cristo, ela não é e nunca foi indiferente às práticas da injustiça e das tiranias. Mas não cabe aos fiéis ou aos sacerdotes o exercício do governo político e econômico. Os que pretendem atribuir à Igreja Católica o monopólio da justiça temporal são partidários de uma teocracia semelhante à dos xiitas, dos ``mullahs e dos aiatolás de Khomeini.
Também não é verdade, como sustenta o Boff do Centro Cultural Banco do Brasil, onde já se montaram comédias mais originais, que a igreja tenha sido sempre um braço do poder ou das classes dominantes. A igreja não nasceu em Medellín, como pensa o Boff.
Nasceu com um menino num curral em Belém de Judá, cresceu numa oficina de carpinteiro e com um grupo de homens e mulheres do povo. A história de sua luta contra os poderosos começa nos tribunais de Anás e Caifás, atravessa os impérios, tem momentos fulgurantes na Idade Média, na Renascença e no Iluminismo. Conhece o martírio e a perseguição na Revolução Francesa e nas repúblicas marxistas. Aqui mesmo, durante a monarquia, dois bispos vão para a cadeia, condenados a trabalhos forçados, por defenderem a liberdade de expressão. É um vilipêndio à memória desses bispos e uma injúria aos mais de 200 padres fuzilados nas revoluções nordestinas a acusação de que a igreja a que pertenciam estava a serviço do estabelecimento político ou econômico. Foram, isso sim, mártires da liberdade e da justiça, na luta pela restauração da sociedade em Cristo, tarefa da igreja, ontem e hoje. Coisa muito diferente da insensatez de instaurar um clero de aiatolás e frades sindicais, que querem tomar o lugar do Vicentinho, do Medeiros e do Canindé.
Gerardo Mello Mourão, 75, poeta e escritor, é membro da Academia Brasileira de Filosofia e do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura. Foi professor de história e cultura da América na Universidade Católica do Chile (1964-67) e correspondente da Folha em Pequim (China) de 1980 a 82.
(in Folha de São Paulo 10/10/96

Leia obra sobre Jorge de Lima

1 026
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Seis Cantos Para Zobeide

I

Na ilha, agapantos lilases partiam o corpo dormido no linear da manhã. A água batia nas pedras. Papagaios povoavam nuvens. Rostos idos com círios levavam louros. A videira esperava o fim da procissão.

II

Vestia de anjo em azul opaco. Pastilhas Valda no timbre da voz. A grinalda em Maria, rostos no altar. Balas de amêndoas. Balas de amêndoas.

III

Matizes da terra no linho formando flores. Flores bordadas no jogo sutil das mãos. Na mesa, a toalha, o ciclo, o desafio à vida. Cavalos de ferrugem arrastavam o corpo. Brancas as paredes e havia portas e janelas.

IV

O assobio chegava quando as nuvens desenhavam o céu. Dinossauros soterrados. Melodia é riso no lábio. Bicicletas vermelhas desciani a rua. A música de um tempo sem tempo. A canção de Zobeide ficou nos pés. No cisco do olho. A embarcação, a vela branca, levaram o azinhavre do piano. Faz silêncio na rua à direita.

V

As flores se vão sem sofrimentos. Fenecem ao oxigênio. O pássaro dorme no relâmpago. Foram calendários, a lágrima na face. O corvo espiava na cumeeira, escondia a luz da tarde. Na Matriz, gritavam teu nome. Era maio. Eram dálias amarelas. Tua roupa azul opaco. A grinalda. Maria. Amêndoas.

VI

Marinheiros vieram de Aldebarã, ungiram os olhos. Douraram o pente nos cabelos. Banharam as pálpebras com malva e fecharam o sol nas mãos. A quilha de açafrão esperava o óleo dos ossos. A cal da tarde marcou a eternidade. Vieram gralhas, o sino. Uma chuva de mariscos nos olhos. Escutei na pedra a voz de teus cantores dormindo o sono. Havia sementes de gergelim. Havia pergaminho nos olhos. O pássaro levando o adeus de maio.

Zobeide Gonçalves de Castro
08/06/1932 - 12/05/1996
O carínho de tua írmã poeta.

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