Poemas neste tema
Fé, Espiritualidade e Religião
Marcelo Almeida de Oliveira
A história se repete
Não se sabe quando, nem como.
É inútil olhar para trás.
É prudente olhar para o chão.
É emocionante olhar para frente
e tentar vislumbrar as coisas
que aparecem magicamente difusas
dentro da densa névoa.
Quando finalmente se cristalizam,
rapidamente são deixadas para trás.
Que gracinha ...
Ainda nem se preocupou em olhar
um pouco mais acima da bruma espessa
e perceber a cerca alta.
Não adianta, é impossível derrubá-la.
É preciso transpô-la.
Crescer é preciso.
O vermelho não é vermelho, nem é azul.
Um grito não é grito.
Uma pedra não é uma pedra, nem é dura.
O fogo não é fogo, tampouco queima .
Tókio está tão perto de São Paulo
quanto o meu fura-bolo está do cata-piolho.
Tempo não existe. Países não existem.
A ciência da borboleta reina.
Talvez 2 seja diferente de 2.
Talvez o novo átomo seja igual ao antigo,
que é igual ao mais velho,
que é igual ao sol ,
que é igual ao sistema,
que é igual à galáxia,
que é igual ao universo,
que talvez seja o átomo.
Talvez o talvez realmente seja.
Com o peso, o berço se quebra.
Não tão grandes agora, as cercas desmoronam.
Felicidade natural.
Encontramos Deus.
ELE é NÓS.
É inútil olhar para trás.
É prudente olhar para o chão.
É emocionante olhar para frente
e tentar vislumbrar as coisas
que aparecem magicamente difusas
dentro da densa névoa.
Quando finalmente se cristalizam,
rapidamente são deixadas para trás.
Que gracinha ...
Ainda nem se preocupou em olhar
um pouco mais acima da bruma espessa
e perceber a cerca alta.
Não adianta, é impossível derrubá-la.
É preciso transpô-la.
Crescer é preciso.
O vermelho não é vermelho, nem é azul.
Um grito não é grito.
Uma pedra não é uma pedra, nem é dura.
O fogo não é fogo, tampouco queima .
Tókio está tão perto de São Paulo
quanto o meu fura-bolo está do cata-piolho.
Tempo não existe. Países não existem.
A ciência da borboleta reina.
Talvez 2 seja diferente de 2.
Talvez o novo átomo seja igual ao antigo,
que é igual ao mais velho,
que é igual ao sol ,
que é igual ao sistema,
que é igual à galáxia,
que é igual ao universo,
que talvez seja o átomo.
Talvez o talvez realmente seja.
Com o peso, o berço se quebra.
Não tão grandes agora, as cercas desmoronam.
Felicidade natural.
Encontramos Deus.
ELE é NÓS.
967
Majela Colares
A Sombra da Mão
Ferro
fogo
nau
e firmamento...
mentes de enxofre
olhos de laser
anjos de aço circundam a órbita
pairam no ar
bailam no ar
o céu é cinza
os homens, loucos, caem vorazmente
decepcionados com a sua própria crença
desesperados
recorrem, quem sabe, a Shakespeare:
Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio,
do que pode sonhar a nossa vã filosofia.
É tarde.
A humanidade implode graças a sua duvidosa crença
o último grito
(último lamento)
não chega a transcender à sua debilitada existência
não vai além dos seus rudimentares tímpanos
jamais chegará
ao aguçado ouvido do universo.
É tarde.
Muito tarde.
Coisa nenhuma subsiste,
bem dizia Lucrécio,
mas tudo flui.
Uma gota de orvalho
cai cristalina e lentamente
no eterno e abissal azul
a terra move-se
séculos recomeçam...
anjos de aço,
pairam no ar,
bailam no ar...
quousque tanden?
Quousque tanden?
fogo
nau
e firmamento...
mentes de enxofre
olhos de laser
anjos de aço circundam a órbita
pairam no ar
bailam no ar
o céu é cinza
os homens, loucos, caem vorazmente
decepcionados com a sua própria crença
desesperados
recorrem, quem sabe, a Shakespeare:
Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio,
do que pode sonhar a nossa vã filosofia.
É tarde.
A humanidade implode graças a sua duvidosa crença
o último grito
(último lamento)
não chega a transcender à sua debilitada existência
não vai além dos seus rudimentares tímpanos
jamais chegará
ao aguçado ouvido do universo.
É tarde.
Muito tarde.
Coisa nenhuma subsiste,
bem dizia Lucrécio,
mas tudo flui.
Uma gota de orvalho
cai cristalina e lentamente
no eterno e abissal azul
a terra move-se
séculos recomeçam...
anjos de aço,
pairam no ar,
bailam no ar...
quousque tanden?
Quousque tanden?
882
Mário Hélio
18-VIII(Totmutações)
aceita o erebom prefere o erebom escolhe o mundumano
por mais turvo que seja
prefere a treva
deixem-me abandonem-me não me-ditem merdades
pu-
rezas e que-
rubins
eu prefrio a lama.
chega de felicidade poética
eu prefiro a cética
a herética a diabólica.
as coisas sagradas jamais foram ditas.
palavras divinas jamais proferidas.
eu sinto que o universo se limita
por ser infinito.
pudico é cada dia santo cada santa oferenda
cada riso contenda cada gesto feroz.
o sagrado é vulgar
ar e éter éter e ar
que se perdem na incompleta letal diabrura
alfomegamentescrita como uma crítica cítrica
por mais turvo que seja
prefere a treva
deixem-me abandonem-me não me-ditem merdades
pu-
rezas e que-
rubins
eu prefrio a lama.
chega de felicidade poética
eu prefiro a cética
a herética a diabólica.
as coisas sagradas jamais foram ditas.
palavras divinas jamais proferidas.
eu sinto que o universo se limita
por ser infinito.
pudico é cada dia santo cada santa oferenda
cada riso contenda cada gesto feroz.
o sagrado é vulgar
ar e éter éter e ar
que se perdem na incompleta letal diabrura
alfomegamentescrita como uma crítica cítrica
606
Luis Manoel Paes Siqueira
Telegrama Urgente para Solange Siqueira
Um dia você recebeu
uma boneca suíça
e resolveu que com ela
jamais iria brincar.
(Ela era bonita demais
diante dos outros brinquedos)
O tempo passou e lhe fez
boneca mais que suíça
Aquela menina morena
que adorava cantar.
Mas Deus mudou seu caminho
brincando de marionete
(Que dados estranhos ele joga
no jogo que só ele ganha?)
Nublaram as suas idéias
do sonho de ser feliz
e os cães paramentados
fecharam as portas dos templos.
"Aqui não pode ficar
quem faz o livre-pensar
e pra poder frequentar
somente usando o crachá"
As suas mãos revidaram
criando flores de prata.
Agora o jogo termina
e como sempre acontece
o vencedor se recolhe
ao seu silêncio profundo.
Escuta um conselho do amigo:
não entre no céu loteado
do clero esclerosado.
Procure um planeta florido
e um anjo assim distraído
que saiba tocar violão
e espera por teu irmão:
- Eu levo a boneca comigo.
Notas Explicativas (Ao modo Soares Feitosa)
1. Numa viagem de meu pai àquele país, deu-lhe uma boneca belíssima.
2. Solange, assim como a boneca, também era.
3. Deus brinca de boneca com a gente e com "dados viciados".
4. A boneca e a dona se confundem. Só que uma canta e é moreninha.
5. Aos vinte e três anos, solange apresentou problemas psiquiátricos graves Esquizofrenia. Mesmo assim, terminou o curso de Arquitetura e noivou com um amigo de infância. Mas eu e ela, desde os 17, havíamos deixado de frequentar igrejas protestantes. Por pedido de meu pai, ela voltou a essas igrejas para casar lá, mas elas se recusaram pelo fato de termos nos afastados. (Meu avô era pastor presbiteriano e construiu várias igrejas no sertão — veja a ironia).
6. Solange por muitos anos desenhou jóias e ficou muito conhecida no Recife como designer.
7. Agora, a morte. E o vencedor se recolhe...
uma boneca suíça
e resolveu que com ela
jamais iria brincar.
(Ela era bonita demais
diante dos outros brinquedos)
O tempo passou e lhe fez
boneca mais que suíça
Aquela menina morena
que adorava cantar.
Mas Deus mudou seu caminho
brincando de marionete
(Que dados estranhos ele joga
no jogo que só ele ganha?)
Nublaram as suas idéias
do sonho de ser feliz
e os cães paramentados
fecharam as portas dos templos.
"Aqui não pode ficar
quem faz o livre-pensar
e pra poder frequentar
somente usando o crachá"
As suas mãos revidaram
criando flores de prata.
Agora o jogo termina
e como sempre acontece
o vencedor se recolhe
ao seu silêncio profundo.
Escuta um conselho do amigo:
não entre no céu loteado
do clero esclerosado.
Procure um planeta florido
e um anjo assim distraído
que saiba tocar violão
e espera por teu irmão:
- Eu levo a boneca comigo.
Notas Explicativas (Ao modo Soares Feitosa)
1. Numa viagem de meu pai àquele país, deu-lhe uma boneca belíssima.
2. Solange, assim como a boneca, também era.
3. Deus brinca de boneca com a gente e com "dados viciados".
4. A boneca e a dona se confundem. Só que uma canta e é moreninha.
5. Aos vinte e três anos, solange apresentou problemas psiquiátricos graves Esquizofrenia. Mesmo assim, terminou o curso de Arquitetura e noivou com um amigo de infância. Mas eu e ela, desde os 17, havíamos deixado de frequentar igrejas protestantes. Por pedido de meu pai, ela voltou a essas igrejas para casar lá, mas elas se recusaram pelo fato de termos nos afastados. (Meu avô era pastor presbiteriano e construiu várias igrejas no sertão — veja a ironia).
6. Solange por muitos anos desenhou jóias e ficou muito conhecida no Recife como designer.
7. Agora, a morte. E o vencedor se recolhe...
1 139
Machado de Assis
O Dilúvio
(1863)
E caiu a chuva sobre a terra
quarenta dias e quarenta noites
Gênesis — c. VII, v. 12
Do sol ao raio esplêndido,
Fecundo, abençoado,
A terra exausta e úmida
Surge, revive já;
Que a morte inteira e rápida
Dos filhos do pecado
Pôs termo à imensa cólera
Do imenso Jeová!
Que mar não foi! que túmidas
As águas não rolavam!
Montanhas e planícies
Tudo tornou-se mar;
E nesta cena lúgubre
Os gritos que soavam
Era um clamor uníssono
Que a terra ia acabar.
Em vão, ó pai atônito,
Ao seio o filho estreitas;
Filhos, esposos, míseros,
Em vão tentais fugir!
Que as águas do dilúvio
Crescidas e refeitas,
Vão da planície aos píncaros
Subir, subir, subir!
Só, como a idéia única
De um mundo que se acaba,
Erma, boiava intrépida,
A arca de Noé;
Pura das velhas nódoas
De tudo o que desaba,
Leva no seio incólumes
A virgindade e a fé.
Lá vai! Que um vento alígero,
Entre os contrários ventos,
Ao lenho calmo e impávido
Abre caminho além . . .
Lá vai! Em torno angústias,
Clamores, lamentos;
Dentro a esperança, os cânticos,
A calma, a paz e o bem.
Cheio de amor, solícito,
O olhar da divindade,
Vela aos escapos náufragos
Da imensa aluvião.
Assim, por sobre o túmulo
Da extinta humanidade
Salva-se um berço; o vínculo
Da nova creação.
Íris, da paz o núncio,
O núncio do concerto,
Riso do Eterno em júbilo,
Nuvens do céu rasgou;
E a pomba, a pomba mística,
Volando ao lenho aberto,
Do arbusto da planície
Um ramo despencou.
Ao sol e às brisas tépidas
Respira a terra um hausto,
Viçam de novo as árvores,
Brota de novo a flor;
E ao som de nossos cânticos,
Ao fumo do holocausto
Desaparece a cólera
Do rosto do Senhor.
E caiu a chuva sobre a terra
quarenta dias e quarenta noites
Gênesis — c. VII, v. 12
Do sol ao raio esplêndido,
Fecundo, abençoado,
A terra exausta e úmida
Surge, revive já;
Que a morte inteira e rápida
Dos filhos do pecado
Pôs termo à imensa cólera
Do imenso Jeová!
Que mar não foi! que túmidas
As águas não rolavam!
Montanhas e planícies
Tudo tornou-se mar;
E nesta cena lúgubre
Os gritos que soavam
Era um clamor uníssono
Que a terra ia acabar.
Em vão, ó pai atônito,
Ao seio o filho estreitas;
Filhos, esposos, míseros,
Em vão tentais fugir!
Que as águas do dilúvio
Crescidas e refeitas,
Vão da planície aos píncaros
Subir, subir, subir!
Só, como a idéia única
De um mundo que se acaba,
Erma, boiava intrépida,
A arca de Noé;
Pura das velhas nódoas
De tudo o que desaba,
Leva no seio incólumes
A virgindade e a fé.
Lá vai! Que um vento alígero,
Entre os contrários ventos,
Ao lenho calmo e impávido
Abre caminho além . . .
Lá vai! Em torno angústias,
Clamores, lamentos;
Dentro a esperança, os cânticos,
A calma, a paz e o bem.
Cheio de amor, solícito,
O olhar da divindade,
Vela aos escapos náufragos
Da imensa aluvião.
Assim, por sobre o túmulo
Da extinta humanidade
Salva-se um berço; o vínculo
Da nova creação.
Íris, da paz o núncio,
O núncio do concerto,
Riso do Eterno em júbilo,
Nuvens do céu rasgou;
E a pomba, a pomba mística,
Volando ao lenho aberto,
Do arbusto da planície
Um ramo despencou.
Ao sol e às brisas tépidas
Respira a terra um hausto,
Viçam de novo as árvores,
Brota de novo a flor;
E ao som de nossos cânticos,
Ao fumo do holocausto
Desaparece a cólera
Do rosto do Senhor.
3 482
Maria do Carmo Verza Sartori
Vaidade
Minha vaidade quer transbordar sentimentos
passar energias
encontrar a beleza maior do íntimo.
Minha vaidade é a mais difícil
mais linda
mais verdadeira
Consciente das limitações do ser
me acusa do mal
fortalece-me no bem
ação e reação
é reforma íntima
aceitação
é busca e encontro
(espera do tempo - esferas do mundo - estrelas e além)
casa com a humildade.
passar energias
encontrar a beleza maior do íntimo.
Minha vaidade é a mais difícil
mais linda
mais verdadeira
Consciente das limitações do ser
me acusa do mal
fortalece-me no bem
ação e reação
é reforma íntima
aceitação
é busca e encontro
(espera do tempo - esferas do mundo - estrelas e além)
casa com a humildade.
885
Maria do Carmo Verza Sartori
Céu
Tenho a
impressão
que o céu
fica aqui
perto
o caminho
é interior
a paz é o
indicador
do
encontro
impressão
que o céu
fica aqui
perto
o caminho
é interior
a paz é o
indicador
do
encontro
815
Luiz Moraes
A Morte de Nel
Virgem santa ignorância
onde só viram o ABC,
De doença estoporada
Muitos lá vivem a morrer.
Foi mais um fato concreto
Pois muitos viram de perto
o que aqui vou descrever.
Lá pras bandas onde nasci
Morava um NEL bom de cana,
Uma mulher e três filhos
Em uma pobre choupana.
Se houvesse todo dia
Aguardente ele bebia
Como achava isso bacana.
Um dia uma simples febre
Causando-lhe alguma dor,
Falaram logo é mulesta
Com o ramo de estopor,
Se escapar fica imperfeito
Aí só pode dar jeito
Se for um bom benzedor.
Vá chamar seu Filomeno
Pra benzer não tem melhor,
Tem também João Cachoeira
Que curou a minha vó,
Corre depressa menino
Se não achar trás Orcino
Que o homem já está pior.
Um dos mateiro confirma
Isso é mulesta do ar,
Só cristé de pino roxo
Bota água pra mornar
Enquanto o remédio apronta
Azeite e dez pílula contra
Dão logo pra ele tomar.
Depois de tudo tomado
Ele foi se esmorecendo,
Todo comê vinha fora
E a barriga crescendo,
Deram outra misturada
Não demorou a zoada
Meu Deus, o NEL tá morrendo!
E assim muitos perecem
Enganados pela crença,
Sob o mal sem lenitivo
Onde a cura é uma sentença.
De purgante e de cristé
Intoxicaram mané
Sem acertar com a doença.
onde só viram o ABC,
De doença estoporada
Muitos lá vivem a morrer.
Foi mais um fato concreto
Pois muitos viram de perto
o que aqui vou descrever.
Lá pras bandas onde nasci
Morava um NEL bom de cana,
Uma mulher e três filhos
Em uma pobre choupana.
Se houvesse todo dia
Aguardente ele bebia
Como achava isso bacana.
Um dia uma simples febre
Causando-lhe alguma dor,
Falaram logo é mulesta
Com o ramo de estopor,
Se escapar fica imperfeito
Aí só pode dar jeito
Se for um bom benzedor.
Vá chamar seu Filomeno
Pra benzer não tem melhor,
Tem também João Cachoeira
Que curou a minha vó,
Corre depressa menino
Se não achar trás Orcino
Que o homem já está pior.
Um dos mateiro confirma
Isso é mulesta do ar,
Só cristé de pino roxo
Bota água pra mornar
Enquanto o remédio apronta
Azeite e dez pílula contra
Dão logo pra ele tomar.
Depois de tudo tomado
Ele foi se esmorecendo,
Todo comê vinha fora
E a barriga crescendo,
Deram outra misturada
Não demorou a zoada
Meu Deus, o NEL tá morrendo!
E assim muitos perecem
Enganados pela crença,
Sob o mal sem lenitivo
Onde a cura é uma sentença.
De purgante e de cristé
Intoxicaram mané
Sem acertar com a doença.
1 035
Leão Moysés Zagury
Promessas
Prometemos muito
realizamos pouco.
Até quando?
O ser promete
debate-se em atitudes
vãs.
Banalidades, ilusões intelectuais,
até quando?
Onde com tanto sofrimento
irá o homem parar?
O espírito luta
a batalha das batalhas.
Sofrendo, iludido
reclama.
Homem , acorda do sono.
És Espírito numa matéria.
A tua grandeza espiritual
se faz presente.
Acorda!!!
Chega de ilusões,
vamos à luta,
é tarde.
realizamos pouco.
Até quando?
O ser promete
debate-se em atitudes
vãs.
Banalidades, ilusões intelectuais,
até quando?
Onde com tanto sofrimento
irá o homem parar?
O espírito luta
a batalha das batalhas.
Sofrendo, iludido
reclama.
Homem , acorda do sono.
És Espírito numa matéria.
A tua grandeza espiritual
se faz presente.
Acorda!!!
Chega de ilusões,
vamos à luta,
é tarde.
912
Tomáz Kim
Ladainha Para Qualquer Natal
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Tumba de carne viva em ódio amortalhada,
Anunciando sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Que esta noite não seja para sempre
De fome pra lá de tantas portas
Como flor viçosa em campa rasa.
Que esta noite não seja para sempre
De amor vendido a horas mortas
E o pudor lembrando e a raiva queimando.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Chaga aberta, como rubra flor de pesadelo,
Escorrendo sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
E seja para sempre esta noite
Cheia de graça na terra dos homens.
Assim seja
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Tumba de carne viva em ódio amortalhada,
Anunciando sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Que esta noite não seja para sempre
De fome pra lá de tantas portas
Como flor viçosa em campa rasa.
Que esta noite não seja para sempre
De amor vendido a horas mortas
E o pudor lembrando e a raiva queimando.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Chaga aberta, como rubra flor de pesadelo,
Escorrendo sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
E seja para sempre esta noite
Cheia de graça na terra dos homens.
Assim seja
2 291
Tomás Ribeiro
Carta que Estela Deixou à Filha
Fragmento do canto VIII do D. Jaime
...........................................................
A vítima infeliz de ímproba sorte,
vede o que ela escrevia à triste filha,
momentos antes de chegar a morte:
— "Filha! não posso agasalhar-te em vida;
rosa pendida que te vais finar!
quem te arrancara dessas mãos ferozes
dos meus algozes que te vão matar!
À campa vamos! Ai! depois da morte,
quem sabe a sorte a que estas almas vão!...
Que anseio! filha! que soldado abismo!
tu... sem batismo! e eu... sem confissão!
Não! Deus é pai! somente aos maus condena!
Foi por quem pena que penou Jesus!
Sejam meus prantos do batismo as águas!...
Deus! pelas mágoas que te deu a cruz!
Vai, filha! os anjos te recebem ledos!
guarda os segredos que me ouviste aqui.
Quando avistares do Senhor a sede,
por mim lhe pede, que também morri!
Vai! Dize aos anjos que te dêem seus cantos,
por estes prantos que meus olhos têm!
e se em mim perdes maternal ternura,
a Virgem pura que te seja mãe!...
Ai! flor de neve com dourada coma!
que alvor! que aroma! se não perde aqui!
Ai! rosa minha de matiz vestida;
que amor! que vida! que eu sonhei por ti!
Teu pai, rojado por inglória senda,
que vida horrenda viverá também!...
rico inda ontem, poderoso e nobre!
hoje tão pobre, que nem nome tem!
Eu fui a sombra que toldou de escuro
todo o futuro que o verá viver!...
Eu fui a estrela que em lugar do norte,
lhe aponta a morte que o fará morrer!
Aos meus perdôo, que me deram tratos;
raça de ingratos, com que eu vivi!
Não choro os dias que sonhei serenos...
que em paga ao menos morrerei por ti.
A ti, a ele, deixarei somente,
num beijo ardente o derradeiro adeus!...
Correi, algozes, já me não confranjo!
mártir e anjo, têm direito aos céus!"
...........................................................
A vítima infeliz de ímproba sorte,
vede o que ela escrevia à triste filha,
momentos antes de chegar a morte:
— "Filha! não posso agasalhar-te em vida;
rosa pendida que te vais finar!
quem te arrancara dessas mãos ferozes
dos meus algozes que te vão matar!
À campa vamos! Ai! depois da morte,
quem sabe a sorte a que estas almas vão!...
Que anseio! filha! que soldado abismo!
tu... sem batismo! e eu... sem confissão!
Não! Deus é pai! somente aos maus condena!
Foi por quem pena que penou Jesus!
Sejam meus prantos do batismo as águas!...
Deus! pelas mágoas que te deu a cruz!
Vai, filha! os anjos te recebem ledos!
guarda os segredos que me ouviste aqui.
Quando avistares do Senhor a sede,
por mim lhe pede, que também morri!
Vai! Dize aos anjos que te dêem seus cantos,
por estes prantos que meus olhos têm!
e se em mim perdes maternal ternura,
a Virgem pura que te seja mãe!...
Ai! flor de neve com dourada coma!
que alvor! que aroma! se não perde aqui!
Ai! rosa minha de matiz vestida;
que amor! que vida! que eu sonhei por ti!
Teu pai, rojado por inglória senda,
que vida horrenda viverá também!...
rico inda ontem, poderoso e nobre!
hoje tão pobre, que nem nome tem!
Eu fui a sombra que toldou de escuro
todo o futuro que o verá viver!...
Eu fui a estrela que em lugar do norte,
lhe aponta a morte que o fará morrer!
Aos meus perdôo, que me deram tratos;
raça de ingratos, com que eu vivi!
Não choro os dias que sonhei serenos...
que em paga ao menos morrerei por ti.
A ti, a ele, deixarei somente,
num beijo ardente o derradeiro adeus!...
Correi, algozes, já me não confranjo!
mártir e anjo, têm direito aos céus!"
1 142
Linhares Filho
Reencontro
Fiel ao amor e à arte entre proteus,
encontro a luz aquém do terremoto.
A arte e o amor são em mim síntese, foto
do Ser e a fotossíntese que os meus
respiros pedem. No imo é que devoto
o culto mais leal a encantos seus.
E, na luta, assemelho-me aos Ateus:
contactando o meu chão, de novo broto.
Quanto mais acho, tanto mais procuro
o bem de amar e criar no tempo e espaço
da vigília e do sonho dos Orfeus.
Reencontro-me, autêntico misturo
Poesia e Amada num grandioso abraço,
imagens do infinito amor de Deus!
encontro a luz aquém do terremoto.
A arte e o amor são em mim síntese, foto
do Ser e a fotossíntese que os meus
respiros pedem. No imo é que devoto
o culto mais leal a encantos seus.
E, na luta, assemelho-me aos Ateus:
contactando o meu chão, de novo broto.
Quanto mais acho, tanto mais procuro
o bem de amar e criar no tempo e espaço
da vigília e do sonho dos Orfeus.
Reencontro-me, autêntico misturo
Poesia e Amada num grandioso abraço,
imagens do infinito amor de Deus!
701
Washington Queiroz
O Xamã e os Deuses
O xamã era um menino;
um menino que guardava
os deuses em um laço;
que criava estrelas,
que era jaguar e azul;
bebia fumaça
e a esparzia sobre a terra,
carinhosamente alisando-a.
Mas era bem velho o xamã:
o tempo - redomoinho de ancestrais -
vergava-o, fazendo-lhe rugas
e paciência,
para poder guardar
em seu laço os deuses
que, segundo ele me contara,
são todos meninos e meninas
como ele.
um menino que guardava
os deuses em um laço;
que criava estrelas,
que era jaguar e azul;
bebia fumaça
e a esparzia sobre a terra,
carinhosamente alisando-a.
Mas era bem velho o xamã:
o tempo - redomoinho de ancestrais -
vergava-o, fazendo-lhe rugas
e paciência,
para poder guardar
em seu laço os deuses
que, segundo ele me contara,
são todos meninos e meninas
como ele.
859
Antero de Quental
Lamento
Um dilúvio
de luz cai da montanha:
Eis o dia! Eis o sol! O esposo amado!
Onde há por toda a terra um só cuidado
Que não dissipe a luz que o mundo banha?
Flor a custo medrada em erma penha.
Revolto mar ou golfo congelado,
Aonde há ser de Deus tão olvidado
Para quem paz e alívio o céu não tenha?
Deus é Pai! Pai de toda a criatura:
E a todo o ser o seu amor assiste:
De seus filhos o mal sempre lembrado....
Ah! Se deus a seus filhos dá ventura
Nesta hora santa... e eu só posso ser triste...
Serei filho, mas filho abandonado!
de luz cai da montanha:
Eis o dia! Eis o sol! O esposo amado!
Onde há por toda a terra um só cuidado
Que não dissipe a luz que o mundo banha?
Flor a custo medrada em erma penha.
Revolto mar ou golfo congelado,
Aonde há ser de Deus tão olvidado
Para quem paz e alívio o céu não tenha?
Deus é Pai! Pai de toda a criatura:
E a todo o ser o seu amor assiste:
De seus filhos o mal sempre lembrado....
Ah! Se deus a seus filhos dá ventura
Nesta hora santa... e eu só posso ser triste...
Serei filho, mas filho abandonado!
3 015
Luis Germano Graal
Minhalma
Minhalma gentil que se parte
Vai
Sai de mim
Eu ficarei a relembrar-te
A reclamar-te
A chorar-te
Na clara escuridão da funda noite
Minhalma fremosa
Minhalma doce
Minhalma cheia de tudo, vai
Mãe natureza chama de volta
O que lhe pertence
Solta-te de mim
Não me pertences
Cai na toda escuridão
Minha luz, minha lâmpada, meu céu
Minha vida que minha mãe me deu
Fica a esperar
Escondida
Em algum colo
Morfeu
Fica meu corpo aqui
Fica meu corpo sem minhalma
Fica meu corpo no breu
Sem meu espírito
Um e uma e outro eram em mim
A presença
De alguém ausente de mim
Fica meu corpo longe
Bem longe
Minha sina
Meu destino
Minha cruz
Fica meu corpo incendiado no barco
Crucifixo
Fica o que foi e tinha sido
Antes
Destes mares de nunca mais
Nunca dantes
Nunca durantes
Nestes, naqueles, noutros mares
De nunca jamais
Restam nestas águas
Destes mares
A fumaça
O fero fogo
A luz
Os fantasmas, os ângelos
Os arcângelos
Que fomos
Restam pelo céu
Per omnia saecula saeculorum
Fumaças tapando a bola
Mas o fogo e a luz ardendo aqui
Transformam
Esta nave
Num farol
Lúmina, luminosa, lumescente
Lúcida
Nossa nave ilumina os mares
É farol
A nossa luz é tanta
Ilumina tudo
É sol.
Vai
Sai de mim
Eu ficarei a relembrar-te
A reclamar-te
A chorar-te
Na clara escuridão da funda noite
Minhalma fremosa
Minhalma doce
Minhalma cheia de tudo, vai
Mãe natureza chama de volta
O que lhe pertence
Solta-te de mim
Não me pertences
Cai na toda escuridão
Minha luz, minha lâmpada, meu céu
Minha vida que minha mãe me deu
Fica a esperar
Escondida
Em algum colo
Morfeu
Fica meu corpo aqui
Fica meu corpo sem minhalma
Fica meu corpo no breu
Sem meu espírito
Um e uma e outro eram em mim
A presença
De alguém ausente de mim
Fica meu corpo longe
Bem longe
Minha sina
Meu destino
Minha cruz
Fica meu corpo incendiado no barco
Crucifixo
Fica o que foi e tinha sido
Antes
Destes mares de nunca mais
Nunca dantes
Nunca durantes
Nestes, naqueles, noutros mares
De nunca jamais
Restam nestas águas
Destes mares
A fumaça
O fero fogo
A luz
Os fantasmas, os ângelos
Os arcângelos
Que fomos
Restam pelo céu
Per omnia saecula saeculorum
Fumaças tapando a bola
Mas o fogo e a luz ardendo aqui
Transformam
Esta nave
Num farol
Lúmina, luminosa, lumescente
Lúcida
Nossa nave ilumina os mares
É farol
A nossa luz é tanta
Ilumina tudo
É sol.
960
Luis Germano Graal
Nesta Embarcação
Nesta embarcação, nesta caravela
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?
784
Luís Delfino
A Primeira Lágrima
Quando a primeira lágrima caindo,
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo
E Adão beijou-a de uma tal maneira,
Que anjos e Tronos pelo espaço infindo
Qual rompe a catadupa prisioneira,
As seis asas de azul e douro abrindo,
Fugiram numa esplêndida carreira.
Alguns, pousando à próxima montanha,
Queriam ver de perto os condenados
Da dor fazendo uma alegria estranha.
E ante o rumor dos ósculos dobrados,
Todos queriam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, Pasmados..
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo
E Adão beijou-a de uma tal maneira,
Que anjos e Tronos pelo espaço infindo
Qual rompe a catadupa prisioneira,
As seis asas de azul e douro abrindo,
Fugiram numa esplêndida carreira.
Alguns, pousando à próxima montanha,
Queriam ver de perto os condenados
Da dor fazendo uma alegria estranha.
E ante o rumor dos ósculos dobrados,
Todos queriam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, Pasmados..
1 768
Leda Costa Lima
Integração
Pisei na noite,
diluí-me em bruma...
galguei montanhas,
transmutei-me em neve...
joguei-me ao mar,
e dissolvi-me em espuma...
lancei-me ao mar
e transformei-me em nuvem...
voando ao cosmos,
integrei-me ao TODO!
diluí-me em bruma...
galguei montanhas,
transmutei-me em neve...
joguei-me ao mar,
e dissolvi-me em espuma...
lancei-me ao mar
e transformei-me em nuvem...
voando ao cosmos,
integrei-me ao TODO!
871
Luís Canelo de Noronha
Soneto
Esta, que habitação foi algum dia
das trevas superiores da ignorância
sendo Assento silvestre, rude Estância
Lugar inculto, bruta Monarquia;
hoje, que já brilhante Estrela a guia,
que já um Astro lhe dá luz de abundância,
que um Planeta lhe dá toda a prestância,
que um Sol a faz luzir, brilha a Bahia.
Bem assim, porque um sumo Apolo nela
consagra por divino e alto intento
um Coro celestial, Morada bela:
ficando, por lugar da Terra isento,
para o Sol, o Planeta, o Astro, a Estrela,
Monarquia, Lugar, Estância, Assento.
das trevas superiores da ignorância
sendo Assento silvestre, rude Estância
Lugar inculto, bruta Monarquia;
hoje, que já brilhante Estrela a guia,
que já um Astro lhe dá luz de abundância,
que um Planeta lhe dá toda a prestância,
que um Sol a faz luzir, brilha a Bahia.
Bem assim, porque um sumo Apolo nela
consagra por divino e alto intento
um Coro celestial, Morada bela:
ficando, por lugar da Terra isento,
para o Sol, o Planeta, o Astro, a Estrela,
Monarquia, Lugar, Estância, Assento.
978
Luís António Cajazeira Ramos
Deus e o Diabo
(no círculo vicioso da terra do sol)
Virou-se o diabo pra deus e disse:
— Quem sou eu, demônios! se não sou deus?
E deus, bondoso, respondeu, qual prece:
— Oh, céus! você é o que não quero meu.
O demo, esperto, retrucou, de pronto:
— Que não sou deus? que me fizeste resto
de ti? deixaste todo o mal pra mim?
Pronto, que o resto, em mim, te diminui.
Potência, ciência e presença, em ti,
não são totais, tu não és mais perfeito
... e fim de papo. E sumiu, a seu jeito.
Mas deus se arrependeu e, desde então,
corre atrás do diabo, feito um cão
caçando o rabo... (E o cão diz: — Nem te ligo!)
Virou-se o diabo pra deus e disse:
— Quem sou eu, demônios! se não sou deus?
E deus, bondoso, respondeu, qual prece:
— Oh, céus! você é o que não quero meu.
O demo, esperto, retrucou, de pronto:
— Que não sou deus? que me fizeste resto
de ti? deixaste todo o mal pra mim?
Pronto, que o resto, em mim, te diminui.
Potência, ciência e presença, em ti,
não são totais, tu não és mais perfeito
... e fim de papo. E sumiu, a seu jeito.
Mas deus se arrependeu e, desde então,
corre atrás do diabo, feito um cão
caçando o rabo... (E o cão diz: — Nem te ligo!)
902
Luís António Cajazeira Ramos
A Estrela de Davi
(salmo do bom pastor)
A estrela de Davi me ilumina
a cada entardecer, no crepúsculo,
quando há escuridão nas esquinas,
e a noite cai num véu que é só luto.
A estrela de que falo é do mar,
achada por Davi nas areias
onde ele se deitou, a sonhar
com as ondas que sopravam sereias.
O menino Davi, de quem falo,
é o bom filho de Sara. Tão raro
alguém ser bom assim: deu-me a estrela!
E a estrela de Davi me ilumina,
pois ela é tal e qual lamparina,
se lhe enfio dentro, acesa, uma vela.
A estrela de Davi me ilumina
a cada entardecer, no crepúsculo,
quando há escuridão nas esquinas,
e a noite cai num véu que é só luto.
A estrela de que falo é do mar,
achada por Davi nas areias
onde ele se deitou, a sonhar
com as ondas que sopravam sereias.
O menino Davi, de quem falo,
é o bom filho de Sara. Tão raro
alguém ser bom assim: deu-me a estrela!
E a estrela de Davi me ilumina,
pois ela é tal e qual lamparina,
se lhe enfio dentro, acesa, uma vela.
1 527
Jacinto Freire de Andrade
A um Mosquito
Invencível mosquito,
Émulo do mais livre pensamento,
Sem corpo, e de todo espírito,
Que deste fim a um tão alto intento,
Quando precipitado
O céu de Délia acometeste ousado.
As portas de diamante
Cerradas ao clamor de tanta gente
Abriste triunfante,
Zombando da esperança impertinente,
Que entre temor, e espanto
Nunca acabou comigo esperar tanto.
Cupido, que inquieta
Délia sentiu ferida,
Espera, que o sinta,
A lança, que tiraste em sangue tinta,
Que o peito endurecido
É prova das setas de Cupido.
Porém de nada disto
Te mostres tão soberbo, e presumido,
Que podes sem ser visto
Passar a mais ferir, sem ser sentido,
E para castigar-te,
Não ocupas lugar nalguma parte.
Foras de amor ferido,
Se tivera o teu erro algum desconto,
Ou se achara Cupido
Aonde a ponta da seta pôr o ponto.
Condolação bastante;
Pois não picaste a Délia como amante.
Buscaste a noite escura
Por cometer a Délia mais oculto;
Quem medo te afigura,
Se não faz o teu corpo nenhum vulto,
Pobre de ti tão pobre,
Que a mesma luz do Sol te descobre.
Hidrópico mosquito,
Por beber sangue assim não te condeno,
Nem cometes delito,
Que com os olhos da alma tão pequeno,
Quando apenas te vejo,
Que desejas lugar para o desejo.
Tanto o saber Divino
Trabalhou no teu ser, tâo novo, e estranho,
Que Ambrósio Calepino
Não tem nome, que imprima o teu tamanho,
Porque o diminutivo
É mais em ti, que o teu superlativo.
Por tradição antiga
Deves graças a Deus humilde, e mudo;
Pois não falta quem diga,
Que de nada te fez, o que fez tudo:
Sendo que bem pudera
Fazer de ti nada, se quisera.
Causas ao Mundo todo
Admiração tão grande, que se espanta
De ver por novo modo
Em corpo tão pequeno traça tanta;
Porque o entendimento
Fábrica vê em ti sem fundamento.
Oh de suprema ideia,
Subtil debuxo, amostra primorosa!
Porque em ti mais campeia,
Que na máquina altiva, e majestosa:
Que em fazer-te tão pobre
Sua grandeza muito mais descobre.
Somente, se se adverte,
Dos vidraceiros és bem grande afronta;
Pois não têm para ver-te
Óculos nenhuns, que cheguem à conta;
Pois para ver mosquitos
É necessário ter graus infinitos.
E vós, que antes do dia
Das culpas castigais levando a palma,
Por nova tirania,
Que fizeste do corpo inferno da alma
Se fizeste do corpo inferno da alma:
Se por esta vitória
Tendes glória, ou vanglória.
Entre tantos rigores não durmais,
Pois se as almas sem culpas castigais,
Para desinquietar
Vosso rigor severo, e infinito
Basta só o sonida de um mosquito.
Émulo do mais livre pensamento,
Sem corpo, e de todo espírito,
Que deste fim a um tão alto intento,
Quando precipitado
O céu de Délia acometeste ousado.
As portas de diamante
Cerradas ao clamor de tanta gente
Abriste triunfante,
Zombando da esperança impertinente,
Que entre temor, e espanto
Nunca acabou comigo esperar tanto.
Cupido, que inquieta
Délia sentiu ferida,
Espera, que o sinta,
A lança, que tiraste em sangue tinta,
Que o peito endurecido
É prova das setas de Cupido.
Porém de nada disto
Te mostres tão soberbo, e presumido,
Que podes sem ser visto
Passar a mais ferir, sem ser sentido,
E para castigar-te,
Não ocupas lugar nalguma parte.
Foras de amor ferido,
Se tivera o teu erro algum desconto,
Ou se achara Cupido
Aonde a ponta da seta pôr o ponto.
Condolação bastante;
Pois não picaste a Délia como amante.
Buscaste a noite escura
Por cometer a Délia mais oculto;
Quem medo te afigura,
Se não faz o teu corpo nenhum vulto,
Pobre de ti tão pobre,
Que a mesma luz do Sol te descobre.
Hidrópico mosquito,
Por beber sangue assim não te condeno,
Nem cometes delito,
Que com os olhos da alma tão pequeno,
Quando apenas te vejo,
Que desejas lugar para o desejo.
Tanto o saber Divino
Trabalhou no teu ser, tâo novo, e estranho,
Que Ambrósio Calepino
Não tem nome, que imprima o teu tamanho,
Porque o diminutivo
É mais em ti, que o teu superlativo.
Por tradição antiga
Deves graças a Deus humilde, e mudo;
Pois não falta quem diga,
Que de nada te fez, o que fez tudo:
Sendo que bem pudera
Fazer de ti nada, se quisera.
Causas ao Mundo todo
Admiração tão grande, que se espanta
De ver por novo modo
Em corpo tão pequeno traça tanta;
Porque o entendimento
Fábrica vê em ti sem fundamento.
Oh de suprema ideia,
Subtil debuxo, amostra primorosa!
Porque em ti mais campeia,
Que na máquina altiva, e majestosa:
Que em fazer-te tão pobre
Sua grandeza muito mais descobre.
Somente, se se adverte,
Dos vidraceiros és bem grande afronta;
Pois não têm para ver-te
Óculos nenhuns, que cheguem à conta;
Pois para ver mosquitos
É necessário ter graus infinitos.
E vós, que antes do dia
Das culpas castigais levando a palma,
Por nova tirania,
Que fizeste do corpo inferno da alma
Se fizeste do corpo inferno da alma:
Se por esta vitória
Tendes glória, ou vanglória.
Entre tantos rigores não durmais,
Pois se as almas sem culpas castigais,
Para desinquietar
Vosso rigor severo, e infinito
Basta só o sonida de um mosquito.
552
Jeremias Brasileiro
NZAMBIAMÍ!
Depois dos Orins e Adurás
Névoa Amarela toda Ebla e Alápéré
sentada em banco de praça
conversa com Òtólúbájés
tão segura de si que desestrutura Ekwensús.
Notas: NZambIamí! = Meu Deus!
Orins e Adurás = Cânticos e Rezas
Ebla e Alápéré = Graça e Bondade
Òtólúbájés = Pessoas que gostam das negatividades
Ekwensús = Espíritos Malígnos
Névoa Amarela toda Ebla e Alápéré
sentada em banco de praça
conversa com Òtólúbájés
tão segura de si que desestrutura Ekwensús.
Notas: NZambIamí! = Meu Deus!
Orins e Adurás = Cânticos e Rezas
Ebla e Alápéré = Graça e Bondade
Òtólúbájés = Pessoas que gostam das negatividades
Ekwensús = Espíritos Malígnos
989
João Nepomuceno Kubitschek
Eurico
Hermengarda! ousei amá-la
De Favila a nobre filha,
Das Espanhas maravilha,
Mimoso esmero dos céus!
Ousei construir-lhe um templo
De adoração na minha alma,
Sonhei a vida tão calma,
Vendo o céu nos olhos seus!
Que era eu pra tão alto
Erguer meu amor ardente?
Era um tiufado valente,
Um gardingo, nada mais!
Na raça dos meus não tinha
Priscos brasões de nobreza,
Não tinha tanta riqueza
Como os cofres de seus pais.
O orgulho e a ambição se ergueram
Entre nós — muro gigante!
Quem pode transpô-lo ovante?
O leão rugiu de dor.
Entre nós abriu-se a fauce
De imenso abismo sem fundo:
De um lado, os homens, o mundo;
De outro lado, o nosso amor!
Era impossível! Que importa
Tivesse os afetos santos,
Como o diziam meus prantos,
Minhas lágrimas de fel?
Das esferas diamantinas,
Do céu azul da ventura,
Despenhei-me à noite escura,
Como o arcanjo revel.
Nunca da virgem o amículo
Beijará meu lábio ardente;
Sua alma pura, inocente,
Não me dará um sorrir;
Nunca a bênção do presbítero
Ligará nossos destinos;
Do noivado os santos hinos
No templo não hei de ouvir!
Nunca! Flama dos infernos
Que a flor da esperança abrasa;
Estilete agudo em brasa
Nas fibras do coração;
Nuvem prenhe de tormentas
Que no céu rugindo passa;
Hiena que despedaça
Minha mais bela ilusão!
Fugi dos homens! No claustro
Fui chorar minha desdita;
À santa virgem bendita
Fui pedir consolações;
Quis de mim próprio exilar-me,
Exilando-me do mundo,
Do olvido arrojar ao fundo
Do passado as aflições.
E o céu na profunda chaga
Doce bálsamo vertia;
Serena melancolia
Pairou no servo da cruz;
E dos meus lábios brotaram
Cânticos pios, suaves,
Que reboaram nas naves,
Das catedrais de Jesus.
Depois... travou-se o conflito
Entre Deus e a imagem linda,
Porque no meu peito ainda
Não se extinguira a paixão:
Ora a razão imperando
Na consciência — Deus — bradava
Ora em delírios clamava
— Hermengarda — o coração.
Em vão entre mim e o mundo
Ergui a imensa barreira,
E do templo na soleira
Lhe disse um eterno adeus;
Toda vestida de encantos,
Vinha a imagem da donzela
Sorrir-me na erma cela,
Qual mensageiro dos céus.
Ei-la — do cair das tardes
Nos coloridos vapores,
Da aurora nos resplendores,
Na branca luz do luar,
Na hóstia do sacrifício,
Nas flores ao pé das cruzes,
Dos bentos círios nas luzes,
Nos ornamentos do altar.
Dizei, virações noturnas,
Esta história de agonias,
Do Calpe nas penedias,
Na mais funda solidão!
Que não chegue ao mundo um eco
Deste amor que me acompanha,
Que como brônzea montanha,
Me pesa no coração.
Cala estas dores, minha alma...
A serpente do deserto
Já dispara o bote certo
E ensangüenta o chão natal;
Sobre um montão de ruínas
Campeia altivo o Crescente,
Por onde avança a torrente
Surgem os gênios do mal.
E tu, bela Espanha! o louro,
Colhido ao sol das vitórias,
Emblema das tuas glórias,
Te vai da fronte cair?
Na espúria raça de hoje
Não tens mais valentes filhos,
Que acendam de novo os brilhos
Da estrela do teu porvir?
Como tigres da vingança,
Teus soldados não mais rugem?
Embotou a vil ferrugem
Os gládios da nobre grei?
Não é mais fouce de morte
O franskisk do visigodo?
Não provaram-lhe o denodo
As águias do povo — rei?
Silêncio! O vento do norte
Lá passa em busca dos mares!
Silêncio! Ecoou nos ares
Um grito de maldição!
É o César das montanhas,
É o Pelaio, aceso em fúrias,
Na caverna das Astúrias
Bramindo como um leão.
Também no horror dos combates,
Eu fui um soldado forte,
Semeei o estrago, a morte,
Como um raio vingador;
Pela armadura de ferro
Troquei a estringe sagrada,
Pela borda ensangüentada
Meu cajado de pastor.
E as hostes fugiam lívidas
Diante do meu aspeito...
Nem uma flecha meu peito
Não veio rasgar sequer!
E ainda no caos revolto
Dessas guerreiras falanges,
No afuzilar dos alfanjes
Tu me sorrias, mulher!
Disseste-me um dia a história
De teus infantis amores...
Por que orvalhaste flores
Que não podiam viçar?
Fundir minha alma na tua
Em cadeia indestrutível...
Oh! nunca! nunca! impossível
Entre nós está o altar!
Ó Deus! do abismo do nada
Por que meu ser arrancaste?
Por que no mundo o atiraste,
Como em funesta prisão?
Que uma alma cristã não possa
Apagar da vida o lume,
Enterrar de um ferro o gume
Bem fundo no coração!...
De Favila a nobre filha,
Das Espanhas maravilha,
Mimoso esmero dos céus!
Ousei construir-lhe um templo
De adoração na minha alma,
Sonhei a vida tão calma,
Vendo o céu nos olhos seus!
Que era eu pra tão alto
Erguer meu amor ardente?
Era um tiufado valente,
Um gardingo, nada mais!
Na raça dos meus não tinha
Priscos brasões de nobreza,
Não tinha tanta riqueza
Como os cofres de seus pais.
O orgulho e a ambição se ergueram
Entre nós — muro gigante!
Quem pode transpô-lo ovante?
O leão rugiu de dor.
Entre nós abriu-se a fauce
De imenso abismo sem fundo:
De um lado, os homens, o mundo;
De outro lado, o nosso amor!
Era impossível! Que importa
Tivesse os afetos santos,
Como o diziam meus prantos,
Minhas lágrimas de fel?
Das esferas diamantinas,
Do céu azul da ventura,
Despenhei-me à noite escura,
Como o arcanjo revel.
Nunca da virgem o amículo
Beijará meu lábio ardente;
Sua alma pura, inocente,
Não me dará um sorrir;
Nunca a bênção do presbítero
Ligará nossos destinos;
Do noivado os santos hinos
No templo não hei de ouvir!
Nunca! Flama dos infernos
Que a flor da esperança abrasa;
Estilete agudo em brasa
Nas fibras do coração;
Nuvem prenhe de tormentas
Que no céu rugindo passa;
Hiena que despedaça
Minha mais bela ilusão!
Fugi dos homens! No claustro
Fui chorar minha desdita;
À santa virgem bendita
Fui pedir consolações;
Quis de mim próprio exilar-me,
Exilando-me do mundo,
Do olvido arrojar ao fundo
Do passado as aflições.
E o céu na profunda chaga
Doce bálsamo vertia;
Serena melancolia
Pairou no servo da cruz;
E dos meus lábios brotaram
Cânticos pios, suaves,
Que reboaram nas naves,
Das catedrais de Jesus.
Depois... travou-se o conflito
Entre Deus e a imagem linda,
Porque no meu peito ainda
Não se extinguira a paixão:
Ora a razão imperando
Na consciência — Deus — bradava
Ora em delírios clamava
— Hermengarda — o coração.
Em vão entre mim e o mundo
Ergui a imensa barreira,
E do templo na soleira
Lhe disse um eterno adeus;
Toda vestida de encantos,
Vinha a imagem da donzela
Sorrir-me na erma cela,
Qual mensageiro dos céus.
Ei-la — do cair das tardes
Nos coloridos vapores,
Da aurora nos resplendores,
Na branca luz do luar,
Na hóstia do sacrifício,
Nas flores ao pé das cruzes,
Dos bentos círios nas luzes,
Nos ornamentos do altar.
Dizei, virações noturnas,
Esta história de agonias,
Do Calpe nas penedias,
Na mais funda solidão!
Que não chegue ao mundo um eco
Deste amor que me acompanha,
Que como brônzea montanha,
Me pesa no coração.
Cala estas dores, minha alma...
A serpente do deserto
Já dispara o bote certo
E ensangüenta o chão natal;
Sobre um montão de ruínas
Campeia altivo o Crescente,
Por onde avança a torrente
Surgem os gênios do mal.
E tu, bela Espanha! o louro,
Colhido ao sol das vitórias,
Emblema das tuas glórias,
Te vai da fronte cair?
Na espúria raça de hoje
Não tens mais valentes filhos,
Que acendam de novo os brilhos
Da estrela do teu porvir?
Como tigres da vingança,
Teus soldados não mais rugem?
Embotou a vil ferrugem
Os gládios da nobre grei?
Não é mais fouce de morte
O franskisk do visigodo?
Não provaram-lhe o denodo
As águias do povo — rei?
Silêncio! O vento do norte
Lá passa em busca dos mares!
Silêncio! Ecoou nos ares
Um grito de maldição!
É o César das montanhas,
É o Pelaio, aceso em fúrias,
Na caverna das Astúrias
Bramindo como um leão.
Também no horror dos combates,
Eu fui um soldado forte,
Semeei o estrago, a morte,
Como um raio vingador;
Pela armadura de ferro
Troquei a estringe sagrada,
Pela borda ensangüentada
Meu cajado de pastor.
E as hostes fugiam lívidas
Diante do meu aspeito...
Nem uma flecha meu peito
Não veio rasgar sequer!
E ainda no caos revolto
Dessas guerreiras falanges,
No afuzilar dos alfanjes
Tu me sorrias, mulher!
Disseste-me um dia a história
De teus infantis amores...
Por que orvalhaste flores
Que não podiam viçar?
Fundir minha alma na tua
Em cadeia indestrutível...
Oh! nunca! nunca! impossível
Entre nós está o altar!
Ó Deus! do abismo do nada
Por que meu ser arrancaste?
Por que no mundo o atiraste,
Como em funesta prisão?
Que uma alma cristã não possa
Apagar da vida o lume,
Enterrar de um ferro o gume
Bem fundo no coração!...
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