Lista de Poemas

Poema

Este poema não tem pretensão nenhuma.
Este poema não quer ser nada.
Não quer dizer nada.
Este poema pode até ser provisório
— apenas enquanto não se pensa em nada —.
Este poema,
nem quer ser poema!
Sei que ele quer explodir,
invariável,
mudo.
Creio apenas que quer
romper os dedos de minhas mãos,
e cair, teimoso,
dando vida,
à uma folha abstrata de papel.
Mas este poema não tem resistência alguma,
como folhas, soltas ao vento,
frio,
sem pecados...

Salvador, 20 de dezembro de 1996

871

No Espelho

Vi as marcas do tempo em meu rosto.
Profundas,
como os abismos em meu coração.
Vi também caminhos.
Caminhos traçados em minhas retinas,
aquáticas,
sufocadas,
quase afogadas,
em minha tristeza.
Vi minhas marcas de infância,
infantis cicatrizes,
camufladas em um rosto jovem,
melancólico.
Vi meus lábios,
vermelhos
— sangrentos —,
riscados como papel,
por palavras,
em explosões metafóricas.

Mas vi também um corpo.
Um corpo duro,
petrificado,
como um rosto no espelho...

Salvador, 08 de janeiro de 1997

940

Paisagem

à Cristina Pinchemel
Imagino que o dia está absolutamente perfeito.
Pelo vidro suave da janela,
o céu azul,
resplandescente,
ofusca qualquer pensamento vil.
Nas ruas,
as pessoas andam sorridentes e gentis,
com ensaios de "bom-dia",
"boa-tarde" e
"boa-noite".

Lá fora os ventos correm,
— brincando! —
como crianças num dia de sol,
embaraçando cabelos,
afagando folhas solitárias com suas doces carícias invisíveis...
O mar, verde como uma floresta virgem,
lança suas ondas de finas espumas sedosas,
e a areia ,
— ah! a areia!... —
com seus flocos dourados,
assiste a tudo,
inebriando-se...

E sinto!
Sinto a felicidade em mim,
tomando conta de toda a minha alma,
como se injetada por agulha fina, anestésica...
E o ar brinca em meu coração,
borbulhando todo o meu sangue,
numa taça profunda, de cristal...

O dia,
aos poucos,
vai desaparecendo por trás dos montes,
— verdes como o mar! —
dando luz e vida
a uma nova criança que está por nascer...

E a lua surge,
completa,
afiada,
seduzindo estrelas e puros corações.

Os vizinhos em suas varandas,
prestigiam um novo espetáculo.
E vão dormir felizes,
preenchidos por um calor que emana de cada um,
e com um misto de satisfação e ansiedade,
certos de um novo espetáculo,
que irá surgir pela manhã...

A vida não tem sentido,
se você não compõe sua própria paisagem...

706

Intervenção da Morte

Consulta médica.
O ar anestesia meus pensamentos,
deixando-os livres.
Que teria eu sofrido para estar em tal lugar?
E o doutor,
de barbas brancas, — que até passava um pouco de calma, sabe?! —
anunciou o esperado:
— Tu realmente és saudável, é verdade.
Salvo tuas vísceras,
teimosas,
impondo-se em deslocar-se.
Causastes uma hérnia, vísceras danadas!
Hospital.
Exames, espera, tricotomia, espera, roupas brancas — ridículas! —
botinhas de pano, touca, cadeira-de-rodas. . .
Sala de cirurgia!
Deito-me na maca e amarram-me por inteiro.
Eletroldos, injeções, soro, bisturi, coração, anestesia. . .

. . .

Terminou?

. . .

E vem a recuperação que,
apesar de rápida,
é bastante dolorosa.
Após a cirurgia, paro e reflito.
Tenho a nítida impressão de que a morte,
é aquilo ali:
não sente-se nada;
não ouve-se nada;
não se é nada,
após os ‘bip’s’. . .

Salvador, 10 de julho de 1994

659

Nós

(à minha mãe, Inalda Maria de CarvalhoGóes)

Não somos um só.
Mas sabemos quem somos.
Com você, sei muito de mim.
Com você, encontrei comigo, e me vi,
enquanto olhava para você.
E nos encontramos.
Foi vivendo minha solidão,
que nos encontramos.
Ficamos sabendo quem realmente somos.
Nos conhecemos.
Conhecemos minha insegurança;
e sua fortaleza.
Conhecemos meu jeito infantil;
e sua maneira de tratar-me. Somente sua.
Conhecemos minha fragilidade;
e sua segurança.
Conhecemos minha mudez arrogante;
e seu grito de alerta.
Não somos um só,
mas, nos refletimos.
Você reflete-me o que sou,
o que fui,
o que posso vir a ser.
Somos um grupo.
Um grupo,
enquanto capazes de,
diferencialmente,
sermos nós mesmos,
sempre juntos.

Salvador, 26 de novembro de 1995

817

Elementos Naturais

Água, ar, fogo, terra.
Às vezes, para definir-me,
caio nos conceitos naturais.
Ao passar de minha vida,
muitas vezes quis ser fogo.
Revidar com chamas,
queimar todas as regras,
explodir em pensamentos. . .
Outras vezes,
desejei ser ar,
e poder escapar ileso
das armadilhas da paixão,
das dúvidas angustiantes,
dos golpes do coração.
Ou ainda, terra.
Firme, forte.
Dura o bastante para resistir à tentações.
Mas nunca pude viver tais conceitos!
Resta-me somente um elemento.
É claro que sou água!!
Deixo fluir, correr. . .
Vejo sempre novas paisagens. . .
Começo o dia como um rio,
que desagua no mar,
que o sol evapora,
que vira nuvem,
que transforma-se em chuva,
que volta à terra em outro rio,
que segue para outro mar,
que se regenera. . .
Sou meio sem raízes,
seguindo correntes.
Sou mutante. . .
Tudo muda!
Hoje sou um,
amanhã serei outro.
Mas,
sempre melhor que ontem.

Itabuna, 30 de junho de 1995

800

Ausência II

É o mesmo céu;
longe.
São as mesmas estrelas;
egoístas.
É o mesmo ambiente;
insignificante.
É a mesma saudade. É a mesma dor.
Mas eu não queria essa "mesmice"!
Eu só queria o mesmo carinho,
a mesma boca,
o mesmo corpo,
a mesma alma,
o mesmo Amor.
O mesmo amor que me faz ficar de pé.

Eu só queria dançar.
Queria, com ela, dançar,
numa atmosfera rosada. . .

Salvador, 22 de setembro de 1996

722

Madrugada

Sinto-me só.
Sinto-me triste.
Vazio.
Mais triste e vazio que uma vida
triste e vazia.
Queria pelo menos um afago,
um toque,
mãos, braços,
mesmo que desconhecidos,
fingindo abraços.
Queria ao menos uma palavra,
mesmo que fosse vã,
balbuciada,
falsa.
Resta-me a madrugada.
Somente a inebriante escuridão da madrugada.
Faço dela minha companhia,
fuga do pobre poeta amargurado,
esconderijo de camufladas inspirações.

Salvador, 07 de novembro de 1996

857

Livro

à Soares Feitosa,
sobre o seu espantoso
"Requiem em Sol da Tarde"

Quem ao ler um livro,
chora,
como à morte de um querido ente,
sente,
o peso e a dor das palavras,
e cada gota de sangue e lágrimas,
como manchas,
em cada página.
E tem a alma leve, pura,
voando livremente...

Salvador, 12 de novembro de 1996

908

Poema Quase Erótico

Começo agora a sentir.
A sentir-te,
num toque de lábios.
Sinto-te perto de mim,
com teus pequenos passos,
escorregadios,
a acariciar-me a face.
Os teus toques,
apesar de gélidos,
esquentam-me o corpo inteiro,
fazendo-me queimar,
de ternura.
E num simples tocar,
derreto-me, perco-me, distraio-me.
E tu continuas a tocar-me,
escorrendo-me pelo corpo,
fazendo-me cócegas,
excitantes.
Até que tu vais,
sem nem deixar-me saber
quem tu és.
Mas, agora,
percebendo e sentindo,
o mais íntimo dos teus toques,
começo a saber.
É como se fosse,
e é...
orvalho!

Salvador, 28 de outubro de 1996

888

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Identificação e contexto básico

Rodrigo Carvalho é um poeta português contemporâneo. A sua obra centra-se frequentemente na exploração da paisagem urbana, da memória e da identidade, temas que se entrelaçam com a experiência da modernidade. A sua poesia é marcada por uma linguagem lírica e por uma profunda capacidade de observação do quotidiano.

Infância e formação

As especificidades da sua infância e formação não são amplamente detalhadas em fontes públicas, mas o seu percurso literário sugere uma formação sólida e uma apropriação consciente da tradição poética.

Percurso literário

O percurso literário de Rodrigo Carvalho tem-se construído através da publicação de livros de poesia que têm sido bem recebidos pela crítica. A sua obra evolui explorando as nuances da experiência urbana e a complexidade das relações humanas na sociedade contemporânea. Tem vindo a participar em eventos literários e a estabelecer contacto com outros poetas e leitores.

Obra, estilo e características literárias

A obra principal de Rodrigo Carvalho inclui livros como "Cartografia da Ausência" (2012) e "O Sol em Cima" (2017). Os temas centrais são a cidade, a memória, a identidade, a passagem do tempo e as relações interpessoais. Utiliza frequentemente o verso livre, construindo poemas com uma forte componente visual e sensorial. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem depurada, por vezes melancólica, mas sempre atenta aos detalhes do quotidiano. A sua voz poética é reflexiva e introspectiva, convidando à contemplação. A sua obra dialoga com a tradição poética portuguesa, mas também apropria-se de uma sensibilidade contemporânea, explorando a relação entre o indivíduo e o espaço urbano.

Contexto cultural e histórico

Rodrigo Carvalho insere-se no panorama da poesia portuguesa contemporânea, um período marcado por uma diversidade de estilos e por um renovado interesse pela reflexão sobre a cidade e a identidade no mundo globalizado. Dialoga com outros poetas da sua geração e partilha preocupações estéticas e temáticas com muitos escritores que procuram dar conta da complexidade da vida moderna.

Vida pessoal

Informações sobre a sua vida pessoal são escassas em fontes públicas, mas é possível inferir que a sua experiência de vida, particularmente a sua relação com o espaço urbano, é uma fonte de inspiração fundamental para a sua obra.

Reconhecimento e receção

A poesia de Rodrigo Carvalho tem recebido atenção crítica positiva, sendo reconhecida pela sua qualidade estética e pela pertinência dos temas abordados. É considerado uma voz emergente e promissora na poesia portuguesa atual.

Influências e legado

Embora não explicitamente detalhadas, as influências de Rodrigo Carvalho poderão incluir poetas que exploraram a temática urbana e a introspeção. O seu legado reside na forma como capta a essência da experiência urbana contemporânea através de uma linguagem poética singular.

Interpretação e análise crítica

A crítica tem destacado a capacidade de Carvalho em criar imagens vívidas da cidade e em explorar a dimensão psicológica dos seus habitantes. A sua poesia é vista como um convite à reflexão sobre o modo como habitamos os espaços e como estes nos moldam.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Os seus poemas frequentemente desconstroem e reconstroem a paisagem urbana, revelando a beleza e a melancolia escondidas no quotidiano das cidades. A sua atenção aos detalhes pode ser considerada uma marca distintiva do seu processo criativo.

Morte e memória

Não aplicável a um autor contemporâneo com obra em curso.