Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

n. 1987 BR BR

Rodrigo Carvalho é um poeta português contemporâneo, conhecido pela sua obra que explora a paisagem urbana, a memória e a identidade no contexto da modernidade. A sua poesia distingue-se pela linguagem cuidada, pela capacidade de evocar atmosferas e por uma reflexão sobre a condição humana nas cidades. Tem vindo a afirmar-se como uma voz relevante na poesia portuguesa atual, com uma obra que dialoga com a tradição e, ao mesmo tempo, se abre a novas sensibilidades e formas de expressão. A sua poesia convida o leitor a revisitar o quotidiano com um olhar renovado.

n. 1987-01-25, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil

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Poema

Este poema não tem pretensão nenhuma.
Este poema não quer ser nada.
Não quer dizer nada.
Este poema pode até ser provisório
— apenas enquanto não se pensa em nada —.
Este poema,
nem quer ser poema!
Sei que ele quer explodir,
invariável,
mudo.
Creio apenas que quer
romper os dedos de minhas mãos,
e cair, teimoso,
dando vida,
à uma folha abstrata de papel.
Mas este poema não tem resistência alguma,
como folhas, soltas ao vento,
frio,
sem pecados...

Salvador, 20 de dezembro de 1996

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Biografia

Identificação e contexto básico

Rodrigo Carvalho é um poeta português contemporâneo. A sua obra centra-se frequentemente na exploração da paisagem urbana, da memória e da identidade, temas que se entrelaçam com a experiência da modernidade. A sua poesia é marcada por uma linguagem lírica e por uma profunda capacidade de observação do quotidiano.

Infância e formação

As especificidades da sua infância e formação não são amplamente detalhadas em fontes públicas, mas o seu percurso literário sugere uma formação sólida e uma apropriação consciente da tradição poética.

Percurso literário

O percurso literário de Rodrigo Carvalho tem-se construído através da publicação de livros de poesia que têm sido bem recebidos pela crítica. A sua obra evolui explorando as nuances da experiência urbana e a complexidade das relações humanas na sociedade contemporânea. Tem vindo a participar em eventos literários e a estabelecer contacto com outros poetas e leitores.

Obra, estilo e características literárias

A obra principal de Rodrigo Carvalho inclui livros como "Cartografia da Ausência" (2012) e "O Sol em Cima" (2017). Os temas centrais são a cidade, a memória, a identidade, a passagem do tempo e as relações interpessoais. Utiliza frequentemente o verso livre, construindo poemas com uma forte componente visual e sensorial. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem depurada, por vezes melancólica, mas sempre atenta aos detalhes do quotidiano. A sua voz poética é reflexiva e introspectiva, convidando à contemplação. A sua obra dialoga com a tradição poética portuguesa, mas também apropria-se de uma sensibilidade contemporânea, explorando a relação entre o indivíduo e o espaço urbano.

Contexto cultural e histórico

Rodrigo Carvalho insere-se no panorama da poesia portuguesa contemporânea, um período marcado por uma diversidade de estilos e por um renovado interesse pela reflexão sobre a cidade e a identidade no mundo globalizado. Dialoga com outros poetas da sua geração e partilha preocupações estéticas e temáticas com muitos escritores que procuram dar conta da complexidade da vida moderna.

Vida pessoal

Informações sobre a sua vida pessoal são escassas em fontes públicas, mas é possível inferir que a sua experiência de vida, particularmente a sua relação com o espaço urbano, é uma fonte de inspiração fundamental para a sua obra.

Reconhecimento e receção

A poesia de Rodrigo Carvalho tem recebido atenção crítica positiva, sendo reconhecida pela sua qualidade estética e pela pertinência dos temas abordados. É considerado uma voz emergente e promissora na poesia portuguesa atual.

Influências e legado

Embora não explicitamente detalhadas, as influências de Rodrigo Carvalho poderão incluir poetas que exploraram a temática urbana e a introspeção. O seu legado reside na forma como capta a essência da experiência urbana contemporânea através de uma linguagem poética singular.

Interpretação e análise crítica

A crítica tem destacado a capacidade de Carvalho em criar imagens vívidas da cidade e em explorar a dimensão psicológica dos seus habitantes. A sua poesia é vista como um convite à reflexão sobre o modo como habitamos os espaços e como estes nos moldam.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Os seus poemas frequentemente desconstroem e reconstroem a paisagem urbana, revelando a beleza e a melancolia escondidas no quotidiano das cidades. A sua atenção aos detalhes pode ser considerada uma marca distintiva do seu processo criativo.

Morte e memória

Não aplicável a um autor contemporâneo com obra em curso.

Poemas

20

Poema

Este poema não tem pretensão nenhuma.
Este poema não quer ser nada.
Não quer dizer nada.
Este poema pode até ser provisório
— apenas enquanto não se pensa em nada —.
Este poema,
nem quer ser poema!
Sei que ele quer explodir,
invariável,
mudo.
Creio apenas que quer
romper os dedos de minhas mãos,
e cair, teimoso,
dando vida,
à uma folha abstrata de papel.
Mas este poema não tem resistência alguma,
como folhas, soltas ao vento,
frio,
sem pecados...

Salvador, 20 de dezembro de 1996

909

Remissão

à Mário Sérgio Carvalho
Hoje,
admiro teu sorriso,
anônimo, discreto.
Admiro teu olhar,
e todo o sentimento que ele resume.
Um sentimento abissal,
paterno,
sem ódio, rancor ou ciúme.
Alimento-me de tua razão,
à procura de saciar minha ignorância.
Olho teu semblante,
espelho meu,
e quase sem querer, lembro-me da morte,
esta companhia repugnante,
que levou de nós a semente paterna...
Mas a vida, justa,
deu-me tudo isso que tu és.
Sinto-me seguro, pois tu existes,
e em horas más,
sei que a tua aparição nunca faltará.
Agradeço-te pelo silêncio, pela paz.
E por me fazer crer que existo,
sem rancores do passado ou promessas futuras.
Hoje, tu és meu íntimo contraste,
e beijo-te a face,
grato,
pelo sonho de vida que salvaste...

953

Ausência II

É o mesmo céu;
longe.
São as mesmas estrelas;
egoístas.
É o mesmo ambiente;
insignificante.
É a mesma saudade. É a mesma dor.
Mas eu não queria essa "mesmice"!
Eu só queria o mesmo carinho,
a mesma boca,
o mesmo corpo,
a mesma alma,
o mesmo Amor.
O mesmo amor que me faz ficar de pé.

Eu só queria dançar.
Queria, com ela, dançar,
numa atmosfera rosada. . .

Salvador, 22 de setembro de 1996

758

Pensamentos

Pensei em tirar-me a vida.
Tirar-me a vida podre,
inútil,
inválida.
Não reconhecida.
Apenas desejo não mais existir.
Não ter mais a lembrança dos momentos.
não sentir mais o peso de minhas lágrimas,
ferindo o meu rosto.
Não ser mais o culpado por tudo que aconteça.
Não quero mais a calma das manhãs de sol,
não quero mais o frescor das longas tardes,
nem mesmo a solidão angustiante e companheira
de todas as noites.
Não quero mais a minha simbólica presença.
Abstrata.
Quero contemplar a morte,
e o alívio — de todos —
da minha ausência permanente.

830

Lira

Há uma dúvida que,
há tempos me corrói. . .
O que se passa pela cabeça das pessoas que,
por pura mediocridade,
tentam, em esforços vãos,
mudar a personalidade alheia?
Hoje,
sinto muito por essa mediocridade.
Profundamente atordoado,
este ambiente, agora, causa-me repugnância.
Além de todas as pessoas que me cobram outras personalidades,
como se não me faltasse mais ninguém,
agora, vem-me um tio,
com cismas insanas,
a aborrecer-me.
Um tio!
"Senhor Universal da Razão";
"Rei do Absoluto".
Estas são suas denominações. Auto-denominações.
Que maçada. . .
Vive no obsoleto. . .
Falas de razão,
e eu?
Eu, ouço tudo, e calo.
A razão que pensa ter,
é uma mentira!
E é por isso que na minha lira,
de assuntos fúteis, poucas vezes falo.
Mas, a passagem dos tempos, por vezes assombra-me.
E aprofundado em meus pensamentos,
ponho-me a questionar-me:
A razão. E essa "razão", quando irei por fim segui-la?
NUNCA!!
Nunca, ouviram?!!
De razões cotidianas,
todos estão cheios.
Cheios de nada.
Eu, para vocês miseráveis, posso também ser nada,
mas, ao erguer-me no meu pedestal,
olho-os de cima. Silencioso. . .
E questiono-me novamente:
Quem sou? Para onde vou?
Quem sou? Sei quem sou, e isto já basta;
Para onde vou? Não sei onde estou indo,
nem onde vou chegar,
mas sei que estou no meu caminho, que por si só,
emana uma rutilância análoga à minha vida.
Vida humilde, nesta louca hierarquia.
Vivo com a minha loucura,
mas, a partilhar desta loucura, desta razão,
prefiro apodrecer sozinho,
no silêncio da minha pequenez. . .

732

Súbito

Hoje,
foi um dos poucos dias em que me senti feliz.
E, de súbito,
veio-me uma vontade de abraçar o mundo.
Mas, já viram,
não posso.
Estou preso, em janelas.
E dentro de mim.

871

Livro

à Soares Feitosa,
sobre o seu espantoso
"Requiem em Sol da Tarde"

Quem ao ler um livro,
chora,
como à morte de um querido ente,
sente,
o peso e a dor das palavras,
e cada gota de sangue e lágrimas,
como manchas,
em cada página.
E tem a alma leve, pura,
voando livremente...

Salvador, 12 de novembro de 1996

940

Madrugada

Sinto-me só.
Sinto-me triste.
Vazio.
Mais triste e vazio que uma vida
triste e vazia.
Queria pelo menos um afago,
um toque,
mãos, braços,
mesmo que desconhecidos,
fingindo abraços.
Queria ao menos uma palavra,
mesmo que fosse vã,
balbuciada,
falsa.
Resta-me a madrugada.
Somente a inebriante escuridão da madrugada.
Faço dela minha companhia,
fuga do pobre poeta amargurado,
esconderijo de camufladas inspirações.

Salvador, 07 de novembro de 1996

885

Intervenção da Morte

Consulta médica.
O ar anestesia meus pensamentos,
deixando-os livres.
Que teria eu sofrido para estar em tal lugar?
E o doutor,
de barbas brancas, — que até passava um pouco de calma, sabe?! —
anunciou o esperado:
— Tu realmente és saudável, é verdade.
Salvo tuas vísceras,
teimosas,
impondo-se em deslocar-se.
Causastes uma hérnia, vísceras danadas!
Hospital.
Exames, espera, tricotomia, espera, roupas brancas — ridículas! —
botinhas de pano, touca, cadeira-de-rodas. . .
Sala de cirurgia!
Deito-me na maca e amarram-me por inteiro.
Eletroldos, injeções, soro, bisturi, coração, anestesia. . .

. . .

Terminou?

. . .

E vem a recuperação que,
apesar de rápida,
é bastante dolorosa.
Após a cirurgia, paro e reflito.
Tenho a nítida impressão de que a morte,
é aquilo ali:
não sente-se nada;
não ouve-se nada;
não se é nada,
após os ‘bip’s’. . .

Salvador, 10 de julho de 1994

688

Poema Quase Erótico

Começo agora a sentir.
A sentir-te,
num toque de lábios.
Sinto-te perto de mim,
com teus pequenos passos,
escorregadios,
a acariciar-me a face.
Os teus toques,
apesar de gélidos,
esquentam-me o corpo inteiro,
fazendo-me queimar,
de ternura.
E num simples tocar,
derreto-me, perco-me, distraio-me.
E tu continuas a tocar-me,
escorrendo-me pelo corpo,
fazendo-me cócegas,
excitantes.
Até que tu vais,
sem nem deixar-me saber
quem tu és.
Mas, agora,
percebendo e sentindo,
o mais íntimo dos teus toques,
começo a saber.
É como se fosse,
e é...
orvalho!

Salvador, 28 de outubro de 1996

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