Elementos Naturais
Água, ar, fogo, terra.
Às vezes, para definir-me,
caio nos conceitos naturais.
Ao passar de minha vida,
muitas vezes quis ser fogo.
Revidar com chamas,
queimar todas as regras,
explodir em pensamentos. . .
Outras vezes,
desejei ser ar,
e poder escapar ileso
das armadilhas da paixão,
das dúvidas angustiantes,
dos golpes do coração.
Ou ainda, terra.
Firme, forte.
Dura o bastante para resistir à tentações.
Mas nunca pude viver tais conceitos!
Resta-me somente um elemento.
É claro que sou água!!
Deixo fluir, correr. . .
Vejo sempre novas paisagens. . .
Começo o dia como um rio,
que desagua no mar,
que o sol evapora,
que vira nuvem,
que transforma-se em chuva,
que volta à terra em outro rio,
que segue para outro mar,
que se regenera. . .
Sou meio sem raízes,
seguindo correntes.
Sou mutante. . .
Tudo muda!
Hoje sou um,
amanhã serei outro.
Mas,
sempre melhor que ontem.
Itabuna, 30 de junho de 1995
Descrição
à meu irmão, Márcio Carvalho Góes
Tu és como o úmido gosto de terra:
diferente em cada época.
Mas não perdes o gosto pela terra.
Tu és terra!
Ao seu duro itinerário, o prazer matinal,
junta-se ao suspiro da madrugada.
Ainda é madrugada quando te levantas!
E sai pela estrada. . .
A paisagem diverge:
bois, cavalos, foices, braços, flores molhadas,
e os casebres caindo,
na êrma da manhã.
E roupas coloridas, ao longe, dançam nas cercas.
Teu sangue corre como uma boiada,
num grande galope,
ao longo do horizonte. . .
Teu nome.
Teu nome,
num breve erro ortográfico,
sôa macio. . .
Macio como o chão que pisas.
Chão verde.
Cheiro de mato.
E tua mente modela os animais.
Grandes animais,
sem passado, sem futuro.
Apenas com o peso que lhe importa.
Mas o dia, aos poucos, se desmancha.
E no teu campo,
verde campo,
um campo de estrelas irá brotando,
pouco a pouco,
até que tu voltes. . .
Campo: teu continuar da vida!
Salvador, 14 de março de 1995
Sozinho
Que será que surge em mim neste momento?
Que inquietação é essa que é quase uma agonia?
Há alguma coisa que atormenta minha alma,
que neste momento inquieto,
torna-se sombria.
Porque, na solidão desta tarde que parece morrer,
sinto o coração bater,
em fortes pancadas de medo?
Não tenho medo.
Tenho que viver, crer e reerguer,
uma vida que todos pensam nada ser.
Porque pensei em minha mãe, agonizante?
Deveria pensar?
Deveria pensar em uma pessoa que faz parecer
a minha vida errante?
Deveria?
Como a casa é deserta!
E como a tarde é fria!
Surge cada vez mais o tormento. . .
E agora,
nessa hora,
o que permanece em minha alma?
Desesperança. . . Desalento. . . Desânimo. . .
Que me importa agora o passado?
A minha natureza repugna essa volúpia enorme
de fracasso.
E pergunto-me:
Que passado ruinaria só de belezas?
A partir de agora,
eu abomino a estupidez momentânea
e atitudes infâmias,
que fazem denegrir a auto-estima.
Que atos podem vir a destruir um ser?
Que sejam desconhecidos,
que perdure o vil alívio. . .
Paisagem
à Cristina Pinchemel
Imagino que o dia está absolutamente perfeito.
Pelo vidro suave da janela,
o céu azul,
resplandescente,
ofusca qualquer pensamento vil.
Nas ruas,
as pessoas andam sorridentes e gentis,
com ensaios de "bom-dia",
"boa-tarde" e
"boa-noite".
Lá fora os ventos correm,
— brincando! —
como crianças num dia de sol,
embaraçando cabelos,
afagando folhas solitárias com suas doces carícias invisíveis...
O mar, verde como uma floresta virgem,
lança suas ondas de finas espumas sedosas,
e a areia ,
— ah! a areia!... —
com seus flocos dourados,
assiste a tudo,
inebriando-se...
E sinto!
Sinto a felicidade em mim,
tomando conta de toda a minha alma,
como se injetada por agulha fina, anestésica...
E o ar brinca em meu coração,
borbulhando todo o meu sangue,
numa taça profunda, de cristal...
O dia,
aos poucos,
vai desaparecendo por trás dos montes,
— verdes como o mar! —
dando luz e vida
a uma nova criança que está por nascer...
E a lua surge,
completa,
afiada,
seduzindo estrelas e puros corações.
Os vizinhos em suas varandas,
prestigiam um novo espetáculo.
E vão dormir felizes,
preenchidos por um calor que emana de cada um,
e com um misto de satisfação e ansiedade,
certos de um novo espetáculo,
que irá surgir pela manhã...
A vida não tem sentido,
se você não compõe sua própria paisagem...
Nós
(à minha mãe, Inalda Maria de CarvalhoGóes)
Não somos um só.
Mas sabemos quem somos.
Com você, sei muito de mim.
Com você, encontrei comigo, e me vi,
enquanto olhava para você.
E nos encontramos.
Foi vivendo minha solidão,
que nos encontramos.
Ficamos sabendo quem realmente somos.
Nos conhecemos.
Conhecemos minha insegurança;
e sua fortaleza.
Conhecemos meu jeito infantil;
e sua maneira de tratar-me. Somente sua.
Conhecemos minha fragilidade;
e sua segurança.
Conhecemos minha mudez arrogante;
e seu grito de alerta.
Não somos um só,
mas, nos refletimos.
Você reflete-me o que sou,
o que fui,
o que posso vir a ser.
Somos um grupo.
Um grupo,
enquanto capazes de,
diferencialmente,
sermos nós mesmos,
sempre juntos.
Salvador, 26 de novembro de 1995
Pensamentos
Pensei em tirar-me a vida.
Tirar-me a vida podre,
inútil,
inválida.
Não reconhecida.
Apenas desejo não mais existir.
Não ter mais a lembrança dos momentos.
não sentir mais o peso de minhas lágrimas,
ferindo o meu rosto.
Não ser mais o culpado por tudo que aconteça.
Não quero mais a calma das manhãs de sol,
não quero mais o frescor das longas tardes,
nem mesmo a solidão angustiante e companheira
de todas as noites.
Não quero mais a minha simbólica presença.
Abstrata.
Quero contemplar a morte,
e o alívio — de todos —
da minha ausência permanente.
Intervenção da Morte
Consulta médica.
O ar anestesia meus pensamentos,
deixando-os livres.
Que teria eu sofrido para estar em tal lugar?
E o doutor,
de barbas brancas, — que até passava um pouco de calma, sabe?! —
anunciou o esperado:
— Tu realmente és saudável, é verdade.
Salvo tuas vísceras,
teimosas,
impondo-se em deslocar-se.
Causastes uma hérnia, vísceras danadas!
Hospital.
Exames, espera, tricotomia, espera, roupas brancas — ridículas! —
botinhas de pano, touca, cadeira-de-rodas. . .
Sala de cirurgia!
Deito-me na maca e amarram-me por inteiro.
Eletroldos, injeções, soro, bisturi, coração, anestesia. . .
. . .
Terminou?
. . .
E vem a recuperação que,
apesar de rápida,
é bastante dolorosa.
Após a cirurgia, paro e reflito.
Tenho a nítida impressão de que a morte,
é aquilo ali:
não sente-se nada;
não ouve-se nada;
não se é nada,
após os ‘bip’s’. . .
Salvador, 10 de julho de 1994
Poema Quase Erótico
Começo agora a sentir.
A sentir-te,
num toque de lábios.
Sinto-te perto de mim,
com teus pequenos passos,
escorregadios,
a acariciar-me a face.
Os teus toques,
apesar de gélidos,
esquentam-me o corpo inteiro,
fazendo-me queimar,
de ternura.
E num simples tocar,
derreto-me, perco-me, distraio-me.
E tu continuas a tocar-me,
escorrendo-me pelo corpo,
fazendo-me cócegas,
excitantes.
Até que tu vais,
sem nem deixar-me saber
quem tu és.
Mas, agora,
percebendo e sentindo,
o mais íntimo dos teus toques,
começo a saber.
É como se fosse,
e é...
orvalho!
Salvador, 28 de outubro de 1996
Madrugada
Sinto-me só.
Sinto-me triste.
Vazio.
Mais triste e vazio que uma vida
triste e vazia.
Queria pelo menos um afago,
um toque,
mãos, braços,
mesmo que desconhecidos,
fingindo abraços.
Queria ao menos uma palavra,
mesmo que fosse vã,
balbuciada,
falsa.
Resta-me a madrugada.
Somente a inebriante escuridão da madrugada.
Faço dela minha companhia,
fuga do pobre poeta amargurado,
esconderijo de camufladas inspirações.
Salvador, 07 de novembro de 1996
Libertação
É. . .
Dizem por aí que nasci para viver sozinho.
Eternamente sozinho.
Que importa? O que importa é viver!
Tenho pressa de viver! Viver no meu mundo!
Estou farto da vida estupidamente cotidiana!
Não quero mais saber de regras insuportáveis!
Eu insulto as pessoas-máquinas! Sempiternamente cautelosas!
Que importam as regras, as infâmias?
Que importam?
Recuso-me a aceitar o absurdo daqueles que acreditam
na impossibilidade de crer que viver,
é só isso aí. . .
Queimem de raiva contra mim os que acreditam no sistema!
Morram de dor as atitudes impostas!
Destilem seus venenos,
que eu beberei. . .
Tenho nervos de aço, onde não corre sangue nas veias,
ou mesmo no coração.
No meu coração correm vastas emoções,
e o fluxo de pensamentos.
Se tens as regras, cumpra-as!
Se tens a subordinação, humilhe-se!
Se tens tudo, fazes!
Eu, tenho a minha loucura!
Porque, vocês que dizem possuir o direito,
acham que podem ignorar tudo aquilo que sinto em meu peito?
Ah! Que ninguém me defina!
Que ninguém me questione!
Eu, que não vivo sem a minha loucura,
não me questiono!
Eu faço!
Vocês, miseráveis e desprezíveis,
só vão ter o respeito que querem,
no dia em que souberem — e quiserem ! —
respeitar a minha vontade.
Se não for assim. . .
Unam-se todos contra mim!
Alimentem-se do meu ódio!
Mas, não aliem-se ao inimigo. . .
Costumo andar sozinho. Não acompanho ninguém.
Prefiro seguir aos lamentos, machucar-me, arrastar-me,
a seguir todas estas regras insuportáveis.
Mas, viver!
A dor é uma coisa real, sim, mas que estou
aprendendo a abraçar.
E assim vou vivendo. . .
Sozinho. . .