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Poemas neste tema

Humanidade e Solidariedade

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aqui, Ali

Cinco horas. Livraria São José.
Gente, bulício. A novidade é
uma sombra que salta do refugo
e lépida se mostra: Victor Hugo.
O Carlinhos não deixa passar nada:
La Légende des siècles celebrada
um século depois, mas que beleza!
Esta a glória maior, sutil riqueza.
E, ouvindo o que nos diz Ubaldo Soares,
hugoanas rimas bailam pelos ares.
Olhe que esse velhinho tem cartaz!
— É mesmo, está em todas. E o que ele faz?
— Ele não faz, já fez. E continua
onde quer que haja vida: nesta rua,
no sonho das crianças e dos velhos,
entre os jornais como entre os Evangelhos,
é músico, jogral, louco, adivinho,
conhece nossos múltiplos segredos,
ânsias, beatitudes, fúrias, medos.
Ele é o Bardo, morou? por sobre os ismos
dos novos com seus velhos reumatismos…
Ses rêves, toujours pleins d’amour,
Sont faits des ombres que lui jettent
Les choses qui seront un jour.
E, se o assunto é poesia, olhe essa jovem
Hilda Hilst e seus versos que comovem:
Roteiro do silêncio — tem na capa
a foto de Oiticica e é todo um mapa
do que o Verbo não diz, salvo a quem ama:

O não dizer é que inflama
E a boca sem movimento
É que torna o pensamento
Lume
Cardume
Chama.

Gostou? Pois leia o livro todo. E agora,
dedica uma palavra, musa, à outrora
Key Kendall, seu nariz arrebitado,
seu humour e seu magro corpo alado.
Era bela e dançou. Pelo cinema,
erram saudades suas: serei’ema,
risco de galgo e flor, foi-se com a brisa.
Mas, felizmente, aqui chegou Maysa,
e, nos diamantes-olhos e na voz,
traz algo de Paris a todos nós.
Que importam brizoletas? que me importa
o aviso: “O boi fez greve”, junto à porta
dos açougues? “Tristeza não tem fim”?
Há os que dela fazem seu festim.
E tudo passa, e em meio à cerração,
à névoa seca (pois pra que chorar?),
um Viscount, carregado de feijão
em lata americana, vem gentil
acariciar
o estômago faminto do Brasil.
13/09/1959
670
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Crônica de Janeiro

Onde está o janeireiro
que entoava alegres janeiras
à porta de seus amigos
na primeira cor do ano?
Mal se calou a cantiga
tecida de votos suaves,
veio a chuva, veio o vento,
veio o vá! da voçoroca
e o morro virou paçoca
de carne humana desfiada
nas unhas do temporal.
Sem trinco, teto ou portal,
cada casa improvisada
sobre alicerces de samba
mais pula que dança a dança
de morte, num carnaval
de contextura cruel.
Meu Império da Tijuca,
meus pandeiristas, meu coro,
baliza minha, passistas,
meu ritmo nobre, envolvente,
por que tudo se desmanda
em sarabanda demente
e nas trevas se derrete,
de sorte que nem sabemos
se são fontes lacrimais
ou feras coreografias
de potências infernais?
Eis rola a encosta o enxurreio
e faz do rio Veneza
de um só barrento canal
onde se mira a tristeza
de gôndolas-automóveis
imóveis no lodaçal.
Já toda a gente se agita,
já corre de mãos repletas
de agasalho, de comida,
de remédio, de carinho
e de bondade infinita.
Quisera ter uma voz
mui alta, mui sonorosa
para exaltar deste povo
que tem fama de leviano
a força maravilhosa
posta em seu gesto de ajuda.
De um estranho faz seu mano,
de alheia carne sua carne,
e, na crise mais aguda,
na mais longa chuvarada,
ensina como tirar
um pouco de ordem do nada.
Assim dá tempo a doutores,
a sábios, economistas,
progressistas, reformistas,
urbanistas et reliqua,
que são grandes sabedores
dos problemas, dos sistemas
e processos salvadores,
para em simpósio ou solitos
resolver como, por quanto,
em quanto tempo se pode
limpar do Rio este câncer
que se alastra pelos morros,
aumentando a cada hora,
e todo mundo deplora,
mas empacando na escolha
entre dois modos de agir.
No imenso Maracanã
Zé Fusquinho deita e espera
que raie o sol amanhã
para regressar aonde
talvez ainda reste um caco
do que ontem foi seu barraco.
E se vier outro toró
no calor de fevereiro,
enquanto a turma discute,
vestida de guarda-pó,
se remove ou se urbaniza?
São Jorge, que é milagreiro,
deixará que a chuva chute
o que resta das favelas
sob a carícia da brisa?
Cosminho e seu irmãozinho
deixarão que o mais desabe?
Não sei, não sou adivinho,
mas, por mineira cautela,
vou rematando esta crônica
antes que o Rio se acabe.
30/01/1966
932
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aos Santos de Junho

Meu santo Santo Antônio de Lisboa,
repara em quanto coração aflito,
a padecer milhões por coisa à toa.
Por que não baixas, please, do infinito?

O mundo é o mesmo após aquela tarde
em que, à falta de gente, por encanto,
falaste aos peixes, e eles, sem alarde,
meditavam em roda de teu manto.

Não sabemos, Antônio, o que queremos,
nem sabemos querer, porém confiamos
de teu amor nos cândidos extremos
e nessa fiúza todos continuamos.

Se não sorris a nosso petitório,
acudindo ao que houver de mais urgente,
se, em vez do café, levas o tório,
como pode o pessoal ficar contente?

Alferes, capitão de soldo largo,
tua civilidade nos proteja.
Não nos deixes papar arroz amargo,
e os brotos (de grinalda?) leva à igreja.

Olha as coisas perdidas, Antoninho:
vergonha, isqueiro, tempo… Se encontrares
um coração jogado no caminho,
traze-o de volta ao dono, pelos ares.

E tu, senhor São João, que vens chegando
ao estrondo de bombas (de hidrogênio?),
salve! mas, por favor, dize: até quando
o jeito é ensurdecer: por um milênio?

Sei que não és culpado, meu querido.
Amas o fogo, a sorte, a clara de ovo,
a flor de samambaia e seu sentido
mágico, à meia-noite, para o povo.

E o manjerico verde, casamento
com rapaz; ou, senão, murcho, com velho.
Responde, João: em julho vem aumento?
(Bem sei que o assunto foge ao Evangelho.)

Mas dançaremos todos por lembrar-te,
e pulando, sem pânico, a fogueira,
pobres clientes do câncer e do enfarte,
ao clarão de outra chama verdadeira

que arde em nós, não se extingue e nos consola,
ó João Batista degolado e suave,
bendiremos a graça de teu nome,
e na funda bacia a alma se lave.

Não importa, se ardemos: esta brasa,
como o petróleo, é nossa. Mas, bondoso
e friorento São João: ao cego, em Gaza,
dá-lhe em sonho um balcão, para seu gozo.

E tu, ó Pedro astuto e rude, rocha
no caminho do incréu, baixa e descansa,
contando-nos teus contos de carocha,
os mesmos em Caeté como na França.

Tens as chaves do céu ou do Tesouro?
Aqui a turma — é pena — se interessa
bem mais pela segunda — tanto ouro
nas almas se perdendo… A vida é essa.

E o mais que se dissipa em schiaparellis,
balenciagas, espécies superfinas
(que não sei como pôr os erres e eles),
em peles balzaquianas e meninas.

Pedro-piloto-barca: a teu prestígio,
da vida este canhestro e mau aluno,
evitando de longe o curso estígio,
ganha a sabedoria de Unamuno.

No alto não me recebes, mas à porta,
os coros inefáveis surpreendendo,
cultivarei as minhas flores de horta:
a saudade do céu é um dividendo.

Antônio, Pedro, João: aos três oferto
esta saudade em nós, sem testemunho:
pois, se o homem rasteja em rumo incerto,
balões sobem ao céu, no mês de junho.
17/06/1956
2 061
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Canto Ao Homem do Povo Charlie Chaplin

I
Era preciso que um poeta brasileiro,
não dos maiores, porém dos mais expostos à galhofa,
girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver
como na poética e essencial atmosfera dos sonhos lúcidos,

era preciso que esse pequeno cantor teimoso,
de ritmos elementares, vindo da cidadezinha do interior
onde nem sempre se usa gravata mas todos são extremamente polidos
e a opressão é detestada, se bem que o heroísmo se banhe em ironia,

era preciso que um antigo rapaz de vinte anos,
preso a tua pantomima por filamentos de ternura e riso, dispersos no tempo,
viesse recompô-los e, homem maduro, te visitasse
para dizer-te algumas coisas, sobcolor de poema.

Para dizer-te como os brasileiros te amam
e que nisso, como em tudo mais, nossa gente se parece
«com qualquer gente no mundo — inclusive os pequenos judeus
de bengalinha e cartola, sapatos compridos, olhos melancólicos,

vagabundos que o mundo repeliu, mas zombam e vivem
nos filmes, nas ruas tortas com tabuletas: Fábrica, Barbeiro, Polícia,
e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor
como um segredo dito no ouvido de um homem do povo caído na rua.

Bem sei que o discurso, acalanto burguês, não te envaidece,
e costumas dormir enquanto os veementes inauguram a estátua,
e entre tantas palavras que como carros percorrem as ruas,
só as mais humildes, de xingamento ou beijo, te penetram.

Não é a saudação dos devotos nem dos partidários que te ofereço,
eles não existem, mas a de homens comuns, numa cidade comum,
nem faço muita questão da matéria de meu canto ora em torno de ti
como um ramo de flores absurdas mandado por via postal ao inventor dos jardins.

Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo,
que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida,
são duas horas de anestesia, ouçamos um pouco de música,
visitemos no escuro as imagens — e te descobriram e salvaram-se.

Falam por mim os abandonados de justiça, os simples de coração,
os párias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os recalcados,
os oprimidos, os solitários, os indecisos, os líricos, os cismarentos,
os irresponsáveis, os pueris, os cariciosos, os loucos e os patéticos.

E falam as flores que tanto amas quando pisadas,
falam os tocos de vela, que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,
os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,
cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam.


II
A noite banha tua roupa.
Mal a disfarças no colete mosqueado,
no gelado peitilho de baile,
de um impossível baile sem orquídeas.
És condenado ao negro. Tuas calças
confundem-se com a treva. Teus sapatos
inchados, no escuro do beco,
são cogumelos noturnos. A cartola,
sol negro, cobre tudo isto, sem raios.
Assim, noturno cidadão de uma república
enlutada, surges a nossos olhos
pessimistas, que te inspecionam e meditam:
Eis o tenebroso, o viúvo, o inconsolado,
o corvo, o nunca mais, o chegado muito tarde
a um mundo muito velho.

E a lua pousa
em teu rosto. Branco, de morte caiado,
que sepulcros evoca, mas que hastes
submarinas e álgidas e espelhos
e lírios que o tirano decepou, e faces
amortalhadas em farinha. O bigode
negro cresce em ti como um aviso
e logo se interrompe. É negro, curto,
espesso. Ó rosto branco, de lunar matéria,
face cortada em lençol, risco na parede,
caderno de infância, apenas imagem,
entretanto os olhos são profundos e a boca vem de longe,
sozinha, experiente, calada vem a boca
sorrir, aurora, para todos.

E já não sentimos a noite,
e a morte nos evita, e diminuímos
como se ao contacto de tua bengala mágica voltássemos
ao país secreto onde dormem meninos.
Já não é o escritório de mil fichas,
nem a garage, a universidade, o alarme,
é realmente a rua abolida, lojas repletas,
e vamos contigo arrebentar vidraças,
e vamos jogar o guarda no chão,
e na pessoa humana vamos redescobrir
aquele lugar — cuidado! — que atrai os pontapés: sentenças
de uma justiça não oficial.

III

Cheio de sugestões alimentícias, matas a fome
dos que não foram chamados à ceia celeste
ou industrial. Há ossos, há pudins
de gelatina e cereja e chocolate e nuvens
nas dobras de teu casaco. Estão guardados
para uma criança ou um cão. Pois bem conheces
a importância da comida, o gosto da carne,
o cheiro da sopa, a maciez amarela da batata,
e sabes a arte sutil de transformar em macarrão
o humilde cordão de teus sapatos.
Mais uma vez jantaste: a vida é boa.
Cabe um cigarro: e o tiras
da lata de sardinhas.

Não há muitos jantares no mundo, já sabias,
e os mais belos frangos
são protegidos em pratos chineses por vidros espessos.
Há sempre o vidro, e não se quebra,
há o aço, o amianto, a lei,
há milícias inteiras protegendo o frango,
e há uma fome que vem do Canadá, um vento,
uma voz glacial, um sopro de inverno, uma folha
baila indecisa e pousa em teu ombro: mensagem pálida
que mal decifras. Entre o frango e a fome,
os valos da lei, as léguas. Então te transformas
tu mesmo no grande frango assado que flutua
sobre todas as fomes, no ar; frango de ouro
e chama, comida geral
para o dia geral, que tarda.

IV

O próprio ano novo tarda. E com êle as amadas.
No festim solitário teus dons se aguçam.
És espiritual e dançarino e fluido,
mas ninguém virá aqui saber como amas
com fervor de diamante e delicadeza de alva,
como, por tua mão, a cabana se faz lua.
Mundo de neve e sal, de gramofones roucos
urrando longe o gozo de que não participas.
Mundo fechado, que aprisiona as amadas
e todo desejo, na noite, de comunicação.
Teu palácio se esvai, lambe-te o sono,
ninguém te quis, todos possuem,
tudo buscaste dar, não te tomaram.

Então caminhas no gelo e rondas o grito.
Mas não tens gula de festa, nem orgulho
nem ferida nem raiva nem malícia.
És o próprio ano-bom, que te deténs. A casa passa
correndo, os copos voam,
os corpos saltam rápido, as amadas
te procuram na noite. . . e não te vêem,
tu pequeno,
tu simples, tu qualquer.

Ser tão sozinho em meio a tantos ombros,
andar aos mil num corpo só, franzino,
e ter braços enormes sobre as casas,
e ter um pé em Guerrero e outro no Texas,
falar assim a chinês, a maranhense,
a russo, a negro: ser um só, de todos,
sem palavra, sem filtro,
sem opala:
há uma cidade em ti, que não sabemos.

V

Uma cega te ama. Os olhos abrem-se.
Não, não te ama. Um rico, em álcool,
é teu amigo e lúcido repele
tua riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos
o que há de água, de sopro e de inocência
no fundo de cada um de nós, terrestres. Mas, ó mitos
que cultuamos, falsos: flores pardas,
anjos desleais, cofres redondos, arquejos
poéticos acadêmicos: convenções
do branco, azul e roxo; maquinismos,
telegramas em série, e fábricas e fábricas
e fábricas de lâmpadas, proibições, auroras.
Ficaste apenas um operário
comandado pela voz colérica do megafone.
És parafuso, gesto, esgar.
Recolho teus pedaços: ainda vibram,
lagarto mutilado.

Colo teus pedaços. Unidade
estranha é a tua, em mundo assim pulverizado.
E nós, que a cada passo nos cobrimos
e nos despimos e nos mascaramos,
mal retemos em ti o mesmo homem,

aprendiz
bombeiro
caixeiro
doceiro
emigrante
forçado
maquinista
noivo
patinador
soldado
músico
peregrino
artista de circo
marquês
marinheiro
carregador de piano
apenas sempre entretanto tu mesmo,
o que não está de acordo e é meigo,
o incapaz de propriedade, o pé
errante, a estrada
fugindo, o amigo
que desejaríamos reter
na chuva, no espelho, na memória
e todavia perdemos.

VI

Já não penso em ti. Penso no ofício
a que te entregas. Estranho relojoeiro,
cheiras a peça desmontada: as molas unem-se
o tempo anda. És vidraceiro.
Varres a rua. Não importa
que o desejo de partir te roa; e a esquina
faça de ti outro homem; e a lógica
te afaste de seus frios privilégios.
Há o trabalho em ti, mas caprichoso,
mas benigno,
e dele surgem artes não burguesas,
produtos de ar e lágrima, indumentos
que nos dão asa ou pétalas, e trens
e navios sem aço, onde os amigos
fazendo roda viajam pelo tempo,
livros se animam, quadros se conversam,
e tudo libertado se resolve
numa efusão de amor sem paga, e riso, e sol.

O ofício, é o oficio
que assim te põe no meio de nós todos,
vagabundo entre dois horários; mão sabida
no bater, no cortar, no fiar, no rebocar,
o pé insiste em levar-te pelo mundo,
a mão pega a ferramenta: é uma navalha,
e ao compasso de Brahms fazes a barba
neste salão desmemoriado no centro do mundo oprimido
onde ao fim de tanto silêncio e ôco te recobramos.

Foi bom que te calasses.
Meditavas na sombra das chaves,
das correntes, das roupas riscadas, das cercas de arame,
juntavas palavras duras, pedras, cimento, bombas, invectivas,
anotavas com lápis secreto a morte de mil, a boca sangrenta
de mil, os braços cruzados de mil.

E nada dizias. E um bolo, um engulho
formando-se. E as palavras subindo.
() palavras desmoralizadas, entretanto salvas, ditas de novo.
Poder da voz humana inventando novos vocábulos e
[dando sopro aos exaustos.
Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,
crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e a fúria dos ditadores,
ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó e esperança.
1 768
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Consideração do Poema

Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convém.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporaram
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinícius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.

Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.

— Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.

Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começá-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis ai meu canto.

Êle é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.

Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.

Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel. . . Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.
4 860
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Mundo Grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem. . . sem que êle estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! vai inundando tudo. . .
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos — voltarão?
Meu coração não sabe.

Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.


Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
— Ó vida futura! nós te criaremos.
1 835
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Noite Na Repartição

O oficial administrativo:
Papel
respiro-te na noite de meu quarto,
no sabão passas a meu corpo, na água te bebo.
Até quando, sim, até quando
te provarei por única ambrosia?
Eu te amo e tu me destróis,
abraço-te e me rasgas,
beijo-te, amo-te, detesto-te, preciso de ti, papel, papel, papel!
ingrato, lês em mim sem me decifrares.
O corpo de meu filho estava amortalhado em
papel,
em papel dormiam as roupas e brinquedos, em papel os doces
do casamento. Em grandes pastas os rios, os caminhos
se deixam viajar, e a diligência roda
num chão fofo, azul e branco, de papel escrito.
Basta!
Quero carne, frutas, vida acesa,
quero rolar em fêmeas, ir ao mercado, ao Araguaia, ao amor.
Quero pegar em mão de gente, ver corpo de gente,
falar língua de gente, obliviar os códigos,
quero matar o DASP, quero incinerar os arquivos de amianto.
Sou vim homem, ou pelo menos quero ser um deles!

O papel:

Tu te queixas...
Distrais-te na queixa e a mágoa que exalas
é perfume que te unge, flor que te acarinha.
Dissolves-te na queixa, e tornado incenso, halo, paz
te sentes bem feliz enquanto eu sem consolo
espero tua brutalidade
sem a qual não vivo nem sou.
Teu escravo, isto sim, tua coisa calada,
teu servo branco, tapete onde passeias e compões.
Tu me fazes sofrer, bicho implacável mais que a onça
o é para o galho que pisa.
Por que não sou sem ti? Por que não existo, como as
[árvores, por conta própria?
Sou apenas papel, e teu misterioso poder
me oprime e suja.
E te revoltas...
Quisera dizer-te nomes feios independente de tua mão.
Que as palavras brotassem em mim, formigas no tronco,
moscas no ar; viessem para fora em caracteres ásperos,
crescessem, casas e exércitos, e te esmagassem.
Homenzinho porco, vilão amarelo e cardíaco!
(Avança para o burocrata, que se protege atrás da porta.)

A porta:

De tanto abrir e fechar perdi a vergonha.
Estou exausta, cética, arruinada.
Discussões não adiantam, porta é porta.
Perdi também a fé, e por economia
irão, quem sabe, me transformar em janela
de onde a virgem
enfrenta a noite
e suspira.
Seu ai de dentifrício americano cortará o céu
e me salvará.
Talvez me tornem ainda gaveta de segredos,
bolsa, calça de mulher, carteira de identidade,
simples alecrim, alga ou pedra.
Sim: é melhor pedra.
Dói nos outros, em si não.
Uma pedra no coração.

A aranha:

Chega!
Espero que não me queiras nascer um simples, vaga-lume.
Fica quieta, me deixa subir
e fazer no teto um lustre, uma rosa.
Sou aranha-tatanha, preciso viver,
A vida é dura, os corvos não esperam,
ouço os sinos da noite, vejo os funerais,
me sinto viúva, regresso à Inglaterra,
a aranha é o mais triste dos seres vivos.

O oficial administrativo:

Depois de mim, é óbvio.
Sou o número um — o triste dos tristíssimos.
A outros o privilégio
de embriagar-se. Non possumus.

A garrafa de uísque:
Não pode?
O garrafão de cachaça:
Não pode por quê?

O coquetel:
Experimenta. Sou doce. Sou seco

Todos os álcoois:
— Me prova! me prova!
É a festa do rei!
É de graça! de graça!
Me bebe! me bebe!

O oficial administrativo:

Mas se eu não sei beber. Nunca aprendi.

O papel:

Êle não sabe que o artigo 14
faculta pileques de gim c conhaque;
mal sabe êle que o artigo 18
autoriza porres até de absinto;
como ignora que o artigo 40
manda beber fogo, querosene, fel;
que por motivo de força maior
cobre derretido se pode sorver
se pode chegar ébrio na repartição,
se pode insultar o ícone da parede,
encher de vermute o tinteiro pálido,
ensopar em genebra velhos decretos
nos casos tais e em certas condições. ..
Êle não sabe.

A traça:
Que burro.

Os álcoois:
Sua alma sua palma
seu tédio seu epicédio
sua fraqueza sua condenação.
Somos o cristal, o mito, a estrela
em nós o mundo recomeça,
as contradições beijam-se a boca.
o espesso conduz ao sutil.
Somos a essência, o logos, o poema.
Brandy anisette kümmel nuvens-azuis
cascata de palavras.. .
A aranha:
Não me interessa.
O oficial administrativo:
Para beber é preciso amar.
Sinto que é tarde para aprender.
O papel:
Êle não sabe que a paixão amor
segundo reza o artigo 90...
A traça:
É uma zebra.


O telefone:
Amor?
Através de mim os corpos se amam,
alguns se falam em silêncio,
outros chamam e não agüentam
o peso e o amargor da voz.
Inventaram-me para negócios,
casos de doença e talvez de guerra.
Mas fui derivando para o amor.
Como sofro! Todas as dores
escorrem pelo bocal,
deixam apenas saliva...
Cuspo de amor fingindo lágrimas.
A traça:
Namorar na hora do expediente!
O oficial administrativo:
Não resolve. Nada resolve.
O mesmo revólver resolverá?
Amor e morte são certidões,
fichas.. .
A traça:
Despachos interlocutórios.
A aranha:
Lavrados na minha teia.
A vassoura elétrica:
Senhores deputados, desculpem. Sinto que é hora de varrer.
(Põe-se a varrer furiosamente, a porta cai com um gemido, as garrafas  partem-se, escorrem líquidos de oitenta cores. O oficial administrativo tira os processos da mesa da direita, jogando fora o processo de cima e colocando os demais na mesa da esquerda. Em seguida, retira-os desta última e volta a depositá-los na mesa da direita, sempre atirando fora o volume que estiver por cima. E assim indefinidamente. Do garrafão de cachaça desprende-se uma pomba, e pairai no meio da sala, banhada em luz macia.)
A pomba:
Papel, homem, bichos, coisas, calai-vos.
Trago uma palavra quase de amor, palavra de perdão..
Quero que vos junteis e compreendais a vida.
Por que sofrerás sempre, homem, pelo papel que adoras?
A carta, o ofício, o telegrama têm suas secretas consolações.
Confissões difíceis pedem folha branca.
Não grites, não suspires, não te mates: escreve.
Escreve romances, relatórios, cartas de suicídio, exposições de motivos,.
mas escreve. Não te rendas ao inimigo. Escreve memórias, faturas..
E por que desprezas o homem, papel, se êle te fecunda.
[com dedos sujos mas dolorosos?
Pensa na doçura das palavras. Pensa na dureza das palavras.
Pensa no mundo das palavras. Que febre te comunicam. Que riqueza.
Mancha de tinta ou gordura, em todo caso mancha de vida.
Passar os dedos no rosto branco. . não, na superfície branca.
Certos papéis são sensíveis, certos livros nos possuem.
Mas só o homem te compreende. Acostuma-te. beija-o.
Porta decaída, ergue-te, serve aos que passam.
Teu destino é o arco, são as bênção? e as consolações para todos.
Pequena aranha pessimista, sei que também tens direito ao idílio.
Vassoura, traça, regressai ao vosso comportamento essencial.
Telefone, já és poesia.
Preto e patético, fica entre as coisas.
Que cada coisa seja uma coisa bela.
O papel, a vassoura, os processos, a porta, os cacos de garrafa, surpresos:
Uma coisa bela?. . .
A pomba, no auge do entusiasmo, tornando-se, de branca, rosada:
UMA COISA BELA! UMA COISA JUSTA!

A traça:
Precisarei adaptar-me. . .
Só roerei belas caligrafias.
Coro em torno do oficial administrativo:
Uma coisa bela. Uma coisa justa
O oficial administrativo soergue o busto, suas vestes cinzentas tombam, aparece de branco, luminoso, ganha subitamente a condição humana:
Uma coisa bela ?!
2 469
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

América

Sou apenas um homem.
Um homem pequenino à beira de um rio.
Vejo as águas que passam e não as compreendo.
Sei apenas que é noite porque me chamam de casa.
Vi que amanheceu porque os gaios cantaram.
Como poderia compreender-te, América?
É muito difícil.

Passo a mão na cabeça que vai embranquecer.
O rosto denuncia certa experiência.
A mão escreveu tanto, e não sabe contar!
A boca também não sabe.
Os olhos sabem — e calam-se.
Ai, América, só suspirando.
Suspiro brando, que pelos ares vai se exalando.

Lembro alguns homens que me acompanhavam e hoje não acompanham.
Inútil chamá-los: o vento, as doenças, o simples tempo
dispersaram esses velhos amigos nos pequenos cemitérios do interior,
por trás das cordilheiras ou dentro do mar.
Eles me ajudariam, América, neste momento
de tímida conversa de amor.

Ah, por que tocar em cordilheiras e oceanos!
Sou tão pequeno (sou apenas um homem)
e verdadeiramente só conheço minha terra natal,
dois ou três bois, o caminho da roça,
alguns versos que li há tempos, alguns rostos que contemplei.
Nada conto do ar e da água, do mineral e da folha,
ignoro profundamente a natureza humana
e acho que não devia falar nessas coisas.

Uma rua começa em Itabira, que vai dar no meu coração.
Nessa rua passam meus pais, meus tios, a preta que me criou.
Passa também uma escola — o mapa —, o mundo de todas as cores.
Sei que há países roxos, ilhas brancas, promontórios azuis.
A terra é mais colorida do que redonda, os nomes gravam-se
em amarelo, em vermelho, em preto, no fundo cinza da infância.
América, muitas vezes viajei nas tuas tintas.
Sempre me perdia, não era fácil voltar.
O navio estava na sala.
Como rodava!

As cores foram murchando, ficou apenas o tom escuro, no mundo escuro.
Uma rua começa em Itabira, que vai dar em qualquer ponto da terra.
Nessa rua passam chineses, índios, negros, mexicanos, turcos, uruguaios.

Seus passos urgentes ressoam na pedra,
ressoam em mim.
Pisado por todos, como sorrir, pedir que sejam felizes?
Sou apenas uma rua
na cidadezinha de- Minas,
humilde caminho da América.

Ainda bem que a noite baixou: é mais simples conversar à noite.
Muitas palavras já nem precisam ser ditas.
Há o indistinto mover de lábios no galpão, há sobretudo silêncio,
certo cheiro de erva, menos dureza nas coisas,
violas sobem até à lua, e elas cantam melhor do que eu.

Canta uma canção
de viola ou banjo,
dentes cerrados,
alma entreaberta,
descanta a memória
do tempo mais fundo
quando não havia
nem casa nem rês
e tudo era rio,
era cobra e onça,
não havia lanterna
e nem diamante,
não havia nada.
Só o primeiro cão,
em frente do homem,
cheirando o futuro.
Os dois se reparam,
se julgam, se pesam,e o carinho mudo
corta a solidão.
Canta uma canção
no ermo continente,
baixo, não te exaltes.
Olha ao pé do fogo
homens agachados
esperando comida.
Como a barba cresce,
como as mãos são duras,
negras de cansaço.
Canta a esteia maia,
reza ao deus do milho,
mergulha no sonho
anterior às artes,
quando a forma hesita
em consubstanciar-se.
Canta os elementos
em busca de forma.
Entretanto a vida
elege semblante.
Olha: uma cidade.
Quem a viu nascer?
O sono dos homens
após tanto esforço
tem frio de morte.
Não vás acordá-los,
se é que estão dormindo.

Tantas cidades no mapa. . . Nenhuma, porém, tem mil anos.
'E as mais novas, que pena: nem sempre são as mais lindas.
Como fazer uma cidade? Com que elementos tecê-la? Quantos fogos terá?
Nunca se sabe, as cidades crescem,
mergulham no campo, tornam a aparecer.
O ouro as forma e dissolve; restam navetas de ouro.
Ver tudo isso do alto: a ponte onde passam soldados
(que vão esmagar a última revolução) ;
o pouso onde trocar de animal; a cruz marcando o encontro dos valentes;
a pequena fábrica de chapéus; a professora que tinha sardas...
Esses pedaços de ti, América, partiram-se na minha mão.
A criança espantada
não sabe juntá-los.

Contaram-me que também há desertos.
E plantas tristes, animais confusos, ainda não completamente determinados.
Certos homens vão de país em país procurando um
[metal raro ou distribuindo palavras.
Certas mulheres são tão desesperadamente formosas
[que é impossível não comer-lhes os
[retratos e não proclamá-los demônios.
Há vozes no rádio e no interior das árvores,
cabogramas, vitrolas e tiros.
Que barulho na noite,
que solidão!

Esta solidão da América. . . Ermo e cidade grande se espreitando.
Vozes do tempo colonial irrompem nas modernas canções,
e o barranqueiro do Rio São Francisco
— esse homem silencioso, na última luz da tarde,
junto à cabeça majestosa do cavalo de proa imobilizado
contempla num pedaço de jornal a iara vulcânica da Broadway.
O sentimento da mata e da ilha
perdura em meus filhos que ainda não amanheceram de todo
e têm medo da noite, do espaço e da morte.
Solidão de milhões de corpos nas casas, nas minas, no ar.
Mas de cada peito nasce um vacilante, pálido amor,
procura desajeitada de mão, desejo de ajudar,
carta posta no correio, sono que custa a chegar
porque na cadeira elétrica um homem (que não conhecemos) morreu.

Portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio de conhecimento.
Portanto, solidão é palavra de amor.
Não é mais um crime, um vício, o desencanto das coisas.
Ela fixa no tempo a memória
ou o pressentimento ou a ânsia
de outros homens que a pé, a cavalo, de avião ou barco, percorrem teus caminhos, América.

Esses homens estão silenciosos mas sorriem de tanto sofrimento dominado.
Sou apenas o sorriso
na face de um homem calado.
2 396
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fala de Chico-Rei

Rei,
duas vezes, Rei, Rei para sempre,
Rei africano, rei em Vila Rica,
Rei de meu povo exilado e de sua esperança,
Rei eu sou, e este reino em meu sangue se inscreve.
Arranquei-o do fundo da mina da Encardideira,
partícula por partícula, sofrimento por sofrimento,
com paciência, com astúcia, com determinação.
Era um Reino que ansiava por seu Rei.
Tinha a cor do Sol faiscando depois de sombria navegação,
a cor de ouro da liberdade.
Hoje formamos uma só Realeza, uma só Realidade
neste alto suave de colina mineira.
Aqui edifiquei a minha, a nossa Igreja
e coloquei-a nas mãos da virgem etíope,
nossa princesa santa e sábia: Efigênia,
sob as bênçãos da rainha Celeste do Rosário.
Meus súditos me são fiéis até o sacrifício,
por lei de fraternidade, não de medo ou tirania.
São livres e alegres depois de tanta amargura.
A alegria de meu povo explode
em charamelas, trombetas e gaitas,
rouqueiras de estrondo e júbilo,
canções e danças pelas ruas.
A alegria de meu povo esparrama-se
no trabalho, no sonho, na celebração
dos mistérios de Deus e das lutas do Homem.
Nossa pátria já não está longe nem perdida.
Nossa pátria está em nós, em solo novo e antiga certeza.
Amanhã, quem sabe? os tempos outra vez serão funestos,
nossa força cairá em cinza enxovalhada.
(Sou o Rei, e o destino da minha gente
habita, prenunciador, o meu destino.)
Mas este momento é prenda nossa e renascerá
de nossos ossos como de si mesmo.
Em liberdade, justiça e paz,
num futuro que a vista não alcança,
homens de todo horizonte e raça extrairão de outra mina mais funda e inesgotável
o ouro eterno, gratuito, da vida.
1 733
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ultratelex a Francisco

Francisco, bom dia no seu dia!
O dia de sua morte… Quem falou?
Imagino um afresco de Giotto:
Aves riscam os quatro ventos do céu,
formam cruzes de plumas. Entre elas,
sobe o poeta a conversar com os anjos.
Ninguém repara em suas mãos transparentes
o signo de cinco cravos sangrentos.
Cruzes e cravos que amor transmuda
em alegria superior a sofrimento.
Não é morte. É dia pleno.

Oi, Francisco, perito em alegrias especiais!
A maior: não possuir nada de nada.
Nem mesmo o burel castanho: é para rasgar e distribuir.
Nem mesmo o corpo: reservado
aos estigmas da divina predileção.

Francisco operário madrugador na construção de igrejas
(não de edifícios de renda, longe disso):
tantas coisas para lhe contar, daqui de baixo.
Mas você não cansou, em sete séculos e meio,
de ouvir a eterna queixa, o monocórdio estribilho
de nossa falta de humildade cortesia ternura nudez?

Veja por exemplo os bichos. (Só a eles me refiro
porque não falam por si.) Arvoro-me em secretário
do mico-estrela, da tartaruga, da baleia,
de todos, todos. Dos mais espetaculares aos mínimos,
tão míseros.
De irmãos você os chamava. Repare: aterrorizados,
fogem de nós, com muita razão e longos medos.
De um e outro, isolados,
gostamos. Coisa nossa, brinquedo. É gosto sem gostar,
feito de posse-domínio.
Veja as infinitas coleções
de animais que padecem em todos os chãos e águas da Terra
e não podem dizer que padecem, e por isso padecem duas vezes,
sem o suporte da santidade.

Pior, Francisco: o padecimento deles
é de responsabilidade nossa — humana? desumana.
Pois nós os torturamos e matamos
por hábito de torturar e de matar
e de tornar a fazê-lo, esporte
com halalis, campeonatos, medalhas, manchetes,
ouro pingando sangue.

Repiso estas coisas meio encabulado.
Tão velhas!
Tão novas sempre, secamente.
Técnicas letais varejam o fundo do mar
e o velho tiro, a velha lâmina
estão sempre caçando o irmão-bicho.

Lembrar que terrível penúria de amor
lavra nos corações convertidos em box
de supermercado de crueldades?
E penúria logo de amor,
essa matéria-prima, essa veste inconsútil de sua vida, Francisco?

Calo-me, santinho nosso,
mas antes faço-lhe um apelo:
providencie urgente sua volta ao mundo
no mesmo lugar, em lugar qualquer,
principalmente onde se comercia a santa esperança dos homens,
para ver se dá jeito,
jeito simples, franciscano, jeito descalço
de consertar tudo isso. Os bichos,
por este secretário, lhe agradecem.
1 045
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Postal Para Catherine

Paris pede postais
para Catherine.
Rápido, que a menina
espera no hospital.
Comprem no jornaleiro da esquina
lagoas e corcovados
escrevam do outro lado
um beijo
mandem para Catherine
à morte no hospital.
Ela quer ver o mundo
pintado de outra cor
não branco de parede
o branco desolado
sem qualquer imagem.
Telefonem para Minas
peçam postais de serras
pairando no fim do azul,
de estalactites, vacas
pastando sonho na campina.
Pinheiros-do-paraná saúdem
verticalmente Catherine.
A flor mais triunfal
aberta em bandeja sobre a água
siga do Norte para Catherine.
Coqueiral do Nordeste,
rumo a Paris onde a garota
viaja imóvel
vendo passar a Terra
plastificada em postal.
Canoa de Búzios
alpendre missioneiro do Rio Grande
talha de ouro da Bahia
procissões de navegantes
frevos, rodas de samba
gostocor do Brasil
ao natural
saltos, corredeiras
correi de avião para perto
da cama numerada de Catherine
a que vai morrer e olha
para longe do número
o espetáculo em flor
da vida no postal.
(O postal seleciona
o que vale ser visto
pela que diz adeus
à vida no geral.
Nada de imagem rude
em clichê de jornal
mostrando em branco e preto
o que já se adivinha
no quadrado do quarto
de hospital.)
Catherine morrendo
leva consigo a antologia
de sítios amoráveis
ilhas de prazer
e verduras felizes
(o capricho de Deus)
entre festas ingênuas
que celebram a vida
e a graça de viver
(o capricho do homem).
Empresa dos Correios,
não atrase a remessa
da chuva de postais
à menina, que o prazo
que a leucemia abriu
aos olhos esperantes
é um prazo fatal.
… A Cacilda aqui perto
de nós e sem olhar
que fale de um desejo,
sem voz que nos devolva
as suas trinta vidas
de trinta personagens
no quarto angustiado
à espera de Godot
à espera da esperança,
que daremos senão
amor amor em pânico
se ela não pede nada?
678
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Favelário Nacional

À memória de Alceu Amoroso Lima,
que me convidou a olhar para as favelas
do Rio de Janeiro.

1. Prosopopeia

Quem sou eu para te cantar, favela,
que cantas em mim e para ninguém a noite inteira de sexta
e a noite inteira de sábado
e nos desconheces, como igualmente não te conhecemos?

Sei apenas do teu mau cheiro: baixou a mim, na viração,
direto, rápido, telegrama nasal
anunciando morte... melhor, tua vida.

Decoro teus nomes. Eles
jorram na enxurrada entre detritos
da grande chuva de janeiro de 1966
em noites e dias e pesadelos consecutivos.
Sinto, de lembrar, essas feridas descascadas na perna esquerda
chamadas Portão Vermelho, Tucano, Morro do Nheco,
Sacopã, Cabritos, Guararapes, Barreira do Vasco,
Catacumba catacumbal tonitruante no passado,
e vem logo Urubus e vem logo Esqueleto,
Tabajaras estronda tambores de guerra,
Cantagalo e Pavão soberbos na miséria,
a suculenta Mangueira escorrendo caldo de samba,
Sacramento... Acorda, Caracol. Atenção, Pretos Forros!
O mundo pode acabar esta noite, não como nas Escrituras se
[estatui.
Vai desabar, grampiola por grampiola,
trapizonga por trapizonga,
tamanco, violão, trempe, carteira profissional, essas drogas todas,
esses tesouros teus, altas alfaias.

Vai desabar, vai desabar
o teto de zinco marchetado de estrelas naturais
e todos, ó ainda inocentes, ó marginais estabelecidos, morrereis
pela ira de Deus, mal governada.

Padecemos este pânico, mas
o que se passa no morro é um passar diferente,
dor própria, código fechado: Não se meta,
paisano dos baixos da Zona Sul.

Tua dignidade é teu isolamento por cima da gente.
Não sei subir teus caminhos de rato, de cobra e baseado,
tuas perambeiras, templos de Mamallapuram
em suspensão carioca.
Tenho medo. Medo de ti, sem te conhecer,
medo só de te sentir, encravada
favela, erisipela, mal-do-monte
na coxa flava do Rio de Janeiro.

Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver
nem de tua manha nem de teu olhar.
Medo de que sintas como sou culpado
e culpados somos de pouca ou nenhuma irmandade.
Custa ser irmão,
custa abandonar nossos privilégios
e traçar a planta
da justa igualdade.
Somos desiguais
e queremos ser
sempre desiguais.
E queremos ser
bonzinhos benévolos
comedidamente
sociologicamente
mui bem comportados.
Mas, favela, ciao,
que este nosso papo
está ficando tão desagradável.
Vês que perdi o tom e a empáfia do começo?

2. Morte gaivota

O bloco de pedra ameaça
triturar o presépio de barracos e biroscas.
Se deslizar, estamos conversados.
Toda gente lá em cima sabe disso
e espera o milagre,
ou, se não houver milagre, o aniquilamento instantâneo,
enquanto a Geotécnica vai tecendo o aranhol de defesas.
Quem vence a partida? A erosão caminha
nos pés dos favelados e nas águas.
Engenheiros calculam. Fotógrafos
esperam a catástrofe. Deus medita
qual o melhor desfecho, senão essa
eterna expectativa de desfecho.

O morro vem abaixo esta semana
de dilúvio
ou será salvo por Oxóssi?
Diáfana, a morte paira no esplendor
do sol no zinco.
Morte companheira. Morte,
colar no pescoço da vida.
Morte com paisagem marítima,
gaivota,
estrela,
talagada na manhã de frio
entre porcos, cabritos e galinhas.
Tão presente, tão íntima que ninguém repara
no seu hálito.
Um dia, possivelmente madrugada de trovões,
virá tudo de roldão
sobre nossas ultra, semi ou nada civilizadas cabeças
espectadoras
e as classes se unirão entre os escombros.

3. Urbaniza-se? Remove-se?

São 200, são 300
as favelas cariocas?
O tempo gasto em contá-las
é tempo de outras surgirem.
800 mil favelados
ou já passa de um milhão?
Enquanto se contam, ama-se
em barraco e a céu aberto,
novos seres se encomendam
ou nascem à revelia.
Os que mudam, os que somem,
os que são mortos a tiro
são logo substituídos.
Onde haja terreno vago,
onde ainda não se ergueu
um caixotão de cimento
esguio (mas vai-se erguer)
surgem trapos e tarecos,
sobe fumaça de lenha
em jantar improvisado.

Urbaniza-se? Remove-se?
Extingue-se a pau e fogo?
Que fazer com tanta gente
brotando do chão, formigas
de formigueiro infinito?
Ensinar-lhes paciência,
conformidade, renúncia?
Cadastrá-los e fichá-los
para fins eleitorais?
Prometer-lhes a sonhada,
mirífica, róseo-futura
distribuição (oh!) de renda?
Deixar tudo como está
para ver como é que fica?
Em seminários, simpósios,
comissões, congressos, cúpulas
de alta vaniloquência
elaborar a perfeita
e divina solução?

Um som de samba interrompe
tão sérias cogitações,
e a cada favela extinta
ou em vila transformada,
com direito a pagamento
de COMLURB, ISS, Renda,
outra aparece, larvar,
rastejante, desafiante,
de gente que nem a gente,
desejante, suspirante,
ofegante, lancinante.
O mandamento da vida
explode em riso e ferida.

4. Feliz

De que morreu Lizélia no Tucano?
Da avalanche de lixo no barraco.
Em seu caixão de lixo e lama ela dormiu
o sono mais perfeito de sua vida.

5. O nome

Me chamam Bonfim. A terra é boa,
não se paga aluguel, pois é do Estado,
que não toma tenência dessas coisas
por enquantemente. Na vala escorre
a merda dos barracos. Tem verme
n’água e n’alma. A gente se acostuma.
A gente não paga nada pra morar,
como ia reclamar?

Meu nome é Bonfim. Bonfim geral.
Que mais eu sonho?

6. Matança dos inocentes

Meu nome é Rato Molhado.
Meus porcos foram todos sacrificados
para acabar com a peste dos porcos.
Fiquei sem saúde e sem eles.
Uma por uma ou todas de uma vez
pereceram minhas riquezas. Em Inhaúma
sobram meus ratos incapturáveis.

7. Faz Depressa

Aqui se chama Faz Depressa
porque depressa se desfaz
a casa feita num relâmpago
em chão incerto, deslizante.
Tudo se faz aqui depressa.
Até o amor. Até o fumo.
Até, mais depressa, a morte.
Ainda mesmo se não se apressa,
a morte é sempre uma promessa
de decisão geral expressa.

8. Guaiamu

Viemos de Minas, sim senhor,
fugindo da seca braba lá do Norte.
Em riba de cinco estacas fincadas no mangue
a gente acha que vive
com a meia graça de Deus Pai Nosso Senhor.
Diz-que isto aqui tem nome Nova Holanda.
Eu não dou fé, nem sei onde é Holanda velha.
Me dirijo à Incelência: Isso é mar?
Mar, essa porcaria que de tarde
a onda vem e limpa mais ou menos,
e volta a ser porcaria, porcamente?
Vossa Senhoria tá pensando
que a gente passa bem de guaiamu
no almoço e na janta repetido?
Guaiamu sumiu faz tempo.
Aqui só vive gente, bicho nenhum
tem essa coragem.
Espia a barriga,
espia a barriga estufada dos meninos,
a barriga cheia de vazio,
de Deus sabe o quê.
Ele não podendo sustentar todo mundo
pelo menos faz inchar a barriga até este tamanho.

9. Olheiros

Pipa empinada ao sol da tarde,
sinal que polícia vem subindo.
Sem pipa, sem vento,
sem tempo de empinar,
o assovio fino vara o morro,
torna o corpo invisível, imbatível.

10. Sabedoria

Deixa cair o barraco, Ernestilde,
deixa rolar encosta abaixo, Ernestilde,
deixa a morte vir voando, Ernestilde,
deixa a sorte brigar com a morte, Ernestilde.
Melhor que obrigar a gente, Ernestilde,
a viver sem competência, Ernestilde,
no áureo, remoto, mítico
— lúgubre
conjunto habitacional.

11. Competição

Os garotos, os cães, os urubus
guerreiam em torno do esplendor do lixo.
Não, não fui eu que vi. Foi o Ministro
do Interior.

12. Desfavelado

Me tiraram do meu morro
me tiraram do meu cômodo
me tiraram do meu ar
me botaram neste quarto
multiplicado por mil
quartos de casas iguais.
Me fizeram tudo isso
para meu bem. E meu bem
ficou lá no chão queimado
onde eu tinha o sentimento
de viver como queria
no lugar onde queria
não onde querem que eu viva
aporrinhado devendo
prestação mais prestação
da casa que não comprei
mas compraram para mim.
Me firmo, triste e chateado,
Desfavelado.


13. Banquete

Dia sim dia não, o caminhão
despeja 800 quilos de galinha podre,
restos de frigorífico,
no pátio do Matruco,
bem na cara do Morro da Caixa-d’Água
e do Morro do Tuiuti.
O azul das aves é mais sombrio
que o azul do céu, mas sempre azul
conversível em comida.
Baixam favelados deslumbrados,
cevam-se no monturo.
Que morador resiste
à sensualidade de comer galinha azul?

14. Aqui, ali, por toda parte

As favelas do Rio transbordam sobre Niterói
e o Espírito Santo fornece novas pencas de favelados.
O Morro do Estado ostenta sem vexame sua porção de miséria.
Fonseca, Nova Brasília (sem ironia)
estão dizendo: “Um terço da população urbana
selou em nós a fraternidade de não possuir bens terrestres”.
Os verdes suspensos da Serra em Belo Horizonte
envolvem de paisagem os barracos da Cabeça de Porco.
Se não há torneiras, canos de esgoto, luz elétrica,
e o lixo é atirado no ar e a enchente carrega tudo, até os vivos,
resta o orgulho de ter aos pés os orgulhosos edifícios do Centro.
Belo Horizonte, dor minha muito particular.
Entre favelas e alojamentos eternamente provisórios de favelados expulsos
(pois carece mandá-los para “qualquer parte”, pseudônimo do Diabo),
São Paulo cresce imperturbavelmente em esplendor e pobreza,
com 20 mil favelados no ABC.
Em Salvador, os alagados jungidos à última condição humana
colhem, risonhos, a chuva de farinha, macarrão e feijão
que jorra da visita do Presidente.
No Recife...
Quando se aterra o mangue
fogem os miseráveis para as colinas
entre dois rios. E tudo continua
com outro nome.

15. Indagação

Antes que me urbanizem a régua, compasso,
computador, cogito, pergunto, reclamo:
Por que não urbanizam antes
a cidade?
Era tão bom que houvesse uma cidade
na cidade lá embaixo.

16. Dentro de nós

Guarda estes nomes: bidonville, taudis, slum,
witch-town, sanky-town,
callampas, cogumelos, corraldas,
hongos, barrio paracaidista, jacale,
cantegril, bairro de lata, gourbville,
champa, court, villa miseria,
favela.
Tudo a mesma coisa, sob o mesmo sol,
por este largo estreito do mundo.
Isto consola?
É inevitável, é prescrito,
lei que não se pode revogar
nem desconhecer?
Não, isto é medonho,
faz adiar nossa esperança
da coisa ainda sem nome
que nem partidos, ideologias, utopias
sabem realizar.
Dentro de nós é que a favela cresce
e, seja discurso, decreto, poema
que contra ela se levante,
não para de crescer.

17. Palafitas

Este nasce no mangue, este vive no mangue.
No mangue não morrerá.
O maravilhoso Projeto X vai aterrar o mangue.
Vai remover famílias que têm raízes no mangue
e fazer do mangue área produtiva.
O homem entristece.
Aquilo é sua pátria,
aquele, seu destino,
seu lodo certo e garantido.

18. Cidade grande

Que beleza, Montes Claros.
Como cresceu Montes Claros.
Quanta indústria em Montes Claros.
Montes Claros cresceu tanto,
ficou urbe tão notória,
prima rica do Rio de Janeiro,
que já tem cinco favelas
por enquanto, e mais promete.

19. Confronto

A suntuosa Brasília, a esquálida Ceilândia
contemplam-se. Qual delas falará
primeiro? Que tem a dizer ou a esconder
uma em face da outra? Que mágoas, que ressentimentos
prestes a saltar da goela coletiva
e não se exprimem? Por que Ceilândia fere
o majestoso orgulho da flórea Capital?
Por que Brasília resplandece
ante a pobreza exposta dos casebres
de Ceilândia,
filhos da majestade de Brasília?
E pensam-se, remiram-se em silêncio
as gêmeas criações do gênio brasileiro.

20. Gravura baiana

Do alto do Morro de Santa Luzia,
Nossa Senhora de Alagados, em sua igrejinha nova,
abençoa o viver pantanoso dos fiéis.
Por aqui andou o Papa, abençoou também.
A miséria, irmãos, foi dignificada.
Planejar na Terra a solução
fica obsoleto. Sursum corda!
Haverá um céu privativo dos miseráveis.

21. A maior

A maior! A maior!
Qual, enfim, a maior
favela brasileira?
A Rocinha carioca?
Alagados, baiana?
Um analista indaga:
Em área construída
(se construção se chama
o sopro sobre a terra
movediça, volúvel,
ou sobre água viscosa)?
A maior, em viventes,
bichos, homens, mulheres?
Ou maior em oferta
de mão de obra fácil?
Maior em aparelhos
de rádio e de tevê?
Maior em esperança
ou maior em descrença?
A maior em paciência,
a maior em canção,
rainha das favelas,
imperatriz-penúria?
Tantos itens... O júri
declara-se perplexo
e resolve esquivar-se
a qualquer veredicto,
pois que somente Deus
(ou melhor, o Diabo)
é capaz de saber
das mores, a maior.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Um Contemporâneo

I — o sábio sorriso

Alceu e Tristão: o nome
e o pseudônimo ensinam
uma unidade de alma
na unidade do amor.

Pois é o amor unidade
multiplicada, e a vida
quando se recolhe aos livros
é para voltar mais vida.

Em 50 anos de letras
uma flor desenha as pétalas
de amoroso convívio:
o homem livre e ligado.

Livre e ligado a seu próximo
na larga avenida humana
em que beleza e justiça
fazem da espera esperança.

Tristão e Alceu: a mesma
fiel cristalinidade:
uma criança sorrindo
no sábio à sombra de Deus.


II — alceu na safira dos oitent’anos


E chega o momento de olhar para o amigo
devagar, bem nos olhos
e sorrir para ele, sem dizer
nenhum desses vanilóquios de todo dia.
Dizemos alguma coisa para a fonte?
Alguma coisa para o ar?
Chega o momento de sentir
o amigo em estado de natureza,
e toda a limpidez
e toda a transparência
da alma se projeta
no que parece um vulto e é uma essência.

Alceu da Casa Azul do Cosme Velho,
onde ricocheteavam as “balas de Floriano”
na Revolta da Armada
sem que a paz do jardim se anuviasse.
Alceu menino penetrando
a mina profunda e sinuosa do morro
como depois penetraria as almas
ansiosas de verdade,
essa alguma verdade pelo menos
que nossos dedos tentam alcançar
entre liquens, lagartos, seixos-navalha.
“Sou um terrível
(guardo tua palavra de há 40 anos)
pesquisador de almas.
Amo as almas como o avarento
ama suas moedas.
Ainda não cheguei à caridade
de amá-las por amor, só por amor,
amo-as por avidez do mistério,
insatisfação do que já sei,
do que já vi e desfolhei.”

A mina desemboca
no ponto matinal
em que a luz espadana
sobre a frente e o dorso da vida.
Alceu, chegaste às cores da manhã
no alto do Corcovado
sobre a cidade dos homens confusos,
sobre as suas rixas e descaminhos,
suas angústias disfarçadas em dança e tóxico,
suas esperanças machucadas,
suas frustrações latejantes na mudez,
a cidade geral — o mundo é uma cidade,
uma aldeia global, a casa em crise.

Na claridade que te envolve
és cada vez menos uma pessoa,
estátua bordada, professor
supostamente aposentado,
com CPF, cartão do IFP,
domiciliado entre palmeiras.
És cada vez, cada vez mais
o pensamento aberto
à comunicação dos seres pelo amor
que exclui injustiça e as formas todas
de inumano tornar o ser humano.

Alceu, fiel ao nome
do cantor de Mitilene que à alegria
juntava o amor à liberdade,
e ensinas a maravilhosa devoção
do homem a seu destino criador,
sem as peias do medo e as farpas do ódio.
Alceu, amigo de fitar nos olhos
como se fita na árvore antiga
o primeiro verdor de sombra e sumo.


Alceu jovial e forte
— força de testemunhar, e proclamar
o que filtrado foi na consciência,
Alceu fraterno e puro, na safira
dos oitent’anos,
na graça
da vida plena,
que é doação e luta e paz no coração.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Contemplação No Banco

i

O coração pulverizado range
sob o peso nervoso ou retardado ou tímido
que não deixa marca na alameda, mas deixa
essa estampa vaga no ar, e uma angústia em mim,
espiralante.

Tantos pisam este chão que ele talvez
um dia se humanize. E malaxado,
embebido da fluida substância de nossos segredos,
quem sabe a flor que aí se elabora, calcária, sanguínea?

Ah, não viver para contemplá-la! Contudo,
não é longo mentar uma flor, e permitido
correr por cima do estreito rio presente,
construir de bruma nosso arco-íris.

Nossos donos temporais ainda não devassaram
o claro estoque de manhãs
que cada um traz no sangue, no vento.

Passarei a vida entoando uma flor, pois não sei cantar
nem a guerra, nem o amor cruel, nem os ódios organizados,
e olho para os pés dos homens, e cismo.

Escultura de ar, minhas mãos
te modelam nua e abstrata
para o homem que não serei.

Ele talvez compreenda com todo o corpo,
para além da região minúscula do espírito,
a razão de ser, o ímpeto, a confusa
distribuição, em mim, de seda e péssimo.
ii

Nalgum lugar faz-se esse homem…
Contra a vontade dos pais ele nasce,
contra a astúcia da medicina ele cresce,
e ama, contra a amargura da política.

Não lhe convém o débil nome de filho,
pois só a nós mesmos podemos gerar,
e esse nega, sorrindo, a escura fonte.

Irmão lhe chamaria, mas irmão
por quê, se a vida nova
se nutre de outros sais, que não sabemos?

Ele é seu próprio irmão, no dia vasto,
na vasta integração das formas puras,
sublime arrolamento de contrários
enlaçados por fim.

Meu retrato futuro, como te amo,
e mineralmente te pressinto, e sinto
quanto estás longe de nosso vão desenho
e de nossas roucas onomatopeias…


iii

Vejo-te nas ervas pisadas.
O jornal, que aí pousa, mente.

Descubro-te ausente nas esquinas
mais povoadas, e vejo-te incorpóreo,
contudo nítido, sobre o mar oceano.

Chamar-te visão seria
malconhecer as visões
de que é cheio o mundo
e vazio.

Quase posso tocar-te, como às coisas diluculares
que se moldam em nós, e a guarda não captura,
e vingam.

Dissolvendo a cortina de palavras,
tua forma abrange a terra e se desata
à maneira do frio, da chuva, do calor e das lágrimas.

Triste é não ter um verso maior que os literários,
é não compor um verso novo, desorbitado,
para envolver tua efígie lunar, ó quimera
que sobes do chão batido e da relva pobre.
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