Poemas neste tema
Humanidade e Solidariedade
Carlos Drummond de Andrade
Oração da Tarde
Pelas almas,
pelas almas do Purgatório,
rezai a Salve-Rainha
Padre-Nosso, Ave-Maria,
as rezas que decorastes
no tempinho de criança.
Pelas almas,
pelas almas do Purgatório,
atirai vossas migalhas
sobre o vazio da Praça.
Têm fome de Deus as almas
e enquanto o não vão comendo
se consolam com esses restos.
Pelas almas
pelas almas do Purgatório,
desapertai vossas bolsas,
na sacola esfarrapada
quando bate à vossa porta
em nome da eternidade
o aleijado irmão-das-almas.
Pelas pobrinhas das almas.
pelas almas do Purgatório,
rezai a Salve-Rainha
Padre-Nosso, Ave-Maria,
as rezas que decorastes
no tempinho de criança.
Pelas almas,
pelas almas do Purgatório,
atirai vossas migalhas
sobre o vazio da Praça.
Têm fome de Deus as almas
e enquanto o não vão comendo
se consolam com esses restos.
Pelas almas
pelas almas do Purgatório,
desapertai vossas bolsas,
na sacola esfarrapada
quando bate à vossa porta
em nome da eternidade
o aleijado irmão-das-almas.
Pelas pobrinhas das almas.
1 082
Carlos Drummond de Andrade
Nova Rua São José
Cultivando o prazer de andar a pé,
tiro de meus alforjes lexicais
o mais puro louvor a Gildo Borges,
renovador da Rua São José.
Quem ali passa logo se detém,
senta no banco (banco de sentar,
não de pagar imposto e duplicata)
e escuta, embevecido, uma sonata.
De que piano vem, música errante,
se não vejo instrumento musical?
Vem de sentir no ar essa aliança
entre a cidade e a forma natural.
É pedaço de rua, por enquanto,
mas nele se devolve à criatura
o pouso, a paz, a pomba, o pensamento
de existir, existindo com doçura.
Em seus vasos, a múltipla folhagem,
ainda tímida, pede-nos licença
para nos ofertar sua presença
consoladora do monstro-garagem.
A flor, em flor, na rua — que convite
ao passante angustiado: “Para um pouco.
Dez ou quinze minutos de far niente
e voltarás depois ao mundo louco.
Mas voltarás de cuca restaurada,
alma leve, levando na lembrança
um bailado de asas e a dourada
alegria da hora lenta e mansa.
Aqui não te perseguem carro trêfego,
maléfica fumaça, rumor túrbido,
aqui encontrarás paradisíaca
pasárgada de pobre e milionário.
Aqui é teu domínio; aqui és rei
de teu nariz, das nuvens e das aves,
e fruirás o simples estar quieto,
erigindo o relax em tua lei”.
Assim murmura a flor, e corre a brisa,
“Apoiado”, ciciando ao perpassar,
enquanto São José, na sua igreja,
e Tiradentes põem-se a meditar
(pois estátua medita) e os dois reunidos
aprovam Gildo Borges e seu sonho
de tornar a cidade mais humana
e cada ser humano mais humano.
11/08/1973
tiro de meus alforjes lexicais
o mais puro louvor a Gildo Borges,
renovador da Rua São José.
Quem ali passa logo se detém,
senta no banco (banco de sentar,
não de pagar imposto e duplicata)
e escuta, embevecido, uma sonata.
De que piano vem, música errante,
se não vejo instrumento musical?
Vem de sentir no ar essa aliança
entre a cidade e a forma natural.
É pedaço de rua, por enquanto,
mas nele se devolve à criatura
o pouso, a paz, a pomba, o pensamento
de existir, existindo com doçura.
Em seus vasos, a múltipla folhagem,
ainda tímida, pede-nos licença
para nos ofertar sua presença
consoladora do monstro-garagem.
A flor, em flor, na rua — que convite
ao passante angustiado: “Para um pouco.
Dez ou quinze minutos de far niente
e voltarás depois ao mundo louco.
Mas voltarás de cuca restaurada,
alma leve, levando na lembrança
um bailado de asas e a dourada
alegria da hora lenta e mansa.
Aqui não te perseguem carro trêfego,
maléfica fumaça, rumor túrbido,
aqui encontrarás paradisíaca
pasárgada de pobre e milionário.
Aqui é teu domínio; aqui és rei
de teu nariz, das nuvens e das aves,
e fruirás o simples estar quieto,
erigindo o relax em tua lei”.
Assim murmura a flor, e corre a brisa,
“Apoiado”, ciciando ao perpassar,
enquanto São José, na sua igreja,
e Tiradentes põem-se a meditar
(pois estátua medita) e os dois reunidos
aprovam Gildo Borges e seu sonho
de tornar a cidade mais humana
e cada ser humano mais humano.
11/08/1973
1 166
Carlos Drummond de Andrade
As Notícias
E lá se foi aquela extraordinária
Eunice Weaver: cada preventório
para filhos de lázaros proclama,
pelo Brasil inteiro, o seu supremo
dom de servir à vida das crianças.
Já na Gamboa umedecidos lenços
despedem-se… Ficou de Dona Eunice
uma lição de amor, cheia de graça.
Mas andemos. Que tal esses ornatos
de rua, a celebrar os velhos ritos?
Eu acho que o Natal ronda por fora
dos signos natalinos: sua rara
contextura de sonho e de esperança
num Deus garoto abriga-se no esconso
particular da alma; esse, o presépio
mais real, mais tocante; esse, o cardápio
da ceia imaterial, sem mesa posta
e sem badalação, sem jingle e cesta.
Chartres no Russell, toda iluminada?
Tenho a Glória do Outeiro, estou com tudo.
Só me faltam, nas férias dos meninos,
dois elefantes, vastos ou pequenos.
Quando virão? Exige-se vacina,
identidade, visto de aduana,
título de eleitor em Bombaim
e prova de que são bichos de bem.
Oi, meus elefantinhos ofertados
por Indira (?), tão logo repelidos
para a jângal natal: ficai por lá,
que saudoso de vós me quedo aqui.
Não vos desejo pouso na Ilha Grande,
pois muito mais a gosto ficais onde
a um paquiderme não se exige tanto
papelório que a um bípede põe tonto.
A papoula sangrenta, a flor dos hippies,
antes tão alva? A mão pega do lápis,
anotando massacres. Sharon Tate,
My Lai, nosso “Esquadrão”… Matar é um ato
de prazer, como uma extensão do sexo,
um novo haxixe, um fascinante tóxico?
Matar em grosso; nunca um só, apenas.
Aos cinco, aos mil: esporte de bacanos.
Então, por que temer, pergunto, a gripe
A-2 Hong-Kong, no seu doido galope?
O vírus isolar, em honra à vida,
para depois fazê-la espedaçada?
O mundo é dos carrascos? Deus é fábula
esmaecida no pó de um incunábulo?
Ou vamos aprender a ser humanos
— ao menos aprendizes pequeninos?
13/12/1969
Eunice Weaver: cada preventório
para filhos de lázaros proclama,
pelo Brasil inteiro, o seu supremo
dom de servir à vida das crianças.
Já na Gamboa umedecidos lenços
despedem-se… Ficou de Dona Eunice
uma lição de amor, cheia de graça.
Mas andemos. Que tal esses ornatos
de rua, a celebrar os velhos ritos?
Eu acho que o Natal ronda por fora
dos signos natalinos: sua rara
contextura de sonho e de esperança
num Deus garoto abriga-se no esconso
particular da alma; esse, o presépio
mais real, mais tocante; esse, o cardápio
da ceia imaterial, sem mesa posta
e sem badalação, sem jingle e cesta.
Chartres no Russell, toda iluminada?
Tenho a Glória do Outeiro, estou com tudo.
Só me faltam, nas férias dos meninos,
dois elefantes, vastos ou pequenos.
Quando virão? Exige-se vacina,
identidade, visto de aduana,
título de eleitor em Bombaim
e prova de que são bichos de bem.
Oi, meus elefantinhos ofertados
por Indira (?), tão logo repelidos
para a jângal natal: ficai por lá,
que saudoso de vós me quedo aqui.
Não vos desejo pouso na Ilha Grande,
pois muito mais a gosto ficais onde
a um paquiderme não se exige tanto
papelório que a um bípede põe tonto.
A papoula sangrenta, a flor dos hippies,
antes tão alva? A mão pega do lápis,
anotando massacres. Sharon Tate,
My Lai, nosso “Esquadrão”… Matar é um ato
de prazer, como uma extensão do sexo,
um novo haxixe, um fascinante tóxico?
Matar em grosso; nunca um só, apenas.
Aos cinco, aos mil: esporte de bacanos.
Então, por que temer, pergunto, a gripe
A-2 Hong-Kong, no seu doido galope?
O vírus isolar, em honra à vida,
para depois fazê-la espedaçada?
O mundo é dos carrascos? Deus é fábula
esmaecida no pó de um incunábulo?
Ou vamos aprender a ser humanos
— ao menos aprendizes pequeninos?
13/12/1969
864
Carlos Drummond de Andrade
Especulações Em Torno da Palavra Homem
Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?
Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?
Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?
E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta
nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?
Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen
brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes
de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?
Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?
Vale menos, morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem
é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a?
Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?
Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem
consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono
que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?
Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?
Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?
Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas
e são tão engraçadas
as horas do homem?
Mas que coisa é homem?
Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata
com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?
Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?
Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?
E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?
Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?
Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?
Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?
Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?
Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?
Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?
Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?
Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?
E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?
que há sob o nome:
uma geografia?
um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?
Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?
Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?
E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta
nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?
Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen
brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes
de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai
e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?
Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?
Vale menos, morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem
é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a?
Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?
Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem
consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono
que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?
Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?
Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?
Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas
e são tão engraçadas
as horas do homem?
Mas que coisa é homem?
Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata
com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?
Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?
Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?
E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?
Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?
Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?
Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?
Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?
Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?
Como sabe o homem
o que é sua alma
e o que é alma anônima?
Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?
Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?
E sabe o demônio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?
Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?
1 121
Carlos Drummond de Andrade
Cidade Prevista
Guardei-me para a epopeia
que jamais escreverei.
Poetas de Minas Gerais
e bardos do Alto Araguaia,
vagos cantores tupis,
recolhei meu pobre acervo,
alongai meu sentimento.
O que eu escrevi não conta.
O que desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
meus bens, minha inquietação,
fazei o canto ardoroso,
cheio de antigo mistério
mas límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro,
que se ouvirá no Amazonas,
na choça do sertanejo
e no subúrbio carioca,
no mato, na vila X,
no colégio, na oficina,
território de homens livres
que será nosso país
e será pátria de todos.
Irmãos, cantai esse mundo
que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais… não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casas sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
Mas ele será um dia
o país de todo homem.
que jamais escreverei.
Poetas de Minas Gerais
e bardos do Alto Araguaia,
vagos cantores tupis,
recolhei meu pobre acervo,
alongai meu sentimento.
O que eu escrevi não conta.
O que desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
meus bens, minha inquietação,
fazei o canto ardoroso,
cheio de antigo mistério
mas límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro,
que se ouvirá no Amazonas,
na choça do sertanejo
e no subúrbio carioca,
no mato, na vila X,
no colégio, na oficina,
território de homens livres
que será nosso país
e será pátria de todos.
Irmãos, cantai esse mundo
que não verei, mas virá
um dia, dentro em mil anos,
talvez mais… não tenho pressa.
Um mundo enfim ordenado,
uma pátria sem fronteiras,
sem leis e regulamentos,
uma terra sem bandeiras,
sem igrejas nem quartéis,
sem dor, sem febre, sem ouro,
um jeito só de viver,
mas nesse jeito a variedade,
a multiplicidade toda
que há dentro de cada um.
Uma cidade sem portas,
de casas sem armadilha,
um país de riso e glória
como nunca houve nenhum.
Este país não é meu
nem vosso ainda, poetas.
Mas ele será um dia
o país de todo homem.
1 762
Carlos Drummond de Andrade
Uma Hora E Mais Outra
Há uma hora triste
que tu não conheces.
Não é a da tarde
quando se diria
baixar meio grama
na dura balança;
não é a da noite
em que já sem luz
a cabeça cobres
com frio lençol
antecipando outro
mais gelado pano;
e também não é a
do nascer do sol
enquanto enfastiado
assistes ao dia
perseverar no câncer,
no pó, no costume,
no mal dividido
trabalho de muitos;
não a da comida
hora mais grotesca
em que dente de ouro
mastiga pedaços
de besta caçada;
nem a da conversa
com indiferentes
ou com burros de óculos,
gelatina humana,
vontades corruptas,
palavras sem fogo,
lixo tão burguês,
lesmas de blackout
fugindo à verdade
como de um incêndio;
não a do cinema
hora vagabunda
onde se compensa,
rosa em tecnicolor,
a falta de amor,
a falta de amor,
a falta de amor;
nem essa hora flácida
após o desgaste
do corpo entrançado
em outro, tristeza
de ser exaurido
e peito deserto,
nem a pobre hora
da evacuação:
um pouco de ti
desce pelos canos,
oh! adulterado,
assim decomposto,
tanto te repugna,
recusas olhá-lo:
é o pior de ti?
Torna-se a matéria
nobre ou vil conforme
se retém ou passa?
Pois hora mais triste
ainda se afigura;
ei-la, a hora pequena
que desprevenido
te colhe e sozinho
na rua ou no catre
em qualquer república;
já não te revoltas
e nem te lamentas,
tampouco procuras
solução benigna
de cristo ou arsênico,
sem nenhum apoio
no chão ou no espaço,
roídos os livros,
cortadas as pontes,
furados os olhos,
a língua enrolada,
os dedos sem tato,
a mente sem ordem,
sem qualquer motivo
de qualquer ação,
tu vives: apenas,
sem saber por quê,
como, para quê,
tu vives: cadáver,
malogro, tu vives,
rotina, tu vives,
tu vives, mas triste
duma tal tristeza
tão sem água ou carme,
tão ausente, vago,
que pegar quisera
na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes
que existe amanhã?
Então um sorriso
nascera no fundo
de tua miséria
e te destinara
a melhor sentido.
Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.
Venceste o desgosto,
calcaste o indivíduo,
já teu passo avança
em terra diversa.
Teu passo: outros passos
ao lado do teu.
O pisar de botas,
outros nem calçados,
mas todos pisando,
pés no barro, pés
n’água, na folhagem,
pés que marcham muitos,
alguns se desviam
mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados,
fracos, retumbantes,
gravam no chão mole
marcas para sempre:
pois a hora mais bela
surge da mais triste.
que tu não conheces.
Não é a da tarde
quando se diria
baixar meio grama
na dura balança;
não é a da noite
em que já sem luz
a cabeça cobres
com frio lençol
antecipando outro
mais gelado pano;
e também não é a
do nascer do sol
enquanto enfastiado
assistes ao dia
perseverar no câncer,
no pó, no costume,
no mal dividido
trabalho de muitos;
não a da comida
hora mais grotesca
em que dente de ouro
mastiga pedaços
de besta caçada;
nem a da conversa
com indiferentes
ou com burros de óculos,
gelatina humana,
vontades corruptas,
palavras sem fogo,
lixo tão burguês,
lesmas de blackout
fugindo à verdade
como de um incêndio;
não a do cinema
hora vagabunda
onde se compensa,
rosa em tecnicolor,
a falta de amor,
a falta de amor,
a falta de amor;
nem essa hora flácida
após o desgaste
do corpo entrançado
em outro, tristeza
de ser exaurido
e peito deserto,
nem a pobre hora
da evacuação:
um pouco de ti
desce pelos canos,
oh! adulterado,
assim decomposto,
tanto te repugna,
recusas olhá-lo:
é o pior de ti?
Torna-se a matéria
nobre ou vil conforme
se retém ou passa?
Pois hora mais triste
ainda se afigura;
ei-la, a hora pequena
que desprevenido
te colhe e sozinho
na rua ou no catre
em qualquer república;
já não te revoltas
e nem te lamentas,
tampouco procuras
solução benigna
de cristo ou arsênico,
sem nenhum apoio
no chão ou no espaço,
roídos os livros,
cortadas as pontes,
furados os olhos,
a língua enrolada,
os dedos sem tato,
a mente sem ordem,
sem qualquer motivo
de qualquer ação,
tu vives: apenas,
sem saber por quê,
como, para quê,
tu vives: cadáver,
malogro, tu vives,
rotina, tu vives,
tu vives, mas triste
duma tal tristeza
tão sem água ou carme,
tão ausente, vago,
que pegar quisera
na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes
que existe amanhã?
Então um sorriso
nascera no fundo
de tua miséria
e te destinara
a melhor sentido.
Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.
Venceste o desgosto,
calcaste o indivíduo,
já teu passo avança
em terra diversa.
Teu passo: outros passos
ao lado do teu.
O pisar de botas,
outros nem calçados,
mas todos pisando,
pés no barro, pés
n’água, na folhagem,
pés que marcham muitos,
alguns se desviam
mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados,
fracos, retumbantes,
gravam no chão mole
marcas para sempre:
pois a hora mais bela
surge da mais triste.
803
Carlos Drummond de Andrade
Pranto Geral Dos Índios
Chamar-te Maíra
Dyuna Criadorseria mentir
pois os seres e as coisas respiravam antes de ti
mas tão desfolhados em seu abandono
que melhor fora não existissem
As nações erravam em fuga e terror
Vieste e nos encontraste
Eras calmo pequeno determinado
teu gesto paralisou o medo
tua voz nos consolou, era irmã
Protegidos de teu braço nos sentimos
O akangatar mais púrpura e sol te cingiria
mas quiseste apenas nossa fidelidade
Eras um dos nossos voltando à origem
e trazias na mão o fio que fala
e o foste estendendo até o maior segredo da mata
A piranha a cobra a queixada a maleita
não te travavam o passo
militar e suave
Nossas brigas eram separadas
e nossos campos de mandioca marcados
pelo sinal da paz
E dos que se assustavam pendia o punho
fascinado pela força de teu bem-querer
Ó Rondon, trazias contigo o sentimento da terra
Uma terra sempre furtada
pelos que vêm de longe e não sabem
possuí-la
terra cada vez menor
onde o céu se esvazia da caça e o rio é memória
de peixes espavoridos pela dinamite
terra molhada de sangue
e de cinza estercada de lágrimas
e lues
em que o seringueiro o castanheiro o garimpeiro o bugreiro colonial e moderno
celebram festins de extermínio
Não nos deixaste sós quando te foste
Ficou a lembrança, rã pulando n’água
do rio da Dúvida: voltarias?
Amigos que nos despachaste contavam de ti sem luz
antigo, entre pressas e erros, guardando
em ti, no teu amor tornado velho
o que não pode o tempo esfarinhar
e quanto nossa pena te doía
Afinal já regressas. É janeiro
tempo de milho verde. Uma andorinha
um broto de buriti nos anunciam
tua volta completa e sem palavra A coisa amarga
girirebboy circula nosso peito
e karori a libélula pousando
no silêncio de velhos e de novos
é como o fim de todo movimento
A manada dos rios emudece
Um apagar de rastos um sossego
de errantes falas saudosas uma paz
coroada de folhas nos roça
e te beijamos
como se beija a nuvem na tardinha
que vai dormir no rio ensanguentado
Agora dormes
um dormir tão sereno que dormimos
nas pregas de teu sono
Os que restam da glória velha feiticeiros
oleiros cantores bailarinos
estáticos debruçam-se em teu ombro
ron don ron don
repouso de felinos toque lento
de sinos na cidade murmurando
Rondon
Amigo e pai sorrindo na amplidão
Dyuna Criadorseria mentir
pois os seres e as coisas respiravam antes de ti
mas tão desfolhados em seu abandono
que melhor fora não existissem
As nações erravam em fuga e terror
Vieste e nos encontraste
Eras calmo pequeno determinado
teu gesto paralisou o medo
tua voz nos consolou, era irmã
Protegidos de teu braço nos sentimos
O akangatar mais púrpura e sol te cingiria
mas quiseste apenas nossa fidelidade
Eras um dos nossos voltando à origem
e trazias na mão o fio que fala
e o foste estendendo até o maior segredo da mata
A piranha a cobra a queixada a maleita
não te travavam o passo
militar e suave
Nossas brigas eram separadas
e nossos campos de mandioca marcados
pelo sinal da paz
E dos que se assustavam pendia o punho
fascinado pela força de teu bem-querer
Ó Rondon, trazias contigo o sentimento da terra
Uma terra sempre furtada
pelos que vêm de longe e não sabem
possuí-la
terra cada vez menor
onde o céu se esvazia da caça e o rio é memória
de peixes espavoridos pela dinamite
terra molhada de sangue
e de cinza estercada de lágrimas
e lues
em que o seringueiro o castanheiro o garimpeiro o bugreiro colonial e moderno
celebram festins de extermínio
Não nos deixaste sós quando te foste
Ficou a lembrança, rã pulando n’água
do rio da Dúvida: voltarias?
Amigos que nos despachaste contavam de ti sem luz
antigo, entre pressas e erros, guardando
em ti, no teu amor tornado velho
o que não pode o tempo esfarinhar
e quanto nossa pena te doía
Afinal já regressas. É janeiro
tempo de milho verde. Uma andorinha
um broto de buriti nos anunciam
tua volta completa e sem palavra A coisa amarga
girirebboy circula nosso peito
e karori a libélula pousando
no silêncio de velhos e de novos
é como o fim de todo movimento
A manada dos rios emudece
Um apagar de rastos um sossego
de errantes falas saudosas uma paz
coroada de folhas nos roça
e te beijamos
como se beija a nuvem na tardinha
que vai dormir no rio ensanguentado
Agora dormes
um dormir tão sereno que dormimos
nas pregas de teu sono
Os que restam da glória velha feiticeiros
oleiros cantores bailarinos
estáticos debruçam-se em teu ombro
ron don ron don
repouso de felinos toque lento
de sinos na cidade murmurando
Rondon
Amigo e pai sorrindo na amplidão
2 364
António Ramos Rosa
A Minha Pedra Para José Gomes Ferreira
Prólogo
Se houvesse uma pedra
a que eu pudesse chamar pedra
Se não houvesse o cansaço
das pedras
que não são pedras
que são apenas cansaço sem nenhuma pedra
Se tivesse ao menos uma pedra
que faria da pedra?
Que farei desta mão
definitivamente sem a pedra?
Farei o que puder
com a palavra pedra
quer tenha a pedra ou não
E se eu tivesse a pedra
sem o saber
se a pedra pedra ou não
de qualquer modo
fosse essa pedra já
que há tanto tempo habita
a pedra que é desejo
da transparência viva?
A pedra que eu habito
A pedra que eu habito
é um arco
um arco de pedra
Podes chamar-lhe buraco
No buraco
está o arco
do buraco
Queria mais que uma pedra
queria outra pedra
Invento uma pedra
para esta pedra
Invento outro arco
e outro
e outro ainda
Não saio do buraco
Atiro uma pedra
para ser flecha
Mas será flecha?
E será de fogo?
Saio do buraco
vou ao teu encontro
com a minha pedra
É uma pedra mesmo?
Inventada ou não
inventada e não
é a minha pedra
e por isso dou-ta
com o calor da mão
O prodígio é simples
uma pedra apenas
um buraco
um insecto
de súbito foge
Agora é que é teu
Se te dou a pedra
logo a pedra existe
Logo a pedra é pedra
A pedra que encontrei
quando ta quis dar
quando te encontrei
Se uma pedra existe
todo o mundo existe
Se esta pedra é pedra
logo tu existes
Todo o mundo habita
no gesto da mão
que te dá a pedra
Toma então a pedra
meu irmão
Se houvesse uma pedra
a que eu pudesse chamar pedra
Se não houvesse o cansaço
das pedras
que não são pedras
que são apenas cansaço sem nenhuma pedra
Se tivesse ao menos uma pedra
que faria da pedra?
Que farei desta mão
definitivamente sem a pedra?
Farei o que puder
com a palavra pedra
quer tenha a pedra ou não
E se eu tivesse a pedra
sem o saber
se a pedra pedra ou não
de qualquer modo
fosse essa pedra já
que há tanto tempo habita
a pedra que é desejo
da transparência viva?
A pedra que eu habito
A pedra que eu habito
é um arco
um arco de pedra
Podes chamar-lhe buraco
No buraco
está o arco
do buraco
Queria mais que uma pedra
queria outra pedra
Invento uma pedra
para esta pedra
Invento outro arco
e outro
e outro ainda
Não saio do buraco
Atiro uma pedra
para ser flecha
Mas será flecha?
E será de fogo?
Saio do buraco
vou ao teu encontro
com a minha pedra
É uma pedra mesmo?
Inventada ou não
inventada e não
é a minha pedra
e por isso dou-ta
com o calor da mão
O prodígio é simples
uma pedra apenas
um buraco
um insecto
de súbito foge
Agora é que é teu
Se te dou a pedra
logo a pedra existe
Logo a pedra é pedra
A pedra que encontrei
quando ta quis dar
quando te encontrei
Se uma pedra existe
todo o mundo existe
Se esta pedra é pedra
logo tu existes
Todo o mundo habita
no gesto da mão
que te dá a pedra
Toma então a pedra
meu irmão
1 052
António Ramos Rosa
Até Onde Vós Estais
Ó presenças amigas, ó momento
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.
A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.
Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.
Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.
A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.
em que alongo o braço e toco em cheio os rostos.
A minha língua abriu-se para dizer a face
do vento que percorre as vossas vidas.
Estou perante a noite mais profunda,
a delicada noite das raízes: vejo rostos
vejo os sinais e os suores das vossas vidas.
Atravesso árvores submersas, ruas obscuras,
poços de água verde, e vou convosco ter,
minhas faces lívidas, mãe, amigos, amores.
A terra que penetro é este chão de terra
com as raízes feridas, com os ferozes pulsos,
a vertente que desço é uma subida às vossas vidas.
1 019
António Ramos Rosa
Entre Hoje E Amanhã
Somos quantos? Uns e outros
construímos signos nos ventos
As nossas casas comunicam ao nível dos alicerces
A imaginação tem raízes nas mãos
A alegria que por vezes nasce como uma lufada
conhece todas as ranhuras do muro
Os nossos sonhos brilham nas valetas
construímos signos nos ventos
As nossas casas comunicam ao nível dos alicerces
A imaginação tem raízes nas mãos
A alegria que por vezes nasce como uma lufada
conhece todas as ranhuras do muro
Os nossos sonhos brilham nas valetas
959
António Ramos Rosa
No Coração da Neve
No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
1 116
António Ramos Rosa
Da Inocência à Confiança
Da inocência à confiança
da claridade à fidelidade
do sonho à consciência
da beleza à bondade
da poesia ao amor
do amor à verdade
da solidão à harmonia
da angústia à liberdade
todas as cores uniste
num arco-íris fraternal
da claridade à fidelidade
do sonho à consciência
da beleza à bondade
da poesia ao amor
do amor à verdade
da solidão à harmonia
da angústia à liberdade
todas as cores uniste
num arco-íris fraternal
1 113
Edmir Domingues
Soneto quase social
E eu tomei porque noite se fazia
as subnutridas mãos dos meus amigos,
saímos a um país de ventania,
os sentimentos falhos quando antigos.
A nós não nos falassem de perigos
que era inútil que mais por sempre havia,
não valendo dizer quanto a castigos
quando há fome e onde a voz se faz por fria.
Éramos magros como Dom Quixotes
foragidos de livros e dialéticas,
guardando a Lua em bolsos carcomidos.
Qual fazíamos antes meninotes
num tempo de repouso e de patéticas
cantigas que ainda o são junto aos ouvidos.
as subnutridas mãos dos meus amigos,
saímos a um país de ventania,
os sentimentos falhos quando antigos.
A nós não nos falassem de perigos
que era inútil que mais por sempre havia,
não valendo dizer quanto a castigos
quando há fome e onde a voz se faz por fria.
Éramos magros como Dom Quixotes
foragidos de livros e dialéticas,
guardando a Lua em bolsos carcomidos.
Qual fazíamos antes meninotes
num tempo de repouso e de patéticas
cantigas que ainda o são junto aos ouvidos.
550
Edmir Domingues
soneto XVII - De mãos dadas
E por sermos canções jamais cantadas
apesar de amarguras recalcadas,
os mendigos vieram, de mãos dadas,
juntar-se a nós em nossas mascaradas.
E até ser madrugada vinho quente,
rosas vindas do chão de antigamente,
equação de silêncio impenitente
tombada no punhal da voz demente.
Que limpa-chaminés, mendigos, loucos,
conosco dão-se bem nos risos poucos
e nas canções bastante e na tristeza.
Que resta sempre o mundo quase infância,
todo sombra ante o vento da inconstância,
não resistido ao pranto e à natureza.
apesar de amarguras recalcadas,
os mendigos vieram, de mãos dadas,
juntar-se a nós em nossas mascaradas.
E até ser madrugada vinho quente,
rosas vindas do chão de antigamente,
equação de silêncio impenitente
tombada no punhal da voz demente.
Que limpa-chaminés, mendigos, loucos,
conosco dão-se bem nos risos poucos
e nas canções bastante e na tristeza.
Que resta sempre o mundo quase infância,
todo sombra ante o vento da inconstância,
não resistido ao pranto e à natureza.
600
Edmir Domingues
Notificação à propósito da lua
Aos gringos dos States e das Rússias
através do presente notifico:
podeis passar na Lua os pretendidos
week-ends. Mas a Lua me pertence.
E meu bem de raiz há muito tempo,
desde que eu palmilhava incerto passo
nas campinas da infância já remota.
Na dúvida, podeis ir ver se tenho,
ou não, relacionado anualmente
ao Imposto de Renda o meu domínio.
Não me falta, eu vos digo e vos garanto,
o animus possidendi necessário,
e tenho-a registrada com certeza
nos Registros de Imóveis da Galáxia.
Direis o quanto é inútil possuí-la
para ver se desisto. Ao que pergunto:
não venho cultivando há tanto tempo
essa inutilidade, a poesia?
Direis que a Lua é um frígido deserto.
Mas há calor (humano) sobre a Terra?
Direis que não havendo uma atmosfera
não se presta ao cultivo de alimentos.
E eu pergunto em resposta: por acaso
não se morre de fome em nosso mundo?
Eis que vos dou Deimos e Fobos, Ceres,
Tritão, Nereida e Umbriel, Miranda,
e Ariel, e Oberon, Titã, Titânia,
outros bens que possuo registrados.
Lua não. Pois pretendo fique imune
aos progressos da técnica moderna
lembrando à humanidade, a cada dia,
a fome que há na Terra, o quanto é frio
o coração dos homens que a povoam.
através do presente notifico:
podeis passar na Lua os pretendidos
week-ends. Mas a Lua me pertence.
E meu bem de raiz há muito tempo,
desde que eu palmilhava incerto passo
nas campinas da infância já remota.
Na dúvida, podeis ir ver se tenho,
ou não, relacionado anualmente
ao Imposto de Renda o meu domínio.
Não me falta, eu vos digo e vos garanto,
o animus possidendi necessário,
e tenho-a registrada com certeza
nos Registros de Imóveis da Galáxia.
Direis o quanto é inútil possuí-la
para ver se desisto. Ao que pergunto:
não venho cultivando há tanto tempo
essa inutilidade, a poesia?
Direis que a Lua é um frígido deserto.
Mas há calor (humano) sobre a Terra?
Direis que não havendo uma atmosfera
não se presta ao cultivo de alimentos.
E eu pergunto em resposta: por acaso
não se morre de fome em nosso mundo?
Eis que vos dou Deimos e Fobos, Ceres,
Tritão, Nereida e Umbriel, Miranda,
e Ariel, e Oberon, Titã, Titânia,
outros bens que possuo registrados.
Lua não. Pois pretendo fique imune
aos progressos da técnica moderna
lembrando à humanidade, a cada dia,
a fome que há na Terra, o quanto é frio
o coração dos homens que a povoam.
651
Edmir Domingues
À cadelinha navegante do espaço
Acontece que a terra é fria, escura,
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.
Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.
Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.
Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.
Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.
Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.
Mas nunca foste só no teu caminho.
Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.
Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.
Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.
Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.
Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.
Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.
Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.
Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.
Mas nunca foste só no teu caminho.
Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.
Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.
Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
716
Edmir Domingues
O circo
Na meia luz do picadeiro
do nosso circo, antes que cheguem,
os que serão nossa platéia,
nossa penumbra interna pulsa
da sua própria intensidade
por sobre o chão de pó de serra.
Que pensarão aqueles todos
que vão chegar, portando angústia,
da angústia vã dos nossos números?
Nem saberão que nós sabemos
que eles também morrem de angústia,
que são convivas da miséria,
do mesmo modo que nós somos.
E que eles têm, como nós temos,
a sua volta, um outro circo,
de um toldo azul, de azul intenso.
Na corda bamba, dançaremos,
como um prodígio de equilíbrio,
mas todos eles, que nos olham,
na corda bamba também vivem.
Se a nossa veste é a do palhaço
trazendo o riso a nosso circo,
é bom lembrar que também eles
que não se pintam da pintura
que em nossos rostos ostentamos,
por muitas vezes são palhaços
no enorme circo em que pelejam.
Em nosso sangue o pó de serra
geme e soluça, e rasga a carne,
se somos mímicos (ou trágicos...).
Mas quanta vez eles são gesto,
trágico gesto, se lhes calam
a voz, impondo-lhes silêncio.
Nossa libré de domador
será de um circo noutro Circo.
do nosso circo, antes que cheguem,
os que serão nossa platéia,
nossa penumbra interna pulsa
da sua própria intensidade
por sobre o chão de pó de serra.
Que pensarão aqueles todos
que vão chegar, portando angústia,
da angústia vã dos nossos números?
Nem saberão que nós sabemos
que eles também morrem de angústia,
que são convivas da miséria,
do mesmo modo que nós somos.
E que eles têm, como nós temos,
a sua volta, um outro circo,
de um toldo azul, de azul intenso.
Na corda bamba, dançaremos,
como um prodígio de equilíbrio,
mas todos eles, que nos olham,
na corda bamba também vivem.
Se a nossa veste é a do palhaço
trazendo o riso a nosso circo,
é bom lembrar que também eles
que não se pintam da pintura
que em nossos rostos ostentamos,
por muitas vezes são palhaços
no enorme circo em que pelejam.
Em nosso sangue o pó de serra
geme e soluça, e rasga a carne,
se somos mímicos (ou trágicos...).
Mas quanta vez eles são gesto,
trágico gesto, se lhes calam
a voz, impondo-lhes silêncio.
Nossa libré de domador
será de um circo noutro Circo.
1 606
Edmir Domingues
Coroa de sete sonetos
I
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
Quando em veste de luz tu me visitas
o mundo se lumina em dia claro.
Os aromas da Paz sem desamparo
nas nossas lanças prendem brancas fitas.
O Destino é de todos, sendo raro
haja algum fugitivo das desditas,
alimento da vida, de infinitas
sem-razões do avatar e seu enfaro.
As psécadas não cuidam dos cabelos
que enfeitam nossa fronte, as duvidosas
convicções de, no brilho, sempre tê-los.
Tudo passa. Não há senão lembrança
de uma estrada de rosas amorosas,
a flor, a mais bonita, em tua trança.
II
A flor, a mais bonita, em tua trança,
e um jogo que se joga em meio a mágoas.
Mesmo eu que vim da paz de claras águas
nada mais sou que um Poço na lembrança.
Um poço fundo e escuro, junto à mansa
revolta recalcada. Mágoas trago-as
ao calor da fornalha destas fráguas,
onde conserto o barco da Esperança.
Um belo barco, o mastro do traquete,
a bujarrona enorme, a vela grande,
o pequenino e rubro galhardete.
Para uma viagem vã, vazia em suma,
que nos leva, ou ao tempo do desande,
ou de lugar nenhum a parte alguma.
III
Ou de lugar nenhum a parte alguma,
o roteiro do nada para o nada,
antes de sermos vida, essa traçada
destinação, para onde o barco ruma.
Destinação da negra e incerta bruma
irrecusável e imutável, dada
como destino certo, à irrevelada
adivinha sutil tal como pluma.
Não podia ser outro esse costume?
Que levantasse aos céus o pensamento
explodido na altura, em vivo lume?
Indulto concedido ao pobre preso
por (Quem criou e impôs no seu intento
o castigo da angústia do desprezo.
IV
O castigo da angústia do desprezo,
castigo dos castigos, o alto custo
da punição no leito de Procusto,
no fogo dos Infernos, sempre aceso.
Mesmo que não se tenha nunca o vezo
de merecer um dia um nobre busto
em praça verde, o reino desse arbusto
que reguei de água e amor, reza que rezo,
para que seja armado Cavaleiro
do Castelo do Sonho, o meu anseio
para o serviço à dama da bondade.
Mas já não há mais justa nem torneio
de elegância, onde a regra de um arqueiro
era o honesto, e era a glória a seriedade.
V
Era o honesto, e era a glória a seriedade
nos países de antanho, do Passado.
Hoje tudo mudou, e o Coroado
é quem edificou a sua herdade
deixando os seus escrúpulos de lado
e lançou-se à aventura, imune à grade
da improvável prisão, se não lhe invade
a alma o pudor já morto e ultrapassado.
No entanto existem seres de outras eras
que se nutrem de antigas primaveras,
que se escondem do Agora e seus enganos.
Que existem para o bem que não existe,
ermitãos das cavernas, rindo à triste
convivência de humanos e Inumanos.
VI
Convivência de humanos e inumanos,
horrível realidade a desta vida
nova, quando é somente consentida
a audácia. O carreirismo e os seus afanos.
O mundo se finou, na irrefletida
ânsia do dia a dia, que ano a ano
recrudesce no açodamento insano
que conduz tudo e todo na descida.
É difícil se crer na insanidade
incorporada ao Campo e à Cidade
dotando-lhes do mal da hipertrofia.
Resta que o mundo acabe num gemido,
como disse o Poeta. E faz sentido.
Porque nem sempre o Amor a cada dia.
VII
Por que nem sempre o Amor a cada dia?
Cada hora, minuto, a cada instante,
os olhares olhando para vante
entre os coros dos Anjos da Harmonia?
Por que a morte dos risos, o levante
do tornado, o tufão que rodopia,
os temas da violência, desvalia
da vida que se esvai na rota errante?
Na díade ideal que sempre fomos
um mais um eram tudo. Na unidade
da laranja fechada nos seus gomos.
No mistério das coisas infinitas
corroem-se os ciclopes da maldade
quando em veste de luz tu me visitas.
290
Ruy Belo
No tumulo de sardanapalo
Umas dezenas de anos boa idade
para se reformar da vida um homem
e à terra devolver a responsável cara
com que os outros por fora o viam dia a dia
e onde a espaços reviam as próprias mas passadas alegrias
Cara levantada ou caída coitada condoída
excessivamente olhada e tão difícil de esconder
por brilhos e por sombras alternadamente percorrida
cara em que o sonho chegou talvez alguma vez a ter
a insubsistente forma de mulher
cara dos olhos finalmente firmes feitos terra
e plenamente disponíveis para olhar
quando enfim decisivamente olhar valer a pena
e os olhos estiverem em qualquer lugar
Vem uma vaga música da vida
problemátique mer des alentours
viemos tarde e a poesia é velha
Audaciosas serras entre nós projectam grandes sombras
e multiplica o mar múltiplas ondas
Orientam-se os olhos para antigos portos
e bate o coração em direcção à mais remota pátria dos agudos ventos
mas crescem-nos uns pés pesados sobre a terra,
ao nascimento e morte da redonda aurora mais sujeitos
do que todos aqueles a quem a desolada deusa se afeiçoa
Alexandre venceu Dario e depois todos os reis da terra e o mundo emudeceu
que tinha de morrer
“Como terá usado o morto as meias?”
“Viandante, come e bebe e goza a vida”
“Julgámos que era eterno mas morreu”
E nós comprámos o jornal já nem o lemos
porque grande só era a mínima notícia que da morte nos viera
Expusemos vagamente entre paredes
Faibles projects d’un coeur trop plein de ce qu’il aime
e ninguém chora agora na empresa de o lembrar
Num negócio de morte recrutados
nem nos seria lícito pousar
na palavra inventada a cabeça cansada
Há um choro para a morte e um choro para a vida
quem julga estar de pé olhe não caia
Algum país ruiu algum país
ou folha ou casa ou alegria havia
Se não amas o Deus que tu não vês
como hás-de – pois o vês – amar o homem teu irmão?
Factores verbi simus non auditores tantum
Nunca ceder à incisiva operação dos membros
não mastigar jamais o junco original
na cor azul de pássaros do céu
voltar a contemplar as coisas como novas
delimitar perfeitamente o riso oposto ao tempo
ou isolar a face unicamente imperecível
repudiar a fácil metáfora mulher
(não convém ao poeta menos solidão)
ir e voltar na mão que nos prolonga
o próprio olhar deixar desaguar no olhar alheio como um veio de água
entrar no tempo como quem é devorado
vestir todo o temor que pode haver num homem
comprometer na morte a mais erecta posição
e olhá-la de frente sem voltar a coisa alguma as costas
lá nas terras pequenas onde o homem morre mais
- eis alguns ou nenhuns dos gestos que anunciam
a presença entre nós do servo inútil
Somos de longe e temos de voltar,
Levine, antes de a noite vir
A única circuncisão é a do coração
Oh! como é inatingível a brancura da toalha
e quantas vezes nela não limpámos já algumas mãos
das muitas que tivemos na primeira comunhão
e na mera administração dos dias demorámos
Não há tempo ou lugar onde habitar
Os que com a tormenta se perderam, quanto a esses não mais foram
nem vistos nem achados entre nós de pé
Também o verão passou por Dom Afonso Henriques
e em suas mãos os dias e os cuidados conviveram
E alguém disse: “É deste sol que sou aqui é que nasci
eu sou da terra e falo-vos da terra
quando a noite vier sabereis que morri”
É à chuva e ao sol que se tomam é fácil achar quem
renegue Deus ainda nas segundas gerações
A nova primavera traz-nos no regaço a ave mas
Verborum vetus interit aetas
e a palavra, essa, não voltará mais
Não nos morreu ninguém e ficamos mais sós
e a gora é impossível regressar
Todos os males contigo nos vieram, poesia,
Afasta-te de nós até melhores dias
E deixa ver o que por trás da poesia está
Ó manhãs de domingo estradas para a vida aragem nos cabelos
garagem que se abre alguém na rua
A vida estava toda nesse olhar
capaz de orientar os hesitantes passos dos melhores do nosso povo
agora que o perdeste aonde irás?
ó clandestino seguidor de Deus?
Por amor deste século cantar
Não há mais folha ou casa ou alegria onde habitar
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 113 a 115 | Círculo de Leitores, Dez 2000
para se reformar da vida um homem
e à terra devolver a responsável cara
com que os outros por fora o viam dia a dia
e onde a espaços reviam as próprias mas passadas alegrias
Cara levantada ou caída coitada condoída
excessivamente olhada e tão difícil de esconder
por brilhos e por sombras alternadamente percorrida
cara em que o sonho chegou talvez alguma vez a ter
a insubsistente forma de mulher
cara dos olhos finalmente firmes feitos terra
e plenamente disponíveis para olhar
quando enfim decisivamente olhar valer a pena
e os olhos estiverem em qualquer lugar
Vem uma vaga música da vida
problemátique mer des alentours
viemos tarde e a poesia é velha
Audaciosas serras entre nós projectam grandes sombras
e multiplica o mar múltiplas ondas
Orientam-se os olhos para antigos portos
e bate o coração em direcção à mais remota pátria dos agudos ventos
mas crescem-nos uns pés pesados sobre a terra,
ao nascimento e morte da redonda aurora mais sujeitos
do que todos aqueles a quem a desolada deusa se afeiçoa
Alexandre venceu Dario e depois todos os reis da terra e o mundo emudeceu
que tinha de morrer
“Como terá usado o morto as meias?”
“Viandante, come e bebe e goza a vida”
“Julgámos que era eterno mas morreu”
E nós comprámos o jornal já nem o lemos
porque grande só era a mínima notícia que da morte nos viera
Expusemos vagamente entre paredes
Faibles projects d’un coeur trop plein de ce qu’il aime
e ninguém chora agora na empresa de o lembrar
Num negócio de morte recrutados
nem nos seria lícito pousar
na palavra inventada a cabeça cansada
Há um choro para a morte e um choro para a vida
quem julga estar de pé olhe não caia
Algum país ruiu algum país
ou folha ou casa ou alegria havia
Se não amas o Deus que tu não vês
como hás-de – pois o vês – amar o homem teu irmão?
Factores verbi simus non auditores tantum
Nunca ceder à incisiva operação dos membros
não mastigar jamais o junco original
na cor azul de pássaros do céu
voltar a contemplar as coisas como novas
delimitar perfeitamente o riso oposto ao tempo
ou isolar a face unicamente imperecível
repudiar a fácil metáfora mulher
(não convém ao poeta menos solidão)
ir e voltar na mão que nos prolonga
o próprio olhar deixar desaguar no olhar alheio como um veio de água
entrar no tempo como quem é devorado
vestir todo o temor que pode haver num homem
comprometer na morte a mais erecta posição
e olhá-la de frente sem voltar a coisa alguma as costas
lá nas terras pequenas onde o homem morre mais
- eis alguns ou nenhuns dos gestos que anunciam
a presença entre nós do servo inútil
Somos de longe e temos de voltar,
Levine, antes de a noite vir
A única circuncisão é a do coração
Oh! como é inatingível a brancura da toalha
e quantas vezes nela não limpámos já algumas mãos
das muitas que tivemos na primeira comunhão
e na mera administração dos dias demorámos
Não há tempo ou lugar onde habitar
Os que com a tormenta se perderam, quanto a esses não mais foram
nem vistos nem achados entre nós de pé
Também o verão passou por Dom Afonso Henriques
e em suas mãos os dias e os cuidados conviveram
E alguém disse: “É deste sol que sou aqui é que nasci
eu sou da terra e falo-vos da terra
quando a noite vier sabereis que morri”
É à chuva e ao sol que se tomam é fácil achar quem
renegue Deus ainda nas segundas gerações
A nova primavera traz-nos no regaço a ave mas
Verborum vetus interit aetas
e a palavra, essa, não voltará mais
Não nos morreu ninguém e ficamos mais sós
e a gora é impossível regressar
Todos os males contigo nos vieram, poesia,
Afasta-te de nós até melhores dias
E deixa ver o que por trás da poesia está
Ó manhãs de domingo estradas para a vida aragem nos cabelos
garagem que se abre alguém na rua
A vida estava toda nesse olhar
capaz de orientar os hesitantes passos dos melhores do nosso povo
agora que o perdeste aonde irás?
ó clandestino seguidor de Deus?
Por amor deste século cantar
Não há mais folha ou casa ou alegria onde habitar
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 113 a 115 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 329
Martha Medeiros
O anel que tu me deste
Aconteceu em 2005. Eu estava almoçando com uma amiga na cidade onde ela mora, fora do Brasil. Era a segunda vez que nos víamos. Os contatos anteriores haviam sido sempre por e-mail, nos quais tratávamos de assuntos profissionais. De repente, olhei para sua mão e fiz um elogio ao anel lindíssimo que ela usava. Ato contínuo, ela retirou o anel e me deu. "É seu." Fiquei superconstrangida, não era essa minha intenção, queria apenas elogiar, mas ela me convenceu a ficar com ele, dizendo que ela mesma fazia aqueles anéis e que poderia fazer outro igualzinho. De fato, fez. Acabaram virando nossas "alianças": desde então nossa amizade só cresceu.
Meses atrás, Marilia Gabriela entrevistou Ivete Sangalo em seu programa no GNT quando aconteceu uma cena idêntica. Ela elogiou o anel da cantora e esta, na mesma hora, tirou-o do dedo e deu de presente a Gabi, que ficou envergonhada, não estava ali para ganhar presentes e sim para trabalhar. Mas tanto Ivete insistiu, e com tanto carinho, que recusar seria deselegância, e lá se foi o anel da morena para a mão da loira.
Nesta era de acúmulo, egoísmo e posse, gestos de desapego são raros e transformam um dia banal em um dia especial. Não é comum alguém retirar do próprio corpo algo que deve gostar muito - ou não estaria usando - e dar de presente, numa reação espontânea de afeto. Pessoas assim fazem isso por nada, aparentemente, mas, na verdade, fazem por tudo. Por gostarem realmente da pessoa com quem estão. Por generosidade. Para exercitarem seu senso de oportunidade. Pelo prazer de surpreender. Por saberem que certas atitudes falam mais do que palavras. E por terem a exata noção de que um anel, ou qualquer outro bem material, pode ser substituído, mas um momento de extasiar um amigo é coisa que não vale perder.
Estou falando desse assunto não porque eu também seja uma desprendida. Bem pelo contrário. Já me desfiz de muita coisa, mas me desfaço com planejamento, pensando antes. Assim, de supetão, por impulso, raramente. Meu único mérito é reconhecer a grandeza alheia, coisa que também está em desuso, pois sei de muita gente que, ao ver gestos como o de Ivete e o da minha amiga, diria apenas: que trouxas.
Devo estar me transformando numa sentimentalóide, mas o fato é que acredito que esses pequenos instantes de delicadeza merecem um holofote, já que andamos todos muito rudes e autofocados. Desfazer-se dos seus bens para fazer o bem é uma coisa meio franciscana, mas não se pode negar que um pouco de desapego torna qualquer relação mais fácil. E não falo só de bens materiais. Desapego das mágoas, desapego da inveja, desapego das próprias verdades para ouvir atentamente a dos outros. Não seria um mundo melhor?
Bom, o anel que minha amiga me deu seguirá no meu dedo, nem adianta vir elogiá-lo pra ver se o truque funciona. Faz parte da minha história pessoal. Mas posso me desprender de outras coisas das quais gosto, basta que eu saiba que serão mais bem aproveitadas por outras pessoas. É com esse espírito de compartilhamento que encerro essa crônica desejando a todos os leitores um Natal com muitos presentes - mas no sentido de presença. Que na sua lista de chamada afetiva estejam todos ao seu lado, brindando o que lhes for mais importante: seja o nascimento de Jesus, ou a reunião familiar, ou apenas mais uma noite festiva de dezembro, ou um momento de paz entre tanto espanto, ou simplesmente a sensação de que uma inesperada gentileza pode ser o melhor pacotinho embaixo da nossa árvore.
Meses atrás, Marilia Gabriela entrevistou Ivete Sangalo em seu programa no GNT quando aconteceu uma cena idêntica. Ela elogiou o anel da cantora e esta, na mesma hora, tirou-o do dedo e deu de presente a Gabi, que ficou envergonhada, não estava ali para ganhar presentes e sim para trabalhar. Mas tanto Ivete insistiu, e com tanto carinho, que recusar seria deselegância, e lá se foi o anel da morena para a mão da loira.
Nesta era de acúmulo, egoísmo e posse, gestos de desapego são raros e transformam um dia banal em um dia especial. Não é comum alguém retirar do próprio corpo algo que deve gostar muito - ou não estaria usando - e dar de presente, numa reação espontânea de afeto. Pessoas assim fazem isso por nada, aparentemente, mas, na verdade, fazem por tudo. Por gostarem realmente da pessoa com quem estão. Por generosidade. Para exercitarem seu senso de oportunidade. Pelo prazer de surpreender. Por saberem que certas atitudes falam mais do que palavras. E por terem a exata noção de que um anel, ou qualquer outro bem material, pode ser substituído, mas um momento de extasiar um amigo é coisa que não vale perder.
Estou falando desse assunto não porque eu também seja uma desprendida. Bem pelo contrário. Já me desfiz de muita coisa, mas me desfaço com planejamento, pensando antes. Assim, de supetão, por impulso, raramente. Meu único mérito é reconhecer a grandeza alheia, coisa que também está em desuso, pois sei de muita gente que, ao ver gestos como o de Ivete e o da minha amiga, diria apenas: que trouxas.
Devo estar me transformando numa sentimentalóide, mas o fato é que acredito que esses pequenos instantes de delicadeza merecem um holofote, já que andamos todos muito rudes e autofocados. Desfazer-se dos seus bens para fazer o bem é uma coisa meio franciscana, mas não se pode negar que um pouco de desapego torna qualquer relação mais fácil. E não falo só de bens materiais. Desapego das mágoas, desapego da inveja, desapego das próprias verdades para ouvir atentamente a dos outros. Não seria um mundo melhor?
Bom, o anel que minha amiga me deu seguirá no meu dedo, nem adianta vir elogiá-lo pra ver se o truque funciona. Faz parte da minha história pessoal. Mas posso me desprender de outras coisas das quais gosto, basta que eu saiba que serão mais bem aproveitadas por outras pessoas. É com esse espírito de compartilhamento que encerro essa crônica desejando a todos os leitores um Natal com muitos presentes - mas no sentido de presença. Que na sua lista de chamada afetiva estejam todos ao seu lado, brindando o que lhes for mais importante: seja o nascimento de Jesus, ou a reunião familiar, ou apenas mais uma noite festiva de dezembro, ou um momento de paz entre tanto espanto, ou simplesmente a sensação de que uma inesperada gentileza pode ser o melhor pacotinho embaixo da nossa árvore.
1 354
Ruy Belo
Tempora nubila
Chove há muito no mundo sobre o homem
Empurram-no as ondas como horas para a praia da manhã
lá onde a ponta mais ocidental dos dedos já percorre
as mais agrestes árvores do sonho
O homem nada sabe sem queimar os pés no fogo
As luzes brilham cedo certos anos o Natal não vem
e é opinião comum de todos os doutores
que a culpa pode ser secreta e primitiva
pois a ninguém cabe servir a dois
muito menos a mais e mesmo muito mais que dois senhores
Morremos todos da maneira mais mortal possível
mas todas as crianças se conhecem e reconhecem
na praia que talvez – quem sabe? – alguma outra praia encubra
Essa é na verdade a mais pequena de todas as sementes
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha,
ó tecelão de outonos nos cabelos
Em teus intensos braços onde em certos dias
o puro cheiro do lilás ascende
e os toldados lírios outra vez almejam
e abrem no bosque sempre outras estradas
e rompem as raízes das mais brancas flores,
nesses teus braços desmedidamente abertos
na mesa onde se cruza a vária luz das horas
e sõ tão económicas as nossas ambições
que não vão muito além das mil evoluções das moscas,
nesses braços os únicos capazes
de nos fazer sair da nossa pobre situação
deponho finalmente o que o que dos dias me viera
Ó homem verdadeiramente unânime, ó incapaz de astúcia,
perdoa eu não ser mais do que um homem
e cruzo o guarda-chuva atrás das costas
Pela variedade de todas estas faces obrigado
Por ti há tantos séculos morremos
és para perseguir sem encontrar
para exaltar onde caíste mais
Às flores imóveis vou no vento irrequieto
e regresso a um rosto onde nunca estou
mas passou entretanto tanto tempo
que quando à minha mesa volto não sou já quem dela se ausentou
Deixa-me cultivar o dia apenas o meu dia
doméstico modesto ameaçado ajardinado
e só depois então depois morrer
com toda a atenção que o gosto principal requer
Havia árvores talvez ciprestes nos teus sonhos
prometeste-me o rio solidão submersa
a quem – se me não queres – irei?
Eu peço o teu passado para a minha história
e ergo contra ti todo o meu rosto
o verde é meu mas é teu o vermelho
e escondes-te no côncavo da pedra
Mas o mais doloroso é ser eu eu próprio
e tudo me ocorrer precisamente a mim
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai
todo eu fui calcado como o feno
e esqueci-me mesmo de comer o pão
Decerto é impossível o antigo adro e mesmo o mais recente cedro
e a alma é como as águas vastamente entregues a si próprias
que inocentes se agitam que crescem e que matam
e alheias a si mesmas tudo cobrem
e multiplicam lisas mãos na já serena superfície
Ainda distingo vagamente os anos mas
a onda molha já os meus primeiros pés
Chegou o tempo de chorar Sião
non amplius memoretur nomen eius
São imensos os olhos que no mundo cansam
o vento restitui-me a ida para a escola
há uma grande morte só a Deus devida
E o sol o grande ausente dos meus dedos
Por vezes é inverno ou canta em nós
a esteira de perfume o cargo oficial a madrugada
aberta para o mundo. Noutro oásis (ou montanha)
levanta já a tenda o viandante
(não seriam de mais mesmo três tendas)
E o assunto é de morte é de morte que eu falo
Extremamente discretos são os mortos
que já nenhuma chuva ousa molhar
Que fácil para eles é ter vivido
Por exemplo morreu
mais um vizinho meu
casado e até feliz
um novo nome inútil na lista telefónica
E nada mais já pode acontecer
àquele a quem a morte veio
os vários e domésticos problemas resolver
Ele tinha
o caminho contado
como as crianças
Vestia camisola pisou terra mas morreu
sem conseguir nadar correctamente o crawl
sem tempo de dizer sequer a frase célebre
tão insignificante o viram ingressar na morte
Ah, eu não sei
a posição agora desse homem
que morreu mais aqui que noutro lado
sei apenas que nos olhos com que via nunca houve
imagem que os enchesse e os bebesse tanto como agora
Morreu e habita hoje entre o seu povo
Mas aonde se nunca mais é visto
contra este mesmo persistente céu que nos esmaga a fronte?
Ele morreu começo a acreditar na morte nessa morte
que tão perto de mim e tão mortal se deu
Também tu hás-de ser a secretária abandonada
mãos inertes tarefa interrompida
Então virão lá das origens visitar-te serão três serão três mil
Tu tens porém ainda de comprar a grande jóia
precisas ter na mão um pau (de giz)
precisas de servir as plantas pagar alguma quota
e seres – como passou? – muito feliz
É preciso consolar a actriz
é preciso morrer
oxalá não te vás esquecer
de tudo isto que tens que fazer
Licenciado conceituado benemérito
excelência reverência senhoria
pai de filhos ou marido e mulher
entre esta terra estes homens estas árvores
já despes vestes que envergaste um dia
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 115 a 118 | Círculo de Leitores, Dez 2000
Empurram-no as ondas como horas para a praia da manhã
lá onde a ponta mais ocidental dos dedos já percorre
as mais agrestes árvores do sonho
O homem nada sabe sem queimar os pés no fogo
As luzes brilham cedo certos anos o Natal não vem
e é opinião comum de todos os doutores
que a culpa pode ser secreta e primitiva
pois a ninguém cabe servir a dois
muito menos a mais e mesmo muito mais que dois senhores
Morremos todos da maneira mais mortal possível
mas todas as crianças se conhecem e reconhecem
na praia que talvez – quem sabe? – alguma outra praia encubra
Essa é na verdade a mais pequena de todas as sementes
Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha,
ó tecelão de outonos nos cabelos
Em teus intensos braços onde em certos dias
o puro cheiro do lilás ascende
e os toldados lírios outra vez almejam
e abrem no bosque sempre outras estradas
e rompem as raízes das mais brancas flores,
nesses teus braços desmedidamente abertos
na mesa onde se cruza a vária luz das horas
e sõ tão económicas as nossas ambições
que não vão muito além das mil evoluções das moscas,
nesses braços os únicos capazes
de nos fazer sair da nossa pobre situação
deponho finalmente o que o que dos dias me viera
Ó homem verdadeiramente unânime, ó incapaz de astúcia,
perdoa eu não ser mais do que um homem
e cruzo o guarda-chuva atrás das costas
Pela variedade de todas estas faces obrigado
Por ti há tantos séculos morremos
és para perseguir sem encontrar
para exaltar onde caíste mais
Às flores imóveis vou no vento irrequieto
e regresso a um rosto onde nunca estou
mas passou entretanto tanto tempo
que quando à minha mesa volto não sou já quem dela se ausentou
Deixa-me cultivar o dia apenas o meu dia
doméstico modesto ameaçado ajardinado
e só depois então depois morrer
com toda a atenção que o gosto principal requer
Havia árvores talvez ciprestes nos teus sonhos
prometeste-me o rio solidão submersa
a quem – se me não queres – irei?
Eu peço o teu passado para a minha história
e ergo contra ti todo o meu rosto
o verde é meu mas é teu o vermelho
e escondes-te no côncavo da pedra
Mas o mais doloroso é ser eu eu próprio
e tudo me ocorrer precisamente a mim
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai
todo eu fui calcado como o feno
e esqueci-me mesmo de comer o pão
Decerto é impossível o antigo adro e mesmo o mais recente cedro
e a alma é como as águas vastamente entregues a si próprias
que inocentes se agitam que crescem e que matam
e alheias a si mesmas tudo cobrem
e multiplicam lisas mãos na já serena superfície
Ainda distingo vagamente os anos mas
a onda molha já os meus primeiros pés
Chegou o tempo de chorar Sião
non amplius memoretur nomen eius
São imensos os olhos que no mundo cansam
o vento restitui-me a ida para a escola
há uma grande morte só a Deus devida
E o sol o grande ausente dos meus dedos
Por vezes é inverno ou canta em nós
a esteira de perfume o cargo oficial a madrugada
aberta para o mundo. Noutro oásis (ou montanha)
levanta já a tenda o viandante
(não seriam de mais mesmo três tendas)
E o assunto é de morte é de morte que eu falo
Extremamente discretos são os mortos
que já nenhuma chuva ousa molhar
Que fácil para eles é ter vivido
Por exemplo morreu
mais um vizinho meu
casado e até feliz
um novo nome inútil na lista telefónica
E nada mais já pode acontecer
àquele a quem a morte veio
os vários e domésticos problemas resolver
Ele tinha
o caminho contado
como as crianças
Vestia camisola pisou terra mas morreu
sem conseguir nadar correctamente o crawl
sem tempo de dizer sequer a frase célebre
tão insignificante o viram ingressar na morte
Ah, eu não sei
a posição agora desse homem
que morreu mais aqui que noutro lado
sei apenas que nos olhos com que via nunca houve
imagem que os enchesse e os bebesse tanto como agora
Morreu e habita hoje entre o seu povo
Mas aonde se nunca mais é visto
contra este mesmo persistente céu que nos esmaga a fronte?
Ele morreu começo a acreditar na morte nessa morte
que tão perto de mim e tão mortal se deu
Também tu hás-de ser a secretária abandonada
mãos inertes tarefa interrompida
Então virão lá das origens visitar-te serão três serão três mil
Tu tens porém ainda de comprar a grande jóia
precisas ter na mão um pau (de giz)
precisas de servir as plantas pagar alguma quota
e seres – como passou? – muito feliz
É preciso consolar a actriz
é preciso morrer
oxalá não te vás esquecer
de tudo isto que tens que fazer
Licenciado conceituado benemérito
excelência reverência senhoria
pai de filhos ou marido e mulher
entre esta terra estes homens estas árvores
já despes vestes que envergaste um dia
Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 115 a 118 | Círculo de Leitores, Dez 2000
1 310
Ruy Belo
Rua do Sol a Sant'Ana
Entretanto, num ano, na cidade em construção
que dos gestos emerge num cessar de mãos
e é confiada à noite pelo dia
numa assembleia de olhos temporariamente mortos
e trabalhada ao lume e ao relento
para poder então ser transmitida ao sol mais próximo do dia
no princípio das ruas devassadas pelo vento
através das profanas novidades de palavras
da floresta dos braços pertencentes à imensa multidão
e de muitos corações condescendentes
coleccionadores de meigos sentimentos
entre cartas que vão de mão em mão em alegre comércio
lá onde a vida multiplica a paisagem
e a natureza aceita muda humanos movimentos
sob altos céus propícios mas distantes
aí precisamente aí os santos são crucificados lentamente longas tardes]
e há quem consiga vê-los através dos vários rostos
que nos risos avultam ou nas ruas ou nos rios
exactamente quando o telefone afere a força de uma voz
a par dos gestos estritamente necessários
da dignidade da mulher no parto
dos pequeninos e apeninos passos que se dão dentro de casa
Porém nenhum rasto desiste ou renasce distante
ou talvez nalgum reino isto seja importante
Este é o tempo das grandes descobertas
se soubermos seguir os preciosos passos dos turistas
o sacristão sagaz que sabe o sítio de minúsculos objectos
respeitáveis senhoras que transpiram leque e caridade
Não é tão agradável ser católico
saber se nos havemos de sentar ou levantar
quem condenar quem absolver com magnanimidade
entre quem com que cuidados ratear a culpa pelo mais tímido gesto]
ou como converter à nossa imaculada vida Deus?
Quase tão agradável como no inverno introduzir os pés frios na cama]
e ouvir pela manhã resfolegar o caterpillar número seis
e acordar os funcionários do sindicato em frente
Tão modestos subsídios para uma rudimentar teoria do envenenamento]
Nascemos e morremos e é sempre o mesmo sol lá fora
Inúmeras possibilidades há nesta ou em qualquer manhã
Há consultas marcadas nos dentistas
há saltos que se prendem nas calçadas
orçamentos familiares prédios de rendimento óculos de publicidade]
e calças que já vão ficando curtas
Importantes assuntos passam nas agendas de ano para ano
e muitas outras coisas fazem as pessoas infelizes
Há vários subsecretários sem emprego
uma mulher depois um ministério assim a vida inteira
o que é preciso é termos qualquer coisa
Consta que há uns generais suicidando-se
e outros as memórias publicando
um singular olhar que se perdeu durante a conferência
e a nespereira tão intensamente seca num quintal
e o mar inacessível impossível de saudar
e não amarmos Cristo de maneira inalterável
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo por tudo e designadamente]
por um olho vazado por esta minha mão que nunca mais conheço
pelo que há de matinal na voz da vendedeira de jornais
É bom saber que há revolução lá longe
recebê-la ainda quente das máquinas dos dedos
para tudo morrer na boca que se abre (de sono ou no dentista)
Lavam de inúmeras questões as mãos os mais prudentes
imerecidamente vão secando flores
e os filhos protegendo os braços nus das mães
que por mais um verão os mostrarão ainda
Das casas das melhores famílias da cidade
sobe ao cair da tarde o complexo perfume
das orações transpirações dejectos
É no entanto de notar o nobilíssimo costume
segundo o qual as mulheres não vão à guerra
E apesar disso luta-se à entrada da cidade
e há a considerar os êxitos contemporâneos
e a imbecil camaradagem dos colegas de repartição
e o mal que por trás das nossas persistentes caras
depositamos nos vizinhos alicerces
Somos vistos por fora temos corpos
resgatam-se os chapéus nos restaurantes
a tarde cola-se viscosamente à pele
e nem os bons chefes de família sabem já a conta certa
de todos os domingos vindos pelas persianas
e das vozes insólitas às portas do sol-pôr
Pelas janelas já os edifícios como que nos fitam
diminuem na arca os cobertores
e vão as últimas crianças demorando a voz
naquela eternidade azul que a hora lhes concede
antes do sono sobre os mais humanos pensamentos
Ensinam-nos os velhos a não temer a noite
e o amor dá-nos os braços com que vamos
a quanto amamos (mais que ao que animamos)
Mais débil veste basta que cruzar a tarde
el polvo roba el dia y le escurece
e nasce o fruto mais insólito nos lábios
quando algumas cidades conhecidas (e até desconhecidas) se nos cruzam na memória]
e as farmácias começam a fazer negócio
e crescem muitas vezes nalgum pátio assustadoras vozes
e descem das montanhas elefantes brancos todos os rebanhos
e partem por nós dentro todos os caminhos
e a noite enfuna as árvores de vento
e unge em suas assombrosas mãos o corpo da cidade
esmaga-lhe a boca arquiva-lhe os cabelos
mata-lhe os olhos dá-lhe nas esquinas cotovelos
precisamente porque há um caminho para o mar
e em certos gestos nascem coisas muito grandes
e é dia lá onde o olhar dos loucos abre
Levanto-me dos olhos para o meu poema
regulo o vento evito-lhe as esquinas
e levemente o levo pela mão à noite
e dou-lhe a calculada dose em minha provisória morte
Levantam-se nas casas todas as mulheres
as menos belas olham as mais belas
as da Jónia passeiam levemente nuas
as de Tarso veladas e Paulo morto há pouco
E a esperança, quando o sol afasta as nuvens
com róseos dedos sobre Esparta ou a arenosa Pilos,
que o tempo para sempre haja mudado
E houve uma tarde e uma manhã primeiro último dia
Ó homens há séculos erguidos e caídos
magnanimi heroes nati melioribus annis
vindos no lombo dos meses menos habitáveis
de hirtas mãos abertas entre a vida
talvez vos não receba o coração
de uma grande cidade em construção
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 73 a 76 | Editorial Presença Lda., 1984
que dos gestos emerge num cessar de mãos
e é confiada à noite pelo dia
numa assembleia de olhos temporariamente mortos
e trabalhada ao lume e ao relento
para poder então ser transmitida ao sol mais próximo do dia
no princípio das ruas devassadas pelo vento
através das profanas novidades de palavras
da floresta dos braços pertencentes à imensa multidão
e de muitos corações condescendentes
coleccionadores de meigos sentimentos
entre cartas que vão de mão em mão em alegre comércio
lá onde a vida multiplica a paisagem
e a natureza aceita muda humanos movimentos
sob altos céus propícios mas distantes
aí precisamente aí os santos são crucificados lentamente longas tardes]
e há quem consiga vê-los através dos vários rostos
que nos risos avultam ou nas ruas ou nos rios
exactamente quando o telefone afere a força de uma voz
a par dos gestos estritamente necessários
da dignidade da mulher no parto
dos pequeninos e apeninos passos que se dão dentro de casa
Porém nenhum rasto desiste ou renasce distante
ou talvez nalgum reino isto seja importante
Este é o tempo das grandes descobertas
se soubermos seguir os preciosos passos dos turistas
o sacristão sagaz que sabe o sítio de minúsculos objectos
respeitáveis senhoras que transpiram leque e caridade
Não é tão agradável ser católico
saber se nos havemos de sentar ou levantar
quem condenar quem absolver com magnanimidade
entre quem com que cuidados ratear a culpa pelo mais tímido gesto]
ou como converter à nossa imaculada vida Deus?
Quase tão agradável como no inverno introduzir os pés frios na cama]
e ouvir pela manhã resfolegar o caterpillar número seis
e acordar os funcionários do sindicato em frente
Tão modestos subsídios para uma rudimentar teoria do envenenamento]
Nascemos e morremos e é sempre o mesmo sol lá fora
Inúmeras possibilidades há nesta ou em qualquer manhã
Há consultas marcadas nos dentistas
há saltos que se prendem nas calçadas
orçamentos familiares prédios de rendimento óculos de publicidade]
e calças que já vão ficando curtas
Importantes assuntos passam nas agendas de ano para ano
e muitas outras coisas fazem as pessoas infelizes
Há vários subsecretários sem emprego
uma mulher depois um ministério assim a vida inteira
o que é preciso é termos qualquer coisa
Consta que há uns generais suicidando-se
e outros as memórias publicando
um singular olhar que se perdeu durante a conferência
e a nespereira tão intensamente seca num quintal
e o mar inacessível impossível de saudar
e não amarmos Cristo de maneira inalterável
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo por tudo e designadamente]
por um olho vazado por esta minha mão que nunca mais conheço
pelo que há de matinal na voz da vendedeira de jornais
É bom saber que há revolução lá longe
recebê-la ainda quente das máquinas dos dedos
para tudo morrer na boca que se abre (de sono ou no dentista)
Lavam de inúmeras questões as mãos os mais prudentes
imerecidamente vão secando flores
e os filhos protegendo os braços nus das mães
que por mais um verão os mostrarão ainda
Das casas das melhores famílias da cidade
sobe ao cair da tarde o complexo perfume
das orações transpirações dejectos
É no entanto de notar o nobilíssimo costume
segundo o qual as mulheres não vão à guerra
E apesar disso luta-se à entrada da cidade
e há a considerar os êxitos contemporâneos
e a imbecil camaradagem dos colegas de repartição
e o mal que por trás das nossas persistentes caras
depositamos nos vizinhos alicerces
Somos vistos por fora temos corpos
resgatam-se os chapéus nos restaurantes
a tarde cola-se viscosamente à pele
e nem os bons chefes de família sabem já a conta certa
de todos os domingos vindos pelas persianas
e das vozes insólitas às portas do sol-pôr
Pelas janelas já os edifícios como que nos fitam
diminuem na arca os cobertores
e vão as últimas crianças demorando a voz
naquela eternidade azul que a hora lhes concede
antes do sono sobre os mais humanos pensamentos
Ensinam-nos os velhos a não temer a noite
e o amor dá-nos os braços com que vamos
a quanto amamos (mais que ao que animamos)
Mais débil veste basta que cruzar a tarde
el polvo roba el dia y le escurece
e nasce o fruto mais insólito nos lábios
quando algumas cidades conhecidas (e até desconhecidas) se nos cruzam na memória]
e as farmácias começam a fazer negócio
e crescem muitas vezes nalgum pátio assustadoras vozes
e descem das montanhas elefantes brancos todos os rebanhos
e partem por nós dentro todos os caminhos
e a noite enfuna as árvores de vento
e unge em suas assombrosas mãos o corpo da cidade
esmaga-lhe a boca arquiva-lhe os cabelos
mata-lhe os olhos dá-lhe nas esquinas cotovelos
precisamente porque há um caminho para o mar
e em certos gestos nascem coisas muito grandes
e é dia lá onde o olhar dos loucos abre
Levanto-me dos olhos para o meu poema
regulo o vento evito-lhe as esquinas
e levemente o levo pela mão à noite
e dou-lhe a calculada dose em minha provisória morte
Levantam-se nas casas todas as mulheres
as menos belas olham as mais belas
as da Jónia passeiam levemente nuas
as de Tarso veladas e Paulo morto há pouco
E a esperança, quando o sol afasta as nuvens
com róseos dedos sobre Esparta ou a arenosa Pilos,
que o tempo para sempre haja mudado
E houve uma tarde e uma manhã primeiro último dia
Ó homens há séculos erguidos e caídos
magnanimi heroes nati melioribus annis
vindos no lombo dos meses menos habitáveis
de hirtas mãos abertas entre a vida
talvez vos não receba o coração
de uma grande cidade em construção
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 73 a 76 | Editorial Presença Lda., 1984
1 959
Ruy Belo
No aniversário da libertação de Paris
O dissídio das trevas começara
Se figuras reais o tempo a sombras reduziu
não menos marca em faces vivas imprimiu
esparsas nas prisões entre a floresta negra e o mar báltico
A noite ao recuar como pela vazante o mar
deixou de pé impávidas na fímbria do dia
hirtas nas respectivas estaturas
as mulheres obscuras e escuras de corrèze
senhoras absolutas do silêncio
sobre os sombrios túmulos dos seus concidadãos
despertos na alsácia para a vida ali bebida
por esse chão francês onde nascemos todos nós
Se somos homens é porque temos voz
e através dos campos somos conduzidos
pelos cães que na noite erguem os seus latidos
Os maquis portadores de simbólicas bandeiras
arrastam-se debaixo de árvores rasteiras
pois a gestapo só nas gigantescas árvores
se digna demorar a principesca vista
A mais altiva divisão do fúhrer
blindada e couraçada numa espessa muralha de ferro
vê o caminho para a normandia
cerrar-se nas calosas mãos dos camponeses
mãos feitas para o pão e para a paz
mãos medida do homem não da máquina
Devassa a névoa dos vosges e o muro vegetal da alsácia
o canto cúmplice daqueles renitentes resistentes
talvez dali a nada forte mensageiro de morte
Porém já a ninguém a morte importa
mas sim o cativeiro vida mitigada
morte maior miúda e adiada
E a lágrima londrina de moulin
amigo da república espanhola
prefeito expulso pelos homens de vichy
proprietário apenas da palavra liberdade
a lágrima daquele a quem malraux chamou carnot da resistência
e o nazi barbie boliviano naturalizado
cobardemente acaba de dizer que hardy atraiçoou
essa lágrima nasce na incisiva e seca fala de de gaulle
e traz consigo a altivez e decisão
de um povo inteiro em pé por trás daquela face
sulcada pela lágrima caudal dos rios de um país
O inveterado laico que do sótão de um ignoto presbitério
fez chegar até londres sua voz sacramental
o pobre rei das sombras massacrado
condecorado já com uma cicatriz
incisa por si próprio uns três anos antes
junto às cordas vocais onde podia a sua voz
vibrar sob a tortura silencia para sempre
os sons articulados o único ferro
capaz de assinalar um homem livre
É no forte montluc de lião
que já sem fala imprime no papel que lhe apresentam a
fisionomia do verdugo que há-de executá-lo
O seu silêncio vela essas mulheres que velam pelos mortos
os maquis que rastejam sob os ramos de carrasco
as oito mil mulheres mortas nas masmorras alemãs
a última francesa assassinada em ravensbriick
por haver albergado um resistente
A ele chefe sem rosto desse exército da noite
desse povo de sombras que só ele iluminou
só a morte lhe deu um nome verdadeiramente seu
Mais do que libertar paris a resistência
restitui ao país a sua consciência
e as pétalas de flor que a multidão espargia
nos carros apagavam logo o pó da normandia
E os que por heróis em escravos se encontravam transformados
chegados mesmo ao cúmulo das dores
a própria morte olharam como vencedores
Sobre a luz da cidade tanto tempo extinta
sobre a cidade tanto tempo muda
os sinos são a voz da liberdade
difundida através do céu do verão e da cidade
E tu ó homem livre de qualquer país
podes ainda hoje ouvir esse dobrar do sino
e gravar no teu peito o que te diz:
temos nas nossas mãos o leme do destino
Nós os irmãos professos da ordem da noite
devolvemos a voz ao povo emudecido
pela ignorância forma extrema e eleita de opressão
Na sala de bilhares da estação de montparnasse
o general von choltitz após a rendição
desce no seu o olhar vencido do exército alemão
diante desse jovem general francês
que apenas diz: «Eu sou o general leclerc»
Era uma vez o tempo fugaz foge
Foi já há duas ou três décadas foi hoje
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 48 a 50 | Editorial Presença Lda., 1981
Se figuras reais o tempo a sombras reduziu
não menos marca em faces vivas imprimiu
esparsas nas prisões entre a floresta negra e o mar báltico
A noite ao recuar como pela vazante o mar
deixou de pé impávidas na fímbria do dia
hirtas nas respectivas estaturas
as mulheres obscuras e escuras de corrèze
senhoras absolutas do silêncio
sobre os sombrios túmulos dos seus concidadãos
despertos na alsácia para a vida ali bebida
por esse chão francês onde nascemos todos nós
Se somos homens é porque temos voz
e através dos campos somos conduzidos
pelos cães que na noite erguem os seus latidos
Os maquis portadores de simbólicas bandeiras
arrastam-se debaixo de árvores rasteiras
pois a gestapo só nas gigantescas árvores
se digna demorar a principesca vista
A mais altiva divisão do fúhrer
blindada e couraçada numa espessa muralha de ferro
vê o caminho para a normandia
cerrar-se nas calosas mãos dos camponeses
mãos feitas para o pão e para a paz
mãos medida do homem não da máquina
Devassa a névoa dos vosges e o muro vegetal da alsácia
o canto cúmplice daqueles renitentes resistentes
talvez dali a nada forte mensageiro de morte
Porém já a ninguém a morte importa
mas sim o cativeiro vida mitigada
morte maior miúda e adiada
E a lágrima londrina de moulin
amigo da república espanhola
prefeito expulso pelos homens de vichy
proprietário apenas da palavra liberdade
a lágrima daquele a quem malraux chamou carnot da resistência
e o nazi barbie boliviano naturalizado
cobardemente acaba de dizer que hardy atraiçoou
essa lágrima nasce na incisiva e seca fala de de gaulle
e traz consigo a altivez e decisão
de um povo inteiro em pé por trás daquela face
sulcada pela lágrima caudal dos rios de um país
O inveterado laico que do sótão de um ignoto presbitério
fez chegar até londres sua voz sacramental
o pobre rei das sombras massacrado
condecorado já com uma cicatriz
incisa por si próprio uns três anos antes
junto às cordas vocais onde podia a sua voz
vibrar sob a tortura silencia para sempre
os sons articulados o único ferro
capaz de assinalar um homem livre
É no forte montluc de lião
que já sem fala imprime no papel que lhe apresentam a
fisionomia do verdugo que há-de executá-lo
O seu silêncio vela essas mulheres que velam pelos mortos
os maquis que rastejam sob os ramos de carrasco
as oito mil mulheres mortas nas masmorras alemãs
a última francesa assassinada em ravensbriick
por haver albergado um resistente
A ele chefe sem rosto desse exército da noite
desse povo de sombras que só ele iluminou
só a morte lhe deu um nome verdadeiramente seu
Mais do que libertar paris a resistência
restitui ao país a sua consciência
e as pétalas de flor que a multidão espargia
nos carros apagavam logo o pó da normandia
E os que por heróis em escravos se encontravam transformados
chegados mesmo ao cúmulo das dores
a própria morte olharam como vencedores
Sobre a luz da cidade tanto tempo extinta
sobre a cidade tanto tempo muda
os sinos são a voz da liberdade
difundida através do céu do verão e da cidade
E tu ó homem livre de qualquer país
podes ainda hoje ouvir esse dobrar do sino
e gravar no teu peito o que te diz:
temos nas nossas mãos o leme do destino
Nós os irmãos professos da ordem da noite
devolvemos a voz ao povo emudecido
pela ignorância forma extrema e eleita de opressão
Na sala de bilhares da estação de montparnasse
o general von choltitz após a rendição
desce no seu o olhar vencido do exército alemão
diante desse jovem general francês
que apenas diz: «Eu sou o general leclerc»
Era uma vez o tempo fugaz foge
Foi já há duas ou três décadas foi hoje
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 48 a 50 | Editorial Presença Lda., 1981
1 001
Susana Thénon
Razão de minha Voz
Por que são muitos e sofrem,
por que estamos conscientes de longínquos gritos
ou sabemos que há silêncio
em uma esquina da cidade
ou porque salta de um livro e nos fala
o menino que morreu afogado.
Por que agora sem dúvida um homem pede socorro
e uma mulher se joga de sua janela escura
e quatro crianças respondem perguntas
em um quarto imenso
enquanto a uma boneca falta o braço e alvo.
por que estamos conscientes de longínquos gritos
ou sabemos que há silêncio
em uma esquina da cidade
ou porque salta de um livro e nos fala
o menino que morreu afogado.
Por que agora sem dúvida um homem pede socorro
e uma mulher se joga de sua janela escura
e quatro crianças respondem perguntas
em um quarto imenso
enquanto a uma boneca falta o braço e alvo.
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